Era logico isto. «Domini est terra et plenitude ejus.»

Pois bem. Em vez de Luiz XIV, que o catholicismo não canonisou,

ponhamos um _santo_, S. Luiz, por exemplo, e ninguem deverá

revoltar-se contra o poder absoluto, como fórmula governativa na

opinião do snr. Vieira de Castro e de certos democratas metaphysicos.

Mas dir-se-ha: «o _santo_ de que se falla não é simplesmente o

varão que perante a egreja póde merecer tal nome. É a encarnação _da

justiça e da verdade_.» Definam a palavra se podem. Fixem o facto,

extremem, definam, se são capazes, esse ideal _absoluto_.

A escóla da _absolutividade_ cae n’estas affirmações palavrosas.

As entidades que julga crear fazem lembrar aquellas aberrações da

_lucina sine concubito_ de velha medicina ou as de certa alchymia

que lidava por crear o homem _ex contrario e ex abrupto_.

Demais me tenho demorado n’este ponto. A historia do _santo_ de

Vieira e dos _anjos_ do P. Ferreira, faz lembrar a phrase do barão

Louis: «Dae-me boa politica e dar-vos-hei boas finanças.»

É a mesma banalidade n’outro campo. Escassêz de principios, acanhamento

de concepção, phrase empolada e petulante, julgando esconder e

denunciando tudo isso.

Notarei sempre que Vieira de Castro diz que «prefere o positivismo de

Stahl ao idealismo de Hegel», o que desculpa as palavras que temos

estado a discutir. Pois se está ainda no _positivismo_ de Stahl!

Mas depois de estabelecer que «na _comparação abstracta_ de

_todas_ as fórmulas de governo nenhuma é melhor e peor,» e nos

apresentar para a tal comparação _abstracta_, concretisada a

monarchia n’um santo, acrescenta:

«Perante a philosophia dos _principios_ (abstractamente, é

claro) a republica é a suprema verdade, porque a sua natureza _é a

abnegação de todos_ os elementos sociaes por cada um; o seu fim é a

_egualdade de cada um, nivelada_ pela liberdade de todos.»

Sem commentar a primeira contradicção que é manifesta, é claro que se a

republica é a suprema verdade e o poder absoluto, isto é, a monarchia

pura, nas mãos de um _santo_ é a encarnação da _verdade_,

deduz-se naturalmente que a _republica_ e a monarchia absoluta

podem ser a mesma coisa, isto é, que podemos ter ao mesmo tempo e no

mesmo paiz uma republica e um rei absoluto perante «a philosophia

dos principios» de Vieira de Castro. Mas, vemos que a republica é

(sem sairmos d’essa philosophia), a abnegação de todos os elementos

sociaes por cada um, logo de todos por todos, e a realeza absoluta

é a sujeição de todos a um; a republica é a «egualdade de _cada

um_ (passe a phrase) nivelada pela liberdade de todos», e a realeza

absoluta é a liberdade de um fazendo a desegualdade de todos. Não

entro na contextura da phrase que se prestava de certo a illações bem

disparatadas.

Grave defeito é este de sacrificar tudo á fórma e forçar a

intelligencia a _tours de force_ de extravagante lexicographia,

por um arredondamento de periodo ou por uma melhor sonancia de phrase,

o que tudo se podera conseguir sem prejuizo da ideia e da verdade

lexicographica.

A tendencia para basear a republica na abnegação e n’outras virtudes

emprestadas a uma moral convencional e mystica, em vez de lhe procurar

a razão positiva de ser na propria natureza humana e evolução

historica, é coisa que fica para outro logar discutir.

Vejamos, porém, como Vieira, tendo estabelecido que em _comparação

abstracta_ nenhuma fórma de governo era melhor ou peior, faz o

confronto «perante a philosophia dos principios (?)» entre a monarchia

e a republica. «O monarchista ama o seu rei, _exalta a dedicação do

homem pelo homem_, e põe a _sua_ salvação na hereditariedade da

_sua_ dynastia!»

