grandes pedras. Em alguns de Portugal subsistem ainda pedras, restos de
similhantes passagens ou galerias de entrada. Eram á parte do oriente
nos dolmens da Tisnada e do Pinheiro, a treze e dezeseis kilometros,
pouco mais ou menos da cidade de Evora. Ambos foram erigidos sobre
monticulos artificiaes. Não resta porém um só indicio de que fossem
primitivamente cobertos de terra[90].
A Hespanha, proporcionalmente, não é tão rica de dolmens, como
Portugal. Todavia sabe-se de muitos, sobre tudo na Andaluzia e na
Extremadura, onde lhes chamam _garitas_. Já mencionámos os da Galiza;
e é provavel que egualmente se encontrem nas terras litoraes do
norte, onde existem outros megalithos. Nas provincias orientaes não
são conhecidos. Lamentamos que se não tenham descripto e estampado os
dolmens das provincias hespanholas, das quaes sómente se conhecem pelo
livro de Gongora, uma parte dos da Andaluzia. Em Portugal, graças aos
trabalhos de Mendonça de Pina e de Pereira da Costa, podemos fazer
alguma idêa do numero, estructura e distribuição geographica d’estes
monumentos.
O sr. Gongora mencionou treze dolmens, entre os quaes se contam os de
Hoyon e de Ascensias, n’uma região comprehendida entre Illora e Alcalá
la Real, na distancia de mais de tres kilometros[91]. É muito notavel
pelo grande comprimento, inclinação e fórma brutesca, a mesa do dolmen
de Ascensias. O dolmen que chamam _Piedra de los sacrificios_, no
termo municipal da Ronda, na provincia da Andaluzia, tem tambem a mesa
inclinada, porém não tanto, como o de Ascensias[92].
N’alguns dos dolmens, cujas mesas são obliquas, é possivel que a
obliquidade resultasse de se terem desviado ou abatido as pedras de um
dos lados. N’outros porém parece que de proposito se teria inclinado a
mesa; e não falta quem interprete esta particularidade de construcção,
dizendo que ou sería em signal de reverencia á Divindade, ou para
indicar a direcção da alma para o ceu, que assim apontariam ao alto a
pedra superior. Mas será licito applicar á construcção dos monumentos
prehistoricos uma regra observada na edificação das cathedraes da edade
media?
[Illustração: Fig. 54
DOLMEN DEL HOYON.]
A lei geral da distribuição dos dolmens pela Europa, convem a saber
o abundarem nas regiões litoraes e faltarem nas terras interiores,
applica-se tambem aos da Peninsula. Com effeito encontram-se numerosos
na Galiza e em Portugal, e aqui no Alemtejo mais que em qualquer outra
parte; continuam depois pelo Algarve e pela Andaluzia; e com quanto não
tenham sido mencionados nas provincias litoraes do golfo de Biscaia,
é provavel que lá existam por se conhecerem por esses sitios outros
monumentos megalithicos. Na região menos distante dos Pyreneus ha nas
provincias vascongadas os tumulos com dolmens interiores de Alava e de
Eguilaz, e suppõe-se existirem outros nas proximidades de Salvaterra,
em Arizala e Ocáriz. De Santander já conhecemos as pedras balouçantes
de Abra e de Boariza.
Os dolmens cingem, como extensa faxa, a Peninsula pelo norte, occidente
e meio-dia. Faltam, porém, nas provincias orientaes, apesar de banhadas
pelas aguas do Mediterraneo. Pelo menos até hoje não se têem mencionado
nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Pelo contrario n’estas
regiões encontram-se vestigios da architectura denominada cyclopea,
que escassêam muito, se não faltam inteiramente, onde os dolmens
predominam. Adiante, por mais de uma vez nos occuparemos d’este ponto
interessante da antinomia dos dolmens e das construcções cyclopeas, e
portanto da incompatibilidade das civilisações correspondentes.
[Illustração: Fig. 55
DOLMEN DE ASCENSIAS.]
Todos os monumentos de que temos tractado erguem-se livres e
descobertos na superficie da terra. Ha dolmens cobertos de terra
formando collinas ou monticulos artificiaes. Os archeologos chamam-lhes
tumulos (_tumuli_). Em Portugal têem o nome vulgar de _mamunhas_; de
_mamôas_, _madorras_ ou _modorras_ na Galiza[93].
