importa que elle seja fresco, isto é, recentemente extrahido da
terra. Por isso os homens prehistoricos exploraram esta rocha em
grande escala, furando poços e abrindo galerias, alguns e algumas de
grandes dimensões. Os instrumentos de que se serviam eram uma especie
de picaretas feitas de ponta de veado. Em Portugal algumas se têem
encontrado de pedra.
No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas lascas
de silex, colhidas em varios sitios onde esta rocha foi explorada e
fabricada. Vieram da Matta de Otta, da Charneca de Sacavem, do Arieiro
de Telheiras, do Alto de Foz da Ponte, etc. Ignoram-se porém as
circumstancias especiaes d’esses logares, que muito conviria saber para
determinar a epoca e as circumstancias especiaes das varias officinas.
Têem apparecido n’algumas estações prehistoricas os instrumentos
empregados para polir ou para lascar o silex. São tambem de silex. Os
polidores têem cavidades de varias formas, onde pelo attrito se alisava
a superficie das armas de pedra. Os percutores eram afeiçoados de sorte
que se podessem apertar na chave da mão. Tinham tambem cavidades de
fórma concava para o artifice fincar n’ellas os dedos, e percutir assim
com mais força (fig. 18 e 19).
[Illustração: Fig. 20
MACHADO DE FELDSPATH POLIDO, DA PROVINCIA DO ALEMTEJO.]
Das armas de pedra aquellas que mais numerosas apparecem tanto em
Portugal como em Hespanha e em toda a parte, são os machados. Não
foram encontrados, é verdade, nas explorações do Cabeço da Arruda e
das grutas de Cesareda; mas, em compensação, acham-se em todas as
provincias, onde, desde tempos immemoriaes os camponezes lhes chamam
pedras de raio, e os guardam com grande veneração pelas virtudes que
lhes attribuem.
Acham-se com frequencia nos dolmens. Na Memoria que ácerca d’estes
monumentos escreveu o sr. Pereira da Costa vem desenhados oito com
varias fórmas e dimensões[47]. São os typos mais communs em Portugal.
Variam tambem muito as pedras de que os machados são feitos. Predominam
o silex, o schisto, a amphibole, a diorite e o calcareo. Em Cantanhede
appareceram alguns de jade, rocha não existente em Portugal, nem no
resto da Europa, segundo dizem. No Alemtejo encontram-se os machados de
pedra em muito maior numero que nas outras provincias[48].
[Illustração: Fig. 21
Fig. 22.
Fig. 23
INSTRUMENTOS DE PEDRA DA CAVERNA DE ALBUÑOL E DE MAFRA.]
No museu da Universidade de Coimbra conservam-se muitos machados de
pedra provavelmente de selvagens modernos. Ignora-se d’onde procederam
e a epoca em que foram depositados n’aquelle estabelecimento. Além
d’estes, ha um notavel, pela perfeição com que foi fabricado: appareceu
na Cegonheira, perto de Bordalo, nas circumvisinhanças e a oeste de
Coimbra.
São do mesmo typo os machados de diorite e de jade, descobertos em
Argecilla e os que appareceram na caverna de Albuñol, Andaluzia[49].
Aqui porém encontraram-se dois, um inteiro e outro partido, mui
differentes dos typos communs em Hespanha e Portugal. É possivel até
que não sejam machados, mas outros instrumentos de pedra, conforme a
opinião do sr. Gongora, que assim os denomina.
Alguns instrumentos se têem colligido em Portugal com a fórma curva,
quasi de crescente (fig. 23). Na Commissão geologica conservam-se
quatro d’estes instrumentos curvos de calcareo branco e molle, achados
um em Mont’Abrão, e os outros tres nas immediações de Mafra, e tambem
um fragmento egualmente de calcareo que parece de outro similhante
objecto, fragmento encontrado na Casa da Moura, uma das grutas de
Cesareda. Outro muito curvo, porém de diorite e de maiores dimensões,
apparecido em Thomar, pertence hoje ás collecções do museu da Escola
Polytechnica. É notavel esta fórma. Seriam picaretas?[50] Parece que os
de Mafra, por serem de calcareo sem dureza, e portanto improprios para
se empregarem como armas ou como instrumentos, teriam antes servido de
insignias. Muitas facas de silex são tambem tão delgadas que talvez
não tivessem outro fim. As que appareceram no concelho de Ancião
partiram-se logo na occasião em que foram encontradas, por effeito dos
choques que soffreram. O apparecerem algumas com objectos de bronze
persuade até certo ponto a opinião, segundo a qual alguns d’estes
objectos prehistoricos passariam de uma a outra idade, não com os usos
que em principio tiveram, porém como emblemas, como symbolos sagrados,
por trazerem á lembrança uma grande antiguidade ou os primordios da
especie humana.
