prehistoricas da Andalucia._
[50] Ha poucos dias achou-se um d’estes instrumentos, similhante ao de
Thomar, pela fórma e tamanho, em S. Miguel de Machede, districto de
Evora, no Alemtejo. Apesar de mutilado na ponta, mede 0,ᵐ27 de comprido.
[51] Gongora, op. cit., Pereira da Costa, op. cit.
[52] _Reliquiæ Aquitanicæ_, pag. 186.
[53] Depois de escripto este capitulo, acharam-se outros dois baculos
em Portugal. Um muito similhante á fig. 31; outro com os ornatos em
relevo. Pertencem á Commissão geologica.
[54] Saint-Aymour. _Études sur quelques monuments mégalithiques de la
vallée de l’Oise._ Pariz 1875.
[55] D. Manuel de Gongora, _Antigüedades prehistoricas de Andalucia_.
Madrid 1868.
[56] Lubbock, _L’homme prehistorique_. Pariz 1876, pag 178.
[57] J. F. N. Delgado, _Noticia ácerca das grutas de Cesareda_. Lisboa
1867.
[58] _Lo prehistorico en España._
[59] _La Cueva de la mujer. Descripcion de una caverna conteniendo
restos prehistoricos, descobierta en las immediaciones de Alhama e
Granada._ Por G. M. Pherson, parte 2.ª, pag. 6, est. VIII, fig. 3.
[60] _Magasin Pittoresque_, 1868, pag. 44 a 46, onde se podem vêr as
estampas dos objectos achados em Dijon.
CAPITULO V
AS CAVERNAS
_Os troglodytas.--As cavernas imitadas nas mais antigas das
construcções.--Seu estudo recente.--Bocas das cavernas.--Vãos
interiores.--Como se formariam?--Analogias das cavernas
com os veios metallicos.--Causas capazes de formar as
cavernas.--Depositos.--Cavernas ossiferas.--Procedencia
das ossadas.--Ossos humanos e vestigios da industria
primitiva.--Caverna de Cavillon.--Cavernas da Sierra Cebollera,
Gibraltar, Parpalló, Alhama de Granada e Albuñol.--Cavernas da
Cesareda.--Se a anthropophagia sería um costume geral dos homens
prehistoricos?--Razões em contrario._
Pelos vestigios encontrados dentro nas cavernas, se prova terem sido
habitadas umas pelos homens e outras pelas feras. Algumas serviriam
tambem alternativamente aos homens e aos animaes, conforme a sorte dos
combates, em que todos se disputavam a posse, senão dos unicos, ao
menos dos melhores dos abrigos que a natureza lhes offerecia contra
as intemperies das estações e contra os ataques dos inimigos. Houve,
portanto, _troglodytas_ ou gentes que habitavam as concavidades da
terra e viviam á maneira dos irracionaes. Nem é muito que assim fosse
nos primordios da humanidade, quando ainda hoje alguns povos selvagens,
refractarios á lei do progresso, habitam similhantemente cavernas e
tocas de barro, feitas á similhança d’ellas.
Imitar a caverna parece ter sido a grande aspiração dos primeiros dos
constructores e dos architectos. Os dolmens, os tumulos, e até os
templos subterraneos do Egypto e da India recordam as lobregas moradas
dos homens primitivos, bem como os templos da Grecia fazem lembrar a
cabana scythica, habitação de uma epoca e de uma raça que esquecera os
antigos costumes dos avoengos prehistoricos.
Depois que, inventada a architectura, as cavernas deixaram de ser
habitadas, tornaram-se naturalmente objectos de terror, admiração ou
curiosidade. Assim em tempo de Æliano, os lugubres gemidos e vozes
lamentosas do bárathro de Plutão inspiravam aos indios de Aria o temor
de uma divindade cruel e malfazeja. Por toda a parte, as trevas, os
animaes, os sons e ruidos estranhos que enchem os vãos interiores das
cavernas punham medo áquelles que não ousavam mais que observar-lhes
a furto as bocas mysteriosas, ou perscrutar-lhes com olhos timidos as
reconditas profundezas. Só algum pastor mais destemido, ou viajante
mais curioso, chegavam a aventurar-se pelos secretos reconcavos com o
intento de medil-os, de examinal-os, de admirar o reflexo das luzes
nas gottas de agua pendentes das abobadas naturaes, ou na superficie
dos riachos ou cascatas; ou com o fim de contemplar a perspectiva
interessante e pittoresca das stalactites e stalagmites a simularem
penduroes, laçarias, arcadas, balaustradas, columnatas e outras
maravilhas de uma arte phantastica e caprichosa. Mas o estudo geologico
das cavernas data de ha poucos annos, e de ha menos ainda o exame das
ossadas e dos vestigios da industria primitiva que ellas contêem.
