[49] Vilanova, _Lo prehistorico en España. Gongora, Antigüedades

prehistoricas da Andalucia._

[50] Ha poucos dias achou-se um d’estes instrumentos, similhante ao de

Thomar, pela fórma e tamanho, em S. Miguel de Machede, districto de

Evora, no Alemtejo. Apesar de mutilado na ponta, mede 0,ᵐ27 de comprido.

[51] Gongora, op. cit., Pereira da Costa, op. cit.

[52] _Reliquiæ Aquitanicæ_, pag. 186.

[53] Depois de escripto este capitulo, acharam-se outros dois baculos

em Portugal. Um muito similhante á fig. 31; outro com os ornatos em

relevo. Pertencem á Commissão geologica.

[54] Saint-Aymour. _Études sur quelques monuments mégalithiques de la

vallée de l’Oise._ Pariz 1875.

[55] D. Manuel de Gongora, _Antigüedades prehistoricas de Andalucia_.

Madrid 1868.

[56] Lubbock, _L’homme prehistorique_. Pariz 1876, pag 178.

[57] J. F. N. Delgado, _Noticia ácerca das grutas de Cesareda_. Lisboa

1867.

[58] _Lo prehistorico en España._

[59] _La Cueva de la mujer. Descripcion de una caverna conteniendo

restos prehistoricos, descobierta en las immediaciones de Alhama e

Granada._ Por G. M. Pherson, parte 2.ª, pag. 6, est. VIII, fig. 3.

[60] _Magasin Pittoresque_, 1868, pag. 44 a 46, onde se podem vêr as

estampas dos objectos achados em Dijon.

CAPITULO V

AS CAVERNAS

_Os troglodytas.--As cavernas imitadas nas mais antigas das

construcções.--Seu estudo recente.--Bocas das cavernas.--Vãos

interiores.--Como se formariam?--Analogias das cavernas

com os veios metallicos.--Causas capazes de formar as

cavernas.--Depositos.--Cavernas ossiferas.--Procedencia

das ossadas.--Ossos humanos e vestigios da industria

primitiva.--Caverna de Cavillon.--Cavernas da Sierra Cebollera,

Gibraltar, Parpalló, Alhama de Granada e Albuñol.--Cavernas da

Cesareda.--Se a anthropophagia sería um costume geral dos homens

prehistoricos?--Razões em contrario._

Pelos vestigios encontrados dentro nas cavernas, se prova terem sido

habitadas umas pelos homens e outras pelas feras. Algumas serviriam

tambem alternativamente aos homens e aos animaes, conforme a sorte dos

combates, em que todos se disputavam a posse, senão dos unicos, ao

menos dos melhores dos abrigos que a natureza lhes offerecia contra

as intemperies das estações e contra os ataques dos inimigos. Houve,

portanto, _troglodytas_ ou gentes que habitavam as concavidades da

terra e viviam á maneira dos irracionaes. Nem é muito que assim fosse

nos primordios da humanidade, quando ainda hoje alguns povos selvagens,

refractarios á lei do progresso, habitam similhantemente cavernas e

tocas de barro, feitas á similhança d’ellas.

Imitar a caverna parece ter sido a grande aspiração dos primeiros dos

constructores e dos architectos. Os dolmens, os tumulos, e até os

templos subterraneos do Egypto e da India recordam as lobregas moradas

dos homens primitivos, bem como os templos da Grecia fazem lembrar a

cabana scythica, habitação de uma epoca e de uma raça que esquecera os

antigos costumes dos avoengos prehistoricos.