Não ha motivos para suppôr alguns dos objectos de osso, encontrados em
Portugal nas estações prehistoricas, anteriores á epoca neolithica.
Na casa da Moura, uma das cavernas da Cesareda, appareceram varios
puncções, uma grande faca partida e um cabo de osso. A faca tem
n’uma das faces uma excavação á maneira de meia cana, que é parte do
canal medullar. O cabo não passa de um fragmento de um osso grande,
cuja fórma natural aproveitaram sem o afeiçoarem. A superficie está
desgastada pelo attrito da mão. Parece ter servido para encabar algum
machado ou outro instrumento de pedra, da mesma sorte que empregavam
para este mesmo fim as pontas de veado. E na Casa da Moura se encontrou
tambem um cabo d’esta ultima especie (fig. 24). Similhantes ao outro de
osso appareceram dois na Fonte da Ruptura em Setubal e um na Azambuja,
perto da Penha de França. Todos se conservam no museu da Escola
Polytechnica.
Na Fonte da Ruptura appareceram ossos transformados em puncções, algum
ou alguns dos quaes, pelo grande comprimento, parecem de ave ribeirinha.
[Illustração: Fig. 24.
CABO DE OSSO DA CASA DA MOURA.]
Estes instrumentos, designados pelo nome commum de _puncções_, (fig. 25
e 26) poderiam servir de pontas de frechas ou de dardos e para outros
fins differentes. Apparecem com frequencia nas estações prehistoricas
e todos os archeologos os conhecem. Pelo contrario deveria ter um fim
certo e determinado um instrumento tambem de osso, apparecido na Fonte
da Ruptura, em Setubal, e que não consta haver-se encontrado n’outras
partes. É um osso macisso de fórma cylindrica, adelgaçado em metade do
seu comprimento para se introduzir n’outro osso vasado, cuja capacidade
interior corresponde áquella parte menos grossa do cylindro macisso.
O sr. Pereira da Costa julga que este instrumento serviria para abrir
furos em pelles. Collocadas as pelles sobre o orificio superior do
cylindro vasado, facilmente se atravessariam pela parte mais delgada do
cylindro macisso. Sería este ou outro o uso de tão singular objecto?
Ninguem o saberá dizer hoje com certeza. Acharam-se na Fonte da Ruptura
dois d’estes furadores. Chame-se-lhes assim interinamente.
[Illustração: Fig. 25
Fig. 26
PUNCÇÕES DE OSSO DE ALMERIA E DA FONTE DA RUPTURA.]
Na caverna de Albuñol na Andaluzia appareceram puncções de osso e
uma folha de faca ou canivete, furado na base, tambem de osso. No
Cabeço da Arruda em Portugal encontrára o sr. Pereira da Costa uma
faca similhante de osso, porém muito comida do tempo ou do uso que
tivera[51].
[Illustração: Fig. 27
Fig. 28
FURADOR (?) DA FONTE DA RUPTURA.]
[Illustração: Fig. 29
FACA DE OSSO DE ALBUÑOL.]
Na anta de Bellas appareceu um fragmento de cylindro de osso, vasado
por dentro, e por fóra muito lavrado. Sería parte de um copo, ou de um
ornato de algum objecto de fórma cylindrica?
[Illustração: Fig. 30
FRAGMENTO DE OSSO SEMI-CYLINDRICO DA ANTA DE BELLAS.]
Outro fragmento similhante tambem de osso lavrado achou-se na Furninha
do Cão (Peniche?). Ambos se conservam no museu da Escola Polytechnica.
Têem apparecido em Portugal muitas placas de schisto negro, com
lavores similhantes aos do fragmento anterior n’uma das faces. São
furadas umas em um, outras em dois pontos, n’uma das extremidades.
No museu da Escola Polytechnica, além d’aquella que appareceu em Monte
Real (fig. 31), conservam-se mais duas de Vianna do Alemtejo, quatro de
uma anta de Pavia, e finalmente outra da anta de Bellas; na Commissão
geologica o fragmento de outra placa da Cova da Estria (fig. 32). Na
collecção de archeología do Instituto de Coimbra outra apparecida em
Ancião. Em fim na bibliotheca publica de Evora mais duas, n’uma das
quaes se vê o mesmo lavor da fig. 31, e n’outra apenas umas listas em
zig-zag, similhantes ás do fragmento de osso da anta de Bellas.
