Diz que seria isso uma «blasphemia social!»

Passe a phrase.

Mas uma _grève_, o que é?

Parece-me que a denominação de _movimento politico_ satisfaz todos

os paladares.

Um defeito tem de certo: é nada definir.

Tem uma vantagem tambem: é de nada falsear.

Houve ali alguma cousa de _grève_: mais collisão de ambições

rasteirinhas, que de interesses legitimos, de ignorancias fanatisadas,

que de grandes aspirações.

Houve ali alguma cousa de revolta: menos revolta de opprimidos que de

obsecados, de fecundas idéas que de pequenos interesses e arreigados

preconceitos.

Provocaram aquillo os fataes defeitos do pseudosystema constitucional,

certos erros e imprudencias, ambições insoffridas e tradições

exploradas e mentirosas.

Façam porém outros, ou para outro logar fique a critica da malfadada

agitação.

Fulminada esta, escalavrados com algumas murraças palavrosas uns

idolositos pecos e uns chefesinhos mais pecos ainda, cuja lista

começando n’um Enguia e n’um Sentieiro feitos _reformadores_,

acaba logicamente n’um bispo de Vizeu feito estadista e n’um Samodães

basofiando de financeiro, saltita a imaginação de Vieira de Castro na

historia geral europea, para nos dizer simplesmente que a «Reforma do

seculo XVI e a revolução de 89 (porque não de 93?) _festejarão_

uma ascenção e uma victoria» e que «a tempestade de 48 deixára de si um

lucto immenso.»

Não me demorarei na apreciação d’aquelles grandes factos, de mais em

mais aproximados da nossa misera _janeirinha_.

Como quasi sempre, a idéa atufa-se na verbosidade soprada, a boa

critica historica é sacrificada ao enfloramento da _fórma_, ou

esta procura antes esconder a pobreza d’aquella.

Ha felizmente, porém, aqui ou ali, o relampear d’um cerebro estremecido

por aspiração generosa e sincera, por intuições esplendentes de verdade

positiva, por idêas que denunciam consciencioso e aturado estudo.

Se muitas vezes a linguagem de Vieira de Castro, não por demasia de

imagens mas por exagero d’artificio,

_Sort du bon naturel et de la vérité,_

o que, vá dizendo-se de passagem, não creio que consista em certa

pieguice e banalidade de estylo que por ahi se quer impôr como modêlo;

outras, espontanea e energica, traduz a idêa sem a rebaixar nem abafar,

e dá em fórmulas precisas, syntheses que pelo menos não mentem á

historia, á critica e ao bom senso.

...«venho defender a republica,»--diz Vieira de Castro--«porque ella é

a consagração do direito maximo; porque é ella o pactolo da instrução

universal, sua alimentação e sua eterna sede; porque é ella ainda o

grito de morte inexoravel contra todos os feudalismos, a expropriação

social de todos os cesarismos anachronicos, a condemnação irremissivel

de todos os vadiismos politicos e de todos os servilismos cortesãos;

porque é ella, emfim, e só ella, a verdadeira apotheose e o verdadeiro

verbo da liberdade, a coroação augusta da unica realeza possivel

depois da Divindade, a realeza do individuo.»

Pondo de parte a Divindade, que não vem agora para o caso, Vieira

de Castro collocando o direito individual como pedra angular da

democracia, toca, embora não resolva nem desenvolvidamente exponha

o grande problema, senão o grande principio da sociologia ou antes

da politica _positiva_. Desembaraçada a sciencia politica dos

elementos dissolventes e estranhos em que tem andado envolta, limpa

de metaphysicas arbitrarias, emancipada de subjectivismos mysticos,

ou incultos, ou tradicionaes, e de preconceitos historicos, e de

anormalidades sociaes, e de formulismos falsos e nocivos, extremado

que lhe seja o campo, feita a genese positiva, o direito do estado

só no direito individual terá a sua razão de ser e a sua sancção, a

_casta_, a _corporação_, a _familia_, a communidade

de crença, não terão logar no campo politico, que lhes é estranho, a

liberdade d’acção, de consciencia, de palavra não será considerada como

generosa ou extorquida concessão do estado, mas como direito natural do

individuo, cuja manutenção e segurança é missão e razão, é segurança e

manutenção do estado.

