entre os varios symptomas da vida organica de uma sociedade está o
respeito e a admiração pelos seus grandes homens. Esse fóco de luz
não se extinguia tambem--ainda hoje o dos estoicos da Antiguidade nos
allumia!--porque os direitos individuaes são funcções imprescriptiveis
do organismo social, embora não sejam a expressão summaria da
sociedade; porque as duas betas negras, se têem essa côr quando o
desvairamento dos homens ou a fatalidade das cousas dão lugar á
tyrannia, têem realmente côr diversa, uma côr viva e pura! São a
propria existencia do organismo collectivo, destruido sempre que deixar
porém de ter uma unidade moral e economica, uma authoridade positiva,
eminente, real, e poderosa. Assim é nos centros nervosos do animal que,
recebendo as impressões externas as unificam, as synthetisam, e d’ahi
imprimem a acção, a vontade e o pensamento ao homem, que é tambem,
dizem-no os naturalistas, uma sociedade de individuos physiologicos.
No declinar da vida, teria fraquejado a convicção do estoico? Batido
por tantas e tão variadas tendencias: umas que odiava sectariamente,
outras que justamente condemnava, outras finalmente que a sua alma
nobre e bondosa instinctivamente respeitava; contrariado pelo passado
catholico, pelo presente _regenerador_, e por um futuro que reconhecia
conquistado para o socialismo--não hesitaria? Quem sabe? Não houve
alguem que em palavras espontaneas, irreflectidas, lhe descortinasse,
ou um symptoma de duvida intima, ou um vislumbre de conversão? Talvez
houvesse. Como porém morreu sem se confessar, a pedra do tumulo guarda
esse segredo. Antes de expirar disse apenas: «Isto dá vontade de
morrer!» Traduza cada qual o enygma ao sabor da sua opinião.
NOTAS DE RODAPÉ:
[33] O que se conta, sempre que a origem se não cita, provém da
narrativa que ha cinco ou seis annos o seu chorado mestre e amigo fez
verbalmente ao author.
[34] V. _Os dois mundos_, out. de 77.
[35] V. _Elem. de Anthropol._ (2.ª ed.) pp. 195-7; e _Inst. primit._
V-VII.
[36] _ed. reorgan. do banco de Port._
[37] V. _Hist. da civil. iber._; introd.--_Hist. de Portugal_, l. 1, 3.
[38] V. _Hist de Portugal_; _app._ 111.
II
A LIQUIDAÇÃO DO PASSADO
1.--A RAPOSA E SUAS MANHAS
Enxutas as lagrimas devidas á memoria do ultimo dos liberaes, passemos
a tratar dos vivos, _regenerados_. Como um Saturno devorador dos
filhos, assim a Liberdade tragara os melhores dos seus: Mousinho,
Passos, Cabral, Herculano--tudo victimas! Dos antigos, para herdar os
restos, ficam apenas dois bastardos: Saldanha e Rodrigo o sceptico, nem
liberal nem cousa alguma, sem doutrinas, sem illusões, com o instincto
negativo apurado pelos annos, e a dura licção de 42 presente.
Figura perfida, sulcada pelas rugas da edade e pelos antigos despeitos
reprimidos, é a imagem do Portugal velho catholico e liberal, da nação
que tudo abandona, de tudo descrê com um riso de ironia amarga. A
face é a do beirão, quadrada, cheia e forte; mas os labios finos não
exprimem colera senão desdem, e nos olhos vivos ha largas revelações de
intrigas miseraveis, de podridões sabidas, ha dardos que atravessam o
recalcitrante dizendo-lhe: vi-te em tal dia, conheci-te em tal hora: se
te sei podre, porque vens falar-me em honra? Sem o dizer com a bocca,
insinuava-o com o olhar; e depois de submetter o hypocrita que lhe
falava, apertava-lhe as mãos ambas, com sorrisos o palavras meigas,
confessando a sua amisade.
De tal modo imperava sobre todos; e como, sem preconceitos
doutrinarios, dizia sempre que sim, cortando uma situação difficil
com um dito, quando não era possivel um emprego, todos rodeavam o rei
novo, acclamado pela mesquinhez universal. Elle era a unica das velhas
arvores altos que o tufão liberal deixára de pé; e, vendo sobranceiro
as cabeças rasteiras que o vento não dobrara, porque a insignificancia
é resistente, tinha com a sua ironia desdenhosa o contrario das
coleras: uma compaixão protectora pela sua côrte reles. Costa Cabral
fôra a imagem da Antipathia; Rodrigo era a mascara do Desprezo. Já
edoso quando a victoria o coroava, como acompanhara a Liberdade desde
26 assistindo-lhe á nascença e á vida, conhecia-a bem por dentro, sabia
como era feita. Auscultara muito a Urna. Tomara o pulso á Opinião. E,
medico perspicaz, vendo que a molestia era organica, só receitava _pro
forma_, para satisfação da familia, certo de que todos os medicamentos
eram vãos. No decurso da vida de antigo boticario politico,
experimentara já o effeito de todas as tisanas e simples: tambem tivera
nos Brandões os seus bandidos, tambem _fizera_ eleições como os mais.
