Se, como Adhémar assevera, a temperatura do nosso hemispherio diminue

desde o anno de 1248, alguns effeitos se hão de por certo observar de

tal diminuição. O auctor cita os seguintes: 1.º A grande cupola de gelo

do hemispherio austral tem diminuido depois das viagens do capitão

Cook.--2.º As geleiras da Groelandia e da Suissa tem avançado para o

Meio-dia.--3.º Têem baixado tambem do norte para o sul os limites da

cultura da vinha.

Lyell impugnou ainda este argumento, dizendo que a differença entre

o frio do inverno de 1248 e o frio do inverno actual deveria ser

insignificante e, por isso, incapaz de produzir os effeitos allegados.

Pareceu-lhe que essa differença não passará de 0,3 de grau centigrado.

Porém se durante seis seculos a temperatura tivesse baixado apenas 0,3

de grau, a differença entre as temperaturas medias do inverno de 1248 e

do mais frio dos invernos anteriores, que, segundo a hypothese, teria

sido 10500 annos antes, andaria apenas por uns 5 graus centigrados,

o que de certo parecerá pouco. Entretanto a uma differença tripla ou

de 15 graus entre aquelles dois invernos, separados por um espaço de

10500 annos, corresponderia ainda uma differença inferior a 1 grau

entre as temperaturas do inverno de 1248 e dos invernos actuaes. Outro

sabio inglez tambem de grande auctoridade, J. Herschel, foi egualmente

de opinião que a mudança de posição da terra causada pela precessão dos

equinoxios não basta para explicar as alterações do clima que Adhémar

lhe attribue.

Alguns, convencidos da insufficiencia da hypothese, pretenderam

completal-a, entrando em linha de conta com outra causa astronomica.

Sabe-se que a orbita da terra ora se aproxima ora se afasta do circulo,

por meio de variações muito longas, que sómente se fazem sensiveis

de milhares em milhares de annos. Quando a orbita se aproximar do

circulo o effeito da precessão dos equinoxios deverá diminuir; pelo

contrario quando se afastar do circulo, alongando-se, então aquelle

effeito redobrará de intensidade. Ora os srs. Croll e Stone calcularam

a excentricidade da orbita de 50000 em 50000 annos, no espaço de

1000000 de annos decorridos anteriormente ao de 1800. O sr. J. Carrick

Moore calculou os effeitos d’estas excentricidades maiores no clima

de Londres e achou que, sendo actualmente a temperatura media do mais

frio dos mezes do inverno 20° de Farenheit, ha 100000 annos sería de

5°; de 1°,9 ha 210000 annos; de 0°,6 ha 750000 annos; e finalmente de

3° ha 950000 annos. Lyell inclinou-se á opinião de Croll, e suppoz que

este frio maximo de ha 750000 annos sería o da epoca glacial. Lubbock

discorda n’este ponto, e julga que o frio de 1°,9 de ha 210000 annos

será o que melhor corresponda áquella epoca. Em qualquer das hypotheses

os periodos de Adhémar ficarão parecendo bem pequenos em comparação de

tão dilatados tempos.

Não falta ainda quem tenha pretendido explicar os phenomenos da epoca

glaciaria sómente por alterações geographicas. O Gulf Stream eleva

hoje alguns graus a temperatura da grande parte da Europa. Se em

qualquer tempo essa enorme corrente seguisse outra direcção, a sua

falta manifestar-se-hia logo por uma baixa notavel da temperatura,

egual talvez a 10 graus de Farenheit. Admitta-se mais que, por essa

mesma falta, se estabelecesse uma corrente em sentido contrario, isto

é, dirigida do norte ao sul, o que faria ainda baixar a temperatura 3

ou 4 graus de Farenheit. O resultado bastaria para explicar a epoca

glaciaria. Ora, na opinião do sr. Hopkins, a suppressão do Gulf

Stream sería a consequencia natural de uma depressão de 2000 pés que

transformaria o valle do Mississipi n’um grande braço de mar por onde

a corrente passaria do golfo do Mexico para o Oceano arctico, em vez

de se dirigir para as costas occidentaes da Europa. N’esta hypothese

a excavação do valle do Somme e o apparecimento do homem na Europa

seriam anteriores ao delta do Mississipi, cuja formação foi calculada

em 100000 annos. Mas o Gulf Stream poderia ser antes desviado pela

depressão do isthmo de Panamá, idéa que até certo ponto se torna

provavel, pela similhança das faunas marinhas que habitam de um e de

outro lado do isthmo.

