No largo do palacio o povo espesso, na sua afflicção, dividia-se entre

as lagrimas e as coleras. Era um espectaculo antigo, como quando

outr’ora, nos seus pequenos reinos, os reis eram paes, protectores,

quasi idolos. A um povo desgraçado, a desgraça do rei apparecia como

symbolo dos proprios infortunios; e a crueldade de uma estrella funesta

tinha o condão de ferir ainda a alma de uma gente já descrente e

scepticamente regenerada; tinha uma virtude que decerto não teria tido

o talento, a audacia, a ambição de um rei heroe. A morte no paço era

symbolica, e a turba obedecia inconscientemente a um d’esses movimentos

de psychologia collectiva, tão mysteriosos ainda. A morte no paço era o

symbolo da morte no reino, e por isso, repetimos, na sua afflicção, o

povo dividia-se entre as lagrimas e a colera. Os olhos choravam a sorte

do rei, a sorte de todos! e o sangue pulava nas veias contra os réus

do assassinato--do rei? da nação? Envenenadores, salteadores, burlões,

homicidas!

Quando finalmente se soube que D. Pedro V tinha expirado (11

de novembro de 1861), o clamor das coleras reunidas soltou-se,

extravagante, absurdo, cruel, mas inconscientemente justo, como é

sempre o povo em massa. O symbolo do Juizo-de-Deus, grosseira expressão

de um mysterio de electricidade popular, via-se no calor com que

pelas ruas, n’essas noites attribuladas, a turba corria proclamando

a sentença final de uma historia miseravel. Partiam ás pedradas as

vidraças dos palacios dos _grandes_, pediam as vidas dos ministros,

tombavam da sua carruagem e deixavam por morto na estrada o typo dos

amoucos do palacio. Todos eram réus.

Tinham envenenado o rei! Tinham envenenado tudo! Tinham roubado, tinham

vendido, tinham retalhado o povo, o reino, a fazenda, e a nossa miseria

era a consequencia dos seus crimes. Agora este queria para si a corôa,

aquelle queria vender-nos a Castella: queriam todos a desgraça do

povo. Havia ahi partidos? Não; esse clamor provocado pela morte do rei

martyr era uma condemnação total, universal, espontanea! Era um ultimo

adeus ao ultimo dos reis amados, um dissolver da monarchia, em lagrimas

tristes, soluçadas!

Objectarão os homens seccos que umas companhias de tropa bastaram

para emmudecer as vozes desvairadas da turba. É verdade. Nem de outro

modo podia ser. As revoluções não saem dos tumulos. As covas provocam

lagrimas e arrancar de cabellos. Mas o que á historia importa agora,

não é a força d’essas turbas afflictas, pois sabemos todos por que vias

a nação chegara a sentir cravada em si a estrella fatidica do rei;

pois sabemos todos que pessimismo intimo, que desesperança absoluta,

que vaga tristeza, que anemia organica, a historia de meio seculo nos

trouxera. Não é pois uma força que todos sabemos extincta, é o caracter

do protesto, é a natureza dos clamores condemnando a côrte e o governo

na sua totalidade, os partidos, os estadistas e a historia: é esse

caracter singular que tem para nós uma gravidade reveladora ...

As companhias de tropa acalmaram a turba; e quando se fez o enterro, só

já se ouvia o sussurro languido dos soluços. Cem mil pessoas estavam

nas ruas. Tambem o azul do céu de Lisboa entristecera, tambem se

cobrira de dó n’esse dia nublado e triste; tambem chorava lagrimas,

ennegrecendo com chuva o basalto das calçadas. «Deus mandou a chuva,

para até as pedras vestir de luto!» diziam mulheres carpindo. E todos

ouviam os soluços murmurar, como se ouve o bater das azas quando passa

nos ares um bando. Eram esperanças, aladas, brancas, fugindo tambem,

voando!

NOTAS DE RODAPÉ:

[41] V. _Hist. de Port._ (3.ª ed.) II, pag. 42-5.

IV

CONCLUSÕES

1.--AS QUESTÕES CONSTITUCIONAES

Com o finado rei desappareceram as irmans-da-Caridade. O successor

expulsou-as, liberalmente, sempre em nome da liberdade! e seccas as

lagrimas, esquecido o passado, rasgados os crepes, tambem o throno se

entregou nos braços da Regeneração. Na côrte onde reinara o mysticismo

devoto, reinava agora catholicamente ao lado do monarcha, por esposa,

a filha do rei excommungado da Italia: sempre fieis á religião!

