O padre Theodoro d’Almeida[8] chama contos de velhas ás expl

INTRODUCÇÃO

Á

ARCHEOLOGIA

DA

PENINSULA IBERICA

Typ. Castro Irmão--Rua da Cruz de Pau, 31

INTRODUCÇÃO

Á

ARCHEOLOGIA

DA

PENINSULA IBERICA

PELO DOUTOR

_AUGUSTO FILIPPE SIMÕES_

LENTE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

PARTE PRIMEIRA

ANTIGUIDADES PREHISTORICAS

COM OITENTA GRAVURAS

LISBOA

LIVRARIA FERREIRA

132 Rua Aurea 134

1878

PROLOGO

As sciencias historicas e sociaes transformam-se actualmente sob o

poderoso influxo dos factos, principios e methodos das sciencias da

natureza. A archeologia é a principal das vias por onde se opéra esta

grande transformação. Relacionada por uma parte com a geologia, a

paleontologia e a anthropologia, e por outra parte com a historia, tem

aproximado, attrahido, ligado estas sciencias que a differença das

idades e dos methodos respectivos por tantos annos conservára afastadas

e independentes umas das outras.

A tradição e a auctoridade d’aquelles que o precederam guiam e

esclarecem o historiador. Ao naturalista falta-lhe a tradição; tem

apenas os vestigios dos factos para os explicar e relacionar; mas,

por isso mesmo, afaz-se a observar, analysar, comparar e induzir

com toda a força que dá o exercicio ás faculdades intellectuaes, e

com a independencia a que o espirito humano se habitua, desprendido

inteiramente de opiniões antecipadas e de systemas preconcebidos.

O historiador principia pelo mais antigo dos factos que a tradição

refere, e deduz depois chronologicamente todos os outros até chegar

á actualidade. O geologo segue o caminho inverso; começa pelos

factos contemporaneos e, induzindo do conhecido para o desconhecido,

interpretando pelo presente o passado, remonta-se, de vestigio em

vestigio, até á origem da terra. Ninguem lhe contou, ninguem deixou

escripta a historia do planeta que habitamos. É elle quem a cria, quem

a inventa, observando e interpretando os vestigios materiaes dos

factos que lhe revelam na sua evolução incessante as phases principaes

da vida do globo. Os documentos que a natureza offerece ao naturalista

não exprimem senão a verdade rigorosa e exacta. Os documentos que

o historiador aprecia, traçados por mãos humanas, muitas vezes a

desfiguram e falseam. Mente o homem, a natureza não.

As condições do archeologo que estuda as epocas prehistoricas são

identicas ás do naturalista, e como naturalista ha de proceder se

quizer chegar ao conhecimento da verdade. Em primeiro logar falta-lhe

inteiramente a tradição verbal ou escripta; tem de cingir-se á

significação exacta e rigorosa dos vestigios que observa. Em segundo

logar a qualidade d’estes vestigios, o modo como se encontram nas

camadas superficiaes da crusta da terra, os restos fosseis que lhes

andam associados, fazem da archeologia prehistorica uma como parte da

paleontologia humana. Aqui pois desapparece de todo a differença entre

o archeologo e o naturalista.

Na archeologia dos tempos historicos, com quanto se considerem já os

factos á luz da historia, subsiste todavia, como elemento essencial

da interpretação d’elles, a analyse dos monumentos, a apreciação dos

productos da arte, correspondentes em cada seculo aos fosseis ou aos

outros vestigios em que o geologo, á força de observar e comparar,

chega a constituir e a lêr a historia da terra. O historiador não póde

pois deixar de ser archeologo; tem de aproveitar-se das luzes que a

archeologia lhe presta; e não raras vezes acontece indicarem-lhe os

monumentos a verdade alterada pela tradição. Não ha muitos annos, por

exemplo, que a historia nos representava os wisigodos como gente que

não chegara a cultivar as artes. As descobertas de alguns capiteis em

Toledo e do thesouro de Guarrazar corrigiram a falsidade historica,

mostrando-nos até que ponto elles se elevaram na esculptura da

pedra e dos metaes, e tambem na architectura, porque de certo não

fabricariam esplendidas coroas votivas de ouro e de pedras preciosas,

nem esculpiriam delicados capiteis para templos de pedra e barro ou

de madeira, como diziam terem sido em Hespanha os dos successores dos

romanos na dominação da Peninsula.

Quem considerar portanto a archeologia a esta luz, como poderoso

elemento de critica para o historiador, e como a principal das vias

por onde os methodos e noções das sciencias da natureza passam para

as sciencias historicas e sociaes, necessariamente concluirá ser o

seu estudo uma necessidade impreterivel para qualquer povo que não

queira ficar estacionario ou retardado áquem d’aquelles que o facho

da sciencia allumia na vanguarda da civilisação. Sobe de ponto a

necessidade em Portugal, de quem o poeta diria ainda hoje, como ha tres

seculos:

E não sei por que influxo do destino

Não tem um ledo orgulho e geral gosto,

Que os animos levanta de contino

A ter para trabalhos ledo o rosto.

A superioridade relativa da Hespanha em comprehender e apreciar os

estudos archeologicos claramente se nos patentêa em publicações de

tal interesse e magnitude, quaes são os _Monumentos arquitetonicos_

e o _Museo español de antigüedades_; e em monographias como aquellas

que das suas respectivas provincias escreveram os srs. Villa-amil,

Gongora, Sivelo, etc. Todas estas obras e alguns jornaes scientificos

e litterarios contêem grande copia de subsidios para o estudo

da archeologia hespanhola. Mas até hoje ninguem a tratára ainda

comparativa e syntheticamente. Para isto sería mister considerar

tambem as antiguidades portuguezas, e Portugal não poderia offerecer a

qualquer escriptor hespanhol senão alguma rara memoria ou um ou outro

artigo nos jornaes litterarios. Entre nós até certo ponto facilita-se

a empreza, porque, se, por uma parte, a Hespanha nos subministra em

tantas publicações, noticias e estampas dos seus monumentos, por outra

parte, temos os nossos tão proximo de nós, que as distancias serão o

menor dos obstaculos para quem pretender estudal-os ou descrevel-os.

