Abolido o principio da amortisação, substituida a renda ou divida

_fundada_ ao systema de emprestimos temporarios, faltava unificar essa

renda, adoptando um padrão unico. É evidente que se uma conversão se

faz de um juro menor para um juro maior, o nominal dos titulos baixa;

e, se existe o principio da amortisação, esse facto ou o inverso podem

importar muito. Mas se o principio das emissões é o da _renda_, fundada

em vez de amortisavel, permanente e não temporaria, pouco importa

que a conversão se faça de um juro maior para menor, e que cresça

correlativamente o nominal dos titulos, pois que esse valor não é

reembolsavel. Os numeros por que se exprime o capital da divida publica

significam nada, e tudo o encargo annual, ou renda que o Thesouro tem

de servir aos portadores d’ella.

O decreto de 18 de dezembro de 52 é a inauguração da nova edade

financeira em Portugal; e se o leitor tem presente como em uma nação,

qual a nossa vinha sendo desde 1808, o Thesouro e a sua divida têem um

papel eminente: o leitor não recusará o justo applauso ao estadista

que teve a intelligencia e a coragem de pôr o ponto final na historia

anterior, reconhecendo e liquidando com uma banca-rota o systema dos

_pontos_ e banca-rotas precedentes. Esse decreto foi simples e breve,

como convém ás leis. Creou, para substituir os antigos titulos, um

typo unico de divida fundada de 3 p. 100, mantendo porém a distincção

apenas formal de divida externa e interna. Tomou para typo da

conversão o 5 p. 100 externo, creado em novembro de 41, reduzindo-lhe

o juro a 3; e subordinou a conversão da divida interna a uma razão

correspondente: 100 de 4 p. 100 = 80, de 6 p. 100 = 120 do novo typo

de 3. Era uma positiva banca-rota, pois não só a conversão era forçada

e não facultativa, como o juro effectivo se reduzia de 5 a 3 p. 100

(embora em 48 já o tivessem reduzido a 3,57) sem ao menos se differir a

indemnisação, como se projectara fazer em 41. _Differida_, isto é, só

com direito a juro a contar de 63, ficava a divida dada em pagamento

dos dividendos atrazados de 48 a 52.

Eis aqui um quadro desenvolvido da divida interna em junho de 51,

quando o novo regime politico se installou: (V. L. J. Ribeiro, _Est. da

div. int._)

Depois

Antes de 33 de 33

Apolices de 1823, consol. do papel moeda 1:334

» 1826 » dividas d’Ajuda 70

» 1827 » » fornec. 14-19 255

Inscripções 1837 (Passos) conversão de Padrões de 6 p. 100 2:503

» 1835 (Carvalho) » Títulos » 4:010

» 1837 (Passos) Pagamento á c. dos vinhos 739

» 1836 (id.) Emissão 2:119

» 1835 (Carvalho) id. 499

» 1848 (Falcão) conversão de Padrões 5 p. 100 204

------ ------

8:376 3:415

-------------

do juro de 4 p. 100 11:791

------

Apolices, consolid. letras do commissariado 21 754

» 1820-2 de divida publica 1:025

» 1823 idem 800

» 1827 idem 2:186

» 1833 idem 391

» 1839 idem 4:050

» 1840 idem 1:483

» 1841 idem 5:142

» 1843 idem 2:874

» 1845 idem 2:598

» 1848 idem 373

------ ------

4:765 16:911

-------------

do juro de 5 p. 100 21:676

------

Inscripções de 3 p. 100, capit. dos juros de 47-8 450

» dos Açores, etc. 549

-------------

Totaes 13:141 21:325

-------------

Totaes geraes 34:466

------

ao juro medio annual, liquido da dedução de 25 p. 100 (de

agosto 48) de 3,5 p. 100 1:203

Para além d’esta somma de divida ficava ainda a chamada _mansa_,

titulos azues, indemnisações, etc., etc. (V. Bulhões. _Divid. port._)

que com o papel-moeda por amortisar, subia á somma de 11:887 contos.

Os numeros que expozemos acima, referidos ao meiado de 41, tinham

crescido no fim do anno seguinte; e o decreto de 18 de dezembro operou

sobre estes valores: (_Ibid._)

Divida interna, contos 38:827 juro 1:166

» externa » 46:913 » 1:407

------ -----

85:740 2:573

Se addicionarmos a divida mansa, e compararmos o total com a divida

de 28, veremos que a Liberdade e os seus ensaios custaram ao Thesouro

58:500 contos, afóra os bens nacionaes vendidos ou queimados, sem

com isso melhorar a situação economica do reino, segundo já deixamos

patente.

