Que se póde ser ao mesmo tempo rico e incapaz, demonstra-o a qualquer

a observação do proximo. As nações são n’este ponto como os homens.

De 51-2 para 78-9 o valor do nosso commercio e o rendimento das

nossas alfandegas triplicaram; mas para prevenir os optimistas convém

dizer que, ainda triplo, não vae além de 13:500 rs. a capitação

do nosso commercio externo: quasi o mesmo que em 1818, já depois

dos francezes,[43] e sem contar com a subida do valor dos generos,

proveniente do da diminuição do valor da moeda. Não exageremos pois

a nossa fortuna. E menos o devemos fazer ainda, quando observarmos

que, sem uma crise, sem uma guerra, apenas com estradas e caminhos

deferro; sem justificação cabal, a não ser a do nosso desgoverno, nos

temos endividado de modo que, se em 54 cada portuguez pagava 600 rs.,

cada portuguez paga por anno, em 79-80, rs. 3:077 de juros da divida

nacional.

Não ha duvida que a riqueza collectiva tende a crescer, embora o

accrescimo da população seja lento: outrotanto succede em França, e

todos sabem que os dois movimentos podem não corresponder, podem ser

até inversos. É de esperar, comtudo, que em outro quarto de seculo

triplique ainda? De certo não. Houve causas especiaes que determinaram

um salto, e ha causas organicas a impedir as progressões rapidas, só

com effeito observaveis nos paizes onde a industria occasiona uma

singular condensação de riqueza, como na Inglaterra, na Belgica, na

França do norte, na Alsacia, etc. Os paizes principalmente agricolas

só enriquecem lentamente. A nós succede-nos que, além de nos faltar

o carvão, materia prima industrial, nos faltam materias primas

incomparavelmente mais graves ainda: juizo, saber, educação adquirida,

tradição ganha, firmeza no governo e intelligencia no capital. Todas

estas faltas essenciaes, e o avanço ganho pelos outros povos da Europa,

affigura-se-nos condemnarem-nos a ficar decididamente occupados em

lavrar terras e emigrar para o Brazil. Os lucros agricolas e o dinheiro

dos repatriados são o mais liquido das nossas economias nacionaes. A

tentativa fabril do setembrismo não foi mais feliz do que a pombalina;

e o vapor matou a nossa industria historica de transportes maritimos,

porque tambem fomos uma Grecia marinheira, no extremo opposto da

Europa. Estava na natureza da Regeneração o ser livre-cambista: esse

proto-naturalismo ainda não definira as nações como organismos: via

apenas massas, e a circulação livre como vivificação. O _meio_ atrophia

e extingue muitas especies; e contra a influencia d’elle reagem os

cruzamentos, as domesticações, todas as artes humanas. A sociedade

é em grande parte um producto d’ellas; e tambem o homem é um animal

domesticado por si proprio.[44]

Regenerada á solta lei da natureza, a nação vê que, em parte

consideravel, a riqueza creada sobre ella não lhe aproveita. Os

caminhos de ferro que não são do Estado, pertencem a estrangeiros; a

estrangeiros o melhor das nossas minas; estrangeiros levam e trazem o

que mandamos e recebemos por mar. Só o solo nos pertence, só o liquido

do rendimento agricola nos enriquece? Não. Á fartura de uma população

rural ignorante, junta-se a opulencia das classes capitalistas de

Lisboa e das cidades do norte, não mais culta, porém mais _videira_.

Uma granja e um banco: eis o Portugal, portuguez. Onde está a officina?

E sem esta funcção eminente do organismo economico não ha nações. Póde

haver populações provinciaes; póde haver Monacos; mas falta um orgão á

circulação, um membro ao corpo humano. Um povo constituido em nação é

como um abecedario: todas as lettras lhe são necessarias para escrever

o que pensa.

E como em Portugal faltam lettras, os escriptos portuguezes não se

entendem. Assim as populações ruraes e as urbanas, a propriedade e

o capital, sem o nexo da industria, isoladas, não se penetram. Se o

capitalista compra terras, é para as arrendar, vivendo sempre do juro.

