Diz o _Bem Publico_ que eu supponho «uma sociedade humana sem
Deus», que «a reduzo a individuos», concluindo por «mutilar estes na
ordem moral» e «suprimindo n’aquella o governo», o que na opinião do
mesmo _Bem Publico_ é simplesmente «propôr uma sociedade que não é
_sociedade_ e individuos que não são _individuos_».
Vamos por partes.
Eu não _suppuz_ uma sociedade humana sem ou com Deus. _Non fingo
hypotheses._
Vi o estado decretando um deus, vi a sociedade politica, conjuncto de
muitas consciencias, impondo a todas a crença d’algumas, de muitas até,
como se a crença fosse cousa que se impozesse, que se supprimisse, que
se confirmasse por um artigo de lei. O estado, disse, é o conjuncto de
muitas _personalidades_.
O seu fim é garantir-lhes a segurança e o progresso, nas varias
manifestações d’ellas.
Ora a manifestação suprema é a liberdade social, a liberdade de cada
um perante cada um e todos: logo a liberdade do pensamento e da acção,
logo «a liberdade só limitada pela liberdade», isto é, a liberdade do
_Bem Publico_ acreditar no direito divino limitada pela minha
liberdade de crer no direito humano, a liberdade do snr. Sousa Monteiro
querer que o estado tenha uma religião official limitada pela liberdade
de eu pensar que sendo o estado composto de muitas consciencias, isto
é, de muitas crenças, e se quer ainda, de muitas religiões, ou ha de
amalgamal-as todas n’uma, isto é, o christianismo com o mahometismo,
com o judaismo, etc., etc., o monotheismo e o polytheismo, e ainda o
theismo e o materialismo, etc., etc., para poder ter logicamente _uma
religião_, ou não ha de ter nenhuma e deixar que cada qual tenha a
sua, ou dar a preferencia a uma sobre as outras, e n’este caso é que
_mutila_ as personalidades supprimindo a liberdade de consciencia,
e d’uma sociedade faz uma cousa que não é uma _sociedade_.
Ora a «liberdade só limitada pela liberdade», vê-se já que não é uma
logomachia. Creia e faça o que quizer o _Bem Publico_, com tanto
que não saia da sua liberdade para invadir a minha de fazer e crer o
que quizer, sem prejuizo da liberdade do _Bem Publico_. Ora abusa
da sua liberdade e invade e mutila a minha quem me prohibe que creia
ou não creia n’um Deus, que o adore na egreja ou nos montes, que seja
judeu como o snr. Sousa Monteiro tem a liberdade de ser catholico,
que seja materialista porque a minha sciencia,--fraca e pequena
decerto,--me dá essa crença, como o _Bem Publico_ tem a liberdade
de _dizer_ ou de julgar _bom christão_, porque a sua fé tal
crença lhe inspira.
Quanto ás outras objecções teremos occasião de fallar breve.
Eu não disse, creio, que o christianismo era filho da democracia.
Affirmei e affirmo que esta não deriva e prescinde d’aquelle. Não será
porém difficil provar que o christianismo é uma evolução do sentimento
democratico. Ainda ha pouco sustentava douto allemão que Jesus fôra um
apostolo do socialismo.[38]
FLORES DO CAMPO, por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José
Antonio Garcia Blanco--Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868--Em casa de
Ferin & Robin--1 vol. 16.^o--271 paginas.
João de Deus é um personagem semi-lendario na tradição academica, e
apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma
de deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de
quasi os mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia
superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença.
Permittam-me uma digressão.
Ha n’esta sociedade portugueza--já agora, ao que parece--condemnada a
refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou
o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d’uma nacionalidade
sem _ideia_ que a represente na historia philosophica de ámanhã,
sem _ideal_ que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação
das sociedades d’hoje; ha, digo, n’esta nossa sociedade amortecida,
extraordinarias visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como
que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias
e paroxismos annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico
escrupuloso não encontrasse antes n’aquillo promessas de reacção
proxima, de rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que
em Portugal como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e
anormalidades a sua sublime prenhez d’uma nova ideia, d’uma era nova.
Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura,
vozes persistentes ... dôces ou enthusiasticas, sympathicas
ou ameaçadoras ... frescas, novas, _originaes_--_raræ
vocis!_--que parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração
alguma cellulazinha não contaminada do mal.
