Era em primeiro lugar um individualismo sentimental, ao mesmo tempo

cheio de reivindicações e de effusões e que pretendia corrigir o

egoismo das reclamações do direito individual com os preceitos

moraes e poeticos da fraternidade.--Em segundo lugar, a attitude

determinadamente hostil das monarchias constitucionaes dominadas pela

alta burguezia ávida e agiota, tornava-lhes imminente a queda sem que

se podesse dizer que essa queda implicava uma verdadeira revolução

porque as classes contra ellas insurgidas não tinham principalmente

em vista destruir, no seu principio, o regimen existente, mas pelo

contrario, entrar n’elle, apossar-se d’elle, alargando-o (pelo

suffragio) até ás proporções da nova democracia.--Em terceiro

lugar, finalmente a attitude das classes operarias vinha lançar no

meio d’esta confusão intellectual e politica mais um elemento de

perturbação, e o mais formidavel de todos. O Socialismo, tão mal

comprehendido pelos seus adversarios, como mal definido pelos seus

partidarios, foi transformado n’um monstro, o famoso _espectro

vermelho_; e o terror abria caminho a uma reacção tão geral e

irresistivel que arrastou comsigo não só o Socialismo, não só a

Republica, mas ainda o proprio regimen liberal e todas as garantias

legaes tão custosamente conquistadas.

O drama romantico veiu a dar por toda a parte n’uma conclusão tragica.

A Hungria foi esmagada, esmagadas a Italia, a Rumania, a Polonia. Na

Alemanha, na Austria, o cezarismo dissolve os parlamentos nacionaes,

rasga as constituições que o susto lhe fizera jurar no primeiro

momento de surpreza e estabelece solidamente e por muitos annos o

regimen militar. Em França, d’onde partira o impulso revolucionario,

o Socialismo, tornado a execração de todos os partidos, cae exangue

nas barricadas de junho, e o movimento reaccionario, uma vez lançado,

não pára sem ter destruido a republica, as garantias liberaes

constitucionaes, humilhado a democracia, e sobre todas estas ruinas

estabelecido o imperio conservador, ao mesmo tempo rural, militar,

bancario e clerical.

Taes foram os resultados da evolução romantica. Mas a geração que

a preparou e a consummou não podia prever taes resultados. A sua

confiança era tão longa, como vastas as suas aspirações: e se

aquella era infundada, estas eram generosas e alevantadas. Talvez

nunca a historia registrasse uma tão completa catastrophe, saída

d’um tal concurso de bellos sentimentos, de elevados intuitos, de

personalidades brilhantes e heroicas. Os promotores e fautores

d’aquelle movimento, os Lamartine, Ledru Rollin, Arago, Luis Blanc,

Proudhon, Raspail, Mazzini, Garibaldi, Manin, Gagern, Rosetti, Bem,

Kossuth, e todos os que indirectamente o prepararam, oradores,

pensadores, poetas, Lammenais, Michelet, Quinet, Hugo, Sand, Sue,

Leroux, Mickiewicz, Gioberti, Manzoni, Cantu, Mamiani, Feuerbach,

Heine, formam uma pleiade incomparavel pelo talento e pelo caracter;

e não admira que, apezar do vago e do incoherente das suas doutrinas,

dominassem tão completamente o espirito da geração que atraz d’elles

se lançou fanatisada no caminho de inevitavel desastre. (A. de

Quental, _Lopez de Mendonça_, no _Operario_.)

Em Portugal, varias causas concorriam para que a revolução de 48 não

chegasse a nascer. Era o cançasso dos partidos, era a miseria da nação,

era a influencia de Rodrigo, epilogo sceptico da historia liberal.

Era tambem a circumstancia de que dos dois motivos do 48 europeu, o

democratico já entre nós fôra ensaiado e ficara desacreditado em 36;

e o socialista não tinha classes operarias fabrís bastante numerosas

para o fazerem vingar. Em vez de uma revolução, tivemos uma Regeneração

a que os revolucionarios como José-Estevão, Lopes-de-Mendonça etc.,

adheriram, conforme sabemos. Mas quando todos esses viram o partido

novo tornar-se cada dia mais velho; quando assistiram ao accordo de

Regeneradores e Historicos a favor das irmans-da-Caridade, que era

a questão ardente, separaram-se, para fundar o _Futuro_, jornal,

partido das aspirações vagas de um romantismo serodio cujo chefe era

José-Estevão. A ausencia de numerosas classes operarias principalmente

impedira antes a revolução, e impedia agora o nova partido de ganhar

estabilidade. E como não chegou a haver lucta, não houve motivo para

repressões: e como uma das causas da paz era a fraqueza, manteve-se a

liberdade por não haver interesses nem motivos fortes em conflicto.