Mas levara um cudilho do Costa-Cabral, o atrevido!--levara um cudilho,
elle o homem de outra geração. A Liberdade pedia sem duvida tratamento
diverso. Diz-se que preferiu comprar os deputados como as casas: depois
de feitos.
A sua astucia tornava-o popular, as suas manhas celebre. O povo
chamava-lhe rapoza. Raros o odiavam--só algum _caturra_ como Herculano:
elle, tambem, encolhia os hombros, sorria. Lá por dentro é natural
que respeitasse; e quem sabe se o mundo em 51 fosse outro, se elle
tambem não seria diverso? Os homens, o tempo, a doutrina, de mãos
dadas, porém, concorriam para tornar opportuna a efflorescencia do
scepticismo, o reinado da ironia, a victoria de um cesarismo que em uma
nação de empregados só podia ser burocratico. Rodrigo era um Morny de
secretaria, e no _imperio_ portuguez, Saldanha, o Saint-Arnaud, tinha
um papel secundario, de parada apenas.
Valia muito pouco; estava já velho e em demasia desacreditado, o
marechal, para poder alguma cousa: vivia á sombra da authoridade
consolidada do politico. E Rodrigo tinha de pessoalmente representar
scenas de comedia para lhe acudir, porque esse _vulto_ era
indispensavel aos seus planos: elle bem subia que a nebulosa Liberdade
era uma illusão fugaz, que o culto da chimera exigia sombras por
sacerdotes, e que o mais conveniente e pratico para marear o barco
portuguez era fazer do governo uma peça de theatro. O povo ouviria os
actores gravemente mascarados dizer os seus papeis, olharia o scenario:
bastava. A sinceridade estava condemnada por vinte ou trinta annos
de tentativas varias e diversas, qual d’ellas mais infeliz. Rodrigo
era o melhor actor do seu tempo. A edade, o trajo antigo, o aspecto
desembargatorio não o deixavam confundir com os peralvilhos moços. O
povo como que via n’essa face barbeada, com os collarinhos desafiando
as orelhas, um collete grande e antigo, a sobrecasaca de amplas abas
pendentes, as calças de ganga amarella classica, uma imagem de outros
tempos, chorados sempre, apezar de tudo! Os infortunios dão por via
de regra aos povos, e principalmente ao portuguez apathico, miragens
doiradas do passado, dos bons dias fugidos! Violento, o portuguez não
tem o temperamento revolucionario, nem conservador: tem o genio d’onde
sahiu o sebastianismo.
O aspecto _antigo_ do ministro era mais um motivo de exito para o actor
perante o seu publico. As galerias ouviam-no; e a sua gravidade, a
sua mansidão, seduziam. Nos seus bancos, os pares, os deputados como
comparsas nos bastidores, sublinhavam as phrases do eximio actor,
confessando o talento, applaudindo a arte irresistivel. Assim os odios
se fundiam em risos, assim o riso como uma esponja lavava as nodoas,
assim esquecidos os crimes tão benignamente perdoados, os réus passavam
a sentir-se outros, puros, e uma vida nova saía dos labios ironicos,
nunca abertos para o sarcasmo nem para a accusação.
Por isso, quando o conde de Thomar, o velho rival outr’ora (42)
vencedor agora vencido para sempre, tornou á camara como um dos
sete dormentes acordado, e quiz ainda entrar no combate com as suas
antigas armas já embotadas, reptando o marechal, expondo o sudario das
suas traições: Rodrigo com a bonhomia mansa e a gravidade affectada
proprias do palco, levantou-se para defender o homem, presidente que
fardava a situação, mas sem o exaltar, para o não perder.--«Para
se enriquecer, Saldanha!» dizia com lagrimas sentimentaes na voz;
Saldanha tão boa-pessoa!--«E entre todos os incentivos que imperam no
coração do homem, só o digno par achou essa da mais indigna vileza,
para o attribuir ao seu adversario?» Pausa: com ar concentradamente
triste, soltava logo o dardo: «E quem d’este modo argúe, como poderá
ser julgado?» (Disc. de 14 de fev. 1854) O ferro tinha dois gumes:
um feria em cheio o indiciado de roubos; o outro abria no coração de
todos a porta da contrição, demonstrando a urgencia de pôr ponto a um
systema de recriminações crueis que os desacreditavam a todos perante
as platéas. As roupas sujas lavam-se em familia: não é proprio fazel-o
á vista do publico. Decóro, senhores! Tape-se a bocca a esse villão
importuno que desconhece as regras da boa sociedade e nos compromette.