As placas de schisto riscadas parece terem sido usadas pelos
constructores das antas, por se encontrarem algumas d’ellas nas antas
de Bellas e de Pavia. Em Bellas, Ancião, Monte Real e Cova da Estria
encontraram-se juntamente facas de silex do typo das fig. 16 e 17, o
que tambem demonstra terem sido usadas tanto umas como outras na mesma
epoca e pelo mesmo povo.
[Illustração: Fig. 31
PLACA DE SCHISTO DE MONTE-REAL, LEIRIA.]
[Illustração: Fig. 32
FRAGMENTO DE UMA PLACA DE SCHISTO DA COVA DA ESTRIA.]
Estes objectos são desconhecidos dos archeologos. Não têem sido
desenhados, nem outros nenhuns similhantes, nos livros de archeologia
prehistorica; excepto na grande obra _Reliquiæ Aquitanicæ_, onde a pag.
186 vem um instrumento comparavel ás placas de schisto. É de basalto
e tem a fórma de um machado. N’uma das extremidades vê-se um orificio
e no bordo correspondente oito entalhos que formam uma especie de
serrilha. Appareceu na Pensylvania. Os auctores das _Reliquiæ_ entendem
que sería uma especie de machado que se ligaria a um cabo, passando o
cordão ou corrêa pelo orificio e fixando-se nos entalhos[52].
A placa de schisto (fig. 31) tem, além do orificio, um entalho no
bordo, e algumas têem mais de um orificio e de um entalho. Por analogia
concluiremos que as placas de schisto poderiam tambem ser uns como
machados que se ligassem por meio dos orificios e dos entalhos a cabos
de madeira. Mas a delicadeza d’estes objectos, e não estarem gastos do
attrito, faz crivel que serviriam apenas de amuletos ou insignias ou
emblemas ou objectos de culto na epoca dos dolmens, bem como as facas
de silex contemporaneas (fig. 16 e 17).
[Illustração: Fig. 33
BACULO DE SCHISTO DA SEPULTURA DE MARTIM AFFONSO.]
Em fim convem notar que a machadinha de Argecilla (fig. 8 e 9), é
analoga ás placas de schisto e serviria talvez para o mesmo fim, bem
como outra de calcareo com a fórma de coração, achada na Cova da Estria
(fig. 34).
No museu da Escola Polytechnica ha uma especie de baculo (fig. 33),
tambem de schisto negro e com ornatos parecidos aos das placas (fig.
31). Appareceu na Sepultura de Martim Affonso juntamente com facas de
silex, como as da fig. 16 e 17, e com a ponta de lança (fig. 15.)
Sería talvez insignia de grau superior, pois não se sabe de outra
similhante[53].
Convém notar que na parte inferior ha um pequeno espaço liso,
por onde talvez se introduzisse n’algum cabo ou haste de pau. É
extremamente comparavel esta insignia áquellas que denominaram
bastões de commando, feitas de pau de rangifer, e muito communs
nas estações prehistoricas de outros paizes. Dir-se-hia que, não
habitando o rangifer na Peninsula, os homens se veriam aqui obrigados
a substituir aquella materia pelo schisto. Mas a coexistencia das
placas, baculos de schisto e dolmens está demonstrando ter sido o
uso d’estes objectos muito posterior á epoca do rangifer. Quanto aos
ornatos triangulares, foram muito communs na epoca da pedra polida.
A ornamentação com linhas curvas representa já um progresso da arte,
posterior ao emprego exclusivo da linha recta. Mas advirta-se que a
superficie dos triangulos, coberta de traços que se cruzam, formando
pequenos quadrados, não é nada commum na epoca neolithica, e póde
até considerar-se caracteristica dos objectos de schisto achados
em Portugal. Na Scandinavia, como se vê da obra de Nilsson, têem
apparecido enxadas de ponta de veado, com figuras de animaes (cervos?)
esboçadas, e junto d’estas figuras os triangulos cobertos de traços
cruzados como os das nossas placas e baculos. Os dolmens da Scandinavia
são tambem aquelles que mais se assimilham aos de Portugal. Adiante
veremos as conclusões que se hão de tirar d’estes factos importantes.
[Illustração: Fig. 34
MACHADINHA DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.]