Opportunamente morreu o tribuno (nov. 4 de 62) que durante a vida

não cessara de praticar nobres actos inopportunos. Como typo e

symbolo de uma geração que nunca chegou a ter voz, passou para o

tumulo deixando os companheiros dispersos, entregues á desillusão,

absorvidos pelos seus trabalhos profissionaes. Ao _Futuro_ succedeu

ainda a _Politica-liberal_; á _Patriotica_, o club do Pateo-do-Salema,

d’onde saíu ainda a força bastante para em janeiro de 68 derrubar os

conservadores do governo.

Veiu logo a revolução de Hespanha complicar a situação com esperanças

republicanas e intrigas ibericas; veiu depois a guerra do Paraguay

seccar a fonte dos ingressos de dinheiro do Brazil: tudo isto declarou

em crise o resto das antigas esperanças.

Debandaram todos, cada qual para seu lado. Os excentricos ficaram

esperando pela republica doirada; os praticos, ou se alliaram aos

conservadores, ou se congregaram em reformismo opportunista. E as

velhas idéas societarias? Tambem a iniciação do fomento influiu sobre

ellas; mas a dureza do regime capitalista da burguezia, em vez de lhes

fazer como a politica _realista_ fazia aos romanticos: em vez de as

reduzir a um pó de chimeras, obrigou-as a declararem-se em partido

dos pobres contra os ricos, n’uma guerra de classes, anachronica de

certo, mas ameaçadora. A Hespanha teve Carthagena, a França teve ainda

a Communa de 71: nós tivemos umas gréves apenas, por não possuirmos

sufficiente industria fabril.

Tal foi o caracter que o Socialismo tomou, sob o influxo do

Utilitarismo, sem que se veja ainda que outro e melhor o espera.

Dissipadas as chimeras, conquistadas as garantias individuaes,

conferida ao povo uma soberania negada ao throno: crê alguem que tudo

está feito? Espera alguem que esse povo, soberano e mendigo ao mesmo

tempo, não reclamará uma revisão da legislação economica? Perigosa

teima será negal-o, porque as revoluções inevitaveis, se se não

consummarem de cima para baixo, dar-se-hão ao inverso, de baixo para

cima--como a labareda que sóbe crepitante!

4.--D. PEDRO V

Esquecemos, n’estes successivos relances, o throno. E entretanto em

Portugal nunca deixou de haver monarcha. Depois de D. Maria II, matrona

antiga coroada, veiu o rei-artista, cezar sem amor á guerra; depois

D. Pedro V; por fim o rei actual. O seu finado irmão era um romantico

posthumo. Contava dezoito annos quando subiu ao throno (n. 16 de set.

de 37; r. 55) e com um temperamento observador, grave, desde creança o

foram impressionando os episodios deploraveis da historia d’esse tempo.

Tem o leitor presente a memoria de D. Duarte, o infeliz rei, tão sabio,

tão bom, tão cheio de terrores e de escrupulos? Foi como elle D. Pedro

V «esse pobre rapaz» que o destino condemnara a ser principe. Já não

estava nos usos consultar bruxas e adivinhos, mas o rei tinha em si

o feitio de espirito que pede milagres. Considerava-se predestinado,

ao inverso de D. Sebastião, para um fim breve e funebre; via-se

coberto de terra, mettido n’uma cova, imagem viva da morte, fatalidade

ambulante movido por uma sina triste. Era uma saudade, a sua alma; e

o coração, batendo, parecia-lhe um dobre de finados! Saudade de uma

honra esquecida, dobres pela morte de um povo desditoso? Symbolo de uma

nação cadaver, considerava-se, elle rei, minado por todas as pestes.