A conversão propunha-se regularisar um estado provadamente intoleravel.

Abolindo as verbas de amortisação o reduzindo as de juro, que no meiado

de 52 attingiam sommadas 3:491 contos (_Ibid._), limitava os encargos á

somma acima indicada. Alliviado assim o Thesouro, seria fiel aos seus

compromissos? Eis o que se não acreditava. Tinha-se assistido a tantos

_pontos_, a tantas capitalisações successivas e todas apregoadas como

decisivas e finaes, que os crédores, de certo bem dispostos a receber

menos, mas sequer alguma cousa, não viam com bons olhos o ministro

moço e audaz. Choravam-se as victimas de mais uma espoliação: eram

9:511 particulares e 519 corporações, os portadores da divida interna.

(Ribeiro, _Divida_) Aos que defendiam os actos do governo, recordavam

os crédores a famosa instituição do Credito-nacional, de 1841, para

«se porem os pagamentos em dia»; as decimas lançadas nos juros; as

_metades_, a que tinham sido reduzidas as classes inactivas em 1844;

toda a serie de miseraveis banca-rotas que desde 35 se tinham repetido

com uma constancia invencivel.

* * * * *

Enganavam-se, porém, os accusadores. Os tempos tinham mudado, em

Portugal e em toda a parte. Chegara a saciedade de liberalismo e as

attenções voltavam-se para um norte differente das antigas chimeras

doutrinarias. Reconhecia-se conquistada a Liberdade no seio do

scepticismo. Custára muito? Ao reino, é impossivel dizer quanto;

ao Thesouro, cincoenta, sessenta, oitenta mil contos? Ponto, sobre

essa historia antiga! De joelhos, perante o deus Fomento! Com esse

culto novo podia gastar-se á larga, á farta, porque á maneira do

verdadeiro Deus (ainda por habito ou hypocrisia se era christão, mas

_liberal_) o Deus novo pagaria com muitos mil os emprestimos que se lhe

faziam. Caminhos de ferro! caminhos de ferro! Circulação, liberdade

respiratoria para o corpo economico! Vida nova! E assim o moço ministro

engenheiro, introduzido na scena pelo seu patrono Rodrigo, entrava pela

mão do scepticismo velho prégando a religião nova. Patrono e cliente,

mestre e discipulo, pae e filho, eram o mesmo em dois corpos, um

representando a negação do passado, o outro as affirmações do presente.

Reformaram-se as pautas setembristas n’um sentido mais livre; começava

a picareta a abrir as trincheiras do caminho de ferro; fundia-se o

historico Terreiro com as Sete-casas, estabelecendo-se um _octroi_;

reformavam-se os correios, adoptando-se a estampilha, symbolo da

mobilisação universal idealisada no comboyo correndo como o vento: um

comboyo que era ainda apenas sonho e um desejo! Em vez de uma sociedade

agitada por partidos e doutrinas, aspirava-se para uma agitação de

gozo, de riqueza, de utilidade positiva.

Em 49 houvera uma exposição de Industria em Lisboa, mas não era o

fabrico o enlevo da idéa nova: era o movimento. O pombalismo acabara

com os setembristas, e as tendencias economicas eram levadas agora n’um

caminho diverso. Já as nações se não olhavam como organismos autónomos,

porque o cosmopolitismo infiltrara-se nas doutrinas. O cabralismo fôra

um precursor da edade nova, mas errava imaginando ainda, á antiga,

que para a realisar fosse necessaria a reconstituição de uma classe

aristocratica. Assim acontecera em França a Luis-Philippe. Mas o

socialismo tambem reagira contra o governo dos ricos, e o segundo

imperio francez e a Regeneração portugueza, egualmente democratas,

realisavam por outras fórmas, com outros meios, o pensamento capital

dos regimes precedentes. O imposto de repartição, motivo da queda

dos Cabraes em 46, servia agora para recompôr esse lado da machina

administrativa.

