Mas com este novo espirito portuguez tinha-se tambem insinuado em

Portugal um corpo de sentimentos modernos, ainda mal definido em

idéas, mixto de socialismo humanitario e republicanismo cosmopolita,

federalista: a atmosphera necessaria de idealismo que alimentava o

espirito dos moços, formando a vanguarda dos partidos revolucionarios

portuguezes de 51 a 68, forçando os regeneradores a tornarem o

Fomento solidario da Conservação. Concebe-se facilmente como a

semente do iberismo devia germinar em um solo bem preparado pelas

idéas cosmopolitas e humanitarias, pois que estas idéas, em vez de

penderem para o lado dos antigos liberalismos, se alliavam á doutrina

do fomento economico eivada de socialismo, democratico e não cesarista.

Além d’isto o phenomeno singular do pessimismo portuguez, oriundo do

caracter apathico do povo, justificado pela historia, corroborado com

eloquencia pelas miserias presentes, conduziam a vanguarda da geração

nova a vêr na solução iberica a conclusão natural da historia patria.

Latino, publicista imaginoso, artista nas idéas, no temperamento, no

estylo, apresentava no seu prologo á _Iberia_ as opiniões vagas e

nebulosas da gente que, ligada partidariamente á Regeneração, como

José-Estevão se achava ainda, se não satisfazia já com o mutismo

politico regenerador. Latino via auroras para além do _zollverein_

peninsular. Não via Fontes «sobre a locomotiva o progresso?» Mas o

progresso do ministro era a riqueza apenas; e as auroras do publicista

eram a Humanidade, uma Republica europêa, a Paz universal! «Se a

federação europêa não é tão cedo possivel, não será mesquinho o nosso

desejo, se aspirarmos á diminuição progressiva do numero dos Estados

independentes.--A peninsula iberica que já formou uma só nação pela

conquista, poderá, deverá ser um só paiz pela fusão espontanea». (Prol.

da _Iberia_, anon.) Era tambem a opinião de Cazal Ribeiro que acclamava

a Iberia, sob a fórma de uma republica federativa. (_Rev. lusit._ maio

53) Era tambem a opinião do moço, mallogrado Nogueira, (_Fed. iberica_,

54; ap Th. Braga _Sol. pos. da pol. port._) que chorava sentidamente a

nossa dolorosa situação: «Minha pobre patria! escuta a voz do ultimo

e mais obscuro de teus filhos. Sacode essa nuvem de harpias que

especulam com a tua passada grandeza, para se nutrirem em teu corpo

extenuado! Quando volverem dias mais auspiciosos lança-te resolutamente

na vanguarda do movimento peninsular, onde tu e os teus briosos

companheiros tens tudo a ganhar e nada a perder». (ap. _Iberia_, tr.

port.) Tambem o prologo da _Iberia_ dizia: «Portugal, só, como está,

desajudado, moribundo, que poderá jámais tentar? Exhauriu-se de forças

na lucta: precisa que lhe injectem sangue novo. É, depois da Turquia, o

povo mais atrazado».

* * * * *

Podia este pessimismo agradar á Regeneração gloriosa, magnifica? Podia

agradar-lhe a Iberia, quando o pensamento da união, democratisando-se,

passava do segredo das secretarias para a publicidade dos papeis?

quando, em vez de combinação de gabinetes e arranjo dynastico, se

tornava a expressão de ambições revolucionarias, mais vagas, mais

nebulosas, mais graves do que nunca? O fomento pugnava pró, mas não

pugnaria contra a conservação indispensavel ao progresso da riqueza?

E, se tudo isto era assim, não valia mais recuar, abandonando as

esperanças dos caminhos-de-ferro vastos e geometricos, da futura

Lisboa--outra Londres--para conservar a nossa pobreza e a nossa

monarchia? Em Hespanha pensava-se outro tanto, antepondo-se á união

a conservação, por medo das revoluções. E desde que, accordes n’esta

politica, (V. Rios, _Mision_) os conservadores dos dois paizes

abandonavam os planos de enlaces dynasticos, o melhor partido que os

regeneradores podiam tirar do iberismo era o de usar d’elle como arma

para condemnarem os revolucionarios novos, aos quaes afinal o tinham

ensinado.

