Das razões, ponderadas no capitulo anterior, se deprehende que, já

na idade quaternaria, a humanidade passára milhares e milhares de

annos sem outros instrumentos mais que os rudes machados de silex,

com o mesmo silex fabricados. Mas, como a duração da idade terciaria

fosse quasi cinco vezes maior que a da idade quaternaria[38], a

existencia de vestigios da industria humana em camadas miocenas

importaria um estacionamento muito mais longo, importaria o decurso

de uma eternidade, durante a qual os homens não possuiriam outra arte

fabril, senão a de lascar pedras, que mal se differençariam d’aquellas

manifestamente resultantes de choques operados por forças physicas.

Advirta-se que os depositos miocenos, a cuja epoca se attribuem os

mais antigos dos silex e quartzites lascadas, os depositos pliocenos

e os diluviaes que se lhes seguiram têem a enorme possança de muitos

centenares de metros, e que, em quanto se effeituaram tão longas

formações, o homem viveria reduzido á condição dos irracionaes, sem

obedecer á lei do progresso, fóra da qual se conservaria até ao fim dos

tempos geologicos. A fauna, a flora, as circumstancias hydrographicas e

orographicas da superficie do globo na idade terciaria eram obstaculos

taes que mal póde o espirito comprehender como, apesar d’elles, se

conservaria e desenvolveria a especie humana. Existiam, é verdade,

os quadrumanos; mas o macaco, pela sua organisação, avantajava-se ao

homem; facilimo lhe sería saltar de ramo em ramo pelas intrincadas

florestas miocenas ou pliocenas, para fugir das alimarias que o

perseguissem ou para buscar os alimentos indispensaveis á vida. Para

fazer compativeis as condições da terra terciaria com a organisação

humana, não falta quem tenha supposto que o homem mioceno sería de uma

especie differente! Mas contra factos não prevalecem razões, por mais

ponderosas que pareçam, e, portanto, bom serviço prestam á sciencia

aquelles que se empenham, como o sr. Carlos Ribeiro, em colligir

documentos interessantes a esta questão, que talvez dentro em poucos

annos vejamos cabalmente resolvida.

Em Hespanha, em terrenos quaternarios, acharam-se já instrumentos

de pedra lascada, alguns dos quaes se guardam no Museu archeologico

nacional. A estação mais importante, pela maior variedade dos vestigios

encontrados, e pelos estudos que n’ella se têem feito, é a de San

Isidro del Campo, em pequena distancia de Madrid. Este terreno situado

na margem direita do Manzanares, quarenta metros acima das suas aguas,

tem vinte metros de espessura e cobre camadas de marga miocenas. Com

os vestigios da industria humana primitiva têem apparecido ossos de

animaes: de um elephante, talvez o _Elephas meridionalis_; do _Cervus

elephas_; do _Equus fossilis_, _varietas pliscidens_ etc.[39] Um

machado de silex encontrado em San Isidro provaria que a antiguidade

d’essa estação não sería menos remota que a da estação de Saint-Acheul

em França, se tivesse havido synchronismo na successão das phases da

industria humana em todos os paizes.

Em toda a Peninsula não têem até hoje apparecido outros vestigios

certos da industria humana durante a epoca da pedra lascada, excepto

os de San Isidro. São já numerosas as estações d’esta epoca da França

e de outros paizes e mais numerosos ainda os objectos colligidos nos

museus e estampados nos livros. A falta de explorações geologicas e

archeologicas será causa, em parte, de tamanha raridade dos vestigios

da pedra lascada em Hespanha e Portugal. Entretanto, apesar d’essa

falta, mais alguns deveriam ter apparecido, se esta parte da Europa

fosse tão habitada, como a França, em tempos tão remotos.