Terá chegado a occasião opportuna de aproveitar taes elementos e de

contribuir para o commum progresso de Hespanha e de Portugal com um

dos maiores serviços litterarios que actualmente se lhes poderiam

prestar? Crêmos que sim, e por isso intentámos escrever a _Introducção

á Archeologia da Peninsula_, cuja parte primeira, comprehendendo as

antiguidades prehistoricas sahe por agora á luz do dia.

Este assumpto pouca ou nenhuma attenção tem merecido aos governos

hespanhoes e portuguezes, e cá e lá o publico mal lhe comprehende ainda

a maxima importancia. Todavia ha quarenta annos que Nilsson publicou

a primeira edição do seu livro ácerca dos habitantes primitivos da

Scandinavia. E desde essa epoca, na Suecia, Allemanha, Inglaterra,

França, Belgica, Suissa, em todos os paizes cultos, o estudo das

antiguidades prehistoricas tem constituido um verdadeiro movimento

scientifico, de certo o mais notavel e o mais caracteristico do

nosso tempo. Provam a existencia e a intensidade d’esse movimento a

exploração das cavernas e de outras estações prehistoricas, a fundação

de museus, a celebração de congressos, e finalmente a publicação de

livros e jornaes, destinados para registrar as descobertas que todos

os dias estão fazendo, ou para divulgar a nova sciencia entre aquelles

a quem interessa conhecer as origens e o desenvolvimento de civilisação

humana.

A archeologia prehistorica tem ainda outra grande importancia.

Estudando os mais antigos dos vestigios do homem na face da terra,

contribue a par com algumas das sciencias naturaes para a solução

do grande problema da origem das especies. Convém advertir que os

conhecimentos modernamente adquiridos n’este ponto interessante refazem

a biologia nas suas doutrinas fundamentaes e abrem novo e largo caminho

á philosophia. A paleontologia humana demonstra já a existencia do

homem nos mais antigos dos tempos quaternarios. Acompanha-a n’essa

demonstração a archeologia prehistorica, e vae mais longe ainda

rebuscar nas camadas pliocenas e miocenas dos terrenos terciarios, onde

aquella sciencia nada até hoje descobriu, as provas da habitação da

terra pelo homem em epocas em que as condições geographicas, zoologicas

e botanicas mal deixam acreditar na possibilidade de similhante facto.

O desejo de conhecer as origens dos povos e os primordios da nossa

especie na face da terra é natural a todo o espirito illustrado,

e distingue até as raças mais cultas d’aquellas que permanecem no

estado selvagem ou n’um grau inferior de civilisação. Ora quem

quizer satisfazer este desejo, soccorrendo-se unicamente aos dados

scientificos, ha de pedil-os tanto á historia natural como á

archeologia prehistorica. O que ellas já hoje nos dizem, apesar de

insufficiente para a completa solução do problema, é todavia muito

em comparação da total ignorancia em que a este respeito estavam os

naturalistas ainda ha poucos annos.

O problema da origem das especies liga-se naturalmente com a doutrina

da evolução que a archeologia prehistorica demonstra com evidencia na

parte que respeita á industria humana. O fundamento d’esta doutrina vem

a ser que a natureza não produz as cousas logo de principio completas

ou acabadas, porém no estado rudimentar, do qual se elevam por graus

successivos, por modificações infinitamente pequenas, até á sua fórma

precisa e determinada; e que, chegadas a este ponto, começam a padecer

alterações inversas, até se dissolverem pela total desaggregação das

suas partes constituintes. Chamam-se _lei de progressão ou integração_

aquella que regula as primeiras, e _lei de regressão ou dissolução_

aquella que regula as segundas de taes alterações.

A cellula, o elemento fundamental, irreductivel dos seres vivos, nasce,

cresce, atrophia-se e morre. O homem, cada animal, cada vegetal como

a cellula; a humanidade como o homem ou a especie como o individuo;

e, se chegar a demonstrar-se a hypothese de Laplace, a terra como os

organismos, o systema planetario como a terra. A humanidade inteira e

cada uma de suas partes, cada raça, cada povo, estão pois sujeitas a

estas leis universaes. O progresso é portanto uma condição necessaria

e fatal, e a civilisação ha de considerar-se não um effeito da arte,

mas uma phase tão natural da vida da humanidade, como o crescimento dos

orgãos nos animaes ou o desabrochar da flor nos vegetaes.

O descobrimento dos primeiros e disformes instrumentos que o homem

fabricou e de que fez uso na terra serve para demonstrar a lei da

integração ou o progresso na industria e na civilisação humana. A

serie progressiva manifesta-se claramente no machado, por exemplo:

ao de pedra lascada succedeu o de pedra polida; a este o de cobre;

ao de cobre o de bronze; a este finalmente o de ferro. A integração

patentêa-se da mesma sorte nos outros productos da industria, e

continúa depois nos tempos historicos pelas varias manifestações

do espirito humano, nas artes, nos costumes, na politica, etc. Os

estacionamentos e até as regressões locaes, temporarias, não invalidam

a regra geral, cuja verificação se ha de fazer comparando entre si, não

os periodos pouco distantes, porém as eras principaes, sem attender aos

longos seculos de elaboração que as separam.

Mais do que em geral se pensa, interessa ao individuo e á sociedade

esse estudo comparativo. Quem de boa fé e despreoccupadamente o

emprehender concluirá por certo que as faculdades humanas são por

extremo perfectiveis; que nos tempos primitivos o homem, arriscado

sempre a servir de pasto ás feras que o cercavam e com as quaes

tinha de luctar, armado apenas de paus e pedras, para se defender

da sua voracidade, ou para lhes disputar a posse das cavernas ou a

colheita dos fructos da terra, que o homem, só pelos seus proprios

esforços, pelo trabalho que desenvolve os orgãos, pelo exercicio

que aperfeiçôa as faculdades, se elevaria d’aquellas miseraveis

condições aos commodos e gozos do estado civilisado. Assim adquirirá

uma fé viva na perfectibilidade, em que o progresso tende a diminuir

a somma dos males e a augmentar a dos bens, e, guiado por esta

convicção consoladora e salutar, trabalhará para se aperfeiçoar a si

proprio e aos seus similhantes. Facil se lhe tornará tambem prevêr

os resultados da applicação de taes principios á educação physica e

moral. A criança está para o adulto, como o selvagem para o homem

civilisado. A mesma lei, que transforma o primeiro no segundo, permitte

desenvolver as faculdades infantís, e aproximal-as, em vez de, como

tantas vezes acontece, as desviar do typo da perfeição. Finalmente,

um povo, inspirado pela fé em que o seu futuro dependeria dos seus

proprios costumes, dos meios que pozesse para se aperfeiçoar physica

e moralmente, esse povo, convencido pelo estudo do passado de quanto

póde a natureza humana, e illustrado pela sciencia, elevar-se-hia a uma

civilisação superior a todas que têem existido, e chegaria a dominar,

ou melhor que dominar, a civilisar os outros povos da terra.

