«To be or not to be....
que manifestamente traduz uma meditação, uma lucta intima, uma
concentração,--se querem do pensamento,--um interrogatorio que a
consciencia faz a si propria, interpreta-o Rossi por uma expansão, pela
explosão quasi d’uma paixão sanguinaria, e dá á palavra uma emphase
falsissima.
Não discuto a gesticulação violenta, affectada e oratoria de mais.
Podia notar simplesmente que se n’aquelle momento as vibrações
cerebraes se resolvem n’um facto puramente intellectual: a meditação,
por exemplo,--os musculos não interveem, e o bracejar de Rossi é
desnatural.
Ha no proprio drama ou tragedia certas regras de declamação que Rossi
não devêra desprezar e que são a condemnação d’elle muitas vezes. Basta
lembrar as que Hamlet dá ao primeiro comediante na scena 2.^a do 3.^o
acto.
O dialogo com Ophelia é magnificamente interpretado, posto tenha
tambem o colorido demasiado tragico que o traductor inconsciente ou
inconsciencioso derramou pela obra toda.
Póde dizer-se o mesmo da scena da representação, que vae magistralmente
por parte de Rossi, até ao final em que elle se desmanda completamente
e falsêa o papel para se lançar n’uma expansão furiosa e do
_effeito_.
Quando Hamlet, encontrando o rei a sós e orando, vae para o matar
e por um raciocinio puramente medival, _theologico_, o não
mata, Rossi patentea não comprehender a concepção shakspeariana, ou
preferir sacrificar a verdade d’elle e a verosimilhança da acção ao
_effeito_. Hamlet apaixonado, sonhando vingança, furioso como o
vimos no final da scena da _representação_, teria feito aquelle
longo raciocinio e deixado passar a occasião tão propicia?
Longo vae este escripto, e muito me fica ainda por dizer.
Disse-o já.
Rossi é um grande actor. O _Hamlet_, porém, que elle nos dá, não
é, no meu entender, o _Hamlet_ de Shakspeare.
Dos outros actores, que entram na representação da famosa tragedia,
não vale a pena fallar. Vão todos detestavelmente. Denuncia-se a
tradição de Schrœder, o grande actor shaksperiano: todos os personagens
desapparecem ante o vulto de Hamlet.
Casalini é uma excepção; mas excepção menos brilhante e completa do que
se podia esperar. Esta gentil creação, Ophelia, não foi talvez ainda
bem comprehendida apezar da critica de Tieck.
J. D. Ramalho Ortigão--EM PARIS--Porto, typographia Lusitana--1869--1
vol. 8.^o
«_Proponho-me_ singelamente _conversar_ com a despresumpção
plena de quem não tem compromissos nenhuns para ser embiocado e sórna,
_um_ sugeito que nunca foi empregado publico, nem pretendeu ser
deputado, um periodista de profissão, máu litterato, mas mais litterato
do que outra cousa, contente do seu officio, alegre da sua vida,
orgulhoso da sua independencia, desgraçado ás vezes por bem pouco,
feliz quasi sempre com muito pouco tambem,--com um bom sol descoberto,
um céo azul, umas arvores verdes, a saude no corpo, a paz na alma, e a
liberdade no coração.»
Este periodo vale um programma, caracterisa o livro, suppre uma
profissão de fé. É o
_Lasciate ogni speranza voi ch’entrate_
aconselhado á critica, para que dispa cá fóra a sciencia, a austeridade
da observação e do estudo, coisas que de pouco lhe serviriam de portas
a dentro d’onde impera soberanamente a _non chalance_.
_Em Paris_ é menos um livro d’impressões de viagem, de alegres
devaneios e superficiaes observações. É menos isso talvez ainda do que
uma palestra de botequim, em nove _capitulos_, em nove noutes
rapidamente passadas em folgazan companhia e deleitoso ambiente,
uma palestra enthusiastica, juvenil, _ligeira_, turgida de
engraçados commentarios, de imaginosas divagações, de pasmos e
conceitos, de interjeições e interrogações que se reduzem quasi sempre
a fascinamentos de estudantinho provinciano, a expansões de fresca
intelligencia, de coração sadio e generoso, a baforadas de pedantismo
_janota_, e que redemoinham enroscadas nos vapores do champagne,
até se perderem nos ares sem deixarem vestigios--máus ou bons--na
intelligencia, ou se afogam desastrosamente algumas vezes n’uma
_mayonese_ de _confecção_.
