natural e necessaria de factos anteriores, e que povos differentes e
incommunicaveis se elevariam, progressivamente e sem extranho auxilio,
do fabrico da pedra lascada ao da pedra polida, d’este ao do cobre, e
finalmente ao do bronze, bem como do fabrico do bronze passariam da
mesma sorte por uma evolução necessaria ao fabrico do ferro. Causas
intrinsecas ou extrinsecas reduziriam em certos povos a pequeno
espaço de tempo a duração da epoca do cobre, que por tanto deixaria
de si poucos ou nenhuns vestigios. Esta hypothese com quanto seduza a
imaginação pela simplicidade, e por se basear na lei do progressivo
aperfeiçoamento da industria humana, parece todavia não ser conforme
aos factos. Ninguem duvida da similhança e até da identidade dos
objectos de bronze, encontrados nas mais distantes e nas mais varias
das regiões da Europa[141]. Ora tal similhança ou identidade seriam
impossiveis, se cada povo tivesse inventado por si mesmo o cobre, o
estanho e a liga d’estes dois metaes.
Além d’isto, será certo, ou ao menos provavel, que os povos da Europa
chegassem por si sós e sem extranho auxilio á invenção dos metaes? Se
n’alguns paizes se admitte a invenção indigena do cobre ou do ferro, na
maior parte não se tem verificado este facto. Affirma Lenormant que os
pretos da Africa central e meridional não conheceram nunca o bronze,
e até, pela maior parte, não fabricam o cobre. Em compensação, têem
dado ao fabrico do ferro certo desenvolvimento, e por meio de processos
proprios que não receberam de extranhos. Chegaram pois espontaneamente
a descobrir o ferro, e passaram do uso exclusivo da pedra ao d’este
metal, sem a phase intermedia do cobre ou do bronze. Os esquimaus, não
sahidos ainda da idade da pedra, ignoram os processos de fundir os
metaes, mas fabricam certos utensilios de ferro, percutindo com pedras
o meteorico, e sem o fazer passar pela fusão[142]. Se aquelles mesmos
processos de fundir o ferro não foram ensinados aos africanos por algum
povo asiatico, o que parece mais provavel, o facto é excepcional. Na
maior parte dos casos verifica-se a iniciação. Citaremos apenas o
exemplo dos mexicanos, que os hespanhoes foram encontrar n’um subido
grau de civilisação, porém dentro dos limites da epoca do bronze.
Durante milhares de annos não souberam inventar meios de buscar,
extrahir e fabricar o ferro.
A primeira hypothese, ou a da iniciação dos europeus pelos orientaes,
particularisou Nilsson, attribuindo aos phenicios a introducção do
bronze na Europa. Antes de examinar esta hypothese, applicada á Europa
em geral, e mais em particular á Peninsula, importa-nos saber que
objectos aqui se têem encontrado, para assentar sobre fundamentos menos
duvidosos essa discussão importante.
Primeiro que tudo convém saber que os srs. Vilanova e Tubino insistem
n’uma circumstancia que têem por indubitavel--na escassez dos objectos
de bronze em Hespanha, compensada pela grande abundancia dos de cobre.
Por isso propõe o sr. Tubino a subdivisão da epoca neolithica em dois
periodos: o mesolithico e o do cobre[143]. Para bem esclarecer este
ponto importante, importa examinar se: 1.º Haveria na peninsula Iberica
uma epoca do cobre? 2.º Coincidiriam essa epoca e a da pedra polida?
3.º Substituiria a epoca do bronze? a existencia da epoca do cobre.
