a observação do proximo. As nações são n’este ponto como os homens.
De 51-2 para 78-9 o valor do nosso commercio e o rendimento das
nossas alfandegas triplicaram; mas para prevenir os optimistas convém
dizer que, ainda triplo, não vae além de 13:500 rs. a capitação
do nosso commercio externo: quasi o mesmo que em 1818, já depois
dos francezes,[43] e sem contar com a subida do valor dos generos,
proveniente do da diminuição do valor da moeda. Não exageremos pois
a nossa fortuna. E menos o devemos fazer ainda, quando observarmos
que, sem uma crise, sem uma guerra, apenas com estradas e caminhos
deferro; sem justificação cabal, a não ser a do nosso desgoverno, nos
temos endividado de modo que, se em 54 cada portuguez pagava 600 rs.,
cada portuguez paga por anno, em 79-80, rs. 3:077 de juros da divida
nacional.
Não ha duvida que a riqueza collectiva tende a crescer, embora o
accrescimo da população seja lento: outrotanto succede em França, e
todos sabem que os dois movimentos podem não corresponder, podem ser
até inversos. É de esperar, comtudo, que em outro quarto de seculo
triplique ainda? De certo não. Houve causas especiaes que determinaram
um salto, e ha causas organicas a impedir as progressões rapidas, só
com effeito observaveis nos paizes onde a industria occasiona uma
singular condensação de riqueza, como na Inglaterra, na Belgica, na
França do norte, na Alsacia, etc. Os paizes principalmente agricolas
só enriquecem lentamente. A nós succede-nos que, além de nos faltar
o carvão, materia prima industrial, nos faltam materias primas
incomparavelmente mais graves ainda: juizo, saber, educação adquirida,
tradição ganha, firmeza no governo e intelligencia no capital. Todas
estas faltas essenciaes, e o avanço ganho pelos outros povos da Europa,
affigura-se-nos condemnarem-nos a ficar decididamente occupados em
lavrar terras e emigrar para o Brazil. Os lucros agricolas e o dinheiro
dos repatriados são o mais liquido das nossas economias nacionaes. A
tentativa fabril do setembrismo não foi mais feliz do que a pombalina;
e o vapor matou a nossa industria historica de transportes maritimos,
porque tambem fomos uma Grecia marinheira, no extremo opposto da
Europa. Estava na natureza da Regeneração o ser livre-cambista: esse
proto-naturalismo ainda não definira as nações como organismos: via
apenas massas, e a circulação livre como vivificação. O _meio_ atrophia
e extingue muitas especies; e contra a influencia d’elle reagem os
cruzamentos, as domesticações, todas as artes humanas. A sociedade
é em grande parte um producto d’ellas; e tambem o homem é um animal
domesticado por si proprio.[44]
Regenerada á solta lei da natureza, a nação vê que, em parte
consideravel, a riqueza creada sobre ella não lhe aproveita. Os
caminhos de ferro que não são do Estado, pertencem a estrangeiros; a
estrangeiros o melhor das nossas minas; estrangeiros levam e trazem o
que mandamos e recebemos por mar. Só o solo nos pertence, só o liquido
do rendimento agricola nos enriquece? Não. Á fartura de uma população
rural ignorante, junta-se a opulencia das classes capitalistas de
Lisboa e das cidades do norte, não mais culta, porém mais _videira_.
Uma granja e um banco: eis o Portugal, portuguez. Onde está a officina?
E sem esta funcção eminente do organismo economico não ha nações. Póde
haver populações provinciaes; póde haver Monacos; mas falta um orgão á
circulação, um membro ao corpo humano. Um povo constituido em nação é
como um abecedario: todas as lettras lhe são necessarias para escrever
o que pensa.
E como em Portugal faltam lettras, os escriptos portuguezes não se
entendem. Assim as populações ruraes e as urbanas, a propriedade e
o capital, sem o nexo da industria, isoladas, não se penetram. Se o
capitalista compra terras, é para as arrendar, vivendo sempre do juro.
