Não serei eu quem tenha a vaidade de dizer: O «Hamlet» é isto.
É homem dos tempos modernos na genese da sua civilisação; Hamlet,
isolado do machinismo dramatico do seculo VI, é um homem do nosso
tempo, homem da _transição_, homem d’uma sociedade genesica, se
póde dizer-se assim; Hamlet resolve-se em D. Juan ou no Faust.
Não poderia com verdade dizer-se isto?
E diga-se de passagem uma cousa.
Marlowe é contemporaneo de Shakspeare, e Marlowe escreveu a historia
do doutor Faust--_The Tropical story of the life and death of
the doctor Johns Faustus_--pouco antes do poeta de Strasford
_conceber_ o seu Hamlet. Hamlet e Faust apparecem-nos nos
horisontes do tempo moderno!
Não é curioso?
O Hamlet de Saxo-Grammaticus, passando para o romance francez de
Belleforest, alterou-se de certo.
Novo meio historico e natural, nova feição litteraria, nova
personalidade genial, tudo isso presuppõe ou impõe modificação
consciente ou inconsciente, mas fatal, da concepção ou do facto
primitivo.
A meia-edade, por exemplo, assimilhou Aristoteles, e fez de Virgilio um
precursor do Christo.
Os gregos e troyanos, cantados por Lydgate (_Troy book_), são
personagens do seculo XIII, posto que o monge de Bury julgue e confesse
escrever «a unica historia verdadeira e sincera das guerras entre os
troyanos e os gregos.»[50]
Racine esforçou-se em vão por demonstrar a fidelidade historica das
suas concepções classicas.
O meio natural e historico imprimem fatalmente o seu cunho na
subjectividade genial, e como diz um critico[51] «toda a gente
reconhece hoje que os heroes de Racine estão mais proximos do seculo
XVII do que da antiguidade, são mais francezes do que gregos, turcos,
ou troyanos.»
Que differença entre a Ephigenia d’elle e a pobre donzella que nos
retratou Euripedes!
Pois assim o Hamlet do Saxo-Grammaticus, romantisado pelo
_historiographo_ Belleforest,[52] passando das mãos d’este para as
de Shakspeare e para os palcos ou _estrados_ do Globe ou do Read
Bull Theatre, recebeu necessariamente do novo apresentante, do novo
meio e das condições peculiares da nova feição litteraria, um cunho
caracteristico, uma _personalisação nova_.
Choron,[53] o pobre melomaniaco, dizia:
«Imaginem um oceano immenso, cujas vagas rolam pausadas e magestosas: é
a musica antiga. Do outro lado, outro mar ergue enfurecido as ondas até
ao céo e d’ali precipitam-se ellas repentinamente no abysmo. É a musica
moderna. Pois bem; Palestrina é o ponto de juncção dos dois oceanos...»
De Shakspeare podia dizer-se cousa parecida.
D’um lado, a meia edade com a sua fé, o seu ascetismo, o seu ideal
mystico, com as suas visões celestes, ou infernaes, com os seus pavores
e aspirações, satanisando a _carne_; constantemente perseguida
pelo _inimigo_: _ubiquaæ demon_ com quem contracta no
_pacto_, a quem se humilha no _Sabbath_; a meia edade com
a sua alchimia intellectual, chamada _escholastica_, em que a
subjectividade mystificada se estorce n’um circulo vicioso, partindo de
Deus para chegar a Deus: _ab Jove principum_; a meia edade com os
seus amores subtilisados até ao _extasis_, syllogisados, permittam
a expressão, «_até ao amor que move o sol e os outros astros_»,
(Dante); a meia edade emfim com o seu espirito cavalheiroso, as suas
vagas tristezas, as suas immensas miserias, os seus crimes inauditos,
as suas ambições e as suas tradições.
Vêde agora do outro lado o outro mar: immenso, furioso, imponente,
esmagando nas roscas das suas vagas a velha crença, revolvendo os
mundos reconditos do seu seio, cahindo extenuado aqui sob o bulcão
que lhe opprime a juba, erguendo-se além ou logo para fazer recuar as
brumas dos seus horisontes, procurando supprimir o _vago_, abraçar
o infinito.
É o mundo moderno com toda a exuberancia da sua vida, com todo
o antagonismo dos seus _estimulos_, com toda a desordem do
seu pensar e sentir, com toda a mobilidade ou incerteza das suas
concepções, observando, averiguando, luctando, _duvidando_...