E capitalista e proprietario, provinciano um, cosmopolita o outro,

nenhum sente palpitar em si a alma da nação. Um olha para os milhos,

o outro para os papeis, absorvidos ambos no seu interesse egoista,

indifferentes a tudo o mais. A economia consumma de tal fórma o que

a historia preparou: o governo é um _rifacimento_. Os politicos são

uma classe áparte; as finanças e o Estado um _outro_, um extranho a

que o proprietario pede _melhoramentos_ e o capitalista _juros_. Como

corretor, o politico, de permeio, recebe de um os emprestimos, dá aos

outros as obras, e vive da corretagem. Proclama pois a excellencia de

tudo, e quando apregôa o credito que temos _lá fóra_, esquece dizer que

os banqueiros de Paris são tambem outros corretores que sabem o destino

final dos papeis em mais ou menos breve praso: a burra do brazileiro.

Que se lhe dá o proprietario do que passa em Lisboa? Imagina com razão

que nada lhe arrancará d’alli ao pé o caminho-de-ferro ou a estrada.

E ao capitalista que se lhe dá? Os jurinhos vão vindo; rabiscando por

aqui, por ali, jogando um pouco, assignando emprestimos, creando o seu

banco, etc. vive bem, satisfeito, os annos que lhe restam. É positivo e

pratico, como os que não vêem um dedo adiante do nariz. E finalmente o

politico, esfregando as mãos, demonstra em discursos e relatorios que

se não póde ir melhor: os rendimentos crescem: vejam! Como é grande

o nosso paiz! E a platéa de Sanchos, mas sem ironia sequer, Sanchos

conservadores, Sanchos demagogos, Sanchos monarchicos e republicanos,

metaphysicos e positivistas, proprietarios e capitalistas, nobres e

burguezes: toda a platéa applaude, grita, acclama a fortuna do grande

reino da Barataria.

Decerto é um desvairado misanthropo, nada moderno, que contesta o

fundamento de acclamações tão unanimes. Desvairado o que pergunta qual

cresce mais: se a receita, se a despeza? Desvairado o que pergunta com

que recursos se fará o que falta: a instrucção que não temos, as obras

publicas de que possuimos apenas uma amostra. Desvairado, o que indaga

a raiz das cousas e se não contenta com os aspectos. Desvairado, o que

pensa no que seria de nós se o brazileiro desconfiasse, e deixasse de

comprar a divida com que saldamos contas annualmente; ou se uma guerra,

outra crise na America, embaraçasse o ingresso dos capitães.[45]

Desvairado o que pergunta o que será de nós então: que fazer de toda

a gente: orfans, viuvas, hospicios, asylos, hospitaes, com os seus

fundos _convertidos_ em papel do Estado? Então, na crise da penuria, se

observará a limpo a verdade da confiança!

E entretanto essa crise affigura-se a espiritos desvairados como

o nosso, tão fatal, tão necessaria como a crise constitucional, e

muito mais séria do que ella. Se a nossa _liberdade_ é a expressão

da nossa absoluta anemia politica, a nossa fortuna apparente exprime

a nossa cegueira economica. E assim como a todos convém não bolir na

constituição, assim convém a todos que se não bula na reputação de

ricos. Como ao enfermo ou ao arruinado, sobre tudo nos convém guardar a

immobilidade e as apparencias. Quem lucra em as negar? Quem tem coragem

e força para dizer da tribuna do governo: peccámos, senhores, peccámos:

perdoae-nos! Quem tem genio para indicar o caminho do arrependimento?

As causas vêem de mais longe: estão na fatalidade das cousas, de que a

vontade dos homens é apenas o instrumento.

E como se haveria de exigir d’elles uma confissão de arrependimento que

os arruinaria a todos? aos politicos nos seus interesses e vaidades;

aos capitalistas nos seus juros e papeis; aos proprietarios nas

urgencias que têem de novos caminhos? Não seria querer mais do que as

forças humanas consentem?

Por uma doirada estrada, tambem se vae para o supplicio. Em Roma, que

pensaria o boi quando o adornavam de collares e faxas preciosas, para

o conduzirem ao altar nos _suovetaurilios_ lustraes? Como uma rez, nós

marchamos todos, seguindo os sacerdotes que nos levam, perfumados de

myrrha, coroados de plantas odoriferas: bellas phrases, sorrisos de

satisfação alegre, passo grave e gesto largo. Mas em Roma o sacerdote

sabia que ia matar o boi: em Portugal ignora o politico que talvez

conduza a nação ao seu fim? Mede bem o alcance do _ponto_ futuro,

inevitavel? O da Regeneração foi o fim da Liberdade: como se chamará o

que nos espera?

