periodos tres grandes grupos fundamentaes, convém a saber: terrenos
inferiores ou primarios ou paleozoicos; terrenos medios ou secundarios
ou mesozoicos; e finalmente terrenos superiores ou terciarios ou
neozoicos[17]. Cada grupo tem portanto tres nomes diversos. O primeiro
refere-se á posição em que está relativamente aos outros; o segundo ao
tempo em que se formou; o terceiro á idade das especies que contém no
estado fossil.
D’estes tres grupos separam-se naturalmente os mais antigos dos
terrenos primarios, nos quaes ou faltam os fosseis ou são rarissimos e
correspondem aos mais simples dos organismos. A esses terrenos chamam
primordiaes. Por outra parte, em cima ou depois dos ultimos terrenos
superiores ou neozoicos ou terciarios, depositaram-se ainda outros
que denominaram quaternarios, em cuja epoca se continuou a formar e a
desenvolver a fauna da actualidade, que teve os seus principios nos
ultimos tempos da epoca anterior.
Acharemos assim a historia da terra dividida em cinco idades
correspondentes aos principaes grupos dos terrenos, como se verá mais
claramente da tabella seguinte:
SEDIMENTOS OU CAMADAS CONSTITUINTES DA CRUSTA DA TERRA
_Idades_ _Terrenos_
Quaternaria { XIV Alluvio
{XIII Diluvio
{ XII Plioceno
Terciaria { XI Mioceno
{ X Eoceno
{ IX Cretaceo
Secundaria {VIII Jurassico
{ VII Triassico
{ VI Permico
Primaria { V Carbonifero
{ IV Devonico
{ III Silurico
Primordial { II Cambrico
{ I Laurentiaco[18]
Os caracteres das rochas estratificadas, e mais em particular os
fosseis, não nos demonstram a idade absoluta de cada terreno ou de cada
grupo de terrenos, porem sómente a idade relativa de uns comparados com
os outros. A espessura das camadas dá idéa da duração das formações
respectivas, sem comtudo indicar o numero de seculos.
A possança total dos sedimentos constituintes de crusta da terra
tem-se computado pouco mais ou menos em 43 kilometros; competindo 23
kilometros aos terrenos da idade primordial; 14 aos da idade primaria;
5 aos da idade secundaria; 1 aos da idade terciaria e finalmente 150 ou
200 metros aos da idade quaternaria.
Representando por 100 unidades a duração total da vida no globo
terraqueo, desde o apparecimento dos primeiros seres organicos até ao
tempo presente, acharemos expressa em unidades e partes da unidade a
duração particular de cada idade pela fórma seguinte[19]:
Idade primordial 53,6
” primaria 32,1
” secundaria 11,5
” terciaria 2,3
” quaternaria 0,5
------
Somma total 100,0
Assim é que a duração da primeira idade, d’aquella em que não havia
ainda nenhuns organismos terrestres, porém sómente os que habitavam
as aguas, equivale, por si só, a mais de metade da duração total. A
duração da idade quaternaria ou d’aquella em que o homem tem vivido na
terra apenas chega a ser 5 decimas de cada unidade da duração total
das cinco idades. Mas, se, como alguns opinam, elle existisse já no
periodo mioceno da idade terciaria, então o tempo da sua duração sería
representado por 1 a 2 unidades das 100 que se fizeram corresponder
ao espaço total das cinco idades. Adiante veremos que as provas mais
certas da existencia do homem na terra não remontam além dos tempos
quaternarios.
No fim da idade terciaria appareceram os mammaes agigantados:
elephantes, rhinocerontes, ursos, hippopotamos de especies particulares
que povoaram a Europa, e se extinguiram nos primeiros tempos da idade
quaternaria. Os restos fosseis d’esses animaes, descobertos juntamente
com productos da primitiva industria, provam que em epocas remotissimas
em que o clima, a fauna, a flora, a configuração dos continentes, a
distribuição relativa das terras e das aguas eram mui differentes das
actuaes, já o homem existia na superficie do globo.
Nem se diga que sería possivel ficarem esses objectos sepultados em
terrenos muito mais antigos do que elles, bem como hoje em qualquer
jazigo de fosseis podem accidentalmente enterrar-se vestigios da
industria moderna. As condições em que se fizeram aquellas descobertas
demonstraram serem da mesma idade os objectos afeiçoados pela mão do
homem e os restos fosseis das alimarias perdidas.