Depois que, inventada a architectura, as cavernas deixaram de ser

habitadas, tornaram-se naturalmente objectos de terror, admiração ou

curiosidade. Assim em tempo de Æliano, os lugubres gemidos e vozes

lamentosas do bárathro de Plutão inspiravam aos indios de Aria o temor

de uma divindade cruel e malfazeja. Por toda a parte, as trevas, os

animaes, os sons e ruidos estranhos que enchem os vãos interiores das

cavernas punham medo áquelles que não ousavam mais que observar-lhes

a furto as bocas mysteriosas, ou perscrutar-lhes com olhos timidos as

reconditas profundezas. Só algum pastor mais destemido, ou viajante

mais curioso, chegavam a aventurar-se pelos secretos reconcavos com o

intento de medil-os, de examinal-os, de admirar o reflexo das luzes

nas gottas de agua pendentes das abobadas naturaes, ou na superficie

dos riachos ou cascatas; ou com o fim de contemplar a perspectiva

interessante e pittoresca das stalactites e stalagmites a simularem

penduroes, laçarias, arcadas, balaustradas, columnatas e outras

maravilhas de uma arte phantastica e caprichosa. Mas o estudo geologico

das cavernas data de ha poucos annos, e de ha menos ainda o exame das

ossadas e dos vestigios da industria primitiva que ellas contêem.

As bocas da maior parte das cavernas abrem-se nas vertentes dos valles

ou nos bordos das bacias naturaes. São quasi sempre as unicas partes

exteriormente visiveis; e, se n’alguns casos não têem nada notavel,

n’outros chegam a parecer portas de templos, com as suas voltas ou

archivoltas estribadas em rochas fendidas e esburacadas á maneira

de columnatas carcomidas pelos seculos. Outras consistem apenas em

estreitas fendas tapadas em parte por incrustações e entulho. Outras

dirigem-se vertical ou quasi verticalmente, como poços ou chaminés, da

superficie para o interior. Outras em fim estão obstruidas com paredes

ou com montões de pedras que difficultam a passagem. Muitas abriram-se

natural ou artificialmente em epocas modernas e posteriores ás da

formação das cavernas a que pertencem. Algumas e mais em particular as

d’aquellas que elle tem habitado, foram alteradas pela mão do homem.

Interiormente ha grande variedade nas cavernas. Umas consistem apenas

em cavidades unicas de fórmas regulares ou irregulares. Outras constam

de muitas cavidades ou salas que entre si communicam por meio de longas

e estreitas galerias. Ás vezes os tectos d’estes vãos interiores

são concavos, muito altos e similhantes ás abobadas dos zimborios.

Outras vezes abatem-se insensivelmente, chegam a tocar o chão e deixam

estreitas passagens, por onde mal pode penetrar um homem. Não é raro em

fim estarem as camaras interiores em niveis differentes, e communicarem

entre si por meio de galerias muito inclinadas ou quasi verticaes.

Encontram-se nos terrenos calcareos as mais vastas das cavernas.

Explica-se este facto pela estructura das rochas calcareas, pela

facilidade com que se desaggregam, e finalmente pelo modo porque se

fendem ou abrem ou affastam as suas longas bancadas.

Não houve ainda quem formulasse uma theoria racional e sufficientemente

explanada da formação das cavernas. Sabe-se apenas que trabalharam

em vão aquelles que pretenderam explicar por uma só causa esses

factos complexos, intimamente relacionados com outros grandes factos

geologicos. Primeiro que tudo convirá considerar as causas que elevaram

as montanhas e que, só por si, poderiam ter produzido algumas cavernas,

e deixar as camadas da crusta em condições favoraveis á producção de

muitas outras. Alguns geologos acreditaram a hypothese da existencia

de immensas cavidades no interior do globo, das quaes as cavernas

apenas seriam pequenos appendices superficiaes. Todos sabem que, para

explicar as fontes, importa necessariamente admittir a existencia de

grandes depositos subterraneos, onde se ajuntam as aguas das chuvas,

para depois correrem na superficie da terra, filtradas pelas camadas

superficiaes. Se taes depositos são vãos interiores, as mesmas causas

que os formaram, formariam tambem as cavernas; se pelo contrario estão

cheios de rochas porosas, não custa nada admittir que as cavernas

fossem ainda da mesma sorte produzidas, tendo sido posteriormente

esvasiadas das materias porosas que por ventura contivessem.

Os veios metallicos encheram, em varias epocas da vida do globo,

fendas ou rupturas preexistentes da sua crusta. As massas de minerio

ficaram portanto com a fórma desses espaços que preencheram. Ora a

observação tem mostrado grandes analogias entre a fórma e disposição

das cavernas e as dos veios metallicos. Em primeiro logar, na mesma

região constituem estes veios systemas determinados, correspondentes

a epocas diversas, e seguindo os veios de cada um a mesma direcção,

de modo que os differentes systemas se distinguem entre si pelas

direcções respectivas que ás vezes se cruzam umas com as outras.