Não procureis um ponto de juncção que não o encontraes de certo.
Encontram-se dous mares ... podeis estremar as aguas? Olhaes
para além e vêdes Dante; estaes na meia edade. Avançaes dous
seculos quasi,--e que são dous seculos na historia das evoluções
sociaes?--vêdes Shakspeare. Estaes no mundo moderno. A _virgem_
bysantina animou-se, sorriu ... é a Fornarina ou a Mona Lisa de
Leonardo ou a Venus de Corregio. Beatriz desce das regiões de luz, dos
_fundos-d’ouro_ medivaes, póde dizer-se assim,--para o meio da
sociedade nova. É Desdemona, ou Julieta ou Ophelia.
A _mulher_ eclypsou a _rosa-mystica_.
Em Hamlet parecem confluir os dous oceanos, luctarem as duas
sociedades, uma já extenuada e combalida, a outra debil, indecisa,
receiosa ainda.
Não: Hamlet não é, com certeza, apenas um filho saudoso e nobre que
vinga o assassinio do pae.
Não é tambem apenas o monomaniaco homicida com a _idéa fixa_ da
vingança, idéa produzida por uma preoccupação sinistra que lhe provoca
sinistras visões.
Se Hamlet fosse aquillo, porque não realisaria em tantas occasiões que
teve a vingança tremenda, se como elle mesmo diz: «_a man’s life’s no
more than to say, one,_» e se pede á _sombra_ do pae que lhe
revele o barbaro assassinio para que elle
«...with wings as swift
«As meditation, or the thoughts of love,
o vingue?
Hamlet é um doudo? «Póde ser que eu julgue necessario fingir as
aberrações da doudice», diz elle aos seus amigos Horacio e Marcellus.
Que vale isso, porém? É um incidente apenas, um expediente e mais nada.
Hamlet raciocina, argumenta, sophisma, moralisa, graceja, calcula,
vacilla, accusa a propria indecisão:
«Yet I,
A dull and muddymettled rascal, peak,
Like a John a--dreams, impregnant of mycause, etc.»
_(Acto 2.^o, scena 2.^a)_
duvida da apparição do pae
«...The sprit that I have seen
May be a devil; and the devil hath power
To assume a pleasing shape...»
_(Ib.)_
aborrece o mundo, despreza a mulher, despreza-se a si proprio, crê no
fatalismo
«...If it be now’tis
not to come; if it be not to come it will be now...»
e morre pronunciando o fatal
«The rest is silence!»
Hamlet encoleriza-se, mas a cólera não é a paixão predominante
d’aquella existencia contradictoria.
Hamlet vinga-se, mas a vingança não é a _idéa fixa_ d’aquelle
cerebro constantemente sacudido por vibrações contrarias.
«La cholère, diz Charron,[54] du premier coup en chasse et bannist
loing la raison et le jugement, afim que la place luy demeure tout
entière; puis elle remplit tout de feu, de fumée, de tenebres et de
bruit...»
Hamlet pensa, julga, observa, ensina e poucas, mui poucas vezes, é
_comme un navire qui n’a ni governail, ni patron, ni voiles, ni
avirons_.[55]
Hamlet odeia, vinga-se, mas o odio d’elle é antes uma misanthropia
incoherente, indecisa, _comica_ ás vezes, se póde dizer-se assim.
Hamlet é um homem de bom-senso e um homem supersticioso ao mesmo tempo,
é sombrio e gracioso, tem palavras tristes e sinistras, e gargalhadas
francas e puras, é homem da côrte, misanthropo enfadonho, é homem
galanteador e philosopho, é sabio e doido....
É assim que se me apresenta o vulto original e enygmatico. Atravez
de tudo aquillo, ou no _fundo_ de tudo, sente-se a laboração
sensorial desordenada pelo antagonismo dos estimulos, muitas vezes a
neutralisação reciproca das vibrações cerebraes, pouquissimas a perda
da _harmonia nervosa_, o predominio, a generalisação da vibração
d’uma cellula, junto tudo isto a um caracter concentrado e probo, que
se indigna ou pasma ao vêr a mulher do rei Hamlet partilhar o leito
conjugal com outro homem, com seu proprio cunhado, decorridos dois
mezes de viuvez!
... Trailty, thy name is women, etc.
