Ri-se a gente d’aquillo e pergunta: «Ha _tænia_ no Olympo?»

O desenho do quadro não é mau; é até geralmente bom: os longes estão

soffrivelmente tractados, e podiam ser excellentes os ares ... se as

tintas estivessem bem postas.

Mas os raios!

No fixar,--deixem dizer assim,--a «vida em acção», na representação

d’um momento dramatico da natureza como da sociedade ou do homem, as

artes opticas, por conveniencia, por necessidade da propria unidade

de composição e expressão, da propria verdade representativa, pelas

condições da peculiar indole e recursos, têem que pôr de parte certos

incidentes, que demais são implicitamente denunciados pela acção

traduzida, e cuja representação seria uma falsidade, um absurdo, um

effeito contra-producente.

Entre elles estão os que pela sua instantibilidade inapreciavel

por assim dizer, e pela sua natureza intangivel, não se prestam á

representação permanente, á fixação, á determinação plastica.

Que ha de commum, de semelhante, n’uma pincelada caprichosa, amarella e

vermelha, suspensa permanentemente sobre um objecto, com o instantaneo

e casual faiscar d’uma descarga electrica?

Não é ridiculamente, audaciosamente falsa a representação?

E que necessidade ha d’ella? Deixae que supponhamos o raio em vista

d’aquelles bulcões tempestuosos. Precisaes para representar uma

batalha, _pintar_ os milheiros de balas que se cruzam no ar?

Esta fixação de instantaneos e consequentes incidentes não tem verdade

esthetica e tiram-n’a á acção total, representada.

Poderá talvez allegar-se que se tem _pintado_ muitas vezes raios.

Assim poderá ser. Um disparate porém não justifica outro, e as

condições criticas e concepcionaes da arte, não são hoje as d’outras

eras.

Demais, attenda-se a que se trata d’uma pintura, realista, ou

d’_après-nature_.

Continuemos, porém.

O assumpto do quadro: «A corveta» é tirado do livro de versos

«Ephemeros» de Gomes d’Amorim. Determina-se isto no catalogo.

É uma explosão.

Os versos são os seguintes:

«_Abrem-se as vagas e um clarão terrivel

Refulge sobre os mares!

O espaço abala uma explosão horrivel

E os tres navios voam pelos ares.

Morrera satisfeito,

O bravo portuguez amortalhado

Nas quinas que levava sobre o peito!_»

Póde _pintar-se_ isto?...

A poesia tem meios de representação, instrumentos e effeitos bem

diversos dos das artes opticas.

Tem-se representado na tela, é verdade, muitas explosões e não vigoram

completamente para o caso as considerações que ficam expostas atraz;

note-se, comtudo, que geralmente se representam as explosões no meio da

escuridão da noite, para pelo contraste se conseguir maior aproximação

da verdade dos tons e effeitos. É uma convenção rasoavel.

O «Cabo la Hogue» tem innegavelmente boas aguas, posto lhes falte uma

certa diaphaneidade que difficil é encontrar nos nossos pintores de

marinhas. O fundo é excellente. Ha certa harmonia e verdade de tons; a

_mancha_ e o desenho são toleraveis.

O mesmo acontece com o «Pernambuco de mar em fóra», titulo aliás

equivoco.

A «Bahia de todos os Santos» tem má perspectiva e soffriveis aguas.

O «Arrogant», fragata ingleza, apresenta aguas mal desenhadas,

picotadas de mais; bons fundos e bom desenho de navio.

Na correcção do desenho naval é sempre Thomasini bem inferior a Pedroso.

O quadro «O tenente Lopes d’Andrade» faz lembrar um outro do mesmo

author, exposto ha tempos sob o titulo: «O patrão Joaquim Lopes».

Onde estava o Joaquim Lopes?

Onde está o tenente Lopes d’Andrade?

Vê-se um navio desarvorado, um escaler que parece luctar com os

vagalhões para o soccorrer e dois navios ao fundo. Isto é mais do que

um homem, e o que é peior é que o homem não se vê. Consubstancia-se

n’elle toda a acção? Nem é uma lisonja, porque é um absurdo. É tambem

um quadro d’_illustração_ este. O catalogo refere-o ao n.^o 26

dos: «Annaes do Ultramar». As aguas estão soffrivelmente coloridas, os

ares são bons, e o desenho dos navios é excellente.

«A chegada» e o «Alagoas» têem bastantes incorrecções de desenho e

colorido, mas bons fundos e ares.

Thomasini não é de certo um auctor de marinhas consummado e falta-lhe

muito para um completo artista.

Tem porém um pincel arrojado; inspirado e eloquente por vezes, que

precisa adquirir maior firmeza á custa de muito estudo.

Á falta d’este junta-se a falta de criterio. É defeito geral entre

nós, costumando de mais a mais exalçar-se o merecimento artistico

pelas aberrações de concepção e pelo desprezo e carencia de cultura

intellectual.

Thomasini distanceia immenso de Newton na questão da verdade ou

naturalismo da coloração. Ou não o procura ou escaceia-lhe o sentimento

da côr _natural_. O caso é que quasi nunca a realisa.

Não tem tambem clara consciencia das suas forças e das reservas e

limites da arte que cultiva.

Abalança-se a tentativas perigosas e a explorações impossiveis.

Uma d’estas foi a d’aquella magnifica representação «camoniana» do

Adamastor, na passagem do Cabo da Boa Esperança, ou das Tormentas.

Quiz reunir a _illusão_ com a _realidade_ no mesmo

ponto. Olhava-se para o quadro e via-se um Promontorio, isto é, a

_realidade_ primeiro. Fixava-se mais attentamente, examinava-se,

analysava-se e então é que se dava pelo que devia ser _illusão_

produzida pelo primeiro relancear a distancia; via-se então emfim que

o Promontorio era o meio corpo d’um Gigante, o Adamastor. A illusão

optica vinha depois da percepção exacta; curiosa mystificação!

Fallemos agora de João Pedroso.

Segundo livro de crítica · 第 52 / 103 题