Este não será representante e campeão d’uma classe,--a associação

proverá ao interesse collectivo d’ella,--porque perante o estado só

existirá o cidadão, o homem, na sua personalidade constante e natural,

não o homem que pensa d’esta ou d’aquella fórma, que tem esta ou

aquella crença, mas o pensamento e a palavra que são de todos os

homens, que por isso nenhum póde supprimir ou opprimir no outro, não

o homem que trabalha n’este ou n’aquelle sentido, que exerce este ou

aquelle mister, mas a acção que é a faculdade e necessidade de todos, e

por isso a liberdade de cada um.

O estado não se compõe de crentes d’um principio ou d’uma doutrina. A

essas communidades de fé ou sciencia, chama-se egreja, seita, partido,

escóla, ou como quizerem.

O estado não se compõe de homens de uma dada posição, ou que exerçam

um dado trafico, ou que representem uma dada tradição. A isso chama-se

classe, ou corporação, ou casta.

O estado compõe-se de seres que pensam, que obram, e nada tem com as

diversidades de pensamento, com as variantes do trabalho humano.

A harmonia que mantém, a sua razão de ser, a sua synthese suprema é o

direito _do_ homem, não o direito _d’um_ homem, é o direito

individual, não o direito d’uma classe, d’uma casta, d’uma crença.

D’ahi a verdadeira democracia: governo de todos por todos. Unica

consequencia; synthese logica e natural--_naturæ congruens_.

E não se diga que este individualismo politico conduz á anarchia social.

Não. A liberdade só limitada pela liberdade é a harmonia maxima.

Attenda-se bem.

Se cada um é livre no seu pensamento, na sua palavra, no seu trabalho,

na sua propriedade, a licença, o roubo, o homicidio, a tolerancia, o

monopolio economico ou politico são a negação d’essa liberdade, que o

estado é obrigado a manter illesa e segura.

Diz, e com razão, Vieira de Castro, que a democracia antiga é

diversissima da democracia moderna.

Podia mesmo dizer que no sentido exacto da palavra, que na deducção

positiva dos principios, a democracia não attingira até hoje a sua

fórmula exacta, e que esta anda enublada e indecisa no embate de idéas

e interesses das modernas sociedades.

Accrescenta, porém, que a democracia moderna é filha do christianismo e

parece apresentar a grande republica americana, como realisação d’ella.

Valia a pena discutir esta banalidade, que consiste em attribuir a

determinada evolução religiosa ao christianismo, todos os progressos

e melhorias, subordinar-lhe até todas as evoluções da idéa e do facto

social, denunciadas ou fixadas na civilisação moderna.

Preconceito estupendo que chega a inverter a razão logica dos factos,

dando por causa o que é effeito, e a estabelecer dogmaticamente uma

etiologia que tem sido o escolho da critica historica e o falseamento

mais escandaloso d’ella!

Faz lembrar esta banal doutrina dos effeitos do christianismo, o caso

da porta de que falla Catullus (_ad janum mœchæ cujusdam_.)

A porta é ré constante. Quando alguma malfeitoria se realisa, bradam

todos: «porta! a culpa é tua!»

«Verum isti populo janua quidque fecit,

Qui, quacumque aliquid reperitur non bene factum,

Ad me omnes clamant: _Janua, culpa tua est!_»

A differença é que para todos os grandes e bons feitos, para todas as

melhorias sociaes, o dito é: «Christianismo, é tua a gloria!» O mais

curioso é que muitos dos que concorrem para a apotheose, se collocam

fóra de todos os gremios religiosos que dizem representar a verdadeira

doutrina christã,--talvez por calculada prudencia, porque sabem que a

refutação fôra em tal caso facil e esmagadora.

Architectam pois um Christianismo _ad hoc_, ou dão á palavra um

sentido por tal modo vago e indeciso, que mal póde apossar-se d’elle a

critica.