E capitalista e proprietario, provinciano um, cosmopolita o outro,
nenhum sente palpitar em si a alma da nação. Um olha para os milhos,
o outro para os papeis, absorvidos ambos no seu interesse egoista,
indifferentes a tudo o mais. A economia consumma de tal fórma o que
a historia preparou: o governo é um _rifacimento_. Os politicos são
uma classe áparte; as finanças e o Estado um _outro_, um extranho a
que o proprietario pede _melhoramentos_ e o capitalista _juros_. Como
corretor, o politico, de permeio, recebe de um os emprestimos, dá aos
outros as obras, e vive da corretagem. Proclama pois a excellencia de
tudo, e quando apregôa o credito que temos _lá fóra_, esquece dizer que
os banqueiros de Paris são tambem outros corretores que sabem o destino
final dos papeis em mais ou menos breve praso: a burra do brazileiro.
Que se lhe dá o proprietario do que passa em Lisboa? Imagina com razão
que nada lhe arrancará d’alli ao pé o caminho-de-ferro ou a estrada.
E ao capitalista que se lhe dá? Os jurinhos vão vindo; rabiscando por
aqui, por ali, jogando um pouco, assignando emprestimos, creando o seu
banco, etc. vive bem, satisfeito, os annos que lhe restam. É positivo e
pratico, como os que não vêem um dedo adiante do nariz. E finalmente o
politico, esfregando as mãos, demonstra em discursos e relatorios que
se não póde ir melhor: os rendimentos crescem: vejam! Como é grande
o nosso paiz! E a platéa de Sanchos, mas sem ironia sequer, Sanchos
conservadores, Sanchos demagogos, Sanchos monarchicos e republicanos,
metaphysicos e positivistas, proprietarios e capitalistas, nobres e
burguezes: toda a platéa applaude, grita, acclama a fortuna do grande
reino da Barataria.
Decerto é um desvairado misanthropo, nada moderno, que contesta o
fundamento de acclamações tão unanimes. Desvairado o que pergunta qual
cresce mais: se a receita, se a despeza? Desvairado o que pergunta com
que recursos se fará o que falta: a instrucção que não temos, as obras
publicas de que possuimos apenas uma amostra. Desvairado, o que indaga
a raiz das cousas e se não contenta com os aspectos. Desvairado, o que
pensa no que seria de nós se o brazileiro desconfiasse, e deixasse de
comprar a divida com que saldamos contas annualmente; ou se uma guerra,
outra crise na America, embaraçasse o ingresso dos capitães.[45]
Desvairado o que pergunta o que será de nós então: que fazer de toda
a gente: orfans, viuvas, hospicios, asylos, hospitaes, com os seus
fundos _convertidos_ em papel do Estado? Então, na crise da penuria, se
observará a limpo a verdade da confiança!
E entretanto essa crise affigura-se a espiritos desvairados como
o nosso, tão fatal, tão necessaria como a crise constitucional, e
muito mais séria do que ella. Se a nossa _liberdade_ é a expressão
da nossa absoluta anemia politica, a nossa fortuna apparente exprime
a nossa cegueira economica. E assim como a todos convém não bolir na
constituição, assim convém a todos que se não bula na reputação de
ricos. Como ao enfermo ou ao arruinado, sobre tudo nos convém guardar a
immobilidade e as apparencias. Quem lucra em as negar? Quem tem coragem
e força para dizer da tribuna do governo: peccámos, senhores, peccámos:
perdoae-nos! Quem tem genio para indicar o caminho do arrependimento?
As causas vêem de mais longe: estão na fatalidade das cousas, de que a
vontade dos homens é apenas o instrumento.
E como se haveria de exigir d’elles uma confissão de arrependimento que
os arruinaria a todos? aos politicos nos seus interesses e vaidades;
aos capitalistas nos seus juros e papeis; aos proprietarios nas
urgencias que têem de novos caminhos? Não seria querer mais do que as
forças humanas consentem?
Por uma doirada estrada, tambem se vae para o supplicio. Em Roma, que
pensaria o boi quando o adornavam de collares e faxas preciosas, para
o conduzirem ao altar nos _suovetaurilios_ lustraes? Como uma rez, nós
marchamos todos, seguindo os sacerdotes que nos levam, perfumados de
myrrha, coroados de plantas odoriferas: bellas phrases, sorrisos de
satisfação alegre, passo grave e gesto largo. Mas em Roma o sacerdote
sabia que ia matar o boi: em Portugal ignora o politico que talvez
conduza a nação ao seu fim? Mede bem o alcance do _ponto_ futuro,
inevitavel? O da Regeneração foi o fim da Liberdade: como se chamará o
que nos espera?