[Illustração: Fig. 4

MACHADO DE PEDRA LASCADA DE SAN ISIDRO]

Mas, o que é mais notavel, da epoca seguinte, da epoca do rangifer não

se conhece um só vestigio indubitavel de industria humana. De sorte

que, se por acaso não se tivesse descoberto a estação de San Isidro,

poderia hoje racionalmente affirmar-se que o homem não teria habitado

a Peninsula antes da epoca neolithica. Por outra parte nem do rangifer

nem d’alguns outros dos animaes contemporaneos têem apparecido restos,

havendo-se, pelo contrario, encontrado alguns dos mammiferos mais

antigos que viviam em Hespanha e Portugal ao mesmo tempo em que o homem

habitava as margens do Manzanares. Explicar-se-ha a falta do homem

contemporaneo do rangifer pelas mesmas causas que deveram obstar a que

este e outros animaes da mesma epoca passassem para áquem dos Pyreneus?

Eis um curioso problema que sómente o conhecimento mais perfeito da

geologia peninsular poderá resolver.

É força confessar que o homem da epoca paleolithica vivia quasi tão

brutamente como as ferozes alimarias que o cercavam, e sem ao menos

dispor dos poderosos elementos de ataque e defeza que as faziam

invenciveis e temidas. Percutir uma pedra com outra e fazer saltar

lascas da primeira até ficar mais ou menos acuminada ou ponteaguda,

transformar os paus, os ossos, os chifres em instrumentos não menos

imperfeitos, tirar chispas de fogo da rapida fricção de ramos

resequidos, eis quasi tudo a que se reduzia a sua limitadissima

industria.

Sem fallar na invenção do fogo, que, só por si, prometteria todo o

futuro desenvolvimento da humanidade, avantajavam-se-lhe, por certo,

na regularidade e importancia das obras, na delicadeza e perfeição dos

processos o castor, a abelha, a formiga. Eram-lhe superiores pelos

fortes musculos, pelas garras, prezas ou outras armas naturaes, o

hippopotamo, o elephante, o urso, o rangifer ou a hyena. As alterações

physicas da superficie do globo livraram a especie humana de alguns

d’esses poderosos inimigos. Mas os sobreviventes bastariam talvez para

extinguil-a, se o homem, inferior nos recursos da natureza physica,

se não tornasse superior a todos, pelo successivo desenvolvimento das

faculdades intellectuaes.

Progride rapido esse desenvolvimento na epoca neolithica ou da pedra

polida. Cessa a anterior agitação que punha em temerosa desordem as

partes solida e liquida da crusta da terra; temperam-se os rigores do

clima, e as neves perpetuas recuam para os mais altos dos cerros das

cordilheiras; algumas das alimarias que disputavam ao homem a posse das

cavernas e dos fructos da terra, emigram para as regiões hyperboreas

ou alpinas, em busca de temperaturas mais conformes a organisações

affeitas á frialdade dos gelos, que não aos ardores dos raios solares.

No meio de condições physicas, similhantes ás da actualidade, o homem

sahe por fim da bruteza em que longamente vivera, eleva-se acima dos

irracionaes que o cercam, alguns converte á domesticidade, e a aurora

esplendida da civilisação illumina pela primeira vez os horisontes das

sociedades nascentes.

Outr’ora as armas e os pouquissimos instrumentos da industria humana

eram feitos de rochas, que pela sua estructura, mais facilmente

lascavam, para tomar, por effeito da percussão, as fórmas acuminadas ou

ponte-agudas. O silex, a quartzite, a obsidiana mereciam a preferencia

para servirem de materias primas á industria incipiente. Agora essas

pedras são muitas vezes substituidas pela diorite, serpentina,

porphydo, jade e outras, suceptiveis de tomarem fórmas e côres mais

varias e mais bellas, embora á força de trabalho e paciencia d’aquelles

que as fabricavam. N’esta nova epoca não basta já como d’antes, que

os instrumentos possam ferir ou cortar, importa egualmente que sejam

bellos e commodos. As fórmas que dão ás rochas com os percutores, o

polimento que lhes põem e as côres que lhes avivam com os alizadores

ou com os raspadores satisfazem ás primeiras exigencias do sentimento

esthetico, mal despontando ainda no coração humano.