3.--AS QUESTÕES GEOGRAPHICAS

Já em outra obra,[46] já em paginas anteriores d’esta, dissemos o que

deviamos ácerca do lugar da nossa terra na Peninsula. E se o leitor

tem presente o que escrevemos, decerto faz uma observação. É a mais

singular das feições singulares que temos successivamente indicado.

Mais ou menos, um ou outro dia, todas as nações pequenas tiveram a

receiar a perda da independencia: não é isto o que nos particularisa.

Em nós succede que, no decurso de uma historia de já quasi oitocentos

annos, é constante o sentimento, ou de medo, ou de esperança em uma

fusão no corpo da nação visinha. Este oscilar da opinião tambem de

norte a sul, como um catavento, sem estabilidade, não está mostrando

a falta do que quer que é similhante ao lastro que mantém seguros,

enterrados n’agua, os navios? Agora, são guerras feridas para nos

defender, logo planos para nos annexar; agora declamações de odio a

Castella, logo confissões de impotencia no isolamento. E isto vem

assim, durante oito seculos, como these e antithese, que se não

resolvem. Singular! Não parece que, no desdobramento dos nossos

pensamentos collectivos, nunca chegou a formular-se cathegoricamente

o da independencia? Não parece que, no desenvolvimento do nosso

organismo, se por um lado attingimos a independencia politica, a

litteraria, a lingua independente, falta ainda--faltará sempre?--um

que quer que seja bastante, para dar a populações provincialmente

differenciadas, a differenciação radical que affirma as nações? Um

protesto póde ter força para conservar de pé quem o pronuncia, e a

prova é a nossa separação de facto; mas não é singular que, apezar de

ás vezes parecer esquecido o sentimento de negação e ganhar segurança

consciente o da autonomia: não é singular que, declarada uma crise,

appareça invariavelmente, e até hoje, o espirito nacional dividido

entre as ameaças do patriotismo, as confissões da fraqueza, e as

esperanças da união?

Notado este caracter da nossa historia, ainda patente em nossos dias,

não nos cumpre agora indagar-lhe as causas nem expôr-lhe a theoria:

trata-se de estudar a influencia que póde ter nos destinos ulteriores

da nação.

É fóra de toda a duvida que a Europa se constitue no seculo actual

em um grupo de grandes imperios, cujo contorno definitivo ainda não

está inteiramente desenhado. Varias cousas concorrem para isso: a

complexidade crescente do organismo das nações, a centralisação

de commando consequente, a natureza dos meios de communicação, de

aggressão. N’esta lucta para a vida collectiva são tambem devorados os

pequenos, e por isso, quando causas imprevistas não venham impôr uma

direcção differente ás tendencias constitucionaes das nações europêas,

parece necessario que n’um periodo mais ou menos distante Portugal e

todas as demais nações minusculas desappareçam.

Não é, comtudo, essa ainda propriamente a questão. Por grande que

seja a nossa basofia e a mania da desproporção com que entre nós

se avalia tudo, é facto que teriamos de obedecer, voluntaria ou

involuntariamente, a um destino geral e necessario. Se o concerto

europeu decretasse, e a Hespanha podesse cumprir o decreto de

absorpção, para onde se havia de appellar? Pelo amôr de Deus, supprima

o leitor aqui as phrases inchadas que a tal respeito escrevem os

jornaes e dizem os deputados: morrer até ao ultimo, alviões por

armas, etc. Tambem os chinezes pensaram fazer parar as tropas

franco-britannicas, vedando-lhes o caminho com monstros de papel

pintado! Mas o palacio de Pekin ardeu.

Não temos exercito digno d’esse nome, é verdade; nem a raia, nem os

portos defendidos. Mas não é essa a questão, porque havendo vontade e

dinheiro o problema resolve-se, ainda que a relação entre a extensão

das fronteiras, terrestres e maritimas, e a área e população de um

reino estreito e longo aggravam as dificuldades. Embora. O portuguez

é, como o turco, um bom soldado; krupps compram-se; e quando não ha

generaes, alugam-se. Assim nós fizemos sempre: Schomberg, Lippe,

Beresford, Solignac, Bourmont, Napier.--Resta porém dizer que tudo

isso seria em pura perda: a Dinamarca estava armada até aos dentes e

bateu-se denodadamente. Esta hypothese de uma absorpção sentenciada

pelos congressos europeus, é porém relativamente indifferente para o

nosso caso. Está claro que a sentença se cumpriria por vontade nossa ou

_per vim_. Contra a força não ha resistencia.