D’ahi veiu para nós uma situação que mais de uma vez se tornou

grotesca e sempre ridicula. D’ahi veiu inventar-se o 1.º de Dezembro,

festa patriotica em que annualmente arremettemos contra os visinhos

com bombas, foguetes, philharmonicas, e peior ainda! com discursos

apopleticos de uma rhetorica plebêa. D’ahi veiu o ter-se assistido á

queda de successivos gabinetes por esse labeu de iberismo explorado

pelos partidos, lançado como uma pélla de um a outro lado, fazendo

crêr que no meio de um odio universal á Iberia, todos em Portugal

são ibericos! D’ahi veiu o accender-se no coração do povo passivo, e

em proveito da intriga politica, um odio archaico, absurdo, talvez

responsavel de futuro sangue innocente derramado, se um dia os vae-vens

do equilibrio europeu fizerem com que a Hespanha nos conquiste. D’ahi

veiu o ridiculo de uma nação fraca, mui governada, sem marinha, com um

exercito indisciplinado, nem instruido, nem aguerrido, nem numeroso,

com as fronteiras abertas, as costas por defender: de uma nação que

não poderia resistir á mais pequena das invasões, dar ao mundo--se o

mundo olhasse para nós!--o espectaculo ridiculo da fanfarronice mais

disparatada. «Rrre ...benn ...too de fo.o.rça!» diz n’uma comedia

hespanhola um portuguez, inchando-se, com as faces rubras; e os

hespanhoes vingam-se não nos ouvindo, e chamando-nos amavelmente

_portuguecitos_.

Tal foi a situação creada pela iniciação iberica de 53, depois

aggravada quando a revolução de 68 fez da successão de Hespanha um

problema. Renasceram, é natural, as combinações dynasticas; mas o

iberismo, já ao tempo declaradamente federalista, era a revolução:

não se repetia, pois, a historia anterior? Não eram forçados os

conservadores a cohibir quaesquer ambições que tivessem, para defender

a monarchia, para se defenderem a si, para esmagarem os contrarios,

explorando o patriotismo em proveito proprio, condemnando em nome

d’elle a revolução que affirmava ser urgente _renegar a nacionalidade_?

(Quental, _Port. per. a revol. de Hesp._)

Mas antes que este segundo momento apparecesse para crear

definitivamente a situação que desenhámos ha pouco e é a de hoje;

antes, entre as duas crises, que attitude era a da Hespanha? Tambem

na côrte de Madrid se sabia que a Iberia seria a revolução e a quéda

dos Bourbons: como poderia haver planos de annexação? Os partidos

conservadores, nos dois paizes (regeneradores, _unionistas_), tinham

chegado áquelle triste ponto de nada, absolutamente nada, poderem

fazer no sentido de melhorar a sorte do povo, pela razão de que

toda e qualquer idéa fecunda era, e é,--a situação conserva-se a

mesma--confiscada, apropriada a si pela opinião revolucionaria,

atmosphera hostil que rodeia e paralysa. Se, portanto, em Hespanha

existia um medo, não de uma invasão portugueza, mas do iberismo como

arma revolucionaria, em Portugal havia-se já insinuado, generalisado no

povo um odio a Castella, que aos conservadores convinha que houvesse,

para com essa irritação, cuja falta de fundamento elles mais do que

ninguem deviam conhecer, obterem a protecção decidida do paço e uma

arma de parada para baterem as opposições.

Mas os conservadores portuguezes, excitando assim um sentimento

anarchico para se servirem a si e á monarchia, foram réus de graves

desvarios. Logo á morte de D. Pedro V o povo de Lisboa, choroso e

commovido, misturou o iberismo no corpo de protestos com que exprimia

a condemnação constante, ora tacita, ora expressa, pela ordem das

cousas. Ha, sem duvida, uma pathologia collectiva sem o estudo da qual

o historiador jámais poderá iniciar-se no intimo dos sentimentos de um

povo. As doenças mysticas do catholicismo do XVII seculo constituem

um corpo de symptomas eminentes; e Portugal cujo organismo raros

momentos gozou de uma saude perfeita; Portugal cujo ultimo ataque de

febre monarchico-catholica nós estudámos em 26-33; Portugal que desde

a implantação do liberalismo, ou em collapso não se movia, ou passava

da inacção a alguma furia: Portugal apresenta um symptoma curioso

para diagnostico ao medico politico. Todos os seus reis envenenados,

todos os seus estadistas, burlões, eis a genuina opinião do povo, que

qualquer póde obter interrogando-o. Envenenado D. João VI, D. Pedro

sem duvida alguma envenenado, D. Maria II--quem o ignora? E depois de

tudo isto, morriam D. Pedro V e os infantes (D. Fernando, D. João)

envenenados tambem.

