[93] Em documentos antigos de Hespanha e de Portugal encontram-se os

termos _mamóla_, _mamonela_, _mamula_, _colles_, _manufacti_, etc.

Os primeiros nomes derivaram naturalmente da fórma dos _tumulos_,

comparavel á do peito mulheril. É expressivo o nome de _Mamaltar_ que

dão a certa mamunha, situada alguns kilometros ao norte das minas do

Braçal, na Beira. Vej. Pereira da Costa, _Antas de Portugal_, pag. 89.

N’alguns documentos, segundo diz Viterbo, tambem chamavam _arcas_ ás

_mamunhas_ ou _mamôas_.

[94] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamôas de Galicia, Museo

español de antigüedades_, tomo VII.

[95] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamôas de Galicia, Museo

español de antigüedades_, tomo VII.

[96] F. M. Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia,

Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades_, tomo VII.

[97] _Semanario Pinturesco español_, 1857. _Antigüedades prehistoricas

de Andalucia_, pag. 90.

[98] F. M. Tubino, op. cit.

[99] Idem.

[100] Pereira da Costa, _Os dolmins ou antas de Portugal_, pag. 91.

[101] _Semanario pinturesco español_, 1857.

[102] _Ilustracion española y americana._

[103] 60 Alçado pela parte B do dolmen.--61 Secção do dolmen e parte do

tumulo dado pelos pontos A a B da planta.--62 Planta do dolmen.

[104] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamoas de Galicia, Museu

español de antigüedades_, tomo VII.

[105] _Archivo Pittoresco_, tomo V, pag. 84.

[106] Antonio de Oliveira Berardo, _Noticias historicas de Vizeu_. No

_Liberal_. Vizeu 1857.

CAPITULO VII

PROBLEMAS

_Difficuldade de interpretar os vestigios das construcções

prehistoricas.--Hypotheses de Bonstetten e de Bertrand ácerca dos

dolmens.--Factos em contrario.--Leis da distribuição geographica

dos dolmens.--Os dolmens e as construcções pelasgicas.--Têem a

mesma antiguidade.--Objectos achados nos dolmens de Hespanha e

de Portugal.--Insignias de schisto.--Sua ornamentação similhante

á de objectos prehistoricos da Scandinavia.--Para que seriam os

dolmens.--Porque não ha vestigios de cinzel na maior parte dos

da epoca do bronze.--Antiguidade da epoca do bronze e do periodo

da pedra polida em que principiaram a erigir os dolmens.--Foram

introduzidos por um povo navegador.--A navegação já era praticada

no Atlantico durante a epoca da pedra polida.--A civilisação dos

dolmens e a civilisação pelasgica.--Signaes esculpidos em dolmens e em

rochas.--Duas epocas da civilisação dos dolmens._

É complexo o problema dos dolmens. Em que tempo e por quem e para

que fim seriam erigidos? Taes são as tres perguntas ou questões

fundamentaes, a que não responde por ora a archeologia senão com

simples conjecturas. Para melhor se comprehenderem as difficuldades

com que luctam os archeologos n’este ponto, imagine-se um futuro

remotissimo, um tempo em que chegassem a desapparecer todos os

vestigios da civilisação europêa, excepto os templos pagãos da Grecia

e da Italia e os templos christãos de todas as partes do mundo, tambem

já em grande parte mutilados. A hypothese, com ser inverosimil, não

deixará por isso de servir ao nosso intento. Algum futuro sabio, depois

de meditar profundamente em tantos e tão admiraveis vestigios, diria:

