Gibraltar e de Albuñol na Andaluzia, e os das estações prehistoricas
da epoca da pedra polida em Portugal, taes como a Fonte da Ruptura e a
Pena de Setubal, a Cova da Estria, etc. No museu da Escola Polytechnica
ou na Commissão geologica, talvez em ambas as partes, se conservam
tambem fragmentos de louça tintos com almagre. Da exploração da caverna
de Albuñol pelo sr. Gongora já demos noticia n’um dos capitulos
anteriores[66].
Em Portugal têem-se emprehendido menos explorações que em Hespanha.
Comtudo as do sr. Delgado nas cavernas de Cesareda, pelo cuidado com
que foram feitas, pela minuciosidade e exactidão das noticias que
publicou, serão em todo o tempo dos mais importantes subsidios para o
estudo d’esta parte da prehistoria peninsular.
A Cesareda é um planalto de calcareo, situado ao norte da linha
divisoria d’aguas do Tejo, a seis kilometros da costa do mar, e além
do sopé septemtrional da serra de Monte-Junto. A Casa da Moura, a Lapa
furada e a Cova da Moura foram as tres cavernas exploradas na Cesareda,
e descriptas em 1867 pelo sr. Delgado. A primeira é de todas tres a
mais importante, não sómente pelas suas dimensões, mas tambem pelo
numero e variedade de restos humanos e de animaes que se descobriram.
Consta interiormente a caverna de duas salas irregulares com abobadas
em alturas differentes; a da sala de fóra mas baixa e inclinada, a da
outra sala, muito alta e similhante a um zimborio. Dá entrada para
a caverna um poço vertical rectangular, com uns quatro metros de
profundidade, e tres na sua maior largura.
Verificou-se haver na sala de fóra dois depositos de idades differentes
sobrepostos. No superior abundavam os ossos humanos e os utensilios
e instrumentos de pedra polida, de osso, de ponta de veado e de
barro. Pelo contrario no deposito inferior appareceram apenas alguns
silex lascados, o fragmento de um puncção de osso e um craneo humano
mesocephalo. Entre os objectos achados no entulho superior da sala
exterior da Casa da Moura é muito para notar-se o fragmento de um
osso longo, provavelmente um humero humano, cheio de terra amassada
com vertebras pequenas e ossiculos que pareceram de morcego. Na sala
interior appareceu tambem outro fragmento de osso humano longo,
similhantemente cheio de terra amassada com ossos de morcego[67].
O sr. Delgado admitte, como cousa provavel, que os habitantes da Casa
da Moura fossem anthropophagos. A sua opinião tem por fundamento os
factos seguintes: 1.º Serem muito mais numerosos os ossos longos
que os chatos ou curtos. 2.º Acharem-se alguns partidos no sentido
longitudinal. 3.º Faltarem á maior parte as extremidades articulares.
4.º Terem pertencido a maior parte das maxillas a individuos novos, e
algumas a crianças de tenra idade. 5.º Parecerem alguns excavados por
dentro. 6.º Não ter apparecido senão um craneo inteiro, porém muitos
partidos em fragmentos pequenos[68].
Esta questão da anthropophagia dos habitantes das cavernas, durante
os tempos prehistoricos, tem sido muito debatida. É obvia a sua
importancia. A existencia de tal costume importaria necessariamente
a idéa de degradação e inferioridade moral. Spring é quem mais
tem querido persuadir que os homens prehistoricos, teriam sido
anthropophagos, estribando-se n’alguns dos factos observados na Casa
da Moura, já antecedentemente conhecidos de outras cavernas.
