Outros dizem que a industria do fabrico do bronze sería uma sequencia

natural e necessaria de factos anteriores, e que povos differentes e

incommunicaveis se elevariam, progressivamente e sem extranho auxilio,

do fabrico da pedra lascada ao da pedra polida, d’este ao do cobre, e

finalmente ao do bronze, bem como do fabrico do bronze passariam da

mesma sorte por uma evolução necessaria ao fabrico do ferro. Causas

intrinsecas ou extrinsecas reduziriam em certos povos a pequeno

espaço de tempo a duração da epoca do cobre, que por tanto deixaria

de si poucos ou nenhuns vestigios. Esta hypothese com quanto seduza a

imaginação pela simplicidade, e por se basear na lei do progressivo

aperfeiçoamento da industria humana, parece todavia não ser conforme

aos factos. Ninguem duvida da similhança e até da identidade dos

objectos de bronze, encontrados nas mais distantes e nas mais varias

das regiões da Europa[141]. Ora tal similhança ou identidade seriam

impossiveis, se cada povo tivesse inventado por si mesmo o cobre, o

estanho e a liga d’estes dois metaes.

Além d’isto, será certo, ou ao menos provavel, que os povos da Europa

chegassem por si sós e sem extranho auxilio á invenção dos metaes? Se

n’alguns paizes se admitte a invenção indigena do cobre ou do ferro, na

maior parte não se tem verificado este facto. Affirma Lenormant que os

pretos da Africa central e meridional não conheceram nunca o bronze,

e até, pela maior parte, não fabricam o cobre. Em compensação, têem

dado ao fabrico do ferro certo desenvolvimento, e por meio de processos

proprios que não receberam de extranhos. Chegaram pois espontaneamente

a descobrir o ferro, e passaram do uso exclusivo da pedra ao d’este

metal, sem a phase intermedia do cobre ou do bronze. Os esquimaus, não

sahidos ainda da idade da pedra, ignoram os processos de fundir os

metaes, mas fabricam certos utensilios de ferro, percutindo com pedras

o meteorico, e sem o fazer passar pela fusão[142]. Se aquelles mesmos

processos de fundir o ferro não foram ensinados aos africanos por algum

povo asiatico, o que parece mais provavel, o facto é excepcional. Na

maior parte dos casos verifica-se a iniciação. Citaremos apenas o

exemplo dos mexicanos, que os hespanhoes foram encontrar n’um subido

grau de civilisação, porém dentro dos limites da epoca do bronze.

Durante milhares de annos não souberam inventar meios de buscar,

extrahir e fabricar o ferro.

A primeira hypothese, ou a da iniciação dos europeus pelos orientaes,

particularisou Nilsson, attribuindo aos phenicios a introducção do

bronze na Europa. Antes de examinar esta hypothese, applicada á Europa

em geral, e mais em particular á Peninsula, importa-nos saber que

objectos aqui se têem encontrado, para assentar sobre fundamentos menos

duvidosos essa discussão importante.

Primeiro que tudo convém saber que os srs. Vilanova e Tubino insistem

n’uma circumstancia que têem por indubitavel--na escassez dos objectos

de bronze em Hespanha, compensada pela grande abundancia dos de cobre.

Por isso propõe o sr. Tubino a subdivisão da epoca neolithica em dois

periodos: o mesolithico e o do cobre[143]. Para bem esclarecer este

ponto importante, importa examinar se: 1.º Haveria na peninsula Iberica

uma epoca do cobre? 2.º Coincidiriam essa epoca e a da pedra polida?

3.º Substituiria a epoca do bronze? a existencia da epoca do cobre.

