_...tenderly be led by th’nose
As asses are._
Ahi têem o homem inexperiente das miserias e traições da vida social,
o homem que «desde que os braços tiveram o vigor dos sete annos
concentrou na guerra todo o seu amor, e do vasto mundo pouco póde
dizer, fóra das aventuras guerreiras»; _and little of this great
world_ can I speak,
_More than pertains to feats of broil and battle._
E como Rossi interpretava isto!
Não era um cafre, decerto. Era uma alma selvagem, um homem inculto,
tostado pelo atavismo da raça, pelo ardor do clima meridional e pelo
sol dos campos da batalha, subjugado, ameigado pelo amor de uma creança
alva, loura e doce: _sweet Desdemonas_, que elle receiava quasi
tocar, com medo de que as mãos grosseiras não machucassem aquella
gentil florinha das margens do Adriatico.
Ha até quem queira que Otello seja um negro e quem, discutindo com
as variantes lexicographicas da palavra _black_ no tempo de
Shakspeare, veja n’elle apenas um africano entrigueirecido pelo clima
ardente e pelo atavismo physico da sua raça.
É um mouro. N’isto não ha contestação. D’aqui, porém, a dal-a, o que
faz o critico do _Jornal do Commercio_, como filho e representante
da esplendida civilisação arabe, _que senhoreou a Europa (?)_
isto é, como um homem culto, como uma natureza modificada, abrandada,
permittam-nos a expressão, por um viver social, civilisado e regrado,
vae distancia immensa, na historia, na lenda e na critica.
Otello mesmo faz por vezes uma especie d’autobiographia. Conta a sua
vida, tempestuosa sempre, vida de desastres e luctas, vida aventureira
e bellicosa como a que ainda hoje levam muitas tribus do norte
d’Africa. É essa vida original, desordenada, perigosa, que encanta
Desdemona e lhe faz vêr no feio mouro um como que heroe lendario e
excepcional. Otello confessa a rudeza dos seus costumes e linguagem,
e estranho á vida d’uma sociedade culta não lhe conhece o enredado
dos caminhos, não póde,--note-se isto,--disfarçar as primeiras
desconfianças de que é enganado e como diz Yago deixa-se:
_Tenderly be led by th’nose._
Mas dizia o snr. Andrade Ferreira, dissera já o _Jornal do
Commercio_, e dizem outros, que não é natural que a florescente
republica veneziana tomasse a seu serviço e désse importantissimo posto
a um homem semi-selvagem, principalmente _n’aquelles tempos!_
Quaes tempos?
_...nemo quærit nec scire laborat_, como diz a Catullo a porta que
todos accusam, sem querer saber as causas dos factos accusados.
_Aquelles tempos!_
Já ouvimos collocar a acção do _Otello_ no seculo XIII.
Ha simplesmente o inconveniente de que a parte principal da acção se
passa em Chypre, que só em 1471 Catherina Cornaro pediu para a ilha o
protectorado veneziano, que só em 1489 Chypre pertence a Veneza, que a
perde em 1571, tendo os turcos emprehendido contra ella uma expedição
em 1570 sob Mostapha que parece ser aquella a que Shakspeare se refere,
segundo alguem.
Devera, pois, querendo-se fixar historicamente a _acção_ do
_Otello_, o que nos parece com relação a esta como a outras obras
do poeta inglez, senão absurdo, insignificativo, collocal-a no seculo
XVI. Fazer, porém, d’um marido d’aquelle tempo,--ainda que não
fosse um mouro semi-selvagem,--um marido como os que Alexandre Dumas,
filho, nos pinta nos seus romances parisienses, e como Salvini fazia,
é disparate monstruoso. E depois não ha que admirar que a republica
de Veneza tomasse a seu serviço e confiasse emprezas militares d’um
homem inculto, desconhecido, aventureiro. De soldados aventureiros
andou inundada a Italia, a Europa toda até, e a quem varios estados
confiavam a propria defeza. A gente aventureira confiamos nós, confiou
o Portugal d’outras éras a defeza de suas possessões, ou ella propria
as ia defender e sustentar.
Em a novella de Giraldini Cinthio (_Hécatommithi_, etc.) que
serviu de _motivo_ á tragedia shakspeariana, o heroe d’esta é um
mouro valentissimo a quem a republica de Veneza manda com soldados
defender Chypre, confiando na sua experiencia militar, como outros
estados fizeram com audaciosos aventureiros, que deixaram nome na
historia, como não aconteceu áquelle.