Pelo espaço de milhares de annos a intelligencia do homem não teve

á sua disposição mais que uns toscos pedaços de silex aguçados

ou acuminados para furar ou cortar. Na epoca mesolithica, e

particularmente na epoca neolithica ou da pedra polida, dilatam-se

os horisontes industriaes. Fabricam-se martellos, serras, arpões,

collares e outras armas ou ornamentos. Aproveitam-se as pontas do

veado e de outros animaes para varios utensilios. N’alguns apparecem

os primeiros ensaios artisticos em gravuras ou esculpturas toscas e

disformes, porém representando já claramente o homem ou os animaes

amigos e inimigos que o cercavam. Fabricam-se tambem moinhos de duas

pedras para moêr os cereaes, e vasos de barro para guardar as sementes

e as farinhas, ou para outros usos. Em fim, a disposição para a

mais nobre das artes, para a architectura, revela-se no dolmen, no

tumulo, no menhir, no cromleck, monumentos megalithicos da epoca da

pedra polida, que foram para esse tempo o mesmo que as basilicas, os

mausoleus ou os obeliscos para os tempos historicos.

Examinar d’essas varias memorias aquellas que restam na Peninsula,

inquirir a significação que por ventura tenham, relativamente á

prehistoria da humanidade, tal será o objecto dos capitulos seguintes.

NOTAS DE RODAPÉ:

[26] D. Juan Vilanova y Piera. _Estudios sobre lo prehistorico español.

Museo español de antigüedades_, tomo 1, pag. 129.

As palavras _archeolithica_, _paleolithica_, _mesolithica_ e

_neolithica_ foram compostas com as palavras gregas _arche_ principio,

_palaios_ antigo, _mesos_ meio, _neos_ novo, e _lithos_ pedra.

[27] Classificação das epocas prehistoricas, proposta pelo sr.

Tubino, para o reino de Portugal e para as provincias hespanholas da

Andaluzia e Extremadura. Veja Los monumentos megaliticos de Andalucia,

Extremadura y Portugal. Museu español de antigüedades, tomo VII, 1876.

Edad Paleolitica Hasta ahora desconocida, si prescindimos

de los silex tallados recogidos por el sr.

Ribeiro en las cuevas del Tajo y del Sado,

cuya atribuicion és hipotética[28].

Edad Neolitica Primero periodo: El mesolitico.

{Cavernas del Monte Calpe

a {Caverna de Alhama de Granada

{Cavernas de Cesareda

b Monumentos megaliticos

c Quioquenmodingo del Cabezo de Arruda

Segundo periodo: El del cobre.

{Minas de Cerro-Muriano

a {Minas del Odiel y de Riotinto

{Minas del Alemtejo

Edad del bronce Sin acreditar. Los mas raros ejemplares

procedentes de la zona que estudiamos,

no tienen la fianza del yacimiento. Pudieron

ser elaborados en otras regiones

y llevados á aquella en epocas historicas.

Edad del hierro Carece tambien de estaciones especiales en

su seccion prehistorica.

[28] Não menciona a estação paleolithica de San Isidro, por ficar fóra

da região considerada. Os silex do sr. Carlos Ribeiro não foram achados

nas cavernas, porém nas bacias do Tejo e Sado.

[29] _Descripção de alguns silex e quartzites lascados, encontrados

nas camadas dos terrenos terciario e quaternario das bacias do Tejo e

Sado._ Lisboa 1871.

[30] _Relatorio ácerca da sexta reunião do congresso de anthropologia

e de archeologia prehistoricas, verificado na cidade de Bruxellas em

agosto de 1872, elaborado por_ Carlos Ribeiro. Lisboa 1873.

[31] Ibidem.

[32] Vejam-se um terciario de Thenay (Bourgeois) e outro quaternario

do valle do Somme, estampados a par, a fim de se compararem, em

Hamy.--_Précis de Paleontologie Humaine._ Pariz 1870, pag. 49.

[33] _Note sur des indices matériels de la coexistence de l’homme avec

l’Elephas meridionalis dans un terrain des environs de Chartres, plus

ancien que les terrains de transport quaternaires des vallées de la

Somme et de la Seine. Comptes Rendues de l’Academie des Sciences_, 8

juin 1863.