Que as placas de schisto não serviriam de certo para os fins a que
se applicaram os machados de pedra claramente se prova com o achado
de um objecto similhante, mas de calcareo que a fig. 34 representa em
tamanho natural. Tem a fórma de um coração, com quanto os orificios e
os entalhos da base mostrem com certeza que deveria ligar-se a um cabo
ou haste de pau para representar o antigo e talvez já obsoleto machado
de pedra. A molleza do calcareo, provando que este objecto não poderia
servir para qualquer trabalho em que tivesse de se empregar um machado,
confirma a hypothese de que estas e outras reliquias prehistoricas
não seriam mais que emblemas ou insignias para as ceremonias do culto
ou para quaesquer outras, e que se enterrariam com aquelles a quem
tivessem pertencido. Assim temos já as facas de silex, as picaretas com
fórma de crescente, as machadinhas de schisto e de calcareo, a que é
applicavel a nossa hypothese, e que, sem ella, não teriam razão de ser,
nem outra explicação possivel.
[Illustração: Fig. 35
FRAGMENTO DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.]
Achou-se tambem na Cova da Estria um fragmento cylindroide do mesmo
calcareo esbranquiçado e sem dureza com duas riscas transversaes n’uma
das extremidades e tres riscas obliquas do lado da outra extremidade
(fig. 35). Impossivel parece apresentar no estado actual da prehistoria
uma opinião certa ácerca do fim para que tal objecto serviria na epoca
dos dolmens. Sería um contador ou uma insignia de graduação determinada?
Do mesmo calcareo é uma conta de collar, achada na anta de Bellas,
(fig. 36), e tambem duas bolas encontradas na Cova de Estria.
Acharam-se mais na anta de Bellas duas contas de schisto (fig. 37).
Outras similhantes a estas ultimas e da mesma materia appareceram na
Casa da Moura.
No dolmen de Vauréal, em França, descobriu-se um esqueleto de mulher
e junto d’elle as contas de um collar, umas feitas de osso, outras
de schisto e um amuleto com a fórma de machadinha que parecem ter
pertencido ao mesmo collar[54]. Se não fôra a grande similhança das
placas de schisto do typo da fig. 31 como o instrumento de basalto da
Pensylvania, poderiam antes considerar-se como amuletos ou insignias
de collares, bem como a peça cordiforme de calcareo (fig. 34); porém a
existencia dos entalhos tanto em uns como em outros, faz mais provavel
a opinião expendida.
[Illustração: Fig. 36
CONTA DE CALCAREO DE BELLAS.]
[Illustração: Fig. 37
CONTAS DE SCHISTO DE BELLAS.]
N’algumas das estações prehistoricas de Hespanha e de Portugal têem
apparecido juntamente com os objectos descriptos ou outros similhantes,
vasos de barro ou fragmentos de louça. Os mais imperfeitos são os vasos
hemisphericos da Casa da Moura, sem lavores nenhuns, com a superficie
aspera, feitos á mão, antes da invenção do torno, ou por quem não
tivesse este instrumento. Estão cheios de uma substancia amorpha
que parece haver-se solidificado dentro dos vasos. Seriam alimentos
depositados juntamente com os cadaveres? Acreditariam já os antigos
habitantes da Casa da Moura o dogma da resurreição?
No alto do Mont’Abrão, na Pena de Setubal e na Fonte da Ruptura
da mesma cidade appareceram fragmentos que denotam muito maior
adiantamento das artes da ceramica, não sómente pela qualidade do
barro, mas tambem pela regularidade dos ornatos. Alguns são cobertos de
um verniz vermelho (fig. 38, 39 e 40).
Outros similhantes fragmentos se conservam tambem nas collecções da
Commissão geologica e do museu da Escola Polytechnica, encontrados em
Santa Eulalia, perto de Monte-Mór-o-Velho, em Barcarena, etc.
A fig. 41 representa um fragmento da ceramica prehistorica da
Andaluzia, achado na caverna de Albuñol, e que parece contemporaneo
d’aquelles que ultimamente dissemos terem sido encontrados em varias
estações prehistoricas de Portugal.
Ha grande similhança entre taes fragmentos e os que se encontraram no
tumulo de West-Kennet no Wilt-shire. A fig. 39 é quasi uma copia do
desenho de um d’aquelles fragmentos estampados, descriptos e publicados
por Lubbock. Por onde se confirma que a estação da Pena de Setubal e
outras estações correlativas de Portugal e Hespanha foram com effeito
occupadas na epoca neolithica ou premetallica.