Assim tambem n’uma região, abundante de cavernas naturaes, não será

difficil classifical-as em grupos varios, conforme as suas respectivas

direcções, cada um dos quaes deverá corresponder a uma epoca

determinada. A disposição das salas das cavernas multiloculares e dos

corredores que as ligam observa-se em ponto pequeno nos systemas dos

veios, cujas dilatações em varios niveis se ligam entre si por meio de

prolongamentos de muito menor diametro. Em ponto grande encontrar-se-ha

essa mesma disposição nas cordilheiras calcareas, nos valles e bacias

situadas em diversas alturas e nas gargantas ou passos estreitos, por

meio dos quaes se communicam entre si. Taes são os factos, até hoje

pouco estudados, que persuadem a possibilidade de subordinar á mesma

causa a elevação dos montes e collinas e a formação dos seus vãos

interiores ou das cavernas.

Além d’esta causa, algumas outras poderiam ou completar o seu effeito

acabando de formar as cavernas e alterando-lhes as formas, ou

produzil-as só por si sem qualquer trabalho ou disposição anterior.

Taes são: 1.º. Os terremotos, cujas oscillações produziriam talvez, nos

pontos em que ellas se entrecruzassem, os vãos ou dilatações maiores:

2.º As rupturas e depressões causadas pela retracção e deslocação dos

estratos calcareos, ou pelo desmoronamento d’aquelles que tivessem

ficado em vão: 3.º Os gazes e vapores acidos que poderiam dilatar os

espaços interiores ou corroer as materias que os enchessem: 4.º A agua

que arrastaria umas das substancias interiores e dissolveria outras,

esvaseando assim os logares occupados por essas substancias.

Interessa por extremo á paleontologia, tanto do homem como dos animaes,

o estudo dos depositos contidos nas cavernas. Muitos foram formados

pela agua que circula nas rochas permeaveis e nos vãos interiores da

crusta da terra, uns por precipitação de substancias dissolvidas,

outros por separação mechanica de materias suspensas n’aquelle liquido.

A agua que se infiltra pelas paredes das cavernas calcareas, dissolve

uma porção de carbonato de cal. O acido carbonico resultante da

decomposição dos restos organicos ou procedente da atmosphera favorece

esta dissolução transformando o protocarbonato mui pouco soluvel em

bicarbonato soluvel. A dissolução d’este sal, chegando ao ar livre,

perde um equivalente de acido carbonico, e o bicarbonato transforma-se

em protocarbonato que se precipita. Assim se formam as stalactites e as

stalagmites no tecto e no chão das cavernas, quando a agua carbonatada

gotteja das suas paredes. Quando porém corre em quantidades maiores e

arrasta comsigo areias, restos de plantas e outros materiaes, fórma

então aquellas massas leves e porosas que chamam _tufo_, em que o

protocarbonato de cal se incrusta sobre as partes solidas arrastadas.

Acha-se o tufo em grandes porções nas cavernas de Condeixa, tres leguas

ao SO de Coimbra.

Mas os depositos mechanicos são os mais interessantes pela maior

variedade de restos que contêem. Todos sabem que as aguas correntes

arrastam em suspensão materias solidas, e muitas especificamente mais

pesadas. Se qualquer causa diminuir ou destruir o movimento da agua,

as partes solidas depositar-se-hão, em geral, pela ordem das suas

densidades relativas. Isto posto, vê-se como os vãos das cavernas

deveriam favorecer similhantes depositos, retardando a velocidade das

correntes interiores ou das exteriores que dentro n’elles penetrassem.

Na maior parte dos depositos, assim formados, predomina a argilla

arenosa de côr avermelhada ou amarellada, sem grande consistencia, umas

vezes mais ou menos estratificada, outras vezes sem nenhuns signaes

de estratificação. Conforme o mechanismo do deposito e a natureza das

partes depositadas, assim as camadas são ou extremamente molles ou

tão endurecidas pelo calcareo que as impregna, que se não cortam sem

dificuldade. Ás vezes nas camadas depositadas acham-se incorporados

seixos, calhaus rolados, fragmentos de stalactites e pedras angulosas

pela maior parte provenientes das paredes das cavernas. Alguns porém

foram arrastados de fóra e de pequenas distancias pela agua corrente.