Abre formosamente o livro. Abstenção feita d’uns cacophatons triviaes
e d’umas incorrecções que mais para o diante incommodam devéras ás
vezes, Ramalho Ortigão, que não creio que ande procurando um diploma
de _classico_ na feira das patrias lettras, mas que póde e deve
trazer a ella melhor acabados productos, apresenta-se no _Prologo
em viagem_ escriptor elegante e conceituoso, intelligencia fina,
odorada pelos mais delicados perfumes da fada gentil e risonha, chamada
mocidade, sentimentos bons, illuminados pelo sol abençoado que nos
acalenta no berço, nos alimenta na adolescencia, nos alenta e aquece
ainda nas invernias da edade e que se chama «a familia.»
Quem ha que não sentisse um dia como que escacear-lhe o ar no seu
ambiente habitual, ou estremecer-lhe o cerebro ante o vago dos
horisontes do seu mundosinho?
Quem ha que não ficasse uma tarde com os punhos fincados na face, a
contemplar o sol desapparecendo nos visos do patrio céo, e não sentisse
espicaçar lá dentro como que um espinho acerbo que pareceria saudade
se não fosse faltar-lhe o delicioso pungir de que falla o poeta, e
sobejar-lhe tantas vezes o amargor d’uma ironia esmagadora?
Quem ha que não tenha sentido um dia a necessidade de viajar, _de
mudar de logar_, na phrase pittoresca de Descuret, de _vêr
mundo_, como diz o povo? Quantos doidos, isto é, quantos martyres,
quantos Chorons e Mentelli não conta a historia d’esta nostalgia _ás
avessas_? Imaginem Choron mettido n’uma _camisa de força_ ou
amordaçado, no meio d’um concerto enorme: não seria isto um supplicio
de Tantalo? Supponham o outro, o pobre monomaniaco hungaro, prohibido
ou impedido de comprar um livro ou de folhear uma monographia: não
realisaria o mytho de Promotheu?
E quantos Promotheus, conheço eu, cidadãos eleitores e elegiveis,
excellentes rapazes que frequentam por desfastio os bailes de
mascaras, sorriem e polcam nas salas, escrevinham folhetins e
recebem quotidianamente na imprensa meia duzia de elogios e porção
egual de injurias, e que teem a esphacelar-lhes o seio as garras
aduncas do abutre, e que sentem pular-lhe para o espaço, para o
_desconhecido_, para os horisontes que lhes recebem os olhares
saudosos, a intelligencia, quando o pobre corpo, quando a vida lhe anda
algemada a um poste, á roda do qual tem fatalmente que gastar-se, sem
que outros ares a bafejem, sem que outros panoramas se lhe desenrolem
de redor!
«Vem um bello dia em que esta visão,» diz Ramalho--«esta miragem, este
sonho, esta febre, esta doença, póde mais do que nós.»
«A vida habitual pésa em nosso espirito como o trambolho no pé d’uma
gallinha, dilatam-se-nos os pulmões, _tresdobra-nos_ a vida,
falta-nos o ar em nossas casas, falta-nos a agua em nossas fontes,
falta-nos o espaço em nossas ruas. A cidade de então é pequena, e o
passeio _é pouco_. Quer-se a viagem, a liberdade, a largueza da
terra, a vastidão do mar e a amplidão do céo,--o mundo!»
«Não ha outro remedio n’estes casos se não fazer o que eu fiz: arranjar
a mala e partir.»
Excellente remedio na verdade, mas infelizmente Ramalho podia bem
dizer da receita o que mad. du Châtelet dizia do seu livro sobre a
_felicidade_: (Reflex. sur le bonheur) que não era para toda a
gente.