Cheias as vélas com um vento de esperanças aladas, o barco da

Regeneração vogava, com Fontes, pimpão, moço e janota, ao leme;

Rodrigo, perspicaz, de gageiro á prôa; Saldanha na camara, fardado,

solemne, falando ás visitas. Nem uma nuvem no horisonte? Nada, apenas

o sapatear da agua no costado, as ondas pequenas, mansas, dos crédores

de casa, agiotas e pensionistas, clamando contra a _conversão_. Deixar:

larga! Mas, viajando, acossou-os a vaga mais temivel dos crédores de

Londres. Escarmentados pela conversão de 40, depois pela de 45, não

acreditavam na de 52. O caso era grave, porque sem dinheiro londrino

para que serviria o ministerio creado ás obras-publicas? (30 de agosto

de 52) Com a fallencia aberta, riscados da sociedade das nações-de-bem

inscriptas na biblia do _Stock-exchange_, de que valiam os talentos e

desejos dos estadistas novos? Inuteis as cartas, Fontes preparou a mala

e saíu para Londres em dezembro de 55, embaixador perante o congresso

soberano do capitalismo londrino.

Vinte annos Palmella implorara em favor da Liberdade a protecção dos

verdadeiros monarchas. Agora ia Fontes confessar as culpas, protestar

o arrependimento, pedir o perdão, e prometter um abandono formal de

theorias tão funestas. O filho prodigo emendar-se-hia: tinham sido

verduras da infancia!

A França de Napoleão III fizera pazes com a Inglaterra, agora sua

alliada para a guerra (da Crimêa), para a exploração bancaria das

nações pupillas. Em Londres, Fontes achou Thornton, Fould em Paris,

promptos a annuir á conversão de 52, a restituir o credito a Portugal,

a dar-lhe os dezeseis mil contos que pedia, mas sob condições em

verdade onerosas, e mais graves por que hypothecavam o futuro. Fontes

annuia, annuiu a tudo. Querem que se lhes dê em titulos differidos

o que a conversão lhes tira? Não ha duvida. Querem os banqueiros

(Thornton, Fould) o direito de preferencia em todos os emprestimos

futuros? De accordo. Querem os engenheiros (do _Credit mobilier_,

de Morny-Pereire, sob a protecção de Napoleão) a preferencia nos

contractos de construcção de obras, e desde já estudos rendosos?

Tambem vol-o dou; mas cotemme os fundos, deem-me dezeseis mil contos!

(V. Roma, _Reflex. sobre a questão financ._) É necessario hypothecar

o futuro para liquidar o passado? Faça-se. Faça-se tudo, acceite-se

tudo, mas haja dinheiro e caminhos de ferro.

Regressado de Londres, os farrapos dos velhos partidos caíram sobre o

homem na sessão de 56. As antigas denominações tinham acabado, e havia

contra os regeneradores o amalgama que se chamou _historico_, e que

com effeito o era, sombra historica sem vida, presidido por um grave,

mudo, impassivel: Loulé. Os restos do cartismo acabado protestavam

tambem: Roma no _Jornal do Commercio_, Avila e Carlos-Bento na

camara. Na imprensa defendiam o ministro Lobo-d’Avila e José-Estevão

na _Revolução_; na camara defendia-se elle a si proprio, com a

verbosidade que parecia eloquencia por ser nova a rhetorica empregada:

melhoramentos, fomento, etc. em vez de principios, abobadas da sala

(que é envidraçada), etc. Eram vivos o ataque e a defeza; e tamanha

a temeridade do ministro-Esau que cedera tudo por um emprestimo,

tamanha a precipitação juvenil com que nos arrastava, á velocidade d’um

expresso, na estrada do fomento, que a apathia portugueza _historica_

derrubou-o. (6 de junho de 1856) Caiu um ministerio; mas a Regeneração

não caíu, nem podia, porque estava na necessidade das cousas. Como um

moderador passivo apenas, levanta-se perante o grupo dos audazes, o

grupo dos historicos presidido por Loulé; mas nem já o _setembrismo_,

nem politica alguma _sui generis_ o inspirava.

3.--OS HISTORICOS

O novo governo, successor da Regeneração em 6 de junho de 56, vinha,

como dissemos, fadado para ser apenas um moderador do enthusiasmo,

da precipitação, da largueza-de-mãos dos predecessores. Já despidas

as togas democraticas pelos restantes do antigo setembrismo, já

trocado o nome de progressistas pelo nome inconscientemente eloquente

de historicos, a nova gente nada significava como affirmação no

poder. A sua inconsistencia prova-se na constante mudança do pessoal

governativo, durante os tres annos escassos da sua gerencia. Eram todos

homens bons, ronceiros, pacatos, _liberaes_ sempre, ainda que isto nada

já quizesse dizer. Como que sombras de outras éras, vinham presididos

por uma sombra ambulante, muda e nobre ...

