ao mesmo tempo chefe de um partido que fora, e se dizia ainda,
nas suas folhas, democrata. Em pé, descoberta e curvada a cabeça,
abria, com uma servidão fidalga, a portinhola do coche real, para em
seguida ir collocar-se á frente dos ministros; e esta posição dupla,
inconsequente, mais de uma vez lhe trouxe dissabores. Um grande fidalgo
não póde hoje entrar na politica, senão para a escravisar a ella e para
impôr a sua vontade aos reis: só assim remirá, perante o seu povo, o
seu vicio de origem. É mistér ser-se Wellington, de quem tremeu Jorge
IV, e a rainha Victoria foi pupilla; Saldanha, a quem deu vivas D.
Maria II; ou Bismarck, o que levou pelo beiço o imperador Guilherme. De
outra fórma o povo vê sempre o cortezão, e raro o politico. Por isso
Loulé jámais foi popular, apesar de sério, fiel, honrado e bom. Humano
e caridoso á antiga, quasi perdulario por desdem, não por luxo, que
vivia pobremente, era adorado pelos seus clientes privados; mas os
seus clientes e adversarios politicos, saídos da massa do povo avaro,
_parvenus_ mais ou menos petulantes, não lhe perdoavam a sua fidalguia.
E a indolencia invencivel do duque dava-lhes frequentes motivos para o
accusarem com fundamento. Diz-se que o vergonhoso resultado da questão
_Charles et George_ proveiu de uma nota franceza que o ministro metteu
no bolso e a que jámais se lembrou de responder.
Ferveram sobre elle as calumnias, e por vezes estiveram para ferver as
pedradas da plebe amotinada. Chegaram a accusal-o de envenenador da
familia real, para succeder no throno; mas ás calumnias não respondia:
não responde quem se présa; e uma vez que o povo clamoroso rodeava
a carruagem, ameaçando o, mandou parar, abriu a porta, desceu e
disse: «Que me querem? Deixem-me. Vão para casa e soceguem». Disse-o
placidamente, sem erguer a voz, e o povo rendeu-se. Sem _pose_, tinha
uma coragem fria, verdadeira. Ardia-lhe a casa, de noite: vieram os
creados afflictos, chamal-o; e elle, ouvindo-os, disse-lhes que quando
o fogo chegasse ao quarto immediato o avisassem. Assim deixava arder a
sua casa, porque era _historico_, e nada tinha do ávido temperamento
burguez, imperante nas companhias, nas bolsas, nos caminhos de ferro.
Era um D. João VI, mas bello; ou como o rei que tanto lhe queria,
como um D. Pedro V já velho. _Historico_ por descendencia fidalga e
politica, duas illusões o acompanharam ao tumulo: a do sangue e a
da LIBERDADE. Uma das suas ambições era a de «fazer umas eleições
prohibindo sériamente a intervenção ás authoridades administrativas».
Morreu sem vêr realisado esse desejo, confissão plena da genuinidade da
representação, proferida por quem de perto conhecia as cousas; e ao
mesmo tempo documento da sinceridade com que os homens são capazes de
acreditar em chimeras.
Confrange, é verdade! entristece, o lembrarmo-nos da somma de rectidão,
de lealdade, de quasi heroismo gastos por nossos paes em levantar um
edificio aereo que nem sequer lhes foi licito deixarem de ir vendo
cair, pedaço a pedaço, hora o hora, até á da final subversão no riso
sceptico, regenerador!
* * * * *
Em 51 fôra uma parte do setembrismo mais rubro (Sampaio, José-Estevão)
que se convertera; em 65, na _Fusão_, converteu-se a parte _branca_
do partido historico. A _unha-preta_, cauda democratica de um partido
forçado a ser conservador; a _unha-preta_, menos o seu chefe (tambem
convertido), restaurou as declamações setembristas proferidas na
tribuna por Santos-Silva, na imprensa pelos Tanas do _Portuguez_. Por
outro lado, José-Estevão desquitara-se da segunda regeneração (59-60),
ministerio addicto ás irmans-da Caridade, e teimava ainda em crear uma
democracia com _elementos novos_. Morreu na faina (nov. 4 de 62) o
tribuno peninsular, e as duas caudas dos dois partidos extinguiram-se
pouco a pouco, sumindo-se pelas covas, ou pelos empregos--da alfandega,
principalmente. A unha negra do fado condemnava-os todos a uma sorte
commum.