De Caumont e outros suppozeram que todos os dolmens seriam em principio
cobertos de terra, ou verdadeiros tumulos, e que, pelo decurso do
tempo, cahiria a terra a uma e outra parte, deixando descarnado o
esqueleto megalithico. Esta hypothese teria a vantagem de reduzir a uma
só especie tanto os dolmens como os tumulos, cuja similhança está não
somente na construcção, mas tambem nos objectos que dentro de todos se
têem encontrado. Foi, porém, abandonada, por estar em discordancia com
os factos observados. Com effeito em muitos dos dolmens descobertos
têem apparecido numerosos objectos de mais ou menos valor. Ora, quem
lhes tivesse tirado a terra que os cobria de certo não deixaria dentro
d’elles taes objectos. Em muitos logares acham-se promiscuamente os
dolmens e os tumulos: tambem não é crivel que desenterrassem uns e
deixassem outros debaixo da terra. Finalmente alguns dolmens, como
os da Tisnada e do Pinheiro, perto de Evora, foram construidos sobre
monticulos artificiaes, o que ninguem de certo faria, se houvesse de
cobril-os de terra.
[Illustração: Fig. 56
VISTA INTERIOR DO TUMULO DE ANTEQUERA.]
Já vimos que a maior parte dos archeologos acreditam que os dolmens
serviriam de sepulturas. Com relação aos tumulos, é mais geral ainda
esta crença, fundada no descobrimento que se tem feito de ossos humanos
em grande numero d’estes megalithos. Os auctores hespanhoes que em
varias epocas têem escripto das mamôas concordam em consideral-as como
sepulturas[94]. O nome de _modorra_, somno, por que são conhecidas,
derivaria provavelmente d’essa mesma opinião.
Nem todas as mamunhas são verdadeiros tumulos na accepção archeologica
d’esta palavra. Falta em muitas o dolmen interior. Não são mais que
montões de terra ou de pedras. Estas mesmas têem sido geralmente
consideradas como sepulturas; e escriptores ha que affirmam terem-se
encontrado urnas cinerarias dentro n’ellas[95].
Na Galiza são frequentissimas as mamunhas e raros os dolmens. Da
Andaluzia, pelo contrario, conhecem-se muitos dolmens e não se
mencionam mamunhas. Similhantemente em Portugal são innumeros os
dolmens no Alemtejo, onde não apparecem as mamunhas, que se encontram
nas provincias do norte. Tambem da mesma sorte nas regiões meridionaes
da Europa abundam os dolmens, e nas septemtrionaes os tumulos. É
possivel que as condições do clima tenham influido na distribuição de
uns e de outros monumentos; que o frio obrigasse a revestir os dolmens
com uma espessa camada de terra nos paizes septemtrionaes; e o calor
favorecesse a sua conservação ao ar livre nas regiões meridionaes.
[Illustração: Fig. 57
VISTA EXTERIOR DO TUMULO DE ANTEQUERA.]
Na Europa os paizes mais abundantes de tumulos são a Suecia, a
Dinamarca, Bretanha, Suissa, Inglaterra, Escocia e Irlanda. Na
Peninsula ha tambem alguns, dos quaes o mais notavel é o de Antequera
na provincia de Malaga (fig. 56).
Chamam-lhe _Cueva de Mengal_. Ha grande analogia entre esta palavra
_mengal_ e a palavra _gal-gal_ com que os bretões designam os
monumentos congeneres da Bretanha. Em linguagem celtica, dizem, a
palavra _men_ significa pedra, e _gal_ significa tambem pedra. Outros
suppoem que _mengal_ se ha de antes derivar de _men-lac’h_, equivalente
a pedras sagradas[96].
Do tumulo de Antequera dá o sr. D. Manuel de Assas a seguinte
descripção, seguindo a Memoria de D. Rafael Mitjana y Ardison, á qual
se reporta:
[Illustração: Fig. 58
VISTA LATERAL DO TUMULO DE ANTEQUERA.]
[Illustração: Fig. 59
PLANTA DO TUMULO DE ANTEQUERA.]
«O monumento de Antequera é um monticulo artificial de terra carreada,
da qual já as aguas levaram grande parte, e contém um dolmen
complicado, com uma só entrada, que a fig. 57 representa, e corresponde
á parte do oriente. Tem interiormente o comprimento de oitenta e seis
e meio pés hespanhoes, e vinte e dois de largura na parte onde é mais
largo. A sua elevação actual é de dez a dez e meio pés. Consta de
trinta e uma pedras, lavradas (_labradas_) pela face interior e em
bruto pela parte opposta, as quaes fórmam as paredes de tres pés de
espessura. O fundo ou topo do dolmen é uma só pedra da mesma grossura.