«Houve um povo notavel pelo costume de construir grandes edificios

de pedra. Parece ter vindo do norte e progredido depois pela Europa

central e meridional, erigindo por toda a parte edificios magestosos,

provas evidentes da sua alta civilisação. Este povo, solicitado por

grandes forças expansivas, não podia caber no continente europeu. As

mesmas construcções grandiosas provam ter povoado extensas regiões da

America septemtrional e da America meridional. Encontram-se tambem

similhantes vestigios nas costas orientaes e occidentaes da Africa,

no Meio-dia da Asia, etc. N’alguns dos grandes edificios da Europa

têem desenterrado ossadas humanas; serviam portanto de cemiterios,

e não de templos, como alguns pretendem. Em muitos acham-se as

paredes exterior e interiormente ornadas com estatuas, que de certo

representariam os mortos, cujas ossadas continham. N’outros, porém,

ainda não foi possivel descobrir nem ossos nem estatuas. Todos os

esforços têem sahido baldados. Provavelmente viajantes curiosos ou

collectores de antigualhas os exploraram nos tempos passados para, em

beneficio dos museus, os despojar d’essas reliquias de uma civilisação

remota. Sabe-se, pelos craneos encontrados nas sepulturas, que o povo

constructor pertencia á raça caucasica. Parecerá talvez inadmissivel

que um povo n’uma epoca de pequena duração, como sería a dos grandes

edificios de pedra, se dilataria assim por todo o mundo; mas por mais

extraordinario que o facto seja, deveremos curvar-nos á evidencia dos

descobrimentos archeologicos. Na epoca dos grandes edificios de pedra,

a Europa, Asia, Africa, America e Oceania eram povoadas pelo mesmo povo

de raça caucasica!»

Comtudo, entre os sabios do futuro algum haveria que, por se jactar de

mais severo na critica, impugnasse uma d’estas conclusões, aceitando

as outras. Esse tal argumentaria contra a direcção do caminho seguido

pelo povo constructor, observando que, se os vestigios mais imperfeitos

appareciam na Asia, era porque os architectos teriam por ahi começado,

aperfeiçoando-se depois ao passo que se iriam dilatando pela Europa.

Segundo esta ultima opinião, as obras mais antigas da architectura

seriam portanto os templos das possessões asiaticas e africanas; depois

seguir-se-hiam os templos de estylo romão e byzantino da Europa; depois

os grandes templos ogivaes; depois os do renascimento; e por fim o

Parthenon, o templo da Concordia e os outros restos grandiosos da

architectura grega ou romana.

Hoje, á falta de noticias positivas para a historia dos dolmens,

não faltarão archeologos que raciocinem da mesma sorte, e cheguem a

conclusões similhantes. Taes opiniões não convirá recebel-as senão com

as duvidas que inspiram as hypotheses infundadas. Infelizmente poucas

deixarão de o ser em assumpto de tamanha obscuridade.

Vista á primeira face a distribuição geographica dos dolmens, occorreu

naturalmente a idêa de que um povo emigrante, constructor d’esses

monumentos, percorreria do sul para o norte ou _vice versa_ as regiões

onde se encontram. Na opinião do sr. Bonstetten, a Criméa sería o

centro d’onde teria partido o povo dos dolmens, seguindo duas vias

differentes; uma para a Italia e Corsega, outra para o norte, pela

Silesia, até ás margens do Baltico. D’aqui uma causa desconhecida

obrigaria os constructores dos dolmens a emigrarem para o poente

dirigindo-se para a Normandia occidental e para a Bretanha, d’onde

passariam á Inglaterra, pelas ilhas Jersey e Guernesey, e á Irlanda,

pela ilha de Anglesey.

A parte restante do povo, que teria ficado no continente, só mais

tarde se atreveria a invadir a Gallia, marchando para o sul. Chegado

ao Gironda, abandonaria rapidamente as costas do mar, fugiria das

areias incultas da Gascunha, e, tomando uma direcção contraria ao

curso do Dordonha, atravessaria a França obliquamente e chegaria

ao golpho de Lyão. Não lhe serviriam de barreira os Pyreneus;

atravessal-os-hia, e, seguindo a vertente meridional d’estas montanhas,

occuparia Portugal, desceria mais ao sul e atravessaria obliquamente

a Hespanha pelas provincias de Cordova, Granada e Malaga; passaria o

mar, espalhar-se-hia pelo litoral da Africa septemtrional, e pararia

finalmente na antiga Cyrenaica, nas fronteiras do Egypto.

O sr. Bonstetten, fazendo partir o povo dos dolmens da Criméa, não

julga ser esta a sua patria, porém alguma região da Asia, d’onde, pelos

desfiladeiros do Caucaso, passaria á Europa, preludiando assim as

posteriores emigrações de celtas, godos, hunos e vandalos[107].