Finalmente, se, como por tantas razões parece incontestavel, o deserto

do Sahara foi n’outras eras uma parte do Oceano Atlantico, a existencia

d’essa grande massa de agua no Meio-dia da Europa, modificaria

por extremo o clima d’este continente. Os vapores, destacados da

superficie da agua, ou se congelariam nas montanhas por onde passassem,

cobrindo-as de neve, ou impediriam os raios do sol de aquecer a face

da terra, contribuindo assim, por um ou por outro modo ou por ambos

juntamente, para abaixar a temperatura.

Taes são as principaes hypotheses imaginadas para explicar a epoca

glaciaria. Com quanto se não possa demonstrar a evidencia de nenhuma

d’ellas, é todavia certo que, ainda assim, provam até certo ponto a

antiguidade da especie humana, pela impossibilidade de se realisarem

esses grandes factos astronomicos ou geologicos, a que se referem,

senão em epocas muito remotas e em periodos muito dilatados.

NOTAS DE RODAPÉ:

[17] _Paleozoico_, de _palaios_ antigo e _zoon_, animal. _Meozoico_, de

_mesos_, meio, e _zoon_, animal. _Neozoico_, de _neos_, novo e _zoon_,

animal.

[18] _Laurentiaco_, do nome do rio ou do golfo de _S. Lourenço_, na

America septemtrional.

_Cambrico_, de _Cambria_, nome latino do paiz de Galles, na Inglaterra.

_Silurico_ de _Siluros_, habitantes antigos da parte meridional do paiz

de Galles.

_Devonico_, do nome do condado de Devon na Inglaterra.

_Carbonifero_, de _carbo_, carvão, e _fero_ conter.

_Permico_, de _Perm_ na Russia.

_Triassico_, de _trias_ tres. Por ser composto de tres camadas

principaes.

_Jurassico_, de _Jura_, cordilheira notavel da França e da Suissa.

_Cretaceo_, de _creta_, cré.

_Eoceno_, de _eos_, aurora, e _kainos_ novo.

_Mioceno_, de _meion_, menos, e _kainos_ novo.

_Plioceno_, de _pleion_, mais, e _kainos_ novo.

[19] A tabella dos terrenos e o computo das suas possanças e dos

espaços de tempo que levaram a formar-se foram extrahidos da _Histoire

de la creation des êtres organisés, d’après les lois naturelles_ par

Ernest Haeckel.--Pariz 1874.

[20] Veja-se adiante o capitulo das cavernas.

[21] Mais de espaço tractaremos esta questão no capitulo seguinte.

[22] Lubbock, _L’homme préhistorique_, Pariz 1876.

[23] De Quatrefages, _L’espéce hummaine_. Pariz 1877, pag. 101 e 102.

[24] Zaborowski dá o computo seguinte das idades prehistoricas. _De

l’ancienneté de l’homme_, tom. II, pag. 229. A epoca do mioceno

inferior ao plioceno superior corresponde á duração do homem terciario,

cuja existencia, posto que provavel, não está ainda evidentemente

demonstrada.

Epoca do ferro 1500 a 2000 annos

” do bronze 3000 a 4000 ”

” da pedra polida 6000 a 12000 ”

Periodo post-glaciario 100000 ”

” glaciario 224000 ”

Duração da epoca do mioceno

inferior ao plioceno superior 680000 ”

[25] Adhémar--_Revolutions de la mer_.