3.--AS QUESTÕES GEOGRAPHICAS
Já em outra obra,[46] já em paginas anteriores d’esta, dissemos o que
deviamos ácerca do lugar da nossa terra na Peninsula. E se o leitor
tem presente o que escrevemos, decerto faz uma observação. É a mais
singular das feições singulares que temos successivamente indicado.
Mais ou menos, um ou outro dia, todas as nações pequenas tiveram a
receiar a perda da independencia: não é isto o que nos particularisa.
Em nós succede que, no decurso de uma historia de já quasi oitocentos
annos, é constante o sentimento, ou de medo, ou de esperança em uma
fusão no corpo da nação visinha. Este oscilar da opinião tambem de
norte a sul, como um catavento, sem estabilidade, não está mostrando
a falta do que quer que é similhante ao lastro que mantém seguros,
enterrados n’agua, os navios? Agora, são guerras feridas para nos
defender, logo planos para nos annexar; agora declamações de odio a
Castella, logo confissões de impotencia no isolamento. E isto vem
assim, durante oito seculos, como these e antithese, que se não
resolvem. Singular! Não parece que, no desdobramento dos nossos
pensamentos collectivos, nunca chegou a formular-se cathegoricamente
o da independencia? Não parece que, no desenvolvimento do nosso
organismo, se por um lado attingimos a independencia politica, a
litteraria, a lingua independente, falta ainda--faltará sempre?--um
que quer que seja bastante, para dar a populações provincialmente
differenciadas, a differenciação radical que affirma as nações? Um
protesto póde ter força para conservar de pé quem o pronuncia, e a
prova é a nossa separação de facto; mas não é singular que, apezar de
ás vezes parecer esquecido o sentimento de negação e ganhar segurança
consciente o da autonomia: não é singular que, declarada uma crise,
appareça invariavelmente, e até hoje, o espirito nacional dividido
entre as ameaças do patriotismo, as confissões da fraqueza, e as
esperanças da união?
Notado este caracter da nossa historia, ainda patente em nossos dias,
não nos cumpre agora indagar-lhe as causas nem expôr-lhe a theoria:
trata-se de estudar a influencia que póde ter nos destinos ulteriores
da nação.
É fóra de toda a duvida que a Europa se constitue no seculo actual
em um grupo de grandes imperios, cujo contorno definitivo ainda não
está inteiramente desenhado. Varias cousas concorrem para isso: a
complexidade crescente do organismo das nações, a centralisação
de commando consequente, a natureza dos meios de communicação, de
aggressão. N’esta lucta para a vida collectiva são tambem devorados os
pequenos, e por isso, quando causas imprevistas não venham impôr uma
direcção differente ás tendencias constitucionaes das nações europêas,
parece necessario que n’um periodo mais ou menos distante Portugal e
todas as demais nações minusculas desappareçam.
Não é, comtudo, essa ainda propriamente a questão. Por grande que
seja a nossa basofia e a mania da desproporção com que entre nós
se avalia tudo, é facto que teriamos de obedecer, voluntaria ou
involuntariamente, a um destino geral e necessario. Se o concerto
europeu decretasse, e a Hespanha podesse cumprir o decreto de
absorpção, para onde se havia de appellar? Pelo amôr de Deus, supprima
o leitor aqui as phrases inchadas que a tal respeito escrevem os
jornaes e dizem os deputados: morrer até ao ultimo, alviões por
armas, etc. Tambem os chinezes pensaram fazer parar as tropas
franco-britannicas, vedando-lhes o caminho com monstros de papel
pintado! Mas o palacio de Pekin ardeu.
Não temos exercito digno d’esse nome, é verdade; nem a raia, nem os
portos defendidos. Mas não é essa a questão, porque havendo vontade e
dinheiro o problema resolve-se, ainda que a relação entre a extensão
das fronteiras, terrestres e maritimas, e a área e população de um
reino estreito e longo aggravam as dificuldades. Embora. O portuguez
é, como o turco, um bom soldado; krupps compram-se; e quando não ha
generaes, alugam-se. Assim nós fizemos sempre: Schomberg, Lippe,
Beresford, Solignac, Bourmont, Napier.--Resta porém dizer que tudo
isso seria em pura perda: a Dinamarca estava armada até aos dentes e
bateu-se denodadamente. Esta hypothese de uma absorpção sentenciada
pelos congressos europeus, é porém relativamente indifferente para o
nosso caso. Está claro que a sentença se cumpriria por vontade nossa ou
_per vim_. Contra a força não ha resistencia.