D. Pedro V tomara posse do governo (16 de setembro de 55), e o

temperamento melancholico e pessimista do novo rei preferia esta

gente antiga aos regeneradores modernos e moços, cujo materialismo

não agradava á metaphysica regia. Somnambulos, rei e ministro, ambos

alheios á indole dos tempos novos, ambos sem pensamento nem força para

os condemnarem, iam caminhando, ou antes deixando a nau do Estado

seguir á mercê da direcção da corrente. Mas desde que o estabelecimento

do imperio em França restaurára ahi as influencias ultramontanas,

depois de as desillusões de 48 terem convertido Pio IX ao jesuitismo,

a esperança de reconquistar para o catholicismo puro todas as nações

latinas abaladas pela Liberdade impia, inspirou uma politica activa.

Habilmente sentiam os novos apostolos que não eram missionarios nem

sermões o meio adequado á novissima propaganda. As gerações passadas

ou actuaes tinham-se perdido ou eram inconvertiveis: restava appellar

para a educação da infancia. E de que modo? Repetindo o que no seculo

XVI se fizera?[40] Não; seria temerario. Não se podendo pretender desde

logo ao monopolio da instrucção official, o caminho indicado era o da

Caridade e o da Liberdade.

As irmans de S. Vicente-de-Paulo, soldados piedosos e humildes do

exercito apostolico; as irmans-da-Caridade que a guerra da Crimêa

vira nos hospitaes e campos de batalha, tão corajosas como dedicadas,

eram quem devia vir a Portugal ensinar a infancia desvalida nos

asylos creados pelas senhoras ricas da fidalguia. O ultramontanismo

é nos nossos tempos eminentemente aristocratico. Rodrigo, perspicaz

e sceptico, jámais annuiu á vinda; mas agora o rei catholico e

neo-romantico, amante de uma esposa beata, e o ministro com o seu

genio principesco e molle, que mal podiam achar na introducção d’essas

mulheres piedosas, tão celebradas na sua caridade, tão simples na sua

humildade obscura? Pois não valia mais que as creanças tivessem um

amparo protector? Por toda a parte as fidalgas cantavam o elogio das

pobres irmans-da-Caridade, tão boas, tão santas, tão _bonitas_ nos seus

babitos negros, com a alva touca de linho de abas soltas como azas

de pombas! Este renascimento de piedade religiosa nada tinha, porém,

de commum com a antiga religião vencida em 34. Era aristocratico,

a outra fôra plebêa; e a mesma plebe que ainda nas procissões, nas

semanas-santas, no Senhor-dos-Passos da Graça, conservava um resto

de culto pela religião antiga: era essa mesma plebe de Lisboa que

apedrejava as irmans-da-Caridade, missionarias da religião nova,

aristocratica, afrancezada.

Loulé consentira a entrada das Irmans (9 de fevereiro de 57) quasi ao

mesmo tempo que pela primeira vez a locomotiva assobiava conduzindo os

convidados á inauguração da primeira secção do caminho de ferro (28 de

outubro de 56). Tudo se modernisava n’esta nação que, feudataria da

Inglaterra, era a copia da França--em 33, em 42,--e agora, depois de

51, a copia do segundo imperio. Agradecia-nos ella a fidelidade com que

aprendiamos? Não, e brutalmente nol-o provou com o deploravel episodio

da _Charles et George_, que derrotou por fim o ministerio historico,

batido com vehemencia pela voz do José-Estevão.

Foi na primavera de 59 que Loulé caíu, arrastando comsigo Avila da

Fazenda. A Regeneração abrira-nos de novo as portas do sanctuario do

crédito; Avila, senão convertido, adherindo ás idéas novas, deixava-se

ir na corrente. A possibilidade de _emittir_ era uma tentação

irresistivel para nós que, desde 20 até hoje, nunca podemos prescindir

de emprestimos para pagar as despezas correntes. Mas desde 51, a parte

que se empregava no fomento servia de pretexto plausivel para encobrir

a parte maior com que se preenchiam os _deficits_. Assim, a divida que

a Regeneração deixára em 96 mil contos com o juro de 2:900, deixavam-na

os historicos em 120 com o juro de 3:600--tres annos, a 233 ao anno,

_ratio_ que subirá sempre d’aqui para o futuro.