CAPITULO III

ANTIQUIORA MONUMENTA

_Classificação dos tempos prehistoricos.--Subdivisões da idade da

pedra.--Silex e quartzites lascadas da Beira e da Extremadura,

attribuidas ao homem terciario.--Julgamento d’estas provas no

congresso de Bruxellas.--Provas indirectas do homem terciario,

colligidas n’outros paizes.--Sua incerteza.--É maior ainda a das

provas directas.--Primeiros vestigios do homem quaternario na

Peninsula.--Estação de San Isidro.--Falta de vestigios da epoca

mesolithica.--Bruteza do homem paleolithico.--Progresso na epoca

neolithica.--Condições favoraveis d’esse periodo ao desenvolvimento da

humanidade.--Primeiras exigencias do sentimento esthetico.--Origem das

artes._

Os tempos prehistoricos dividiram-os primeiramente os archeologos

em duas grandes idades: a idade da pedra e a idade dos metaes; e

subdividiram a primeira, a idade da pedra, em duas epocas: 1.ª Epoca

da pedra lascada; 2.ª Epoca da pedra polida. Ainda hoje todos estão

accordes na divisão geral das idades, e alguns conservam a sub-divisão

da primeira d’ellas nas duas epocas que o apparecimento da arte de

polir a pedra separa uma da outra.

No congresso de Bruxellas de 1872 os srs. Dupont e Mortillet

admittiram, por mais natural, a sub-divisão da idade da pedra em tres

epocas principaes que o primeiro caracterisou pelas faunas respectivas,

e o segundo pelos vestigios da industria humana. Já anteriormente em

Hespanha o sr. D. João Vilanova propozera uma classificação similhante,

dividindo a idade da pedra em quatro epocas, das quaes chamou á

primeira _archeolithica_ ou dos vestigios encontrados nos terrenos

terciarios; á segunda _paleolithica_ ou dos instrumentos de pedra

lascada dos terrenos quaternarios; á terceira _mesolithica_ ou das

facas ou do rangifer; á quarta finalmente _neolithica_ ou da pedra

polida[26].

Pondo de parte a primeira, por incerta e duvidosa, as outras tres

epocas do sr. Vilanova concordam exactamente com as dos srs. Dupont

e Mortillet. Com as denominações propostas pelo sr. Dupont e com os

caracteres indicados pelo sr. Mortillet, será a seguinte a

CLASSIFICAÇÃO DA IDADE DA PEDRA

_Epocas_ _Caracteres zoologicos_ _Caracteres industriaes_

Paleolithica Mammouth e outros animaes Instrumentos de pedra

desapparecidos lascada

Mesolithica Rangifer e outros animaes Instrumentos de pedra

emigrados lascada e de osso

Neolithica Animaes domesticos ainda Instrumentos de pedra

hoje companheiros do polida

homem

Esta classificação, ainda que pareça conforme aos factos até hoje

observados na França, Belgica e alguns outros paizes, não póde ter

applicação em todas as regiões da Europa. A successão dos tres grupos

zoologicos é um facto geral, pois que, em correspondencia a cada grupo,

se observam geraes vestigios de mudanças profundas nos climas e nas

outras circumstancias da geographia physica. Nem seriam possiveis as

variações da fauna sem outras variações correlativas nos meios que

os animaes habitassem. Mas os caracteres industriaes não estão da

mesma sorte e unicamente sujeitos á influencia invariavel e fatal

das leis physicas. A maior ou menor disposição das raças humanas

para a perfectibilidade, as emigrações dos povos, os commettimentos

guerreiros, as emprezas maritimas e outras circumstancias accidentaes

poriam muitas vezes em discordancia os caracteres deduzidos da fauna

com os dos instrumentos da industria. Assim como, em quanto alguns

dos povos menos civilisados percorrem já a epoca do ferro, e outros

estacionam ainda na idade da pedra, assim tambem não podia em toda a

parte a cada grupo zoologico ou a cada especie de clima corresponder

a mesma phase industrial. Suppondo que o synchronismo declarado na

classificação existiria em partes da França e da Belgica, é claro que

não poderia ser geral em toda a Europa.