O que nos interessa a nós saber, é se da marcha natural das nossas
cousas sairá ou não, declarada uma crise, a perda da independencia:
porque, se não queremos perdel-a, convém tambem estudar o modo de o
conseguir. Ora n’este momento, se escutamos os pareceres dos homens
graves, ve-mo-nos sériamente embaraçados, porque tambem achamos os
pensamentos dos estadistas correndo como cata-ventos, do norte ao sul,
de um polo ao polo opposto. Singular terra em que tudo gira á mercê do
vento, e permanentemente se discute a propria raiz da vida nacional!
Não se diria que ella, arrancada do solo, batida pelo ar, sem alimento,
se mirra?
Mousinho e Palmella, na crise da primeira metade do seculo, tiveram
opiniões oppostas; e durante a paz da segunda metade essas duas
opiniões continuam antagonicas. Um dizia que, perdido o Brazil, nós
perderamos os elementos de vida independente: D. João VI chamava a isto
o seu _canapé_ da Europa. Outros, variando agora sobre o mesmo thema,
apoiam o parecer quando declaram indispensavel á vida portugueza fazer
da Africa um novo Brazil.--De outro lado, com sérios argumentos,
mostra-se a differença dos tempos e dos meios, e condemnando-se o
dinheiro gasto nas colonias--dinheiro perdido!--repete-se a opinião
de Mousinho, affirmando-se que qualquer porção de gente, trabalhando
e vivendo em qualquer zona de territorio, póde constituir uma
nação: Portugal tem dentro de si, na Europa, elementos de vida e
prosperidade!--Não será facilimo destruir os argumentos de uns pelos
dos outros, e concluir por uma negação total? Talvez se chamasse
temerario, e decerto se lapidaria quem o fizesse. Mas o que é
necessario affirmar, embora chovam pedras, é que uma tal divergencia de
opiniões sobre o proprio nó vital portuguez depõe muito pouco em favor
de uma conclusão affirmativa.
O leitor sabe como, ancorada em Lisboa a patria pelos seus fundadores,
principiámos a saír o Tejo, a rodear a Africa e viemos a viver da
India, e do Brazil depois. Sabe que meios se empregaram, e tambem
que differenças de condições e idéas ha hoje: o commercio é uma
concorrencia, não um monopolio; o trabalho é livre, não forçado,
etc.[47] Se portanto inquirirmos a historia, acharemos na tradição
fundamento para o primeiro parecer; mas se estudarmos as idéas e
condições actuaes, parece-nos claro que essa tradição se scindiu, e que
é pelo menos problematico o exito da empreza de a restaurar.
Em que ficamos, pois? Sim ou não? Quem sabe? O vento assobia, a agulha
gira, do norte para o sul, do sul para o norte ... Se não ha opiniões
firmes, como ha de o critico descobril-as? Quem sabe? Talvez? O
ministro fulano disse, o conselheiro sicrano opinou ... E emquanto,
rodando, girando, a agulha obedece aos movimentos mais desencontrados,
o critico observa que a nação, nas suas granjas e nos seus bancos,
ceifando cearas e juros, provincial ou cosmopolita, vae andando. Vamos
indo; vamos vivendo. Não é a unica observação positiva que se póde
fazer?
O egoismo deita para depois de si o diluvio; o espirito pratico
olha apenas para o pão-nosso de cada dia. A verdade é que Palmella
enganava-se quando suppunha o Brazil perdido. O Brazil dá-nos muito
dinheiro, sem o trabalho de o governarmos. Mas o que poupamos por esse
lado perde-mol-o por outro. Outr’ora vinham _quintos_ para o Thesouro,
hoje vêem saques para particulares. Esses saques breve se convertem em
inscripções, é verdade; mas o processo é mau, porque, assim, o Thesouro
tem dividas em vez de rendas; e se por fim, quando o _ponto_ final
vier, o resultado tivér sido o mesmo, o _ponto_ trará comsigo a mais
grave das crises.