Na opinião de alguns auctores as provas adduzidas para qualificar de
anthropophagos os habitantes das cavernas são insufficientes. Os ossos
podem partir-se sómente pela acção do peso da terra que os cobre. A
fractura operada em taes circumstancias é transversal. Porém sob a
influencia da atmosphera, segundo affirma Dupont, é possivel tomarem
os fragmentos a fórma de lascas alongadas, similhantes áquellas que
resultariam da fractura intencionalmente feita pela mão do homem. Os
esquimaus contemporaneos partem ainda hoje os ossos compridos com os
calhaus rolados. Por muitas vezes os percutem nas extremidades para
fazer saltar fóra as epiphyses. Depois fendem o corpo do osso com
o mesmo calhau. Em certas cavernas têem apparecido ossos partidos
por esta fórma, nos quaes se observam os vestigios das percussões
que padeceram. Porém nos ossos humanos ainda se não apontaram taes
vestigios. É possivel que estes ossos, apparecidos em tantas cavernas
e mencionados como provas de anthropophagia, não sejam senão restos
de corpos ali enterrados. Acharem-se tão divididos em fragmentos é
um facto que se explica ou pelo peso da terra e pela acção do ar, ou
por terem entrado as féras dentro das cavernas para revolver a terra
e partir os ossos. As cavernas que o homem hoje explora o têem sido
já antecedentemente pelas raposas e texugos. A raposa, dizem, chega a
exhumar as ossadas, por mais antigas que sejam, para as roer no tempo
da neve ou em quanto nutre os filhos; isto é quando a fome a obriga a
supprir a falta de alimentos com substancias em que a materia organica
deve ter quasi inteiramente desapparecido. Esta causa sería pois
sufficiente para explicar a falta das extremidades articulares nos
ossos longos, e o desgastamento do canal medullar, observados pelo sr.
Delgado[69].
Razões ponderosas obstam a que se considere a anthropophagia costume
geral dos habitantes das cavernas. Excepto em condições excepcionaes,
como sob o imperio da fome ou de instinctos depravados ou corrompidos,
nenhum animal se alimenta com as carnes de qualquer cadaver de um
individuo da sua mesma especie. Esta repugnancia deriva provavelmente
da lei geral da conservação especifica, segundo a qual, os individuos
da mesma especie não podem destruir-se uns aos outros. Os selvagens
anthropophagos são excepções. D’alguns se sabe entre os quaes se tem
conservado este costume, somente pela razão de não terem carne de
animaes para se alimentarem. Em certas ilhas do Pacifico cessou a
anthropophagia logo que os navios europeus as forneceram de gados que
antecedentemente não tinham[70].
Dos sentimentos de horror, de medo, de nojo que entre as mais
antigas das nações civilisadas inspiravam os cadaveres, a ponto de
se julgar impuro o individuo que tivesse tocado algum, concluiremos
a incompatibilidade da anthropophagia com as condições sociaes de
qualquer povo, entrado na via do progresso e capaz de se elevar pelo
desenvolvimento das faculdades intellectuaes e moraes, a um grau
superior de civilisação e cultura.
Alguns dos craneos inteiros ou mutilados, descobertos em Hespanha
na Cueva de la Mujer da Alhama de Granada, e em Portugal no Cabeço
da Arruda e nas cavernas de Cesareda pareceu ao sr. Quatrefages
reproduzirem alguns dos mais proeminentes dos caracteres do celebre
craneo de Forbes’Quarry em Gibraltar, e poderem attribuir-se ao
cruzamento de individuos d’aquella mesma raça com os de outra raça
differente. Taes foram as razões que induziram o sr. Tubino a referir
ao mesmo periodo da epoca neolithica as estações prehistoricas de
Alhama, de Cesareda e do Cabeço da Arruda[71].
NOTAS DE RODAPÉ:
[61] Burgmeister, _Histoire de la création_. Pariz 1870, pag. 591 e 592.
[62] Vilanova, _Prehistorico español--Epoca neolithica--Museo español
de antigüedades_, tomo 1.
[63] Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y
Portugal, Museo español de antigüedades_, tomo VII, 1876.
[64] Vilanova, Mem. cit. do _Museo español de antigüedades_ e dos
_Anales de la sociedade de historia natural_.
[65] G. Mac-Pherson, _La Cueva de la Mujer_. 1.ª e 2.ª parte.
[66] Vej. cap. IV, pag. 57.
[67] Delgado, _Noticia ácerca das grutas de Cesareda_. Lisboa 1867.
Animaes das cavernas de Cesareda:
_Erinaceus_
_Canis lupus_
_Felis_
_Arvicola_
_Lepus_
_Cervus_
_Vespertilio_
_Canis vulpes_
_Myoxus_
_Mus_
_Equus_
_Ovis_.
[68] Ibidem.
[69] Dupont, _L’homme pendant les âges de la pierre_. Pariz 1872.
[70] M.ᵐᵉ Clemence Royer, _Les rites funéraires aux époques
préhistoriques_. Pariz 1876.
[71] _Crania ethnica._ Tubino, _Loc. cit._ Vid. o cap. III d’este
livro a pag. 27.
