receia macular com o seu halito o puro fulgor da estrella.
«Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio,
Mas ouve-me, receio
Tornar-te desgraçada.
O homem, minha amada,
Não perde nada, gosa;
Mas a mulher é rosa...
Sim a mulher é flôr!
«Ora a flôr, vê tu
No que ella se resume...
Faltando-lhe o perfume,
Que é a essencia d’ella,
A mais viçosa e bella,
Vê-a a gente e ... basta.
Sê sempre, sempre casta!
Terás ... quanto possuo!»
Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para
comprovar o que ácerca d’estas mimosas poesias e d’este original
poeta tenho dito e hei de para diante dizer. Não posso, porém,
resistir á tentação de citar ainda uns trechos d’uma das mais bellas e
caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a
toda!
Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida.» Innumeras vezes tem ella
feito cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas
como o austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar
ao sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas
intimas amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas
palavras de Tasso:
_Cosi trapassa al trapassar d’un giorno,_ etc.
e começa:
«Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que n’esta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do tumulo descendo.
«Em se ella anuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava;
Despontava ella apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
«Alma gemea da minha, e ingenua e pura
Como os anjos do céo (_se o não sonharam_...)
Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.
«Não sei se voou, se m’a levaram,
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que ainda em vida não choraram.»
Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n’este tristuras que se
manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido
soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n’esta
singeleza _morbida_, se póde dizer-se assim, mais sentimento e
espontaneidade.
Vamos mais além. Que superabundancia de imagens! Que riqueza
e variedade de _sensação_! Que esplendidos quadros! Que
magnificencia de colorido!
«Ah! quando no seu collo reclinado,
Collo mais puro e candido _que arminho_,
_Como abelha na flôr do rosmaninho_
Osculava seu labio perfumado;
«Quando á luz dos seus olhos ... (que era vêl-os,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
Lia na sua bôca a _Biblia santa_
Escripta em lettra _côr dos seus cabellos_;
«Quando a sua mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de _rosa pouco aberta,
Como timida pomba_ sempre álerta,
Me impunha ora silencio, ora segredo;
«Quando, _como a alveloa_, delicada
E linda _como a flôr_ que haja mais linda
Passava _como o cysne_ ou _como ainda_
Antes do sol raiar, _nuvem dourada_;
.................................
«Quando a _cruz_ do collar do seu pescoço,
_Estendendo-me os traços, como estende_
_O symbolo d’amor que as almas prende,_
_Me dizia..._ o que ás mais dizer não ouço;
.................................
«Quando _o ouro_ da trança aos ventos dando
E _a neve_ do seu collo e seu vestido
--_Pomba_ que do seu par se ia perdido,
Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[41]
«Tinha _o céo_ da minha alma as sete côres», etc.
..............................
..............................
«Que é d’esses cabellos d’ouro
De mais subido quilate,
D’esses labios escarlates,
Meu thesouro!
«Que é d’esse halito, que ainda
O coração me perfuma!
Que é de teu collo de espuma
Pomba linda!
..............................
..............................
«De dia a estrella d’alva empallidece;
E a luz do dia eterno te ha ferido.
Em teu languido olhar adormecido
Nunca me um dia em vida amanhecesse.
«Foste a concha da praia. A flôr parece
Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
Meu calix de crystal, onde hei bebido
Os nectares do céo ... se um céo houvesse!
«Fonte pura das lagrimas que choro![42]
Quem tão menina e moça desmanchado
Te ha pelas nuvens os cabellos d’ouro
..............................
«A vida é o dia d’hoje,
A vida é ai que mal sôa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que vôa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvae:
A vida dura um momento
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cáe!
«A vida é flôr na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrella cadente,
Vôa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares
Uma após outra lançou,
A vida--penna cahida
Da aza da ave ferida,
De valle em valle impellida,
A vida o vento a levou!
..............................
..............................
«_Talvez_ é hoje a Biblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando
Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;
E onde como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés inquieta, ondeando,
A sombra do meu ser.»
..............................
Depois d’isto comprehende-se que João de Deus se proprozesse a traduzir
o _Cantico dos Canticos_.
Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia
hebraica são a _sensação_ e a _imagem_ e posto que, no meu
entender, a boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor
apenas d’aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as
litteraturas na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição,
em quanto predominam no homem os sentimentos elementares, como
diz Veron[43]; comtudo a poesia hebraica, propriamente tal, quasi
não chega a ultrapassar o periodo d’aquelle predominio. Poderiam
talvez accusar-se os versos, que acabo de transcrever, de certo
_garridismo_, que mal iria ao sentimento que exprimem, se a
violencia d’esse sentimento, o estado de exaltação sensorial não
estivessem justificando o que parece defeito aos leitores que não
sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar ante
aquelles versos magnificos.
A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse
agora para combater os que julgam como Lamartine[44] que a
_versificação_, o rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas
indifferentes á poesia na «época adiantada e verdadeiramente
intellectual dos povos modernos»; os que teem tudo isso, como Heine
(cit. por Max. Buchon) por completa puerilidade, para valente
comprovação me podiam servir os versos do nosso poeta.
São elles geralmente como que uma psalmodia. Alia-se a musica e a
poesia que tantos querem distancear, como se o rhythmo fosse apenas
elemento especial d’uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopea
espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela idéa e pelo sentimento, e
n’este como n’aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos
estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar
as relações do rhythmo para com a idéa e o sentimento, como se fôra
possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos
productos da activividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos
casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopea deve
ser producto espontaneo, e não _canon_ de escóla. E porque se dá o
primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos,
bem salientemente, o cunho da personalidade, condição especial d’uma
obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, por que, como
diz o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na
poesia, está antes na esthesia do poeta do que na do leitor. Ora bastam
as transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o
seu sentir e pensar se patenteam na expressão, na _fórma_, que em
outros escriptores mal disfarça com arrebiques e europeis a carencia da
sensibilidade e inspiração pessoal.
Ha mais _poesia_ n’algumas _singelezas_ de João de Deus do
que em muitos _versos_ laureados que por ahi correm como modêlos
de _metrificação_, e que bem podem sêl-o, o que não basta de certo.
«Mais poesia em pobre margarida
Que aos pés se piza, enthesourada vejo,
Que em muita madreperola polida
Que as cinzas guarda de finado arpejo.»
Toquei eu agora n’uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que
elle diz ser fragmento e fragmento que bem faz desejar a apparição da
obra toda.
Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz
sobre o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos
pelas transcripções anteriores.
«Padre, ministro do Crucificado,
É bom ferreiro affeiçoando o ferro
Com que hade prestes ir rompendo o arado
Os campos d’este secular desterro.
Melhor explicam um lugar sagrado
Bigorna e malho que o explica o berro
Do bonzo inutil; que ásperos abrolhos
Não viram nunca seus inchados olhos.
.............................
«Eu não sou dos que a patria sua adoram
Como adora o seu Deus o fiel crente.
Vejo que todos n’uma patria moram
E sobre todos vejo um céo sómente:
Mas ame cada qual; que se outros choram
Nas mãos dos tigres que só comem gente,
Tambem meus olhos choram seu tormento
D’onde quer que seus ais me traga o vento.
.............................
«Na montanha da Fé, mulher formosa
Se ante mim a seus pés desenrolasse
Como o demonio a vastidão pasmosa
Que elle dava a Jesus se o adorasse,
E me pedisse em premio uma só cousa
Ás mãos de minha mãe furtar a face;
Eu lançava-lhe o cuspo...
.............................
«Vêde-a ao berço sofrega de vida,
Que a sua é pouca para dar ao filho,
_Ella_ em cama de espinhos, mal vestida,
_Elle_ enfaxado em berço de tomilho;
_Ella_ em contínua, azafamada lida,
_Elle_ vendo se apanha á luz o brilho...
_Já descobrindo em tão tenrinha edade
Que toda a sua sêde é de verdade._
.......................................
.......................................
«Irmãs da Caridade! A caridade
Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança:
Não traja as côres só d’uma irmandade,
Traja as côres do Arco d’alliança;
Leva sósinha o pão da piedade,
Tira da roda essa infeliz creança...
Roda da vida que anda de tal sorte
Que em se lhe dando é já contar com a morte.»
«Bemdita sejas tu, victima triste,
D’um peito amante e d’um amante ingrato!
Que nunca á mesma loba lançar viste
Inda mamando o cachorrinho ao matto;
Bemdita sejas tu que o que pariste
Teu fructo, imagem tua e teu retrato,
Conservas como espelho onde te vejas;
Bemdita sejas tu, bemdita sejas.
.......................................
.......................................