Consideram os geologos os depositos interiores das cavernas como a

continuação dos depositos exteriores superficiaes. Têem todos a mesma

natureza e textura e até muitas vezes a mesma côr avermelhada.

Muitas cavernas tornam-se notaveis pela quantidade de ossos que

encerram. Por isso lhes chamam commumente cavernas ossiferas ou

cavernas de ossadas. Estes ossarios têem ás vezes grande espessura.

Na caverna de Banwel, no condado de Sommersetshire, em Inglaterra, a

sala maior de quinze metros de altura, estava cheia até ao tecto com

um deposito de ossos. A regra geral é apparecer a camada molle dos

ossos por baixo da camada dura calcarea ou stalagmitica. Algumas vezes

acham-se invertidas, e outras vezes alternam camadas de uma com as de

outra especie. Para explicar esta alternação importa considerar não

sómente as causas já indicadas da formação dos depositos calcareos,

mas tambem aquellas que operaram os depositos dos ossos. Primeiro que

tudo convirá notar uma circumstancia importante, um facto capital,

que em toda a explicação se ha de ter em vista. E vem a ser a grande

variedade de animaes, cujos ossos se encontram juntos nas mesmas

cavernas.

«As cavernas de Muggendorf e de Gailenreuth, diz Burgmeister, formadas

na dolomia do terreno jurassico bavaro, são particularmente celebres.

Da ultima têem extrahido ossadas pelo menos de mil individuos, dos

quaes oitocentos pertencentes á especie do grande urso (_Ursus

spelœus_), sessenta a uma outra especie do mesmo genero (_Ursus

arctoideus_) e dez ainda a uma outra especie (_Ursus priscus_). As

cento e cincoenta restantes são de lobos, hyenas, leões e texugos.

As cavernas de Sundwig em Iserlohn continham restos de especies

similhantes, sendo mais numerosos os do _Ursus spelœus_. A caverna de

Kirkdale, na região oriental do condado d’York, contém pelo contrario,

sobre tudo, ossos de hyenas com outros ossos roidos de cavallos, bois,

veados, trazidos pelas hyenas. Ahi foi que Buckland fez as suas bellas

investigações sobre o genero da vida primitiva d’estes animaes, e notou

as camadas de excrementos juntos das paredes polidas pelas hyenas.

Achou-se em Argou, departamento dos Pyreneus, uma caverna com animaes

herbivoros, a qual de resto se ha de considerar como uma raridade.

Occupa um schisto liasico, e continha principalmente ossos de cavallos,

bois, veados e rhinocerontes»[61].

Os ossos das cavernas podem ter sido de animaes mortos ou dentro ou

fóra d’ellas. Se ainda hoje são habitadas pelos morcegos, corujas e

outras aves nocturnas e por grande variedade de animaes carniceiros,

que muito que em epocas remotas egualmente o fossem, e que esses

animaes de tantas classes e de tantas especies lá ficassem sepultados?

Morreriam uns de morte natural deixando os seus restos incorporados

no solo das cavernas. Outros seriam arrastados, como presas, pelos

carnivoros para dentro d’ellas. Em fim, por occasião das inundações,

era natural que animaes de especies differentes, e até inimigos, se

recolhessem ás cavernas, pois quando é grande o perigo e commum, todos

os instinctos cedem ao da propria conservação. Em tal caso, elevando-se

o nivel da agua e tapando a boca da caverna e enchendo o seu interior,

todos os animaes ali accumulados morreriam por asphyxia.

Todavia em muitas cavernas encontram-se os ossos maiores dos grandes

mammaes, como os dos membros anteriores e posteriores, com os angulos

arredondados e com as arestas comidas do attrito, e os ossos pequenos

reduzidos a fragmentos disformes e boleados. Alterações taes provam que

os ossos foram arrastados pela agua juntamente com os calhaus e por

estes friccionados. Por outra parte, a natureza das rochas accumuladas

com os ossos, differentes d’aquellas que constituem as paredes das

cavernas, demonstra haverem-se formado as camadas ossiferas á custa dos

terrenos exteriores. Finalmente não apparecerem esqueletos inteiros

em taes depositos é ainda outro motivo para crer que, na maior parte

das cavernas, os ossos procedentes de animaes, mortos fóra e não dentro

d’ellas, seriam arrastados, por occasião das inundações, pela agua com

os materiaes constituintes dos terrenos onde jaziam sepultados.