N’um systema de fórmulas, mais do que nunca vasias da realidade,

liberalismo, catholicismo, que são? Hypocrisias inconscientes de quem

não tem na alma a força, nem na mente a capacidade de conceber e

defender idéas. Velhos bordões rhetoricos, politicos, ou como escoras

de madeira carunchosa, pintada para illudir, aguentando o edificio

desconjuntado.

Em 68, como já vimos, houve a sombra de uma revolução contra a sombra

de uma tyrannia. Embuçada logo ao nascer pelo duque d’Avila, veiu com o

tempo achar no bispo de Vizeu o seu definidor. Singular povo! singular

revolução! Já se pensou bem no valor psychologico d’esse movimento? Que

reclamava, que promettia, que applaudia? Negação tudo.

Nem uma só palavra affirmativa. «Moralidade, economias!» Esse programma

patenteava o vasio, porque nenhum partido jámais prégou a corrupção nem

o desperdicio. Mas praticavam-nos ambos, os regeneradores? Era pois uma

questão de homens, nada mais.

Não paremos, comtudo, aqui. O pessimismo constitucional do caracter

portuguez via tambem no Bispo outra cousa: um bota-abaixo! Os

derrocadores foram os unicos homens acclamados pelo povo, desde que

em 1820 se declarou a crise: por esta razão simples de o povo ter a

consciencia da podridão universal. Além d’estas negações que havia? No

Porto, uns mercieiros lesados pelo imposto do consumo, que se cotisaram

para fazer arruaças; em Lisboa uns conspiradores platonicos que, apesar

de já terem distribuido entre si os cargos da republica, se declararam

satisfeitos com a quéda da Regeneração. O duque d’Avila preenchia bem

o lugar de porta-voz da revolução! N’esta éra nova iniciada, o duque

tornou-se a bomba-de-choque para amortecer a violencia das transições.

Veio a revolução de Hespanha complicar as cousas de um modo subito;

veiu a guerra brazileira, baixando o cambio, seccar o rio de dinheiro

que annualmente vasava no Thesouro para o alimentar a elle e nos

sustentar a nós. Aggravaram-se as cousas, cresceram os perigos: a nação

pedia um demolidor! Bota-abaixo! Mas como ninguem sabia que pôr em

lugar do existente, o sentimento acclamador do Bispo era uma gritaria

van de gente _possidonea_, e consolava os conservadores vingados.

Demolir é facil, mais duro o construir. Derrubar paredes arruinadas,

qualquer hombro o póde; mas levantar novos muros com os materiaes

velhos, ninguem. E que nova materia-prima existia? Nenhuma. Homens?

Zero. Idéas? Menos. O fundo do sacco das fórmulas liberaes era pó. Nós

tinhamos já vasado tudo; e depois de tudo isso já Rodrigo, mostrando o

avesso com uma careta, como um arlequim n’um tablado de feira, viera

dizer, «meus senhores, peça nova!»

Agora os discipulos, seguindo o mestre, voltavam. Pois que querem?

Falta ainda alguma cousa á Liberdade? Pois ha, devéras, omissão? Querem

reformados os Pares? Porque não? Suffragio universal? Tambem. E viu-se

os conservadores fazerem o que a _revolução_ não fizera; viu-se alargar

o direito de suffragio, sem que longas, prévias campanhas o exigissem.

E ninguem o exigia, porque já passara o tempo em que se _esperava_ nas

alterações de fórmulas. E fizeram-no os conservadores, porque tinham

visto em França Napoleão dar-se bem com isso; e sabiam que quantos

mais camponios votassem, maior seria o poder formal--e positivo, pois

fórmulas, apparencias são tudo--de cada um dos barões ruraes, de cada

um dos senhores da finança que nas cidades compram a dinheiro os votos

da plebe. Desde que no espirito d’essas plebes a loucura setembrista se

acabara, que perigo havia em lhes dar a soberania? Nenhum, de facto; só

a vantagem de bater o inimigo reformista com as suas armas, e consagrar

mais uma _conquista da liberdade_.