Certas cavernas, por exemplo, contêem depositos formados por
materiaes, que, por occasião de grandes e remotas inundações, a agua
arrastou de fóra para dentro. Entre esses materiaes que nas mesmas
epocas se agglomeravam nos terrenos proximos, d’onde mais tarde eram
transportados para o interior das cavernas, apparecem conjuntamente
ossos humanos, rudes instrumentos de pedra e ossos dos animaes
extinctos[20]. Em fim, se ainda alguma duvida restasse, inteiramente
se desvaneceria em vista ou das fracturas e entalhos, tantas vezes
observados nos ossos d’aquelles animaes, e praticados intencionalmente
pela mão do homem; ou dos esboços de certas especies perdidas traçados
em instrumentos da industria humana, como se têem encontrado em varias
estações prehistoricas, ou finalmente das armas de pedra cravadas nos
proprios craneos.
Muitos dos geologos modernos consideram a apparição da especie
humana sobre a terra como caracter distinctivo da idade quaternaria,
e acreditam que, abaixo das camadas inferiores dos terrenos d’essa
idade, não se descobriu ainda vestigio nenhum authentico da existencia
do homem. Alguns, porém, como os srs. Desnoyers, Abbade Bourgeois,
Delaunay, Hamy e Carlos Ribeiro julgam possuir provas em contrario,
achadas nos terrenos miocenos e pliocenos da idade terciaria[21]. Mas,
ainda que os vestigios do homem não ultrapassem os limites das epocas
quaternarias, nem por isso, ainda assim, deixaria de ser remotissima
a sua antiguidade. Factos interessantes e calculos de grande
curiosidade, colligidos por Lubbock, o demonstram com evidencia[22].
As faias dão hoje em dia a feição proeminente á vegetação florestal
da Dinamarca. Prova-se porém que nem sempre assim foi, que nos
logares baixos e pantanosos de certas florestas, na turfa que os
enche, ficaram conservados primeiramente, na maior profundidade, os
abetos que por agora não vegetam espontaneos n’aquelle paiz: depois
mais acima os carvalhos e as betulas brancas hoje raras: em fim a
camada superior consiste principalmente em individuos da betula
verrucosa, representante do periodo actual que muito bem se podera
dizer das faias. Ora o professor Steenstrup achou instrumentos de
pedra por entre os troncos dos abetos, representantes da primeira
e mais antiga das vegetações florestaes, que vestiram a Dinamarca
nos tempos quaternarios. E, como, por outra parte, se encontram nos
kjokkenmödings, ou rebotalhos das cozinhas dos homens prehistoricos,
os esqueletos do gallo do matto ou tetraz grande das serras que se
alimenta dos rebentões tenros dos pinheiros, concluiremos com certeza
que os primeiros habitantes da Dinamarca foram contemporaneos das
antigas e perdidas florestas abietinas, e pertenceram portanto a uma
epoca muito differente da actual pelas condições physicas e botanicas
d’aquelle paiz. Além d’isto, pretendem alguns que aos tres periodos
florestaes caracterisados o primeiro pelos abetos, o segundo pelos
carvalhos e betulas brancas, e o terceiro pelas faias, correspondessem
as tres idades principaes da humanidade assignaladas pelo uso da
pedra, do bronze e do ferro. Seja, porém, como for, é indubitavel
que esta successão de vegetações florestaes differentes, não poderia
effeituar-se senão em longuissimo espaço de tempo, e que portanto o
homem não poderia presencial-as, sem ter apparecido em eras muito
remotas na superficie da terra.
O sr. Morlot, na Suissa, intentou determinar mais circumstanciadamente
a duração de cada uma idade. No logar onde a torrente da Tinière se
lança no lago de Genova, junto de Villeneuve, tem-se formado um cone
de cascalho e alluviões. Este cone foi aberto na extensão de 325
metros, e na profundidade de 10ᵐ,4 para se construir uma via ferrea.