«Acaso é só dourada altiva estola
Que liga os corpos em mãos ligando,
Confunde corações e faz em summa
Que a Deus se elevem duas almas n’uma?»
Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe acceiteis muito embora
a doutrina. Acatai-lhe a generosidade, a grandeza da _idêa_, a
robustez da convicção. Que poema original, magestoso e bello não será
aquelle!
Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas,
mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias lettras.
Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco.
Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro, do que aquelle
não conheço na litteratura portugueza e tanto como elle ha de ser
difficil de encontrar entre nós, na litteratura d’hoje. Um certo
_mysticismo_ mal definido que recendem as suas poesias é menos
producto da tradição que originalidade genial. João de Deus é um
homem do meio-dia com o vago ancear d’um poeta do norte. Opprime-o o
_insufficiente_ como ao Faust. Se lhe désse para ser philosopho,
onde iria parar?...
Como poeta tem alguma cousa de Ossian, com alguma cousa de Gœthe....
É incontestavelmente o nosso melhor _lyrico_ actual e um dos
primeiros com relação aos que temos tido, na accepção consagrada do
termo. Melhor se dissera _elegiaco_, mas nem agora importam
classificações que de mais peccam por incompletas nem inexactas, nem
vem a pello averiguações criticas, sobre inuteis, improficuas. Já
dizia Horacio:
_Qui tamen exiguos elegos emiserit auctor,
Grammatici certant et ad huc judice lis est._
Expressão d’um momento psychico, d’uma situação actual da alma,
essencialmente pessoal, egoista até, na sua genese, o lyrismo ou a
_elegia_ conserva na manifestação e evolução artistica como
principaes elementos a espontaneidade e a individualidade moral. As
feições e as condições d’esta, revelam-se n’elle directamente sem que
fique,--porque é arte,--manietado á personalidade determinada. Por
um lado, generalisa-se a commoção, o sentimento, deixem dizer assim;
ha como que uma transmissão, uma transfusão do modo de ser psychico;
afinam-se pela lyra d’alma do poeta as almas dos que o escutam. Por
outro lado a natureza de expansão intima e pathetica implica na poesia
lyrica uma rythmopea expressiva, livre, viva, exuberante, uma elocução
franca, ampla, simples, sem mesquinhez ou affectação, concreta sem
monotonia, etc., etc.
É o que acontece geralmente, como fica notado, na poesia de João de
Deus.
Áparte a sentida espontaneidade, a exuberancia idealisadora, a
impressionabilidade pathetica, as notaveis virtudes do genio poetico
de João de Deus, tem elle prestado tambem á lingua e principalmente ao
verso portuguez serviços relevantes; tem-lhe dado riquezas e corrigido
muitos vicios, consagrados alguns pela geral degenerescença artistica,
e affirmado emfim no meio da poesia arrebicada e hypocrita, que quasi
se póde dizer a predominante entre nós, uma feição verdadeiramente
original e fecunda em lições e exemplos de verdade e de bom senso
esthetico e critico.
João de Deus não pensou decerto nunca em fazer _eschola_, nem
é consoante com isso a sua poesia, principalmente individual e
psychologica. Mas o seu exemplo de naturalidade e singeleza, que uma
imaginação feracissima sabe conveniente e brilhantemente enflorar
sem falsear ou opprimir, e de espontanea harmonia,--a verdadeira, a
intima harmonia entre a arte e o ideal,--não tem cahido completamente
em terreno sáfaro ou improductivo e boas provas ha já do seu
aproveitamento. Metro e linguagem do nosso poeta encerram riquezas
notaveis e podem exercer salutar influencia. Pois, apezar de tudo,
João de Deus vegeta para ahi ao desamparo, triste, pobre e esquecido,
como é fado dos bons, honestos e aproveitaveis talentos, n’esta
terra de gallegos lantejoulados, de agiotas boçaes, de vendilhões de
consciencias e de litterateiros ignorantes, que veem a ser pelos modos
os firmes sustentaculos e os esplendidos luminares da patria.
GLORIAS PORTUGUEZAS, por A. A. Teixeira de Vasconcellos.--Tomo
I--Typographia Portugueza, MDCCCLXIX--XVI--159.