[34] Hamy, _Précis de paléontologie humaine_. Pariz 1870, pag. 95 e 96.

[35] _L’homme préhistorique._ Pariz 1876, pag. 381.

[36] _Comptes Rendus_, 31 janvier 1876, pag. 348.

[37] _Matériaux pour servir à l’histoire positive et philosophique de

l’homme._

[38] Cap. II, pag. 14.

[39] D. Juan Vilanova.--_Lo prehistorico en España. Anales de la

sociedad española de Historia Natural_, tomo I, pag. 194.

CAPITULO IV

PRIMICIAS DA ARTE

_A estação de Argecilla e outras da Peninsula comparadas aos

kiokkenmoddings.--Antiguidade d’estas estações prehistoricas.--Pontas

de frecha e de lança, encontradas em Hespanha e Portugal.--Estações

notaveis de Castella a Velha.--Facas de silex e seu

fabrico.--Officinas em Portugal.--Machados.--Picaretas.--Instrumentos

de osso.--Puncções.--Fragmentos lavrados.--Placas de shisto.--Outras

insignias ou emblemas.--Contas de collares.--Ceramica.--Objectos

achados na caverna de Albuñol.--Diadema de ouro.--Vestidos, gorros e

bolsas de esparto.--Ornatos feitos de conchas e de dentes.--Bracelete

de concha da_ CUEVA DE LA MUJER.

Á epoca mesolithica ou do rangifer, da qual--já o dissemos--não ha

vestigios certos na Peninsula, attribue o sr. Vilanova os nucleos de

silex, facas, frechas e percutores, achados em Hespanha na estação de

Argecilla. Descobriu-a o sr. D. Nicanor de la Peña «no sitio chamado

Palomar, no terço superior da vertente bastante empinada das collinas

terciarias lacustres, que na provincia de Guadalajara caracterisam toda

a região conhecida pelo nome de Alcarria. Constitue este deposito um

banco de um metro e meio de espessura, sessenta a setenta de comprido,

e dez a doze de largo, composto de terra pardacenta, em certos logares

muito escura, como se tivera padecido alguma incineração, coroando tudo

os extractos calcareos com helix, paludinas e outros fosseis terrestres

e lacustres, argillas e margas, que horisontalmente ou com pequena

inclinação apparecem na encosta».

A proximidade de uma caverna assaz profunda persuadiu ao sr. Vilanova

que o deposito de Argecilla sería analogo aos dos kiokkenmoddings

da Dinamarca. Mas, como explorasse o interior da caverna e não

achasse vestigios nenhuns de ter servido de habitação ao homem, ficou

entendendo que o deposito exterior teria antes sido uma officina da

primeira e segunda epoca da idade da pedra. Entretanto, depois de

descrever os nucleos, lascas, facas, pontas de frecha e percutores de

silex, que o induziram a considerar o deposito de Argecilla, como uma

antiga officina, o sr. Vilanova cita varias pedras ali encontradas

que parece terem servido de lar para o fogo, similhantes ás dos

kiokkenmoddings da Dinamarca. Comtudo, os machados polidos, os

alizadores, os fragmentos de louça e os ossos dos animaes domesticos

que o sr. Vilanova achou em Argecilla, e que reputou, parece que

sem fundamento, de epoca posterior áquella a que referiu os outros

objectos, denunciam claramente a idade do deposito, posterior á dos

kiokkenmoddings, apesar de todas as analogias mencionadas[40].

Deu-se este nome, que significa _rebutalhos de cozinha_, áquellas

estações prehistoricas do litoral dinamarquez, constituidas de conchas

de ostras e outros mariscos, de ossos partidos de mammaes, de restos de

aves e de peixes e finalmente de silex pela maior parte lascados, porém

alguns polidos.

É maior a similhança entre a estação de Argecilla e aquella que o sr.

Pereira da Costa explorou em Portugal no Cabeço da Arruda.