Quando se descobriu a America, os povos
Prova-se por analogia a possibilidade de qualquer d’estes factos. Ainda
hoje selvagens d’Africa fabricam cobre e ferro e ignoram o processo de
fazer bronze. Outros da America septemtrional apenas sabem fabricar
armas de pedra e de cobre. Na opinião de Rougemont, os proprios
egypcios tiveram a sua epoca do cobre, correspondente ás dynastias
IV, V e VI, quatro mil e quinhentos annos antes de Christo, á qual
epoca se seguiu a do bronze nas dynastias immediatas[144]. Mas pode-se
ainda restringir a analogia e dar-lhe maior força. Em certas regiões
abundantes de minas cupricas verifica-se das regiões septemtrionaes
estavam n’essa phase da civilisação. Nas circumvisinhanças do lago
Superior se conservam hoje os vestigios da exploração de enormes
quantidades de minerio de cobre. O sr. Whittesley calcula que esses
vestigios occuparão na parte meridional do lago uma extensão de cem
a cento e cincoenta milhas; e que as arvores que cobrem alguns terão
mais de tres seculos de existencia[145]. Na Asia, da região media do
Jenessei até ao Amur para a parte de leste, e para a parte de oeste
até ao Oural, ha grande numero de tumulos, de minas abandonadas e de
fornos em ruinas. Pelas madeiras petrificadas se conhece a sua grande
antiguidade. Está tambem provado que os tchoudes exploraram estas
minas de cobre antes de conhecerem o estanho, e que antes da epoca do
bronze tiveram portanto a sua epoca do cobre. As mesmas duas epocas se
conhecem facilmente na Hungria e na Transylvania, onde existem ruinas
antigas inteiramente eguaes ás dos tchoudes do Oural e da Siberia[146].
Ora, a peninsula Iberica, pela abundancia do cobre, pela antiguidade
das minas d’este metal, está em condições analogas ou ás da Hungria
e da Transylvania, ou ás da vasta região habitada pelos tchoudes.
Não custa portanto admittir que o grande numero de objectos de cobre
achados na Peninsula provam a existencia de uma epoca do cobre, da
qual os povos ibericos mais tarde se elevariam á do bronze, quando o
commercio lhes fornecesse o estanho necessario para ligar com o cobre.
Dando como demonstrada a epoca do cobre, passaremos agora a examinar
a segunda questão: se coincidiria com a epoca da pedra polida? Em
primeiro logar notaremos a incompatibilidade da coincidencia. Se um
povo qualquer fabríca e usa instrumentos de metal, como se ha de
considerar esse povo na idade da pedra? Não comprehendemos pois que se
possa admittir na epoca da pedra polida um periodo do cobre, se não
fôr para significar que os peninsulares estariam já n’esse periodo, em
quanto os outros povos da Europa estariam no anterior. Mas quem ignora
a impossibilidade do synchronismo das varias phases industriaes em
toda a Europa? As expressões _epoca da pedra lascada_, _epoca da pedra
polida_, _epoca do bronze_, _epoca do ferro_ não significam de modo
nenhum condições communs a todos os povos, porém tão sómente a um povo
ou a alguns povos. Quando portanto fallarmos da epoca da pedra polida
ou da epoca do cobre da Peninsula, não podemos referir-nos senão a esta
parte da Europa.
Talvez para a mencionada tentativa da penetração da idade da pedra
pela idade dos metaes influisse a circumstancia de se terem encontrado
martellos de pedra em minas prehistoricas de cobre, como são as do
Milagro nas Asturias, de Cerro Muriano em Cordova e de Ruy Gomes
no Alemtejo. Mas o uso dos instrumentos de cada epoca não termina
com ella, prolonga-se de ordinario pelas immediatas. Apparecem com
frequencia em tumulos da epoca do bronze armas de pedra, e nos da
epoca do ferro armas de pedra e de bronze. N’este caso particular das
minas de cobre o facto observado na Peninsula não é unico. N’aquelles
que já mencionámos do lago Superior apparecem tambem martellos de
pedra[147]. No Egypto usavam de certos utensilios de pedra, alguns por
extremo grosseiros, juntamente com os de metal, nos mais florescentes
dos periodos da civilisação, e até em tempos que não vão ainda longe.
Com instrumentos de pedra exploravam os egypcios as minas de cobre
da peninsula de Sinai; com os mesmos instrumentos trabalhavam nas
pedreiros de granito de Syène, etc.[148]. Certos povos da raça negra
fabricam enxadas superiores áquellas que a Inglaterra quer enviar-lhes
de Sheffield, servindo-se de uma forja rudimental, constando apenas de
uma bigorna de grés, um martello de silex e um folle, feito com um vaso
de barro tapado com uma pelle movel[149].