Estão enterradas tres ou quatro pés, servindo-lhes a terra de cimento.
Cobrem todo o espaço cinco pedras colossaes, apoiadas sobre aquellas
que fórmam as paredes lateraes, e tambem em tres grandes pilares, de
uma só peça cada um, e lavrados nas quatro faces, erguidos na linha
media do vão interior, e dando cada um assento a duas das pedras do
tecto. Estes pilares estão enterrados mais de tres pés, e a sua altura
total até ao tecto será de quatorze ou quinze pés, com tres de grossura
e quatro de largura. Ha mais duas grandes pedras que formam a entrada,
e estão descobertas, ignorando-se se sempre assim terão estado. Vêem-se
por fim separados a um lado da entrada tres grandes pedaços de pedra
que seriam talvez parte d’aquella que falta no dolmen. Os pedregulhos
que fazem de paredes estão lavrados a picão grosseiramente pela face,
em bruto por detraz, recortados pelos cantos e mettidos na terra de
tres a quatro pés.
«As cinco pedras de mesa têem as seguintes dimensões, contando da
entrada:
Pedras Largura Comprimento Grossura
-------------------------------------------------------
1.ª 16 18 4
2.ª 14¹⁄₂ 21 4
3.ª 12¹⁄₂ 26 4
4.ª 16 27 4¹⁄₂
5.ª 23 27 4¹⁄₂
«Todos estes numeros se referem ao pé hespanhol. A 3.ª pedra está
fendida, como se vê na planta. As tres primeiras pedras do tecto estão
actualmente descobertas. A qualidade da pedra é de calcareo terciario,
porém de grãos mui pequenos, como areia grossa. É mui tenaz e avaliando
o pé cubico em quatro arrobas castelhanas, imaginem os leitores como
poderiam os homens, sem os apparelhos hoje conhecidos, mover, manejar
e collocar tamanhas moles. A pedreira d’onde extrahiram as pedras é o
sitio e cerro do Calvario, distante do tumulo mais de mil varas.
«Na collocação das pedras lateraes observa-se que, por detraz das
junturas, entre pedra a pedra, está posta com arte uma porção de pedras
pequenas formando parede, a fim de que não entre por essas junturas
terra ou agua. Os tres pilares, postos para ajudar a suster as pedras
do tecto, estão relaxados, por terem cahido parte dos seus calços, e
poderiam tirar-se sem perigo nenhum de ruina para o monumento, porque
não se apoia nada sobre elles. Fez-se uma excavação no centro da cova
por baixo da grande pedra, onde se esperava encontrar ossadas, urnas ou
outros objectos, na profundidade de vinte a vinte seis pés, porém nada
se descobriu. O mesmo aconteceu n’uma galeria que se fez no fundo e que
dá para outro montão de terra existente detraz da cova»[97].
Ha outro monumento congenere na mesma provincia da Andaluzia, a algumas
leguas de Antequera, para a parte de oeste, além de Sevilha, a alguma
distancia da margem direita do Guadalquivir. Chamam-lhe _Cueva de la
Pastora_. Visitou-a, poucos annos depois de ser por acaso descoberta,
D. F. M. Tubino que a descreveu pela fórma seguinte:
«A cova da Pastora é uma galeria artificial com vinte e sete metros de
comprimento na parte que até hoje se tem descoberto. A sua largura é de
um metro, mal medido, e a maxima altura não passa de dois. Não se desce
ao interior sem algum trabalho, pois a entrada está na profundidade
de um metro, ao qual se ha de accrescentar a altura da galeria. Esta
dirige-se de oriente a occidente, e n’esta ultima direcção deverá ter
a entrada. Caminhando pelo subterraneo para oriente, pois da parte
opposta se conserva obstruido, chega-se a uma primeira porta ou marco
situado a onze metros da abertura. Consta a galeria de dois muros de
sustentamento, feitos de pedregulhos sobrepostos, sem especie nenhuma
de cimento ou argamassa que os una. O pavimento está coberto de terra,
porém cavando até tres ou quatro pollegadas de fundo apparece a pedra,
de que realmente é formado. Sobre os muros assentam pedras enormes
de natureza granitica ou arenosa, sem vestigios de lavor artificial,
com angulos irregulares nas junturas, por onde a habilidade suppriu a
arte, pois se fez com que as depressões de uma pedra correspondessem ás
saliencias de outra.