O sr. Bertrand suppõe tambem ter vindo da Asia o povo dos dolmens, que

sería de uma raça rebelde a toda a transformação e a toda a absorpção

pelas raças superiores. Repellida das regiões centraes d’aquelle

continente para o norte, seguiria as margens do Baltico demorar-se-hia

na Dinamarca; d’aqui de novo repellida, subiria até ás Orcadas; depois,

descendo pelo canal que separa a Irlanda da Inglaterra, chegaria, de

estação em estação, primeiro á Gallia, depois a Portugal e finalmente

á Africa, onde os restos de tal gente se extinguiriam, destruidos pela

força de outra raça mais civilisada[108].

Contra a opinião de Bertrand protestam os objectos de pedra, barro

ou metal, encontrados nos dolmens, por onde se prova que as gentes

constructoras d’estes monumentos não eram refractarias á civilisação.

E, admittido este facto, a sua consequencia necessaria, será que

taes gentes, obedecendo á lei do progresso, deixariam provas de mais

avançada civilisação nos paizes que ultimamente occupassem. Ora os

archeologos concordam em que não sómente a architectura megalithica é

mais perfeita no norte do que no sul, mas, tambem mais bem acabados e

de mais preço os objectos achados nos dolmens septemtrionaes; e que

portanto, se houvesse de se attribuirem os dolmens a um povo emigrante,

este povo deveria ter seguido do sul para o norte e não do norte para

o sul, como Bonstetten e Bertrand suppozeram[109]. Por outra parte,

quem se der ao trabalho de marcar n’um mappa as regiões dos dolmens,

reconhecerá que algumas de taes regiões ficam inteiramente separadas

por grandes distancias, como as da Criméa e as da Palestina.

Em regiões tambem muito afastadas, como a Bretanha e o Jutland

apparecem n’uns dolmens sómente objectos de pedra polida, n’outros

encontram-se instrumentos de pedra e de bronze. Parece portanto que

os povos constructores dos dolmens passariam synchronicamente, e

em logares muito distantes, de uma a outra phase industrial pelas

influencias civilisadoras de povos mais avançados. Têem notado tambem

nos dolmens das diversas localidades certas differenças especificas que

se oppõem a que se reputem construidos por um só povo. Em fim, a mais

concludente de todas as provas da diversidade dos povos que erigiram os

dolmens está na variedade de restos humanos achados em taes monumentos.

Na opinião do sr. Quatrefages não póde haver duvidas a este respeito.

Nos dolmens da Dinamarca, por exemplo, apparecem dois typos humanos

misturados, nos de Lozère outros dois, e d’estes quatros typos não ha

dois que se assimilhem[110].

Alguns dos mais auctorisados archeologos modernos, taes como Desor,

Worsaœ, Vogt, Quatrefages, Broca e Mortillet, rejeitam absolutamente

a idêa da existencia de um só povo constructor dos dolmens. Preferem

antes acreditar que varios povos e varias raças, que se não sabem

especificar ou denominar, erigiriam os megalithos pelas regiões onde se

encontram, estribando esta asserção n’alguns dos factos anteriormente

citados contra as hypotheses de Bonstetten e de Bertrand. Julgam

mais que o costume de construir os dolmens se propagaria do sul para

o norte, em direcção contraria áquella que faziam seguir ao povo

emigrante.

Não tem sido notada na distribuição geographica dos dolmens uma

circumstancia que se nos afigura importantissima; e vem a ser o

encontrarem-se quasi sempre nas regiões proximas do mar. Começando

pelo sul deparam-se-nos primeiramente os da costa septemtrional da

Africa, na Argelia e na Cyrenaica, juncto das fronteiras do Egypto,

todos no litoral do Mediterraneo. Depois os de Sinai e da Arabia nas

costas do Mar Vermelho, os da Palestina, proximos do Mediterraneo. Em

frente da costa septemtrional da Africa, para áquem do Estreito, os de

Hespanha e Portugal, occupando por uma parte a Andaluzia, no litoral

do Mediterraneo; por outra parte o litoral portuguez e a Galiza,

banhados pelo Atlantico; e finalmente as costas meridionaes do golpho

de Biscaia. Na França a região dos dolmens está tambem em similhantes

condições maritimas. Defrontam com o Mediterraneo, como os da

Andaluzia, apparecem do outro lado do golpho da Biscaia nas margens do

Gironda; vêem-se em fim e em maior numero na Bretanha e na Normandia,

nas costas da Mancha. Observa-se a mesma lei nos da Inglaterra e da

Irlanda. Os da Europa septemtrional occupam regiões banhadas pelo

mar do Norte ou pelo mar Baltico, ou pouco distantes das suas aguas.