Envenenados morreram, com effeito, mas com os miasmas do charco de

Villa-Viçosa.--Qual charco! dizia o povo; um charco sim, mas o dos

politicos: o de Loulé que quer ser rei, acudiam uns; e outros diziam

que não, affirmando terem sido o Salamanca e os socios para nos

_venderem á Hespanha_. Assim, lavrando na imaginação popular, a semente

do iberismo lançada pela iniciação do Fomento, tornava-se agora contra

os que por interesse eram os adversarios da união iberica.

Nos tumultos do inverno de 61, por occasião das mortes na côrte,

o protesto espontaneo do povo rebentou de um modo symptomatico,

declamando absurdos, exigindo crueldades: querendo a cabeça de Loulé

que para a guardar teve de fugir pelos telhados das secretarias;

propondo-se saquear a casa de Salamanca, o que envenenara no almoço de

Santarem a familia real na volta de Villa-Viçosa! (Nota de Valencia,

11 de nov. ap. Rios, _Mision_) Quem denunciava estes criminosos?

Ninguem; todos. De quem é a voz que nas tempestades fala em trovões

reboando pelas quebradas das serras? A turba, como as massas da

electricidade, tem uma fala cujas expressões a ninguem pertencem.

Mas assim como a trovoada não vem sem causa, assim os clamores

populares, embora absurdos nas palavras, teem um motivo intimo e

grave. Já na historia houvera delirios, e sempre, no fundo da loucura,

appareceram verdades. Tambem os allucinados no seu tresvario vêem longe

muitas vezes. Ninguem envenenara os principes, ninguem projectava

vender-nos a Hespanha. Loulé, em vez de burlão, era um homem de bem.

Mas que importa? Alguem ha de ser o réu, alguem o objecto da nossa

colera, do nosso mal-estar, da vaga consciencia da nossa miseria, e

quem, senão quem nos governa?

Se o organismo portuguez tivesse ainda energia para se rebellar, o

fim de 61 teria provavelmente assistido a uma revolução: mas não

sabemos nós, acaso, que depois da Maria-da-Fonte a guerra de 46-7 foi

já um combate de espectros? E depois d’esse episodio funebre, não

viera a Regeneração medicar-nos com tisanas de scepticismo e caldos

substanciaes de _melhoramentos_? Se o enfermo levantava cabeça, não

podia ser ainda para pensar: era apenas a convalescença em que o

organismo pouco a pouco se robustecia com a transfusão de sangue de

libras inglezas, por emprestimos successivos.

Quando chegou o dia do rei D. Luiz se casar, e a Hespanha que, mais

viva, estava proxima a ajustar contas com o _liberalismo_ de Isabel

II, viu que a noiva era a filha do piemontez já rei da Italia unida,

temeu-se em Madrid que a tradição da familia saboyana, o exemplo da

outra peninsula meridional fizessem de Portugal um Piemonte hespanhol.

Quanto injusto favor nos concediam! Que temerarios planos attribuiam

ao nosso modesto rei, aos nossos estadistas timidos, mediocres! O

embaixador que a Hespanha tinha em Lisboa apressou-se a dissipar os

sustos palacianos:

O rei D. Luis é um joven sem experiencia, de curto alcance e pouco

a proposito para dirigir um negocio de tanta consequencia. (Desp.

do m. de la Ribera) Se me perguntasse qual eu creio que seja o

caracter distinctivo d’esta sociedade, diria que é o de uma profunda

prostração. Não temo que, no curso da politica, qualquer que ella

seja, Portugal possa influir nos destinos da Hespanha. Não ha

aqui nenhum dos elementos que se reuniram no Piemonte; não vejo

partido bastante energico e poderoso para ter uma politica externa

de verdadeira iniciativa; nem distingo em nenhum homem publico um

verdadeiro homem d’Estado. (Desp. de Coello y Quesada, 5 de set. 64,

_ap._ Rios, _Mision_)

Dissipadas as sombras de sustos, apertaram-se outra vez as mãos entre

Madrid e Lisboa, contentes, esperançados, os Bourbons e os Braganças,

os regeneradores e os _unionistas_, em que o espectro revolucionario

da Iberia ficasse para todo o sempre mudo. De repente, porém, surge em

Hespanha uma revolução (3 de outubro de 1868) que n’um instante expulsa

a rainha, acclama Prim, e fica á espera de saber que destino ha de dar

a nação. Republica? Monarchia? Iberia? Centralisação? Federalismo?...