As bocas da maior parte das cavernas abrem-se nas vertentes dos valles
ou nos bordos das bacias naturaes. São quasi sempre as unicas partes
exteriormente visiveis; e, se n’alguns casos não têem nada notavel,
n’outros chegam a parecer portas de templos, com as suas voltas ou
archivoltas estribadas em rochas fendidas e esburacadas á maneira
de columnatas carcomidas pelos seculos. Outras consistem apenas em
estreitas fendas tapadas em parte por incrustações e entulho. Outras
dirigem-se vertical ou quasi verticalmente, como poços ou chaminés, da
superficie para o interior. Outras em fim estão obstruidas com paredes
ou com montões de pedras que difficultam a passagem. Muitas abriram-se
natural ou artificialmente em epocas modernas e posteriores ás da
formação das cavernas a que pertencem. Algumas e mais em particular as
d’aquellas que elle tem habitado, foram alteradas pela mão do homem.
Interiormente ha grande variedade nas cavernas. Umas consistem apenas
em cavidades unicas de fórmas regulares ou irregulares. Outras constam
de muitas cavidades ou salas que entre si communicam por meio de longas
e estreitas galerias. Ás vezes os tectos d’estes vãos interiores
são concavos, muito altos e similhantes ás abobadas dos zimborios.
Outras vezes abatem-se insensivelmente, chegam a tocar o chão e deixam
estreitas passagens, por onde mal pode penetrar um homem. Não é raro em
fim estarem as camaras interiores em niveis differentes, e communicarem
entre si por meio de galerias muito inclinadas ou quasi verticaes.
Encontram-se nos terrenos calcareos as mais vastas das cavernas.
Explica-se este facto pela estructura das rochas calcareas, pela
facilidade com que se desaggregam, e finalmente pelo modo porque se
fendem ou abrem ou affastam as suas longas bancadas.
Não houve ainda quem formulasse uma theoria racional e sufficientemente
explanada da formação das cavernas. Sabe-se apenas que trabalharam
em vão aquelles que pretenderam explicar por uma só causa esses
factos complexos, intimamente relacionados com outros grandes factos
geologicos. Primeiro que tudo convirá considerar as causas que elevaram
as montanhas e que, só por si, poderiam ter produzido algumas cavernas,
e deixar as camadas da crusta em condições favoraveis á producção de
muitas outras. Alguns geologos acreditaram a hypothese da existencia
de immensas cavidades no interior do globo, das quaes as cavernas
apenas seriam pequenos appendices superficiaes. Todos sabem que, para
explicar as fontes, importa necessariamente admittir a existencia de
grandes depositos subterraneos, onde se ajuntam as aguas das chuvas,
para depois correrem na superficie da terra, filtradas pelas camadas
superficiaes. Se taes depositos são vãos interiores, as mesmas causas
que os formaram, formariam tambem as cavernas; se pelo contrario estão
cheios de rochas porosas, não custa nada admittir que as cavernas
fossem ainda da mesma sorte produzidas, tendo sido posteriormente
esvasiadas das materias porosas que por ventura contivessem.
Os veios metallicos encheram, em varias epocas da vida do globo,
fendas ou rupturas preexistentes da sua crusta. As massas de minerio
ficaram portanto com a fórma desses espaços que preencheram. Ora a
observação tem mostrado grandes analogias entre a fórma e disposição
das cavernas e as dos veios metallicos. Em primeiro logar, na mesma
região constituem estes veios systemas determinados, correspondentes
a epocas diversas, e seguindo os veios de cada um a mesma direcção,
de modo que os differentes systemas se distinguem entre si pelas
direcções respectivas que ás vezes se cruzam umas com as outras.