Shakspeare fazendo-o seu heroe é que lhe deu maiores proporções
sociaes, mas o mouro conserva-se em toda a tragedia, na acção e pela
confissão propria, um homem rude até á brutalidade, e virgem em
cortezanias e requintes da sociedade, como um filho do deserto.
Rossi interpretava-o assim. Interpretava-o _naturalissimamente_.
Arrebatava-se, bramia, enfurecia-se? É certo. Não tinha, como não teem
as figuras do grande poeta inglez, a magestade regrada, marmorea, fria,
das concepções do _classicismo_, e Salvini interpretando Otello
como interpretava o seu papel na _Zaira_ ou no _Orestes_, é
que falseava a concepção shakspeariana, é que mostrava não conhecer
a differença enorme de generos, é que não era _natural_. Citam
as regras do mestre? Pois bem: o mestre disse: «_From the word to
the action, from the action to the word_.» Não quer isto dizer,
de certo, que quando a paixão irrompe, liberrima, feroz, selvagem, a
palavra seja cadenceada e calculada, o gesto estudadamente magestoso e
regrado, que brinque o sorriso ensaiadamente hypocrita nos labios, etc.
Aqui, o grito é _natural_, o desordenado e a violencia do gesto é
_natural_, a contracção e o fulo da face é _natural_.
«_...suit the action to the word, the word to the action_».
Esta é a regra. Esta é a _naturalidade_. Ora a acção do Otello
reduz-se a uma paixão profunda, inculta e liberrima, que desviada por
mãos traidoras do seu curso benefico, deixem-me dizer assim, ennovela
em tempestuosos vagalhões a branca Ophelia, que trazia acariciada nos
mimos d’um leal e venturoso amor, e a rouba ao mundo, para que a não
roubem a ella.
Amor e ciume.
Como Shakspeare pintou isto sabem-n’o todos. A todos assombra.
Não amarrotou em _convenções_ de escóla, em subjectivismos
metaphysicos, em regras de tradição, não moldou por _canons_
a verdade _naturalista_. A natureza foi sempre o seu unico
_canon_.
Como interpreta Salvini, interprete do _classicismo_, a concepção
shakspeariana?
«Otello--diz o critico de Barcelona de que transcrevi aqui algumas
apreciações--Otello se nos presentó pequeño, mas razonador que
apasionado, frio en los momentos en que los celos devoran su alma,
frio en las escenas amorosas, sentimental despues de haber muerto á
sua esposa y de conocer cuan injustamente lo havia hecho, y de maneras
sobrado acompassadas, con sus ribetes de vulgares», etc.
Quer dizer, Salvini interpretou o Otello como representava as
tragedias _classicas_ e os dramalhões insossos e absurdos com que
nos mimoseou.
Aqui ao menos era _exacto_, no Otello,--abstenção feita d’alguns
incidentes do _dizer_, nem _exacto_ nem _natural_. A
palavra não interpretava a acção, esta não se harmonisava com aquella.
Dizer e gesto,--com pequenas excepções--desmentiam a concepção genial.
Mutilou-se esta.
Deturpou-se a tragedia em partes essenciaes. E não digam que o defeito
era da traducção italiana, porque era a mesma de que se serviu Rossi,
e este apresentou-nos a scena em que Otello vê o fatidico lenço nas
mãos de Cassio,--scena indispensavel--e não trouxe Desdemona á bôca da
scena, para começar alli a estrangulal-a e ir acabar o feito na camara
conjugal--scena absurda.
«Y a Desdemona--continúa sensatamente o critico hespanhol,--a la
pura y encantadora creacion de Shakspeare, quien la hubiera conocido
en aquella muchacha coquetuela, casquivana, con aires de doncella
andariega y aspecto de maestra en burlas y amorios, y mas aparentada
con las Margaridas Gautiers y hembras de su estofa que con los ideales
Julietas, Ofelias y Mirandas?
«Y para mas contrahacer las figuras antójasele a Desdemona poner-se
un vestido de hoy con mangas perdidas para darle color de epoca, _y
a Otello encajarse un trajo de zuavo de la Argelia, con bordados de
oro en la espalda y bocamangas, una cimitarra, especie de sable de
caballeria por añadidura_.»