GENEROS DE ANIMAES, ACHADOS GENEROS DE ANIMAES, ACHADOS

NO CABEÇO DA ARRUDA EM ARGECILLA

_Bos_ _Bos_

_Equus_ _Equus_

_Sus_ _Sus_

_Cervus_ _Cervus_

_Felix_ _Canis_

O sr. Pereira da Costa comparou tambem a estação do Cabeço da Arruda

aos kiokkenmoddings, fundando-se para isso na existencia de madeira

e ossos carbonisados, de seixos estalados pela acção do fogo, e

finalmente na côr avermelhada do lodo, por effeito da cozedura. Isto

pelo que respeita aos vestigios do fogo, mas por outra parte notou

mais a accumulação de restos de conchas de animaes comestiveis, e

tambem o descobrimento de um similhante deposito, feito de conchas

quebradas, fragmentos de carvão, ossos quebrados de mammiferos, pedaços

de pederneira e seixos, mas sem restos humanos, no porto da Amoreira,

a um kilometro de distancia do Cabeço da Arruda; e de outro na Fonte

do Padre Pedro, a tres kilometros de distancia, e formado de conchas

partidas, ossos e dentes de mammaes e fragmentos de louça grosseira[41].

Se o leitor quizer apreciar mais uma analogia entre a estação da

Argecilla e os kiokkenmoddings, compare a faca de silex, ali achada,

com aquellas que se têem encontrado n’estas estações da Dinamarca.

Compare a fig. 5, 6 e 7 com aquellas que o sr. Lubbock dá de uma faca

do kiokkenmodding de Fannerup no Jutland. Parecer-lhe-hão duas copias

do mesmo objecto[42].

[Illustração: Fig. 5

Fig. 6

Fig. 7

FACA DE SILEX DA ESTAÇÃO DE ARGECILLA.]

Estabelecidas assim as relações da estação de Argecilla e de outras,

tanto de Hespanha como de Portugal, com os kiokkenmoddings da

Dinamarca, torna-se-nos extremamente importante determinar a idade

d’estes ultimos a fim de conhecer a idade d’aquellas. Na opinião do

sr. Worsaæ os kiokkenmoddings pertenceriam á epoca da pedra lascada.

Demonstral-o-hiam: 1.º a raridade dos instrumentos de pedra polida;

2.º a falta de animaes domesticos, pois o cão é o unico de que têem

apparecido restos fosseis. O sr. Steenstrup sustenta, pelo contrario, a

contemporaneidade dos kiokkenmoddings e dos tumulos, cuja construcção

ninguem refere além da epoca da pedra polida. Se nos primeiros faltam

restos do boi e do cavallo domesticos, nos segundos são muito raros,

e não custa nada admittir que esses mesmos fossem posteriormente ali

introduzidos.

As longas facas de silex, similhantes á de Argecilla, servem

exactamente ao professor Steenstrup a fim de provar que os habitantes

dos kiokkenmoddings não estavam tão atrazados, como dizem, na arte

de fabricar instrumentos de pedra. É verdade que estes são mais

grosseiros, mas os depositos em que se encontram serão os rebutalhos da

cozinha de pescadores. Os tumulos pelo contrario seriam as sepulturas

dos chefes. De sorte que uns e outros monumentos representam não

epocas differentes, mas graus diversos de civilisação de duas classes

do mesmo povo. O sr. Lubbock pondera as razões apresentadas por cada

um dos opinantes, e conclue que os kiokkenmoddings plausivelmente

se attribuirão ao primeiro periodo da epoca neolithica, quando não

tinha ainda chegado ao seu completo desenvolvimento a arte de polir o

silex[43].

Em fim em varias estações, attribuidas sem contestação á epoca da pedra

polida, como a caverna de Pont-á-Lesse, na Belgica, têem apparecido

com outros objectos caracteristicos da mesma epoca facas similhantes

ás dos kiokkenmoddings e da estação de Argecilla[44]. Todavia convem

advertir que os animaes domesticos das estações da Peninsula denotam

não terem estas tamanha antiguidade como as da Dinamarca onde se não

têem encontrado. Os depositos de conchas partidas encontram-se tambem

na Escocia, na foz do rio Somme, em Cornwall e no Devonshire. Mas os

fragmentos de louça, achados n’estas ultimas estações, provam tambem

não serem tão antigas como os kiokkenmoddings, ou terem tido por

habitantes gente mais civilisada.

