Paizagem ou marinha? Ambas as cousas, que nem ellas propriamente se
differenceiam.
Singelo e commovente quadro!
Agua e céo, luz e azul, um braço de rio ou uma porção d’um lago, a lua
derramando effluvios de luz nas aguas adormecidas, um barco grosseiro e
dentro um pobre remador que parece extasiado ante aquelle formosissimo
panorama. O céo não está limpido.
Amontoam-se indecisamente as brumas e apenas--como n’uma
clareira,--expande a lua o seu clarão suave e triste.
Eis o quadro.
Technicamente as tintas estão bem postas, os tons excellentemente
estudados, o desenho é bom: emfim está tractado tudo com muito
amor. Diga-se porém a verdade toda: ha pouca solidez de empaste e a
perspectiva aerea não é irreprehensivel. Diz-se que houve exagero no
emprego do azul.
Parece-me injusta a accusação.
Tenho amor a este quadro. Quasi o vi nascer e baptisei-o, a medo: «Uma
noite d’inverno.»
_La Muse est toujours belle
............................................
Car sa beauté pour nous c’est notre amour pour elle._
(A. DE MUSSET.)
Ha no inverno noites d’aquellas, noites de luar alvissimo, de céo
profundamente azul, d’ares finos e frios, de horisontes despidos da
gaze d’emanações que ás vezes os envolve por noite estival.
Soberbas noites!
Não ha a volupia da brisa aquecida e perfumada, não ha a
_morbidezza_ d’um luar tépido, sensual, permitam a expressão.
A brisa traz-nos os frescores do pinheiral da encosta. Alenta, não
amolece; vivifica, não embriaga, então.
A lua ao erguer-se no horisonte não osculou um cimo requeimado.
Mirou-se na chapada de neve da montanha.
Sois as noites de trabalho, de energia, de pensamentos viris, dos
fortes e puros amores, oh noites serenas de inverno!
Perdoem a digressão.
Nos quadros: «Corveta Estephania», «Esquadra ingleza», «Galeota
hollandeza», «Vista da esquadra franceza em Spithead» e n’outros,
o _pintor de marinhas_ se não desapparece, apresenta uma
feição peculiar que está longe de satisfazer a arte nas suas
melhores inspirações, não como ella se toma ás vezes, mas como e
no que é realmente. Pedroso apresenta-se-nos simplesmente como um
retratista--copista de navios.
E admiravel retratista decerto! Que correcção de desenho, que exactidão
e cuidado na representação do modêlo!
Nem uma adriça de menos, nem um _cadernal_ a mais, quasi; as
proporções da _guinda_ perfeitamente guardadas, o _massame_
cuidadosamente estudado, as fórmas contornadas com a mão firme e exacta.
Ha, porém, nos quadros que mencionei, outros merecimentos. Por vezes as
aguas e os ares são excellentemente tocados, e geralmente as tintas bem
postas e bem harmonisados os tons. A «Fragata couraçada sahindo o Tejo»
é um modêlo de desenho naval.
Os ares, porém, estão mal estudados e o effeito da luz e do sol que
desce no horisonte é realisado por tons exageradamente violentos e
falsos. Os effeitos dos raios solares constituem grave difficuldade com
que Pedroso lucta persistentemente, perigoso problema com que teima em
arcar. Louvavel teimosia é de certo.
A arte é uma Sphinx tão terrivel e embaraçadora, como a da mythologia.
E Sphinx que tem alguma cousa da hydra de Lerno.
Não propõe um problema; apresenta mil. Resolvido um, acode logo outro e
outro.
Surge uma cabeça por cada cabeça cortada. Onde está Œdipo?
Onde está o Hercules?
«Querena no Tejo», é quadro que reclama de certo mais estudo e mais
cuidado, mas que ainda assim tem notaveis merecimentos. O desenho é
excellente, o fogo está bem representado e o luar tem verdade.
«Aguaceiro», «Navio corrido», «Ericeira», «Piloto do Havre», «A enxugar
o panno», «Chalupa», «Á entrada do Havre», são quadros da eschola
hollandeza de marinhas, que honram por vezes o auctor e lhe aconselham
outras tantas mais estudo da natureza, muita constancia n’aquelle e
muito amor a esta.
Na «Vista do Tejo», ha tons exagerados. O «Aguaceiro» é um excellente
quadro.
Não me recordo se o _conselho dos competentes_ concedeu alguma
medalha ao artista de que me estou occupando. Importa isso pouco. Que é
um artista de merecimento, muito trabalhador e muito estudioso, é que
importa que todos saibam, para fustigar com o exemplo as reputações
adormecidas sobre os louros comprados ou colhidos nos quintalejos do
compadrio e da _claque_.