* * * * *

Depois dos tres annos (56-9) historicos, viu-se um intermedio

regenerador (16 de março de 59 a 4 de julho de 60) apenas importante

quanto ao pessoal politico. Como presidente, isto é, pendão e apparato,

Terceira succede a Saldanha, para deixar por morte o logar a Aguiar.

Fontes substitue o fallecido Rodrigo na direcção do partido; e ao

lado do chefe vêem-se os homens novos: Cazal, Serpa, Martens, que com

Sampaio e Corvo formarão a guarda politica, o pessoal de governo

no futuro reinado de D. Luiz. Era uma geração nova, já educada no

liberalismo novissimo. Todos os antigos se somem nas casas ou nas

covas, á maneira do que succedera em 35, quando morreu D. Pedro. Cabral

exilado é o D. Miguel de agora; e, se o quixotesco imperador acabou

vomitando sangue e abraçando ainda os seus soldados, Rodrigo, summa e

synthese de trinta annos de miserias, Rodrigo a imagem do Desprezo,

dizem que se finara murmurando assim--«Nascer entre brutos, viver entre

brutos e morrer entre brutos é triste!» O Desprezo, eis a transição da

éra das doutrinas para a edade das conveniencias...

A segunda Regeneração nada regenerou. Fizera-se, da primeira vez, tudo

o que havia a fazer; e, como partido de homens practicos, clientela

de gente rica, inimiga de reformas, doutrinas e movimentos, não podia

consummar o que ainda faltava para completar entre nós a revolução

liberal.

Podia-o Loulé, que voltou? (julho 4 de 60) Não elle, mas sim o

homem-novo, especie de resurreição cabralista, tão duro, tão energico,

tão ambicioso, como o conde de Thomar--Lobo-d’Avila, depois tambem

conde, de Valbom. Fallecido D. Pedro V, Braamcamp, o novo ministro

do reino (1862), pôde acabar com o incommodo espinho das irmans da

caridade, expulsando-as (junho 9, de 62) e subscrever a lei de abolição

dos vinculos (maio 19, de 63) (_Elog. hist. de Ans. J. Braamcamp_, do

a.) complemento da obra destruidora de Mousinho da Silveira, porventura

temerariamente promulgado n’um paiz que a historia não deixara acabar

de construir rural e demographicamente. (_Proj. de lei de fom. rural_,

do a.) Tinham-se, porém, abolido finalmente os morgados, tinha-se

instituido o credito-predial, franqueada a barra do Douro, extinguido

o contracto do tabaco, reformado as alfandegas, e por fim o primeiro

comboyo corria assobiando, desde Lisboa até Badajoz (maio 30, de 63).

Á maneira que, porém, crescia a influencia de Lobo d’Avila, o homem

novo, caía o chefe apparente do governo, o duque de Loulé. Na camara

ouvia-se o Serpa, accusando fria e desapiedadamente de burlão o da

_unha preta_; ouviam-se outros crivando de epigrammas o rei de Sião,

duque, ministro somnambulo. Por fóra, nas ruas eram grandes lanternas

de papel pintado com uma cruz negra, e os garotos apregoando a historia

de um assassinato e de um roubo. (V. _a Cruz de Scutulho_, op. 1865)

Lobo-d’Avila via-se precipitado do governo, antes de ter realisado a

sua hegira do Porto; e o Bomfim de agora, se não conseguia vencer,

conseguia pelo menos esmagar o rival importuno e antipathico.

Se Costa Cabral com a sua doutrina viera pôr um termo ás successivas

definições da Liberdade, desacreditando-a, similhante destino tinha

a aventura de Lobo-d’Avila para com as clientelas politicas formadas

depois de 51. A sua quéda era o fim dos historicos. Em vão Loulé se

apresentou á camara com um gabinete singular, (março 5 de 65) e um

financeiro joven, lavado em lagrimas. Houve um riso universal, e ambas

as _unhas_ caíram tristemente na valla dos mortos.

* * * * *

E como tudo estava safado, molle, roto, podre, fundiu-se tudo. A

_Fusão_ (setembro 4 de 65) era, porém, o modo grave do partido

historico se sumir. Sombra evocada de um passado extincto, guiada por

um fidalgo somnambulo, querido de um rei excentrico e misanthropo,

devia ter-se dissipado quando o rei morreu. Trouxe-lhe um ar de vida a

força de um ministro moço, mas a physionomia antipathica d’essa força

enodoou-lhe os actos. Se lhe prolongou a duração, foi para lhe preparar

um fim mais triste ainda: a cruz negra de um assassinato, as lagrimas

ingenuas de um financeiro, a gargalhada unisona da plateia popular.