Resta-nos agora examinar o ultimo ponto: se a epoca do cobre
substituiria na Peninsula a epoca do bronze? O proprio sr. Tubino, que
é quem mais propende para esta idêa, enumerando os objectos metallicos,
encontrados em Andaluzia, Extremadura e Portugal, falla dos de cobre e
dos de bronze de tal modo que ninguem saberá dizer ao certo quaes serão
em maior numero[150]. Nem outra cousa se conclue da enumeração que pela
sua parte faz o sr. Vilanova[151]. O sr. D. José Villa-amil y Castro
menciona espadas, punhaes e pontas de frechas descobertos na Galiza,
todos de bronze e nenhum de cobre[152].
De Portugal ninguem tambem dirá que os objectos de cobre até hoje
encontrados sejam muitos mais que os de bronze. No Alemtejo apparecem,
é verdade, em maior numero os instrumentos de cobre; mas acham-se
tambem n’esta provincia muitos de bronze com as fórmas dos typos
correspondentes de outras partes. Dos de cobre asseveram os fundidores
de Evora haverem observado no tempo em que os fundiam, (porque não
eram ainda procurados pelos collectores) que lançavam um cheiro forte
e suffocante, quando os sujeitavam no cadinho á acção do fogo. Este
facto prova a impureza do cobre de que taes objectos eram fabricados,
e explica-se talvez pela imperfeição dos processos empregados para a
extracção, que deixariam uma porção de enxofre combinada com o metal.
Repetimos porém, que os objectos de bronze não são tão raros que
acreditem a hypothese da existencia de uma epoca de cobre tão notavel
e tão prolongada que deixasse no escuro a do bronze, como pretendem
alguns dos auctores hespanhoes. As collecções de objectos prehistoricos
do Museu da Escola Polytechnica de Lisboa e da Bibliotheca de Evora
contêem objectos de bronze em maior numero que os de cobre. A collecção
do sr. Gabriel Pereira, pelo contrario, tem mais objectos de cobre; mas
esta collecção consta principalmente de machados muito singelos, que
são os mais communs e, pela maior parte de cobre. Para se avaliar a
superabundancia d’estes instrumentos, relativamente aos outros da mesma
epoca, bastará dizer que a mencionada collecção consta de dezesete
objectos, dos quaes quinze são dos machados ou cunhas de cobre mais
communs, e dois de bronze: convém a saber um machado com azelhas (fig.
64) e a espada (fig. 71). Note-se tambem que sómente no Alemtejo, e nas
regiões meridionaes d’esta provincia consta apparecer tamanho numero
de machados de cobre. Haverá alguma relação entre este facto e a mina
prehistorica de Ruy Gomes na mesma provincia?
[Illustração: Fig. 63
Fig. 64.
MACHADOS DE COBRE E DE BRONZE DO ALEMTEJO.]
Para se servirem d’estes instrumentos, rachavam na parte superior os
cabos de pau, e mettiam os machados nas fendas, ligando-os fortemente
com cordas ou corrêas. Dos machados mais singelos com fórma de cunhas
têem-se encontrado tambem na Hespanha, bem como dos outros com
cavidades para os cabos e com azas ou sem ellas. Porém, segundo affirma
o sr. Villa-amil, em contrario do que no Alemtejo acontece, os machados
lisos, á maneira de cunhas, seriam em Hespanha menos communs que os
outros. O escriptor citado achou em castros da Galiza pontas de lança
(_cuspis_) tanto de bronze como de ferro[153].
A fig. 64 representa um machado de bronze, encontrado no Alemtejo. Mas,
como já dissemos, este typo, parecido ao _scalprum fabrile_, é raro em
comparação do typo que a fig. 63 representa o mais commum de todos.
[Illustração: Fig. 65
PONTA DE FRECHA DE COBRE DA CASA DA MOURA.]
Entre os numerosos objectos, encontrados nas cavernas de Cesareda, não
appareceu nenhum de metal, excepto uma ponta de frecha de cobre[154].
Este achado bastará para referir aquella estação prehistorica á idade
dos metaes? As explorações até hoje feitas em Hespanha e Portugal
auctorisam-nos a reportar á epoca da pedra polida os habitantes das
cavernas. Todavia o achar-se a frecha de cobre a quatro metros de
profundidade, quasi sobre o manto stalagmitico, parece excluir a
possibilidade de ter ali ficado em epoca posterior á habitação da
caverna. Por outra parte, os objectos, achados no mesmo logar, e
particularmente a massa de calcareo claviforme lavrada n’uma das faces,
e a placa de schisto com ornatos triangulares estão indicando com a
possivel certeza a epoca d’aquella estação prehistorica. Deve ter sido
frequentada no tempo dos dolmens de Bellas e de Pavia e da Sepultura de
Martim Affonso, de Muge. Ora, esta epoca marca a transição da idade de
pedra para a dos metaes.