Este facto curioso mostra ao critico uma das feições da apathica

physionomia nacional. O leitor sabe que 33 não saíu do sangue da

nação, como um 89. Foi uma conquista á mão-armada, que substituiu a

classe governativa do reino. No decurso da historia que narrámos, o

facto da separação do governo e do povo cresceu com o descredito do

primeiro e com a miseria do segundo, até que Rodrigo veiu confessar

que «comprando-se feitos deputados e casas» era tudo uma comedia; até

que o povo, percebendo-o, poz de banda o bacamarte de guerrilheiro,

deitando-se á enxada e esperando em casa o politico, para lhe pedir

estradas, isenções de recruta, e uns cobres pelo dia perdido com a

Urna. Consummado este accordo tacito, houve logo paz e liberdade. Os

politicos bulharam de palavras: já não havia guerrilhas; e o povo

deixou fazer leis sobre leis em Lisboa, sem dar por isso. Cada qual

vive como gosta, e Portugal é verdadeiramente agora aquelle torrão de

assucar de que falava o corregedor de Vizeu. Falstaff e Prudhomme fazem

bem as suas digestões, e consideram este canto occidental do mundo o

modêlo das nações livres.

E é, com effeito, é. Como não haveria liberdade, se não ha opiniões

divergentes? Viu-se já tamanha paz? tão grande accordo? Nem póde deixar

de haver paz, concordia, liberdade, entre todos os portuguezes, desde

que todos elles, como uma boa população de provincianos, chegando ao

cumulo da sabedoria salomonica--_Vanitas vanitatum!_ descobriram que

no mundo ha só dois homens, Quixote e Sancho, e que só o segundo é

credor de applauso. Opiniões, partidos, paixões, esperanças? Fumo, meus

amigos. Nobreza, justiça, virtude, heroismo? Poesia! Espantado com a

nossa _liberdade_, dizia-me alguem uma vez, perante a sala das côrtes:

«Veinte _padres_, amigo mio! veinte curas ... y todos liberales!» Com

effeito, n’este «jardim da Europa á beira-mar plantado», até o clero,

combatente em França, na Belgica, na Allemanha, é liberal. «Todos

liberales!» Alguns extasiam-se com isto; outros, sem patriotismo

nenhum, acham que esta liberdade prova um entorpecimento deploravel da

intelligencia e do caracter. São modos de vêr differentes.

O leitor já sabe que as populações, indifferentes, alheias ao governo

do paiz, só reclamam que elle lhes dê obras-publicas e lhes torne

o mais doce possivel o recrutamento. Enriquecendo, pouco se lhes

dá o resto. Nas aldeias são politicos os empregados, nas cidades

os bachareis: por toda a parte os que vivem ou aspiram a viver do

Thesouro. Os trabalhadores, os rendeiros, os pequenos proprietarios

«não querem saber d’isso» e no fundo, instinctivamente, desprezam o

politico pela razão simples de o verem depender d’elle para os votos.

Desprezam, mas não lhes passa pela cabeça o supprimil-o. Para que? Isso

não rende; e entretanto arderia a ceara. Até ahi chega o instincto, e

instrucção não têem nenhuma.

Mas não é raro, antes commum, e n’um sentido até normal, verem-se

populações, embora soberanas de direito, viverem passivamente sob o

governo de minorias, ou aristocraticas ou burguezas, a que a riqueza

ou a illustração dão a força. Commum é tambem que n’essas classes

directoras exista a consciencia do facto, e por systema ou interesse se

procure manter esse estado social: foi o pensamento do doutrinarismo em

França, na Hespanha, e foi até entre nós a idéa dos cabralistas. Mas

desde que a democracia vaga e sentimental de 48 destruiu similhante

plano, condemnando o machiavelismo liberal dos seus authores, o facto,

embora contestado, manteve-se por outras fórmas em toda a parte onde

essas classes directoras tinham, com a consciencia da sua força, a

illustração bastante para governar. D’ahi saíu o cezarismo francez.

Ora o triste em Portugal, e acaso o primeiro motivo da physionomia

singular da nação, é a ignorancia, ou, peior ainda, a sciencia

desordenada nas classes medias. Todos sabem de que genero é a educação

secundaria; todos sabem o que é a instrucção superior, em tudo o que

não diz respeito ás profissões technicas (medicina, engenharia, etc.)

cuja importancia é para o nosso caso subalterna. Com tal ensino se

cria em Coimbra um viveiro de estadistas que annualmente cáem sobre

Lisboa pedindo fama e empregos. O proprietario é em geral illetrado, o

capitalista é brazileiro. A fortuna dos ricos, a sorte dos pobres, vão

pois guiados por uma cousa peior ainda do que a ignorancia--a sciencia

falsa, pedante sempre.