Houve quem no leito de triste enfermidade declarasse Salvini, no palco,
_unico_, naturalmente por sobrenatural revelação. Não profundemos
mysterios. Os basbaques litterarios decoraram logo o appellido, que não
me lembro se fôra já, pela mesma chancellaria, concedido a Rossi.
Para mim, este é do tamanho d’aquelle, mas é necessario que cada qual
se conserve na esphera natural do seu talento artistico.
D. FREI CAETANO BRANDÃO, drama em 5 actos, por A. Silva Gayo.--Coimbra,
1869.
Na litteratura _official_ d’hoje e da nossa terra, geralmente
litteratura de _petits dames_ e de _petits crevés_, cousa
parecida com os vinagres aromaticos, com a _pomada Miranda_,
o _bouquet de Manilha_, o _extracto de ylangyland_, e as
_essencias_ e _pós de toillete_, a critica ou o que se chama
tal, é dama casquilha, delambida e pretenciosa, que se apraz em andar
sempre enfronhada n’um sentimentalismo affectado e piegas, saracoteando
a sua toleima inaudita por entre artificiaes vergeis de logomachia
vazia e serodia verbosidade de diminutivos e de _phrases bonitas_.
O estudo incommoda-lhe os nervos e a consciencia anda-lhe aforada ao
thuribulo.
Mas que ella se acontente com o imperar na sua alcova ou nos seus
quintalejos, sobre os seus apaniguados madraços ou relaxados já.
Pois não lhe bastam as victimas que tem feito?
Não lhe bastam os bons engenhos que tem gangrenado e perdido?
Não lhe bastam as esperanças que tem machucado no thuribulo, as
intelligencias valentes que tem atoniado na vaidade?
Fique-se a recortar figurinos para dal-os como obra sua depois.
Fique-se a repintar-se de verniz e vermelhão como prostituta engelhada
que não se propõe a tentar sagazes Ricord, mas a feirar seducções e a
ganhar a vida entre basbaques libertinos.
Deixe-se de querer fazer renomes como as creanças fazem bolhas de sabão.
Deixe-se de querer subir de _cocotte_ a pythonisa inspirada.
Chocalhe á vontade os pechibeques e arregace as contrabandeadas sedas
entre os seus adoradores obsecados ou interessados, mas não invada
com as suas petulancias e leviandades o templo da sciencia para subir
a tripode sagrada a decretar-nos toleimas e ignorancias com entono
de _presieuse ridicule_ que tem folheado meia duzia de novellas
parvas, decorado piegas elegias e rapsodiado folhetins galantes.
Não venha cá estontear-nos alguma cabeça que se debruce sobre os
livros, com os deslumbramentos d’uma popularidade facil, infecunda, e
tola.
Ora eu muita pena teria que a cabeça estonteada fosse a de Silva Gayo.
Cabeça de si pouco propensa ás locubrações scientificas e pouco
litterariamente cultivada, sem originalidade na concepção, nem força
plastica bastante para uma idealisação elevada e carateristica, as suas
obras d’arte são um desfastio, uma tentativa, que a esta luz vistas,
não provocariam da boa critica, grandes severidades e exigencias se as
não guindassem a altitudes pasmosas, e as não quizessem apresentar como
modelos, quando a pouco mais do que a imitações se elevam.
Verdade é que Silva Gayo é já homem adiantado em annos e não póde
esperar as benevolencias que a _mancebos de esperanças_ é praxe
conceder, acontecendo ás vezes ficarem eternamente em esperanças os
mancebos indulgenciados.
Verdade é que Silva Gayo é um medico, um professor de medicina, isto é,
um biologo, um physiologista. _Debet esse_.
A proposito do romance d’um medico dizia ha pouco o dr. Montanier na
_Gazette des Hospitaux_:
«Não ha, em ultima analyse, questão alguma que seja absolutamente
estranha aos medicos. Porventura, pessoa alguma está mais apta do que
elles a bem julgar do desenvolvimento das paixões, seu encadeamento,
sua relação com os caracteres dos personagens postos em scena: as
questões de psychologia e de moral são da sua competencia e emfim as
questões de physiologia tão singularmente desfiguradas pelos authores
modernos pertencem-lhes em bom direito. Outras vezes o romancista
entra de _plein pied_ na medicina e accommette questões
importantes que não podem ser-lhes indifferentes.»