[Illustração: Fig. 66
Fig. 67
FACA E SERROTE DA FONTE DA RUPTURA.]
Seria porventura contemporanea a estação prehistorica da Fonte da
Ruptura de Setubal, onde appareceram uma faca e um serrote que se
conservam no Museu da Escola Polytechnica. Porém estão de tal sorte
incrustados que é impossivel dizer se serão de cobre ou de bronze.
Advirta-se porém que em certas estações ficaram sotopostos os
vestigios de varias epocas, por terem sido habitadas successivamente
por muitas gerações e talvez até por differentes raças. E quando
no acto da exploração se não registram cuidadosamente todos os
indicios, todas as relações de posição dos objectos entre si e com
os materiaes integrantes do deposito, torna-se depois impossivel
descobrir a verdade. A Memoria do sr. Delgado offerece-nos todos esses
esclarecimentos ácerca das cavernas de Cesareda, mas relativamente
á Fonte da Ruptura ignoram-se as circumstancias da exploração e da
localidade.
Na Bibliotheca de Evora guardam-se seis ou sete espadas de cobre,
achadas em varios sitios da diocese de Beja por D. fr. Manuel
do Cenaculo. Fundidores de Evora affirmam terem fundido outras
similhantes, o que prova não serem raras nas terras transtaganas.
Julgou-as o descobridor feitas de bronze, porém com os objectos de
cobre é que ellas têem mais analogia nas suas propriedades physicas
(fig. 68, 69 e 70).
Estas espadas não têem gumes; serviam portanto para ferir de ponta.
Outra circumstancia notavel é serem inteiriças, isto é, cada uma
d’ellas formada de uma só peça, e sem articulação dos punhos e copos
com a folha, quando as armas d’este genero, já durante a epoca de
bronze, eram geralmente articuladas. Esta mesma circumstancia se
observa n’outras espadas ou punhaes de cobre ou de bronze, achados no
Alemtejo, os quaes são tambem inteiriços ou formados de uma só folha
metallica, afeiçoada á força de trabalho com instrumentos cortantes
e contundentes (fig. 71). Porém outros objectos da mesma epoca foram
fundidos. Têem-se encontrado na Irlanda e na Sardenha alguns dos moldes
que serviram para este fim.
O sr. D. José Villa-amil y Castro descreve um punhal de bronze, achado
na Galiza, de mui differente feitio, e muito mais complicado[155].
A folha não é lisa, mas coberta de riscas muito finas, unidas e
parallelas entre si e aos bordos, cuja direcção recta ou curva
approximadamente seguem. O punho tem a fórma d’aquelles que chamam de
antennas. Mas o que ha mais notavel n’esta arma de bronze é ter o punho
furado para entrar n’elle a espiga da folha. Não ha vestigios de ter
sido repregada ou fixada por virola ou por outro meio. Pelo contrario
a espiga entra no punho e sahe muito á larga, e conserva signaes do
attrito que soffreria n’estes movimentos. O sr. Villa-amil suppõe que
esta arma curiosa serviria aos sacerdotes nos sacrificios, e que o
mesmo individuo poderia ferir differentes victimas com o mesmo punho,
substituindo a folha para cada victima. Mas o mais que se póde concluir
é que n’este e n’outros similhantes punhaes se substituiria uma folha
por outra, quando a primeira estivesse gasta, o que em pouco tempo
aconteceria, em razão da pouca dureza do bronze (fig. 72).
[Illustração: Fig. 69
Fig. 70
Fig. 68
Fig. 71
ESPADAS DE COBRE E DE BRONZE DO ALENTEJO.]
[Illustração: Fig. 72
PUNHAL DE BRONZE DA GALIZA.]
Algumas armas de bronze com os caracteres das armas prehistoricas
têem apparecido em sepulturas juntamente com objectos romanos. Houve
pois uma penetração de certos costumes da epoca do bronze pelas
epocas subsequentes. O fragmento de um punhal de ferro (Fig. 73),
achado na Galiza, e muito similhante á parte correspondente do punhal
de bronze, encontrado na mesma provincia e representado na fig. 72,
prova a coincidencia do uso de armas e instrumentos de ambos os metaes
n’aquella provincia. Prova ainda que os mais perfeitos dos objectos de
bronze não terão grande antiguidade.