Outra garra, branca como o halito da locomotiva, novo idolo do tempo,
chamava á conservação politica no seio da revolução economica, a gente
_séria_ de todos os lados, fusionada, abraçada n’um liberalismo pratico
sem doutrinas, n’um catholicismo tambem pratico sem exageros, n’uma
religião de sala, perfumada, afrancezada, burguezmente aristocratica,
n’uma moral facil, n’uma vida commoda, já que de todo não podia ser
regalada.
E porque? porque apesar de quasi vinte annos de _regeneração_, o
Thesouro teimava em se não encher, e era indispensavel moderar a
furia com que pediamos emprestado. O povo «podia e devia pagar mais».
Mais quando a _Fusão_, já inteiramente regeneradora desde 66 (9 de
maio), reclamou impostos de consumo, os negociantes do Porto fizeram a
_Janeirinha_ de 1868. Houve a sombra de uma revolução, houve um terror
palaciano, muitas phrases, ondas de cousas ridiculas, e por fim, como
orgão da novissima democracia, o duque d’Avila primeiro, o bispo de
Vizeu depois. A Regeneração acabava; a nova éra abria-se entre um
baculo e um brazão.
NOTAS DE RODAPÉ:
[39] Voltou em 1892; e coube ao A. a triste sorte de proceder á
execução. (3.ª ed.)
[40] V. _Hist. de Port._ l. v.
III
AS GERAÇÕES NOVAS
1.--A INICIAÇÃO PELO FOMENTO
Mas, emquanto todo o alto-pessoal dos partidos pouco a pouco se ia
fundindo desde 51, até depois de 68 se constituir sob o nome antigo
de regeneração n’um partido conservador, é mistér estudarmos o
desenvolvimento obscuro, desordenado mas grave, das idéas que vieram
substituindo a da Liberdade no espirito das gerações novas e nos
projectos dos homens destacados dos partidos antigos, como José-Estevão
sempre moço até á morte.
O primeiro em data dos homens novos, orgãos dos pensamentos modernos,
é sem duvida alguma Fontes, cuja physionomia procurámos já esboçar.
Imperialista por temperamento, engenheiro por educação, alitteratado
por um resto de romantismo, e por indole portugueza; de resto sem
malicia, prosaicamente crente na limitada capacidade ideal das
sociedades, por não ter genio e por obedecer ás correntes da epocha;
convictamente sectario da opinião dos economistas ex-sansimonianos,
como Chevalier, que viam na producção da riqueza o segredo da fortuna
dos Estados e nas associações capitalistas, n’isso a que chamou com
razão feodalismo novo, o instrumento adequando do progresso: Fontes
tinha na palavra juvenil um calor quasi poetico, um enthusiasmo tão
ardente que seduzia o temperamento de José-Estevão, em phrases de que,
ao tempo, só os velhos se riam, e que hoje não é possivel deixarem de
acirrar a ironia dos moços.
Eu já era fanatico pelas vias de communicação, sr. presidente; e, se
fosse possivel passar uma lei para que a nação portugueza viajasse por
tres mezes, estavamos salvos. (Disc. de 2 de abril de 56)
Isto seria ridiculo, se não fosse sentido. Sendo-o, prova apenas a
natureza do _genero_ novo da politica e a capacidade do cerebro do
estadista. O caminho de ferro é para elle verdadeiramente, não um
symbolo, mas a realidade do progresso. Correr a vapor, ganhar, trocar,
gozar, que outra cousa é a vida?
_Ceci tuera cela_, dizia: porque Hugo substituira Cicero, da mesma
fórma que os jacobinos tinham substituido os Prophetas pelos Romanos.
Se a imprensa pôde matar a architectura, como meio de traduzir o
pensamento de um indivíduo ou de uma epocha,--porque não hade o
caminho de ferro matar a estrada, como elemento da vida das nações e
como ultimo fórma da civilisação moderna? (Vozes: _muito bem!_ Disc.
de 18 de abril de 56)
Este novo Antony da viação a vapor, perfumado, bem vestido, leão da
moda, tinha expresso no rosto o retrato do novissimo romantismo. A
poesia baixara de inspiração, de motivo, de estylo: era banal e vulgar
como um empreiteiro endomingado nas salas aristocraticas invalidas.