CAPITULO VI
OS MEGALITHOS
_Os megalithos.--Especies varias.--Menhires.--Fins para que
serviriam.--Alguns symbolisavam a Divindade.--Alinhamentos
e cromlechs.--Pedras balouçantes.--Algumas serviriam de
altares.--Dolmens.--Differenças entre os de Portugal, Andaluzia
e Galiza.--Distribuição geographica d’estes monumentos na
Peninsula.--Tumulos.--Differem essencialmente dos dolmens.--Serviram
de sepulturas.--Lei da distribuição geographica dos tumulos.--Cueva
de Mengal.--Cueva de la Pastora.--Lei da antinomia dos monumentos
megalithicos e cyclopeos.--Tumulos da provincia de Alava.--Castros da
Galiza e de Traz-os-Montes.--Cava de Viriato em Vizeu._
As antas ou dolmens, bem como outros monumentos, rudemente fabricados
de grandes pedras, eram ainda ha pouco tempo attribuidos aos celtas.
Chamavam-lhes _altares ou monumentos druidicos_, por julgarem que
teriam servido para as ceremonias do culto, usadas por aquelles povos,
cujos sacerdotes n’algumas partes se denominavam _druidas_. Tal era a
opinião dos archeologos do seculo passado e da primeira metade d’este
seculo, seguida pelo nosso Martinho de Mendonça de Pina, da Academia da
Historia, na dissertação que escreveu do assumpto[72].
Porém modernamente demonstrou-se por uma parte haver taes monumentos
em paizes aonde os celtas não chegaram, e por outra parte que,
pertencendo estes já aos tempos historicos, aquelles, pelo contrario,
estavam envolvidos nas trevas da prehistoria, não se sabendo ao certo
quem, quando e para que os construira. A fim portanto de prevenir
qualquer opinião anticipada e por ventura erronea, convencionaram os
archeologos dar-lhes o nome de _Megalithos ou Monumentos megalithicos_,
o que significa apenas serem feitos de grandes pedras, verdade a todos
manifesta[73].
Dos megalithos ha varias especies, taes como o _menhir_, o _cromlech_,
o _dolmen_, o _tumulo_ a _galeria_ e a _pedra balouçante_[74].
O _menhir_ é o monolitho alongado, vertical, pousado no chão ou
enterrado em pequena ou grande profundidade. O da communa de
Plouharzel, um dos mais altos da Bretanha, tem doze metros. Mais de
vinte e dois metros de altura tinha outro que parecia presidir aos
numerosos megalithos da peninsula de Locmariaker. Jaz actualmente
por terra, partido em quatro. De todos os conhecidos, os das regiões
centraes da Asia são os unicos comparaveis aos da Bretanha na altura.
Em Hespanha, na provincia de Galiza, no municipio de Esgos, ao norte
da egreja parochial, eleva-se á altura de onze metros um menhir
formado de quatro pedras sobrepostas. Na mesma provincia ha outras
pedras alongadas, verticaes, porém de menor altura, que o sr. Sivelo
classifica tambem entre os menhires. Tal é o do municipio de Lobios, na
Serra de Gerez, o qual tem seis metros de altura[75].
O sr. D. Manoel de Assas julga serem menhires certas pedras que lhe
consta existirem na provincia de Navarra. Na Andaluzia, entre Baena e
Bujalance, provincia de Jaen, ha o celebrado _Menhir de las Virgenes_,
do qual os camponezes cantam:
Jilica jilando
puso aqui este tango
y Menga Mengal
lo volvió á quitar[76].
Em Portugal consta haver duas alas de pedra e um menhir proximo, no
caminho de Cepães a Fafe, no districto de Braga[77]. Em Castello de
Paiva ha outro muito notavel. Compõe-se de seis marcos ou pilares, de
tres pedras cada um, sobrepostas, tendo as ultimas pedras de cima a sua
_extremidade oblonga_. Os pilares eram sete, mas o setimo jaz cahido
por terra[78]. Este monumento, bem como o primeiro que mencionámos da
Galiza, parece não ter sido levantado em epocas muito remotas.
