termos _mamóla_, _mamonela_, _mamula_, _colles_, _manufacti_, etc.
Os primeiros nomes derivaram naturalmente da fórma dos _tumulos_,
comparavel á do peito mulheril. É expressivo o nome de _Mamaltar_ que
dão a certa mamunha, situada alguns kilometros ao norte das minas do
Braçal, na Beira. Vej. Pereira da Costa, _Antas de Portugal_, pag. 89.
N’alguns documentos, segundo diz Viterbo, tambem chamavam _arcas_ ás
_mamunhas_ ou _mamôas_.
[94] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamôas de Galicia, Museo
español de antigüedades_, tomo VII.
[95] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamôas de Galicia, Museo
español de antigüedades_, tomo VII.
[96] F. M. Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia,
Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades_, tomo VII.
[97] _Semanario Pinturesco español_, 1857. _Antigüedades prehistoricas
de Andalucia_, pag. 90.
[98] F. M. Tubino, op. cit.
[99] Idem.
[100] Pereira da Costa, _Os dolmins ou antas de Portugal_, pag. 91.
[101] _Semanario pinturesco español_, 1857.
[102] _Ilustracion española y americana._
[103] 60 Alçado pela parte B do dolmen.--61 Secção do dolmen e parte do
tumulo dado pelos pontos A a B da planta.--62 Planta do dolmen.
[104] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamoas de Galicia, Museu
español de antigüedades_, tomo VII.
[105] _Archivo Pittoresco_, tomo V, pag. 84.
[106] Antonio de Oliveira Berardo, _Noticias historicas de Vizeu_. No
_Liberal_. Vizeu 1857.
CAPITULO VII
PROBLEMAS
_Difficuldade de interpretar os vestigios das construcções
prehistoricas.--Hypotheses de Bonstetten e de Bertrand ácerca dos
dolmens.--Factos em contrario.--Leis da distribuição geographica
dos dolmens.--Os dolmens e as construcções pelasgicas.--Têem a
mesma antiguidade.--Objectos achados nos dolmens de Hespanha e
de Portugal.--Insignias de schisto.--Sua ornamentação similhante
á de objectos prehistoricos da Scandinavia.--Para que seriam os
dolmens.--Porque não ha vestigios de cinzel na maior parte dos
da epoca do bronze.--Antiguidade da epoca do bronze e do periodo
da pedra polida em que principiaram a erigir os dolmens.--Foram
introduzidos por um povo navegador.--A navegação já era praticada
no Atlantico durante a epoca da pedra polida.--A civilisação dos
dolmens e a civilisação pelasgica.--Signaes esculpidos em dolmens e em
rochas.--Duas epocas da civilisação dos dolmens._
É complexo o problema dos dolmens. Em que tempo e por quem e para
que fim seriam erigidos? Taes são as tres perguntas ou questões
fundamentaes, a que não responde por ora a archeologia senão com
simples conjecturas. Para melhor se comprehenderem as difficuldades
com que luctam os archeologos n’este ponto, imagine-se um futuro
remotissimo, um tempo em que chegassem a desapparecer todos os
vestigios da civilisação europêa, excepto os templos pagãos da Grecia
e da Italia e os templos christãos de todas as partes do mundo, tambem
já em grande parte mutilados. A hypothese, com ser inverosimil, não
deixará por isso de servir ao nosso intento. Algum futuro sabio, depois
de meditar profundamente em tantos e tão admiraveis vestigios, diria:
«Houve um povo notavel pelo costume de construir grandes edificios
de pedra. Parece ter vindo do norte e progredido depois pela Europa
central e meridional, erigindo por toda a parte edificios magestosos,
provas evidentes da sua alta civilisação. Este povo, solicitado por
grandes forças expansivas, não podia caber no continente europeu. As
mesmas construcções grandiosas provam ter povoado extensas regiões da
America septemtrional e da America meridional. Encontram-se tambem
similhantes vestigios nas costas orientaes e occidentaes da Africa,
no Meio-dia da Asia, etc. N’alguns dos grandes edificios da Europa
têem desenterrado ossadas humanas; serviam portanto de cemiterios,
e não de templos, como alguns pretendem. Em muitos acham-se as
paredes exterior e interiormente ornadas com estatuas, que de certo
representariam os mortos, cujas ossadas continham. N’outros, porém,
ainda não foi possivel descobrir nem ossos nem estatuas. Todos os
esforços têem sahido baldados. Provavelmente viajantes curiosos ou
collectores de antigualhas os exploraram nos tempos passados para, em
beneficio dos museus, os despojar d’essas reliquias de uma civilisação
remota. Sabe-se, pelos craneos encontrados nas sepulturas, que o povo
constructor pertencia á raça caucasica. Parecerá talvez inadmissivel
que um povo n’uma epoca de pequena duração, como sería a dos grandes
edificios de pedra, se dilataria assim por todo o mundo; mas por mais
extraordinario que o facto seja, deveremos curvar-nos á evidencia dos
descobrimentos archeologicos. Na epoca dos grandes edificios de pedra,
a Europa, Asia, Africa, America e Oceania eram povoadas pelo mesmo povo
de raça caucasica!»