[Illustração: Fig. 73
FRAGMENTO DE UM PUNHAL DE FERRO, ACHADO NA GALIZA.]
As armas de cobre e bronze, espadas e punhaes, achadas na Peninsula,
bem como aquellas que têem apparecido n’outras partes da Europa,
parece haverem sido usadas por uma raça de estatura baixa e de mãos
extremamente pequenas. Em quanto os punhos das actuaes têem sete ou
oito centimetros, os das armas de cobre ou de bronze medem apenas
quatro ou cinco centimetros. Na Asia ainda hoje ha povos que se
distinguem por terem mãos tão pequenas que os punhos das suas armas
são como os das nossas armas prehistoricas. As lendas dos anões e dos
gnomos, vulgares em tantos paizes, recordam ainda hoje os homens de
pequena estatura da epoca do cobre ou do bronze. Segundo essas lendas,
os anões habitavam as cavernas, d’onde sahiam sómente pela calada da
noite. Os camponezes das circumvisinhanças vinham depositar pães junto
das bocas das cavernas em troca dos instrumentos de metal que os anões
fabricavam. Outros povos attribuem á propria Divindade os caracteres
dos anões fundidores de metaes; e representam o Demiurgos, o auctor
dos mundos, como um homunculo disforme e grotesco. Outros finalmente
conservam as tradições de pygmeus que gigantes teriam vencido. Em tudo
isto consideram os archeologos outras tantas provas da existencia de
uma raça de estatura pequena, que outra mais forte haveria vencido e
substituido em varias regiões da Europa.
Conservam-se tambem na bibliotheca de Evora um idolo grosseiro e tres
outros idolos similhantes, porém menores, todos de bronze. Ignora-se a
procedencia d’estas curiosas antigualhas.
[Illustração: Fig. 74
Fig. 75
IDOLO DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]
No Museu da Escola Polytechnica ha um similhante idolo masculino de
bronze, pertencente ao sr. Judice do Algarve, e talvez n’esta provincia
descoberto.
Apparecem tambem no Alemtejo bodes ou cabras de bronze tão imperfeitos
como os idolos e provavelmente da mesma epoca. Os fragmentos adherentes
aos pés indicam que estas grosseiras imagens estariam fixas a outros
objectos. Conservam-se dois bodes de bronze na bibliotheca de Evora.
Outro similhante, foi achado ha alguns annos no Redondo, districto
de Evora[156]. Os idolos de dois sexos e as cabras de bronze serão
talvez os vestigios de alguma antiga religião introduzida na Peninsula
em epoca desconhecida. Os egypcios, os phenicios e outros povos
da antiguidade rendiam culto aos elementos masculino e feminino,
symbolisados em Isis e Osiris, em Baal e Astarté. A cabra era tambem
objecto de adoração no Egypto. Aqui o sol e a lua representavam o
principio masculino e o feminino. Já vimos que em certas inscripções da
Andaluzia se vêem figurados estes dois astros[157]. O costume, antigo
e commum na Peninsula e em tantas partes da Europa, de celebrar com
fogueiras e dansas a noite de S. João ou o solsticio do verão, parece
tambem a alguns um vestigio da religião phenicia. Mas é provavel que
d’uma civilisação mais remota herdassem os phenicios e outros povos
este e outros costumes religiosos.
[Illustração: Fig. 76
Fig. 77
Fig. 78
IDOLOS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]
[Illustração: Fig. 79
Fig. 80
CABRAS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.]
Os primeiros dos exploradores das minas de cobre na Peninsula, os
primeiros dos que fabricaram os velhos machados de cobre devem ser
anteriores aos phenicios e ao tempo em que estes colonisaram alguns
dos logares septemtrionaes da Africa e meridionaes da Hespanha no
seculo XII. As condições de um povo que explorava o cobre com martellos
de pedra, e se servia de machados grosseiros d’aquelle metal não
concordam de modo nenhum com o que sabemos ácerca da civilisação
adiantada dos phenicios e dos povos mediterraneos no tempo da fundação
das primeiras das colonias tyrias. A nossa epoca do cobre foi portanto
anterior aos phenicios e aos etruscos, conclusão a que chegára Desor
na Suissa, relativamente á epoca do bronze, pela falta de objectos de
ferro nas palafittas d’aquella epoca. Mas se na Suissa não é possivel
determinar, presumir ao menos que, povo ali introduziria o commercio do
bronze, na Iberia a exploração e fabríco do cobre parece naturalmente
relacionarem-se com algum dos povos da Asia, e de uma região onde as
minas de cobre eram tambem exploradas.