Quem, e com que fim erigiria os menhires em tantos logares da
superficie da terra habitada? A nenhuma d’estas perguntas responde a
archeologia. «Ao menhir, diz Rougemont, podiam aquelles que o erigiam
fazer significar tudo o que bem lhes approuvesse. Ora, na maior parte
dos casos, é mui difficil, para não dizer impossivel, descobrir os
motivos determinantes da erecção de taes monumentos. Quando porém
se podér rastejar a verdade será sómente pelos testimunhos da
historia, pelo exame attento da fórma dos menhires, ás vezes assaz
complicada; pelo modo por que estiverem situados nos valles, ou nas
montanhas, ou nos tumulos; pelas relações em que estiverem com outros
monumentos circumvisinhos; e finalmente pelos rudimentos de esculpturas
ou de inscripções, que por ventura contenham, traçados por mão
inexperta»[79]. Resta accrescentar o exame dos objectos que estiverem
sepultados junto ou por baixo de taes monumentos, e que pareçam
contemporaneos. Assim é que as ossadas humanas e restos de carvão,
achados ao pé de alguns menhires em França e na Grã-Bretanha, fazem
suspeitar d’essas pedras que seriam monumentos funerarios; outros, como
os de Tredion (Morbihan) e de Loudun (Vienne, Poitou), parece terem
antes servido de idolos por terminarem á maneira de cabeça, posto que
disforme.
Levantar uma pedra para commemorar um facto importante, é costume
que a historia nos prova existir em differentes povos, e que póde
até nascer espontaneamente, em qualquer estado social, em gentes
que não tenham communicado entre si. O menhir é a fórma primitiva
da columna monumental com inscripção e baixo relevo. Ora se estes
monumentos apparecem no seu estado perfeito em povos mui differentes
e incommunicaveis, que muito que na sua fórma primordial nascessem
espontaneamente n’um estado social inferior? Da mesma sorte as pedras
brutescas antecederam os cippos com ornatos e inscripções; e dos rudes
vasos d’argilla, feitos á mão e seccados ao sol, por varios povos
primitivos, derivaram por differentes modos, obras notaveis da ceramica
na China, no Egypto ou na Etruria.
Ha porém certas particularidades dos usos e costumes que parece antes
haverem sido transmittidas de um a outros povos, do que apparecidas
espontaneamente em diversos logares habitados da superficie da terra.
Tal é, por exemplo, commemorar o numero de inimigos mortos por um
guerreiro, collocando outras tantas pedras de roda do seu tumulo,
como faziam iberos e tartaros orientaes. É possivel que o principio
d’este costume esteja na origem commum da civilisação dos dois povos,
posto que de raças differentes, ou então n’um povo asiatico que por
suas emigrações influisse egualmente nos turcos orientaes e nos iberos
transmittindo tanto a uns como a outros as suas ceremonias funerarias.
Muitos dos menhires, erguidos com um fim diverso e mais elevado, qual
era o de symbolisarem a Divindade, tornaram-se objectos de adoração.
Prova-nos a historia que os phenicios, os arabes, os egypcios, os
assyrios, os gregos primitivos e outros povos representavam por meio
dos obeliscos ou pilares de pedra os principaes dos seus deuses; entre
alguns, como foram os scandinavos, a mesma palavra significava _idolo_
e _pedra_[80]. Ainda, depois de convertidos á religião christã, certos
povos continuaram a adorar os seus antigos menhires, vendo-se obrigados
os ministros do culto a mandar esculpir cruzes n’esses monumentos para
fazer cessar, transformando-a em adoração religiosa, uma idolatria que
o habito perpetuava de geração em geração. Presentemente continuam
os camponezes a ungir com azeite e a ornar de flores os pilares dos
famosos alinhamentos de Carnac, bem como as pedras balouçantes. Os
recem-casados vão ainda hoje no districto de Brest esfregar o estomago
pelo menhir de Kerloaz, que tem onze metros de alto, para impetrar de
algum deus obsoleto o dom da fecundidade[81].
Têem alguns confundido os menhires com as _petras fictas_. Estas,
como se prova com documentos antigos, serviam apenas para demarcar as
terras. A palavra _Fito_, só por si, significava _Marco levantado_[82].
Os menhires dispostos n’uma linha unica ou em muitas linhas parallelas
fórmam os alinhamentos. É dos mais notaveis e conhecidos o de Carnac
na Bretanha, feito de onze series de pedras não afeiçoadas, mui
differentes em tamanho e altura, a maior das quaes se eleva vinte e
dois pés acima do terreno circumjacente. As outras em proporção d’esta
são muito menores. As avenidas, hoje mutiladas, parece terem tido
outr’ora muitas milhas de comprido.