Quando se descobriu a America, os povos

Prova-se por analogia a possibilidade de qualquer d’estes factos. Ainda

hoje selvagens d’Africa fabricam cobre e ferro e ignoram o processo de

fazer bronze. Outros da America septemtrional apenas sabem fabricar

armas de pedra e de cobre. Na opinião de Rougemont, os proprios

egypcios tiveram a sua epoca do cobre, correspondente ás dynastias

IV, V e VI, quatro mil e quinhentos annos antes de Christo, á qual

epoca se seguiu a do bronze nas dynastias immediatas[144]. Mas pode-se

ainda restringir a analogia e dar-lhe maior força. Em certas regiões

abundantes de minas cupricas verifica-se das regiões septemtrionaes

estavam n’essa phase da civilisação. Nas circumvisinhanças do lago

Superior se conservam hoje os vestigios da exploração de enormes

quantidades de minerio de cobre. O sr. Whittesley calcula que esses

vestigios occuparão na parte meridional do lago uma extensão de cem

a cento e cincoenta milhas; e que as arvores que cobrem alguns terão

mais de tres seculos de existencia[145]. Na Asia, da região media do

Jenessei até ao Amur para a parte de leste, e para a parte de oeste

até ao Oural, ha grande numero de tumulos, de minas abandonadas e de

fornos em ruinas. Pelas madeiras petrificadas se conhece a sua grande

antiguidade. Está tambem provado que os tchoudes exploraram estas

minas de cobre antes de conhecerem o estanho, e que antes da epoca do

bronze tiveram portanto a sua epoca do cobre. As mesmas duas epocas se

conhecem facilmente na Hungria e na Transylvania, onde existem ruinas

antigas inteiramente eguaes ás dos tchoudes do Oural e da Siberia[146].

Ora, a peninsula Iberica, pela abundancia do cobre, pela antiguidade

das minas d’este metal, está em condições analogas ou ás da Hungria

e da Transylvania, ou ás da vasta região habitada pelos tchoudes.

Não custa portanto admittir que o grande numero de objectos de cobre

achados na Peninsula provam a existencia de uma epoca do cobre, da

qual os povos ibericos mais tarde se elevariam á do bronze, quando o

commercio lhes fornecesse o estanho necessario para ligar com o cobre.

Dando como demonstrada a epoca do cobre, passaremos agora a examinar

a segunda questão: se coincidiria com a epoca da pedra polida? Em

primeiro logar notaremos a incompatibilidade da coincidencia. Se um

povo qualquer fabríca e usa instrumentos de metal, como se ha de

considerar esse povo na idade da pedra? Não comprehendemos pois que se

possa admittir na epoca da pedra polida um periodo do cobre, se não

fôr para significar que os peninsulares estariam já n’esse periodo, em

quanto os outros povos da Europa estariam no anterior. Mas quem ignora

a impossibilidade do synchronismo das varias phases industriaes em

toda a Europa? As expressões _epoca da pedra lascada_, _epoca da pedra

polida_, _epoca do bronze_, _epoca do ferro_ não significam de modo

nenhum condições communs a todos os povos, porém tão sómente a um povo

ou a alguns povos. Quando portanto fallarmos da epoca da pedra polida

ou da epoca do cobre da Peninsula, não podemos referir-nos senão a esta

parte da Europa.

Talvez para a mencionada tentativa da penetração da idade da pedra

pela idade dos metaes influisse a circumstancia de se terem encontrado

martellos de pedra em minas prehistoricas de cobre, como são as do

Milagro nas Asturias, de Cerro Muriano em Cordova e de Ruy Gomes

no Alemtejo. Mas o uso dos instrumentos de cada epoca não termina

com ella, prolonga-se de ordinario pelas immediatas. Apparecem com

frequencia em tumulos da epoca do bronze armas de pedra, e nos da

epoca do ferro armas de pedra e de bronze. N’este caso particular das

minas de cobre o facto observado na Peninsula não é unico. N’aquelles

que já mencionámos do lago Superior apparecem tambem martellos de

pedra[147]. No Egypto usavam de certos utensilios de pedra, alguns por

extremo grosseiros, juntamente com os de metal, nos mais florescentes

dos periodos da civilisação, e até em tempos que não vão ainda longe.

Com instrumentos de pedra exploravam os egypcios as minas de cobre

da peninsula de Sinai; com os mesmos instrumentos trabalhavam nas

pedreiros de granito de Syène, etc.[148]. Certos povos da raça negra

fabricam enxadas superiores áquellas que a Inglaterra quer enviar-lhes

de Sheffield, servindo-se de uma forja rudimental, constando apenas de

uma bigorna de grés, um martello de silex e um folle, feito com um vaso

de barro tapado com uma pelle movel[149].

