(UMA RESPOSTA)
De certo Lisboa não tem admirado maior actor que Salvini. Admirou
simplesmente um tão grande como elle, não ha muito tempo ainda.
Salvini é do tamanho de Rossi. Que o sol que hoje nos illumina não faça
esquecer o sol que nos aqueceu hontem.
O simile suscita um contraste que resolve o confronto. O talento de
Salvini lembra o fogo das vestaes.
Bruxelea puro, interrupto, sereno, ante os altares da arte.
Altares por outras gerações levantados e onde sacrificaram gerações que
dormem de ha muito nas catacumbas da historia.
Mas as multidões d’hoje curvam-se ainda diante dos altares illuminados
pelo facho sagrado. Vale este pelo que valem aquelles.
Diga-se, porém, ainda.
Altares são, marmoreos, polidos, esculpturados de magnificas,
de portentosas figuras, mas a arte na sua evolução sociologica
abandonou-os de ha muito.
Têem a magestade olympica de Eleusis, e com ella alguma coisa da
ataraxia hieratica das creações de Phidias. Trazem todas aquellas
figuras na fronte bafejadas pelo sopro creador do genio, a lei fatal
ou convencional (convencional tantas vezes!...) da sua existencia
artistica. São como que mumias-gigantes, agitadas pela electricidade
d’um fatalismo exterior, se póde dizer-se assim. Deixadas a si proprias
valem para nós ... o que valem os fosseis. O _classicismo_ é menos
que um anachronismo, é uma aberração.
É mais que um absurdo historico, quando quer ser mais que uma
archeologia litteraria. Envolva-se embora no manto esfarrapado da
critica do _absoluto_, que só faz com isso tornar-se mais absurdo
ainda se é possivel, desmentindo-se e contradizendo-se a si proprio,
depois de ter tentado contradizer e desmentir a _natureza_.
A natureza!
A grande mestra! Quero dizer a grande mãe!
Não nos alonguemos. Diz-se: Salvini é natural. Grande encomio que
parece querer converter-se em grande arma.
Arma contra Rossi. Tem havido já quem tente com a pseudo
_naturalidade_ de Racine desmentir ou offuscar a uberrima
_naturalidade_ de Shakspeare.
_Naturalidade!_ Palavra elastica. Pelo menos palavra indefinida.
Salvini, affirma-se, não esquece que Otello é um homem. Que importa
dizer isto? A questão é saber se elle esquece que Otello é Otello. A
questão é dizer quem Otello é na concepção shaksperiana, quem Otello é
na interpretação plastica de Salvini, que Otello vimos na interpretação
de Rossi.
O folhetim do snr. Andrade Ferreira diz-nos, o que melhor fôra que não
dissesse, e deixa de dizer o que era necessario que fosse dito, para
que ao menos acreditassemos que o folhetinista sabia do que fallava.
Por mim, dou-me por convencido de que sabia. Mas no _Jornal do
Commercio_ appareceu um critico.
Permitta que quem trabalha conscienciosamente por sêl-o lhe objecte e
combata as asserções que tem por falsas.
Um illumina, o outro incendiava.
Um revela-nos a simplicidade magestosa e logica e geometrica, deixem-me
dizer assim, da velha tragedia--atravez da tragedia de _convenção_
ou da tragedia de _propaganda_ do moderno theatro classico.
Salvini é a realisação corporea d’aquellas figuras, em que a existencia
psychica se resolve n’uma formula escolastica, em que a acção moral
se resume n’uma regra de _convenção_, em que o _todo_ é
parte passiva d’um machinismo talhado em falseada tradição e em cego
sectarismo artistico.
Não é Salvini, que não é _natural_.
É o seu repertorio que mente á natureza.
Em vez de apregoar a _naturalidade_ do grande actor, melhor fôra
notar-lhe a exacção.
Salvini é _exacto_.
Veremos logo que é condicional este appellido.
O artista desapparece na fidelidade da interpretação.
Julgamos no _Orestes_ applaudir o actor e é a figura heroica
modelada por Alfieri que nos assombra. Cremos saudar Salvini na
_Zaira_ e é sobre o tumulo de Voltaire que vão cahir as corôas.
Notamos uma cousa. Muitas vezes applaudia-se uma phrase, não pelo
_dizer_, que era demorado ou acentuado de mais para ser natural,
mas pelo pensamento que nos era sympathico.
Rebentavam menos enthusiasticas as palmas a um gesto, filho da propria
critica ou comprehensão do auctor, do que a um episodio da acção que se
casava com o sentir e pensar das platéas. Mas não nego, ninguem poderá
negar que além de _exacto_, Salvini é _natural_ por vezes,
exacto na interpretação da obra e exacto na interpretação da natureza
humana em dados momentos. Estudou esta tambem e embora a pantomima
e a voz d’elle não tenham grande variedade nem grande abundancia de
recursos, de _nuances_, de cambiantes, apezar de certa reproducção
monotona de _gesto_, e da pobreza de modulações da voz, o seu
_dizer_ é geralmente verdadeiro, a _pose_ e _la peche du
sentiment_ quasi nunca se denunciam.
Educado, porém, no _classicismo_ e dedicado á interpretação das
creações d’elle, Salvini é demasiado frio, regrado, formulista,
para poder interpretar _exacta_ ou naturalmente o repertorio
shakspeariano. Melhor fôra que enriquecesse o seu com as obras primas
do theatro classico e banisse d’elle uns dramalhões insossos e
disparatados, indignos do seu grande talento e perigosos para quem se
apresenta ante as mais illustradas platéas.
Mas a verdade é esta. As figuras de Shakspeare não são estatuas
contornadas, modeladas n’uma esthetica tradicional.
Não é facil submetter aquelles colossos agitados por um turbilhão
de paixões, que é onde se lhe gera o desenvolvimento artistico, a
regras e fórmulas determinadas, fixar todos os contornos, palpar
todas as arestas, determinar todas as exterioridades. E que fosse? Os
personagens de Shakspeare vivem uma vida toda psychica ...
Demais--são quasi abstracções. Despidas das concreções indispensaveis
para a vida scenica, fica-nos uma idéa, ou um sentimento ou um modo de
ser sensorial como no Hamlet, ou um modo de ser do sentimento como no
_Otello_.
O _Otello_! eis o pomo da discordia entre os admiradores de
Salvini e os de Rossi.
Quem é _Otello_?
É um cavallo selvagem (_barbary horse_) como lhe chama Yago, um
exotico vagabundo (_an extravagant and wheeling stranges_) como
o appellida Rodrigo, um ladrão (_foul thief_) um feiticeiro (_
...an abuser of the world, a practiser of arts inhibited_) um homem
horrendo (_to fear, not to delight_) como diz Brabantio, um mouro
de raça real, (_royal siége_) um filho do deserto, costumado a
liberrima vida (_my_ unhoused _free_ condition) como elle
proprio diz, uma natureza franca (_a free and open nature_) nobre,
generosa, inculta, como a cada passo se revela?
É tudo aquillo e isto principalmente. É um Quasimodo e um Cherubin.