Que alguem se atreva a dizer a sombra de uma verdade e será condemnado.

Que alguem se lembre de bolir n’um qualquer dos idolos do tempo, e será

apedrejado--liberalmente! Por isso a liberdade que provém da apathia

parece ao critico o symptoma do contrario da vida: da verdadeira

liberdade forte, independente, na concorrencia de opiniões conscientes

e sábias. Por isso nós apresentamos caracteres singulares. Leiam-se

os jornaes, ouçam-se os discursos. Ninguem fala mais _de papo_,

desculpem a expressão. De quê? De tudo. Os Pico-de-Mirandola, senhores

de si, anafados, satisfeitos, sempre na rua, sempre verbosos, com

as cabecinhas álerta, a resposta prompta, a fórmula breve, um andar

miudinho de pedante, um livrinho azul debaixo do braço se não são

janotas, nos miolos a consciencia do seu saber, da verdade definitiva

da «sciencia moderna», uma grande prosapia ingenua, uma grande

segurança e entono: os Pico-de-Mirandola, que sejam conservadores ou

demagogos, deputados da direita ou rabiscadores de jornaes esquerdos,

têem uma physionomia commum. A patria são elles; a sciencia sabem-na

toda, a moderna. Sómente uns acham que é moderna a que já governa,

outros fossil a de hoje: só verdadeira a de ámanhan, quando elles

derem a lei!

Pêccos fructos de uma arvore contaminada, se dão um passo cáem. Um dos

phenomenos curiosos em Portugal é o devorar dos homens pelo governo.

Hoje sobem, ámanhan somem-se, corridos, desprezados. Porque? porque a

arvore, secca, apenas tem vida para reconhecer o seu definhar, para

desprezar os que no seu pedantismo ingenuo, mais ainda do que na sua

corrupção, successivamente se lhe seguram aos ramos. Outro phenomeno

é a facilidade com que a opinião muda n’essas classes directoras da

sociedade portugueza. Como um catavento, sobre um pião giratorio,

batido, movido pela brisa leve, assim anda o juizo dos homens graves.

Se lhes falta o alicerce do saber, e mais ainda o alicerce social de

raizes lançadas pelo meio das classes vivas da sociedade! Se são um

_rifacimento_, uma superfetação politica em um povo que nada quer

saber do governo! Assim os vereis hoje em solemnes relatorios declarar

a patria á beira de um abysmo, e ámanhan com egual entono chamar a

Portugal um primor, á sua condição abençoada! Virarem os cataventos

politicos, é caso vulgar, individual apenas, em regimes anarchicos; mas

girar de tal modo a opinião sobre os proprios sentimentos essenciaes de

uma nação, senão é unico, é raro: hoje ibericos, ámanhan nacionalistas;

hoje tudo negro, ámanhan tudo azul; hoje arruinados, ámanhan

opulentos--quem vos entende, ó sabia gente?

Entende-vos o critico, vendo n’este agitar de opiniões como as

rasteiras nuvens de poeira tonta que ás vezes o vento se diverte a

mover sobre uma larga campina: indifferente, o chão fica immovel.

Assim os ministerios succedem aos ministerios sem haver mudança.

E que alteração poderia dar-se, não existindo forças moraes vivas,

nem questões economicas ardentes? Que outra cousa ha a fazer senão

ir, mansamente, deixando o tempo correr: dando _melhoramentos_ ao

campo, consolidando no Thesouro os dinheiros do Brazil, despachando o

expediente, comprando algumas armas e navios por distracção ou simplez?

Não falta quem sinceramente creia serem as cousas de sua natureza

assim, assim as nações-a-valer, assim o mundo, assim a realidade. O

resto? sonhos de poetas, bilis de homens amarellidos! Vamos indo assim,

que vamos bem.

Outros pensam, comtudo, de um modo diverso. Ha nos seus postos,

egualmente distantes, egualmente desarraigados da nação, o pessoal

inteiro da Republica salvadora, scientifica, patriota, federalista,

vermelhissima. Quem observa, descobre logo; um é Robespierre, outro

um soffrivel Marat; não falta Desmoulins, e Theroigne de Mericourt já

préga ás massas. É um velho _cliché_ jacobino, sem Danton, é verdade!

um velho _cliché_ jacobino envernizado de novo. É tambem uma poeirada

que passa; mas quando a atmosphera está incerta, de um para outro

momento vem um aguaceiro que precipita o pó, e pousa sobre o chão uma

camada de lodo. O tempo a seccará breve, o vento a levantará outra vez

em pó, mas entretanto mais de um se ha de atolar.