Resta-nos agora examinar o ultimo ponto: se a epoca do cobre

substituiria na Peninsula a epoca do bronze? O proprio sr. Tubino, que

é quem mais propende para esta idêa, enumerando os objectos metallicos,

encontrados em Andaluzia, Extremadura e Portugal, falla dos de cobre e

dos de bronze de tal modo que ninguem saberá dizer ao certo quaes serão

em maior numero[150]. Nem outra cousa se conclue da enumeração que pela

sua parte faz o sr. Vilanova[151]. O sr. D. José Villa-amil y Castro

menciona espadas, punhaes e pontas de frechas descobertos na Galiza,

todos de bronze e nenhum de cobre[152].

De Portugal ninguem tambem dirá que os objectos de cobre até hoje

encontrados sejam muitos mais que os de bronze. No Alemtejo apparecem,

é verdade, em maior numero os instrumentos de cobre; mas acham-se

tambem n’esta provincia muitos de bronze com as fórmas dos typos

correspondentes de outras partes. Dos de cobre asseveram os fundidores

de Evora haverem observado no tempo em que os fundiam, (porque não

eram ainda procurados pelos collectores) que lançavam um cheiro forte

e suffocante, quando os sujeitavam no cadinho á acção do fogo. Este

facto prova a impureza do cobre de que taes objectos eram fabricados,

e explica-se talvez pela imperfeição dos processos empregados para a

extracção, que deixariam uma porção de enxofre combinada com o metal.

Repetimos porém, que os objectos de bronze não são tão raros que

acreditem a hypothese da existencia de uma epoca de cobre tão notavel

e tão prolongada que deixasse no escuro a do bronze, como pretendem

alguns dos auctores hespanhoes. As collecções de objectos prehistoricos

do Museu da Escola Polytechnica de Lisboa e da Bibliotheca de Evora

contêem objectos de bronze em maior numero que os de cobre. A collecção

do sr. Gabriel Pereira, pelo contrario, tem mais objectos de cobre; mas

esta collecção consta principalmente de machados muito singelos, que

são os mais communs e, pela maior parte de cobre. Para se avaliar a

superabundancia d’estes instrumentos, relativamente aos outros da mesma

epoca, bastará dizer que a mencionada collecção consta de dezesete

objectos, dos quaes quinze são dos machados ou cunhas de cobre mais

communs, e dois de bronze: convém a saber um machado com azelhas (fig.

64) e a espada (fig. 71). Note-se tambem que sómente no Alemtejo, e nas

regiões meridionaes d’esta provincia consta apparecer tamanho numero

de machados de cobre. Haverá alguma relação entre este facto e a mina

prehistorica de Ruy Gomes na mesma provincia?

[Illustração: Fig. 63

Fig. 64.

MACHADOS DE COBRE E DE BRONZE DO ALEMTEJO.]

Para se servirem d’estes instrumentos, rachavam na parte superior os

cabos de pau, e mettiam os machados nas fendas, ligando-os fortemente

com cordas ou corrêas. Dos machados mais singelos com fórma de cunhas

têem-se encontrado tambem na Hespanha, bem como dos outros com

cavidades para os cabos e com azas ou sem ellas. Porém, segundo affirma

o sr. Villa-amil, em contrario do que no Alemtejo acontece, os machados

lisos, á maneira de cunhas, seriam em Hespanha menos communs que os

outros. O escriptor citado achou em castros da Galiza pontas de lança

(_cuspis_) tanto de bronze como de ferro[153].

A fig. 64 representa um machado de bronze, encontrado no Alemtejo. Mas,

como já dissemos, este typo, parecido ao _scalprum fabrile_, é raro em

comparação do typo que a fig. 63 representa o mais commum de todos.

[Illustração: Fig. 65

PONTA DE FRECHA DE COBRE DA CASA DA MOURA.]

Entre os numerosos objectos, encontrados nas cavernas de Cesareda, não

appareceu nenhum de metal, excepto uma ponta de frecha de cobre[154].

Este achado bastará para referir aquella estação prehistorica á idade

dos metaes? As explorações até hoje feitas em Hespanha e Portugal

auctorisam-nos a reportar á epoca da pedra polida os habitantes das

cavernas. Todavia o achar-se a frecha de cobre a quatro metros de

profundidade, quasi sobre o manto stalagmitico, parece excluir a

possibilidade de ter ali ficado em epoca posterior á habitação da

caverna. Por outra parte, os objectos, achados no mesmo logar, e

particularmente a massa de calcareo claviforme lavrada n’uma das faces,

e a placa de schisto com ornatos triangulares estão indicando com a

possivel certeza a epoca d’aquella estação prehistorica. Deve ter sido

frequentada no tempo dos dolmens de Bellas e de Pavia e da Sepultura de

Martim Affonso, de Muge. Ora, esta epoca marca a transição da idade de

pedra para a dos metaes.