[Illustração: Fig. 8

Fig. 9

MACHADINHA DE PEDRA DA ESTAÇÃO DE ARGECILLA.]

Se taes considerações não bastassem para referir com certeza a estação

de Argecilla á epoca da pedra polida, outros objectos ali encontrados

completariam a demonstração. A machadinha de pedra furada na base (fig.

8 e 9) não se póde classificar senão entre os objectos d’aquella epoca.

E brevemente veremos outras similhantes, achadas em Portugal em dolmens

ou em outras estações da pedra polida. O orificio poderia servir

para ligar a machadinha a uma haste com uma corda ou corrêa, ou para

suspendel-a ao peito, como amuleto ou como insignia. N’este ultimo caso

faria parte de algum collar.

Pertence tambem evidentemente á epoca neolithica a ponta de frecha,

(fig. 10). É notavel a sua fórma elegante e apurado lavor. A base

prolonga-se á maneira de pé, excavada de um e de outro lado a fim de

se ligar á haste com corda ou corrêa que se fixasse n’estes entalhos.

Outras similhantes se têem encontrado nas cidades lacustres da Suissa

e n’algumas estações de Portugal com fragmentos de louça e outros

objectos caracteristicos da epoca neolithica.

[Illustração: Fig. 10

Fig. 11

Fig. 12

Fig. 13

PONTAS DE FRECHA DE SILEX DE ARGECILLA E DA FONTE DA RUPTURA.]

Taes são aquellas que em grande numero se conservam no museu da Escola

Polytechnica, descobertas na Fonte da Ruptura e na Pena em Setubal, na

Casa da Moura e na anta de Bellas (fig. 11, 12 e 13).

Wilde classifica as pontas de frecha em cinco grupos, segundo as suas

fórmas caracteristicas: 1.º _triangulares_, muitas das quaes têem um

entalho de cada lado da base para fixar a corda ou corrêa com que as

ligavam á haste; 2.º _bidentadas_, cujos bordos se prolongam para

além da base formando uma curva concava á maneira de ferradura; 3.º

_tridentadas_, com tres saliencias na base figurando um M gothico

(d’estas ultimas appareceu uma em Argecilla); 4.º com uma saliencia na

base para se introduzir na haste; 5.º com a fórma de folha, as quaes,

sendo muito alongadas, se chamam dardos. As fig. 11 e 13 são do 1.º

grupo; a fig. 10 do 4.º; e finalmente do 5.º a fig. 12.

As pontas de lança, maiores, e, geralmente mais bem acabadas, têem

tambem a fórma triangular. Na Commissão geologica ha uma, apparecida

n’um dolmen das circumvisinhanças de Niza, que é das maiores

conhecidas. Infelizmente falta-lhe a ponta. Se estivesse completa teria

de comprimento 0ᵐ,20. Outra menor foi encontrada na Sepultura de Martim

Affonso, perto de Muge.

[Illustração: Fig. 14

Fig. 15

PONTAS DE LANÇA DE SILEX DE NIZA E MUGE.]

[Illustração: Fig. 16

Fig. 17

FACA DE SILEX DA COVA DA ESTRIA.]