«Passada a primeira porta, formada por tres lages de trinta a trinta e
dois centimetros de espessura, duas collocadas vertical e a terceira
horisontalmente, sobresahindo tanto aos planos normaes da galeria que
simulam bastidores ou umbraes, segue-se um espaço de dezeseis metros,
que termina n’uma segunda porta, similhante á primeira. Transposta esta
passagem, entra-se n’uma camara semi-circular, cujo pavimento fica
inferior ao da galeria, e cujas dimensões verticaes tambem são maiores.
O diametro d’esta especie de rotunda é de dois metros e sessenta
centimetros; a altura não andará longe de tres metros. Observam-se
nos muros duas zonas; a inferior de fabrica similhante á da galeria;
a superior tem grandes pedras collocadas no sentido ou do seu eixo
horisontal, ou do seu eixo vertical, as quaes vão avançando para o
centro do circulo até formar um rebordo ou moldura (repisa) contínua,
sobre a qual descança outra grande pedra que por si só cobre toda a
circumferencia. O pavimento está da mesma sorte coberto por outra pedra
assaz espessa»[98].
Perto da entrada artificial da galeria acharam-se, debaixo de uma
pedra grande, trinta frechas de bronze. Este facto e as condições
architectonicas do monumento que o afastam por extremo dos rudes e
grosseiros dolmens, faz crer que teria sido construido já na epoca do
bronze. Á mesma epoca deverá pertencer o tumulo de Antequera, no qual
o lavrado das faces interiores das pedras que o fórma está egualmente
indicando uma epoca menos antiga que a dos dolmens.
O sr. Tubino acha grande similhança entre as plantas, as fórmas e
outras particularidades da cova da Pastora e do monumento sepulchral
de Mane Nelud de Locmariaker. E por isso julgou que tanto a galeria de
Castilleja de Guzman como o megalitho de Antequera seriam monumentos
sepulchraes. N’aquelle não se tem até hoje encontrado objectos nenhuns
além das mencionadas frechas de bronze[99].
Serão galerias da mesma especie que a de Castilleja as Furnas do Monte
da Polvoreira? A pedra balouçante proxima indicará talvez que estes
monumentos pertencerão aos menos antigos dos megalithos da Peninsula.
O mesmo diremos das alas de pedra (galerias?) com o menhir proximo no
caminho de Cepães a Fafe. Todos estes monumentos jazem no districto de
Braga, e distarão alguns cinco kilometros uns dos outros[100]. Porém
não foram ainda estudados.
Na galeria de Castileja observam-se alguns caracteres notaveis que
parece denotarem a fusão da architectura cyclopea com a dolmenica n’uma
região da Peninsula, onde viriam a encontrar-se as duas civilisações
que ellas representavam. A galeria não é feita unicamente de pedras
disformes, umas postas verticalmente, outras horisontalmente sobre as
primeiras, como em todos os monumentos congeneres da Europa. Antes de
chegar á camara semi-circular passa-se por duas portas, cujos umbraes
sobresahem ás paredes interiores da galeria. Nas paredes da camara
vêem-se os dois apparelhos dolmenico e cyclopeo, e, o que até hoje
não nos consta que tenha sido observado em monumentos d’esta especie,
começaram a formar uma abobada sobre os muros, a qual acabaram de
fechar com uma grande lage. Aqui sobre tudo se nos patentêa a fusão dos
dois estylos, n’esta abobada cyclopea fechada á maneira dos dolmens.
Os vestigios da architectura cyclopea até hoje notados em Hespanha vem
a ser a parte inferior das antigas muralhas de Tarragona, o _Castillo
de Ibros_ no districto judicial de Baeza, os Corralejos na Andaluzia.
Os talayots e mapalias ou magalias das ilhas Baleares acabam de mostrar
o desenvolvimento da architectura cyclopea nas regiões orientaes da
Hespanha, isto é, onde não apparecem dolmens. Finalmente na Andaluzia,
onde as duas architecturas chegam a encontrar-se, misturam-se, como
em tempos posteriores, por algumas partes das mesmas regiões se
fundem, apesar de antinomicos, os estylos arabe e christão, formando o
denominado estylo mudejar.
O tumulo de Eguilaz na provincia vascongada de Alava tem muito menores
dimensões que o de Antequera (fig. 60, 61 e 62). Contam-se dentro treze
pés em comprido e dez em largura. A pedra que cobre o tumulo é uma só
peça com dezenove pés de comprido e quinze de largo. A entrada para o
tumulo da parte do oriente principia a vinte pés, pouco mais ou menos,
por um caminho coberto, de quatro pés de largura e quatro de altura.