[Illustração: Fig. 66

Fig. 67

FACA E SERROTE DA FONTE DA RUPTURA.]

Seria porventura contemporanea a estação prehistorica da Fonte da

Ruptura de Setubal, onde appareceram uma faca e um serrote que se

conservam no Museu da Escola Polytechnica. Porém estão de tal sorte

incrustados que é impossivel dizer se serão de cobre ou de bronze.

Advirta-se porém que em certas estações ficaram sotopostos os

vestigios de varias epocas, por terem sido habitadas successivamente

por muitas gerações e talvez até por differentes raças. E quando

no acto da exploração se não registram cuidadosamente todos os

indicios, todas as relações de posição dos objectos entre si e com

os materiaes integrantes do deposito, torna-se depois impossivel

descobrir a verdade. A Memoria do sr. Delgado offerece-nos todos esses

esclarecimentos ácerca das cavernas de Cesareda, mas relativamente

á Fonte da Ruptura ignoram-se as circumstancias da exploração e da

localidade.

Na Bibliotheca de Evora guardam-se seis ou sete espadas de cobre,

achadas em varios sitios da diocese de Beja por D. fr. Manuel

do Cenaculo. Fundidores de Evora affirmam terem fundido outras

similhantes, o que prova não serem raras nas terras transtaganas.

Julgou-as o descobridor feitas de bronze, porém com os objectos de

cobre é que ellas têem mais analogia nas suas propriedades physicas

(fig. 68, 69 e 70).

Estas espadas não têem gumes; serviam portanto para ferir de ponta.

Outra circumstancia notavel é serem inteiriças, isto é, cada uma

d’ellas formada de uma só peça, e sem articulação dos punhos e copos

com a folha, quando as armas d’este genero, já durante a epoca de

bronze, eram geralmente articuladas. Esta mesma circumstancia se

observa n’outras espadas ou punhaes de cobre ou de bronze, achados no

Alemtejo, os quaes são tambem inteiriços ou formados de uma só folha

metallica, afeiçoada á força de trabalho com instrumentos cortantes

e contundentes (fig. 71). Porém outros objectos da mesma epoca foram

fundidos. Têem-se encontrado na Irlanda e na Sardenha alguns dos moldes

que serviram para este fim.

O sr. D. José Villa-amil y Castro descreve um punhal de bronze, achado

na Galiza, de mui differente feitio, e muito mais complicado[155].

A folha não é lisa, mas coberta de riscas muito finas, unidas e

parallelas entre si e aos bordos, cuja direcção recta ou curva

approximadamente seguem. O punho tem a fórma d’aquelles que chamam de

antennas. Mas o que ha mais notavel n’esta arma de bronze é ter o punho

furado para entrar n’elle a espiga da folha. Não ha vestigios de ter

sido repregada ou fixada por virola ou por outro meio. Pelo contrario

a espiga entra no punho e sahe muito á larga, e conserva signaes do

attrito que soffreria n’estes movimentos. O sr. Villa-amil suppõe que

esta arma curiosa serviria aos sacerdotes nos sacrificios, e que o

mesmo individuo poderia ferir differentes victimas com o mesmo punho,

substituindo a folha para cada victima. Mas o mais que se póde concluir

é que n’este e n’outros similhantes punhaes se substituiria uma folha

por outra, quando a primeira estivesse gasta, o que em pouco tempo

aconteceria, em razão da pouca dureza do bronze (fig. 72).

[Illustração: Fig. 69

Fig. 70

Fig. 68

Fig. 71

ESPADAS DE COBRE E DE BRONZE DO ALENTEJO.]

[Illustração: Fig. 72

PUNHAL DE BRONZE DA GALIZA.]

Algumas armas de bronze com os caracteres das armas prehistoricas

têem apparecido em sepulturas juntamente com objectos romanos. Houve

pois uma penetração de certos costumes da epoca do bronze pelas

epocas subsequentes. O fragmento de um punhal de ferro (Fig. 73),

achado na Galiza, e muito similhante á parte correspondente do punhal

de bronze, encontrado na mesma provincia e representado na fig. 72,

prova a coincidencia do uso de armas e instrumentos de ambos os metaes

n’aquella provincia. Prova ainda que os mais perfeitos dos objectos de

bronze não terão grande antiguidade.