É o snr. Teixeira de Vasconcellos, escriptor de notavel fecundia
e elegante e correcta fluencia, que, se não tem--e não tem
de certo--enriquecido a patria litteratura com monumentos
concepcionalmente originaes e elevados, nem exercido n’ella influencia
profundamente benefica e caracteristica--que nem a tanto deitam,
cremos, as suas aspirações--, não tem, como tantos, explorado
systematicamente o marasmo, o mau gosto e o mau senso litterario
_ainda_ vigente, para trepar a tripode manca e ridicula na
angariação charlatã de ridicula e manca popularidade.
As suas obras apresentam a caracteristica do _narrar_ facil e
singelo em que tamanho soube tornar-se Garrett, faltando-lhe d’este,
porém, a graciosidade, o mimo, o adelgaçamento de tintas e a finura do
desenho, em que--diga-se de passagem--elle substituia algumas vezes a
espontaneidade pela _affectação_, o natural pelo arrebique.
Sabe Teixeira de Vasconcellos geralmente evitar o vulgar descambamento
n’uma certa logomachia convencional e garrida, verbosidade embonecrada
e sédiça, _bimbeloterie_ de phrases _bonitas_ que por ahi
anda feirada como formosa e _poetica_ dicção e que a final de
contas não passa de elixir ou pomada milagreira com que se lambusam, em
guisa de embellezamento e enfeite, e com que vão illudindo incautos e
basbaques: a madraçaria e a ignorancia.
Ha pouco escreviamos nós:
«Imaginação afeita a divagar terra a terra, intelligencia
litterariamente cultivada, mas que não parece ter-se mergulhado nunca
em profundas locubrações scientificas; Teixeira de Vasconcellos, é um
_flaneur_ da litteratura,--sem grandes entufamentos, geralmente
despretencioso, delicado e galanteador, tratando as idéas como se
fossem damas e os adversarios com os cavalheirismos convencionaes do
duello.»
O peior é que assim trata a historia tambem, o que simplesmente quer
dizer que lhe faltam as principaes qualidades de historiador: a coragem
e o desassombro para a dissecção critica da tradição, a despreoccupação
e a severidade da analyse, a elevação, a liberdade, a espontaneidade
da synthese. Entra no vasto labyrintho da historia como quem entra no
_toilette_ de fidalga e elegante dona em cujo album é necessario
escrever uma pagina galante.
Quando muito, entra alli como quem entra n’um _pantheon_, com
a preconcepção da magestade dos vultos que lá vae encontrar, ou
n’um templo com toda a reverencia de uma fé profunda e firme. Com
tal preconcepção, comprehende-se que se não possa ser verdadeiro
historiador, e hoje menos que nunca que mais do que nunca anda revolta
a exegese critica.
A muito longe nos deitariam estas considerações, mas confirma
plenamente o que já fica dito o preambulo do livro _Glorias
Portuguezas_, preambulo que tem principalmente da proclamação
_patriotica_ o falseamento ou a mystificação da historia em
proveito da tradição e dos preconceitos vulgares.
N’elle demoraremos principalmente a attenção. Começa assim:
«Fortalecem as tradições o homem.
«Inspiram-lhe brios.
«Estimulam as virtudes da familia, e servem-lhe de norte. Honram as
nações. São-lhes glorias.»
Acode aqui naturalmente e sem malicia a ideia de acrescentar:--«quando
fortalecem, quando inspiram, quando estimulam, quando servem, quando
honram, quando gloriam...»
Ha tradições e tradições.
É evidentemente falsa aquella generalisação affirmada, mas destacada
como vem, não vale a pena discutil-a.
Continúa:
«É dever _celebrar_ os varões _insignes_. Não só dever,
tambem é serviço publico. Fallar e escrever _com louvor_ dos que
_procederam rectamente_, não póde ter-se em conta de inutil, etc.»
Conforme: tudo é relativo n’estas regiões sublunares.
Util é de certo para todos e perante todas as doutrinas moraes,
_historiar_, o que não vem a ser o mesmo que _celebrar_,
estudar e dizer _como_, _porque_ e _para que_ procederam
n’este ou n’aquelle sentido certos homens que determinadas condições
historicas e psychicas levantaram bem alto na corrente dos tempos,
investigar as primicias, os fins ou as consequencias de certas
existencias historicas, o que não é o mesmo, nem tem o mesmo fim que
_fallar_ e _escrever d’ellas com louvor_. O louvor indica
adhesão individual e partidaria e já não queremos observar que o louvor
a este ou áquelle vulto tira á historia o caracter da collectividade,
da _unicidade_ de causas e effeitos, de leis e condições
objectivas que ella tem.