Broussais (_De l’irrit, et de la folie_) diz:
«Uma cousa me pesa: é que os medicos que cultivam a physiologia não
reclamem mais do que metade da sciencia das faculdades intellectuaes
e que os homens que não fizeram mais do que um estudo especial
das funcções queiram apropriar-se d’esta sciencia sob o nome de
psychologia.»
Deixem-me citar tambem uma phrase _ad hoc_ de Vulpian:
«A certo ponto de vista, a psychologia toda é do dominio da
physiologia.»
Littre denomina aquella: physiologia psychica, e outros physiologia
cerebral.
De feito a psychologia como sciencia independente do estudo da funcção
organica, e não só independente mas superior quando não contrario, póde
prestar-se á exploração de velhas ou novas metaphysicas, mas no estado
presente de _positivismo_ scientifico, mal se comprehende que seja
aceita por um medico-professor e litterato.
Ora o drama _Fr. Caetano Brandão_, de Silva Gayo, é uma obra
essencialmente psychologica.
Concepção? Finalidade?
Vão lá perguntar por isso!
Uma mulher casada que perde o marido, que o suppõe morto, que captiva
dos indios em terra de Santa Cruz e comprada por um _explorador_
(?) com este casa em hora angustiosa para elle e de quem «nunca ouviu
uma palavra que elle não dissesse a uma filha.»
Este _explorador_ é um velho de «78 annos, cego, cabellos brancos,
grande sobretudo, bengala alta, rosto com expressão de intelligencia e
de bondade,» diz a rubrica; e aquella mulher, Margarida, de «34 annos,
no vigor da belleza; cabellos arripiados, porte grave, vestida na moda
(?) mas sem exageração nem pretenções,» tem um filho, um Aleixo, um
rapazelho pedante, de «17 annos, buço, cabellos compridos, etc.» que
é filho do primeiro marido e que a um fazedor de folhetins aprouve
declarar como typo sem egual em todo o theatro contemporaneo.[56]
Um dia apparece o primeiro marido; a mulher não sabe por qual dos dois
decidir-se, e Fr. Caetano Brandão, o apostolo, o venerando arcebispo
dá tractos á imaginação para conciliar a moralidade de uma mulher
casada continuar vivendo na alcova d’outro homem.
Nada resolve, nada consegue, senão presidir ao desenvolvimento de
uma acção--francamente immoral, condemnada pelo bom senso, pela
religião que o arcebispo representa, pela lei civil, pela propria
_caridade_ em cuja affirmação philosophica, triste e rasteirinha
philosophia! o author faz consistir a _causa finalis_ como diria
Kant da sua obra.
Não disse bem. Uma coisa resolve por inspiração que parece querer-se
apresentar-se como divina. É o fazer com que o filho, o tal Aleixo,
inste com o pae para que sáia da casa onde a mãe vive com outro homem
e a deixe lá ficar ou a elle, e quando o pae se resolve a deixar ambos
e a ir-se delongada, exclama o venerando prelado «com as mãos erguidas
para o céu e cahindo de joelhos:»
«Oh! amor de pae!
«Oh! familia!
«Oh! caridade!
Juntem-se todos esses pontos de admiração e está feita a critica.
Mas retrocedamos.
As seguintes palavras do arcebispo valem por uma synthese critica do
drama:
«Que problema!
É o duello entre o _direito_ e a _caridade_. É peior, porque
Alvares (_o primeiro marido_) tambem merece _caridade_. Ai!
de um lado o direito, a força, a paixão ... do outro a _desgraça
resignada_ ... (instando) mas se me perguntassem! (Pausa pequena,
resoluto). Protegia o _infeliz_. (Com uncção) «Oh! providencia!»
Esta providencia é o arbitrio!
Fr. Caetano devia conhecer outra Providencia, a que conhecia Santo
Agostinho, quando dizia por exemplo:
_Lex est ratio divina, vel voluntas Dei ordinem naturalem conservari
juvens per._--Protejo o infeliz! diz Fr. Caetano. E quem é o infeliz?
Não é o que tem por si o direito, a força e a paixão?
O que depois de tantos trabalhos e angustias e saudades encontra a
mulher que é sua esposa, a mãe de seu filho, nos braços de outro homem,
embora esse outro homem só tenha sido para ella e no dizer d’ella um
pae, do que é permittido duvidar e rasoavelmente, e o que afinal pouco
importa investigar?