[Illustração: Fig. 73

FRAGMENTO DE UM PUNHAL DE FERRO, ACHADO NA GALIZA.]

As armas de cobre e bronze, espadas e punhaes, achadas na Peninsula,

bem como aquellas que têem apparecido n’outras partes da Europa,

parece haverem sido usadas por uma raça de estatura baixa e de mãos

extremamente pequenas. Em quanto os punhos das actuaes têem sete ou

oito centimetros, os das armas de cobre ou de bronze medem apenas

quatro ou cinco centimetros. Na Asia ainda hoje ha povos que se

distinguem por terem mãos tão pequenas que os punhos das suas armas

são como os das nossas armas prehistoricas. As lendas dos anões e dos

gnomos, vulgares em tantos paizes, recordam ainda hoje os homens de

pequena estatura da epoca do cobre ou do bronze. Segundo essas lendas,

os anões habitavam as cavernas, d’onde sahiam sómente pela calada da

noite. Os camponezes das circumvisinhanças vinham depositar pães junto

das bocas das cavernas em troca dos instrumentos de metal que os anões

fabricavam. Outros povos attribuem á propria Divindade os caracteres

dos anões fundidores de metaes; e representam o Demiurgos, o auctor

dos mundos, como um homunculo disforme e grotesco. Outros finalmente

conservam as tradições de pygmeus que gigantes teriam vencido. Em tudo

isto consideram os archeologos outras tantas provas da existencia de

uma raça de estatura pequena, que outra mais forte haveria vencido e

substituido em varias regiões da Europa.

Conservam-se tambem na bibliotheca de Evora um idolo grosseiro e tres

outros idolos similhantes, porém menores, todos de bronze. Ignora-se a

procedencia d’estas curiosas antigualhas.

[Illustração: Fig. 74

Fig. 75

IDOLO DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]

No Museu da Escola Polytechnica ha um similhante idolo masculino de

bronze, pertencente ao sr. Judice do Algarve, e talvez n’esta provincia

descoberto.

Apparecem tambem no Alemtejo bodes ou cabras de bronze tão imperfeitos

como os idolos e provavelmente da mesma epoca. Os fragmentos adherentes

aos pés indicam que estas grosseiras imagens estariam fixas a outros

objectos. Conservam-se dois bodes de bronze na bibliotheca de Evora.

Outro similhante, foi achado ha alguns annos no Redondo, districto

de Evora[156]. Os idolos de dois sexos e as cabras de bronze serão

talvez os vestigios de alguma antiga religião introduzida na Peninsula

em epoca desconhecida. Os egypcios, os phenicios e outros povos

da antiguidade rendiam culto aos elementos masculino e feminino,

symbolisados em Isis e Osiris, em Baal e Astarté. A cabra era tambem

objecto de adoração no Egypto. Aqui o sol e a lua representavam o

principio masculino e o feminino. Já vimos que em certas inscripções da

Andaluzia se vêem figurados estes dois astros[157]. O costume, antigo

e commum na Peninsula e em tantas partes da Europa, de celebrar com

fogueiras e dansas a noite de S. João ou o solsticio do verão, parece

tambem a alguns um vestigio da religião phenicia. Mas é provavel que

d’uma civilisação mais remota herdassem os phenicios e outros povos

este e outros costumes religiosos.

[Illustração: Fig. 76

Fig. 77

Fig. 78

IDOLOS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]

[Illustração: Fig. 79

Fig. 80

CABRAS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]

Os primeiros dos exploradores das minas de cobre na Peninsula, os

primeiros dos que fabricaram os velhos machados de cobre devem ser

anteriores aos phenicios e ao tempo em que estes colonisaram alguns

dos logares septemtrionaes da Africa e meridionaes da Hespanha no

seculo XII. As condições de um povo que explorava o cobre com martellos

de pedra, e se servia de machados grosseiros d’aquelle metal não

concordam de modo nenhum com o que sabemos ácerca da civilisação

adiantada dos phenicios e dos povos mediterraneos no tempo da fundação

das primeiras das colonias tyrias. A nossa epoca do cobre foi portanto

anterior aos phenicios e aos etruscos, conclusão a que chegára Desor

na Suissa, relativamente á epoca do bronze, pela falta de objectos de

ferro nas palafittas d’aquella epoca. Mas se na Suissa não é possivel

determinar, presumir ao menos que, povo ali introduziria o commercio do

bronze, na Iberia a exploração e fabríco do cobre parece naturalmente

relacionarem-se com algum dos povos da Asia, e de uma região onde as

minas de cobre eram tambem exploradas.