E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os
frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do
ambiente habitual, do sabor da habitual pitança.
Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo,
vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante
e madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da
evangelisação scientifica.
E a turba vae attentando n’ellas, vae sympathisando com aquelles
revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos
anões que, sem ella saber como, nem porque se guindaram aos altares da
sua admiração, vae fitando os novos horisontes para onde lhe apontam
os novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d’uma necessidade
indefinivel, mas fatal. Ha n’isto, já se vê, alguma cousa d’allucinação
infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as
verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas
que envolvem a terra da promissão.
Engano. Não lhes dão as forças para mais que um terço do caminho, se
tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos
guias. A questão é sahir da esterilidade do deserto.
Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que
podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente
no seio da nossa pequena sociedade.
Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus;
dois verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante
terei de fallar. Um, apesar do mal que dizem d’elle, e do mal, que é
maior talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos
poucos talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na
_idéa_ e na _fórma_, e se não é marco que no futuro atteste
um grande e brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio
imperfeito e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d’entrada
a _pantheon_ de esplendidos engenhos.
E grande engenho é Theophilo, de certo.
Por entre uma saraivada d’apodos e improperios de _mau gosto_ ou
_má fé_, conquistou elle um logar elevado na poesia portugueza
d’hoje, cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel
teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o
carvão da ignorancia, ou em mascarem-n’a com um falso e retrogrado
_classissismo_.
Theophilo, porém, avançou menos do que devia.
O _idealismo_ desvairou-o, o _romanismo_ póde perdel-o.
Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancolica e dolorida,
ora--bem poucas vezes!--alegre e enthusiastica de João de Deus,
começou de fluctuar por sobre o borburinho cansado e monotono
das nossas lettras. Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a
chronologia biographica nos encantos do _quasi_--extasis. Sabe-se
sómente que a reputação do poeta não nos entrou na terra, dentro do
cavallo de pao d’algum chefe _grego_, mestrão consummado n’estas
machinações.
Sabe-se tambem que João de Deus não andou por salas e officinas,
annunciando a fazenda que tempos depois, atirada ao mercado, podia
realisar o caso do _mons parturiens_.
João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n’um periodico de Coimbra;
ora nos segredava uma estrophe singela, e melodiosa pelo postigo
d’uma typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a
contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que
o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em
vagas harmonias.
E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem
fosse; ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-n’o todos. Era um
cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que
valia por uma adega.
João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as
folhas das _sebentas_; que dormia dentro da enxerga porque achava
mais commodo isto do que dormir-lhe em cima; que se matriculava todos
os annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava
de matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d’algibeira vazia e
lapis constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos
desenhos; que se fizera um dia sacristão, e pozera n’outro, todo um
bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua,
etc., etc.
E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se
uma historieta, e quando as poesias escasseavam, attribuiam-se ao
poeta novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já
defunto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez
produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus, havia talvez de lavrar
aqui um protesto esmagador.
Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense.
_Mais_ ou _menos_, todos somos poetas. N’este _mais_
e n’este _menos_, está, creio eu, o segredo da organisação
_sensorial_, se póde dizer-se assim, organisação modificada é
certo, mas não completamente transformada pelo _meio_ e pelo
_habito_.
Tal _sensação_ que n’uns individuos poria o cerebro n’um estado de
effervescencia que lhe _exagerasse_ a realidade, a ponto muitas
vezes de a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes
outros póde dar apenas o facto funccional em condições normaes e
ordinarias, e concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto
longo desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser _sensorial_
póde dar-se em todos, mas com _mais_ ou _menos_ intensidade,
com _maior_ ou _menor_ frequencia, digo eu, (e dizem bons
escriptores), que todos são _mais_ ou _menos_ poetas. Isto
quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo se póde
dizer, sem receio de contestação séria.
Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro
poeta.
Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Gœthe, seu amigo:
«A tendencia irresistivel do teu genio é de imprimir a fórma poetica
ás cousas _reaes_. Outros procuram um _soi-disant_ poesia,
transformando em realidades, puras _imaginações_, o que só produz
disparates.»[39]
Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato
allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de
critica litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer
que reune as duas tendencias, as duas feições designadas, a
_idealisação_ (phrase consagrada e porventura inexacta) do
_real_, e a personificação, melhor talvez, a realisação plastica
do _imaginario_.
