Este sujeito, que morre tanto a proposito, era minutos antes um
materialista ferrenho por convicção e sciencia.
A este respeito havia muito que dizer. O arcebispo discute com Diogo o
materialismo d’este. Note-se que estamos em Portugal e no seculo 18.
Diz Diogo:
«Sou a _ephemera_ aggregação de _moleculas de materia_, a
_sombra_ fugitiva d’um corpo que é a _especie_ (!) E porque
sou isto, nem tenho alma, _unidade_ que reside n’aquella.»
Ficamos sabendo que a _unidade_ é a alma, e a _alma_ é a
unidade, que sem uma não ha a outra e muitas mais coisas curiosas.
Responde o arcebispo, depois de perguntar se na hora extrema _não
terá saudades_, o que pelos modos é cousa facil de saber, e d’elle
lhe affirmar positivamente que sim:
«Mas a saudade é a reminiscencia e é affecto, etc. E _se não tens
unidade_, etc., como tens saudades? Pois a materia terá sentimento?»
Replica Diogo:
«Será um sentimento cousa mais maravilhosa que um raio de luz ou de
calor, _tão_ subtil e impalpavel? Parece-te grosseira a materia?»
Argumento esmagador do arcebispo:
--«Ah Diogo!...»
E deitam-se a discutir o movimento, a materia, a creação, a attracção,
etc.
O arcebispo é um dialecto terrivel:
--«E d’esse modo demittes Deus, como já demittiste a alma, a _unidade
individual_, etc.»--Amas ... padeces moralmente ... pensas na
dôr, etc.--... vens dizer-me que tudo é materia!»--«Grosseiras
doutrinas! etc.»--«Não tens direito de me dizer: despreza as tuas
_hypotheses_ e curva-te reverente diante das _minhas_,
etc.--«O mundo exterior não póde dar-te a idêa de infinito,
etc.--«Quero fugir d’esse materialismo, etc.»
Qualquer aprendiz de logica, entre os frades do tempo, discutia com
mais acerto. Qualquer _racionalista_ de instrucção secundaria
rir-se-hia dos dois contendedores. Além d’isto ha na discussão
anachronismos intoleraveis. Principios proclamados ha meio seculo lá
fóra andam ali fluctuando, embora falseados e mal comprehendidos, n’uma
discussão supposta nos arredores de Braga e no seculo passado.
Aqui não ha luva a erguer.
Collocada a questão do espiritualismo e do naturalismo assim, que vale
transplantal-a para a critica?
Esperava outra cousa d’um professor de medicina, que era de suppôr
que tivesse estudado as graves questões da sciencia moderna e
principalmente da moderna physiologia.
Não lhe serviu de nada a sciencia para a sua obra. Conservou-se no
campo d’uma psychologia metaphysica, facil e arbitraria, estafada e
insoluvel.
O seu drama é uma obra sem idealisação propria nem original, sem
concepção elevada e congruente; um desfastio ... Já o dissemos, que
está muito longe de nos dar um verdadeiro e consumado artista.
Esta falta de originalidade já a notara no _Mario_. Mais se
affirma aqui pela já tão apregoada aproximação entre o _Frei
Caetano_ e o _Frei Luiz de Souza_, um dos nossos maiores
monumentos litterarios. Mas quanto se distanceam na idealisação, na
grandiosidade concepcional!
Quiz-se explorar a ideia em proveito d’uma these moral talvez, mas
nem se comprehendeu aquella nas condições complexas e naturaes,
principalmente historicas, em que a tractou Garrett, nem a these
«combate entre a _justiça stricta_ e a _caridade_,» mal
formulada, teve desenvolvimento consoante e rasoavel.
Mas a distancia é tamanha que nem vale a pena demorarmo-nos na
approximação critica.
No _Frei Caetano_ ha typos bem esboçados e a linguagem, que está
longe de ser vernacula, é geralmente natural,--grande merecimento
de certo,--fluente e espontanea quasi sempre. Não ha a constante
verbosidade garrida e absurda que ahi tanto impera. Se uma ou outra
vez a _declamatoria_ ôcca apparece, é isso filho da debilidade de
criterio scientifico e esthetico. Póde dizer-se o que ha pouco dizia
d’um livro um critico francez:
«_Il y a de la declamation mais de la declamation convaincue; il y a
de l’emphase, mais de l’emphase sincère._»
Na linguagem do marujo ha a banalidade da locução nautica de que bem se
podera prescindir, longos e desnaturaes circumloquios de _giria_
maritima, etc.
Ha _situações_ menos artisticamente combinadas; na dialogação,
Gayo é quasi sempre infeliz ou imperito, aqui como no _Mario_, etc.
Se Gayo não se fascinar com os exaggerados e prematuros encomios e se
mais do coração e menos preoccupado com velhas _convenções_ e
ideias, se deitar ao estudo e souber aproveitar para a arte o muito que
a sciencia de que é professor nos seus variadissimos ramos lhe ha de
fornecer, póde breve dar-nos obra de mais subido quilate.
Talento é elle, creio, que muito mais poderá fazer.
Não se fascine com popularidades inscientes ou venaes.
Cala-se aqui o critico.
Muito mais tencionava dizer quando comecei esta apreciação. Affazeres
de outra ordem me tolhem o proseguimento. O amigo não maculou, creio,
a dignidade da critica. Em campos diametralmente oppostos, podem bem
respeitar-se critico e criticado, e tenho a consciencia de que não
desmereci agora,--pelo menos voluntariamente, o conceito de imparcial
em que me tem tido. Tambem importam-me pouco os conceitos alheios.
Digo o que penso e o que sinto.