Nas origens e primeiros desenvolvimentos das civilisações antigas a

fé viva na intervenção miraculosa de potencias sobrenaturaes era o

estimulo forte que incitava os povos aos grandes commettimentos, que

cega e inconscientemente os conduzia aos grandes bens ou aos grandes

males. Nas civilisações modernas uma fé similhante nas forças naturaes,

no alto poder e na grande perfectibilidade das faculdades com que Deus

dotou o homem, substituirá de certo aquelle incentivo, mas sem expôr

aos mesmos perigos, porque, em vez de impedir lhe, facilitar-lhe-ha o

conhecimento da verdade. Temos infelizmente por impossivel cumprir-se

inteiramente aquella prophecia do poeta:

_Un jour tout sera bien_, voilá notre espérance,

_Tout est bien aujourd’hui_, voilá l’illusion.

Mas, assim como a curva se aproxima cada vez mais da asymptota, sem

chegar a tocal-a, assim tambem o homem, sem poder chegar á perfeição

absoluta, aproximar-se-ha, se quizer, cada vez mais a este sublime

ideal.

INTRODUCÇÃO

Á ARCHEOLOGIA DA PENINSULA

CAPITULO I

ESTUDOS PREHISTORICOS

_Os erros geocentrico e anthropocentrico e o progresso das

sciencias.--Machados de pedra.--Opiniões dos antigos e do vulgo

ácerca da sua origem.--Mercati entrevê a verdade.--Demonstrações

de Jussieu e de Mahudel.--Opiniões de auctores hespanhoes e

portuguezes.--Primeira definição das idades prehistoricas.--O homem

fossil.--Schmerling.--Boucher de Perthes.--Os sabios francezes e

inglezes.--Inversão das opiniões em França e Inglaterra.--Conferencia

internacional.--Resultados definitivos.--Estudos prehistoricos em

Hespanha e Portugal._

Obcecados pela ignorancia e desvanecidos pelo orgulho, os homens

acreditaram por muito tempo dois erros capitaes, oppostos e contrarios

ao progresso da sciencia e ao desenvolvimento da humanidade. Consistia

um, que chamam _geocentrico_, em suppor a terra, plana e immovel, o

centro do Universo; o outro, _anthropocentrico_[1], em julgar tambem

o homem centro e fim unico e ultimo de toda a creação. E tanto esses

erros se tinham arraigado, durante a longa infancia do genero humano,

que, só porque proclamaram o movimento da terra, no seculo XVI

Copernico passava por doido, e, no seculo XVII Galileu, por não ser

posto a tormento ou lançado ás chammas, tinha de abjurar, perante a

Inquisição de Roma, as crenças scientificas.

Todos sabem que, depois da epoca memoravel do renascimento, a

demonstração do primeiro erro foi uma das causas que mais contribuiram

para elevar a humanidade acima dos apertados horisontes em que a idade

media a confrangera. O segundo, porém, continuou a dominar o animo

dos naturalistas a ponto que, na primeira metade do seculo XIX, Cuvier

e a maior parte não acabaram comsigo a acreditar em que existisse nas

entranhas da terra algum vestigio fossil do homem entre os dos outros

mammaes, contemporaneos dos ultimos phenomenos que alteraram a face do

globo. Cediam assim ao geral influxo do erro anthropocentrico, segundo

o qual, a especie humana, a ultima na ordem das creações successivas,

sómente poderia apparecer depois que os varios agentes da natureza

houvessem longamente preparado a configuração actual dos continentes,

que tinham de servir-lhe de berço e de vivenda.

Do erro anthropocentrico derivava-se tambem naturalmente a crença na

civilisação primordial e na consecutiva decadencia da humanidade;

e portanto, cousa impossivel parecia o descobrirem-se objectos da

industria humana que provassem exactamente o contrario, isto é, que o

homem progredira e se aperfeiçoára gradualmente, passando do estado

selvagem a civilisações cada vez menos imperfeitas.

Os machados de pedra, que em grande numero apparecem sepultados na

terra em todas as partes do mundo, foram por muito tempo considerados,

não como productos da industria humana, mas como effeitos miraculosos

da cholera dos deuses ou resultas incomprehensiveis das forças

naturaes. O vulgo chama-lhes ainda hoje _pedras de raio_, como em

Grecia e Roma lhes chamavam _ceraunias_[2]. E, tambem como os povos

modernos, os gregos e romanos lhes attribuiam virtudes mysteriosas e

curativas. Na Grecia, particularmente, era opinião commum que Jupiter

as arrojára do céo, e sobre certos montes convisinhos do mar Caspio e

no da Chymera, no Epiro, mais do que em qualquer outra parte. Em razão

do que, lhes rendiam culto e as collocavam em logares reservados. Não

falta quem supponha que os sacerdotes de Cybele se serviam com facas

ou machados de pedra para espontaneamente se mutilar em honra de

Atys. Entre os hebreus era uso fazer a circumcisão com instrumentos

de pedra[3], venerados talvez como sagrada recordação da remota

antiguidade.

Parece que as betylas que os antigos traziam comsigo e consultavam como

oraculos, fabricadas pelo céo, não seriam senão as ceraunias achadas

na terra. Algumas vezes estas mesmas pedras substituiam a imagem de

Jupiter; pois na fórma de machado adoravam os Carios aquelle que

denominavam _Labradæus_. Sotaco e Plinio dizem que as ceraunias eram á

maneira de machados (_similes securibus_). A maior parte dos auctores

não fazem distincção entre as betylas e as ceraunias. Outros porém

entendem que as primeiras seriam propriamente os machados e as segundas

as pontas de frechas.