Parece que D. Pedro V lhe poz por alcunha o Dom Magnifico! A palavra
do moço orador, _passe-par-tout_ facil, verbosa, fluente, sem cunho de
personalidade, já antes da importancia conservadora lhe impôr a reserva
calculada, afinava-se por todos os tons, possuia todos os dotes, sem
se elevar em nenhum d’elles:
Tem um pouco do phantastico do sr. José-Estevão; do positivo e
escholastico do sr. Avila; do sarcastico do sr. Cunha; e até do
nebuloso do sr. Carlos Bento. Sabe retorquir ao sr. Avila com
algarismos; ao sr. Antonio da Cunha com ditos picantes; ao sr. Carlos
Bento com algumas phrases tumidas e bombasticas sobre a theoria
transcendental do credito, ou sobre a philosophia hyper-critica dos
carris de ferro. (_Apont. s. os oradores parlam._ 53)
Assim o avaliavam, não sem maliciosa ironia, os contemporaneos. E nós
que ainda o somos, tambem lhe temos ouvido essa linguagem diffusa,
sonora, longa, redonda, e banal, por custoso que seja dizel-o de um
vivo. Nem uma imaginação colorida (como a José-Estevão), nem um talento
verdadeiro (como a Cazal-Ribeiro), nem uma veia sarcastica (como a
Souto-Maior), nem finalmente o saber especial e sufficiente ácerca do
que se trata (como a Serpa ou Corvo), apenas a habilidade verbosa o
distinguia. Subiu levantado n’um castello de palavras. Mantem-se n’um
trapezio de embustes.
E á medida que a edade crescia, como lhe faltara sempre a paciencia
e o tempo para estudar, o seu estylo baixava sem diminuir a sua
facundia. Addicto sempre a esse velho culto, tradição e até certo ponto
gloria da sua vida, a rhetorica levava-o a proferir phrases que, sem
commentarios, soariam ao futuro como excentricidades de um burocrata
maniaco:
E não ando todos os dias em caminho de ferro porque não posso; porque
as minhas occupações públicas m’o impedem: aliás era _touriste_ dos
nossos caminhos de ferro. Isto comprehende-se da minha parte porque
propugnei por estas idéas; padeci muito por ellas! muito ... e nem eu
quero dizer! (Disc. de 18 de jan. de 65)
Melhor era com effeito calar tão crueis agonias, depois de obtido o
effeito rhetorico; e, se podesse ter supprimido a antiphona, não teria
sido muito melhor ainda?
Acima do cavallo da diligencia está o tramway, acima d’este a
locomotiva, e acima de tudo o progresso! (_Ibid._)
Parece inventado, e não é.
* * * * *
É que se chocavam singularmente os moldes da rhetorica antiga com os
motivos da vida moderna. Hymnos, antiphonas, acclamações, apostrophes,
madeixas desgrenhadas, olhos em alvo, palmadas sobre o coração,
diziam com a antiga ideologia liberal ou democrata: diziam melhor ou
peior, mas não chocavam; avaliava-se o talento, a _logica natural_,
avaliava-se tambem a sinceridade. Mas cantar o caminho de ferro em
discursos rhetoricos pareceu sempre tão ridiculo como pôr em verso
as _machinas febrís_. Fontes introduziu na politica este genero de
litteratura, romantismo bastardo parallello ao do socialista Castilho
que vinha resuscitar Dellile, Gessner ou Saint-Pierre para presidirem
ás lettras nacionaes. A regeneração era moralmente, intellectualmente,
um _rifacimento_. Era-se ainda romantico, por se não poder ser outra
cousa; mas de um romantismo litterato apenas, exterior, janota:
romantismo de sala, que não entrava na intelligencia, conquistada já
pelo utilitarismo. Todos os litteratos d’este tempo acabaram mais
ou menos na Alfandega, ou no ministerio da Fazenda. Assim foi Serpa,
o author de madrigaes: assim Sant’Anna; assim muitos, assim todos. A
liberdade não era uma _deusa_, era uma menina que se namora:
Poeta da liberdade
Fiz d’esta nova deidade
A dama do meu pensar
Prostrei-me aos pés da donzella
Heide com ella e por ella
A minha terra cantar!
(Palmeirim, _Poesías_).
O chefe d’este neo-romantismo, entre burocratico e piegas, artificial,
sem raizes no coração de uma gente prosaica ou devassa; o chefe d’esse
romantismo, cujos derradeiros foram Chagas e Thomaz Ribeiro, «christão,
portuguez e bacharel formado», (_Prol. do D. Jayme_, 2.ª ed.); o chefe
de uma eschola arrebicada e pedante, foi Castilho, um velho Fontes da
poesia!