Quando os menhires fórmam um circulo ou uma oval ou outra curva, a
esse grupo megalithico chama-se _cromlech_. Entre os alinhamentos e os
cromlechs não ha differença essencial. A alguns, como ao de Carnac,
se dará um ou outro d’aquelles nomes, conforme o sentido em que se
considerarem as pedras. Do centro para a circumferencia cada serie é
uma linha recta. Em roda do centro, formando curvas concentricas, as
series são circulares. Assim no primeiro caso chamar-se-ha ao grupo
um alinhamento, e no segundo caso um cromlech. Com effeito ao grupo
megalithico de Carnac dão uns o primeiro, outros o segundo d’estes dois
nomes.
O _loghan_ ou _pedra balouçante_ é o menos commum e o mais enigmatico
dos megalithos. Como o seu nome o está dizendo, consiste n’uma pedra
enorme, posta em taes condições de equilibrio, que, por effeito de
qualquer impulso, se move e oscilla. Ou tem por base outra ou outras
pedras, ou o proprio solo onde se appoia. É muito notavel a _Piedra
grande_ de Boariza na provincia de Santander em Hespanha (fig. 48).
A uns cem passos ao noroeste da _Piedra grande_ está a _Piedra chica_,
outra pedra balouçante, mas de menores dimensões. O sr. D. Manuel de
Assas dá noticia de outra a oeste da villa de Luque, provincia de
Cordova, e de mais duas nas ilhas de Bayona de Galiza[83].
[Illustração: Fig. 48
PEDRA BALOUÇANTE DE BOARIZA, NA PROVINCIA DE SANTANDER.]
Na provincia de Santander ha outra pedra balouçante que inexactamente
tem passado por dolmen.
[Illustração: Fig. 49
PEDRA BALOUÇANTE DE ABRA NA PROVINCIA DE SANTANDER.]
Eis aqui a descripção que de tão notavel megalitho nos dá o sr. Amador
de los Rios:
«Sobre este campo se ergue uma grande rocha granitica
perpendicularmente cortada na altura de cinco a vinte pés, em toda
a circumferencia, e rodeada de outras menores, desordenadamente
amontoadas em estranhas situações, bem como as muitas que cobrem o
terreno. Não assim a grande, que é quasi plana na face superior,
formando já de per si um dolmen natural de uns trinta pés de diametro.
Na extremidade meridional d’esta especie de mesa e dirigindo-se á parte
de nordeste, se ergueu a segunda pedra com a fórma de um grande cubo
ou silhar posto de esquina sobre quatro ou cinco pedras applicadas a
um e outro lado, porém de modo que a superior, n’ellas suspensa, não
toca immediatamente nenhum dos pontos da grande mesa inferior. Isto
demonstra ali palpavelmente a mão do homem; e tanto que, estando uma
das pedras que sustêem a superior na posição diagonal, para adaptar-se
ao lado da mesma, acha-se pela sua parte appoiada por outra pedrinha
que não tem mais de oito pollegadas de comprido e tres de grossura;
isto não obstante não se póde arrancar do seu logar, por mais que por
ella se puxe, e ninguem até o ousaria tentar com medo de se desaprumar
o todo. A pedra superior tem vinte e dois pés de largura, dez de altura
e vinte e cinco de circumferencia, cingida perpendicularmente pelo
meio. Basta indicar taes dimensões para se conhecer que o seu peso
deverá ser de milhares de arrobas.
«Pela mesa inferior póde-se andar commodamente, rodeando a de cima,
excepto pela extremidade meridional em que estão ambas na mesma linha
perpendicular. Junto a esta extremidade e da parte de sueste, as pedras
pequenas que sustêem a superior, encaixadas á maneira de cunhas,
servem de degraus para subir á mesma pedra, que, segundo já indicámos,
fórma um espinhaço bastante agudo, posto não haver impossibilidade de
qualquer se suster nos dois lados. Desde o meio do espinhaço corre por
elle da parte de nordeste com alguma inclinação para o lado de sueste,
uma fenda ou rego, chegando quasi até á ponta do pedregulho: e como por
esta parte está bastante adelgaçado pela extremidade inferior, segue-se
que uma ou mais pessoas poderiam collocar-se por debaixo d’elle, para
receber o baptismo de sangue, se com effeito era esse e não outro o fim
do sulco»[84].