O que nos interessa a nós saber, é se da marcha natural das nossas

cousas sairá ou não, declarada uma crise, a perda da independencia:

porque, se não queremos perdel-a, convém tambem estudar o modo de o

conseguir. Ora n’este momento, se escutamos os pareceres dos homens

graves, ve-mo-nos sériamente embaraçados, porque tambem achamos os

pensamentos dos estadistas correndo como cata-ventos, do norte ao sul,

de um polo ao polo opposto. Singular terra em que tudo gira á mercê do

vento, e permanentemente se discute a propria raiz da vida nacional!

Não se diria que ella, arrancada do solo, batida pelo ar, sem alimento,

se mirra?

Mousinho e Palmella, na crise da primeira metade do seculo, tiveram

opiniões oppostas; e durante a paz da segunda metade essas duas

opiniões continuam antagonicas. Um dizia que, perdido o Brazil, nós

perderamos os elementos de vida independente: D. João VI chamava a isto

o seu _canapé_ da Europa. Outros, variando agora sobre o mesmo thema,

apoiam o parecer quando declaram indispensavel á vida portugueza fazer

da Africa um novo Brazil.--De outro lado, com sérios argumentos,

mostra-se a differença dos tempos e dos meios, e condemnando-se o

dinheiro gasto nas colonias--dinheiro perdido!--repete-se a opinião

de Mousinho, affirmando-se que qualquer porção de gente, trabalhando

e vivendo em qualquer zona de territorio, póde constituir uma

nação: Portugal tem dentro de si, na Europa, elementos de vida e

prosperidade!--Não será facilimo destruir os argumentos de uns pelos

dos outros, e concluir por uma negação total? Talvez se chamasse

temerario, e decerto se lapidaria quem o fizesse. Mas o que é

necessario affirmar, embora chovam pedras, é que uma tal divergencia de

opiniões sobre o proprio nó vital portuguez depõe muito pouco em favor

de uma conclusão affirmativa.

O leitor sabe como, ancorada em Lisboa a patria pelos seus fundadores,

principiámos a saír o Tejo, a rodear a Africa e viemos a viver da

India, e do Brazil depois. Sabe que meios se empregaram, e tambem

que differenças de condições e idéas ha hoje: o commercio é uma

concorrencia, não um monopolio; o trabalho é livre, não forçado,

etc.[47] Se portanto inquirirmos a historia, acharemos na tradição

fundamento para o primeiro parecer; mas se estudarmos as idéas e

condições actuaes, parece-nos claro que essa tradição se scindiu, e que

é pelo menos problematico o exito da empreza de a restaurar.

Em que ficamos, pois? Sim ou não? Quem sabe? O vento assobia, a agulha

gira, do norte para o sul, do sul para o norte ... Se não ha opiniões

firmes, como ha de o critico descobril-as? Quem sabe? Talvez? O

ministro fulano disse, o conselheiro sicrano opinou ... E emquanto,

rodando, girando, a agulha obedece aos movimentos mais desencontrados,

o critico observa que a nação, nas suas granjas e nos seus bancos,

ceifando cearas e juros, provincial ou cosmopolita, vae andando. Vamos

indo; vamos vivendo. Não é a unica observação positiva que se póde

fazer?

O egoismo deita para depois de si o diluvio; o espirito pratico

olha apenas para o pão-nosso de cada dia. A verdade é que Palmella

enganava-se quando suppunha o Brazil perdido. O Brazil dá-nos muito

dinheiro, sem o trabalho de o governarmos. Mas o que poupamos por esse

lado perde-mol-o por outro. Outr’ora vinham _quintos_ para o Thesouro,

hoje vêem saques para particulares. Esses saques breve se convertem em

inscripções, é verdade; mas o processo é mau, porque, assim, o Thesouro

tem dividas em vez de rendas; e se por fim, quando o _ponto_ final

vier, o resultado tivér sido o mesmo, o _ponto_ trará comsigo a mais

grave das crises.