Um poeta da decadencia, Marbodeo, descreveu nos seguintes versos a

origem, usos e virtudes das ceraunias ou pedras de raio:

Ventorum rabie cùm turbidus æstuat aër

Cùm tonat horrendum, cum fulminat igneus æther,

Nubibus illisis, cœlo cadit iste lapillus,

Cujus apud græcos exstat de fulmine nomen.

Illis quippe locis quos constat fulmine tactos

Iste lapis tantùm reperire posse putatur.

Unde cerauneos est græco nomine dictus,

Nam, quod nos fulmen, Græci dixere ceraunum,

Qui castè gerunt hunc à fulmine non ferientur

Sed neque navigio per flumina vel mare vectus,

Turbine mergetur, nec fulmine percutietur.

Ad causas etiam, vincendaque prœlia prodest.

Et dulces somnos et dulcia somnia præstat.

Huic dantur binæ species, totidem que colores

Cristallo similem Germania mittere fertur,

Cœruleo tantum infectum, rutiloque colore

Mittit et Hispanus similem fulgore Pyropi.

Os escriptores da idade media repetiram as fabulas antigamente

acreditadas das ceraunias. Comtudo já Lucrecio dissera em bellissimos

versos como os homens primeiro se tinham servido das pedras e paus por

armas, e sómente mais tarde as haviam feito de bronze, e por fim de

ferro:

Arma antiqua manus, ungues, dentesque fuerunt,

Et lapides, et item silvarum fragmina rami,

Et flammæ atque ignes, postquam sunt cognita primum.

Posterius ferri vis ærisque reperta;

Et prior æris erat quam ferri cognitus usus.

Mas esta asserção, bem como outras do grande poeta, sómente no seculo

XIX poderia ser demonstrada e comprehendida.

Mercati, medico e antiquario illustre do seculo XVI, foi quem primeiro

tentou demonstrar que as ceraunias seriam antes as armas lapideas que

os primeiros homens usaram, do que productos mysteriosos do raio.

Entretanto, era tão commum esta ultima opinião, que o auctor, apezar

da força dos argumentos que produziu, não se declarou terminantemente

a favor da outra, á qual apenas se mostrou inclinado. N’um dos seus

livros, que é uma descripção das riquissimas collecções do museu

Vaticano, para onde Sixto V o escolhera para director, n’esse livro

publicado e annotado em 1715 por outro medico insigne, João Maria

Lancisi, descreve Mercati e figura em estampas illustrativas os

machados de pedra e as facas ou lascas ou as pontas de frechas, e

affirma terem sido feitas de pederneira. Alguns outros escriptores

do seculo XVI, como Aldrovando e Conrado Gesner, fallaram das armas

de pedra e das excavações onde appareciam, todavia ninguem o fez tão

expressa e positivamente como Mercati. Na Peninsula em 1534, Beuter,

historiador de Valencia, deu noticia de muitas armas de pedra,

apparecidas em Cariñena de Aragão, e de alguns craneos atravessados por

ellas e na mesma excavação descobertos[4].

Nos seculos XVII e XVIII o exame das pedras denominadas ceraunias

e a sua comparação com as armas de que ainda hoje se servem certos

povos selvagens, mostrou a alguns desabusados observadores a origem

e fins communs de umas e de outras. É sobre tudo notavel a memoria

apresentada em 1723 por Jussieu á Academia das sciencias de Pariz, com

a demonstração rigorosa de que as ceraunias ou pedras de raio não eram

mais que as armas ou instrumentos fabricados e usados pelos primitivos

habitantes da Europa, antes que a civilisação lhes ensinasse a extrahir

e obrar os metaes. Dez annos depois, Mahudel sustenta a mesma opinião

n’uma memoria que offerece á Academia de inscripções e bellas letras.

Mas estes votos particulares não mudam o sentir do vulgo a respeito das

ceraunias ou pedras de raio.

Em Hespanha o padre Torrubia dizia-as pedras figuradas pela

natureza[5]. Em Portugal o padre João Baptista de Castro explicava

assim a sua formação: «A pedra de corisco é distincta do raio; não

obstante cahir juntamente com elle da nuvem; porque entre as exhalações

sêccas, de que o raio se fórma, sobem tambem algumas particulas de

materia terrestre e viscosa, as quaes pelo vigor do fogo se accendem e

se tornam em massa empedernida, combatida ao depois pelo vigor do frio.

Toma ella varias fórmas segundo a diversidade da nuvem em que se fórma,

porque ou é de figura de pyramide, ou de ovo, ou de cunha, ou tambem

redonda»[6].

O capitão Luiz Marinho de Azevedo no seu livro da fundação,

antiguidades e grandezas de Lisboa, cita Plinio, Mario Nigro e Solino

que disseram abundantes de ceraunias os campos de Lisboa ou da

Lusitania, e trata de indagar se estas pedras seriam ou não d’aquellas

que se formam da gomma de certa arvore da ilha de Cadiz, de que falla

Estrabão. D. Antonio de Souza Macedo[7], tratando da invenção das armas

diz: «Aonde não havia ferros, páos e pedras foram armas (e ainda entre

nações de Africa e America o são) páos tostados ao fogo». Bluteau no

Vocabulario, definindo a pedra de corisco, cita um auctor que diz que

quem trouxer comsigo uma não poderá ser ferido de raios nem afogar-se.

Conclue porém com a seguinte observação. «Eu tenho uma, mas nem com

ella me quizera eu expôr a raios ou naufragios».

O padre Theodoro d’Almeida[8] chama contos de velhas ás explicações

que davam da formação das pedras de raio, e mostra que não podem ser

geradas nas nuvens. Foi mais adiante n’este ponto em Hespanha, pelo

mesmo tempo, Marin y Mendoza, que mui claramente affirma a existencia

das idades ante-historicas. Referindo-se aos homens primitivos

diz: «Conocidos los estragos que causaba la voracidade del fuego,

aprendieron que era poderoso no sólo para exterminar, sino tambien

para penetrar y convertir las materias, por cuyo medio hallaron el

cobre y hierro. Juzgase que se inventó de estos dos metales, primero el

cobre, por ser más facil de labrar y hallar-se en mayor abundancia, y

asi cultivaban con cobre la tierra, y se encuentran formadas armas de

él para pelear, entre los más antiguos guerreros; pero con el tiempo,

llegando á experimentar la fineza del hierro, lo preferieron para la

labranza y fabrica de espadas... Es de creer que antes de inventar-se

el hierro ó que lo supiesen aplicar para los instrumentos de guerra, se

ensayasen poniendo en los extremos de los maderos y lanzas, huesos ó

pedernales, y lo mismo harian con los cuchillos para cortar, del modo

que lo usaban los americanos»[9].