O Christianismo é uma religião e toda a religião é pela propria

natureza intolerante e exclusivista. Fallando em nome da _verdade

absoluta_, consubstanciando-se com ella, não póde aceitar a verdade

d’outras doutrinas, d’outras religiões. Nega-as, combate-as, e tende

fatalmente a supprimil-as. Isto não é um bem nem um mal. É uma

consequencia natural, exacta, constante, necessaria, fatal, emfim.

Ora a democracia christã só permittiria christãos no seu seio; não

podia,--sem se desmentir,--aceitar outras communidades de fé. Não

as aceitando, desmentia-se tambem, porque abolia a liberdade de

consciencia. N’um caso, contradicção com a fórmula religiosa; n’outro,

contradicção com a fórmula politica. É que as duas não podem fundir-se

sem se destruir mutuamente. Dirão talvez que uma democracia christã

podia estabelecer a _tolerancia_ religiosa. É questionavel isso;

mas a _tolerancia_ não é precisamente a liberdade: _la liberté

serve n’est point liberté_, como dizia o austero L’Hopital, e

accrescentarei ainda com Mirabeau: _La liberté la plus illimitée

de la religion, c’est à mes yeux un droit si sacre que le mot_

tolerance, _qui voudrait l’exprimir me paraît en quelque sorte

tyrannique_.

O que de certo a supposta democracia christã não admittiria, seria

atheus ou materialistas, e eu creio que n’um estado qualquer podem

haver materialistas e que esses taes teem tanto direito a não acreditar

em Deus ou Jehovah, como os que o não são a crerem na existencia

d’elle. E sem querer levar mais longe a questão, fallarei rapidamente

na republica dos Estados Unidos da America, com relação a este ponto,

já que Vieira de Castro a cita com tamanho louvor. Os paes da nova

America foram por longo tempo magnificos modelos de intolerancia brutal

em materia religiosa.

Apesar dos esforços generosos de Baltimore, William Penn e outros,

só quando a guerra da independencia agrupou pela homogeneidade

d’interesses e na defeza commum os paes da grande republica americana,

divididos e inimisados pelas crenças religiosas, é que Washington—-o

vulto grandioso, venerando e sympathico da epopêa da moderna

democracia--conseguiu inscrever a liberdade da fé, e a separação da

igreja e do estado como principio legal na historia da Nova-America.

E digo como principio legal, porque a adopção d’ella foi mais uma

necessidade politica, que a realisação das aspirações e exigencia da

consciencia popular.

Até 1830 conservou a Virginia as prescripções repressivas em materia

religiosa, e hoje mesmo os tribunaes americanos perante os quaes é

aceita a deposição de qualquer sectario, _affirmada_ ou jurada

segundo os principios da sua seita, não aceitam o depoimento de um

atheu ou de quem não professe qualquer crença religiosa.

Mas a intolerancia era enorme n’outros tempos. Os primeiros

colonisadores--perseguidos na Europa pelas suas crenças--não aprenderam

no proprio soffrer a respeitar a fé alheia, e das mais extravagantes e

odiosas oppressões foi theatro por muito tempo aquella terra americana.

Nas differentes colonias a lei prescrevia o culto interno e externo, e

fulminava com penalidades atrozes os que d’ella se afastassem, ou que a

não cumprissem.

Geralmente eram os catholicos os mais opprimidos.

No Connecticut eram coimados os que não comparecessem ao serviço

divino, e os _quakers_ ou outros dissidentes que tentassem

estabelecer-se na colonia eram castigados com prisão, e, se reincidiam,

eram-lhes cortadas as orelhas e atravessada a lingua por um ferro em

brasa.[36]

No Massachutts e New-Haven o padre que transpozesse a fronteira era

condemnado á morte. Nos estados fundados pelos puritanos, a lei

prohibia o fumar, trabalhar ao domingo, limpar a casa, fazer camas,

cozer carne, cortar os cabellos e abraçar ou beijar os filhos em tal

dia.

Em Maryland se estabeleceram 200 familias catholicas com lord Baltimore

á sua frente, por concessão de terras feita a este por Jacques I. Fôra

Baltimore anglicano, e pelas barbaras represalias que vira exercerem os

seus correligionarios contra os catholicos, volvêra ao gremio d’estes.