É provavel essa revolução possivel? Talvez; porque a nação não tem

força para a impedir, e os conservadores vivem da fraqueza alheia e

não de energia propria. Talvez, porque, se não ha quem a evite, as

cousas concorrem para a provocar. Será proxima? Ninguem o póde dizer:

é materia de acaso. Tanto póde ser ámanhan, como d’aqui a bastantes

annos. Todos concordam em que _isto_, se não houver tropeços, ainda

póde durar. Quem sabe se os demagogos de hoje ficarão na historia como

os da geração precedente, acantonados pela força das cousas nas mesas

das secretarias?

Talvez assim venha a succeder, e talvez não. Ha poucos annos

dizia alguem que estavamos «a pedir bispo». Tenha de haver outra

_janeirinha_, e _bispo_ será a quéda da monarchia constitucional. Em 28

rebentou em furias o tumor historico portuguez; e para essa data futura

uma puncção vasará a agua que existe no ventre da hydropica Liberdade.

Ver-se ha então como cheira e a que sabe. Esse incidente politico é

necessario por varias causas, particulares e geraes. As primeiras

demandam estudo mais demorado a que passaremos já; as segundas estão

na atmosphera que as nações latinas respiram actualmente, atmosphera

viciada mais ainda entre nós pela desordem intellectual atraz esboçada.

O jacobinismo não acabou ainda. Como um camaleão, quando vestiu a côr

do romantismo fez-se monarchia parlamentar; mas falta que se faça outra

vez republica radical, federalista, naturalista, positivista, porque,

sem ter consummado a destruição dos velhos symbolos, a sua missão não

terminou. O organismo futuro das nações não poderá formar-se emquanto

o velho organismo não tiver acabado de se dissolver inteiramente pelo

classico aphorismo: _corpora non agunt nisi soluta_.

Só depois d’isso se reconstituirá o Estado e a democracia achará

a definição que vem pedindo ha um seculo, sem a encontrar. _Vox

clamantis in deserto_, ninguem lhe responde, por isso que a idéa

individualista-espiritualista, conservadora ou jacobinamente expressa,

tyrannisa ainda as intelligencias. Mas já hoje do corpo das sciencias

naturaes sae esta definição: a sociedade é um organismo vivo,

contradizendo a definição de quasi um seculo: a sociedade é uma ficção,

o individuo humano a unica realidade. Esta idéa nova, que todos os dias

conquista partidarios, encontra a contra-prova nos factos economicos

e nas tradições da historia. A civilisação de um povo apresenta os

mesmos phenomenos que a evolução progressiva de qualquer individuo

animal: especialisação de funcções, definição dos orgãos, cohesão de

movimentos, centralisação de commando. O Estado é como um cerebro.

Ninguem já hoje crê em milagres, e menos do que em nenhum outro

no do direito divino. Entretanto, é mistér vêr, n’essa concepção

transcendente, o symbolo de uma idéa positiva. O espirito collectivo

nunca errou; e a historia não é mais do que a explicação successiva

dos enygmas por milagres symbolicos, e afinal dos milagres pelas idéas

na sua pureza. O direito divino era a expressão religiosa, ou, se

quizerem, metaphysica, da soberania popular. A nação personalisava-se

n’um rei, da mesma fórma que a humanidade se personalisava n’um

Deus-homem. Desde que não ha direito-divino todos são democratas, isto

é, todos põem no povo a origem da authoridade: resta descobrir as

fórmulas adequadas ao exercicio d’essa authoridade. No direito-divino

a fórmula era a hierarchia, a classe. Na democracia, o criterio é

a Egualdade; a fórmula acha-se na realidade das funcções organicas

da sociedade. No direito-divino rege a vontade da pessoa-symbolo do

monarcha; na democracia a vontade dos cidadãos.

N’este momento se chega pela doutrina á politica, e pela theoria

á practica. De que modo se exprime essa vontade? _Viritim_,

individualmente, peia somma dos votos? Assim se tem dito; e d’ahi têem

vindo as revoluções, a anarchia, o moderno feodalismo consequente.