Como que as sensações sensoriaes[40] n’aquelle cerebro delicado,
ou atravez aquelle organismo exageradamente impressionavel, se
destacam algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria
objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a
expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva, moldando-o pelas
manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece isto, porém,
poucas vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época
e a illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação
d’estas concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou ali a
lucta tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição
caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo
immoral não consegue abafar; lucta entre o velho _crer_ e a
_duvida_, a duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada
decepamento, e que não é possivel destruir como aquella, decepando-lhe
o tronco. Ouvide um exemplo:
«Prestes, se inda na rocha de granito,
D’onde em tempo me vias, te sentares,
Não olhes para a terra ou para os mares,
_Olha sim para o céo, que é lá que habito_.
«_Lá tão longe de ti, mas não do terno,
Bondoso pae que os dois nos ha gerado,
Só para mágoas não, que bem guardado
Nos tem tambem no céo prazer eterno_.»
Que profunda crença, que certeza _mystica_, se póde dizer-se
assim, não rescende a suave _morbidezza_ d’estes versos! Ha
ali alguma cousa do cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se
annuncia; a duvida atravessou como um relampago o cerebro do poeta.
Ouvide:
«Não se é só pó no fim de tanta mágoa;
_Senão_, diga-me alguem que allivio é este
Que sinto quando á abobada celeste
Alevanto os meus olhos rasos d’agua?
«Mentem os céos _tambem_? Os céos maldigo.
Feras, tigres _tambem_ o céo povoam?
_Tambem_ os labios lá sorrindo coam
Veneno desleal em beijo amigo?
«_Mas na dôr é que os astros nos sorriem_,
E os homens não sorriem na desdita.
Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
Que os infelizes sempre em vós se fiem.»
Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora:
«Ha depois d’esta vida uma outra vida.
_Não se reduz a nada o grão d’areia>,
E havia a nossa alma, a nossa ideia_
Nas ruinas do pó ficar perdida?»
Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o
teu ideal mystico, é o _grão d’areia_ que ha de intorpecer e
desmandar todo o machinismo psycologico da tua crença! Continua:
«_Isso que pensa e quer_ (até me admiro)
Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.»
e accrescenta:
«_Onde_, não sei eu bem, mas sei que existe
Deus remunerador. Depois de mortos
Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos
Fartar de glorias este amor tão triste.
Tão triste e o coração que _me adivinha_
N’este supplicio nosso _este tormento!_»
Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença; vêde que
tormento:
«_E morro sem te vêr!_ Cabeça douda
Desassisado amor? sonhar afflicto
Um sonho até morrer...»
Pobre Hamlet!
_...the rest is silence_
«Um sonho até morrer.... Não: resuscito;
Morto tenho vivido a vida toda.»
Pobre Faust! O _insufficiente_ (das Unzulœngliche) atormenta-te,
porque te fascina o _inenarravel_ (das Unberchreiblichee.) Que
tempo precioso perde comtigo o sensato Mephistopheles!
Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o _chorus
mysticus_ que te amargura a existencia com a mentira da miragem!
João de Deus é rigorosamente um artista _insaciavel_: _Satiari
artis copiditate non quit_, como diria Plinio.
Adivinha-se em cada estrophe d’elle um ancear indefinivel, um vago
aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que attrahe o
poeta, que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece
enviar-lhe dos visos do horisonte uns suaves frescores, envoltos em
deliciosos perfumes, e que, como a miragem do deserto, lhe foge sempre
aos labios sequiosos.
E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar
dolorido geralmente, como que um descantar de saudade do que sonhou
e não acha, e não gosa, e não encontra no caminho; como que de
_saudade_ do que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra,
que bem sei eu que não fica ella bem lexicographicamente applicada.
E assim com a imaginação embalada por um vago _ideal_ vae João de
Deus _poetisando_, como Gœthe, na opinião do seu já citado amigo,
tudo o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia
cerebral ao impulso d’uma vibração mais violenta. Os successivos
amores--fundem-se quasi n’uma abstracção, parecem subtilisar-se até
no _feminino eterno_ do cantor do Fausto. Hoje Margarida, ámanhã
Helena, depois ... Depois quem sabe?
Hoje Marina. É uma recordação.
«Como esse olhar é dôce!