Na Peninsula não têem apparecido instrumentos de pedra lascada e de

osso em tal quantidade que obriguem a subdividir a idade da pedra em

mais de duas epocas. Além de que, para caracterisar a epoca mesolithica

tambem nos faltam os animaes proprios, porque nem o rangifer nem a

hyena spelœa, nem algumas outras das especies contemporaneas habitaram

para áquem dos Pyreneus. Parece haver, em Hespanha e Portugal, entre os

silex lascados de San Isidro e os objectos de pedra polida, uma grande

lacuna ou interpolação, que as explorações até hoje emprehendidas não

poderam ainda preencher. Por isso, a classificação do sr. Vilanova

foi notavelmente alterada pelo sr. F. M. Tubino que dividiu a idade

da pedra sómente em duas epocas, a paleolithica e a neolithica, e

subdividiu esta ultima em dois periodos o mesolithico e o do cobre[27].

Pela nossa parte, prescindiremos d’esta subdivisão, porque o periodo

mesolithico, sendo caracterisado pela pedra lascada, não póde pertencer

á epoca da pedra polida, e o do cobre, por motivo analogo, sómente na

idade dos metaes se ha de comprehender. Conservaremos pois a divisão

primitiva da idade da pedra nas duas epocas da pedra lascada e da pedra

polida, como ainda hoje fazem Lubbock e outros archeologos, attribuindo

á primeira o rangifer e os animaes emigrados.

Da epoca paleolithica ou da pedra lascada e da epoca neolithica ou

da pedra polida têem apparecido na Peninsula não sómente vestigios

da industria humana, mas tambem restos dos animaes caracteristicos.

Porém da epoca anterior, correspondente aos terrenos terciarios, que

o sr. Vilanova chama _archeolithica_ não se tem encontrado nada até

hoje em Hespanha. Em Portugal o sr. Carlos Ribeiro colligiu em camadas

terciarias e quaternarias das provincias da Extremadura e da Beira, e

particularmente das bacias do Tejo e Sado, silex e quartzites lascadas

nas quaes lhe pareceu evidente a acção intencional do homem. E na

Memoria que em 1871 apresentou á Academia das sciencias de Lisboa fez

estampar cento e trinta de taes objectos[29].

Examinada esta collecção em 1872 no congresso de Bruxellas, pareceu

em principio ao sr. abbade Bourgeois, apaixonado defensor do homem

terciario, não ter vestigios da industria humana nenhum dos objectos

colligidos. Mudou porém depois de opinião, confessando com o sr.

Franks, director do Museu britannico, haver em alguns provas evidentes

do trabalho do homem[30]. Por outra parte, o mesmo sr. Franks,

examinando trinta e duas pedras, que o sr. abbade Bourgeois apresentára

ao congresso, como vestigios da industria humana, encontradas em terras

terciarias de Thenay, n’uma só de taes pedras viu signaes positivos da

acção intencional do homem. Nomeou-se para examinar as de Portugal uma

commissão, entre cujos vogaes não chegou a haver maioria que declarasse

attribuiveis á industria humana a maior parte d’aquelles objectos[31].

Bastarão estes factos, occorridos no congresso de Bruxellas, para

mostrar a incerteza das provas, actualmente conhecidas da existencia

do homem terciario. Na commissão geologica de Portugal ha centenares

de pedras, colligidas pelos srs. Carlos Ribeiro e Delgado. Talvez que

uma escolha racional apurasse entre ellas algumas em que parecesse

menos duvidoso o trabalho humano, nas quaes, comparadas ás congeneres

da idade quaternaria, melhor se reconheceria a origem natural ou

artificial. Foi isto mesmo que no Museu de Saint-Germain fez o sr.

Mortillet, escolhendo algumas das pedras que o abbade Bourgeois para

ali enviara, como instrumentos fabricados pelo homem terciario, e

expondo-as juntamente com outras do valle do Somme ou de outras

estações quaternarias, para os observadores poderem comparar e tirar da

comparação as illações que lhes parecesse.