O exame dos objectos encontrados nas camadas, pelo corte descobertas,
mostrou corresponderem á epoca romana as da profundidade de 1ᵐ,14; á
epoca do bronze as da profundidade de 2ᵐ,97, e finalmente á epoca da
pedra polida as da profundidade de 5ᵐ,69. Como as camadas se tinham
depositado com grande regularidade, calculou o observador que, sendo de
1600 annos a idade das romanas, a das correspondentes á epoca do bronze
sería de 3000 a 4000 annos, e a das respectivas á epoca da pedra polida
de 5000 a 7000 annos.
O sr. Gilliéron fez um calculo similhante para determinar a idade das
habitações lacustres da ponte de Thièle, e achou a antiguidade de 6000
a 7000 annos para a epoca da pedra polida.
No Egypto o sr. Horner, calculando a elevação media secular do terreno
em volta dos monumentos, por effeito das inundações do Nilo; depois,
abrindo poços a profundidades maiores, achou vestigios da industria
humana que teriam, segundo esses calculos, 13000 e mais annos.
O sr. Forel mostrou as causas de erros, inherentes a estes calculos
e a difficuldade de as evitar todas. Tentou porém, por meio de um
processo differente, determinar a antiguidade do periodo geologico
actual, que chegou a computar em 100000 annos. As observações fêl-as
no lago Léman; e para os seus calculos recorreu á regra de falsa
posição que permitte achar os limites maximo e minimo, acima e abaixo
dos quaes fica excluida a possibilidade de errar. Eis aqui o processo
de Forel, preferido por Quatrefages a todos os outros, com quanto lhe
pareça haver até certo ponto exageração no resultado obtido: «A agua
do Rhodano, sobre tudo por occasião das cheias, causadas pela fusão da
neve, entra no lago turva, e sahe d’elle extremamente limpida. O lodo,
assim depositado, vae enchendo o lago, e entulha já uma parte da grande
cavidade que occuparam os gelos da epoca quaternaria. O sr. Forel
determinou primeiramente o volume annual do deposito do lodo. Indagou
depois, tomando por fundamento as sondagens effeituadas por de La
Béche, o volume do lago actual. Chegou por este modo a avaliar o tempo
necessario para que o lodo do Rhodano chegue a entulhar o lago. Depois,
admittindo que a parte já entulhada do Léman primitivo teria uma
profundidade media e egual á do Léman actual, comparou as superficies
alluviaes já formadas com a superficie do proprio lago. Achou a
proporção de 1 para 3. Estas planicies foram por tanto depositadas
durante um espaço de tempo egual á terça parte d’aquelle que sería
necessario para entulhar o lago actual. Ora, como ellas começaram a
formar-se immediatamente depois do desapparecimento das geleiras,
segue-se que o seu principio corresponderá ao da epoca geologica
moderna»[23].
O dr. Dickeson, de Natchez, achou um sacro humano com alguns ossos
do mastodonte de Ohio no valle do Mississipi. O dr. Usher reputou
o primeiro e os segundos todos contemporaneos. O sr. Bennet-Dowler
computou em 158400 annos o tempo necessario para a formação dos
depositos alluviaes do Mississipi. Este mesmo calculo daria a idade
de 57000 annos aos mais recentes dos craneos fosseis da America.
Julgam porém os naturalistas da Europa que estes e outros similhantes
factos, referidos do Novo-Mundo, carecem de confirmação para ter força
probativa.
O Mississipi tem sido objecto de muitos estudos a fim de determinar a
idade dos depositos formados pelas suas aguas, estudos duplicadamente
interessantes, porque os seus resultados são tambem applicaveis a
formações analogas da Europa. Riddle, Carpenter, Forskey, Humphreys
e Abbot chegaram a avaliar com a possivel aproximação, por meio de
innumeras experiencias e observações, as quantidades dos materiaes
carreados pelas aguas em cada anno, a espessura e as outras dimensões
do delta, e finalmente a parte d’aquelles mesmos materiaes não
incorporados no delta, por serem expellidos para o Oceano. Entrando
em calculo com essas observações, computou Lyell em 100000 annos a
antiguidade do delta do Mississipi, e, por analogia, suppoz não seriam
menos antigos os depositos alluviaes do valle do Somme, em França, onde
apparecem instrumentos de silex e os restos fosseis do mammouth e da
hyena.