Com razão pois advertiu Bertrand abundarem os dolmens pelas regiões

occidentaes e faltarem nas regiões orientaes da Europa. Mas este facto

não é senão a consequencia da posição relativa d’aquellas regiões,

das quaes as do occidente ficam á parte do mar e as do oriente mais ou

menos distantes[111].

Outra lei da distribuição geographica dos dolmens vem a ser a

incompatibilidade d’estes monumentos com os cyclopeos. «As construcções

cyclopeas e os dolmens, diz Rougemont, excluem-se reciprocamente ao

sul de Caucaso, dos Alpes e dos Pyreneus. A Perêa e o Caucaso, as

duas patrias dos dolmens não têem muros feitos de pedras irregulares.

A Aramêa, aonde referimos o berço da architectura cyclopea, não tem

dolmens»[112].

Na peninsula Iberica já vimos como esta lei se verifica, pois que nas

regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha não

consta haver dolmens. Vimos tambem como n’uma região, onde os dois

systemas se encontraram parece ter-se operado entre elles uma singular

fusão, se não é pura casualidade o que se observa na _Cueva de la

Pastora_ em Castilleja de Guzman, a oeste de Sevilha, na Andaluzia[113].

Da lei da correspondencia dos dolmens ás terras litoraes ou pouco

distantes dos mares, deduz-se que a origem do costume de erigil-os se

ha de buscar n’algum ou n’alguns povos já em certo grau de civilisação,

os quaes percorrendo os mares da Europa, transmittiriam esse mesmo

e outros costumes aos povos com quem estivessem em contacto, e que

passariam assim da phase, caracterisada pela habitação das cavernas,

áquella que se distingue pela construcção dos dolmens. Similhantemente,

nos seculos XV e XVI, os portuguezes e os hespanhoes alçaram cruzes

e erigiram templos pelos vastos litoraes e pelas ilhas da Africa,

Asia, America e Oceania, convertendo os indigenas ao christianismo,

e transmittindo-lhes aquelle mesmo costume, caracteristico da

civilisação que representavam. Devemos porém acreditar que este ou

outro movimento civilisador dos tempos prehistoricos acharia de certo

menos resistencia, por ser menor a differença entre o estado dos povos

civilisados e o dos povos civilisadores.

Da lei da incompatibilidade dos dolmens com as construcções cyclopeas

deduz-se que estes dois generos de monumentos representam duas

civilisações prehistoricas tambem incompativeis; e que, portanto,

seriam contemporaneos os povos constructores dos primeiros e aquelles

que erigiram as segundas. Ora, como abundam os monumentos cyclopeos

nas Baleares[114] na Sardenha e na peninsula Italica, e como as

costas orientaes da peninsula Iberica defrontam com aquellas ilhas e

peninsula, concluiremos que até a essa parte da Hespanha se extenderia

a influencia da civilisação pelasgica, e que esta mesma civilisação

repugnaria o costume de construir os dolmens e os demais que a este

andariam associados.

Na Peninsula a cintura megalithica extende-se desde o golpho da

Biscaia, no logar onde as vagas do Atlantico se debatem contra as

vertentes escarpadas dos Pyreneus, até ao golpho de Almeria, onde

as ultimas ramificações da Serra Nevada se escondem nas aguas menos

agitadas do Mediterraneo. Toda a costa oriental desde o cabo de Gata

até ao cabo de Créus, comprehendendo quasi seis graus de latitude,

não tem dolmens, ou pelo menos não se tem até hoje dito que os haja

nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Por onde se vê que as

construcções pelasgicas sómente correspondem ás regiões banhadas pelo

Mediterraneo, e os dolmens ao litoral do Atlantico e ao do Mediterraneo

mais proximo do Estreito de Gibraltar, que serve para communicar os

dois mares.

Com a civilisação portanto com que se hão de relacionar os dolmens

da Scandinavia, das ilhas Britannicas, das costas septemtrionaes e

occidentaes da França, com essa mesma civilisação se devem relacionar

tambem os dolmens das regiões septemtrionaes, occidentaes e meridionaes

da peninsula Iberica. Ignorando-se o povo que introduziu o costume de

construir os dolmens, e a epoca de tal introducção, posta a lei da

antinomia dos monumentos megalithicos e dos pelasgicos, seguir-se-ha,

como consequencia necessaria, o terem sido todos contemporaneos.