Por entre as ossadas de muitas cavernas têem apparecido ossos humanos e

vestigios da industria primitiva, e, como algumas d’aquellas pertenciam

a especies extinctas ou emigradas, ao mammouth, ao rangifer, ao

urso, allega-se geralmente este facto entre as provas da antiguidade

remota da especie humana. Porém na opinião de alguns tal prova é

insufficiente, porque, dizem, se os vestigios do homem foram sepultados

dentro das cavernas, muito bem o poderiam ser depois de lá existirem

ossadas de animaes que tivessem vivido muitos milhares de annos antes.

Se pelo contrario taes vestigios foram arrastados de fóra com as

ossadas antidiluvianas, é claro que poderiam egualmente uns e outros

ter idades mui differentes, e até fazer parte de terrenos mui diversos.

Estas objecções levaram os exploradores a pôr todo o cuidado nas

explorações, de modo que os resultados obtidos não ficassem sujeitos a

contradictas. Assim as relações de posição dos instrumentos de silex

com os ossos dos depositos, o encontrarem-se no mesmo plano ou em

planos inferiores, os entalhos feitos nos ossos, o modo por que foram

quebrados para se lhes extrahir a medulla e finalmente os desenhos do

mammouth ou do rangifer em objectos de osso, de chifre ou nas proprias

presas dos animaes, como se encontraram em cavernas da Dordonha, tudo

foi minuciosamente estudado e tudo mostrou haverem sido contemporaneos

o homem e os grandes mammaes desapparecidos.

Uma das cavernas que mais concorreram para esclarecer a questão foi

a de Cavillon, explorada pelo sr. Rivière entre aquellas que se

descobriram na occasião de se construir o caminho de ferro de Genova a

Menton e a Nice. No dia 26 de março de 1872 achou o explorador os ossos

do pé de um esqueleto humano. O esqueleto estava de tal sorte adherente

aos materiaes que o envolviam, que só, depois de oito dias de trabalho,

se poude destacar d’elles. Estendido no decubito lateral esquerdo e com

a maxilla inferior appoiada nas phalangetas da mão esquerda, jazia na

attitude de um homem a quem morte subita e sem agonia surprehendesse

durante o somno. Em roda do esqueleto acharam-se instrumentos de silex

lascados, taes como pontas de frecha, pontas de lança e raspadeiras; um

pedaço de puncção de osso, conchas de varios generos e dentes furados

que tinham servido de ornatos; dentes do urso grande (_ursus spelœus_),

do gato grande (_felis spelœus_), do _rhinoceros tichorhinus_ e da

_hyena spelæa_, especies caracteristicas da epoca do mammouth.

Apesar da sua remota antiguidade e do seu prognathismo, o craneo de

Menton, pelo angulo facial, pela proeminencia de _vertex_, pelo grande

volume da parte posterior, etc., assimilha-se aos craneos da mais

perfeita das raças actuaes. Comtudo para contrapôr a este facto que

tenderia a provar a invariabilidade do typo humano durante largos

periodos de tempo, ha os craneos de Neanderthal, de Forbes’Quarry, de

Brux, de Eguisheim e as maxillas encontradas na caverna de La Naulette

e n’outros logares. Estes vestigios, de epocas mais remotas, demonstram

a diversidade anatomica dos homens a quem pertenceram, em relação ao

typo humano da actualidade.

Nos paizes, onde mais se cultivam os estudos prehistoricos, têem-se

explorado as cavernas para colher os numerosos e importantes vestigios

que ellas contêem do homem primitivo. Na Peninsula muitas estão já

exploradas, mais em Hespanha que em Portugal, mas ha ainda muitissimas

para explorar. Falta sobre tudo comparar os resultados obtidos e

aquelles que por ventura se possam obter, para lançar alguma luz por

entre as trevas espessas que involvem ainda hoje os tempos anteriores á

historia.