D. fr. Manuel do Cenaculo, n’um livro inedito, descrevendo as espadas

de cobre ou de bronze que appareceram na diocese de Beja, em excavações

que mandou fazer, admitte egualmente a existencia da idade de bronze,

anterior á invenção do ferro, e cita a obra mencionada de Marin y

Mendoza[10]. Antecedentemente, em 1733, Martinho de Mendonça de Pina

escrevera uma dissertação ácerca das Antas de Portugal, que anda

impressa entre as Memorias da Academia Real de Historia[11]. Mas Eccard

e Goguet, no meiado do seculo passado, foram aquelles que primeiro

definiram com mais clareza as tres idades ante-historicas da pedra,

do bronze e do ferro, o primeiro inquirindo as origens dos germanos,

o segundo historiando os progressos sociaes dos povos antigos[12].

Havia porém um grande obstaculo a que esta idéa se vulgarisasse e

fosse geralmente acreditada. As ceraunias appareciam em varias camadas

da crusta da terra. Ora, se ellas tivessem servido de armas aos

homens primitivos, porque não se descobririam tambem e conjuntamente

nos mesmos terrenos ossos humanos no estado fossil? Á paleontologia

competiria por tanto decidir a questão, mostrando se o homem teria

ou não coexistido com a formação dos terrenos, onde aquellas pedras

singulares tinham ficado sepultadas. Mas o atrazo e, portanto, a

incompetencia da paleontologia eram taes que já n’este seculo Cuvier,

elevando-a á categoria de sciencia, sustentava que nenhuma das

descobertas, antecedentemente feitas, auctorisava a crêr na existencia

do homem fossil. A reducção do _homo diluvii testis_ de Scheuchzer ao

genero das salamandras, reducção feita pelo celebre naturalista, depois

de ter examinado o pretendido fossil humano, ainda mais o firmou nas

idéas em que estava ácerca do recente apparecimento da nossa especie

na superficie da terra[13]. É verdade que em 1774, Esper encontrára

na caverna de Gaileurenth, na Baviera, ossadas humanas de mistura com

esqueletos, evidentemente fosseis, de grandes alimarias antidiluvianas,

e differentes de todas as especies actuaes. E alguns annos depois, em

1797, J. Frére achára em Hoxne, no condado de Suffolk, varios machados

de pedra, juntos com ossadas de animaes igualmente desapparecidos. Mas

esses factos, apezar de expressivos e concludentes, não bastaram para

destruir a crença geral do vulgo e dos sabios ácerca da origem recente

de genero humano.

Achados similhantes, feitos já n’este seculo por Crahay no læss de

Caberg, junto de Maestricht, na Hollanda; por Ami Boué em Lahr, na

margem direita do Rheno, defronte de Strasburg; pelo conde Breuner em

alluviões da Austria; e finalmente por Tournal e Christol em cavernas

da França meridional, todos antes de 1830, não influiram mais que os

outros no animo preoccupado dos naturalistas.

Em 1823, Buchland, celebre geologo inglez, deu á luz uma obra

intitulada _Reliquiæ diluvianæ_, com a descripção da caverna de

Kinklake e com a exposição de todos os factos então conhecidos

favoraveis á hypothese da coexistencia do homem e dos animaes

antidiluvianos. Mas o desejo que o dominava de concordar as descobertas

da sciencia com a chronologia da biblia o impediu de se render á

evidencia d’esses factos.

Seis annos depois, em setembro de 1829, tiveram principio os estudos

e investigações de Schmerling, que explorou mais de quarenta cavernas

nas collinas de calcareo carbonifero da provincia de Liége. Nas

muitas excavações que ordenou e dirigiu achou instrumentos de pedra

e de osso juntamente com restos fosseis do mammouth, do _rhinoceros

tichorinus_, da hyena e do urso das cavernas. N’algumas lhe appareceram

tambem ossadas humanas, e nas de Engis o celebre craneo conhecido por

este nome, e que o proprio Schmerling disse assimilhar-se mais aos

craneos dos ethiopes que aos dos europeus. Este incansavel explorador

demonstrou, pelas condições em que appareciam os ossos dos homens e dos

animaes fosseis, serem todos contemporaneos, e terem ficado sepultados

da mesma maneira entre os materiaes que as aguas introduziam nas

cavernas, passando pelas fendas estreitas das suas paredes[14]. Lyell

accusa os professores da universidade de Liége, collegas de Schmerling,

de terem deixado passar um quarto de seculo, sem se importarem de

attestar a verdade das descobertas que viam fazer; e accusa-se tambem

a si proprio de ter passado em 1833 em Liége, sem visitar as cavernas

exploradas, estando já então publicado o primeiro tomo da obra em

que o illustre professor expunha o resultado das suas laboriosas

investigações, e tendo visto com os seus proprios olhos a collecção dos

objectos que este descobrira.

Em 1835, Joly, professor do lyceu de Montpellier, achou numa caverna

da provincia de Lozére o craneo de um urso com signaes manifestos de

ter sido ferido por uma frecha. Em pequena distancia achou tambem

um fragmento de louça com vestigios dos dedos humanos que o tinham

moldado. Proclamou o explorador a importancia da sua descoberta, que

foi acolhida, como as outras que a precederam, com a mesma commum

indifferença.

Por essa epoca entrou Boucher de Perthes n’aquella grande e memoravel

lucta da qual, mais tarde, haveria de sair vencedor da incredulidade

e indifferença dos sabios e das academias. Estudando com attenção as

camadas diluvianas da Normandia e da Picardia, communicou, durante

alguns annos, em diversas memorias á Sociedade de emulação de Abbeville

os seus importantes descobrimentos. Datam de 1842 as primeiras

communicações de Boucher de Perthes á Academia das sciencias de Pariz,

e de 1846 a primeira impressão do livro com que pretendeu divulgar as

suas idéas respectivas á antiguidade do genero humano[15].