Vejamos até aonde poderemos chegar, tentando resolver com estes dados o

problema da antiguidade dos dolmens. Os objectos encontrados dentro nos

dolmens, armas, instrumentos, ornatos, em muitos são sómente de pedra

polida, n’outros de pedra polida e de cobre ou de bronze, n’outros

sómente de cobre ou de bronze, n’outros em fim, de alguma das especies

mencionadas e de ferro[115]. N’alguns, têem apparecido objectos de

ouro, posto que o fabrico d’este metal devesse preceder o do ferro e

até o do cobre, como se provou na caverna de Albuñol da Andaluzia.

Encontram-se tambem commumente vasos de barro inteiros ou partidos,

toscos e sem ornatos, ou adornados com riscos ou impressões digitaes

ou unciaes. A disposição dos riscos é irregular nos mais imperfeitos,

regular ou symetrica nos menos imperfeitos. Estes achados provam, em

geral, que os dolmens foram construidos na epoca da pedra polida e na

epoca do bronze; e alguns mais raros na epoca do ferro.

Na Peninsula não têem explorado methodicamente os dolmens e os tumulos.

Apenas consta de certos objectos n’alguns encontrados. O sr. D. Manuel

de Gongora, por exemplo, achou em varios dolmens da provincia de Jaen

ossos dispersos, armas de cobre, anneis do mesmo metal, fragmentos de

louça e armas de silex. Este observador, entre outras leis, applicaveis

aos dolmens que observou, estabeleceu as seguintes:

1.ª Entra-se n’estes monumentos por estreitas passagens feitas de

grandes pedras, excepto nos de Dilar e nos de Gitanos.

2.ª Excepto os das _Majadas del conejo_, todos são quadrangulares.

3.ª Interiormente os dolmens estão lageados com grandes pedras.

4.ª Excepto um sómente, em que apparece uma peça de bronze, em nenhum

se encontram armas ou objectos que não sejam de pedra ou de cobre.

5.ª Os cadaveres apparecem collocados em leitos horisontaes e com

pequenas pedras em redor dos craneos[116].

Aos dolmens de Portugal não são applicaveis as leis 2.ª e 3.ª. As

outras sómente depois de novos estudos se poderão verificar. O sr.

Pereira da Costa encontrou machados de pedra nas antas de Alcogulo

e n’outras[117]. N’uma de Niza appareceu a grande cabeça da lança

de silex fig. 14. Na anta de Bellas encontraram-se facas e pontas

de frechas de silex, contas de collares de schisto e de calcareo,

o fragmento de osso esculpido com ornatos triangulares fig. 30, e

uma machadinha de schisto similhantemente ornada, e do mesmo genero

d’aquella que appareceu em Monte-Real, e a fig. 31 representa. N’uma

anta de Pavia appareceram quatro machadinhas similhantes de schisto com

os mesmos ornatos triangulares.

Na sepultura de Martim Affonso, perto de Muge, encontraram-se objectos

do mesmo genero, e a notavel insignia de schisto que suppomos ser

um baculo, fig. 33. D’este logar, importantissimo para o estudo da

prehistoria em Portugal, nos deu o sr. Pereira da Costa as seguintes

informações: «A sepultura de Martim Affonso não é, como á primeira

vista parece, de sujeito assim chamado, mas um sitio que é conhecido

por este nome, na propriedade do duque de Cadaval (residente em Paris).

Esta sepultura era de tres lages compridas e duas estreitas nas

extremidades, e tinha um capeamento de lages pequenas. Dentro continha

ossos de um esqueleto, dos quaes só se aproveitaram alguns fragmentos

de ossos longos, e o mais que V. viu no Museu. Esta propriedade do

duque é nas margens da ribeira de Muge, e perto do Cabeço da Arruda,

que tambem pertence ao mesmo duque».

Depois de fallar do baculo, em que não considera a fórma d’esta

insignia, porém a do phallus, accrescenta: «Com esta peça, além dos

ossos, havia nove facas de silex, uma cabeça de lança de silex, e

varios vasos pequenos de barro».

