Em boa hora reapparece Victorien Sardou no palco portuguez e não podéra
em melhor companhia apparecer, de braço dado como vem com Latino Coelho
e Santos.
Quando qualquer ran entufada de pedante vaidade julga assumir as
proporções do touro de descampado e em vez de agradecer a honra
da critica e a complascencia dos amigos, braveja estonteada e
grasna insolencias contra quem a viu hontem agachada e encolhida a
louvaminhar, hypocrita; quando a rapsodia piegas anda guindada na
apotheose até ás altitudes luminosas da verdadeira arte, bom é que um
raio d’esta esplenda tambem, a contrastar com os fogachos e foguinhos
de artificio; que um pedaço de bom mineral venha annullar a ganga de
contrabando que anda feirada como ouro de lei.
Em boa hora subiu á scena portugueza, e á portugueza trajada por habil
artista a comedia-drama _Les Vieux garçons_, (os solteirões),
uma das mais brilhantes manifestações de um talento possante, fecundo
e original como poucos tem hoje o theatro francez, e que pena é
se desvaire tão amiudadas vezes na exploração systemathica dos
_effeitos_, quando outras tanto sabe aproximar-se de Holberge ou
Molière.
Nas obras de Sardou o desenho das _figuras_ precede o plano da
_composição_, os _typos_ são anteriores á _acção_, o
colleccionamento de retratos e caricaturas,--e retratos á Flandrin,
e caricaturas dignas de Gavarni, antecede a idéa e a disposição do
_quadro_.
O _quadro_ vale por uma exposição.
Sardou vae desenhando a esmo os typos que encontra na rua e nas salas
e na historia,--Sardou explora a historia tambem: a _Patrie_ é um
exemplo,--e vae lançando os _croquis_ na carteira.
Um dia dizem: «Oh, Sardou, quando dás tu um drama.» Ou então, lembra-se
elle de fazer um quadro. Pega em meia duzia dos bellos desenhos,
funde-os ao calor da imaginação possante,--se póde dizer-se assim,--e o
quadro faz-se.
D’esta vez aconteceu que os desenhos eram os de tres homens, tres
mulheres e tres amphibios de casaca, ou antes, tres typos meio homens
e meio mulheres, especie de sereias, masculinas na alcova, e femininas
na sala, animalejos exoticos que em nome da _honra_ espetam um
marido n’um florete, e em nome da galanteria prostituem uma mãe junto
do berço do filho, tudo isto gente de um mundo exotico tambem que se
chama o _grande mundo_, mundo excepcional e fidalgo no systema
planetario da tolice humana.
Nove typos: Tres maridos que se aborrecem ou aborrecem, tres esposas
que se enfastiam ou enfastiam, e tres devassos que exploram o fastio
das esposas e o aborrecimento dos maridos: _a vida do grande
mundo!_ Faltava um typo que não enfastiasse, que não se aborrecesse,
que não explorasse.
Sardou arranjou dous. Desenhou Antonia (Virginia), uma menina talvez
do seu conhecimento, sahida ha pouco do convento, sem ter lá deixado
a frescura da intelligencia, sem ter de lá trazido a immoralidade do
coração, ingenua _à outrance_ que anda pura e illeza n’aquelle
turbilhão de lama e de sedas, typo que póde ser absurdo como póde ser
simplesmente excepcional. O outro é um rapaz De Nantya (D. d’Almeida),
que a mãe n’uma expiação terrivel e solitaria, livrou do contagio da
devassidão, creança proba que não teve tempo ainda de se enfastiar por
que não gosou, e de aborrecer porque não se embruteceu, no fastigio
d’aquella aristocracia relaxada, cujas proezas consistem na conquista
d’um thalamo impoluto, na morte d’um marido honestamente caturra, e no
abandono d’uma mulher a quem a honestidade pezava de mais e a cabeça
de menos. Em geral costumam ellas justificarem-se com o pezo da sua
fraqueza, como se tendo tido a coragem de ser infames, não podessem ter
a coragem de ser honestas.
Com isto fez-se _Les vieux garçons_.
Os _Solteirões_ são tres typos admiraveis.