Depois a guerra assolou a França, abatendo o segundo imperio. As duas

grandes nações latinas acharam-se desprovidas de governo, entregues

aos vae-vens das opiniões partidarias, abertas a toda a especie de

experiencias, como navios desgarrados de uma esquadra açoitada pelo

tempo. Faltava a unidade de direcção almirante, e dentro de cada nau o

commando fluctuava á mercê do acaso ou da fatalidade. A Hespanha tentou

uma monarchia e varias fórmas de republica. A França, gemendo, não se

decidia á dar á luz fórma alguma conhecida de governo. Mas em Hespanha

e França o socialismo appareceu sob a fórma de deploraveis revoltas

communaes, eivado de preoccupações federalistas e demagogicas, cruel,

rudemente esboçado em Paris e em Carthagena. Não eram, porém, mais nem

menos violentas, sanguinarias e ridiculas do que as da Edade-media,

raizes de um liberalismo burguez hoje acclamado por ser vencedor. Em

França e Hespanha portanto a revolução, denunciada sob o seu novissimo

aspecto, levou as classes médias a congregarem-se para se defenderem.

D’ahi nasceram, nos dois paizes, governos analogos, egualmente

_opportunos_, embora diversos como fórma: a monarchia para áquem, a

republicana para além dos Pyreneus.

* * * * *

Com a revolução hespanhola de 68 o iberismo acordou por varios modos.

Em outubro liam-se nas esquinas de Lisboa pasquins dizendo:

Viva a união iberica! Viva o sr. D. Luiz I chefe dos dois paizes

unidos!--Ponhamos de parte estupidos preconceitos; portuguezes e

hespanhoes são irmãos pela religião, pelos costumes, pelo idioma,

e sobretudo pelo seu decidido amor á liberdade. Não percamos,

portuguezes, a occasião que a Providencia nos offerece para nos

engrandecermos, constituindo uma nação que será invejada de todas

as nações do mundo, podendo dar leis a todas, sem de nenhuma as

receber.--Viva a união iberica!

Esta proclamação, supposta portugueza, era provavelmente hespanhola:

forjada pelos emissarios que Prim, ao tempo, sabidamente tinha em

Portugal. Se o general relesse os despachos de Quesada, quatro annos

atraz, se tivesse genio para auscultar bem o temperamento do paço, do

governo, e do povo, reconheceria mais cedo como perdia o tempo. D. Luiz

nunca foi Victor-Manuel, nem Carlos-Alberto, nem Guilherme IV; Fontes

não era evidentemente um Cavour, nem um Bismarck: menos o era ainda o

duque d’Avila presidente da Janeirinha.

Por outro lado, Prim, nem tinha audacia nem força para fazer de nós o

que Bismarck fez dos ducados do Elba. Mas a Hespanha necessitava um

rei! Ainda a guerra alleman não destruira o imperio em França: uma

republica seria um escandalo. Um rei! pelo amor de Deus, um rei! diziam

afflictos de Madrid. E bem perto, em Lisboa, havia um, em inactividade

temporaria, nos casos de servir. Mas casado! Dariam á Hespanha a

condessa d’Edla como rainha? Por ahi a negociação falhou. (V. Rios,

_Mision_) E tambem porque, embora allemão, embora já com filhos o

rei portuguez, os conservadores viam no affinidade das dynastias um

longinquo receio de iberismo. Appareciam graves folhetos sombrios

(Corvo, _Perigos_; _Duas palavras_, etc.) pintando com sinceridade,

ou sem ella, as ameaças imminentes. E acordar no povo o _odio a

Castella_ foi ainda, como sempre fôra, um meio de _fazer opposição_.

Os regeneradores tinham agora a conquistar o poder ao _reformismo_ da

janeirinha, e para tanto, o melhor meio era chamar-lhe iberico e encher

de sustos a cabeça do bom do rei.