As explorações em que Boucher de Perthes andou associado a innumeros

operarios, a quem soube communicar o interesse e até o enthusiasmo que

o animava, fizeram-se, pelo espaço de muitos annos, em varios terrenos

diluviaes, entre outros nos de Saint-Acheul, Saint-Roch-les-Amiens,

Hôpital, Moulin-Quignon e Menchecourt-les-Abbeville. Depois de ter

colligido muitos productos da industria humana e muitos fosseis

antidiluvianos que provavam a antiguidade do terreno, é que escreveu e

em 1846 imprimiu o seu livro da Industria primitiva, que apresentou á

Academia das sciencias de Pariz, em agosto de 1846. A Academia nomeou

uma commissão que, apezar de todas as instancias de Boucher de Perthes,

não chegou a ir a Abbeville, nem a fazer qualquer exame para confirmar

ou destruir as suas asserções. Elle porém não descançou em quanto

não resolveu alguns sabios auctorisados a irem observar os terrenos

explorados e sanccionar os descobrimentos que n’elles se tinham feito.

Estes visitantes, posto que, pela maior parte, predispostos contra

a opinião defendida por Boucher de Perthes, sahiam de Abbeville

convertidos. Tal era a evidencia dos factos que alli verificavam.

Em 1859 alguns geologos inglezes, os srs. Falconer, Prestwich, Evans,

Godwin, Austen, Flower e Mylne, começaram a visitar uma e muitas vezes

Abbeville, e a acreditar em Inglaterra as descobertas de Boucher de

Perthes. O proprio Lyell fez tambem a peregrinação, e, de impugnador

que era, tornou-se estrenuo defensor da opinião d’aquelles que julgam

o apparecimento do homem, na terra, anterior á epoca geologica actual.

No anno de 1860 a Sociedade de anthropologia de Pariz examinou alguns

dos objectos descobertos em Abbeville; e o resultado de uma discussão

em que tomaram parte os srs. Castelnau, Baillarger, Broca, Bertillon,

Trelot, Verneuil, Lagneau, G. Saint-Hilaire e Pouchet, foi favoravel a

Boucher de Perthes. Conseguiu este em 1863 fazer acceitar pelo Estado

a offerta do seu museu, constituido principalmente com os objectos

encontrados em Abbeville. A acceitação da offerta, antecedentemente

rejeitada, era já uma prova de que a França começava em fim a fazer

justiça aos trabalhos e á dedicação do infatigavel explorador.

N’esse mesmo anno descobriu-se pela primeira vez em Abbeville um

osso humano fossil, o que anteriormente não tinha sido possivel. Na

pedreira de Moulin-Quignon appareceu a celebre maxilla conhecida por

esse nome. Examinou-a o sr. Quatrefages, e apresentou na Academia

das sciencias um parecer em que a reputava authentica e, portanto,

um fossil humano. Mas, coisa notavel! ao passo que os naturalistas

francezes se convertiam e principiavam a pôr a realidade dos factos

acima da auctoridade de Cuvier, os geologos inglezes, tomados de subita

desconfiança, suscitada talvez pela força da opinião publica que em

Inglaterra se proclamava adversa ás novas idéas, reconsideravam,

pelo menos alguns, e, depois de terem proclamado a veracidade das

descobertas de Boucher de Perthes, entraram em 1863 a impugnar não

sómente os factos anteriores, mas tambem a authenticidade da maxilla

recentemente descoberta. O proprio Falconer, outr’ora ardente pregoeiro

das novidades de Abbeville, escreveu ao _Times_, em seu nome e no de

muitos dos seus compatriotas que o tinham acompanhado áquella cidade,

confessando que todos se tinham enganado, que todos tinham sido

illudidos por uma fraude que então sómente reconheciam. Agora, pois,

mudadas as scenas, eram Quatrefages e outros sabios francezes que

sustentavam contra os inglezes serem realidades e não falsificações

os celebres descobrimentos de Boucher de Perthes. De tal discordancia

resultou uma conferencia entre os srs. Delafosse, Daubrée, Hébert,

Gaudry, Buteux, abbade Bourgeois e A. Edwards por parte da França; e

Falconer, Prestwich, Carpenter e Busk, todos membros da Sociedade real

de Londres, por parte da Inglaterra. Foram eleitos presidente o sr. H.

Milne-Edwards e secretario o sr. Delesse.

Em maio de 1863 os conferentes reuniram-se por tres vezes no Museu de

historia natural. N’estas tres sessões, pelo exame das pederneiras

e da maxilla, julgaram os inglezes achar novos indicios contra a

authenticidade de taes objectos. E, como parecesse impossivel chegarem

a algum accordo, resolveram apresentar-se de repente em Abbeville, para

fazer uma inquirição scientifica nos logares explorados, e resolver

assim cabalmente, e de uma vez para sempre, as duvidas occorridas em

Inglaterra ácêrca dos descobrimentos de Boucher de Perthes.

Tomada esta resolução no dia 11 de tarde, logo no dia seguinte

os sabios francezes e inglezes se apresentaram, sem que ninguem

os esperasse, em Abbeville. O sr. Milne-Edwards redigiu e enviou

á Academia das sciencias de Pariz um relatorio d’este processo

interessante. Descreveu minuciosamente o exame feito pelos conferentes

em Abbeville, e apontou as provas que a todos deixaram convencidos da

authenticidade da maxilla e dos instrumentos de silex. Convém saber

que, serrada a maxilla, n’uma das sessões do Museu, tinha apparecido

no canal da arteria dentaria uma areia acinzentada que pareceu aos

inglezes um signal de falsificação, porque não viam nas estampas,

que representavam os terrenos de Moulin-Quignon, areia da mesma côr.

Verificou-se porém n’aquelles terrenos a existencia de uma camada

de areia cinzenta que não tinha sido indicada nos mappas, e assim o

signal que era antes negativo, desde logo se tornou positivo. Por outra

parte, as suspeitas respectivas aos machados de pedra inteiramente se

desvaneceram, quando outros similhantes se descobriram em excavações,

feitas á vista dos naturalistas inglezes e francezes.

Os resultados d’esta conferencia memoravel, desde as sessões no Museu

até ao accordão final dos naturalistas, nem que de antemão fossem

combinados, teriam mais decisiva influencia no animo d’aquelles que

receiavam ainda admitir, como verdadeiros, os modernos descobrimentos.