Comtudo, entre os sabios do futuro algum haveria que, por se jactar de
mais severo na critica, impugnasse uma d’estas conclusões, aceitando
as outras. Esse tal argumentaria contra a direcção do caminho seguido
pelo povo constructor, observando que, se os vestigios mais imperfeitos
appareciam na Asia, era porque os architectos teriam por ahi começado,
aperfeiçoando-se depois ao passo que se iriam dilatando pela Europa.
Segundo esta ultima opinião, as obras mais antigas da architectura
seriam portanto os templos das possessões asiaticas e africanas; depois
seguir-se-hiam os templos de estylo romão e byzantino da Europa; depois
os grandes templos ogivaes; depois os do renascimento; e por fim o
Parthenon, o templo da Concordia e os outros restos grandiosos da
architectura grega ou romana.
Hoje, á falta de noticias positivas para a historia dos dolmens,
não faltarão archeologos que raciocinem da mesma sorte, e cheguem a
conclusões similhantes. Taes opiniões não convirá recebel-as senão com
as duvidas que inspiram as hypotheses infundadas. Infelizmente poucas
deixarão de o ser em assumpto de tamanha obscuridade.
Vista á primeira face a distribuição geographica dos dolmens, occorreu
naturalmente a idêa de que um povo emigrante, constructor d’esses
monumentos, percorreria do sul para o norte ou _vice versa_ as regiões
onde se encontram. Na opinião do sr. Bonstetten, a Criméa sería o
centro d’onde teria partido o povo dos dolmens, seguindo duas vias
differentes; uma para a Italia e Corsega, outra para o norte, pela
Silesia, até ás margens do Baltico. D’aqui uma causa desconhecida
obrigaria os constructores dos dolmens a emigrarem para o poente
dirigindo-se para a Normandia occidental e para a Bretanha, d’onde
passariam á Inglaterra, pelas ilhas Jersey e Guernesey, e á Irlanda,
pela ilha de Anglesey.
A parte restante do povo, que teria ficado no continente, só mais
tarde se atreveria a invadir a Gallia, marchando para o sul. Chegado
ao Gironda, abandonaria rapidamente as costas do mar, fugiria das
areias incultas da Gascunha, e, tomando uma direcção contraria ao
curso do Dordonha, atravessaria a França obliquamente e chegaria
ao golpho de Lyão. Não lhe serviriam de barreira os Pyreneus;
atravessal-os-hia, e, seguindo a vertente meridional d’estas montanhas,
occuparia Portugal, desceria mais ao sul e atravessaria obliquamente
a Hespanha pelas provincias de Cordova, Granada e Malaga; passaria o
mar, espalhar-se-hia pelo litoral da Africa septemtrional, e pararia
finalmente na antiga Cyrenaica, nas fronteiras do Egypto.
O sr. Bonstetten, fazendo partir o povo dos dolmens da Criméa, não
julga ser esta a sua patria, porém alguma região da Asia, d’onde, pelos
desfiladeiros do Caucaso, passaria á Europa, preludiando assim as
posteriores emigrações de celtas, godos, hunos e vandalos[107].