Dôce da mesma sorte,
Como se nunca fosse
Toldado pela morte!
«Como se alumiasse
O sol ainda em vida
As rosas d’essa face
Agora corcomida!
«Colhesse-as eu mais cedo,
E logo que alvorece
Já não tivesse medo
Que a terra m’as comesse!
...................
«Se um dia nos meus braços
Te desbotasse as côres,
Passavam os abraços...
Passavam os amores!...
«Oh não: mil vezes antes
No céo lá onde habitas,
E os rapidos instantes
Que vens e me visitas
«N’este degredo nosso
Que tanta gente estima,
E eu, só porque não posso,
Não largo e vou lá cima.
«Vem tu cá abaixo. Abala, etc.
...................
«Ha uma hora ou mais,
Marina! que contemplo
A casa de teus paes
Que é para mim um templo.
...................
«É esta vida um mar,
E bem se póde a gente,
Marina, comparar
Á rapida corrente;
«Que vae de lado a lado
Por esses valles fóra,
Sem nunca lhe ser dado
Ter a menor demora.
«Pára quando a engole
Aquelle mar sem fundo
«Nem pára, é como o sol
E como todo o mundo
...................
Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas
magnificas _singelezas_. Não ha n’aquillo alguma coisa do que é
espontaneo e bello na _Vita Nuova_?
Mas, como dissemos, o poeta aproxima-se tambem do Faust na volubilidade
artistica.
«Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
Olhando para mim de vez em quando,
É o que n’esta vida me recreia.
...................
«E eu pallido, Maria! o pensamento
Não é trabalho que nos dê saude,
Esta imaginação é um tormento.
...................
«É que a gente na sua mocidade
Não cabe em si, não pára de contente,
E assim fui eu na flôr da minha edade.
«Tu eras n’esse tempo simplesmente
A flôr que vae nascendo e mais valia
Seres tão terna ainda e innocente.
«Já esse lindo pé que tens, Maria!
Esse quadril tão largo e cinta estreita
Me não vinha á idéa noite e dia;
«Esses encontros de mulher perfeita,
Esse peito redondo e arqueado
Como a pomba farta e satisfeita;
«Talvez vivesse então mais socegado,
Ou já que a minha sorte é sempre triste,
Ao menos não andasse enfeitiçado.
.................................
Depois é Margarida.
«Oh! que formosos dias, Margarida!
Esses etc. etc.
Depois ... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como
certo nome do Deus judaico.
O poeta diz simplesmente: _No leito nupcial_. Um nome depois
d’isto fôra mais que uma profanação. Julgaes, porém, que ides ouvir uma
recriminação amarga ou uma indiscripção villan?
«Dorme, estatua de neve,
Vergontea de marfim,
Tocar que impio se atreve
No que é sagrado assim.
«Dois são: o mais, mysterio
Vedado á terra, Deus
Talvez do solio ethereo
Nem baixe os olhos seus.
«Respeita-os, tapa-os, como
Japhet e Sem, o pae...
Pende sagrado pomo,
A vista ergue-se e cáe.
«Ergue-se e cáe, conforme
A lei que o manda assim,
Ergue-se e ... dorme, dorme,
Vergontea de marfim!
...................
«Não segue acaso a sombra
Teu corpo sempre, flôr,
E pois porque te assombra
Meu insensato amor?
...................
Depois é Beatriz.
«Tu és o cheiro que exhala
Ao ir-se abrindo uma flôr,
Tu és o collo que emballa
Suas primicias d’amor.
«Tu és um beijo materno,
Tu és um riso infantil,
Sol entre as nuvens do inverno,
Rosa entre as flôres d’abril
«Tu és a rosa de maio,
Tu és a flamula azul,
Que atam á flecha do raio
As nuvens negras do sul.
...................
E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio
e d’amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d’anceio
em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o «_Ecce Deos
fortior me veniens dorminabitur mihi_.»
Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado?
«Amas-me a mim! perdôa,
É impossivel! Não,
Não ha quem se condôa
Da minha solidão.
«Como podia eu triste
Ah inspirar-te amor,
Um dia que me viste
Se é que me viste ... flôr.
..................
«Via-te arfar o seio...
Córar ... mudar de côr,
E embora, ah! não, não creio,
Tu não me tens amor!
E o sonho foi-se a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher?
Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do
espaço e desapparece n’ella?