Algumas das pedras da commissão geologica taes como as que as figuras

1, 2 e 3 representam não têem similhança com as formas typicas de

Saint-Acheul, Hoxne, San Isidro, etc. Outras que vimos na collecção

talvez, sem grande esforço, se reduzam no typo dos denominados

raspadores[32].

Das provas até hoje adduzidas em favor da existencia do homem

terciario umas, indirectas, consistem nos vestigios da sua actividade;

outras, directas, seriam as suas proprias ossadas no estado fossil.

A fauna de Saint-Prest, em pequena distancia de Chartrou, estudada

desde 1848 por varios naturalistas, é quasi identica á de outras

camadas terciarias de varias regiões da Europa. Encontram-se os seus

representantes fosseis n’um valle, cortado em angulo consideravel por

outro valle quaternario, por cuja idade mais recente se prova tambem a

antiguidade relativa do primeiro. Além de outras especies perdidas, ali

têem apparecido o _elephas meridionalis_, o _rhinoceros leptorhinus_ e

o _megaceros Carnutorum_.

[Illustração: Fig. 1

Fig. 2

Fig. 3

PEDRAS LASCADAS ATTRIBUIDAS AO HOMEM TERCIARIO DE PORTUGAL.]

Em abril de 1873, Desnoyers foi examinar estes restos fosseis, e

pareceu-lhe ver em muitos ossos estrias ou entalhos, que teriam sido

feitos pela mão do homem, armada com instrumento cortante. Não contente

d’este exame, buscou as collecções anteriormente constituidas com

ossadas de Saint-Prest e em todas achou vestigios similhantes. Além

dos ossos riscados ou entalhados, encontrou alguns de ruminantes,

partidos pela mesma forma por que ainda hoje os partem alguns

selvagens para lhes extrahir as medullas. D’onde entendeu poder com

toda a probabilidade concluir que «o homem viveria em França...

contemporaneamente ao _elephas meridionalis_ e outras especies

_pliocenas_, caracteristicas do Valle d’Arno na Toscana, e que teria de

luctar com as grandes alimarias, anteriores ao _elephas primigenius_ e

aos outros mammaes, cujos restos apparecem misturados com os vestigios

ou indicios do homem nos terrenos de transporte ou quaternarios dos

grandes valles e das cavernas»[33].

A pretenção do descobridor discordava a tal ponto das idéas geralmente

seguidas, ácerca da coincidencia da origem da especie humana dentro nos

limites de idade quaternaria, que de toda a parte se levantaram logo

contraditores a inventar explicações dos factos observados por causas

differentes d’aquellas a que se attribuiam. Quaes disseram que os

entalhos dos ossos de Saint-Prest teriam sido feitos pelos instrumentos

dos operarios que os extrahiram da terra, ou dos preparadores que os

alimparam; quaes recorreram á acção das geleiras; quaes ao attrito das

raizes sobre os ossos; quaes ao dessecamento consecutivo á putrefacção

dos ossos que os cobriria de fendas longitudinaes e transversaes; quaes

á acção de transporte da agua que rolaria com os ossos pedras que os

riscassem; quaes, finalmente, aos dentes de certos animaes carnivoros

ou roedores pertencentes á fauna terciaria.

Movido da importancia da questão, Lyell chegou a instituir um

verdadeiro inquerito para resolver até que ponto seriam admissiveis

as causas invocadas pelos contradictores de Desnoyers. Pareceu-lhe

que, entre todas, duas sómente poderiam ter tido o effeito que se

lhes suppunha; e eram a acção da agua corrente e os dentes dos

carnivoros ou roedores. Se os ossos não fossem extremamente duros, as

pedras e calhaus com elles arrastados seriam capazes de os riscar.