Roía o um remorso inconsciente que o fazia apparecer bisonho e triste,

com um sorriso doentio na face, a mudez nos labios, no olhar o quer que

é de somnambulo. Interpretando os acasos com o seu fado, explicando

tudo pela sua sina, achava em si a causa de muitas desgraças. Quando

o patriarcha voltava de o baptisar, partiram-se-lhe as rodas da

carruagem e caíu ... Aos dez annos, já o principe tinha pesadelos

que o faziam scismar: uma grande aguia negra tomava-o nas garras,

levantava-o ao ar, deixando-o caír e despedaçar-se ... A aguia tornava

a subir levando para os ares o mano Luiz ... Tinha então dez annos e

contava os terrores ao seu mestre. (Bastos, _Mem. bio. de D. Pedro

V_) Depois chegou a crer que matava o que tocasse. O general Loureiro

morrera de apoplexia? porque elle o affligira com certos ditos. D.

Carlos de Mascarenhas morrera? porque elle o obrigara a um passeio

excessivo. E o _Curso-superior_, o filho do seu amor ás lettras, era

baptisado com o cadaver de D. José d’Almada, com a loucura de Lopez de

Mendonça! (Andrade Ferreira, _Vida_, etc.) Tragica figura de um rei que

se acredita a má sina do seu povo! Não seria ella o summario de uma

historia miseravel, o symbolo de uma nação pobre, o espectro de um povo

caduco? Não viria como resultado de trinta annos de miseria, lentamente

cristolisados n’um cerebro impressionavel, definir com o seu genio a

epocha?

Se ás superstições funebres se póde achar esta razão de psychologia

historica, não é mistér appellar para tão longe quando se observa o

outro lado do seu caracter. Com olhos de pessimista, e esses eram

os bons olhos para vêr Portugal, tinha em tanta conta os que o

rodeavam, cria tanto n’elles, que mandou pôr á porta do seu palacio

uma caixa-verde, cuja chave guardava, para que o seu povo podesse

falar-lhe com franqueza, queixar-se, accusar os crimes dos governantes.

Singular modo de conceber o seu papel de rei de uma nação _livre_,

parlamentar! Os ministros que não escarneciam d’elle, principiavam a

temel-o; outros a odial-o. O povo começava a amar a bondade e a justiça

de um rei tão triste. Já corria de bocca em bocca a lenda do novo

monarcha: um infeliz! E o amor não era feito de esperanças, mas de

presentimentos funebres e de uma consciencia certa da fatalidade commum

do povo e do rei. «Se elle podesse!» Mas entre elle e o povo simples

havia de permeio os politicos.--«Como o rei é justo, bom e nobre! Nem

quer que lhe beijem a mão, nem que dobrem o joelho, nem quer matar um

só criminoso, o santo! Se não fossem os politicos!» E esta corrente

de intimidade entre o povo e o rei cresceu a ponto de se chegarem a

formular votos pelo absolutismo. (Th. Braga, _Hist. do rom._) A alma

espontanea dos povos latinos, idealistas, sem os calculos, as reservas,

os planos de outras raças, só acclama os factos simples: é inaccessivel

ás fórmulas. Quem no meio-dia quizer ser grande, seja forte, seja

_rei_: Pombal, D. Miguel, Saldanha ainda, ou seja um bom pae, um bom

protector do povo!

Como o seria porém D. Pedro V, se se acreditava marcado por uma

estrella funesta; se, fumando como um estudante o seu cigarro,

ouvia a licção do seu mestre Herculano, licção em que ás fórmulas

liberaes-romanticas se juntava o ensino de uma reprovação

universal--dos politicos, um bando; do povo, um desgraçado? As fórmulas

sabias murchariam a flor da ambição, se ella viesse a desabrochar,

porque as jeremiadas do propheta enraizavam na alma do rei o seu

pessimismo. Como que abdicava, instruindo-se; e, em vez de se entregar

ao officio proprio do seu posto, velava as noites a estudar, os dias

passava-os aferindo a realidade por uma historia vista com oculos de

metaphisicas nebulosas, de idealismos mysticos. Parecia um monge

somnambulo; mas a mocidade, a virtude estampada no seu rosto, ganhavam

um encanto de melancholia com essa perda das noites veladas. O dia, a

luz do sol, a realidade, os homens, tudo então se lhe affigurava um

sonho: pesadelo triste, a sua má sina! Quando não era funebre, era

ironico, epigrammatico: o seu reino parecia-lhe o peior da Europa.

Lera o livro de About _La Grèce contemporaine_, e annotando-o, poz no

titulo: _La Grèce--et Portugal_.