O sr. Bertrand suppõe tambem ter vindo da Asia o povo dos dolmens, que
sería de uma raça rebelde a toda a transformação e a toda a absorpção
pelas raças superiores. Repellida das regiões centraes d’aquelle
continente para o norte, seguiria as margens do Baltico demorar-se-hia
na Dinamarca; d’aqui de novo repellida, subiria até ás Orcadas; depois,
descendo pelo canal que separa a Irlanda da Inglaterra, chegaria, de
estação em estação, primeiro á Gallia, depois a Portugal e finalmente
á Africa, onde os restos de tal gente se extinguiriam, destruidos pela
força de outra raça mais civilisada[108].
Contra a opinião de Bertrand protestam os objectos de pedra, barro
ou metal, encontrados nos dolmens, por onde se prova que as gentes
constructoras d’estes monumentos não eram refractarias á civilisação.
E, admittido este facto, a sua consequencia necessaria, será que
taes gentes, obedecendo á lei do progresso, deixariam provas de mais
avançada civilisação nos paizes que ultimamente occupassem. Ora os
archeologos concordam em que não sómente a architectura megalithica é
mais perfeita no norte do que no sul, mas, tambem mais bem acabados e
de mais preço os objectos achados nos dolmens septemtrionaes; e que
portanto, se houvesse de se attribuirem os dolmens a um povo emigrante,
este povo deveria ter seguido do sul para o norte e não do norte para
o sul, como Bonstetten e Bertrand suppozeram[109]. Por outra parte,
quem se der ao trabalho de marcar n’um mappa as regiões dos dolmens,
reconhecerá que algumas de taes regiões ficam inteiramente separadas
por grandes distancias, como as da Criméa e as da Palestina.
Em regiões tambem muito afastadas, como a Bretanha e o Jutland
apparecem n’uns dolmens sómente objectos de pedra polida, n’outros
encontram-se instrumentos de pedra e de bronze. Parece portanto que
os povos constructores dos dolmens passariam synchronicamente, e
em logares muito distantes, de uma a outra phase industrial pelas
influencias civilisadoras de povos mais avançados. Têem notado tambem
nos dolmens das diversas localidades certas differenças especificas que
se oppõem a que se reputem construidos por um só povo. Em fim, a mais
concludente de todas as provas da diversidade dos povos que erigiram os
dolmens está na variedade de restos humanos achados em taes monumentos.
Na opinião do sr. Quatrefages não póde haver duvidas a este respeito.
Nos dolmens da Dinamarca, por exemplo, apparecem dois typos humanos
misturados, nos de Lozère outros dois, e d’estes quatros typos não ha
dois que se assimilhem[110].
Alguns dos mais auctorisados archeologos modernos, taes como Desor,
Worsaœ, Vogt, Quatrefages, Broca e Mortillet, rejeitam absolutamente
a idêa da existencia de um só povo constructor dos dolmens. Preferem
antes acreditar que varios povos e varias raças, que se não sabem
especificar ou denominar, erigiriam os megalithos pelas regiões onde se
encontram, estribando esta asserção n’alguns dos factos anteriormente
citados contra as hypotheses de Bonstetten e de Bertrand. Julgam
mais que o costume de construir os dolmens se propagaria do sul para
o norte, em direcção contraria áquella que faziam seguir ao povo
emigrante.
Não tem sido notada na distribuição geographica dos dolmens uma
circumstancia que se nos afigura importantissima; e vem a ser o
encontrarem-se quasi sempre nas regiões proximas do mar. Começando
pelo sul deparam-se-nos primeiramente os da costa septemtrional da
Africa, na Argelia e na Cyrenaica, juncto das fronteiras do Egypto,
todos no litoral do Mediterraneo. Depois os de Sinai e da Arabia nas
costas do Mar Vermelho, os da Palestina, proximos do Mediterraneo. Em
frente da costa septemtrional da Africa, para áquem do Estreito, os de
Hespanha e Portugal, occupando por uma parte a Andaluzia, no litoral
do Mediterraneo; por outra parte o litoral portuguez e a Galiza,
banhados pelo Atlantico; e finalmente as costas meridionaes do golpho
de Biscaia. Na França a região dos dolmens está tambem em similhantes
condições maritimas. Defrontam com o Mediterraneo, como os da
Andaluzia, apparecem do outro lado do golpho da Biscaia nas margens do
Gironda; vêem-se em fim e em maior numero na Bretanha e na Normandia,
nas costas da Mancha. Observa-se a mesma lei nos da Inglaterra e da
Irlanda. Os da Europa septemtrional occupam regiões banhadas pelo
mar do Norte ou pelo mar Baltico, ou pouco distantes das suas aguas.