Perdemos ainda por outro modo. Outr’ora o portuguez ia, voltava, sem se

desnacionalisar; hoje não renega a patria, mas casa-se com brazileiras,

desenraiza-se da sua aldeia e vem para o Porto ou para Lisboa formar

uma classe exotica, opulenta, mas com um papel desorganisador da

homogeneidade e do funccionar normal da economia da sociedade.

Cosmopolitas, esses caçadores de juros, nada vêem fóra dos papeis: nem

o trabalho, nem a industria, nem o estudo.

Que remedio? Um unico, evidente, immediato: exploral-os. É o que faz a

politica pratica, sacando-lhes o dinheiro em emprestimos com que compra

por _melhoramentos_ a adhesão dos campos; sacando-lhes tambem subsidios

para directamente comprar os eleitores soberanos das cidades. Que

remedio?

O diluvio dista ainda; e no armazem dos expedientes ainda os ha com

fartura. Com o dinheiro do Brazil, directa ou indirectamente se

resolvem as questões internas; com a tradição brigantina da alliança

ingleza consegue-se manter uma independencia de acrobata no trapezio.

As colonias, dadas, pedaço por pedaço, desde 1640, servem de maroma.

Havia um resto de India que nos servia para nada, aos inglezes para

muito: enfeodou-se, e muito bem. Porque se hesita em dar Moçambique,

o Zaire? Porque a agulha com um sopro de vento apontou ao norte: as

colonias são a salvação do paiz!

Mantém-nos, comtudo, de pé só esta protecção da Inglaterra? Não, de

certo. Defende-nos a desordem da Hespanha, por tantos lados similhante

á nossa; defende-nos o haver lá aquillo mesmo que faz o nosso mal

organico: a falta de alma ou pensamento consciente na direcção do

Estado. Defende-nos tambem, vagamente, a historia, com os seus sete

seculos tão fustigados pela rhetorica, com a lingua differenciada, com

uma dynastia, com um Camões, até com o estalar dos foguetes e phrases

nos Primeiro-de-Dezembro. Tudo isso tem o seu valor, embora muitas

vezes o perca pela mania de desproporcionar tudo, grave symptoma do

nosso juizo avesso.

Outros motivos mais pesados nos defendem tambem, no sentido de que

poderiam trazer sérios embaraços digestivos á Hespanha, se ella

irreflectidamente decidisse engulir-nos, e o fizesse. Primeiro, é

difficil assimilar uma população de quatro milhões a quem não conta

mais do quadruplo; depois, é difficil, com essa relação numerica,

realisar uma combinação dualista, como a Suecia-Noruega, ou a que

foi Inglaterra-Escocia. Para nos fundirmos somos demasiados, para o

dualismo poucos. N’um caso poderiamos reagir o bastante para impedir a

consolidação da unidade, no outro não contariamos o sufficiente para

ter em respeito o collega.

Além d’isso, está Lisboa, excentrica, á maneira de Nova-York. Madrid é

como um Washington: onde ficaria a capital? D. Sinibaldo e o iberismo

da Regeneração, pensando bem n’este caso, propunham Santarem. Mas

quanto vae d’ahi aos Pyreneus? E ficariam em Portugal a capital

politica e a capital commercial? Lisboa, que a geographia destinou para

magestoso porto da Peninsula, tornou-se pelos acasos da historia o

maior embaraço á unificação dos Estados peninsulares. Sobre o seu porto

ancorou Portugal, como uma cabeça de gigante n’um corpo de pigmeu,

e d’ahi lançou braços pelo mundo transatlantico. Vieram inimigos

posteriores com armas aceradas cortar os tentaculos d’esse monstruoso

polypo do seculo XVI, mas ficou a cabeça ainda e o pigmeu. Por outro

lado, tambem a Hespanha bracejou para o mar: Vigo do norte, Cadix do

sul, duas portas subalternas, ganharam vida e importancia. A unificação

politica da Peninsula traria comsigo revoluções graves á Hespanha:

Cadix, Vigo, decairiam, reduzidos ao seu trafego natural; Lisboa

tornar-se-hia a Nova-York do occidente da Europa.--Mas uma Nova-York

portugueza? Sim. Ou seria mistér repetir as scenas de oppressão

violenta para a fazer castelhana.

Taes embaraços, resolvem-nos os phantasistas com a phantasia federal.