O _heroworship_ deturpa a critica. Vico vale mais do que Carlyle.
A historia não é a apotheose. Um homem é um elo. A historia estuda,
e patentea a cadêa immensa, que se estende atravez do espaço e do
tempo, modificando-se com um e com outro, e que se chama «humanidade».
Mas a biographia? De certo a biographia é uma parcella da historia,
mas biographar não implica louvar. A boa biographia obedece á lei da
historia: «_Eam esse historiæ legem, nequid falsi dicere audeat, ne
quid veri non audeat._»
«A historia tem por lei nada ousar dizer que seja falso, e nada ousar
calar que seja verdadeiro», dizia Tacito: E o _louvor_ é isto?
É isto o _elogio historico_? _O louvor dos que procederam
rectamente!_
Mas onde está a bitola d’esse proceder? N’uma moral subjectiva e
individual?
A historia não é isso, ou antes a historia não deve ser isso. Entrou
felizmente n’um caminho _positivo_.
De certo não póde emancipar-se completamente das condições da
pessoalidade moral do historiador. Mas este é que deve emancipar-se da
preconcepção apologetica, que ha de fatalmente falseal-a.
Vamos, porém, seguindo o «preambulo».
Continúa elle:
«A poder de valentia e de perseverança _fizemos_ da terra
portugueza estado independente e _defendemos com ardor e tenacidade o
solo da patria sempre e contra quantos nos vieram aggredir. Não poderam
subjugar-nos os leões de Castella e facilmente nos desprendemos_
das garras vigorosas com que nos empolgaram as aguias francezas.
«_Até ás sagazes pretenções da curia romana soubemos resistir com
vantagem.
«Eramos fortes!_»
Com outras tantas asseverações, egualmente fundadas, podia concluir-se:
«Eramos fracos.» A final de contas de nada valia a conclusão.
Era tão falsa como a outra. De que força se falla? Parece que de força
moral, da energia do sentimento collectivo, do sentimento patriotico,
se querem assim. É isso qualidade ingenita e exclusiva?
Ponhamos, porém, de parte esta questão; deixemos em socego o primeiro
periodo do trecho citado, que bem se vê se podia ou não ser contestado,
ou se encerra uma verdade historica comprovada, e fecunda em
ensinamento e gloria.
A dominação dos sessenta annos, e a singela historia narrativa da
dominação e guerra dos francezes, desmentem cathegoricamente o periodo
seguinte. Contra o ultimo podem citar-se muitos factos.
Não é necessario recorrer ás luctas entre o poder civil e o poder
ecclesiastico nos primeiros tempos da monarchia, luctas que são
reflexo do movimento de emancipação civil que se operava em toda a
Europa, ou antes da reacção do direito romano, do _jus civile_
contra o _jus canonicum_, que á propria Inglaterra se estende em
1163. Temos por cá nome correspondente ao de Thomas-à-Becket, na sua
significação na exegese historica. Mas não é necessario ir tão longe,
nem citar Sancho II, e tantos outros nomes e factos. Basta citar a
inaudita exploração realisada n’este canto da Europa pela curia romana
no tempo do imbecil e fanatico João III.
_Eramos fortes!_
Mas quando, ou até quando?
Eramos: não somos?
Eramos fortes!
Mas ... «_Eam esse historiæ legem ne quid falsi dicere audeat, ne
quid veri non audeat._»
Não basta dizer que _fomos_ fortes. A historia assim tratada
tambem diz que _fomos_ fracos. A fundação da monarchia não foi
simplesmente negocio de valentia e de perseverança. Ficou-nos mal
a valentia bastantes vezes, e entibiou-se outras tantas a teimosia
_nossa_ ou antes a dos aventureiros christãos vindos de além
Minho ou de além dos Pyreneus e das populações mosarabes d’este
tracto de terra europea. Valeram-nos tambem as intrigas domesticas
ou a diplomacia de certos magnates ambiciosos, taes como as do conde
borgonhez Henrique, as da condessa ou rainha Thereza, etc.
E que importa isso? Que importam os factos a que devemos a
independencia, comtanto que independentes queiramos e saibamos ser. Que
necessidade ha de falsear a historia para nos afidalgar a origem?