E era triste, triste vêr acabar assim um homem sympathico na sua

molleza aristocratica, um bello typo da raça apurada portugueza, um

impassivel: é tão rara a distincção! O duque de Loulé, velho Mendoça,

procedia da estirpe dos senhores de Biscaya, em tudo reis, menos no

nome. Os Mendoça tinham-se ligado aos Val-de-Reis, vindo a ligar-se

aos Rolim, da descendencia do flamengo a quem Affonso-Henriques dera o

senhorio de Azambuja.

Singular extravagancia da historia que fizera de um tão nobre senhor

o membro e mais tarde o chefe do partido que primeiro foi e depois

se dizia ainda democrata! É que a sua vida principiara no meio de

condições proprias a desorientar a educação. Seu pae, condemnado á

morte por ter sido um dos que invadiram Portugal com os francezes

de Massena, perdoado em 21 por D. João VI, morrera assassinado em

Salvaterra, tres annos depois, ás mãos do partido apostolico. Seria o

espectro do pae a causa da inclinação politica do filho? Entretanto,

em moço não abandonou a côrte e era o mais bello e seductor dos

fidalgos d’então. A infanta, perdendo a cabeça, casou-se com elle; e

os noivos tiveram de fugir, porque D. Miguel vinha irritado por esse

escandalo cortezão. Assim o bello marquez emigrou; assim se encontrou,

descendente dos Mendoça de Biscaya, marido de uma infanta portugueza,

envolvido no partido revolucionario.

O seu lugar natural seria ao lado de Palmella, na côrte da futura

monarchia representativa; mas preferia o lado opposto, e foi

setembrista, foi patuléa, foi pé-fresco. Era outro _Egalité_? outro

louco? um mau? um ambicioso? Nada d’isso era; apenas um discipulo

do romantismo, que á sua intelligencia, limitada mas nobre,

apparecia democraticamente poetico, em vez de liberalmente jurista.

Afastal-o-hiam tambem da côrte representativa as repugnancias pelo

feitio antipathico e menos limpo, nada nobre, dos conservadores? É

tambem natural, em quem teve uma existencia immaculada.

A tradição de honradez e virtude, constante no partido dos Passos,

do Sá-da-Bandeira, deve contar-se por uma das forças mais energicas

com que o setembrismo bateu em 36 os cartistas e dez annos depois

os cabralistas. E essa tradição, ainda viva depois da Regeneração,

era tambem ainda uma das melhores, senão a melhor arma do partido

historico, personalisado no seu chefe, o duque de pedra, frio, mudo,

impassivel, mas sem uma nodoa, e com um ar de superioridade soberana

que vencia os proprios sabedores do pouco valor d’esse aspecto.

O duque não tinha de certo o olhar profundo, escrutinador das leis a

que obedecem as sociedades, nem a audacia, instrumento da victoria em

epochas da natureza d’aquella em que vivera. Era mediocre, mas não como

caracter. O papel eminente que lhe distribuiram depois de 51 acaso o

devia mais á tradição aristocratica do seu nome, á amisade pessoal

do rei--historico tambem!--do que ao merito proprio. Mas a educação

fidalga, o temperamento frio, a serenidade de uma consciencia limpa,

a facilidade de uma vida opulenta, deram-lhe sempre uma indifferença

altiva, proverbial e caracteristica, que por vezes se tornou, em

certos episodios turbulentos, n’uma placidez quasi heroica. Foi entre

nós o typo mais perfeito, senão o unico, d’esses fidalgos-democratas

inglezes, que amam o povo abstractamente, mas não dão o braço á gente,

porque desceriam. Como um peninsular, porém, era benigno e affavel,

embora reservado sempre e mais do que discreto. Todos se lembram ainda

de o vêr, impassivel e frio, quasi ou inteiramente indifferente,

responder em seccos monosyllabos aos discursos vehementes dos tribunos

das opposições. Elle passava, impavido e mudo, pelo meio os tempestades

parlamentares; pisava a camara como a sala do throno, e a politica

implacavel e plebêa, irritada e cheia de despeito, poz-lhe por nome o

Rei-de-Sião.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 23 / 30 段