Em 1865 Luiz Lartet explorou as cavernas do terreno jurassico da

Sierra Cebollera, no termo de Torrecilla de Cameros, Nieva de Cameros

e Ortigosa, nas mais notaveis das quaes, na superior e na inferior

da Peña de Miel e na Lobrega, encontrou machados, facas, raspadores,

ceramica e alguns utensilios de osso, pertencentes á epoca neolithica

ou da pedra polida. As cavernas exploradas attribuia-as Lartet a tres

diversas idades: 1.ª do rhinoceronte, mas de uma especie differente

do _R. tichorhinus_ que parece não ter atravessado nem os Alpes nem

os Pyreneus. 2.ª Do boi primitivo, e unicamente d’elle, porque na

Peninsula não apparecem vestigios do rangifer nem da maior parte dos

mammiferos que nas cavernas da França lhe andam associados. 3.ª Das

especies domesticas. Das cavernas da primeira idade suppoz o explorador

que não seriam habitadas pelo homem na epoca do rhinoceronte. Nas

da segunda idade achou instrumentos de osso e de pedra lascada,

similhantes áquelles que em França caracterisam a epoca mesolithica, e

nas da terceira idade depararam-se-lhe mais numerosos os silex polidos,

os instrumentos de osso mais perfeitos, a ceramica, etc.[62]

O Capitão Brome explorou muitas cavernas do monte Calpe na bahia de

Gibraltar. Pela situação geographica d’estas cavernas, os fosseis

e os productos da industria humana aqui encontrados têem grande

importancia para o estudo das origens ethnicas e das emigrações dos

povos primitivos. Conheceu-o o governo inglez, e incumbiu os srs. Busk

e Falconer de estudarem tão curiosos vestigios prehistoricos. N’uma

d’aquellas cavernas, que chamam _Genista_, acharam estes naturalistas

restos fosseis da _hyena crocuta_, especie africana ainda existente,

do leopardo, lynce, gato do Cabo, cervo de Barbaria e de uma especie

de ibex. Porém, como os instrumentos encontrados pertencem á epoca

neolithica, é possivel que o homem habitasse as cavernas de Gibraltar

posteriormente áquelles animaes. O celebre craneo da Pedreira de

Forbes, similhante ao de Néanderthal, é que póde ser anterior á epoca

da pedra polida e, portanto, contemporaneo de uma fauna differente da

actual[63].

O sr. Vilanova explorou na provincia de Valencia as cavernas de

Parpalló, na falda occidental de Monduber, no termo da cidade de

Gandia; de Cova Negra entre as aguas de Bellus e a cidade de Jativa na

margem esquerda do rio Albaida; de San Nicolás, no termo da Olleria; de

Avellanera, no termo de Catadau, na falda septemtrional de Matamon; e

finalmente das Maravillas, no termo de Gandia. Encontrou o explorador

grande variedade de ossos, dentes, conchas, paus de veado, facas e

pontas de frecha de silex, ceramica, etc. Estas cavernas attribuiu-as o

sr. Vilanova á epoca paleolithica. Basta porém a presença da ceramica e

dos animaes domesticos para se conhecer que seriam habitadas na epoca

neolithica. O sr. Tubino tambem affirma que, sómente pelos fragmentos

de silex, se não podem classificar as cavernas de Valencia na epoca

paleolithica[64].

O sr. Mac-Pherson explorou a Cueva de la Mujer, situada n’um cerro

chamado Mesa del Baño, junto do estabelecimento thermal de Alhama de

Granada, a cincoenta metros sobre o rio Marchan. Em duas memorias,

illustradas com muitas estampas, deu o explorador curiosa noticia dos

vestigios descobertos em duas explorações successivas, uma no deposito

superior, outra no deposito inferior d’esta caverna. Os vestigios

foram fragmentos de ceramica, alguns tintos de encarnado com almagre;

facas e lascas de silex; ossos furados para servirem de amuletos ou

adornos, furadores ou puncções de osso; fragmentos de conchas; craneos

humanos, ossos e dentes de varios animaes, alguns abertos no sentido

longitudinal, talvez para lhes extrahirem a medulla; carvão e cinza; um

bracelete feito de uma concha (fig. 47), etc.[65]

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 6 / 18 段