Não era muito logica a renegação, mas parece que era profundo e sincero

o odio ás perseguições religiosas, porque mal estabelecida a colonia,

fez o generoso lord com que pelo seu _Acto de religião_ (1649) se

estabelecesse o seguinte:

«Attendendo que a repressão em materia religiosa tem produzido os mais

perigosos resultados em todas as sociedades: para manter a paz e a

tranquillidade no governo d’esta provincia e sobre tudo estabelecer

reciproca caridade entre os seus habitantes, não serão incommodadas

na sua crença nem no livre exercicio do seu culto _os que fizerem

profissão de crer na divindade de Nosso Senhor_.» Era muito, mas não

era tudo. Nem tal época dava para tanto.

Acudiram os dissidentes expulsos d’outras partes, e cresceu de

tal fórma o numero d’elles, que se desenvolveu breve uma terrivel

intolerancia de que foram principaes victimas os catholicos.

Meio seculo mais tarde ainda Penn se viu forçado a prohibir-lhes o

exercicio do seu culto.

Finalmente estabeleceu o congresso da independencia a completa

reparação da egreja e do estado, declarou-se incompetente para decretar

em assumptos religiosos, prohibiu que se exigissem juramentos de tal

natureza para o preenchimento de quaesquer cargos, e hoje é geralmente

grande o respeito ali pela liberdade de consciencia.

O estado não tem religião, os filiados em todas as seitas e são ellas

numerosissimas, pouco excedem de 10 milhões em paiz de 35. Porque

se ha de insistir em chamar áquillo uma democracia christã, quando

exactamente não ha religião official nem predominante, quando o estado

se separa da religião, e finalmente quando a caracteristica fatal de

toda a democracia deve ser o respeito pela liberdade do crer ou do não

crer, isto é, pela liberdade da consciencia de cada um?

A egreja official é a tyrannia da crença de um grupo sobre a

consciencia do resto. A democracia, governo de todos por todos,

não póde estabelecer como lei a unidade de crença, sem desmentir a

liberdade de cada um. É desmentir-se a si proprio.

O estado nada tem com a religião. Cada qual creia ou não creia, cada

qual siga o que a sua fé lhe decreta ou a que a sua consciencia lhe

indica.

Não offenda a liberdade, a personalidade, a propriedade de outro, que é

o que o estado tem por fim manter seguro e illeso, e pense embora que

Christo é Deus, que o universo é governado por uma intelligencia e uma

vontade suprema, por um ser talhado á similhança do homem, ou que só a

materia é eterna no tempo e no espaço.

Quanto a estabelecer como filha do christianismo a doutrina da

democracia positiva, coisa é que não resiste a uma critica que se

importe pouco com as banalidades arvoradas em dogmas correntios e muito

com a observação, com a experiencia e com a historia registro d’ambas

atravez dos seculos.

«O mundo antigo não comprehendeu a democracia», diz Vieira de Castro.

«Nem podia comprehendel-a. Era incompleto o sentimento que elle tinha

da liberdade e do direito.»

«O povo estava satisfeito se o deixavam tomar parte na confecção das

leis; e ainda que ellas fossem a expressão da tyrannia, o engodado

soberano não dava por isso de desvanecido pela sua cooperação

legisladora. Por não a terem comprehendido, condemnaram Platão e

Aristoteles a democracia.»

Podiamos já perguntar ao illustre escriptor se era completo o

sentimento que a meia edade tinha da liberdade e do direito como o

comprehendemos hoje; se comprehendiam a democracia os evangelistas

quando punham na bôca do mestre o «Dae ao Cesar o que é de Cesar»,

etc., se a comprehendia S. Paulo quando esboçava a doutrina do

_direito_ divino, aconselhando aos romanos que obedecessem aos

potentados da terra.

«Omnis anima potestatibus sublimioribus subdita sit: non est enim

potestas, nisi a Deo; quæ autem sunt, a Deos ordinatæ sunt», etc., etc.

(_ad Romanos_. XIII).

Comprehendia a democracia o douto africano que escreveu a _Cidade de

Deus_, codigo social do christianismo, e onde transparece a doutrina

aristotelica da escravidão?

Comprehende a democracia a egreja romana?