«...tous les états ne sont pas susceptibles de la même espèce de
bonheur...»
Deixemos, porém, estas _variações_ melancolicas sobre um
_motivo_ trivial em todos os livros de viagem.
Ramalho arranjou a mala e partiu. Entregou a mala e a pessoa ás ondas,
e as solidões oceanicas, aquella quasi insulação do homem no «_seio
puro da natureza_, em que fica comsigo só e _com Deus_»,
subtileza de imaginação romanesca, que em livro menos _ligeiro_
merecia de certo a correcção do critico; aquella immensidade que
assombra, aquelles panoramas fantasticos que o sopro da ventania faz
e desfaz em horisontes movediços, aquellas harmonias das vagas, tudo
isso e tudo o mais que não se encontra em terra, tem para certas
organisações, para certos modos de ser do pensamento e da esthesia
extraordinarios encantos, encantadoras impressões.
O mar!
«Elle, que conhece o segredo»--diz Ramalho Ortigão--«de transformar
em perola uma gôta d’agua, sabe do mesmo modo chrystalisar a dôr
convertendo-a na melancolia.»
Eu não creio que o elegante escriptor adoptasse o systema de certo
folhetinista de quem diz Champefleury «qui depuis trente ans accomplit
regulièrement le métier des Danaides en remplissant son feuilleton de
phrases vides,» e cuja habitual occupação era inventar «bellas phrases.»
Parece-o, porém, ás vezes, e sem querer fallar de muitas phrases e
periodos inteiros em que se denuncia o predominio da mentira da palavra
litteraria, como diz Saint-Beuve, (_Port Royal_, 11.^o vol.)
aponto apenas o que acabo de transcrever.
Pois a perola é resultado d’uma transformação mysteriosa da gota d’agua
salgada?
Shakspeare disse tambem que as vagas transformavam os raios da lua em
lagrimas de sal
«The sea’s thief, whose liquid surge resolves
The moon into salt tears ...
Magnifica phrase! «Ah! la belle phrase!» como diria o folhetinista de
Champfleury. Infelizmente, porém, o progresso da sciencia supprimiu
estas phrases bellas e a litteratura não é a negação da sciencia.
A _dôr chrystalisando-se_, e dando _assim a melancolia_,
é coisa que na falta de explicação melhor póde encontrar a que
nos dá Gozzi: (Cit. por Champf.) «O empolamento das idéas e dos
sentimentos passa para a expressão, aguentado pela _ignorancia dos
escriptores_.»
Ora as phrases em questão se não são _occas_ não são tambem
_cheias_ de verdade scientifica nem de verdade litteraria. Em vez
d’aquella temos o disparate, em vez d’esta a impropriedade e o absurdo
da _figura_. E se n’isto insisto, é porque os dois graves defeitos
se reproduzem muito para o diante. De divagação em divagação pouco
tenho dito do livro. Na minha opinião o «prologo» e o «epilogo» são as
melhores partes d’elle. O caminho entre estes dois marcos vae ladeado
de anecdotas mais ou menos galantes, de observações de _dandy_,
enramalhetadas por boa intelligencia, que não descura completamente o
estudo, com narrações de visitas feitas pelo author, e de palestras
ouvidas ou sabidas por elle, com advertencias sobre varios processos e
acepipes culinarios mais em voga ou mais do _tom_, com indicações
de _Guia de Viajante_ ácerca dos melhores _restaurants_, dos
melhores _gargots_, etc. etc.
As mulheres e os jantares occupam o principal logar do livro.
A respeito das primeiras faz o auctor a seguinte curiosa declaração:
«Segundo a ultima estatistica da população, apresentada ao imperador
pelo snr. Baroche, ha em França 19.014:109 homens e 19.053:965
mulheres, isto é, 38 mil mulheres _a maior_.
«Estas 38:000 mulheres, em um paiz onde não se auctorisa a polygamia,
estão _naturalmente_ impossibilitadas de ser esposas e mães.»