Assim tambem n’uma região, abundante de cavernas naturaes, não será
difficil classifical-as em grupos varios, conforme as suas respectivas
direcções, cada um dos quaes deverá corresponder a uma epoca
determinada. A disposição das salas das cavernas multiloculares e dos
corredores que as ligam observa-se em ponto pequeno nos systemas dos
veios, cujas dilatações em varios niveis se ligam entre si por meio de
prolongamentos de muito menor diametro. Em ponto grande encontrar-se-ha
essa mesma disposição nas cordilheiras calcareas, nos valles e bacias
situadas em diversas alturas e nas gargantas ou passos estreitos, por
meio dos quaes se communicam entre si. Taes são os factos, até hoje
pouco estudados, que persuadem a possibilidade de subordinar á mesma
causa a elevação dos montes e collinas e a formação dos seus vãos
interiores ou das cavernas.
Além d’esta causa, algumas outras poderiam ou completar o seu effeito
acabando de formar as cavernas e alterando-lhes as formas, ou
produzil-as só por si sem qualquer trabalho ou disposição anterior.
Taes são: 1.º. Os terremotos, cujas oscillações produziriam talvez, nos
pontos em que ellas se entrecruzassem, os vãos ou dilatações maiores:
2.º As rupturas e depressões causadas pela retracção e deslocação dos
estratos calcareos, ou pelo desmoronamento d’aquelles que tivessem
ficado em vão: 3.º Os gazes e vapores acidos que poderiam dilatar os
espaços interiores ou corroer as materias que os enchessem: 4.º A agua
que arrastaria umas das substancias interiores e dissolveria outras,
esvaseando assim os logares occupados por essas substancias.
Interessa por extremo á paleontologia, tanto do homem como dos animaes,
o estudo dos depositos contidos nas cavernas. Muitos foram formados
pela agua que circula nas rochas permeaveis e nos vãos interiores da
crusta da terra, uns por precipitação de substancias dissolvidas,
outros por separação mechanica de materias suspensas n’aquelle liquido.
A agua que se infiltra pelas paredes das cavernas calcareas, dissolve
uma porção de carbonato de cal. O acido carbonico resultante da
decomposição dos restos organicos ou procedente da atmosphera favorece
esta dissolução transformando o protocarbonato mui pouco soluvel em
bicarbonato soluvel. A dissolução d’este sal, chegando ao ar livre,
perde um equivalente de acido carbonico, e o bicarbonato transforma-se
em protocarbonato que se precipita. Assim se formam as stalactites e as
stalagmites no tecto e no chão das cavernas, quando a agua carbonatada
gotteja das suas paredes. Quando porém corre em quantidades maiores e
arrasta comsigo areias, restos de plantas e outros materiaes, fórma
então aquellas massas leves e porosas que chamam _tufo_, em que o
protocarbonato de cal se incrusta sobre as partes solidas arrastadas.
Acha-se o tufo em grandes porções nas cavernas de Condeixa, tres leguas
ao SO de Coimbra.
Mas os depositos mechanicos são os mais interessantes pela maior
variedade de restos que contêem. Todos sabem que as aguas correntes
arrastam em suspensão materias solidas, e muitas especificamente mais
pesadas. Se qualquer causa diminuir ou destruir o movimento da agua,
as partes solidas depositar-se-hão, em geral, pela ordem das suas
densidades relativas. Isto posto, vê-se como os vãos das cavernas
deveriam favorecer similhantes depositos, retardando a velocidade das
correntes interiores ou das exteriores que dentro n’elles penetrassem.
Na maior parte dos depositos, assim formados, predomina a argilla
arenosa de côr avermelhada ou amarellada, sem grande consistencia, umas
vezes mais ou menos estratificada, outras vezes sem nenhuns signaes
de estratificação. Conforme o mechanismo do deposito e a natureza das
partes depositadas, assim as camadas são ou extremamente molles ou
tão endurecidas pelo calcareo que as impregna, que se não cortam sem
dificuldade. Ás vezes nas camadas depositadas acham-se incorporados
seixos, calhaus rolados, fragmentos de stalactites e pedras angulosas
pela maior parte provenientes das paredes das cavernas. Alguns porém
foram arrastados de fóra e de pequenas distancias pela agua corrente.