E entretanto, nem o Bispo, nem Latino, nem ninguem era iberico; embora

o _reformismo_ tivesse laivos de republicano, embora Latino tivesse

prefaciado o livro de D. Sinibaldo. Illusões tambem passadas! A

iniciação do fomento convertera as gerações novos, e os ideologos

de 54 eram opportunistas em 70. Tambem os federalistas platonicos

d’esses tempos passados eram conservadores de agora, como Cazal. O

federalismo iberico, mais ou menos eivado de socialismo demagogico,

era já em Portugal apenas o credo de uma minoria minima, sem valor

politico de especie alguma. E passada a crise, restaurada a monarchia

em Hespanha, a situação voltou o ser, com os partidos novos, o que fôra

com os antigos. Conservadores de ambos os lados da raia: conservadores

regeneradores, conservadores canovistas, conservadores progressistas,

etc., etc.,--opportunistas todos.

3.--O SOCIALISMO

Esta doutrina saía mais directamente do que a idéa precedentemente

estudada, do progresso material defendido pela regeneração. Os

regeneradores não estavam de todo limpos da mancha socialista, como

vimos. Chevalier, o mestre economista do partido, trouxera da egreja de

Menilmontant para o mundo as maximas da economia sansimonista.

Mais do que ao iberismo ainda, porém, acontecia ao socialismo o que

antes vimos succeder: abraçarem os revolucionarios a idéa, fazerem-na

sua, obrigando os regeneradores a renegal-a, recuando cada vez mais,

accentuando todos os dias o seu caracter conservador. O individualismo

das antigas escholas e partidos finara-se, porém, como lettra morta;

e quer cesarista, conservadora ou imperialistamente, quer democratica

e revolucionariamente, «o melhoramento da sorte dos desvalidos da

fortuna» era uma preoccupação tão dominante dos espiritos, como

n’outro tempo o fôra «a garantia dos direitos soberanos do individuo».

Os socialistas francezes eram geralmente lidos. Os moços chegaram a

ensaiar phalansterios. A classe dos engenheiros, nova em Portugal,

com a sua educação mathematica, seguia os exemplos dos discipulos da

eschola polytechnica de Paris. Commungavam n’um sansimonismo, mais ou

menos accentuado, Carlos Ribeiro e Rolla, Garcia, Bettamio, Delgado,

e Brandão, author da _Economia social_ (8.º 1857) com epigraphe:

_Unicuique secundum opera ejus_. Fourier apparecia como um precursor,

Proudhon como um apostolo. Para além do presente entrevia-se um futuro

doirado de fortunas.

Por acreditar na imperfeição e na perfectibilidade da raça humana,

ninguem pecca por fourierista ou proudhoniario. A poesia romantica

tem, não ha duvida, muito de socialista mas annuncia um socialismo

mais sabido que ainda está por vir. A poesia é toda inspiração e

vaticinio. A magia existiu antes dos caminhos-de-ferro, do gaz e do

magnetismo. Dante viu as estrellas do hemispherio austral antes que

este se descobrisse; Seneca vaticinou a descoberta da America; Eschylo

no _Prometheu_ a redempção; e Virgilio adivinhou alguma cousa da moral

christan e até o progresso civilisador da Europa, extendendo por todo

o mundo os seus costumes, o seu poder, a sua religião, a sua sciencia.

(_Rev. Peninsular_, 55)

Isto era escripto commentando Espronceda, o author do _Pirata_ e do

_Mendigo_, o poeta néo-romantico que puzera nos seus versos todo o

desespero, todas as ironias, todo o _satanismo_ de uma alma já sem

obediencia a nenhuma especie de authoridade moral, mas cheia de impetos

e aspirações democraticas e socialistas.

Com effeito, a revolução das idéas approximara estas duas opiniões;

e se já não havia jacobinos, tambem ainda o socialismo não ganhara a

expressão exclusiva, odienta, de uma guerra de classes, como partido

de _populani_ magros resuscitado da velha historia das republicas

italianas. Uma atmosphera nebulosa de humanitarismo cheio de esperanças

philantropicas envolvia as doutrinas revolucionarias: choravam-se as

desgraças dos italianos, dos polacos escravisados; e a liberdade que

para os passados fôra um criterio racional e a base de um systema de

idéas, era agora invocada com um caracter mais de politica autonomica

das nações, do que de soberania constitucional dos individuos. A

republica seria a paz universal! Pouco importava, a ninguem offendia

que as ephemeras republicas de 48 fossem tyrannas com laivos de

communismo. Tudo isso era liberdade! Aos homens, educados pelo espirito

jurista e pela critica de Kant, succediam os discipulos de Louis Blanc

e de Lamartine.