Se os bronzes das palafittas da Suissa e das terramaras da Italia se
hão de julgar anteriores á epoca do ferro e portanto mais antigos que
os etruscos e phenicios, a que remotissimas eras se não reportarão os
machados de cobre da Peninsula? Mais adiante examinaremos as razões
que fazem provavel a opinião de que as primeiras explorações das minas
de cobre na America, na Hungria na Transylvania e na Iberia fossem
contemporaneas e talvez resultantes de uma antiga civilisação turania
irradiante da Asia para as outras partes do mundo[158].
Á epoca do cobre succedeu a do bronze, quando um povo navegador e
commerciante introduziu na Peninsula ou os instrumentos de bronze ou o
estanho para se fabricarem. É possivel que esta introducção fosse por
algum povo anterior aos phenicios e etruscos. Se a hypothese de Nilsson
acha contradictores na sua applicação á Scandinavia, com mais força de
razão se poderá impugnar relativamente á peninsula Iberica. É porém
certo que o uso do bronze se prolongou durante a colonisação phenicia,
dilatando-se até pela epoca romana. Ninguem ignora a importancia
que teve Cadix no commercio do estanho que os phenicios iam buscar
a Cornwals. Ora, sendo a Peninsula abundante de cobre, não deixaria
portanto de haver fabricas de bronze n’aquellas e n’outras colonias
phenicias. Strabão falla de espadas de bronze, feitas em Cadix[159].
Na Sardenha têem apparecido até hoje oito matrizes de fundir armas de
bronze[160]. O punhal de bronze e o punho de outro de ferro do mesmo
typo, achados na Galiza, provam que um mesmo povo, na mesma epoca, ou
em epocas proximas, fabricaria armas de bronze e de ferro. Em taes
condições estavam os phenicios, pelo menos durante os ultimos tempos da
sua existencia nacional.
As Baleares, como a Sardenha, como a Etruria, foram de certo focos,
d’onde irradiaram para longes terras, pelo commercio, os objectos
de bronze. Strabão diz serem os habitantes das Baleares optimos
fundidores, e exercitarem esta arte desde o tempo da occupação
d’aquellas ilhas pelos phenicios[161].
O sr. Chantre, n’uma obra recentemente publicada, colligiu innumeros
factos que o levaram a classificar em dois grupos principaes os jazigos
do bronze: 1.º As _fundições_; 2.º Os _thesouros_. A estas duas classes
já bem determinadas convem accrescentar certas estações ou centros
habitados, ainda mal definidos, e muitas sepulturas em raso campo,
cuja presença nenhum signal apparente indica. «Uma fundição consiste
ordinariamente n’uma simples cavidade aberta na terra, encerrando o
material mais ou menos completo de um fundidor de bronze: barras de
metal, escorralhas, restos, escorias, objectos usados inteiros ou
partidos, moldes, pinças, ás vezes objectos novos sahidos do molde e
por acabar. Taes fundições têem apparecido em muitos logares da Europa,
mas particularmente em França, Saboia e Allemanha»[162].
Os thesouros constam unicamente de objectos novos sem terem servido,
ás vezes ligados uns aos outros, e tão eguaes que de certo sahiriam do
mesmo molde. Encontram-se em pequenas cavidades, feitas de proposito
para os esconder. Os mais importantes appareceram nos Alpes.
Da uniformidade das fundições, encontradas na Europa, e de occuparem
sempre logares solitarios, distantes das povoações, conclue o sr.
Chantre que os fundidores pertenceriam a uma mesma casta nomada, que
percorreria a Europa, e talvez outros continentes, exercendo a sua
arte. Esta idêa parece-lhe confirmada pelas circumstancias respectivas
aos thesouros, que seriam depositados em escondrijos por aquelles que
os traziam, até a um regresso que muitas vezes circumstancias fortuitas
e imprevistas impediriam.