«Fragilidade, o teu nome é _mulher!_
.............................................
«It is not, nor it cannot come to, good
diz Hamlet; a idéa de que a ligação incestuosa será fatal importuna-o.
Uns amigos dizem-lhe que viram o fantasma do pae, pergunta-lhes se a
physionomia d’elle era sombria, ameaçadora e murmura:
«My father’s spirit in arms! all is not well!
Quando, conversando com a _sombra_, sabe d’ella o crime de
Claudius, Hamlet diz:
«O, my prophetic soul! my uncle!
A volubilidade da mãe, a perfidia do tio, a ligação d’ambos,
o servilismo dos cortezãos, a saudade pelo pae, abalam-lhe o
_sensorium_, apossam-se-lhe quasi da acção intellectiva, geram-lhe
a descrença, o desprezo quasi pela vida presente, generalisação fatal!
fazem-no repellir Ophelia, ao passo que a reacção da consciencia, e da
sciencia, do _meio_, se faz sentir tambem, vigorosa e constante, e
o tornam,--n’esta lucta intima e enorme--o joguete d’um fatalismo que
elle desconhece, mas confessa.
A vingança, pois, representa na concepção quasi um papel secundario;
é a _machina_, o esqueleto da acção dramatica que por mais d’uma
vez se despega d’ella, para elevar-se ou baixar-se, mover-se livremente
ao sopro da subjectividade genial e da reacção do _meio_ natural
e historico. O «Hamlet» é mais um drama que uma tragedia,--na accepção
vulgar d’estas palavras,--é menos uma tragedia ou um drama que um
_poema_.
Ha pouco appareceu o _Hamlet_ no palco lisbonense.
Um dos primeiros tragicos europeus propoz-se a apresentar-nos o vulto
gigante que tem sido e continuará a ser o desespêro dos criticos. E não
contente com apresental-o em scena, foi-nos dizendo antecipadamente o
que era o Hamlet.
Era tarefa enorme que podia patentear apenas enorme vaidade. O que para
mim, foi, digo-o já. Foi uma enorme decepção.
Pelo que do Hamlet escreveu Rossi vi simplesmente que Rossi não
conhecia o _Hamlet_ de Shakspeare ou que eu não conhecia o
_Hamlet_ de Rossi. Esta ultima hypothese incommodou-me pouco.
Quiz confirmar ou desfazer a primeira. Fui vêr Rossi no _Hamlet_.
Rossi fascina.
Fascinou-me no _Othello_, encantou-me na _Juliet and Romeo_.
Passadas as primeiras impressões, relendo socegadamente na minha
solidão aquellas obras giganteas do gigante inglez, rememorando a
interpretação que lhes dera o grande tragico italiano, é que eu pude
apreciar devidamente este e aquella.
Não junto um epitheto novo aos que teem cahido como corôas--demasiado
pezadas algumas--sobre a fronte de Rossi, na sua passagem triumphal
pelo palco lisbonense.
Não serei eu tambem quem me enfileire nos caturras patriotas que
choramingam a depreciação dos contrabandeados productos da arte
nacional, e teimam em carregar com uns idolosinhos de _pasta_
que a apparição de Shakspeare no theatro da terra fez por momentos
esquecer, apezar dos grasnos d’algum critiqueiro de _confraria_.
Por hoje não aprecio Rossi. Fallo simplesmente da interpretação do
_Hamlet_.
Rossi parece ter visto o _Hamlet_ atravez um falso prisma: a
imitação de Ducis.
Dá-nos um orphão supersticioso, colerico, enfadonho por vezes,
ameaçador e apaixonado quasi sempre, que braceja furioso a cada canto e
berra a cada momento, que protesta constantemente vingar o assassinado
pae, e só deixa perceber á gente que se não vinga para que a peça não
tenha dois ou tres actos de menos.
Vulto sombrio e completamente tragico, grandioso, imponente, bello,
quasi sempre, nas expansões da paixão, sympathico, insinuante nas suas
tristezas e aberrações, foi o que nos deu Rossi, e se o _Hamlet_
de Shakspeare fosse aquillo, de certo que a interpretação tinha sido
magestosa e grande.
Mas a obra do poeta inglez foi deturpada pelas amputações sacrilegas
que o traductor lhe fez, e a concepção genial ficou reduzida a uns
personagens de vulgar tragedia, a uma acção inverosimil e incoherente,
a um dizer deslocado....