O ponto de admiração vem no texto--mas pertence antes á critica. O

monarchista póde amar ou não amar o seu rei; o que elle ama com certeza

é o seu systema, e em quanto ao principio da hereditariedade, não é e

não tem sido condição indispensavel de toda a fórmula monarchica, e

muito bons monarchistas o não têem acceito, ou o têem desprezado. Não

é tambem necessario ser monarchista para exaltar a dedicação do homem

pelo homem, bons monarchistas tambem a tem deprimido e não vemos que

ella seja elemento do machinismo monarchico.

«A republica _adora_ a patria, sacrifica-se pelo estado e não se

salva senão pela lei, que quer dizer justiça e egualdade, dualismo

poderoso perante o qual todos os individuos são pequenos, mas todos os

mesmos, addindo sempre uma mesma herança, fruindo o mesmo direito e

legando sempre uma soberania!»

Isto diz ainda o snr. Vieira de Castro, e ainda póde exclamar com

Hamlet, o leitor e o critico:

_Words, words, words!_ Onde se diz «Republica», bom é para o

auctor que se entenda: «o republicano». Mas o monarchista não ama a

patria, não se sacrifica pelo estado?

Não nos demoremos.

Na definição de lei continuamos a vêr a apotheose palavrosa. N’isto

prefiro o _positivismo_ de Cicero: _Lex naturæ congruens_ ou

_Ratio profecta a natura rerum_.»

Ficamos tambem sabendo que na republica os «individuos são pequenos.»

Julgavamos que todos eram socialmente grandes; maiores que em fórmula

alguma politica.

Vieira diz tambem: «A republica diz ao individuo: sê orgulhoso e livre,

e faze o teu trabalho a civilisação da humanidade!»

Que pequenez!

Expõe-nos tambem que a republica só uma _aristocracia social_

reconhece: a do talento, uma só virtude civica: a do trabalho, _uma

só_ religião _verdadeira_: a da honra. Significa isto que toma

a serio esta costumeira banal e inscientifica que chama ao talento

_aristocracia_, ao trabalho virtude, e á honra uma religião. De

feito a honra que por ahi se apregoa é talvez uma religião por ser

coisa de fé e não de sciencia. Diga-se de passagem que Montesquieu

estabelecia como principio do despotismo o temor, como o das republicas

a _virtude_, e como o das monarchias a _honra_.

Quer-me parecer que via as coisas melhor, mais fundo.

Longa e demorada vae já esta apreciação.

Mas além de me deitar a grande tamanho, tem vindo de corrida, aos

saltos quasi, pouco concatenada, e sem a systematisação que teria n’um

livro, mas que não póde ter n’um periodico. Já agora vá assim ao cabo.

A comprovação e a deducção historica no livro de Vieira de Castro

teem defeitos identicos aos que rapidamente notei na abstracção

philosophica, na generalisação doutrinaria e na partidaria apotheose.

Muito a correr fallarei na apreciação, rapida tambem, que Vieira faz do

estado politico e social d’esta nossa terrasinha, até por que já n’isto

fallei. Diz o auctor da _Republica_ «que é noute em Portugal ha

muitos mezes» e que «o crepusculo pavoroso d’essa noute condensou-o

a _grève_ de janeiro.» Trata depois de justificar este epitheto

_grève_ dado a uma balburdia politica que para ahi se fez em

janeiro de 1868, graças ás ignorancias de muitos, á traficancia de não

poucos, á nimia boa fé de bastantes, e á imprudencia d’alguns.

Aquillo de certo não foi revolução nem revolta, a menos que se não

tenha revolucionado a lexicographia para contento dos que andaram a

promover e desenvolver o _movimento_.

Mas Vieira não quer que se lhe chame tambem _movimento_.

Segundo livro de crítica · 第 72 / 103 题