Quando se descobriu este recinto estava cheio de ossadas por entre as
quaes se encontraram algumas armas, taes como lanças, umas de pedra
outras de cobre. Havia tambem corações pequenos com orificios na
parte mais larga, todos de pedra durissima, e alguns dentados á roda
á maneira de serra. Os esqueletos jaziam deitados com a cabeça para o
oriente e os pés ao poente. Tal era tambem a orientação do tumulo[101].
O tumulo de Eguilaz foi descoberto em 1832. Na mesma provincia
appareceu outro sobre o rio Zadorra, a uma legua de Victoria, quando
reconstruiam o moinho de Escalmendi. Dizem haver outros similhantes
monumentos em pequena distancia de Salvatierra, em Arizala e Ocáriz.
Ha tambem na provincia de Alava, debaixo da ermida de S. Miguel de
Arrechinaga, tres pedras grandes encostadas umas ás outras, formando
uma como pyramide. D. José Amador de los Rios e outros consideram estas
tres pedras como um megalitho, talvez a parte de um dolmen, outros
porém julgam que taes pedras appareceram assim naturalmente, e seriam
aproveitadas para servir de base á ermida[102].
Ha uns monumentos que, posto que em rigor não mereçam o nome de
megalithos, estão comtudo tão naturalmente com elles relacionados, que
ficaria incompleto este capitulo, se não dissessemos a seu respeito
algumas palavras. São os _castros_ que na Galiza tambem chamam croas,
contracção de _corôas_, pela sua fórma circular. O sr. D. José
Villa-Amil y Castro descreveu sessenta e tres castros d’aquellas
provincias. Em Portugal, particularmente nas provincias septemtrionaes,
tambem se encontram alguns, mas até hoje não têem sido estudados.
[Illustração: Fig. 60
Fig. 61
Fig. 62
TUMULO DE EGUILAZ NA CHAPADA DE ALAVA[103].]
Aquelle escriptor define os castros nos termos seguintes: «O elemento
caracteristico de um castro é a fortificação de um terreno, de fórma
elliptica, e na extensão, termo medio, de uma fanga ou vinte e cinco
areas. Essa fortificação consiste n’um fosso e n’um parapeito, ou em
varias d’estas obras defensivas, aproveitando-se em certos casos as
condições vantajosas do terreno (procuradas talvez de proposito), taes
como a elevação e o escarpamento das vertentes; a maior separação
possivel dos montes convisinhos, sem ter com elles outra ligação
mais que um pequeno isthmo ou lingueta; e a proximidade de riachos
para o abastecerem de agua e para difficultarem o accesso ao logar
fortificado».
O auctor suppõe que os castros não eram unicamente fortificações,
mas tambem povoações, o que prova pelos vestigios de casas n’alguns
encontrados, e por varias referencias de documentos antigos. Finalmente
das armas e instrumentos de pedra, de bronze e de ferro, dos fragmentos
de lança deduziu que os castros da Galiza teriam a sua origem em
tempos prehistoricos, mas que continuariam a servir de habitações e de
fortificações durante a dominação romana, pelo espaço de mais ou menos
seculos na idade media, e alguns em fim ainda no alvorecer da idade
moderna. Prova tambem com documentos a conservação e habitação dos
castros em tempos tão pouco remotos[104].
Viterbo não reporta além dos romanos a origem dos castros. Na opinião
do auctor do Elucidario, _castrum_ sería um pequeno arraial para
uma legião ou brigada. Alguns, accrescenta, se povoaram, e ficaram
conservando a povoação, para ser defensavel, e servir mesmo de
_atalaya_, _cidadella_ e _guarda_ ás campinas e logares chãos e abertos
ás correrias dos inimigos.
J. da C. Neves e Carvalho observou pessoalmente os castros de
Traz-os-Montes e definiu-os dizendo serem elevações circulares formadas
de terra, e pela maior parte circumdadas de grossas lages, se o terreno
as fornece, e n’outros de um pequeno vallado ou parapeito de terra,
em toda a circumferencia. Estimou-os eguaes em tudo aos da Galiza,
e adoptou a opinião expendida pelo auctor de uma historia d’esta
provincia, que entendeu teriam servido de templos aos celtas[105].
Esta hypothese vogou por algum tempo em Hespanha. Mas as observações
citadas de Villa-Amil y Castro deram em terra com este e outros velhos
preconceitos.