Perdemos ainda por outro modo. Outr’ora o portuguez ia, voltava, sem se
desnacionalisar; hoje não renega a patria, mas casa-se com brazileiras,
desenraiza-se da sua aldeia e vem para o Porto ou para Lisboa formar
uma classe exotica, opulenta, mas com um papel desorganisador da
homogeneidade e do funccionar normal da economia da sociedade.
Cosmopolitas, esses caçadores de juros, nada vêem fóra dos papeis: nem
o trabalho, nem a industria, nem o estudo.
Que remedio? Um unico, evidente, immediato: exploral-os. É o que faz a
politica pratica, sacando-lhes o dinheiro em emprestimos com que compra
por _melhoramentos_ a adhesão dos campos; sacando-lhes tambem subsidios
para directamente comprar os eleitores soberanos das cidades. Que
remedio?
O diluvio dista ainda; e no armazem dos expedientes ainda os ha com
fartura. Com o dinheiro do Brazil, directa ou indirectamente se
resolvem as questões internas; com a tradição brigantina da alliança
ingleza consegue-se manter uma independencia de acrobata no trapezio.
As colonias, dadas, pedaço por pedaço, desde 1640, servem de maroma.
Havia um resto de India que nos servia para nada, aos inglezes para
muito: enfeodou-se, e muito bem. Porque se hesita em dar Moçambique,
o Zaire? Porque a agulha com um sopro de vento apontou ao norte: as
colonias são a salvação do paiz!
Mantém-nos, comtudo, de pé só esta protecção da Inglaterra? Não, de
certo. Defende-nos a desordem da Hespanha, por tantos lados similhante
á nossa; defende-nos o haver lá aquillo mesmo que faz o nosso mal
organico: a falta de alma ou pensamento consciente na direcção do
Estado. Defende-nos tambem, vagamente, a historia, com os seus sete
seculos tão fustigados pela rhetorica, com a lingua differenciada, com
uma dynastia, com um Camões, até com o estalar dos foguetes e phrases
nos Primeiro-de-Dezembro. Tudo isso tem o seu valor, embora muitas
vezes o perca pela mania de desproporcionar tudo, grave symptoma do
nosso juizo avesso.
Outros motivos mais pesados nos defendem tambem, no sentido de que
poderiam trazer sérios embaraços digestivos á Hespanha, se ella
irreflectidamente decidisse engulir-nos, e o fizesse. Primeiro, é
difficil assimilar uma população de quatro milhões a quem não conta
mais do quadruplo; depois, é difficil, com essa relação numerica,
realisar uma combinação dualista, como a Suecia-Noruega, ou a que
foi Inglaterra-Escocia. Para nos fundirmos somos demasiados, para o
dualismo poucos. N’um caso poderiamos reagir o bastante para impedir a
consolidação da unidade, no outro não contariamos o sufficiente para
ter em respeito o collega.
Além d’isso, está Lisboa, excentrica, á maneira de Nova-York. Madrid é
como um Washington: onde ficaria a capital? D. Sinibaldo e o iberismo
da Regeneração, pensando bem n’este caso, propunham Santarem. Mas
quanto vae d’ahi aos Pyreneus? E ficariam em Portugal a capital
politica e a capital commercial? Lisboa, que a geographia destinou para
magestoso porto da Peninsula, tornou-se pelos acasos da historia o
maior embaraço á unificação dos Estados peninsulares. Sobre o seu porto
ancorou Portugal, como uma cabeça de gigante n’um corpo de pigmeu,
e d’ahi lançou braços pelo mundo transatlantico. Vieram inimigos
posteriores com armas aceradas cortar os tentaculos d’esse monstruoso
polypo do seculo XVI, mas ficou a cabeça ainda e o pigmeu. Por outro
lado, tambem a Hespanha bracejou para o mar: Vigo do norte, Cadix do
sul, duas portas subalternas, ganharam vida e importancia. A unificação
politica da Peninsula traria comsigo revoluções graves á Hespanha:
Cadix, Vigo, decairiam, reduzidos ao seu trafego natural; Lisboa
tornar-se-hia a Nova-York do occidente da Europa.--Mas uma Nova-York
portugueza? Sim. Ou seria mistér repetir as scenas de oppressão
violenta para a fazer castelhana.
Taes embaraços, resolvem-nos os phantasistas com a phantasia federal.