Na França e n’outros paizes da Europa, n’algumas partes da America,

Asia e Africa, trabalhadores incançaveis se dedicam animados de

zêlo ardente á exploração dos terrenos sedimentares, das cavernas,

das turfeiras, dos dolmens, dos tumulos, das palafittas ou cidades

lacustres e finalmente dos kiokkenmoddings ou rebotalhos das cozinhas

dos homens primitivos. Publicam-se livros, memorias e jornaes

destinados a divulgar os achados dos exploradores. Patentêam-se as

Academias aos novos estudos. Fundam-se museus para se depositarem os

objectos encontrados. Celebram-se congressos para os archeologos de

todas as nações communicarem entre si as suas descobertas e resolverem

as duvidas que, sómente pelo conselho de muitos, podem ser resolvidas.

A Peninsula não tem permanecido de todo estranha a este grande

movimento scientifico. Desde 1860 que o sr. Carlos Ribeiro busca

os vestigios da industria primitiva nos terrenos de Portugal e

principalmente nos sedimentares do valle do Tejo. Os srs. Pereira

da Costa e Delgado exploraram varias estações humanas prehistoricas

do valle do Tejo, e publicaram em 1865 e 1867 os descobrimentos que

fizeram de restos humanos fosseis e de instrumentos de osso ou de

pederneira antidiluvianos. O sr. Pereira da Costa estudou tambem as

antas ou dolmens de Portugal, dos quaes escreveu uma interessante

memoria, impressa em 1868.

Em Hespanha D. Cassiano de Prado, engenheiro de minas, já fallecido,

foi quem primeiramente se occupou dos estudos prehistoricos. Na sua

_Descripção physica e geologica da provincia de Madrid_, impressa em

1864, se vê que desde 1851 se empenhava em colligir instrumentos

de silex, sem todavia saber ao certo o que fossem. Em 1862, indo a

Madrid os srs. Verneuil e Lartet (filho), exploraram na companhia de

D. Cassiano a celebre estação de San Isidro, pouco distante d’aquella

cidade. Desde então dedicou-se com ardor a estes estudos e emprehendeu

varias explorações, nas quaes colligiu fosseis humanos e de animaes e

muitos instrumentos da industria primitiva. Depois, muitos geologos

e amadores têem contribuido em Hespanha para augmentar o peculio dos

conhecimentos prehistoricos. Exploraram os srs. Vilanova em 1866 a

cova de Monduber e a Cueva Negra na provincia de Valencia; Lartet em

1866 as cavernas de Castella a Velha; Vilamil y Castro em 1868 e 1869

alguns tumulos da Galiza; Gongora as cavernas e outras antiguidades

prehistoricas da Andaluzia; Garay as minas abandonadas de Rio Tinto;

Jagor a caverna de Balzola; Rada y Delgado as de Cangas de Onis e

Colunga. Os srs. Vilanova y Piera e F. M. Tubino fazem explorações,

assistem a congressos europeus, e publicam artigos importantes

sobre o assumpto. Na Academia de historia lêem dissertações os

srs. Benavides, Amador de los Rios, Saavedra e Fernandez Guerra. O

sr. D. José Amador de los Rios conseguiu que no Museu archeologico

nacional, fundado em 1869 em Madrid, se designasse uma secção para os

objectos prehistoricos. Começados, pois, ao mesmo tempo os estudos

prehistoricos em Hespanha e Portugal, os nossos visinhos, apezar das

dissenções intestinas, têem-se adiantado a ponto de rivalisar hoje

com os povos mais civilisados. Entre nós o movimento principiado pela

commissão geologica não se propagou no paiz, e, alli mesmo, cremos ter

sido destruido por audazes reformadores que não respeitaram nem as

instituições mais importantes e mais sagradas da instrucção popular.

Apenas o sr. Carlos Ribeiro communicou á Academia real das sciencias

uma memoria com a descripção dos silex e quartzites lascados que

se conservam nas collecções da secção geologica da direcção geral

dos trabalhos geodesicos, em 1872, e publicou em 1873 o relatorio

do congresso de Bruxellas, onde dignamente nos representára no anno

anterior.

Exploradores não os ha; collectores são raros. Sabemos dos srs. Judice

no Algarve, Gabriel Pereira em Evora, Martins Sarmento em Guimarães,

e de ninguem mais. São desfavoraveis as condições de Portugal, n’este

ponto, relativamente aos outros povos cultos. Do abatimento em que

estamos só poderia erguer-nos a iniciativa dos governos alliada á

dedicação de todos aquelles a quem não são indifferentes o progresso da

sciencia e o passado e o futuro da humanidade[16].

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Geocentrico, de _gê_, Terra, e _kentron_, centro. Anthropocentrico,

de _anthrôpos_, homem, e _kentron_, centro.

[2] Ceraunia, de _keraunos_, raio.

[3] Tulit ilico Sephora acutissimam petram, et circumcidit præputium

filii sui... Exod. IV, 25. Eo tempore ait Dominus ad Josue. Fac tibi

cultros lapideos et circumcide secundò filios Israel. Josué, V, 2.

[4] _Historia y progresos de la arqueologia prehistorica_, por Don

Francisco Maria Tubino.--_Museo español de antigüedades_, tomo I, pag.

1 a 21.

[5] Ibidem.

[6] Na _Recreação proveitosa_ que deu á luz com o pseudonymo de

Custodio Jesam, Barata, anagramma de João Baptista de Castro.

[7] _Eva e Ave_, p. 1.ª, cap. XXI.

[8] _Recreação Philosophica_, tomo VI, pag. 466.

[9] _Historia de la milicia española_, tomo I, pag. 33.

[10] _Vida de S. Sizenando e Historia de Beja, sua patria._ Ms. da

bibliotheca publica de Evora.

[11] _Collecção dos documentos e Memorias da Academia Real de Historia

Portugueza._ Tomo XIV; conferencia de 30 de julho de 1733.

[12] _Historia y progreso de la arqueologia prehistorica_, por Don

Francisco Maria Tubino. _Museo español de antigüedades_, tomo I, pag. 1

a 21.

[13] _Discours sur les revolutions du globe._

[14] _Recherches sur les ossements fossiles découverts dans les

cavernes de la province de Liége._ Liége 1833 e 1834.