Ora Portugal já por fórma alguma era como a Grecia contemporanea.

Fôra-o sem duvida, mas desde que o espirito pratico vencera em 51,

conquistando a si o primeiro dos palikaras portuguezes, Saldanha, todas

as ambições nacionaes estavam tornados para uma Beocia antiga, farta de

cearas. O genio do rei não chegava a conceber um ideal tão mesquinho, e

só via o passado, com os olhos cégos para o futuro iniciado. Elle era o

fim de uma historia, o epilogo summario de um tomo, inserido por erro

depois das primeiras paginas do livro seguinte. Por isso lhe chamámos

posthumo. Considerava-se a si um nuncio da morte e via moribundo o

seu povo. Estimaria que o caminho de ferro se fizesse com inglezes

«para metter sangue novo nas veias d’esta raça atrophiada». Como se

sabe, os operarios cruzam com as camponezas e o caminho de ferro ia

atravessar o reino em dois sentidos. Singulares, dramaticas deviam ter

sido as conversas entre o mystico principe e o Salamanca, o aventureiro

audaz das novissimas emprezas que se propuzera regenerar Portugal.

O embaixador que as ouviu, apresentando ao rei _antigo_ o moderno

barão da industria e do banco, dizia que para descrever bem a acena

«seria necessario la pluma de un Cervantes.» Salamanca, _soccarron_,

affectando gravidade na sua face castelhana, como um Gil-Blaz, ouvia D.

Pedro que queria _lucir-se_. O _picaro_ confessava a sua ignorancia:

nem era philosopho, nem sabio! um homem-de-negocios, senhor! E D.

Pedro V contava-lhe a nossa pobreza, a incapacidade de sustentarmos

caminhos de ferro, filiando estas opiniões tristes no quadro lugubre da

decadencia das raças latinas. Saindo, o emprezario sagaz, que estudando

um doente vira um homem, disse para o embaixador companheiro: «Deus nos

livre de que este rei tivesse os meios e o valor das suas convicções.»

De casa do filho, foram ambos a casa do pae. Que mudança! Tambem

Salamanca era _artista_, tambem apaixonado pelo bric-à-brac,

derradeira poesia dos scepticos; tambem sybarita, _viveur_

aristocratico, distincto, palaciano. «Parecian hechos el uno para

el otro». Viram os museus, commentaram as faianças, os charões, as

porcellanas, os quadros, rindos como gréculos. O pensamento de ambos,

inconscientemente, nadava na expressão classica do papa da Renascença:

_Quod commoda da Deus nobis hœc otia, Christi!_ «Quedaran encantados.»

E para rematar a amisade, o rei D. Fernando fazia indirectamente a

apologia dos povos latinos, confessando o seu desamor pelos inglezes

que maltratava. (V. Desp. de Pastor Dias, 10 dez. 59 ap. Rios,

_Mision_) Triste engano do acaso, que invertera o lugar proprio das

pessoas. O pae devia ser o rei; o filho o principe que, sem os cuidados

do throno, acaso teria tido, no Portugal novissimo, o papel de D.

Henrique no de Aviz--o papel de um iniciador na sciencia!

Quem se não lembra de ter visto o rei, attento como um discipulo, a

ouvir nas salas do seu _Curso_ as lições dos professores, com o aspecto

grave, a mão cofiando o pequeno bigode, denunciando a actividade do

seu cerebro? Porque lhe não concedia a sorte viver a vida para onde o

seu genio o chamava? Porque a sua sina era perdida e uma estrella má o

condemnava a elle a reinar, e ao reino a padecer as consequencias de um

destino cruel. A bofetada que a França nos deu, vindo buscar armada ao

Tejo o negreiro apresado em Africa, arroxeou-lhe a face, e o rei chorou

afflicto. Veiu uma epidemia de cholera em 56; outra de febre-amarella

em 57; veiu a irritação cruel das irmans-da-Caridade. As desgraças,

os embaraços teciam a rede de malhas cerradas em que se lhe afogava

a existencia; sem lhe occultar, mostrando-lhe sempre, fatidica, a

estrella má do seu destino.