A historia tambem conta o que fomos no reinado de Fernando, o que
valiamos quando o duque d’Alba passeiou os seus velhos guerreiros até
Lisboa, quando o «Demonio do meio-dia» era jurado e acclamado por todo
o Portugal, etc., etc.
Realisamos grandes commettimentos e commettemos grandes vergonhas.
Se nós,--os homens d’hoje--nos orgulhamos dos primeiros, porque não
confessaremos as segundas?
A umas e aos outros anda avesso o espirito da época e as condições da
moderna civilisação.
Mas o historiador tem de ser como o anatomista. _Inquinandæ sunt
manus_. Tem de macular as mãos muitas vezes para tatear bem e
affirmar seguro.
Não temos a viver do que fomos, e se rejeitamos--os que rejeitam,--no
individuo a aristocracia dos pergaminhos, para que quereremos para a
collectividade a aristocracia e o orgulho d’uma historia mal feita. Não
somos maiores ou menores--isoladamente,--do que os nossos antepassados.
A evolução nas idéas e nos factos, a transformação do viver collectivo
e do collectivo pensar, supprime como absurda a comparação. Maior
influencia no mundo tiveram nossos antepassados em determinada época e
por determinadas condições sociaes: na época dos _descobrimentos_.
Mas exactamente a prova de que a acção collectiva,--nacional, se
querem--não póde isolar-se na exegese historica, não é o producto de
determinadas vontades, é que não podemos ser o que então foram nossos
antepassados.
Com que direito nos deprimem por isso?
Onde está a nossa culpa?
Querem deprimir-nos, apontando para os nossos avós, sem metterem
em linha de conta a evolução do sentimento historico e do facto
social, como certos classicos caturras,--a gente do _ideal_
absoluto,--deprimem os artistas modernos apontando-lhes para os
monumentos da arte grega sem attenderem á evolução do sentimento
artistico e ás proprias evoluções da _fórma_, que como diz Burger,
se bem nos lembramos, protesta até pelo estudo comparado da phrenologia
contra a imitação plastica da arte grega.
O nosso grande mal, a nossa enfermidade terrivel, é a _tradição_,
ou antes, é a má, a falsa, a absurda historia;--a historia
_patriotica_.
Fundaram com valentia a nossa independencia certos homens, outros a
perderam, não sabemos se por vulgar antithese palavrosa devemos dizer:
«por cobardia».
No esbroamento do imperio de Carlos V, reganhou-se o que se perdêra
quasi sem protesto da _nossa_ parte sessenta annos antes.
Invadiram Portugal os francezes, e de Portugal foram expulsos passado
algum tempo. Souberam _alguns governos_ portuguezes resistir ás
pretenções da curia romana _algumas vezes_.
«Eramos fortes! exclama Teixeira de Vasconcellos. Podiamos ser fracos.
Tudo isso é relativo. O que é necessario é não isolar esses factos,
julgal-os á superficie, entretecer com elles uma corôa civica, ou
dizer-nos:--«Assim é-se forte.»
De nada nos serve a superficial lição que não podemos reproduzir o
exemplar mais ou menos falseado.
O que é necessario, o que é inutil, o que é fecundo, o que é lição, é
estudar e expôr todos esses factos á luz d’uma critica despreoccupada,
desapaixonada, severa, cuidadosa, imparcial que «nada ouse dizer que
seja falso, que nada ouse calar que seja verdadeiro», separar os
elementos puramente relativos, as concreções historicas e legendarias,
e extrahir a _lei_, o principio, a _essencia_, se póde
dizer-se assim; estudar o facto como consequencia, como manifestação
d’uma causa, investigar esta, investigar as relações, as condições
sociologicas, e d’este estudo desassombrado e profundo, deduzir,--se
quer deduzir-se,--a _finalidade_ historica, _finalidade
positiva_, deixem-nos assim dizer, que póde não servir aos
interesses d’um patriotismo parvo, mas que serve a sciencia e o povo,
governantes e governados.
A historia assim não é pythonissa charlatã, nem aduladora que desvaire
e obsequeie. É escóla que ensina e facho que dirige. É medicina de
semeiologia escrupulosa, de diagnostico sensato, de receituario
prudente.
Não é deslumbramento: é ensinamento.
Não é elixir milagreiro,--vão-se os milagres com os deuses,--: é
advertencia, explicação e conselho.
Não é purpura lantejoulada;--vão-se as lantejoulas e as purpuras com os
reis;--é livro aberto ás dôres e aos anceios do presente.