[15] _De l’Industrie primitive, ou des Arts à leur origine._ Pariz

1846. A segunda edição sahiu logo no anno seguinte com este titulo:

_Antiquités celtiques et diluviennes. Mémoire sur l’Industrie primitive

et les Arts à leur origine._ Pariz 1847. Imprimiram-se posteriormente

os tomos II e III.

[16] Depois de escripto este capitulo, correu a noticia das grandes

explorações, emprehendidas pelo sr. Martins Sarmento nas ruinas

da Citania, perto de Guimarães. São muito notaveis os vestigios

encontrados, correspondentes a varias civilisações. No fim do volume em

nota especial tractaremos do assumpto.

CAPITULO II

ANTIGUIDADE DO HOMEM

_Constituição da crusta da terra.--Rochas sedimentares.--Serie

geologica.--Rochas plutonicas.--Rochas metamorphicas.--Classificação

dos terrenos estratificados.--Duração relativa d’estas

formações.--Computo e provas da antiguidade do homem, deduzidas

1.º da vegetação florestal da Dinamarca; 2.º dos sedimentos

fluviaes; 3.º do desgaste das terras pelas aguas affluentes aos

rios.--Antiguidade do homem na Peninsula.--Clima glaciario.--Fauna

correlativa.--Effeitos da fusão dos gelos.--Hypothese de Adhémar

ácerca da epoca glaciaria.--Epocas glaciaria e preglaciaria.--Diluvios

periodicos.--Comparação de ambos os hemispherios.--Proporção

das aguas e das terras.--Factos comprobativos.--Outras causas

astronomicas.--Causas geographicas.--Gulf Stream.--Sahara._

A observação da superficie da terra, os estudos, as viagens,

as explorações patentearam a configuração dos continentes, a

extensão e profundidade dos mares, a fórma, direcção e altura das

cordilheiras, o curso dos rios, os limites das planicies e todas

as mais particularidades da geographia physica. Mas, para conhecer

a fabrica da crusta, a natureza das suas rochas constituintes, a

disposição relativa das suas camadas, não basta já a vista exterior,

importa necessariamente perscrutar a estructura intima, bem como se

hão de dissecar as carnes do corpo, a fim de descobrir os segredos da

organisação humana. Os logares mais adequados para se examinar a crusta

da terra serão, portanto, aquelles onde a natureza ou a arte pozeram

descobertas de alto abaixo e no sentido da espessura as varias camadas

integrantes: logares taes como as ribas desnudadas pelas aguas; as

escarpas das estradas, os poços profundos das minas; e finalmente as

encostas nuas e aprumadas, quaes são as do monte da Pyramide nas terras

do Novo Mexico dos Estados Unidos.

Das rochas que assim se patentêam, umas são estratificadas, sobrepostas

á maneira das folhas de um livro; contam-se debaixo até cima; seguem-se

por grande espaço sem jamais se confundirem. Outras são irregulares;

não se estendem em camadas; não se prolongam em direcções definidas;

não constituem series inalteraveis; nem têem nenhuma especie de

estratificação. Outras em fim, por seus caracteres mixtos, parece

participarem da natureza tanto das primeiras como das segundas.

Uma das circumstancias mais notaveis e importantes das rochas

estratificadas é conterem fosseis ou restos de seres organisados,

fóra das condições actuaes e normaes da sua existencia. E, como a

organisação dos animaes e a dos vegetaes padeceram mudanças grandes

e profundas nas varias epocas, servem muito bem estes caracteres dos

fosseis para determinar quaes dos terrenos têem as mesmas idades e

quaes idades differentes.

A serie das camadas sedimentares não se encontra completa n’uma só

região. Mas os terrenos que faltam n’umas partes apparecem n’outras; e

assim, por meio de observações em diversos logares da crusta da terra,

se tem formado a collecção inteira. Seja qual for o numero dos terrenos

que faltem em qualquer região, aquelles que subsistem conservam sempre

as suas posições relativas. Se representarmos a serie pelas letras A,

B, C, D, E, F, G,....., contando debaixo para cima, poderão faltar B ou

D ou F, porém jamais A apparecerá por cima de B, ou E por cima de G. Em

menos palavras, ha sómente interpolações, e não transposições na serie

geologica.

As rochas estratificadas formam-se no fundo da agua com os materiaes

por ella carreados, bem como hoje se formam outras similhantes rochas

no fundo dos mares ou dos lagos, ou nos alveos dos rios. Chamam-se

por isso sedimentares. Umas vezes são parallelas entre si e com o

horisonte; outras vezes parallelas entre si e discordantes com o

horisonte em angulos variaveis. Outras vezes finalmente, além de

discordarem com o horisonte, discordam tambem entre si. Nas montanhas

é onde apparecem maiores discordancias, chegando ás vezes as camadas a

aproximar-se da vertical.

Estes grandes desvios das rochas sedimentares provam a existencia de

causas que as levantaram, fenderam e tiraram da sua situação primitiva,

parallela ao horisonte. Quaes foram essas causas dil-o-ha o exame das

outras rochas que se encontram na crusta da terra.

Com effeito as rochas não estratificadas, que servem de base ás

sedimentares ou se elevam por meio d’ellas, são crystallinas, como

vitreas, e em tudo analogas áquellas que ainda hoje se formam nos

vulcões. Geradas pois pela acção do fogo, consistem em massas que,

do estado de fusão ignea, passaram ao estado solido por via do

arrefecimento.

D’estas ultimas rochas de origem ignea ou plutonica, umas precederam

as sedimentares, outras formaram-se depois, alevantando as camadas

estratificadas, irrompendo por meio d’ellas, alterando-lhes a

estructura e destruindo-lhes os vestigios dos seres organisados. Foi

uma verdadeira metamorphose; e, por isso, se denominaram metamorphicas

aquellas que a padeceram.

Mas o estudo mais interessante e mais fecundo de consequencias para

a historia dos seres organisados é o das camadas sedimentares. A

variedade das faunas e floras, correspondentes a cada grupo de

terrenos, a serie regular e ascendente de organismos cada vez mais

complexos provam com evidencia a diversidade das condições, em que

elles se desenvolveram, e a successão de periodos, que, por caracteres

peremptorios, se distinguem uns dos outros.

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 1 / 18 段