Com razão pois advertiu Bertrand abundarem os dolmens pelas regiões
occidentaes e faltarem nas regiões orientaes da Europa. Mas este facto
não é senão a consequencia da posição relativa d’aquellas regiões,
das quaes as do occidente ficam á parte do mar e as do oriente mais ou
menos distantes[111].
Outra lei da distribuição geographica dos dolmens vem a ser a
incompatibilidade d’estes monumentos com os cyclopeos. «As construcções
cyclopeas e os dolmens, diz Rougemont, excluem-se reciprocamente ao
sul de Caucaso, dos Alpes e dos Pyreneus. A Perêa e o Caucaso, as
duas patrias dos dolmens não têem muros feitos de pedras irregulares.
A Aramêa, aonde referimos o berço da architectura cyclopea, não tem
dolmens»[112].
Na peninsula Iberica já vimos como esta lei se verifica, pois que nas
regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha não
consta haver dolmens. Vimos tambem como n’uma região, onde os dois
systemas se encontraram parece ter-se operado entre elles uma singular
fusão, se não é pura casualidade o que se observa na _Cueva de la
Pastora_ em Castilleja de Guzman, a oeste de Sevilha, na Andaluzia[113].
Da lei da correspondencia dos dolmens ás terras litoraes ou pouco
distantes dos mares, deduz-se que a origem do costume de erigil-os se
ha de buscar n’algum ou n’alguns povos já em certo grau de civilisação,
os quaes percorrendo os mares da Europa, transmittiriam esse mesmo
e outros costumes aos povos com quem estivessem em contacto, e que
passariam assim da phase, caracterisada pela habitação das cavernas,
áquella que se distingue pela construcção dos dolmens. Similhantemente,
nos seculos XV e XVI, os portuguezes e os hespanhoes alçaram cruzes
e erigiram templos pelos vastos litoraes e pelas ilhas da Africa,
Asia, America e Oceania, convertendo os indigenas ao christianismo,
e transmittindo-lhes aquelle mesmo costume, caracteristico da
civilisação que representavam. Devemos porém acreditar que este ou
outro movimento civilisador dos tempos prehistoricos acharia de certo
menos resistencia, por ser menor a differença entre o estado dos povos
civilisados e o dos povos civilisadores.
Da lei da incompatibilidade dos dolmens com as construcções cyclopeas
deduz-se que estes dois generos de monumentos representam duas
civilisações prehistoricas tambem incompativeis; e que, portanto,
seriam contemporaneos os povos constructores dos primeiros e aquelles
que erigiram as segundas. Ora, como abundam os monumentos cyclopeos
nas Baleares[114] na Sardenha e na peninsula Italica, e como as
costas orientaes da peninsula Iberica defrontam com aquellas ilhas e
peninsula, concluiremos que até a essa parte da Hespanha se extenderia
a influencia da civilisação pelasgica, e que esta mesma civilisação
repugnaria o costume de construir os dolmens e os demais que a este
andariam associados.
Na Peninsula a cintura megalithica extende-se desde o golpho da
Biscaia, no logar onde as vagas do Atlantico se debatem contra as
vertentes escarpadas dos Pyreneus, até ao golpho de Almeria, onde
as ultimas ramificações da Serra Nevada se escondem nas aguas menos
agitadas do Mediterraneo. Toda a costa oriental desde o cabo de Gata
até ao cabo de Créus, comprehendendo quasi seis graus de latitude,
não tem dolmens, ou pelo menos não se tem até hoje dito que os haja
nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Por onde se vê que as
construcções pelasgicas sómente correspondem ás regiões banhadas pelo
Mediterraneo, e os dolmens ao litoral do Atlantico e ao do Mediterraneo
mais proximo do Estreito de Gibraltar, que serve para communicar os
dois mares.
Com a civilisação portanto com que se hão de relacionar os dolmens
da Scandinavia, das ilhas Britannicas, das costas septemtrionaes e
occidentaes da França, com essa mesma civilisação se devem relacionar
tambem os dolmens das regiões septemtrionaes, occidentaes e meridionaes
da peninsula Iberica. Ignorando-se o povo que introduziu o costume de
construir os dolmens, e a epoca de tal introducção, posta a lei da
antinomia dos monumentos megalithicos e dos pelasgicos, seguir-se-ha,
como consequencia necessaria, o terem sido todos contemporaneos.