Consideram os geologos os depositos interiores das cavernas como a
continuação dos depositos exteriores superficiaes. Têem todos a mesma
natureza e textura e até muitas vezes a mesma côr avermelhada.
Muitas cavernas tornam-se notaveis pela quantidade de ossos que
encerram. Por isso lhes chamam commumente cavernas ossiferas ou
cavernas de ossadas. Estes ossarios têem ás vezes grande espessura.
Na caverna de Banwel, no condado de Sommersetshire, em Inglaterra, a
sala maior de quinze metros de altura, estava cheia até ao tecto com
um deposito de ossos. A regra geral é apparecer a camada molle dos
ossos por baixo da camada dura calcarea ou stalagmitica. Algumas vezes
acham-se invertidas, e outras vezes alternam camadas de uma com as de
outra especie. Para explicar esta alternação importa considerar não
sómente as causas já indicadas da formação dos depositos calcareos,
mas tambem aquellas que operaram os depositos dos ossos. Primeiro que
tudo convirá notar uma circumstancia importante, um facto capital,
que em toda a explicação se ha de ter em vista. E vem a ser a grande
variedade de animaes, cujos ossos se encontram juntos nas mesmas
cavernas.
«As cavernas de Muggendorf e de Gailenreuth, diz Burgmeister, formadas
na dolomia do terreno jurassico bavaro, são particularmente celebres.
Da ultima têem extrahido ossadas pelo menos de mil individuos, dos
quaes oitocentos pertencentes á especie do grande urso (_Ursus
spelœus_), sessenta a uma outra especie do mesmo genero (_Ursus
arctoideus_) e dez ainda a uma outra especie (_Ursus priscus_). As
cento e cincoenta restantes são de lobos, hyenas, leões e texugos.
As cavernas de Sundwig em Iserlohn continham restos de especies
similhantes, sendo mais numerosos os do _Ursus spelœus_. A caverna de
Kirkdale, na região oriental do condado d’York, contém pelo contrario,
sobre tudo, ossos de hyenas com outros ossos roidos de cavallos, bois,
veados, trazidos pelas hyenas. Ahi foi que Buckland fez as suas bellas
investigações sobre o genero da vida primitiva d’estes animaes, e notou
as camadas de excrementos juntos das paredes polidas pelas hyenas.
Achou-se em Argou, departamento dos Pyreneus, uma caverna com animaes
herbivoros, a qual de resto se ha de considerar como uma raridade.
Occupa um schisto liasico, e continha principalmente ossos de cavallos,
bois, veados e rhinocerontes»[61].
Os ossos das cavernas podem ter sido de animaes mortos ou dentro ou
fóra d’ellas. Se ainda hoje são habitadas pelos morcegos, corujas e
outras aves nocturnas e por grande variedade de animaes carniceiros,
que muito que em epocas remotas egualmente o fossem, e que esses
animaes de tantas classes e de tantas especies lá ficassem sepultados?
Morreriam uns de morte natural deixando os seus restos incorporados
no solo das cavernas. Outros seriam arrastados, como presas, pelos
carnivoros para dentro d’ellas. Em fim, por occasião das inundações,
era natural que animaes de especies differentes, e até inimigos, se
recolhessem ás cavernas, pois quando é grande o perigo e commum, todos
os instinctos cedem ao da propria conservação. Em tal caso, elevando-se
o nivel da agua e tapando a boca da caverna e enchendo o seu interior,
todos os animaes ali accumulados morreriam por asphyxia.
Todavia em muitas cavernas encontram-se os ossos maiores dos grandes
mammaes, como os dos membros anteriores e posteriores, com os angulos
arredondados e com as arestas comidas do attrito, e os ossos pequenos
reduzidos a fragmentos disformes e boleados. Alterações taes provam que
os ossos foram arrastados pela agua juntamente com os calhaus e por
estes friccionados. Por outra parte, a natureza das rochas accumuladas
com os ossos, differentes d’aquellas que constituem as paredes das
cavernas, demonstra haverem-se formado as camadas ossiferas á custa dos
terrenos exteriores. Finalmente não apparecerem esqueletos inteiros
em taes depositos é ainda outro motivo para crer que, na maior parte
das cavernas, os ossos procedentes de animaes, mortos fóra e não dentro
d’ellas, seriam arrastados, por occasião das inundações, pela agua com
os materiaes constituintes dos terrenos onde jaziam sepultados.