Principalmente Mortemer (Santos) é um relevo esplendidamente
_acabado_. Tartufo, atrevido, galanteador, sagaz, chacal umas
vezes, toupeira outras, leão altivo tantas, é em volta d’elle que se
desenvolve a acção. Homem costumado a não topar nas suas conquistas,
com outros obstaculos que não sejam os que se arredam com o florete,
com a galanteria persistente, com a amabilidade traidora, com a
fascinação da paixão habilmente simulada, com o ouro emfim, encontra-se
um dia em sua propria casa, por uma traição planeada e realisada por
elle, sentado no mesmo sophá, com uma creança, uma donzella leviana,
porque é inexperiente, franca porque é ignorante, amoravel porque é
boa, mulher nova, formosa, elegante, que elle julgava ser facil presa,
cuja conquista antegosava já, e que o fascina por essa mesma leviandade
da inexperiencia, que o subjuga por essa mesma franqueza, que o
assombra por essa mesma ignorancia, que o commove, que o desarma, que o
desnorteia, mulher que elle faz sahir do seu quarto sem a estreitar nos
braços, sem lhe afoguear as faces com os labios incendidos na ardencia
dos desejos.
_De Veaucourtois_, (A. Pedro) outro solteirão libertino, cambado,
zarolho, enrugado por uma senilidade devassa, ophthalmiada pelas
terriveis enfermidades da crapula que lhe andam já comendo os lobulos
cerebraes, demais amesquinhados de nascença, idiota e abjecto, é um
typo magnifico tambem, porventura _picotado_ de mais para nos
servirmos do termo de pintura, typo esmiuçado com pertinacia rancorosa
até ao exagero do ridiculo e da abjecção.
O terceiro dos _vieux garçons_ é apenas o esboço d’um immoralão
parvo, mas esboço em que ha linhas traçadas com mão firme de mestre.
Apresentando-nos, porém, os tres celibatarios libertinos, Sardou
não quiz contrastar-lhe o precario, as miserias, a futilidade ou a
immoralidade da vida, com a vida de tres maridos burguezmente pacatos,
amigos de suas mulheres e de seus filhos, gente temente a Deus,
respeitadora da honra do proximo e dos principios de moral domestica,
herdados com as courellas dos paes e decorados com os padres-nossos das
mães.
Tambem não se propôz a formular a these psychico-social do lar
domestico, nem sentiu estremecer-lhe o cerebro na laboração
philosophica do _ideal_ da familia.
Não poz ao lado do celibato estouvado, e _conquistador_ hoje,
frio, solitario e doloroso ámanhã, o lar domestico acalentado pelo
amor da esposa, confortado pela mutua transfusão de duas existencias
que se completam e comprehendem; ao lado da _Illiada_ dos
solteirões devassos ou frivolos ou inuteis ou prejudiciaes não abriu
a odyssea tranquilla e esplendida:--idyllio e epopêa a um tempo, da
_familia_.
A familia!
Pois ha cousa mais monotona e villã para aquella sociedade embonecada
e espartilhada e perfumada dos salões, onde o marido é apenas o
editor d’uma gazeta de frivolidades e galanteios, de que é principal
proprietario a _moda_, e onde geralmente o _adulterio_ é
folhetinista de semana?
Não. São tres fidalgos maridos os que Sardou contrapõe aos tres
solteirões fidalgos. Um ao cabo da lua de mel não encontra na esposa
os _chic_ das rameiras galantes das suas orgias passadas.
Aborrece-se. Os outros amam _rasoavelmente_ as mulheres, presam
caturramente a sua honra, temem os solteirões, espiam como belleguins
a dita _honra_ e as ditas mulheres, mas como gente elegante
e do _grande mundo_ parecem esperar que a honra se vá e as
mulheres se percam para desaffrontar com o florete ... a sua inaudita
e aristocratica toleima. Acontece ás vezes que só desaffrontam os
seductores da presença de suas impertinentes pessoas, deixando-se
atravessar pela arma dos que lhe deshonraram as esposas. E salva-se
a _honra_, ficando o marido estendido no campo, e a mulher
prostituida, livre para se prostituir de novo sobre o tumulo d’elle!
Não nos alonguemos, porém.
Como em quasi todas as peças de Sardou, os typos valem mais que a
_acção_. Esta é apenas um pretexto para a exhibição d’aquelles. É
um defeito? Não. É um systema.