Vejamos até aonde poderemos chegar, tentando resolver com estes dados o
problema da antiguidade dos dolmens. Os objectos encontrados dentro nos
dolmens, armas, instrumentos, ornatos, em muitos são sómente de pedra
polida, n’outros de pedra polida e de cobre ou de bronze, n’outros
sómente de cobre ou de bronze, n’outros em fim, de alguma das especies
mencionadas e de ferro[115]. N’alguns, têem apparecido objectos de
ouro, posto que o fabrico d’este metal devesse preceder o do ferro e
até o do cobre, como se provou na caverna de Albuñol da Andaluzia.
Encontram-se tambem commumente vasos de barro inteiros ou partidos,
toscos e sem ornatos, ou adornados com riscos ou impressões digitaes
ou unciaes. A disposição dos riscos é irregular nos mais imperfeitos,
regular ou symetrica nos menos imperfeitos. Estes achados provam, em
geral, que os dolmens foram construidos na epoca da pedra polida e na
epoca do bronze; e alguns mais raros na epoca do ferro.
Na Peninsula não têem explorado methodicamente os dolmens e os tumulos.
Apenas consta de certos objectos n’alguns encontrados. O sr. D. Manuel
de Gongora, por exemplo, achou em varios dolmens da provincia de Jaen
ossos dispersos, armas de cobre, anneis do mesmo metal, fragmentos de
louça e armas de silex. Este observador, entre outras leis, applicaveis
aos dolmens que observou, estabeleceu as seguintes:
1.ª Entra-se n’estes monumentos por estreitas passagens feitas de
grandes pedras, excepto nos de Dilar e nos de Gitanos.
2.ª Excepto os das _Majadas del conejo_, todos são quadrangulares.
3.ª Interiormente os dolmens estão lageados com grandes pedras.
4.ª Excepto um sómente, em que apparece uma peça de bronze, em nenhum
se encontram armas ou objectos que não sejam de pedra ou de cobre.
5.ª Os cadaveres apparecem collocados em leitos horisontaes e com
pequenas pedras em redor dos craneos[116].
Aos dolmens de Portugal não são applicaveis as leis 2.ª e 3.ª. As
outras sómente depois de novos estudos se poderão verificar. O sr.
Pereira da Costa encontrou machados de pedra nas antas de Alcogulo
e n’outras[117]. N’uma de Niza appareceu a grande cabeça da lança
de silex fig. 14. Na anta de Bellas encontraram-se facas e pontas
de frechas de silex, contas de collares de schisto e de calcareo,
o fragmento de osso esculpido com ornatos triangulares fig. 30, e
uma machadinha de schisto similhantemente ornada, e do mesmo genero
d’aquella que appareceu em Monte-Real, e a fig. 31 representa. N’uma
anta de Pavia appareceram quatro machadinhas similhantes de schisto com
os mesmos ornatos triangulares.
Na sepultura de Martim Affonso, perto de Muge, encontraram-se objectos
do mesmo genero, e a notavel insignia de schisto que suppomos ser
um baculo, fig. 33. D’este logar, importantissimo para o estudo da
prehistoria em Portugal, nos deu o sr. Pereira da Costa as seguintes
informações: «A sepultura de Martim Affonso não é, como á primeira
vista parece, de sujeito assim chamado, mas um sitio que é conhecido
por este nome, na propriedade do duque de Cadaval (residente em Paris).
Esta sepultura era de tres lages compridas e duas estreitas nas
extremidades, e tinha um capeamento de lages pequenas. Dentro continha
ossos de um esqueleto, dos quaes só se aproveitaram alguns fragmentos
de ossos longos, e o mais que V. viu no Museu. Esta propriedade do
duque é nas margens da ribeira de Muge, e perto do Cabeço da Arruda,
que tambem pertence ao mesmo duque».
Depois de fallar do baculo, em que não considera a fórma d’esta
insignia, porém a do phallus, accrescenta: «Com esta peça, além dos
ossos, havia nove facas de silex, uma cabeça de lança de silex, e
varios vasos pequenos de barro».