Nos dolmens de Portugal não têem até hoje apparecido objectos de cobre

ou de bronze; mas as explorações feitas são mui poucas ainda para se

deduzir d’ellas uma lei geral. É possivel que os dolmens, onde se

encontraram as insignias de schisto pertençam já á época do bronze,

apesar de se não ter achado n’elles esta liga metallica. A sepultura

de Martim Affonso, onde appareceu o baculo, prova-nos que o povo que

usava taes insignias sabia construir sarcophagos para os cadaveres, o

que denota certo grau de civilisação. Em quanto porém se não explorarem

mais antas e mais methodicamente do que até hoje, não será possivel

passar além d’esta conclusão, cuja importancia, ainda assim, não é

pequena. As insignias de schisto são caracteristicas, e, só de per si,

denunciarão o povo ou um dos povos constructores dos dolmens, logo que

se encontrem n’outras partes. Infelizmente não consta que até hoje se

tenham descoberto fóra de Portugal. Na Scandinavia têem apparecido umas

enxadas de pau de veado com esboços mais rudes que os do Périgord, e

que representam quadrupedes, corsas talvez. Ao lado d’estes esboços

vêem-se traços rectilineos formando os desenhos triangulares das nossas

placas de schisto. Se a esta circumstancia accrescentarmos que os

dolmens mais similhantes ao maior numero e tambem aos mais imperfeitos

de Portugal são os da Dinamarca, persuadir-nos-hemos de que ha toda a

probabilidade de que gentes da mesma raça povoariam ou civilisariam nos

tempos prehistoricos certas regiões da peninsula Iberica e da peninsula

Scandinava.[118]

Se os dolmens são contemporaneos das nuraghas, as excavações feitas

n’estes monumentos devem dar resultados comparaveis áquelles que temos

mencionado. Apesar das poucas explorações até hoje emprehendidas,

sabe-se que nos talayots das Baleares[119] e nas nuraghas da Sardenha

se tem encontrado objectos de cobre e de bronze. N’algumas d’esta

ultima ilha têem apparecido facas de silex. Portanto a maior parte de

taes construcções remontam á epoca do cobre ou do bronze; e algumas á

epoca da pedra polida. Isto mesmo se confirma pelo apparelho. Umas,

de pedras brutas, são anteriores provavelmente á invenção do cinzel;

outras, de pedras afeiçoadas, manifestam já a acção de instrumentos de

metal. Affirma o abbade Spano que algumas nuraghas são feitas na parte

inferior de pedras brutas, e na parte superior de pedras apparelhadas,

parecendo aquella da epoca da pedra polida, e esta da idade dos metaes.

O apparelho irregular corresponde a uma camara inferior; o regular a

uma camara superior que posteriormente sería accrescentada á primeira.

Demais são frequentes estes casos de accrescentamentos e reparações

das nuraghas primitivas em varias epocas[120]. Dos poucos estudos até

hoje emprehendidos nos dolmens de Hespanha e de Portugal deduziremos os

seguintes corollarios:

1.º Os dolmens da Peninsula, como outros da Europa, como as nuraghas

da Sardenha, foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do

bronze ou do cobre.

2.º Geralmente fallando, os dolmens de Portugal são mais imperfeitos

que os da Andaluzia.

3.º É provavel que a antiga raça que na Scandinavia construia os

dolmens e fabricava enchadas de ponta de veado fosse a mesma que na

Iberia occidental construisse ou introduzisse o costume de construir os

dolmens, e se servisse de insignias de schisto com ornatos triangulares.

Para que serviriam os dolmens ou com que fim os erigiriam? A opinião

mais commum é que os dolmens serviriam para guardar as cinzas dos

mortos. Assim se explica até mui naturalmente a origem de taes

monumentos, considerando-os ou como um meio de supprir a falta das

cavernas sepulchraes, ou como um aperfeiçoamento ou desenvolvimento do

montão de pedras que primitivamente lançariam sobre o cadaver. Tambem

não ha impossibilidade em crêr que o dolmen, erigido primeiro sobre

o cadaver, no proprio logar da morte, fosse depois construido onde

parecesse mais conveniente, e o cadaver transportado do sitio, em que

jazera, para a sua nova morada.

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 9 / 18 段