[Illustração: Fig. 38
Fig. 39
Fig. 40
FRAGMENTOS DE LOUÇA DE MONT’ABRÃO, PENA E FONTE DA RUPTURA.]
[Illustração: Fig. 41
FRAGMENTO DE CERAMICA DE ALBUÑOL.]
Outros achados feitos na caverna de Albuñol da provincia da Andaluzia
dão-nos mais alguma idéa dos costumes e do estado social dos homens
que habitavam a Peninsula n’esses tempos remotos. A caverna, conhecida
pelo nome de _Cueva de los murcielagos_, tinha sido explorada em 1831
com o fim de extrahir d’ella o guano formado pelos excrementos dos
animaes que lhe deram o nome. Não se revolveu o solo n’esta primeira
exploração; portanto ficaram intactos os objectos que ali estavam
sepultados. Em 1857 constituiu-se uma companhia para explorar os
mineraes de chumbo que suppunham haver na caverna. Logo no principio
das excavações appareceram á entrada tres esqueletos, um dos quaes
cingido com diadema singelo de ouro puro (fig. 42).
Continuando a excavação pelo interior da caverna, acharam os mineiros
doze cadaveres, postos em semi-circulo á roda de um esqueleto de mulher
muito bem conservado, vestido com uma tunica de pelle, apertada com
corrêas, e adornado com um collar feito de anneis de esparto, de um dos
quaes pendia um dente de javali lavrado na ponta, e dos outros conchas
furadas.
[Illustração: Fig. 42
DIADEMA DE OURO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.]
O esqueleto a que pertencia o diadema de ouro tinha uma veste curta de
tecido fino de esparto, (fig. 43). Os vestidos dos outros eram tambem
de esparto, porém de tecido mais grosseiro, (fig. 44). Alguns tinham
gorros de tecido similhante (fig. 45), e calçado tambem de esparto, á
maneira de alpercatas. Cada um dos tres esqueletos tinha uma bolsa de
esparto, cujo tamanho variava entre seis e quinze pollegadas (fig. 46).
Em fim, na parte mais remota do interior da caverna acharam os mineiros
outros cincoenta esqueletos tambem vestidos e calçados de esparto.
Juntamente com as ossadas havia facas e machados de pedra, lanças
e frechas com pontas de silex pegadas a toscos paus com um cimento
fortissimo; vasos de barro, e colhéres de madeira trabalhadas á
pedra e ao fogo. O sr. D. Manuel de Gongora, annos depois, encontrou
ainda o diadema de ouro e outros objectos, que algumas pessoas
curiosas guardavam, e poude mandal-os desenhar e gravar para lhes dar
publicidade na sua interessante Memoria[55].
Serão porém authenthicos os objectos que dizem achados em Albuñol?
E, sendo-o, não se deverá antes attribuil-os a uma epoca muito
menos antiga, de sorte que podessem chegar aos nossos dias tão bem
conservados? Que o sr. Gongora viu os objectos é indubitavel. Responde
pela sua veracidade a Academia Real de Historia que deu o parecer
favoravel á impressão da Memoria. Que abusassem da boa fé do explorador
e da sua paixão pela archeologia não é crivel; uma falsificação
denunciar-se-hia logo por qualquer incompatibilidade entre os objectos
encontrados. Ora todos elles revelam claramente a epoca neolithica.
Entre tantos objectos achados não houve um só de bronze ou de ferro.
Appareceu, é verdade, o diadema de ouro, mas ha toda a razão para
suppôr que este metal sería fabricado anteriormente ao cobre, por
se apresentar no estado nativo e não exigir portanto a invenção de
processos especiaes de extracção. Demais andam conformes os auctores
antigos em descrever as areias dos rios da Peninsula como abundantes de
palhetas de ouro.
[Illustração: Fig. 43
Fig. 45
Fig. 44
TECIDOS DE ESPARTO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.]
Os tecidos de esparto não ha impossibilidade nenhuma em attribuil-os á
epoca neolithica, pois têem apparecido em estações lacustres da idade
da pedra, sobre tudo em Wangen e em Robenhausen, fragmentos similhantes
áquelles que se descobriram em Albuñol[56].
Mas como se conservariam os esqueletos, alguns com as carnes
mumificadas, os tecidos e as pelles, por tantos seculos? A falta
do ar e da humidade no subsolo da caverna, poderiam ter obstado á
putrefacção. Por outra parte concorreria igualmente para o mesmo
effeito o salitre que o sr. Gongora diz ter encontrado dentro da _Cueva
de los murcielagos_.