Dir-me-heis que federação ha entre a cabeça que dirige e a mão que

obedece, entre o estomago que digere e o musculo que se alimenta?

Em vez de federação, chimera nascida do erro de suppor aggregados as

nações, dizei coordenação organica, para exprimir o funccionar d’esses

corpos collectivos. O afamado principio federativo já defendido em 54,

restaurado agora pelo néo-jacobinismo, é um crasso erro de observação

sociologica e uma aberração do estudo politico, historico.[48] É uma

fórma primitiva das republicas; e do mesmo modo a fórma embryonaria das

aggregações animaes inferiores. Um coral é uma federação, uma colmeia

é uma sociedade. Á maneira que o typo se define e cresce a eminencia

das suas funcções, coordenam-se os orgãos. O exemplo dos Estados-Unidos

tem feito um grande mal aos que da Europa não vêem que a aggregacão

colossal de gentes desvairadas, em territorios illimitados, exprime um

typo rudimentar de sociedade, repetindo em nossos dias e com os meios

materiaes de uma consumada civilisação, os exemplos primordiaes da

historia. D’aqui por um ou dois seculos se verá em que pára a federação

americana. Da Suissa, quem a estudar, vê como, á maneira que hoje os

caminhos-de-ferro, perfurando as suas montanhas, a afastam da vida

primitiva agricola em que se mantivera, como se tém mantido tantos

animaes ante-diluvianos: vê, dizemos, que vae pouco a pouco rasgando a

sua constituição federal, obedecendo á força das cousas.

Que a fórma definitiva de coordenação das funcções, fórma vindoura, mas

bem distante ainda! tenha no Estado democratico um caracter federativo,

de orgãos equiparentes, dirigidos pelo forte cerebro de um Estado,

pensamol-o: mas esse criterio pouco importa agora, se ás esperanças

sentimentaes ou ás chimeras doutrinarias, se trata com effeito de

substituir na politica o espirito positivo. A observação mostra-nos

que tudo concorre para apressar uma marcha cada vez mais accentuada no

sentido da centralisação e das dictaduras pessoaes ou collectivas.

Em Hespanha, o antigo espirito jacobino, encorporando-se nas tradições

localistas, e inspirando-se na doutrina de Proudhon, deu de si a

deploravel historia cantonalista. Viu-se agitarem-se alliadas as idéas

mais incongruentes: era a ultima revolta fuerista, era um novo 1812

individualista, eram communas socialistas. O passado, o presente,

o futuro, n’um turbilhão, corriam, prégando loucuras, semeando

anarchias. Na Serra-Morena havia já alfandegas como na Edade-média;

em Alcoy incendios como os de Paris; por toda a parte declamações

como as de Cadix, levantando em altares a soberania? a divindade, do

Individuo! Um equivoco de observação, um erro de doutrina, e o facto da

unificação ainda não consummada das raças peninsulares deram isto de

si. Já em 90, em França, os girondinos não poderam fazer outro tanto:

e, se em França ha federalismo, é socialista, communalista; e não

historico, geographico, ethnico. O atrazo relativo da fusão das raças

peninsulares, esse facto em que os néo-jacobinos, com o seu chefe Pi y

Margall, viam um argumento em favor proprio, (V. _Las nacionalidades_)

era, e é, o máximo argumento contra a opportunidade da revolução,

cujos laivos socialistas se desmandavam em preoccupações tradicionaes.

Como se o ideal consistisse em restaurar a Edade-media com os seus

cantões e povos differenciados, isolados pela força das cousas, e pelo

isolamento, hostís!

Em Hespanha o partido caíu com a deploravel ruina da empreza. Entre

nós, porém, não deixou de haver quem viesse offerecer-nos esse prato

requentado da cosinha revolucionaria. Não se sabe, comtudo, ás vezes

bem se o nosso joven federalismo é iberico, se o não é; ainda que

d’elle saiu a singular idéa de fazer de nós os authores da hegemonia

peninsular. Onde leva a falta de proporção no avaliar as cousas! Não

parece um cumulo de ironia, a invenção de um espirito humorista, o

dizer a uma nação que vive perguntando se póde existir, dizer-lhe que

d’ella depende a existencia alheia? Na serie de symptomas singulares do

nosso estado mental, deve ficar como documento esta idéa da novissima

geração.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 28 / 30 段