Será talvez um monumento do mesmo genero a denominada _Cava de Viriato_
em Vizeu, com quanto não conserve já hoje a fórma caracteristica
dos castros. Em 1461 tinha portas que se abriam e fechavam e dentro
havia uma capella com a dedicação de S. Jorge. Em 1728 foi medida por
ordem regia a _Cava de Viriato_ e achou-se que os muros ou aterros
tinham tres _Lanças_ de altura e quarenta palmos de largura no cimo.
O circuito dos muros era de tres mil e sessenta e cinco passos, e
conservavam ainda quatro grandes vãos, d’onde tinham tirado a cantaria.
Já ha muito que a parte oriental do circuito está arrazada, e aforado
o terreno respectivo[106]. A parte restante, depois d’esta destruição
e das cerceaduras dos possuidores das glebas contiguas, é ainda
muito extensa, e está hoje coberta de arvores que asseguram a sua
conservação. Na face que olha á cidade vê-se, em parte d’ella, um muro
de pedra ensossa, que parece ter sido feito para sustentar d’esse lado
o aterro.
NOTAS DE RODAPÉ:
[72] _Collecção dos documentos e memorias da Academia Real de Historia
Portugueza, tomo_ XIV, conferencia de 30 de julho de 1733.
[73] _Megalitho_, do prefixo _mega_, grande, e de _lithos_, pedra. Esta
palavra tem o inconveniente de ser tambem applicavel aos monumentos
cyclopeos ou a quaesquer outros, feitos de pedras grandes.
[74] _Menhir_ de _men_, pedra, e de _hir_, longo. _Cromlech_,
_kroumlech_ de _kroumm_, curva, e de _lech_, pedra sagrada. _Dolmen_ de
_tolmen_, mesa de pedra.
[75] D. Ramon Barros Sivelo, _Antigüedades de Galicia_. Coruña 1875,
pag. 73 e 74.
[76] _Semanario Pinturesco Español 1857. Nociones
fisionómico-historicas de la arquitectura en España_, pag. 130.
[77] Pereira da Costa, _Dolmins ou antas de Portugal_. Lisboa 1868,
pag. 91.
[78] _Os dolmens._ Lisboa 1876, pag. 10.
[79] _L’âge de bronze._ Pariz 1866.
[80] Idem, pag. 53 e 54.
[81] _L’âge de bronze._ Pariz 1866.
[82] Esta significação acha-se em Viterbo verb. _Fito._--Alguns
documentos da collecção _Portugaliæ monumenta historica_ dão o
verdadeiro sentido da expressão _Petra ficta_. Nos _Dipl. et Chart._
pag. 11, doc. 17... et inde per petras fictas que _ab antico pro
termino fuerunt constitutas_.
«Estes marcos são designados de mui differentes modos nos documentos.
Eis alguns:... per monte usque ad memorales in terminos de figaretum...
petras fictas ubi dicet terminum... et de illa petra balestaria...
petras fictiles... duas contesta qui dividet inter villa cova et
laureda per areas antiquas et per petras sicilatas... petra fitada...
petra ederata...
«Alguns marcos tinham signaes ou characteres... petra scripta ubi dicet
terminum... Invenimus ibidem in petra caracterem Sancti Vicentii, et
exinde in alia petra invenimus cruce... quousque ad barca qui sedet
sculta in petra... quousque in terra tumeda qui fuit manum facta. Nota
do sr. Gabriel Pereira no _Instituto_, tomo XXI, pag. 286.
[83] _Semanario Pinturesco Español_, tom. cit.
[84] _Semanario Pinturesco Español_, tom. cit.
[85] Rougemont, _L’âge de bronze_, pag. 56.
[86] Pereira da Costa, _Dolmins ou antas de Portugal_, pag. 91. Resta
provar se as galerias e pedra citadas serão obras da arte ou da
natureza.
[87] Os desenhos das antas do Crato e de Ancora vem na _Memoria_ de
Pereira da Costa e no _Boletim da Real Associação dos Archeologos
portuguezes_, num. 11.
[88] Sivelo, _Antigüedades de Galicia_.
[89] _Magasin Pittoresque_ 1864, pag. 80.
[90] Gabriel Pereira, _Antas dos arredores de Evora_.
[91] _Antigüedades prehistoricas de Andalucia._
[92] Do dolmen da Ronda, deu ha poucos dias uma bella gravura o
periodico de Madrid _La Academia_.