Ha n’este nosso tempo um facto curioso. Á face dos textos sagrados

e com elles sómente armados, defendem escriptores sul-americanos a

escravatura, contestada á face de sacros textos tambem por escriptores

norte-americanos.

Attendamos á evolução do pensamento humano, attendamos á relatividade

das concepções sociaes, e não precisaremos falsear a historia nem

deprimir passadas civilisações para estabelecer falsas e incompletas

genealogias ao modo de ser social e intellectual do presente.

Vamos concluir.

Por entre os erros e os vicios, por entre as bellezas e conceitos que

temos indicados, vae Vieira de Castro fazendo a apotheose da fórmula

republicana e lavrando a condemnação do monarchismo sob qualquer

fórmula. Algumas paginas dedica a dois cidadãos respeitaveis--um dos

quaes, como bem diz, riscou com o facho da civilisação uma peripheria

enorme e deixou illuminado um continente.

Esse é Lincoln. Tamanho como Washington.

O outro é Johnson. Honrado democrata como poucos, digno successor

d’aquelle.

Merecido e eloquente é o elogio.

Conclue finalmente Vieira de Castro estabelecendo que «não ha historia

em politica», que «ha principios fixos, eternos, invariaveis e

absolutos», para logo em seguida declarar que «não ha systemas

absolutos» e que «a sciencia politica, _de todas as sciencias sociaes

a mais variavel_, é tambem a que necessariamente mais se transforma

e modifica, _desapparecendo sempre, e sempre renascendo_, filha

das peculiares circumstancias de uma occasião, das condições especiaes

d’uma época; obediente á influição poderosa de principios novos e á

acção fatal e intransmissivel do progresso e do tempo.»

É o ultimo sacrificio da logica á palavra, da idéa e da critica nos

altares da enflorada verbosidade. Ainda assim a idéa não se perde de

todo.

Mas o auctor da _Republica_ não quer a republica--«maxima

perfeição governativa»,--para o seu paiz tão cedo, por que a ignorancia

publica é grande, muito grande ainda, porque creio eu, não está ainda

completa e robustecida a consciencia do direito individual, e em vez

d’uma democracia illustrada, forte, pacifica, teriamos a ochlocracia

dos cerebros incultos e dos corações inlapidados, teriamos em vez da

liberdade de cada um a tyrannia e a guerra mutua, a oppressão de todos.

Apregoa-se para ahi uma doutrina de soberania popular que mal

interpretada ou mal comprehendida póde ser uma verdadeira tyrannia.

Tyrannia de muitos tyrannos, isto é, o mal multiplicado pelo mal.

É necessario cautela com as falsas democracias.

Diz Vieira de Castro que em Portugal «não ha verdadeiramente

republicanos.»

Ha um anno dizia eu: «Em Portugal os apostolos conscientes e

conscienciosos, austeros e leaes, sinceros e firmes, os verdadeiros

apostolos da democracia verdadeira não existem por em quanto.»

«Os que para ahi se dizem taes, são: uns, traficantes desvergonhados;

outros, ignorantes atrevidos.

«Conhecem aquelles superficialmente a democracia e negoceiam com ella;

desconhecem-n’a os outros em todos os seus principios e consequencias,

e prejudicam-n’a.»

«Ouvir isto, indigna; dizel-o, punge.»[37] Disse-o, sinceramente

pungido, e ouviram-n’o grandemente indignados os _democratas_ da

janeirinha.

Hoje não concordo completamente com o que então disse, nem com o que

diz Vieira de Castro. Mas nem elle nem eu devemos apressar-nos em

riscar a phrase, porque as excepções ainda não são tantas que desmintam

absolutamente o dito.

Ha muita ignorancia e muita metaphysica na democracia nascente.

Bom é, porém, que intelligencias robustas e corações generosos, que

homens como Vieira de Castro se lancem n’este apostolado nobilissimo,

onde o estudo aturado e consciencioso é o primeiro dever, e a franqueza

austera e firme o primeiro preceito.

Menos custa, aqui, a combater adversarios, que a luctar com as

ignorancias e paixões dos proselytos.

Segundo livro de crítica · 第 73 / 103 题