Por entre as ossadas de muitas cavernas têem apparecido ossos humanos e
vestigios da industria primitiva, e, como algumas d’aquellas pertenciam
a especies extinctas ou emigradas, ao mammouth, ao rangifer, ao
urso, allega-se geralmente este facto entre as provas da antiguidade
remota da especie humana. Porém na opinião de alguns tal prova é
insufficiente, porque, dizem, se os vestigios do homem foram sepultados
dentro das cavernas, muito bem o poderiam ser depois de lá existirem
ossadas de animaes que tivessem vivido muitos milhares de annos antes.
Se pelo contrario taes vestigios foram arrastados de fóra com as
ossadas antidiluvianas, é claro que poderiam egualmente uns e outros
ter idades mui differentes, e até fazer parte de terrenos mui diversos.
Estas objecções levaram os exploradores a pôr todo o cuidado nas
explorações, de modo que os resultados obtidos não ficassem sujeitos a
contradictas. Assim as relações de posição dos instrumentos de silex
com os ossos dos depositos, o encontrarem-se no mesmo plano ou em
planos inferiores, os entalhos feitos nos ossos, o modo por que foram
quebrados para se lhes extrahir a medulla e finalmente os desenhos do
mammouth ou do rangifer em objectos de osso, de chifre ou nas proprias
presas dos animaes, como se encontraram em cavernas da Dordonha, tudo
foi minuciosamente estudado e tudo mostrou haverem sido contemporaneos
o homem e os grandes mammaes desapparecidos.
Uma das cavernas que mais concorreram para esclarecer a questão foi
a de Cavillon, explorada pelo sr. Rivière entre aquellas que se
descobriram na occasião de se construir o caminho de ferro de Genova a
Menton e a Nice. No dia 26 de março de 1872 achou o explorador os ossos
do pé de um esqueleto humano. O esqueleto estava de tal sorte adherente
aos materiaes que o envolviam, que só, depois de oito dias de trabalho,
se poude destacar d’elles. Estendido no decubito lateral esquerdo e com
a maxilla inferior appoiada nas phalangetas da mão esquerda, jazia na
attitude de um homem a quem morte subita e sem agonia surprehendesse
durante o somno. Em roda do esqueleto acharam-se instrumentos de silex
lascados, taes como pontas de frecha, pontas de lança e raspadeiras; um
pedaço de puncção de osso, conchas de varios generos e dentes furados
que tinham servido de ornatos; dentes do urso grande (_ursus spelœus_),
do gato grande (_felis spelœus_), do _rhinoceros tichorhinus_ e da
_hyena spelæa_, especies caracteristicas da epoca do mammouth.
Apesar da sua remota antiguidade e do seu prognathismo, o craneo de
Menton, pelo angulo facial, pela proeminencia de _vertex_, pelo grande
volume da parte posterior, etc., assimilha-se aos craneos da mais
perfeita das raças actuaes. Comtudo para contrapôr a este facto que
tenderia a provar a invariabilidade do typo humano durante largos
periodos de tempo, ha os craneos de Neanderthal, de Forbes’Quarry, de
Brux, de Eguisheim e as maxillas encontradas na caverna de La Naulette
e n’outros logares. Estes vestigios, de epocas mais remotas, demonstram
a diversidade anatomica dos homens a quem pertenceram, em relação ao
typo humano da actualidade.
Nos paizes, onde mais se cultivam os estudos prehistoricos, têem-se
explorado as cavernas para colher os numerosos e importantes vestigios
que ellas contêem do homem primitivo. Na Peninsula muitas estão já
exploradas, mais em Hespanha que em Portugal, mas ha ainda muitissimas
para explorar. Falta sobre tudo comparar os resultados obtidos e
aquelles que por ventura se possam obter, para lançar alguma luz por
entre as trevas espessas que involvem ainda hoje os tempos anteriores á
historia.