[Illustração: Fig. 46
BOLSA DE ESPARTO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.]
O uso das conchas e das prezas de javali, como ornatos, era muito
commum aos habitantes das cavernas e dos dolmens. No entulho superior
da Casa da Moura encontraram-se valvas de _Pectunculus_ com as faces
muito desgastadas, e furadas no umbão. Outras valvas d’aquella mesma
especie ou de _Pecten maximus_ não tinham signal nenhum de terem sido
furadas, como as outras, mas estavam similhantemente desgastadas[57].
O sr. Vilanova dá noticia de conchas dos generos _Pecten_,
_Pectunculus_, _Helix_, _Melanopsis_, _Cyclostoma_, _Cardium_,
_Bulimus_, _Conus_ e outras achadas nas cavernas de Parpalló na falda
occidental de Monduber; de Avellanera, na falda septemtrional de
Matamon, provincia de Valencia; da Roca em pequena distancia da cidade
de Orihuela; attribuindo os vestigios das duas primeiras cavernas
á epoca paleolithica e os da terceira á epoca mesolithica. Mas é
possivel que os vestigios d’estas cavernas, bem como os de Argecilla,
não tenham a antiguidade que se lhes attribuiu[58].
Na _Cueva de la mujer_, nas circumvisinhanças da Alhama de Granada,
achou o sr. Mac Pherson um bracelete muito notavel, feito de uma
concha (fig. 47)[59]. Pelos fragmentos de louça encontrados n’esta
caverna se prova serem os seus habitantes contemporaneos d’aquelles que
ficaram sepultados em Albuñol, e dos outros que frequentavam a Pena e
a Fonte da Ruptura em Setubal. Entretanto, não consta que se tenha até
hoje achado na Peninsula outro bracelete similhante. Em França n’uma
pedreira da estrada de Dijon a Auxonne appareceu em 1849 uma sepultura,
e d’entro n’ella, juntamente com os ossos, um bracelete como o da
_Cueva de la mujer_ e dois anneis feitos tambem de conchas bivalvas e
desgastadas no meio, ficando uma parte muito mais grossa que sería para
formar saliencia pela parte de fóra do dedo. Acharam-se mais no mesmo
logar outras conchas furadas que parece teriam sido de um collar.
[Illustração: Fig. 47
BRACELETE DE CONCHA DA CUEVA DE LA MUJER.]
Ainda hoje os Neo-Caledonios usam braceletes de conchas, e rosarios
feitos com as ultimas spiras de conchas pequenas que furam com
paciencia e destreza, dignas de admiração. Nas costas da Africa certos
negros fazem collares de conchinhas brancas da especie denominada
_Volvaria monilis_[60].
NOTAS DE RODAPÉ:
[40] D. Juan Vilanova, _Lo préhistorico en España. Anales de la
sociedad española de Historia Natural_, tomo I, cuarderno 2.º pag. 201
a 204.
[41] F. A. Pereira da Costa, _Da existencia do homem em epocas remotas
no valle do Tejo_. Lisboa, 1865.
[42] Lubbock, _L’homme prehistorique_. Pariz 1876, pag. 77 e 624.
[43] Lubbock, Op. cit. pag. 221 a 227.
[44] Dupont, _L’homme pendant les ages de la pierre_. Pariz 1872, pag.
221.
[45] Vilanova, _Lo prehistorico en España_.
[46] Muitas das pontas de frecha do museu da Escola Polytechnica
provieram da Fonte da Ruptura e da Pena de Setubal, da Casa da
Moura (Cesareda), da anta de Bellas, dos montes de Verride, de
Barcarena, da Sepultura de Martim Affonso, de Monte-real (Leiria),
das circumvisinhanças de Extremoz. As lascas de silex, procedentes do
fabrico das facas, foram encontradas na Matta de Otta, na Charneca de
Sacavem, nos Arieiros de Telheiras (perto do Campo Grande), no alto da
Foz da Ponte (entre a Trafaria e o Cabo), nas Quintinhas de Sant’Anna
(junto de Cezimbra?), ao norte de Mindeis (acima de Collares), entre
Penedo e Bicas, em S. Francisco de Peniche.
[47] F. A. Pereira da Costa. _Dolmins ou antas de Portugal._ Lisboa
1868.
[48] Na collecção de archeologia do Instituto de Coimbra conservam-se
muitos exemplares, pela maior parte do Alemtejo; ali estão tambem os de
Cantanhede.