«Com quanto estas mulheres _banidas_ da familia _sejam as
primeiras que os estrangeiros encontram_ ao chegar a Pariz, cumpre
observar que se não tratou d’ellas no decurso d’estas notas.» Isto é
absurdo. Nem todas essas mulheres _a maior_ merecem a insinuação,
nem ella póde poupar as _cocottes_ e congeneres que tantas paginas
merecem do escriptor, e em innumeros casos tambem são dignas de figurar
junto das _mulheres_ que os estrangeiros primeiro encontram ao
chegar a Pariz.
O desprêso pela desmoralisação feminina, se conhecesse proporção,
devêra andar na razão directa da jerarchia social, se jerarchias
podessem haver _n’isto_.
A prostituta esfarrapada vale tanto como a que a enlamea com as rodas
do seu _oito molas_, ou como a que se pendura ao braço d’um homem
que em nomenclatura legal se denomina seu _marido_. E não ha no
que deixo dito baforada d’uma certa moral caturra e hypocrita a quem
somos devedores de grossa somma d’immoralidades sociaes e individuaes.
Para mira um vicio é uma enfermidade. Tem como tal uma etiologia, tem
ou póde deixar de ter uma cura. É um facto pathologico como qualquer
outro, e a anathomia pathologica n’este caso abrange não só o individuo
mas o _meio_ domestico, o _meio_ social; como a physiologia:
as _funcções_, as condições de desenvolvimento e de acção de
todos esses elementos. _Em Paris_ é verdadeiramente uma palestra
descuidada, ligeira, _fina_, insinuante e agradavel. As chistosas
anecdotas e as observações e divagações superficiaes succedem-se,
enlaçam-se, amontoam-se e atropelam-se.
O galanteio abunda e o _sal attico_ não escasseia de certo. A
linguagem tem por vezes grandes entroviscamentos, e ao estylo não
faltam arrebiques de casquilho. N’isto me refiro principalmente á
pasmosa superabundancia de palavras francezas que bem se podiam,--o que
outras vezes não acontece,--escusar.
Escripto sem pretenção a ensinamentos nem a investigações, como o
auctor declara, não póde a critica exigir-lhe muito. Diz-nos que em
Paris ha a mulher _chien_, a _chicard_, a _chic_, e
a _charme_, progressão ascendente, e o _diner en ville_,
_diner en campagnie_, e o _diner en partie fine_, e o
_diner en tête-à-tête_, e o _diner en famille_, cuja
progressão ninguem fixou, mas de cuja existencia todos sabemos, e o
_petit abruti_, _petit efflanque, petit défoncé_, _poulet
de Pâques_, o _petit crevé_ em summa, animalejo que só tem de
cerebro a parte propriamente vegetativa e que melhor fôra para honra da
animalidade que nem n’essa se assemelhasse a ella.
Falla-nos nos _soupeurs_, bemaventurada confraria donde teem
sahido grandes intelligencias e grandes idéas; de varios escriptores
e escriptoras; de muitas obras litterarias e de muitos pratos de
culinaria parisiense, e descamba uma vez em eloquente verrina a Ponson
du Terrail e companhia, ultima consequencia do romantismo tresloucado,
e que está para o _romance_, como Napoleão para a _politica_,
e Offenbach para a musica moderna; synthetisações mais ou menos
perfeitas d’uma épocha de transição e d’uma sociedade profundamente
impotente, cahotica, indecisa, ecletica, corrupta.
«Se isto é, como alguns dizem,--diz Ramalho Ortigão,--o occaso da
intelligencia, concordemos em que é um brilhante um crepusculo cheio
de harmonias consoladoras e de luminosas esperanças para uma radiante
aurora.»
Que Ramalho Ortigão, que tenho por valente intelligencia, e generoso
coração, se enfileire tambem nos que andam derrocando as brumas que
impedem ainda o apparecimento d’essa aurora é o que desejo devéras,
posto que não possa esperar das garantias e vantagens do trabalho,
rasoavel incentivo para acudir ao chamamento quem mais póde ganhar
escrevendo livros como o _Em Pariz_.