Pois então o infeliz é só a desgraça _resignada_, o velho que
tem fluido longos dias de felicidade, em quanto o outro traz a alma
requeimada por longos annos de desventura, de abandono, de isolamento e
vem ao cabo d’elles com uma saudade e com um amor immenso, encontrar a
mulher nos braços de outro homem?
Pois que dôr é egual a esta dôr, a este derradeiro espedaçar da taboa
em que o naufrago se apega no meio dos vagalhões que lhe teem ido
esphacelando a existencia?
Pois o que reclama o primeiro marido?
«A restituição do que lhe compete», «aquella porção» de felicidade
que «o direito natural e divino lhe tem adjudicado como propria e
que ninguem lhe póde negar impunemente», para nos servirmos de umas
palavras do grande arcebispo de Braga, não do Fr. Caetano hesitante,
contradictorio, absurdo até do drama, mas do Fr. Caetano Brandão
historico, verdadeiro, que muito outro é.
Que responde o arcebispo do drama?
«Entre vós e ella ... ha um velho invalido e _nobilissimo_ e uma
creança generosa e boa, vosso filho.»
E por isso que esta creança é seu filho e por isso que o homem com quem
vive sua mulher é nobilissimo e invalido, é que Alvares deve abandonar
o filho e a mulher ao invalido, ir-se triste e só, e é que se deve
conservar o homem nobilissimo na ignorancia de que concorre para uma
acção immoral e para um sacrificio sobre immoral, absurdo!
Que logica e que caridade! Nem caridade para com Alvares, nem caridade
para com o nobilissimo, etc.
Nem a caridade é isto, nem que o fosse devera um homem sensato, um
pensador, um homem de sciencia e consciencia affirmal-a assim. Aqui era
combatel-a como uma aberração dissolvente e criminosa.
A _affeicionidade_, como diria Broussais, tem seus exageros que
conduzem á etisia ou á monomania; ao crime até! E a _caridade_ do
arcebispo é criminosa perante a religião que elle representa e perante
a lei social que elle pela propria profissão é obrigado a acatar e
cumprir. Não discutamos agora o direito natural.
Que oppõe a tudo aquillo o arcebispo do drama?
Não as subtilezas metaphysicas da escolastica jansenista ou jesuita,
mas o arbitrio accommodicio, uma inspiração.... que nada affirma, nem
resolve, nem proclama, que adia, intriga e se estafa em sentimentalismo
fallaz, incongruente, piegas.
Nem doutrina propria, nem doutrina catholica.
Onde pára o grande e austero vulto de Frei Caetano Brandão?
Porque não tem o arcebispo para com o homem _nobilissimo_, seu
particular amigo, a caridade de lhe dizer a verdade, do lhe bradar:
«Velho honrado, deshonras-te, vivendo com esta mulher. Em tua casa
está um homem que tem sobre ella direitos de marido, com quem ella
conferenceia occultamente, a quem faz protestos de amor.»
Pois não diz frei Caetano que bem conhece o grande valor e nobreza do
velho?
Diz, porém, ao primeiro marido:
«Aquelle velho que viste é uma alma generosa, tem 78 annos _e no
calor dos seus affectos só lerieis uma juventude!_ Encontrou
_quando era sadio e forte uma formosa mulher_ desamparada e pobre
no mundo, _se bem que rica, á vista de Deus de bondade e d’um tenro
menino suspenso ao peito_; deu a esta mulher com tudo o que tinha o
seu nome e ao menino tão grande, tão santa amisade ... _que não vol-o
sei contar_; hoje é cego, elle que viu e tanto amou o que viu!»
E depois?
Depois ... esta mulher formosa e de 19 annos nunca foi mais para o
homem _sadio e forte_, que tudo lhe deu e que com ella casou, do
que uma filha desde os 19 aos 34 annos!
E depois?
_Arcebispo:_ «...Agora socegar e vamos para o almoço.»
(Note-se que a scena e o almoço é em casa do segundo marido.)
_Alvares_ (o primeiro marido) «...Não sou homem que me sente á
mesa d’aquelle, que não estimo e a quem o meu direito _vae causar
penas_, etc.»
E depois?
_Aleixo_ (o rapaselho) ... «Vamos para o almoço que nos espera.»
_Alvares, encantado(!)_
--«Vamos meu Aleixo; vamos para onde quizeres!»
E finalmente:
«_Arcebispo,_ passando adiante d’elles; Aleixo curvado dando-lhe
passagem: «Um pae!»
--Um canalha! é que devera dizer.