Similhante á de Abra ha em França uma pedra balouçante, de fórma
oblonga e equilibrada pelas suas duas extremidades ao mesmo tempo sobre
dois pilares que servem de eixos. A pedra balouçante do cemiterio de
Perros Guyrech, que pesa um milhão de libras, e mede quarenta pés de
comprimento e vinte de largura, tem na sua superficie uma bacia com
desaguadoiro, e parece ser o altar, onde se faziam os sacrificios pelos
mortos, cujos tumulos a cercavam[85].
Estes factos bastarão para auctorisar a analogia entre a pedra
balouçante de Abra e a de Perros Guyrech, e tambem para mostrar que as
pedras que, por suas estranhas posições, prenderam a attenção do sr.
Amador de los Rios, serão da mesma sorte os cippos funerarios de um
cemiterio prehistorico.
Segundo uma informação do sr. Pereira Caldas, proximamente de certo
sitio do monte da Polvoreira, sobranceiro á estrada de Guimarães a
Vizella, onde se encontram duas galerias formadas de pedras verticaes,
que o povo chama _Furnas_, está uma pedra oscillante a que se liga uma
tradição popular de mouras encantadas[86].
[Illustração: Fig. 50]
[Illustração: Fig. 51
DOLMEN DA LAIRINHA, NO ALEMTEJO.]
Não passa de mera hypothese quanto se tem dito para definir as
applicações das pedras balouçantes. Symbolos da divindade, emblemas do
mundo suspenso no espaço, emblemas do livre arbitrio, meios de conhecer
a culpabilidade dos accusados, tudo isto se julgou poderem ter sido
estes singulares megalithos. Se é licito suppôr dos de Perros Guyrech e
de Abra que seriam altares, onde se fizessem sacrificios pelos mortos
enterrados á roda, nos outros faltam inteiramente os indicios que
n’aquelles dois se têem encontrado.
O dolmen, formado por uma grande pedra achatada, posta horisontal ou
obliquamente sobre outras pedras verticaes ou quasi verticaes, é o mais
commum dos megalithos em Portugal. O sr. Pereira da Costa, depois de
ter descripto trinta e nove na sua Memoria, impressa em 1868, chegou a
colligir desenhos talvez de mais de cem que mandou lithographar para
uma segunda Memoria, a qual infelizmente não chegou a entrar no prelo.
Onde se encontram em maior numero é na provincia do Alemtejo, tambem a
mais abundante de machados e outros instrumentos de pedra polida e de
bronze.
[Illustração: Fig. 52]
[Illustração: Fig. 53
DOLMEN DE VALLE DE MOURA.]
O typo da anta da Lairinha é o da maior parte das de Portugal, com
quanto se não reconheça facilmente n’algumas já meio derruidas. Entre
aquellas que estão mais bem conservadas citaremos a do Outeiro das
Vinhas, perto do Dejebe, sete kilometros a oriente de Evora, no
Alemtejo; a do Crato na mesma provincia; e finalmente a de Ancora
na provincia do Minho[87]. As modificações deste typo fundamental
são pequenas. Tal é por exemplo na anta de Valle de Moura a grande
espessura da mesa que lhe dá a apparencia de um cogumello.
Quem tiver a curiosidade de comparar os mais communs dos dolmens de
Portugal com os da Andaluzia, achará que estes ultimos constam de
pedras menos irregulares, maiores e mais aprumadas. Além d’isto os
primeiros são, pela maior parte, circulares ou ovaes, os segundos
quadrangulares e lageados com grandes pedras. É por tanto provavel que
os dolmens da Andaluzia, menos imperfeitos que os de Portugal, sejam
tambem menos antigos. Isto mesmo se prova pelos objectos de cobre que
se encontram n’uns e faltam nos outros.
Na Galiza ha dolmens com as pedras inclinadas de fóra para dentro,
como o da Lairinha, e trilithos, cujos esteios verticaes constam
de duas pedras sotopostas, á maneira do menhir de Rocas[88]. Esta
particularidade denota uma epoca menos antiga, em que se empregariam
já cinzeis de metal. Os trilithos da Galiza têem sua similhança com os
dolmens de Constantina em Argelia, nos quaes se encontram sepultados
objectos de bronze e de ferro[89].