Na camara portugueza--como as idéas correm, como as nações mudam

rapidamente, n’este seculo revolucionario!--na camara portugueza,

na sessão de 49, Souto-Maior, sem ser expulso nem apupado, defende

«a nobre, santa e justa causa em que se acha empenhada a Italia

inteira para constituir a sua liberdade, firmar a sua independencia,

e estabelecer a sua unidade». E no seu jornal, _Estandarte_, o orador

escrevia do papa: «Resumo de uma grande historia morta, póde ainda ser

o symbolo de um grande povo vivo». A _Carbonaria_ italiana, dirigida

pelo mystico republicano Mazzini, alargando os seus ramos por toda a

Europa, para fundar a republica universal e redemptora, infiltrara-se

entre nós tambem com a sua _alta-venda_ ou _choça-mãe_ d’onde dependiam

as vendas ou choças filiaes e as _barracas_. Em Coimbra havia a choça

de Kossuth, o hungaro. (M. Carvalho, _Hist. contemp._) N’esta maçonaria

novissima alistavam-se os moços, e d’ahi saía a direcção politica,

republicana e democratica.

N’este estado veiu a Regeneração encontrar os elementos desordenados

e fracos dos revolucionarios portuguezes; e os laivos de socialismo

que n’elles havia fizeram com que ella em grande parte absorvesse a

cauda moça do partido setembrista, já tambem eivada de doutrinas ou

sentimentos cosmopolitas e philantropicos. Das vendas carbonarias

passou então o foco da agitação revolucionaria para as sociedades

operarias. Fundou-se em Lisboa o _Centro-promotor_. «As idéas

societarias que desde 48 tinham ido calando no coração dos desvalidos

da fortuna» inspiravam ao mesmo tempo os typographos que se faziam

litteratos-politicos (Vieira-da-Silva, Albuquerque, etc.), os

engenheiros mais ou menos socialistas (Rolla, Latino, Brandão),

e os antigos setembristas que viam a urgencia de infiltrar idéas

e sangue novo no partido. Ao theatro romantico de Mendes-Leal,

heroes panta-façudos, homens-de-ferro com uma linguagem de medos,

substituiu-se um outro genero: eram os homens ou as mulheres _de

marmore_, dramas satanicos mostrando ao povo a corrupção dos

ricos; eram as _peças_ operarias, inspiradas pelas obras de Sand e

Eugenio-Sue, em que o homem de trabalho apparecia heroe, luctando com

energia e talento contra os crimes e preconceitos de uma sociedade

madrasta.

Desgarrados, sem cohesão nem consistencia todos estes elementos

revolucionarios, a Regeneração tendia a inclinar todos os dias mais

no sentido revolucionario, á imagem do que succedia por toda a Europa

latina.

Rodrigo, que a principio se apoiara no grupo setembrista da

_Revolução_, foi pouco a pouco bolinando tanto no sentido opposto, que

a presidencia official do partido passou de Saldanha para Terceira

(no gabinete de 59). Já em 54 D. João de Azevedo escrevia de Lisboa a

José Passos: «Conte que antes de pouco tempo muitas notabilidades do

partido cabralista hão-de obter graças e mercês, _porque a estrategia

de Rodrigo está hoje posta n’isso_.» (Carta, na corr. autogr. dos

Passos) Assim tinha de ser. Que era a Regeneração, senão o utilitarismo

cabralista sem doutrina? Que fôra o cabralismo, senão uma regeneração

sem dinheiro nem scepticismo, só com doutrina e violencias? 48

levantara uma labareda, mas o incendio apagou-se rapido. A Polonia, a

Italia, a Hungria ficaram quaes se achavam antes; a França restaurou o

papa em Roma, e tolerou em Milão o austriaco. Depois dos dias de junho

em que o socialismo de Paris foi esmagado, viera Napoleão III pôr um

freio ás temeridades revolucionarias.

O romantismo politico, a que nós estudámos as duas faces successivas

(1826-1838, Palmella, Herculano), finara-se de todo com uma revolução

em que já entravam elementos de diversa origem.

O que caracterisa esse periodo é a grandeza generosa das aspirações,

combinada com a indeterminação das idéas, um vago idealismo ou antes

sentimentalismo que envolve e abraça, sem dar por isso, as maiores

contradicções praticas e se lança no caminho das mais perigosas

aventuras com um sorriso de confiança ingenua e quasi infantil. Este

phenomeno de uma revolução sem pensamento explica-se pelas condições

particulares do meio em que se desenvolveu.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 25 / 30 段