Dir-me-heis que federação ha entre a cabeça que dirige e a mão que
obedece, entre o estomago que digere e o musculo que se alimenta?
Em vez de federação, chimera nascida do erro de suppor aggregados as
nações, dizei coordenação organica, para exprimir o funccionar d’esses
corpos collectivos. O afamado principio federativo já defendido em 54,
restaurado agora pelo néo-jacobinismo, é um crasso erro de observação
sociologica e uma aberração do estudo politico, historico.[48] É uma
fórma primitiva das republicas; e do mesmo modo a fórma embryonaria das
aggregações animaes inferiores. Um coral é uma federação, uma colmeia
é uma sociedade. Á maneira que o typo se define e cresce a eminencia
das suas funcções, coordenam-se os orgãos. O exemplo dos Estados-Unidos
tem feito um grande mal aos que da Europa não vêem que a aggregacão
colossal de gentes desvairadas, em territorios illimitados, exprime um
typo rudimentar de sociedade, repetindo em nossos dias e com os meios
materiaes de uma consumada civilisação, os exemplos primordiaes da
historia. D’aqui por um ou dois seculos se verá em que pára a federação
americana. Da Suissa, quem a estudar, vê como, á maneira que hoje os
caminhos-de-ferro, perfurando as suas montanhas, a afastam da vida
primitiva agricola em que se mantivera, como se tém mantido tantos
animaes ante-diluvianos: vê, dizemos, que vae pouco a pouco rasgando a
sua constituição federal, obedecendo á força das cousas.
Que a fórma definitiva de coordenação das funcções, fórma vindoura, mas
bem distante ainda! tenha no Estado democratico um caracter federativo,
de orgãos equiparentes, dirigidos pelo forte cerebro de um Estado,
pensamol-o: mas esse criterio pouco importa agora, se ás esperanças
sentimentaes ou ás chimeras doutrinarias, se trata com effeito de
substituir na politica o espirito positivo. A observação mostra-nos
que tudo concorre para apressar uma marcha cada vez mais accentuada no
sentido da centralisação e das dictaduras pessoaes ou collectivas.
Em Hespanha, o antigo espirito jacobino, encorporando-se nas tradições
localistas, e inspirando-se na doutrina de Proudhon, deu de si a
deploravel historia cantonalista. Viu-se agitarem-se alliadas as idéas
mais incongruentes: era a ultima revolta fuerista, era um novo 1812
individualista, eram communas socialistas. O passado, o presente,
o futuro, n’um turbilhão, corriam, prégando loucuras, semeando
anarchias. Na Serra-Morena havia já alfandegas como na Edade-média;
em Alcoy incendios como os de Paris; por toda a parte declamações
como as de Cadix, levantando em altares a soberania? a divindade, do
Individuo! Um equivoco de observação, um erro de doutrina, e o facto da
unificação ainda não consummada das raças peninsulares deram isto de
si. Já em 90, em França, os girondinos não poderam fazer outro tanto:
e, se em França ha federalismo, é socialista, communalista; e não
historico, geographico, ethnico. O atrazo relativo da fusão das raças
peninsulares, esse facto em que os néo-jacobinos, com o seu chefe Pi y
Margall, viam um argumento em favor proprio, (V. _Las nacionalidades_)
era, e é, o máximo argumento contra a opportunidade da revolução,
cujos laivos socialistas se desmandavam em preoccupações tradicionaes.
Como se o ideal consistisse em restaurar a Edade-media com os seus
cantões e povos differenciados, isolados pela força das cousas, e pelo
isolamento, hostís!
Em Hespanha o partido caíu com a deploravel ruina da empreza. Entre
nós, porém, não deixou de haver quem viesse offerecer-nos esse prato
requentado da cosinha revolucionaria. Não se sabe, comtudo, ás vezes
bem se o nosso joven federalismo é iberico, se o não é; ainda que
d’elle saiu a singular idéa de fazer de nós os authores da hegemonia
peninsular. Onde leva a falta de proporção no avaliar as cousas! Não
parece um cumulo de ironia, a invenção de um espirito humorista, o
dizer a uma nação que vive perguntando se póde existir, dizer-lhe que
d’ella depende a existencia alheia? Na serie de symptomas singulares do
nosso estado mental, deve ficar como documento esta idéa da novissima
geração.