Conduz tambem a este mesmo resultado um processo muito differente. Das
observações feitas no Mississipi e de outras similhantes no Ganges,
Rhodano, Danubio e outros rios concluiu Geikie poder representar pela
media de ¹⁄₆₀₀₀ de pé a camada que perdem em cada anno as terras
lavadas pelas aguas affluentes aos rios. Esse é o termo medio, porque
nas planicies, por correrem lentas e escoadas as aguas, a perda é
menor, ¹⁄₁₀₈₀₀ de pé; e nas vertentes lateraes dos valles, pela sua
inclinação que accelera a corrente do liquido, a perda é maior, ¹⁄₁₂₀₀
de pé. Ora o sr. Lubbock applicando esses calculos á excavação do
valle do Somme que tem a profundidade de 200 pés, concluiu que a sua
idade e, portanto, a dos mais antigos dos depositos, onde se encontram
instrumentos de silex, sería de 100000 a 240000 annos[24]. Faltam
dados geologicos e archeologicos para calcular a antiguidade do homem
na Peninsula. Todavia é singularmente notavel que os vestigios da
industria primitiva, encontrados na estação de San Isidro, perto de
Madrid, similhantes aos do valle do Somme, e, por isso, attribuiveis
á mesma epoca prehistorica, estejam tambem n’uma altura similhante
acima do leito actual do Manzanares. Sendo admissivel, como o é no
valle do Somme, que as aguas do rio tenham excavado o terreno desde
aquella estação até ao leito actual, o calculo daria aos vestigios ali
encontrados uma idade comprehendida entre 80000 e 167000 annos. Mas,
da possibilidade ou probabilidade de tal excavação, sómente poderão
informar os geologos hespanhoes, conhecedores da disposição e dos
caracteres das margens do Manzanares no sitio de San Isidro.
Na idade quaternaria houve uma ou mais epocas em que se tornou glacial
o clima da Europa. As geleiras extenderam-se até á latitude temperada
da Sicilia, deixando por varias regiões as rochas erraticas, provas
evidentes da sua existencia. Com esses vestigios apparecem tambem os
restos fosseis do rangifer, do boi almiscarado, do urso e de outros
quadrupedes que na Europa não habitam já senão as regiões arcticas
ou os nevados cumes dos Alpes e dos Pyreneus. O sr. A. Milne Edward
mostrou que muitas especies de aves, proprias dos climas frios, e
communs durante a epoca glacial, emigraram juntamente com aquelles
mammaes para as regiões mais frias, quando a temperatura se elevou e
as geleiras se fundiram no centro e no Meio-dia da Europa. Em fim nos
mares Britannicos e até no Mediterraneo têem apparecido conchas de
especies que se não encontram actualmente senão nos mares glaciaes.
Assim, tantos e tão probativos são os vestigios do clima glacial nas
regiões temperadas da Europa, que ninguem contesta hoje esse facto
notavel.
Por outra parte, os depositos quaternarios immediatamente collocados
por cima das camadas terciarias, soltos, sem consistencia, compostos
quasi exclusivamente de _lehm_ (mistura de areia e argila), de _laess_
(mistura de areia e calcareo), de areias, cascalhos e calhaus, parece
terem sido formados por violentas e prolongadas submersões de terras,
que antecedentemente estariam sêccas e superiores ao nivel das aguas.
Concordam os geologos em dar o nome expressivo de _Diluvium_ a essas
formações cuja origem naturalmente lhes trazia á lembrança a grande
catastrophe commemorada até aos nossos dias nas tradições de alguns
povos.
Se admittirmos pois que a temperatura da Europa baixou a ponto de
se cobrirem de neve os montes e as planicies, formando-se geleiras,
similhantes áquellas que ainda hoje subsistem na Suissa; se admittirmos
mais que uma subsequente elevação de temperatura fundisse as massas
enormes de gelo, inundando e submergindo as terras do continente
europeu, explicaremos assim não sómente a fauna da epoca glacial, mas
tambem a formação dos vastos e profundos depositos do diluvio.
Adhémar imaginou uma hypothese ingenhosissima para ligar e explicar
todos os factos referidos da epoca glaciaria pela mesma causa
geral[25]. O phenomeno astronomico da _precessão dos equinoxios_
consiste na lenta deslocação do eixo da terra de oeste para leste.