Oxalá que a broca da analyse--bella expressão de Mousinho!--penetre

rapido e demonstre que esse processo confunde deploravelmente a

administração com a politica; scinde a duração e ataca a consistencia

indispensaveis aos pensamentos governativos; põe tudo, todas as cousas

mais especiaes, á mercê das opiniões menos competentes; e torna

os interesses collectivos dependentes dos interesses individuaes

amalgamados, chocados, sem poderem fundir-se n’uma synthese organica.

Sob o nome de democracia existe apenas uma anarchia, constitucional,

sim, quando atravessâmos calmarias politicas, mas que se desenfreia

logo que se levanta o minimo temporal. E a liberdade consiste em uma

concorrencia franca, da qual sae o consequente feodalismo--bancario,

industrial, burocratico. São factos naturaes, modificados apenas nos

aspectos por condições diversas. Assim, quando o Estado imperial romano

decaía até tombar de todo, se distribuiram as terras a protectores

armados; assim, quando o Estado monarchico acabou, se distribuiram

os instrumentos de força collectiva aos novos barões da finança e da

industria. São dois exemplos de pulverisação da authoridade collectiva:

um violento, o outro pacifico; um sanccionado pelas armas, o outro

pelas leis liberaes: ambos fataes, ambos espontaneos.

Ora emquanto a nação prescindir de cerebro, isto é, de Estado,

manter-se-ha acephala; emquanto o Estado não tiver como pensamento a

Egualdade, ou emquanto, mantendo-se uma ficção de poder, se obedecer

de facto ás ordens dos patronos das varias clientelas politicas,

bancarias, industriaes; emquanto esses novos barões fizerem de povo: a

Democracia será uma chimera, por isso mesmo que a nação demonstrará não

ter capacidade para ser senão o que é. Á sombra de uma liberdade sempre

crescente, dia a dia, com o crescer da riqueza, irá crescendo a scizão

dos pobres e dos ricos, em virtude d’essa lei simples que dá a victoria

a quem mais póde.

2.--AS QUESTÕES ECONOMICAS

Resta-nos agora estudar as causas d’essa crise que provavelmente nos

ha de arrastar á revolução, pois no conjuncto singular dos caracteres

nacionaes nem se vêem elementos com juizo bastante para evitar o

conflicto, nem facções com energia capaz de derrubar o existente. Os

Saldanha morreram todos; e se na ultima _saldanhada_ de 19 de maio se

viu como seria facil uma _revolução_, é facto que se acabou a tradição

dos golpes-de-mão da soldadesca, especie quasi unica das revoluções

em Portugal. Quem nos leva para a crise são as causas geraes, e uma

fatalidade superior ás forças de conservadores e demagogos.

Este sentimento arraigado, geral nas classes médias, esta convicção

de um destino desastrado, commum nos homens de governo, são tambem

um symptoma particular que a apathia nacional explica; bastando a

basofia portugueza para nos explicar a simplez com que alguns teimam

em se convencer de que somos um povo feliz, rico, ditoso. Quando a

opinião assim gira do norte ao sul, e desembaraçada de preoccupações

partidarias, não é verdade que os seus dois pólos mostram por fórmas

diversas uma enfermidade constante?

E, entretanto, póde-se ser nobre, feliz, honrado e até forte na

pobreza. A opulencia é até certo ponto indifferente ao mero facto da

existencia das nações. Mas não é decerto indifferente ao seu progresso,

mormente quando se ficou em tamanho atrazo. A questão da capacidade

de enriquecimento em Portugal é complexa. Tambem, como nós, a Grecia

tem população pouco densa, vastos territorios de serras escalvadas e

improductivas; mas tambem, como nós, tem no ingresso das riquezas das

suas colonias commerciaes mediterraneas, o que nós temos no ingresso

das fortunas dos _brazileiros_. É uma fonte de riqueza anormal. Com

effeito, desde que as nossas guerras civis acabaram, desde que por

outro lado a independencia do Brazil se consolidou, a emigração e

a repatriação funccionando regularmente,[42] deram em resultado

um affluxo consideravel de dinheiro. Junte-se-lhe o que entra por

via de emprestimos ao Thesouro, e teremos as principaes causas do

enriquecimento relativo da nação, se nos lembrarmos tambem das leis que

desamortisaram o resto da mão-morta e aboliram os vinculos.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 27 / 30 段