PEDROSO (João)--THOMASINI (Luiz Assencio)

Altero arbitrariamente a ordem do catalogo.

Não julguem por isso que miro a uma classificação qualquer.

Fôra difficil, senão impossivel, apresentar uma, natural e

logica, n’um tempo e n’um logar em que imperam tantos elementos

diversos,--heterogeneos até.

Entrando na Exposição de 1836, dizia Alfredo de Musset:

«_De quoi est-on d’abord frappé?_

«Nada de homogeneo, nenhuns pensamentos communs, nenhuma eschola,

nenhuma _familia_, laço algum entre os artistas na escolha dos

assumptos como na fórma.

«Cada pintor apresenta-se isolado, e não sómente cada pintor, mas

muitas vezes até cada quadro do mesmo pintor. As telas expostas ao

publico não têem geralmente nem mães, nem irmãs; julga-se a gente

n’aquelles tempos de decadencia em que a eschola bolonheza, querendo

reunir todas as que distinguiam Florença, Roma e Veneza, acarretou ás

artes tanta confusão.»

Juntando os nomes dos dois conhecidos pintores de _marinhas_,

não miro a constituir com elles um grupo, ou com estas uma familia

artistica.

Faço isto simplesmente por que o assumpto, o _genero_, se querem,

tractado pelos dois artistas é o mesmo, o mesmo aproximadamente teria

eu que dizer d’ambos e porque no pleito artistico que parece andar de

ha muito travado entre elles, ha porventura injustiça de juizes que

convém desfazer, erros e preconceitos dos contendores que bom é por

interesses d’elles rectificar.

Não ha intenção de systematisar.

Thomasini, homem do mar, dizem-me que lança mão do pincel para

registrar na tela as impressões e reminiscencias pessoaes da sua vida

laboriosa.

Tem visto sorrir-lhe lisongeiramente a criticasinha leviana e parcial

da nossa terra, e aureolar-lhe o nome uma certa popularidade inculta e

inconsciente que,--ainda assim,--satisfaz as vanidades de quem não se

ala em illustrado criterio muito acima d’ella.

Thomasini tem sido um artista feliz e ainda bem que o tem sido e é,

porque mais afoitamente lhe podemos pedir contas dos incitamentos que

tem recebido, dos applausos que lhe têem dispensado, do renome emfim em

que lhe andam guindadas as telas.

Com Pedroso não acontece o mesmo.

Artista trabalhador, modesto como poucos, obscuro como tantos

que trabalham e estudam, não tem que justificar uma reputação

laureada de encomios e pasmos; não temos que lhe pedir contas por

um nome thuribulado e glosado nos _outeiros_ em que se glosa

quotidianamente o vocabulario panegyrista.

É escusado dizer porque Pedroso não anda bifurcado n’uma reputação

entufada.

Não rememoremos miserias da nossa pobre vida artistica.

Mas o que é certo é que dois quadros de Thomasini na presente

exposição: «Trovoada no Rio de Janeiro» e «A corveta» abalariam a

reputação mais solidamente architectada, e não me parece que as

outras telas expostas, d’este artista, possam fazer esquecer aquellas

lamentaveis quedas.

Na «Trovoada» as duas _pinceladas_ amarellas e vermelhas que sabem

d’um céo cinzento, e chato, e que se quer fazer passarem por dois raios

convergindo para fulminar uma pobre barcaça que baloiça n’um mar opaco,

são d’um tristissimo effeito e não abonam nem o criterio nem a technica

do pintor.

Segundo livro de crítica · 第 51 / 103 题