«Podemos suppor, dizia Lyell, relativamente a certo exemplar do _Museu

Britannico_, que estando quasi todo o osso enterrado no lodo, as partes

que todavia o não estivessem ficariam expostas á acção da corrente, que

arrastaria areia e cascalho contra ellas, e com bastante força para

formar riscas ou entalhos, no tempo em que talvez o osso estivesse

mais molle do que hoje. Uma pequena mudança na posição do osso ou na

direcção da corrente da agua poderia produzir uma segunda serie de

estrias parallelas, entrecruzadas com as primeiras». Porém sómente em

certos ossos se poderiam explicar as estrias por esta hypothese[34].

Por outra parte, o mesmo Lyell mandou lançar uma porção de ossos

aos porcos-espinhos do Jardim Zoologico de Londres, que os deixaram

riscados e entalhados á maneira dos de Saint-Prest. D’onde concluiu

que estes ultimos poderiam ter andado nos dentes do grande roedor

de Chartres do genero _Trogontherium_, ou de algum outro da fauna

terciaria.

A fauna do valle d’Arno, na Italia, assimilha-se extremamente á de

Saint-Prest: nos ossos das mesmas especies de mammaes apparecem da

mesma sorte estrias ou entalhos. Examinou tambem Lyell estes vestigios,

e não se julgou habilitado para expender qualquer opinião decisiva.

Todavia, reconhecendo a insufficiencia das provas allegadas em favor

do homem terciario, appellou para o futuro, cujos acontecimentos lhe

pareceu haverem de dissipar todas as duvidas.

O sr. Lubbock, depois de examinar os ossos de Saint-Prest, expendeu

a respeito d’elles a opinião seguinte: «Os vestigios das incisões

concordam exactamente com os termos em que foram descriptos; alguns

pelo menos parece terem origem humana. Entretanto no estado actual dos

nossos conhecimentos não ousaria affirmar que não tivessem sido feitos

por differente modo»[35].

O sr. abbade Delaunay encontrou em Pouancé costellas e um humero de

_haliterium_, especie miocene, profundamente entalhados, segundo

parecia, com um instrumento cortante que só pelo homem poderia ser

manejado. E já no anno de 1876 o sr. Quatrefages deu conta á Academia

das sciencias de Pariz do descobrimento, que o sr. Capellini ha pouco

tempo fizera de ossadas de cetaceos com incisões e entalhos, feitos com

instrumento cortante. Os ossos assignalados appareceram em argillas

pliocenas do Monte Aperto, juncto de Sienne. O descobridor e outros

naturalistas italianos estavam convencidos de que não haveria senão a

mão do homem, capaz de entalhar os ossos por aquella fórma[36].

Outras provas tambem indirectas são os silex e quartzites lascadas

taes como as colligidas em França pelo sr. abbade Bourgeois, e em

Portugal pelo sr. Carlos Ribeiro. Todavia de uns não se demonstra que

os terrenos onde appareceram fossem terciarios e não quaternarios;

de outros não parece incontestavel o terem sido lascados pela mão do

homem. Citam-se observações dos srs. Desor, Escher, Fraas, Livingston

e Wetzstein que em varias regiões da Africa viram silex lascados

naturalmente pela acção do calor do sol, testimunhando alguns este

curioso phenomeno[37].

Infelizmente as provas directas da existencia do homem terciario

são ainda mais contestaveis que as provas indirectas. O sr. Issel

apresentou ao congresso anthropologico de Pariz, em 1867, ossos humanos

com signaes de remota antiguidade, achados em camadas pliocenas na

cidade de Savone na Toscana. Correu tambem ha alguns annos, apregoada

pelo sr. Whitney, director do _Geological Survey_, a descoberta de um

craneo humano na California em depositos pliocenos, por baixo de cinco

ou seis camadas de cinzas vulcanicas, endurecidas. O sr. Quatrefages

duvída d’este facto não sómente porque pediu informações e não lh’as

deram, mas tambem porque não sahiu a publico nenhuma estampa ou noticia

descriptiva do tal craneo. Para a maior parte dos naturalistas a

doutrina corrente é que até hoje não se conhecem nenhuns restos humanos

fosseis incontestavelmente attribuiveis á idade terciaria.

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 3 / 18 段