Ao seu temperamento feminino ou infantil agradavam as ternuras doces
dos Byrons do Terreiro-do-Paço; e, se lá no fundo tinha uma ironia
aguda para os crivar de epigrammas antigos, vingando-se, não podia
deixar de os lisongear, de os acolher, de os encher de louvores e
mimos, chamando Isto a um, Aquillo a outro: um congresso de genios!
A hypocrisia natural em sociedades que, tombando na chateza do
utilitarismo, não querem confessar, por um resto de pudor esthetico,
o _americanismo_ dos seus sentimentos e motivos; esse estado de
desaccordo da intelligencia moral, da esthetica e da pratica, reclamava
o governo politico de um homem como Fontes, e o governo litterario de
outro homem tambem vasio de idéas, repleto de _sábia_ poetica, um
arcade como Castilho.
E se o primeiro cantava em discurso a «locomotiva, e sobre a locomotiva
o progresso!» se o primeiro obedecia á corrente do Capitalismo moderno:
o segundo, cantando a _Felicidade pela agricultura_, o _Hymno do
trabalho_, obedecia á corrente do fourierismo; e ambos recebiam e davam
a iniciação propria da edade do Fomento, nas suas duas faces.
Capitalismo, Socialismo, eis ahi, com effeito, o que se achava no
fundo da Regeneração; sem que os nossos regeneradores tivessem uma
consciencia nitida do que faziam e do que eram. Succede quasi sempre
assim aos homens, e muito mais succedia então, quando tudo apparecia
ainda confuso, indeterminado, n’um crepusculo de Liberdade ainda
confessada, n’uma combinação ainda vaga dos elementos futuros das
questões sociaes. Fourier, Saint-Simon, Owen, Cabet: capitalistas ou
socialistas? As duas cousas a um tempo. Era o socialismo pelo capital:
tambem na politica era a liberdade pela riqueza. E por cima da vasta
confusão de idéas e preconceitos, de phrases ingenuas e astucias
calculadas, havia apenas na sociedade portugueza um desejo ardente de
paz, riqueza e goso. Os jovens politicos aprendiam corajosamente o
_can-can_ com as francezas do _Jardim mythologico_.
Esta consequencia immediata da iniciação do Fomento, apoz a longa
historia das duras campanhas liberaes, levava a mocidade regeneradora
a não presentir as inconsequencias das suas opiniões, nem o caracter
ás vezes infantil das suas distracções. Emigrados da miseria, no
dia da abastança não se fartavam de gosar; e no seio da paz, assim
como as _lettras_ eram uma distracção amena de homens graves, assim
o era a politica. Lisboa teve o quer que é de _rococó_ burocratico
e litterato, n’esses tempos doirados da mocidade regeneradora, em
que,--como creanças perante um brinquedo, a locomotiva,--se via no
Salamanca e na cohorte dos _hommes d’affaires_ que desciam da Europa
a _faire-le-Portugal_, uma aurora do futuro, sarjada de rails, com
aureolas de clarões de fornalhas entre nuvens de um forte cheiro a sebo
queimado.
Se Castilho tinha os seus saraus, onde os poetas de fartas melenas iam
recitar peças lyricas ou hymnos trabalhadores, os politicos pisavam
tapetes em salões celebres que recebiam de portas abertas uma pleiade
de estadistas novos--os filhos da Liberdade! Os nomes conhecemol-os
todos; mas talvez já não lembrem algumas das diversões interessantes
das noites de _comadres_. Cada cavalheiro tirava á sorte a comadre,
na quinta-feira propria; e cada comadre, uma dama, tinha uma divisa:
Liberdade, Democracia, Joanna-d’Arc, Corday, a Padeira? Não: imagens
de agora, vivas. Uma era a Prosperidade-publica, e _saiu_ a Fontes;
outra a Camara-dos-deputados, e _saiu_ a José-Estevão; outra a
Fazenda-nacional, e _saiu_ a Cazal-Ribeiro; outra a Imprensa-periodica,
e _saiu_ a Sampaio; etc. (_Rev. penins._ Chron. fev. de 56) Não tivemos
razão de chamar á Regeneração um cezarismo de secretaria?