Quando um sceptico tem superstições--contradicção só aparente, e de

resto vulgar, do espirito humano--não reage, obedece; não resiste,

cae. Quando ellas atacam um mystico, fortalecem-no com uma coragem

transcendente. D’ahi veem os monges heroicos, stylitas e outros. A

alma de um santo que havia em D. Pedro V, retemperada pelo estoicismo

aprendido nas licções de sua nobre mãe, mostrou-se quando Lisboa

dizimada o via passar nas ruas, visitando os enfermos, caminhando para

os fócos do contagio, como um Isaac para o sacrificio biblico. O amor

do povo tornou-se então uma paixão; e corriam as anedoctas com que a

imaginação popular cristallisa os heroes. Mandara a um medico medroso

descalçar a luva para tomar o pulso ao enfermo. E se Portugal já tivera

em D. Sebastião um rei Arthur, não é verdade que se formava uma lenda,

diversa sem ser menos bella: a lenda da santa rainha de Hungria, ou

do rei santo de França? Nas pestes milanezas, o Borromeu ganhou a

canonisação; nas de Lisboa, D. Pedro V foi canonisado pelo povo. E

quando, quatro annos depois, morreu, na aureola da caridade o povo

engastou palmas de martyrio.

Nas angustias d’esses dias afflictivos, o moço, infeliz rei achar-se

hia bem, sem o crer, sem o pensar, sem o sentir. Assim a cevadilha só

floresce nos terrenos da malaria. Assim os maus só crescem no seio da

pravidade. Tambem os temperamentos funebres, com o espirito feito de

presagios, se prazem no seio das desgraças. Ellas vêem como confirmação

dos presagios. E nada aflige mais o homem do que a duvida, quando o

que o rodeia não obedece ao que pensa, ou ao que sente. Como não viria

a peste, se a estrella do rei era mortal? Cumpria-se o fado da sua

existencia. Os presagios não mentiam; o seu coração falava verdade. E

esta affirmação externa do seu sentimento intimo, afogava-o mais, cada

vez mais, nas suas superstições funestas, no seu pessimismo ingenito.

Em taes momentos, os temperamentos como o de D. Pedro V raras vezes

caem: quasi involuntariamente requintam. Formula-se então em doutrina o

que era apprehensão. O acaso, segredo ou mysterio do Universo, torna-se

Providencia; e, quando se é christão, por via de regra, entra-se nos

moldes conhecidos, que tantos mysticos formularam, desde Alexandria até

Manreza. A religião arde como chamma a que se dá, em novo combustivel,

a somma de apprehensões coordenadas. Era D. Pedro V christão? ou

apenas deista á moda romantica, isto é, reconhecendo no christianismo

a mais pura fórma de deismo até hoje concebida? Não sei. As licções

de Herculano, os livros modernos da sua leitura deviam ter abalado

a sua orthodoxia; mas os espiritos romanticos, na inconsistencia das

doutrinas, na poesia dos sentimentos, conservavam sempre aberta a porta

para o arrependimento. E tantos foram os que, penitentes, se curvaram

beijando a terra: tantos, tão dignos, tão nobres, obedecendo tão

espontanea e sinceramente, que hesitamos em dizer se o rei teria ou não

sido um d’esses.

A occasião levava a um tal fim a vida moral de D. Pedro V, quando o

casamento (18 de maio de 58) trouxe para o seu lado uma rainha piedosa,

candida, pura, como anjo que vinha, entoando os canticos da Egreja,

acompanhal-o a bem morrer, ou mostrar-lhe, apparição fugitiva, vaporosa

Beatriz de religioso encanto, o paraiso que o esperava depois da selva

escura da existencia terrestre. Tinha vinte e um annos Dona Estephania,

(n. 15 julho 37) quando casou com o rei que contava edade egual. Eram

duas creanças? Não; apesar dos annos. Porque a elle a imaginação

tinha-lhe feito viver já uma longa existencia de pensamentos, presagios

e angustias; e a rainha desde creança vasara toda a sua bondade

angelica nos moldes da devoção catholica. Apesar dos annos, pois, eram

ambos, em moços, como se já fossem velhos; e a edade juntava ao encanto

d’esse par tão nobre, tão cheio de sympathia. Ella tinha retratada a

candura da sua alma na suave expressão de um rosto meigo; e o rei, no

aspecto carregado, mostrava a força do seu caracter, a tristeza do seu

espirito. Um presentimento tragico assaltava quem os via passar nas

ruas da cidade: nenhum dos dois parecia bem d’este mundo--elle uma

victima expiatoria, ella um anjo custodio!