Em Hespanha, na provincia de Castella a Velha, ha uns depositos

muito notaveis que, mais bem estudados do que até hoje o têem sido,

esclarecerão talvez com importantes factos a epoca das estações

de Argecilla e do Cabeço da Arruda. Esses depositos, constituidos

principalmente por ossos, e em tamanha quantidade que têem sido

exportados para França a fim de se lhes darem applicações industriaes,

encontram-se n’uma região de trinta a quarenta leguas quadradas

nos confins das provincias de Leão, Valhadolid e Palencia. Com os

ossos, affirma o sr. Vilanova, apparecem machados toscos e polidos,

ceramica grossa e fina, vidro irisado por decomposição, objectos de

ouro e outros metaes, esculpturas de osso, etc. Dos restos organicos

menciona os paus, mandibulas e ossos largos dos cervos; cabeças

d’estes mesmos animaes inteiras ou sem maxilla inferior; alguma aberta

intencionalmente na base pelo homem a fim de lhe extrahir a massa

encephalica, portanto em condições analogas ás d’aquellas que se tem

descoberto nas _palafittas_ ou cidades lacustres da Suissa. Alguns dos

paus de veado são lavrados ou polidos ou desgastados, bem como os das

mencionadas estações prehistoricas. Em fim o sr. Vilanova cita ainda

além dos objectos indicados, dentes de javali com riscas, entalhos

(contadores?) e varios ornatos; cabos de pau de veado, cilindros da

mesma materia com desenhos e furados n’uma das extremidades talvez para

servirem de ornato ou de amuleto; algum chifre do grande cervo, no qual

se teria aproveitado a natural disposição de uma das pontas para o

empregar como instrumento de lavoura, e mil outros objectos de osso

«Os ossos sem lavor apparecem pela maior parte quebrados, alguns

intencionalmente, outros com signaes de longo transporte. Em geral,

estes restos organicos encontram-se em jazigos de côr cinzenta,

misturados os naturaes com os lavrados, e em profundidade que não passa

de dois ou tres metros»[45].

Com uns objectos evidentemente prehistoricos acham-se tambem outros

de metal, vidro ou barro da epoca romana. As estações de Castella a

Velha são portanto importantissimas, e é muito para lamentar que até

hoje não tenham sido estudadas pelos archeologos hespanhoes. Ha grande

analogia entre os depositos de Castella a Velha e as _terramaras_ da

Italia. Teriam sido, como estas, habitações lacustres, comparaveis ás

_palafittas_ da Suissa?

As facas de silex, mais communs em Portugal, são lascas estreitas e

compridas, algum tanto recurvadas no sentido do comprimento. Têem

a face concava muito lisa, a convexa formada por tres superficies

inclinadas entre si em angulos muito obtusos. N’esta face vêem-se pois

quatro arestas longitudinaes, duas formadas pela união d’aquellas tres

superficies entre si, e outras duas, que são os bordos, pela união

de cada uma das superficies externas com a face concava. Os bordos

são acuminados e cortantes. N’uma das extremidades vê-se o bolbo de

percussão, ou a parte onde percutiram o nucleo ou matriz de silex para

fazer saltar a lasca inteira. Adiante do bolbo de percussão notam-se

algumas depressões que poderiam servir para fincar os dedos e segurar a

faca. Estes instrumentos poderiam ser applicados para fins differentes,

taes como destacar a carne dos ossos dos animaes, cortar as pelles,

etc. Todavia algumas ha tão delicadas e tão frageis que parece

teriam sido antes usadas como symbolos, opinião cuja probabilidade,

relativamente a outros objectos, adiante mostraremos.

No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas facas

d’este mesmo typo, apparecidas em differentes logares com outros

objectos de pedra polida[46].

Lubbock explica mui clara e satisfatoriamente o modo de fabricar

as facas e outros objectos de silex. Quem percutir com um martello

arredondado a superficie plana de um silex produzirá uma fractura

conoide, cujo tamanho dependerá em grande parte da forma do martello.

A superficie da fractura formará um cone com o vertice correspondente

ao ponto percutido. Supponhamos agora que não se percute a superficie

plana, porém o angulo de um silex prismatico, a fractura será em

principio semi-conoide, mas tornar-se-ha depois achatada, e poderá

continuar-se com essa fórma na extensão de mais de 0ᵐ,20. Obter-se-ha

assim uma lasca de silex, similhante á folha de uma faca, mas com

uma secção triangular. D’esta sorte, arrancados os quatros angulos

primitivos da massa prismatica de base quadrangular, poderão ainda

destacar-se do mesmo modo os oito angulos restantes e assim por diante.

[Illustração: Fig. 18

Fig. 19

PERCUTOR ACHADO NO ALEMTEJO.]

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 4 / 18 段