Quasi vinte annos levou a dissipar-se (51-68) esse neo-romantismo
da geração em que primeiro se enxertaram as idéas sociaes modernas,
pelos modos e fórmas que esboçámos rapidamente. Outros modos, fórmas
diversas: um neo-setembrismo, um socialismo platonico, a Iberia, a
Republica, vieram entretanto invadindo os cerebros de outras camadas,
e forçando as anteriores a congregarem-se definitivamente em partido
conservador. Foi o que já vimos, faltando-nos ainda estudar as novas
influencias do periodo da Regeneração.
Depois de 68 nada ha que regenerar, ou todos regeneram de um modo
egual. Depois d’esta epocha, e consummada uma tal ou qual restauração
da riqueza nacional, todos apparecem convertidos ao opportunismo
pratico. Não ha mais distincções de partidos, ha apenas grupos
diversos. Não ha mais programmas, porque ha a liberdade pratica
bastante e toda a ideologia liberal morreu. Os bandos politicos
já não têem rotulos, basta-lhes o nome dos chefes: é o d’este, o
d’aquell’outro. E uns succedem-se aos outros, até que ... Ponto. Não
precipitemos o discurso.
2.--O IBERISMO
O leitor sabe que nos ultimos reinados da dynastia de Aviz a politica
de fusão dos dois estados, já ao tempo unicos na Peninsula, inspirou
por mais de uma vez a côrte portugueza.[41] Sabe tambem a deploravel
historia da annexação de Portugal, e a da occupação castelhana, mais
deploravel ainda. Em 1640 uma conspiração palaciana, com a protecção
dos jesuitas e da França, restaura a independencia portugueza,
levantando a dynastia de Bragança. No meiado do XVII seculo acontecia
o que succedera no seculo XII e no fim do XIV: as tres dynastias
portuguezas foram, nos seus primeiros periodos, o symbolo da
independencia nacional.
Á maneira, porém, que com o tempo se obliterava a lembrança das crises
successivas, renascia, com as complicações dynasticas, o pensamento
natural da união. Assim aconteceu no tempo de D. Fernando; assim desde
D. Affonso V até 1580. E quando foi a crise peninsular, determinada
pela invasão franceza, D. João VI, do Rio, onde se achava, viu
despontar a perspectiva da união, e a côrte voltou a ser iberica.
O duque de Palmella estava então enviado junto á Regencia de Cadix
(1809-10) e dizia-se do Brazil que se o throno viesse a pertencer
a Carlota Joaquina, uma esquadra iria leval-a a Hespanha, e essa
solução teria «as vantagens de preparar e facilitar a reunião das duas
monarchias». (Off. no _Conimbricense_, n. 3664)--Depois, na crise
dynastica, determinada em Portugal pela morte de D. João VI, voltavam
os planos ibericos.
A ambos os pretendentes se attribue o pensamento de resolver, por meio
do iberismo, o problema em que se viam afflictos. (_Port., seus gov. e
dyn._ op.)
Logo que a volta de D. Miguel em 28 levou Saldanha a emigrar, o Cid
portuguez escrevia de Londres para o Rio a D. Pedro excitando-o,
acenando-lhe com planos ibericos, conforme já vimos. (Liv. prim. I, 3)
Em 31, regressado D. Pedro á Europa, e emquanto não havia ainda decisão
assente sobre a marcha a seguir, Saldanha d’accordo com o general Mina
foi a Londres convidar o principe para a empreza, a que Palmerston se
teria opposto. (Carnota, _Mem._)
Pensaria D. Pedro n’um imperio mais ou menos napoleonicamente liberal,
herdando Fernando VII e expulsando D. Miguel? D’este, diz se, como
já vimos, que no mais desesperado momento da guerra teria pensado em
correr sobre Madrid, ao tempo quasi desguarnecida, tomal-a, e fazer
causa commum com D. Carlos, então a ponto de vencer.
Qualquer que seja o grau de verdade d’estas allegações, é facto que,
resolvida a questão dynastica em Portugal, vencedor o liberalismo,
a sua historia deploravel arraigou em muitos a opinião unionista.
Palmella toda a sua vida dizem ter affirmado que «Portugal, depois
da separação do Brazil, não tinha mais remedio do que unir-se á
Hespanha». Do lado opposto, vimos Passos confessar na tribuna que
o futuro nacional estava na união. A opinião do duque de Palmella
firmava-se naturalmente na historia do paiz que vivera por quatro
seculos da exploração de territorios ultramarinos, e que desde 20 se
achava reduzido ao _canapé_ europeu de D. João VI, porque o resto das
suas colonias, armazem de escravos apenas, de nada valia desde que o
tráfico dos negros era prohibido. As finanças nacionaes, exprimindo a
ruina economica portugueza, eram o commentario eloquente da doutrina e
a causa immediata mais grave das agitações da politica.