Depende da direcção d’esta linha a desegual duração das estações nos
dois hemispherios, tendo presentemente a primavera e o estio das
regiões boreaes, sommados, mais sete dias que o outono e o inverno.
No hemispherio austral acontece o contrario. É a somma do outono e do
inverno que excede em sete dias a da primavera com o estio. E, como
durante aquellas estações a terra perde mais calor do que n’estas
ultimas, segue-se evidentemente que a perda annual do calor será maior
no hemispherio do sul que no hemispherio do norte, e portanto que a
temperatura do primeiro será inferior á do segundo. O que, em verdade,
se observa e se prova pela maior extensão dos gelos, que no sul impedem
a navegação em latitudes correspondentes áquellas, em que se faz livre
e desembaraçada no hemispherio do norte.
Mas como a posição do eixo vae mudando sempre lentamente, chegará
um dia em que a differença entre as durações das estações nos dois
hemispherios desapparecerá, tornando-se todas eguaes tanto ao norte
como ao sul do equador. N’essa epoca a temperatura será muito menos
differente nas latitudes dos dois hemispherios, sería até egual, se
não fossem as causas locaes, como os ventos, as correntes, a altitude,
a proximidade da agua, etc. Depois começará outra vez a apparecer a
differença entre as durações das estações, não aquella que já foi
designada, porém a inversa, isto é, a primavera e o verão tornar-se-hão
maiores no hemispherio austral e menores no hemispherio boreal,
exactamente o contrario de hoje. O cyclo completo d’estes movimentos
abrange 21000 annos. Ha de pois decorrer esse espaço de tempo a fim de
que a differença das estações torne a ser mathematicamente tal qual
agora se observa.
Depois d’esta brevissima exposição do fundamento principal da
hypothese, comprehender-se-ha facilmente que a temperatura maxima de
um hemispherio deverá corresponder ao maior excesso da duração da
primavera e do estio sobre a das outras duas estações; e a temperatura
minima ao maior excesso da duração do outono e do inverno sobre a da
primavera e do estio. Portanto o espaço de tempo decorrido entre o
momento da temperatura maxima e o da temperatura minima será egual
á metade de 21000 ou 10500 annos. A ultima vez que esta maxima
correspondeu ao hemispherio boreal foi em 1248, o que está dizendo que
até esse anno a temperatura foi sempre augmentando; começou então a
diminuir e continúa e continuará até ao anno de 11748, em que chegará
ao seu minimo grau. Mas a epoca anterior correspondente deve ter sido
21000 annos antes de 11748 ou 9252 annos antes de Jesus Christo. Tal
sería pois, na opinião de Adhémar, a epoca glaciaria, a epoca do
rangifer, bisonte, urso, em fim a epoca dos homens que se serviam das
armas e instrumentos de pedra lascada e de osso.
Suppõe-se porém que antecedentemente houvera já uma outra epoca
glaciaria, caracterisada pela apparição do rhinoceronte e dos ursos
das cavernas. Na Suissa conhecem-se provas da existencia de dois
periodos de frio separados por um intervallo, durante o qual o clima se
conservou temperado. Ora, segundo a lei de precessão dos equinoxios,
essa epoca sería 21000 annos antes ou 30252 annos antes de Christo. E
a epoca denominada preglaciaria, quando um clima temperado favoreceu o
desenvolvimento do hippopotamo e do elephante antigo e dos primeiros
dos homens, conhecidos por vestigios incontestaveis, sería 10500 annos
antes ou em 40752 antes de Christo.
A hypothese de Adhémar não explicaria unicamente a alternação dos
climas durante a idade quaternaria. Sendo deseguaes as calotes de gelo
dos dois hemispherios, pois a do sul aproxima-se do equador muito mais
que a do norte, o centro de gravidade da terra deverá deslocar-se para
a parte das massas maiores. N’esta deslocação successiva, o centro da
terra passará de 10500 em 10500 annos pelo plano do equador, mudando-se
de um para outro hemispherio, alterando portanto as condições de
equilibrio, e fazendo com que as aguas de uma corram para a outra
parte, e formem um diluvio. O hemispherio austral está hoje mais
coberto de agua, porque o centro de gravidade se deslocou para esta
parte, em razão de ser maior a calote dos gelos austraes que a dos
boreaes. Quando os gelos começarem a ser mais da parte do norte,
o centro da gravidade mudar-se-ha para este hemispherio, as aguas
deixarão descobertos novos continentes austraes e alagarão os boreaes,
cobrindo-os de novos depositos similhantes aos do diluvio.