Nos dolmens de Portugal não têem até hoje apparecido objectos de cobre
ou de bronze; mas as explorações feitas são mui poucas ainda para se
deduzir d’ellas uma lei geral. É possivel que os dolmens, onde se
encontraram as insignias de schisto pertençam já á época do bronze,
apesar de se não ter achado n’elles esta liga metallica. A sepultura
de Martim Affonso, onde appareceu o baculo, prova-nos que o povo que
usava taes insignias sabia construir sarcophagos para os cadaveres, o
que denota certo grau de civilisação. Em quanto porém se não explorarem
mais antas e mais methodicamente do que até hoje, não será possivel
passar além d’esta conclusão, cuja importancia, ainda assim, não é
pequena. As insignias de schisto são caracteristicas, e, só de per si,
denunciarão o povo ou um dos povos constructores dos dolmens, logo que
se encontrem n’outras partes. Infelizmente não consta que até hoje se
tenham descoberto fóra de Portugal. Na Scandinavia têem apparecido umas
enxadas de pau de veado com esboços mais rudes que os do Périgord, e
que representam quadrupedes, corsas talvez. Ao lado d’estes esboços
vêem-se traços rectilineos formando os desenhos triangulares das nossas
placas de schisto. Se a esta circumstancia accrescentarmos que os
dolmens mais similhantes ao maior numero e tambem aos mais imperfeitos
de Portugal são os da Dinamarca, persuadir-nos-hemos de que ha toda a
probabilidade de que gentes da mesma raça povoariam ou civilisariam nos
tempos prehistoricos certas regiões da peninsula Iberica e da peninsula
Scandinava.[118]
Se os dolmens são contemporaneos das nuraghas, as excavações feitas
n’estes monumentos devem dar resultados comparaveis áquelles que temos
mencionado. Apesar das poucas explorações até hoje emprehendidas,
sabe-se que nos talayots das Baleares[119] e nas nuraghas da Sardenha
se tem encontrado objectos de cobre e de bronze. N’algumas d’esta
ultima ilha têem apparecido facas de silex. Portanto a maior parte de
taes construcções remontam á epoca do cobre ou do bronze; e algumas á
epoca da pedra polida. Isto mesmo se confirma pelo apparelho. Umas,
de pedras brutas, são anteriores provavelmente á invenção do cinzel;
outras, de pedras afeiçoadas, manifestam já a acção de instrumentos de
metal. Affirma o abbade Spano que algumas nuraghas são feitas na parte
inferior de pedras brutas, e na parte superior de pedras apparelhadas,
parecendo aquella da epoca da pedra polida, e esta da idade dos metaes.
O apparelho irregular corresponde a uma camara inferior; o regular a
uma camara superior que posteriormente sería accrescentada á primeira.
Demais são frequentes estes casos de accrescentamentos e reparações
das nuraghas primitivas em varias epocas[120]. Dos poucos estudos até
hoje emprehendidos nos dolmens de Hespanha e de Portugal deduziremos os
seguintes corollarios:
1.º Os dolmens da Peninsula, como outros da Europa, como as nuraghas
da Sardenha, foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do
bronze ou do cobre.
2.º Geralmente fallando, os dolmens de Portugal são mais imperfeitos
que os da Andaluzia.
3.º É provavel que a antiga raça que na Scandinavia construia os
dolmens e fabricava enchadas de ponta de veado fosse a mesma que na
Iberia occidental construisse ou introduzisse o costume de construir os
dolmens, e se servisse de insignias de schisto com ornatos triangulares.
Para que serviriam os dolmens ou com que fim os erigiriam? A opinião
mais commum é que os dolmens serviriam para guardar as cinzas dos
mortos. Assim se explica até mui naturalmente a origem de taes
monumentos, considerando-os ou como um meio de supprir a falta das
cavernas sepulchraes, ou como um aperfeiçoamento ou desenvolvimento do
montão de pedras que primitivamente lançariam sobre o cadaver. Tambem
não ha impossibilidade em crêr que o dolmen, erigido primeiro sobre
o cadaver, no proprio logar da morte, fosse depois construido onde
parecesse mais conveniente, e o cadaver transportado do sitio, em que
jazera, para a sua nova morada.