Em 1865 Luiz Lartet explorou as cavernas do terreno jurassico da
Sierra Cebollera, no termo de Torrecilla de Cameros, Nieva de Cameros
e Ortigosa, nas mais notaveis das quaes, na superior e na inferior
da Peña de Miel e na Lobrega, encontrou machados, facas, raspadores,
ceramica e alguns utensilios de osso, pertencentes á epoca neolithica
ou da pedra polida. As cavernas exploradas attribuia-as Lartet a tres
diversas idades: 1.ª do rhinoceronte, mas de uma especie differente
do _R. tichorhinus_ que parece não ter atravessado nem os Alpes nem
os Pyreneus. 2.ª Do boi primitivo, e unicamente d’elle, porque na
Peninsula não apparecem vestigios do rangifer nem da maior parte dos
mammiferos que nas cavernas da França lhe andam associados. 3.ª Das
especies domesticas. Das cavernas da primeira idade suppoz o explorador
que não seriam habitadas pelo homem na epoca do rhinoceronte. Nas
da segunda idade achou instrumentos de osso e de pedra lascada,
similhantes áquelles que em França caracterisam a epoca mesolithica, e
nas da terceira idade depararam-se-lhe mais numerosos os silex polidos,
os instrumentos de osso mais perfeitos, a ceramica, etc.[62]
O Capitão Brome explorou muitas cavernas do monte Calpe na bahia de
Gibraltar. Pela situação geographica d’estas cavernas, os fosseis
e os productos da industria humana aqui encontrados têem grande
importancia para o estudo das origens ethnicas e das emigrações dos
povos primitivos. Conheceu-o o governo inglez, e incumbiu os srs. Busk
e Falconer de estudarem tão curiosos vestigios prehistoricos. N’uma
d’aquellas cavernas, que chamam _Genista_, acharam estes naturalistas
restos fosseis da _hyena crocuta_, especie africana ainda existente,
do leopardo, lynce, gato do Cabo, cervo de Barbaria e de uma especie
de ibex. Porém, como os instrumentos encontrados pertencem á epoca
neolithica, é possivel que o homem habitasse as cavernas de Gibraltar
posteriormente áquelles animaes. O celebre craneo da Pedreira de
Forbes, similhante ao de Néanderthal, é que póde ser anterior á epoca
da pedra polida e, portanto, contemporaneo de uma fauna differente da
actual[63].
O sr. Vilanova explorou na provincia de Valencia as cavernas de
Parpalló, na falda occidental de Monduber, no termo da cidade de
Gandia; de Cova Negra entre as aguas de Bellus e a cidade de Jativa na
margem esquerda do rio Albaida; de San Nicolás, no termo da Olleria; de
Avellanera, no termo de Catadau, na falda septemtrional de Matamon; e
finalmente das Maravillas, no termo de Gandia. Encontrou o explorador
grande variedade de ossos, dentes, conchas, paus de veado, facas e
pontas de frecha de silex, ceramica, etc. Estas cavernas attribuiu-as o
sr. Vilanova á epoca paleolithica. Basta porém a presença da ceramica e
dos animaes domesticos para se conhecer que seriam habitadas na epoca
neolithica. O sr. Tubino tambem affirma que, sómente pelos fragmentos
de silex, se não podem classificar as cavernas de Valencia na epoca
paleolithica[64].
O sr. Mac-Pherson explorou a Cueva de la Mujer, situada n’um cerro
chamado Mesa del Baño, junto do estabelecimento thermal de Alhama de
Granada, a cincoenta metros sobre o rio Marchan. Em duas memorias,
illustradas com muitas estampas, deu o explorador curiosa noticia dos
vestigios descobertos em duas explorações successivas, uma no deposito
superior, outra no deposito inferior d’esta caverna. Os vestigios
foram fragmentos de ceramica, alguns tintos de encarnado com almagre;
facas e lascas de silex; ossos furados para servirem de amuletos ou
adornos, furadores ou puncções de osso; fragmentos de conchas; craneos
humanos, ossos e dentes de varios animaes, alguns abertos no sentido
longitudinal, talvez para lhes extrahirem a medulla; carvão e cinza; um
bracelete feito de uma concha (fig. 47), etc.[65]