Deslocado, digo, porque o _philosophar_ profundamente original e
caracteristico do Hamlet shakspeariano não tem logar no cerebro agitado
pela cólera, concentrado na idéa da vingança, allucinado pela paixão,
d’aquelle Hamlet meridional, d’aquelle Hamlet corso, deixem-me dizer
assim, que Rossi nos apresentou.
Por isso quasi sempre a emphase, a entonação energica, a gesticulação
violenta do tragico desmentem a concentração da idéa,--a laboração
sensorial em que procuram conciliar-se as sensações periphericas ou
intimas, os estimulos diversos, as vibrações que se contrariam,--todo
aquelle trabalho, aquella lucta, psycologica emfim, surda e constante,
que a palavra do protogonista denuncia e impõe a toda a acção dramatica.
A entrada de Rossi em scena, impressionou-me desagradavelmente.
Entrou elle, sombrio ou carrancudo, triste, ou brusco, voltou-se para
a platéa, e deixou-se ficar immovel, emquanto os companheiros de scena
papagaiavam detestavelmente os seus papeis. Fez-me lembrar aquillo a
apresentação das figuras dos velhos _autos_.
Aqui, como em muitos logares, a interpretação está indicada pelo
dramaturgo. Hamlet anda triste e saudoso, e o casamento de sua mãe, tão
proximo da morte do pae, amargura-o, preoccupa-o mais ainda.
O rei diz-lhe:
«How is it that _the clouds still hang_ on you?»
Mas Hamlet, homem da côrte.... The cortier ...
«The expectancy and rose of the fair state
The glass of fashion...»
como lhe chama Ophelia, responde com esta lisongeria:
«Not so, my lord, Iam too much i’the sun.»
A rainha pede-lhe que não volva a Wiltenberg, e elle responde
concordando.
«...Tis a _loving_ and a _fair_ reply.
................................................
This _gentle_ and _unforc’d_ accord.»
Pois aquelles _qualificativos_ não indicavam a
_interpretação_ a Rossi?
O monologo que se segue disse-o elle magistralmente, posto que alguem
podesse antes vêr um lamento no que elle interpretou como imprecação.
Estas expansões de dôr, não se extremam: imprecação e lamento
confundem-se.
Na scena da visão, Rossi cahe por vezes em _poses_ de rotineira
tragedia, desculpaveis porém pela indecisão e originalidade da acção e
da palavra.
Não acontece o mesmo no dialogo com Polonius, onde Hamlet _diz_
bem.
Que bellissima scena que é esta e a que se lhe segue: o _trio_ de
Hamlet, Guildenstern, e Rosencrantz!
Que verdade! que estudo profundo do homem!
É uma dessecação. É a histiologia d’um modo de ser do pensamento humano.
Hamlet preoccupado, extenuado, agitado pelas impressões successivas
que lhe roubaram as crenças, as illusões do seu caracter probo, da sua
florida mocidade, saudoso pelo pae que tanto amava, vendo a mãe que
pouco tempo havia lamentava nos estos do desespêro a perda do amado
esposo, lançar-se nos braços d’outro homem, d’um _irmão_; vendo
n’este um fratricida, um ambicioso assassino, ignobil, vil, generalisa
a decepção atroz, despreza a mulher pela sua volubilidade immoral,
desconfia do homem pela sua perfidia, vê no mundo uma prisão ... _in
which there are many confines, wards and dungeons; Denmark being one
of the worst_ ... busca nos livros, n’algum livro talvez de velha
escholastica, uma consolação, uma certeza, uma esperança sequer d’uma
vida melhor, um guia, uma solução, e que lhe diz o livro?
_Word, words, words!_
Reage, porém, o _meio_ social, reage a consciencia, reagem
n’aquelle cerebro em lucta outras cellulas vibradas por outros
estimulos, Hamlet duvida, fraqueja-lhe a generalisação da dôr,
_ ... there is nothing either good or bad, but thin king makes it
so..._
Que relampago!
Extenuado pela lucta sensorial diz:
... I could be bounded, etc.
«Encerrado n’uma casca de noz, crer-me-hia monarcha de immenso imperio,
se não tivesse maus sonhos...» Horrenda lucta! O que é um sonho?...
«A dream itself is but a shadow.»
Depois, conversando com os comediantes, Hamlet, graceja e ensina,
raciocina e corrige.