E lá se vão todos, primeiro marido, segundo marido, mulher d’ambos,
arcebispo e filho afinarem uns pelos outros os apparelhos digestivos á
mesa do cego.
Aquella constante asseveração de que a mulher formosa viveu 15
annos com um marido que a amava tanto e tanto, que fôra sadio e
forte, e _no calor dos affectos_ era moço ainda aos 78 annos,
condescendendo elle em lhe ser simplesmente pae, uma especie de ennucho
voluntario; esta asseveração de platonismo de alcova conjugal tantas
vezes repetida e _até pela propria mãe feita a um filho de 17
annos_, tem além da absurda inverosimilhança, alguma cousa de torpe
em si e nos fins a que se propõe.
É como dizer:
«Descança homem.
«Que importa que tua mulher depois de te abraçar no quintal se escoe
pela porta do quarto de outro homem, o vá beijar e abraçar e ameigar
tambem, se elle e eu te affirmamos que esse tal é um ennucho que tem
só a mania de ser pae de sua mulher e que como não se embriaga não
provocará o caso das filhas de Loth! E depois é um velho, e cego, está
com os pés para a cova ... Deixa-os lá viver tranquillos. Não sejas
impaciente como aquelle Cinésias da «_Lysistrata_» d’Aristophanes.»
Ai, espiritualistas! espiritualistas! que tanto calumnias os que o
não são e cahis n’estas _materialidades_ infames onde não vos
acompanham os materialistas que abocanhaes e não comprehendeis!
Tendes bem extravagantes subtilezas para justificar torpezas bem vis,
Larragas de sotaina ou de fraque! Vejam lá em que se cifra a honra
d’uma mulher e a dignidade de um marido!
Mas o arcebispo, o apostolo, o mestre, o que faz?
Nada ou peior que nada. A affirmação da _caridade_ cede ás vezes o
logar á da amisade parcial. Ouçam. É elle quem falla:
«Eu sou padre: devo ser ministro da verdade _e a verdade é_ que
a mulher e o filho ... podem, _devem_ ser reclamados por Luiz
Alvares. Que lucta é pois esta na minha alma? _Bem sei_.
«É filha da minha affeição a Diogo; é o _egoismo da verdade(?)_
que me obriga a protegel-o. (Pausa) «Será? (meditando.)»
E conclue destemperadamente com o «Protegia o infeliz» já citado, visto
que «_ambos_ (os maridos) são nobres e bons; _mas um com os dias
contados; outro com larga vida;_ ambos a amarem com extremo uma
creança (que é filha d’um) e uma mulher (que é mulher do mesmo), mas
um a tel-os como o sol do seu outono, o outro como a luz da primavera,
etc.»
Ai pobre arcebispo de Braga, pobre frei Caetano Brandão, venerando
bispo do Pará, que te mascararam em poetastro piegas, em falso
sacerdote, e em tonto alcoveto de bigamia!
Mas não paremos aqui.
O _Frei Caetano_ theatral dá ao segundo marido o testamento em
que o primeiro institue por herdeiro o filho, menor d’aquelle e de
Margarida. Já não era d’admirar que Alvares o acceitasse, mas emfim,
tem ainda seus escrupulos: não acceita.
O arcebispo mette o rapaselho na intriga para pôr fóra d’aquella casa o
marido legitimo que ali se deixára ficar como villão em casa do sogro
e afinal vão conseguil-o, bradando frei Caetano: Oh! amor de pae! oh!
familia! Oh! caridade! o que para ironia seria torpe e para sinceridade
é absurdo, quando entra o segundo marido que já de tudo soubera e
tentára resolver o problema pelo suicidio. Vem elle muito a proposito
cortar o nó gordio e dar um desfecho á peça que estava em perigo de
não ter nenhum. É um desfecho simples: o segundo marido não se suicida,
mas vem annunciar a todos que morre.
Diz:
«...Não vá para longe, snr. Alvares! Aceito a sua generosidade (?)
porque me sinto a morrer. Bem haja! Ouvirei na extrema hora as duas
adoradas vozes! (com um sorriso triste, para o arcebispo) Não me
suicidei ... mas não pôde o coração com tanto.
«Não me deixeis agora, arcebispo ... poucas horas esperarás! Todos ...
tão bons...!
(Encostado ao arcebispo; levantando o rosto lentamente para o céo)
Caetano! Creio em Deus!
_Tableau_. «Cáe o panno rapido.»