A acção principal cifra-se em pouco. De Nantya ama Antonia e está
proximo a casar com ella. É filho adulterino d’uma dama fidalga que
atraiçoou o marido: cousa vulgar. Pae não conhece.
Mortimer, o padre-mestre solteirão, projecta _conquistar_ Antonia,
e dá-se então a scena magnifica de que fallamos já.
O pobre noivo sabe que a sua futura mulher estivera em casa de
Mortimer, desafia este, que por uma serie de circumstancias, habil e
naturalmente combinadas, descobre que De Nantya é seu filho. Não o
diz, mas declara não se bater. É insultado rijamente pelo adversario,
vem a final a declarar-lhe que é seu pae, explica-se tudo, todas estas
ventanias encontradas acirraram uns atomosinhos de dignidade e de
sentimento são que haviam ainda no caracter do solteirão conquistador,
solteirão _artista_ a final de contas, que vê raiar na sua velhice
o sol que o acalenta e illumina: a _familia_, quando outros só
terão o coveiro indifferente que lhe atire em nome da salubridade
publica, a terra do cemiterio sobre as carnes apodrecidas.
Em tudo isto ha certa verdade chan.
Não se sacrifica á preoccupação d’uma _finalidade_ individualista
e systematica, nem á affirmação da _moralidade_ serodia, estafada
e falsa do premio da virtude e do castigo do vicio.
O typo porventura inverosimil da peça é o de Antonia, a ingenua _à
outrance_.
Anda-lhe exagerada, até ao absurdo quasi, a ingenuidade juvenil.
As tres esposas são esboços apenas.
O mais acentuado é o da mulher devota e leviana, que alia as rezas do
_divino_ com a leitura de eroticos romances e a correspondencia
adultera.
É tempo de fallar da traducção e da intrepretação theatral da obra de
Sardou.
Com relação á primeira só diremos que está _geralmente_ e
soffrivelmente correcta e fluente.
De ha muito que do theatro francez anda banida a verbosidade soprada
e pretenciosamente florida, que por cá se arreia com os fóros de
_poesia bonita_.
Sobre isto de _poesia bonita_, coisa parecida a futil
_cocotte_ que por ahi feira seducções entre platéas basbaques,
havia muito que dizer.
O traductor soube conservar uma linguagem natural e espontanea, sem
entroviscamentos de pretenciosa _sensiblerie_, nem descambamento
da elegancia caracteristica no estylo do auctor.
A _execução_ theatral é esplendida, magistral até, por parte de
Santos e de Antonio Pedro. De ha muito que Santos não nos apparecia em
scena. Appareceu-nos agora a concorrer ao logar de primeiro actor da
scena portugueza. Nunca o vimos interpretar melhor, com mais finura e
com mais naturalidade tão difficil papel como o de Mortemer. Magnifico
no primeiro acto, salvo alguns exageros de apresentação, foi admiravel
tambem no dialogo com Antonia (Virginia) no terceiro. E era difficil
a situação creada por Sardou. Um rosto ora assombrado, ora duvidoso,
ora commovido por ignotas sensações, a palavra enleada, o pensamento
oscillante, tudo isto comprehendeu e soube esplendidamente interpretar
José Carlos dos Santos.
Receiavamos,--francamente o dissemos,--que Antonio Pedro, typo comico,
descahisse no comico chulo. Não aconteceu assim. O papel difficilimo
que lhe estava a cargo, foi sustentado de principio ao fim com
admiravel mestria e serenidade de interpretação.
Virginia foi bem. Foi até muito bem. O exclusivismo forçado d’indole
de certas collocações technicas theatraes traz comsigo fatalmente a
inverosimilhança e o desnatural.
Não se é _ingenua_ como não se é _galan_ toda a vida nem
em todos os momentos. Fixar a phrase, ou sujeitar a existencia ao
predominio absoluto d’uma qualidade ou d’um facto de momento, tem
graves inconvenientes.
Fica isto para tratar mais tarde. Virginia desempenha com estudo e
consciencia o seu papel d’Antonia, a _ingenua_.
Os outros actores interpretam todos os seus papeis na mesma altura.
Geralmente mal. Domingos d’Almeida é exageradamente emphatico Sullivan
exageradamente gritador. Gil é porventura quem melhor vae. Nunca
ouvimos applausos mais bem merecidos que os que a platéa dispensou a
Santos, a Antonio Pedro e a Virginia.