Chegaram as idéas de união a inspirar os actos das côrtes de Lisboa e
de Madrid? Querem alguns que sim: o futuro o dirá, quando se poderem
vêr os tombos das embaixadas e ministerios. Como se sabe, Portugal,
alliado á Hespanha pelo tratado de 34 que expulsara D. Miguel, tinha
mandado uma divisão com o conde das Antas auxiliar Isabel II a expulsar
D. Carlos. No theatro da guerra, diz-se, o conde e o general Cordoba
teriam projectado combinações, que dos seus gabinetes faziam tambem
Mendizabal e o primeiro marido de D. Maria II. Esse principe morreu
breve, mas a nossa rainha casou-se logo, e em 38 já tinha os seus
dois primeiros filhos. Por casar ainda em 44 a rainha de Hespanha,
accrescenta-se que adquirira grande acceitação a idéa de um duplo
enlace de Isabel II com o herdeiro de Portugal, e de D. Luiz com a
infanta hespanhola. (Borrego, _Hist. de una idea_, ap. Rios, _Mi
mision_, etc.) O doutrinarismo vingou porém em Hespanha; Guizot casou
a rainha em 46, de modo a tornar provavel a successão de Montpensier ao
throno; esteve a ponto de haver uma guerra; e, dissipada a esperança
de enlaces dynasticos, veiu a intervenção hespanhola de 47 em Portugal
terminar completamente este episodio da historia moderna do iberismo.
(Rios, _Mision_)
Os emigrados que, ás centenas, o doutrinarismo hespanhol expulsava para
Paris eram ibericos; e emquanto no exilio os progressistas do reino
visinho punham a união no seu programma, em um canto afastado do mundo,
em Macau, estava, consul pela Hespanha na China, D. Sinibaldo de Más
que converteu ao iberismo o bispo portuguez. (_Ibid._) Fôra isto em 50;
e no anno seguinte deu-se a Regeneração, cuja physionomia moderna o
leitor conhece.
O escasso ou nenhum valor que o utilitarismo dá ás idéas, a
importancia exclusiva ligada ao fomento material estavam dizendo que
a união encontraria adeptos entre os moços. Não seria a visão de um
imperio poderoso, como o que D. João II planeara, como o que enchia
democraticamente os sonhos de Passos. Era a demonstração rigorosa
e exacta de quanto havia a _ganhar_, apagando as linhas raianas,
unificando a economia, subordinando a rede da viação a vapor á
geographia commercial da Peninsula, em vez de a torturar por motivos
politicos. «Fraternidade, Egualdade, União, entre portuguezes e
hespanhoes», trazia como epigraphe o livro de D. Sinibaldo, traduzido
em portuguez e prefaciado pelo joven Latino Coelho. (_A Iberia_, por D.
Sin. de Mas: tr. Lisboa 1853)
Os embaraços, com que então se luctava entre nós para levar a cabo
o caminho de ferro de Leste, eram o motivo immediato para declarar
urgente a união que agora procedia de razões economicas, como se vê,
sem se ligar a chimeras politicas, no genio de homens que tinham o
espirito afinado pelo tempo. D. Sinibaldo dizia que se nós queriamos
o caminho de ferro, adherissemos á união. Como? De um modo pratico e
simples: casando o rei portuguez com a herdeira hespanhola, D. Pedro
V com a princeza das Asturias, «construir-se-ha o caminho de ferro a
Badajoz». (_Iberia_) Fontes passava por partidario d’esta combinação
(Rios, _Mision_); e um dos publicistas mais graves e entendidos
escrevia assim: «O paiz menor tem um varão reinante, o paiz maior tem
uma princeza por successor ao throno». (Cl. Ad. da Costa, _Mem. sobre
Portugal e a Hespanha_) Emquanto D. Sinibaldo se fixava mais sobre
as condições de politica internacional, sobre as opiniões da geração
nova, sobre as considerações de geographia commercial e politica,
determinando já a capital--Santarem--ao mesmo tempo que desenhava a
futura bandeira iberica quadricolor: Costa, o estatistico, alinhavava
os algarismos, multiplicava os calculos para demonstrar as riquezas que
nos viriam da união. Era um iberismo positivo, pratico, regenerador.