A devoção da rainha e a superstição do rei davam de si uma authoridade

espontanea á primeira no espirito do segundo. Era então o tempo em que

a questão das irmans-da-Caridade, complicada com a politica, se tornara

um espinho irritante; e a rainha devota e o rei funebre começavam

a ser accusados de clericaes e ultramontanos. Com effeito, nenhum

dos dois fôra feito para o throno. Tinham demasiada virtude, ambos,

para reinar em qualquer dos nações latinas, sobretudo em Portugal. A

sua sinceridade não era comprehendida, e arriscava-os a soffrer as

consequencias de uma politica desalmada.

D. Estephania morreu a tempo (julho de 59), antes que se desmanchasse

ás mãos duras de quem não tinha coração para a amar, a cristallisação

poetica formada no espirito do povo sensivel com a sua formosura

angelica, com a sua devoção ingenua, com a sua caridade fervente.

Morreu, e ainda bem! É como quando no meio da charneca desolada e

secca, fatigado, o viandante depara com um puro arroyo cristallino,

e bebe: assim nos acontece a nós deparando com um typo de candura e

poesia na vasta charneca de urzes d’esta historia. Que importa morrer?

Mais vale que o arroyo logo se perca, sorvído por alguma fenda ... Se

corresse e seguisse atravez do chão empoeirado, não é verdade que as

suas aguas se haviam de sujar, misturando-se com as gredas do solo e as

folhas podres das urzes?

* * * * *

Mas o pobre rei, mais a sua sina fatal, quando se viu só, depois dos

breves mezes de casado, mais se enraizou ainda nos seus presagios.

Era a morte, elle que matava tudo o que tocava. Via-se já nos ares

arrebatado pelo aguia negra dos seus pesadelos. Sentia sobre si o

peso de muitas vidas ceifadas; e, chorando, lamentava o seu triste

isolamento. Não estaria cumprido ainda o seu fado? Que novas desgraças

havia de causar? Quando lhe seria dado terminar o seu desterro d’este

mundo, para ir n’um céu, visto em sonhos, sentar-se ao lado do anjo

que para lá fugira? Como uma pomba branca voando breve no horisonte

da sua vida, tocando-lhe com a aza a face a dispertal-o dos seus

sonhos tristes, assim passara a idolatrada rainha, assim fugira, assim

desapparecera no seu vôo. De longe, accenava-lhe agora. Era a Beatriz

dos seus pensamentos mysticos: não uma Laura de amores humanos.

Assim um novo motivo de tristeza se juntava aos anteriores; assim tudo

ganhava um caracter fatidico para o espirito do rei. A fatalidade

estava n’elle, e não nas cousas. Quando um relampago azulado illumina

a noite, tudo nos apparece azul. Caía triste o outomno de 61: havia

dois annos que D. Estephania morrera, quando o rei e os principes foram

a Villa Viçosa caçar, e voltaram de lá envenenados pelos miasmas de

um charco dos jardins. Eloquente symbolo, porque os miasmas do charco

portuguez eram o veneno que o rei tragara no berço e lhe fizera da vida

uma enfermidade chronica.

As mortes galoparam rapidas como na ballada de Burger. Caíu primeiro o

joven infante D. Fernando, e o rei tinha a certeza de morrer tambem. Já

no leito ardia com febre delirante. Em frente do palacio, fundeada no

rio, a corveta _Estephania_ de espaço a espaço soltava um tiro--como

o bater do relogio lugubre da morte. E esses tiros ouvia-os o rei,

chamavam-no, excitavam-no, davam-lhe os desejos de acabar por uma vez

com a vida miseravel, para ir abraçar no céu a Beatriz do seu delirio.

Se a voz dos anjos podesse ser o troar dos canhões, não era ella que

o chamava? Talvez; porque os tiros chegavam á camara do rei, já

brandos, como um ecco, um murmurio, e vinham do navio que tivera o nome

d’ella--Estephania! Seguidos, constantes, infalliveis como um destino,

repetiam-se; e o delirio do rei, interpretava-os: eram vozes! A sua

vista conturbada já perdera a noção da realidade; e vivo ainda, já se

julgava transportado ás regiões sonhadas n’uma longa existencia de

vinte annos ...

Dizem que na agonia murmurava os threnos de Dante:

Per me si vá nella citá dolente ...

Per me si vá n’ell’ eterno dolore ...

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 26 / 30 段