Se os bronzes das palafittas da Suissa e das terramaras da Italia se

hão de julgar anteriores á epoca do ferro e portanto mais antigos que

os etruscos e phenicios, a que remotissimas eras se não reportarão os

machados de cobre da Peninsula? Mais adiante examinaremos as razões

que fazem provavel a opinião de que as primeiras explorações das minas

de cobre na America, na Hungria na Transylvania e na Iberia fossem

contemporaneas e talvez resultantes de uma antiga civilisação turania

irradiante da Asia para as outras partes do mundo[158].

Á epoca do cobre succedeu a do bronze, quando um povo navegador e

commerciante introduziu na Peninsula ou os instrumentos de bronze ou o

estanho para se fabricarem. É possivel que esta introducção fosse por

algum povo anterior aos phenicios e etruscos. Se a hypothese de Nilsson

acha contradictores na sua applicação á Scandinavia, com mais força de

razão se poderá impugnar relativamente á peninsula Iberica. É porém

certo que o uso do bronze se prolongou durante a colonisação phenicia,

dilatando-se até pela epoca romana. Ninguem ignora a importancia

que teve Cadix no commercio do estanho que os phenicios iam buscar

a Cornwals. Ora, sendo a Peninsula abundante de cobre, não deixaria

portanto de haver fabricas de bronze n’aquellas e n’outras colonias

phenicias. Strabão falla de espadas de bronze, feitas em Cadix[159].

Na Sardenha têem apparecido até hoje oito matrizes de fundir armas de

bronze[160]. O punhal de bronze e o punho de outro de ferro do mesmo

typo, achados na Galiza, provam que um mesmo povo, na mesma epoca, ou

em epocas proximas, fabricaria armas de bronze e de ferro. Em taes

condições estavam os phenicios, pelo menos durante os ultimos tempos da

sua existencia nacional.

As Baleares, como a Sardenha, como a Etruria, foram de certo focos,

d’onde irradiaram para longes terras, pelo commercio, os objectos

de bronze. Strabão diz serem os habitantes das Baleares optimos

fundidores, e exercitarem esta arte desde o tempo da occupação

d’aquellas ilhas pelos phenicios[161].

O sr. Chantre, n’uma obra recentemente publicada, colligiu innumeros

factos que o levaram a classificar em dois grupos principaes os jazigos

do bronze: 1.º As _fundições_; 2.º Os _thesouros_. A estas duas classes

já bem determinadas convem accrescentar certas estações ou centros

habitados, ainda mal definidos, e muitas sepulturas em raso campo,

cuja presença nenhum signal apparente indica. «Uma fundição consiste

ordinariamente n’uma simples cavidade aberta na terra, encerrando o

material mais ou menos completo de um fundidor de bronze: barras de

metal, escorralhas, restos, escorias, objectos usados inteiros ou

partidos, moldes, pinças, ás vezes objectos novos sahidos do molde e

por acabar. Taes fundições têem apparecido em muitos logares da Europa,

mas particularmente em França, Saboia e Allemanha»[162].

Os thesouros constam unicamente de objectos novos sem terem servido,

ás vezes ligados uns aos outros, e tão eguaes que de certo sahiriam do

mesmo molde. Encontram-se em pequenas cavidades, feitas de proposito

para os esconder. Os mais importantes appareceram nos Alpes.

Da uniformidade das fundições, encontradas na Europa, e de occuparem

sempre logares solitarios, distantes das povoações, conclue o sr.

Chantre que os fundidores pertenceriam a uma mesma casta nomada, que

percorreria a Europa, e talvez outros continentes, exercendo a sua

arte. Esta idêa parece-lhe confirmada pelas circumstancias respectivas

aos thesouros, que seriam depositados em escondrijos por aquelles que

os traziam, até a um regresso que muitas vezes circumstancias fortuitas

e imprevistas impediriam.

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 11 / 18 段