A maior quantidade de gelos do hemispherio austral e o avizinharem-se
estes mais do equador que no hemispherio boreal provam a inferioridade
da temperatura do primeiro relativamente ao segundo. Nas viagens
antarcticas os navegantes experimentam, mais cedo e em maior grau que
nas viagens arcticas, as dificuldades da navegação, resultantes de
frio e dos gelos. Eis o motivo porque elles se têem aproximado mais
do polo do norte, e porque são hoje muito mais conhecidas as regiões
hyperboreas que as do outro hemispherio em latitudes correspondentes.
Basta lançar a vista a um mappa-mundi ou a uma esphera para vêr
a extensão das terras no hemispherio boreal proporcionalmente
muito maior. Mas esta desproporção tornar-se-ha mais expressiva e
concludente, em favor da hypothese que attribue á mudança do centro
da terra para o hemispherio austral a deslocação da agua para esse
mesmo hemispherio, se a avaliarmos com exactidão por meio da tabella
seguinte, que representa numericamente a diminuição successiva e
gradual das terras do norte para o sul, medindo em cada parallelo a
razão em que está a parte occupada pela terra com aquella que as aguas
cobrem. Representando cada parallelo pela unidade, teremos uma fracção
para representar a extensão da terra e outra para exprimir a extensão
da agua.
Latitude Agua Terra
------------------------------
60° ao norte 0,363 0,647
50° ” 0,407 0,593
40° ” 0,527 0,473
30° ” 0,536 0,464
20° ” 0,677 0,323
10° ” 0,710 0,290
0° ” 0,771 0,229
10° ao sul 0,786 0,214
20° ” 0,777 0,223
30° ” 0,791 0,209
40° ” 0,951 0,049
50° ” 0,972 0,028
60° ” 1,000 0,000
Este augmento tão regular, tão graduado da agua do norte para o sul,
dispõe naturalmente o espirito em favor da hypothese de Adhémar,
limitando-se a comparação ás regiões que em ambos os hemispherios
não ultrapassam a latitude de 60°. Mas alguns graus mais além no
hemispherio austral as descobertas da terra Victoria, da terra Enderby,
do vulcão Erebus contrariam em parte a pretendida lei, e parece
darem antes razão a Lyell, que, exactamente ao contrario de Adhémar,
attribuiu o grande frio das altas latitudes meridionaes á vasta
extensão e á grande altura do continente que suppoz existir nas regiões
antarcticas. Convém saber que, sendo maior a irradiação do calor na
terra do que na agua, a existencia de um alto e vasto continente
no circulo polar do sul, teria por effeito natural a diminuição da
temperatura nos mares proximos. E assim as differenças observadas
explicar-se-hiam até certo ponto por essa causa. Mas em quanto se não
demonstrar positivamente o que não passa apenas de mera supposição, não
será por certo com uma hypothese que se queira destruir a possibilidade
de outra.
Quanto á supposição de que a altura e extensão dos gelos teem
alternadamente influido, e assim continuarão no futuro, ora n’uma ora
n’outra metade do globo, ora cobrindo ora descobrindo as terras com
as aguas dos mares, fazendo um diluvio de 21000 em 21000 annos, cousa
é tão possivel como indemonstravel no estado actual de sciencia. Que
o gelo accumulado para a parte de um dos polos desloque para ahi o
centro de gravidade da terra, ninguem o contestará. Chegou até o sr.
Croll a calcular que a diminuição de 470 pés na espessura dos gelos
antarcticos elevaria no polo do norte a agua do mar á altura de 26 pés
e 5 pollegadas, e á altura de 25 pés na latitude de Glasgow que é de
55° e 55′. Se porém a diminuição fosse maior, se fosse, por exemplo
de 1 milha, a elevação tornar-se-hia de 280 pés. Assim poderá adoptar
a hypothese quem vir nos phenomenos da idade quaternaria e sobre tudo
nas dunas e fosseis marinhos em logares actualmente muito superiores
ao nivel do mar, e nas grandes florestas submergidas, factos menos
explicaveis por outras causas geologicas.