Cada qual sabe de si e Deus de todos: para que o ha de tambem saber
o povo? Esperaes que depois d’isso nos respeitará mais e se deixará
governar melhor?
Taes eram as conversas dos bastidores que se exprimiam na scena em
estylo mais solemne. O ministro affligira-se muito, ao ouvir o digno
par (com uma cortezia) dizer que o duque de Saldanha havia descido
ao campo da revolta porque tinha fome e queria enriquecer-se.--Que
temeridade, meu Deus! Pois seria crivel tão grande infamia? Para
enriquecer-se o duque de Saldanha!--Pausa: que ao mesmo tempo
desacreditava o proprio duque, e o defendia. E depois, n’um tom
importante e grave de homem d’Estado: «Esta phrase proferida pelo
digno par affigura-se-me de grande impropriedade, filha de notavel
hallucinação, e que póde ter consequencias pessimas», perfidamente
sublinhadas. (Disc. de 14 e 16 de fev. de 1854)
Chegara a Rodrigo a hora de desforrar o antigo beijo de 40 na face do
seu émulo d’então. Os tempos, afinal, tinham trabalhado, preparando
pouco a pouco ao vencedor, por uma dissolução evolutiva das fórmulas
successivas de Liberdade, o throno de cynismo sobre que reinava. A
sinceridade batalhara com armas, depois com improperios, sem conseguir
vencer, conseguindo apenas matar na vida, na fé, no juizo, ou no
caracter, os varios combatentes. A arena estava cheia de mortos, e os
espectadores saciados de espectaculo. Depois de tragedias de sangue,
houvera melodramas de phrases: agora vinha o entremez final. Depois
do terramoto de 34 que havia de restaurar a nação, as guerras e os
debates, a Espada e a Urna de mãos dadas tinham consumado a ruina.
Todos choravam frio e fome. A penuria é má conselheira. Uma nação
exangue póde ter coleras epilepticas--tiveramol-as em 28--mas não é
capaz de força. Por isso a Liberdade acaba entre nós n’uma Regeneração,
em vez de acabar, á franceza, n’um Imperio. Mas, cá e lá, o que vence é
um cesarismo, militar ou burocratico, segundo as condições dos paizes;
um cesarismo que além nega, e aqui apenas sophisma as instituições;
um cesarismo que além opprime e corrompe, e aqui intriga corrompendo
tambem; um cesarismo que em ambas as nações vence, porque a ambas dá,
em vez de fórmulas, pão.
Rodrigo era um Morny, já se disse; Saldanha um Saint-Arnaud, peninsular
e catholico; o moço Fontes, iniciado como Rouher, viria a ser o
futuro vice-monarcha. Mas Napoleão, rei, imperador, cesar, quem era?
D. Maria II? Não; a nobre, infeliz senhora chegava opportunamente ao
fim (15 de nov. de 53) da sua vida atribulada. A sua coragem viril,
o seu levantado caracter, as suas virtudes, a sua intelligencia
forte e recta faziam d’ella o contrario dos Cesares, por necessidade
scepticos. A rainha era a sinceridade viva. Tambem concebera de certo
modo o liberalismo; e, como tinha no temperamento a virilidade, no
coração a virtude, na imaginação as licções aprendidas n’um berço
coroado, empenhou-se na lucta, lançou mais de uma vez a corôa na
balança--lançaria a espada se podesse usar-a!--para fazer vingar o
_seu_ liberalismo. E se não tivesse sido tão pessoalmente virtuosa, é
de crêr que, apesar do auxilio repetido dos extrangeiros que depois de
a sentarem no throno mais de uma vez a sustentaram n’elle, é de crêr,
dizemos, que tivesse tido uma sorte diversa.
D. Maria II, pois, não tinha o temperamento cesareo. Talvez que tambem
a edade e as licções do tempo a viessem a converter á apathia, mas essa
prova foi desnecessaria porque morreu a proposito, deixando o throno ao
nosso Napoleão III--D. Fernando: humano, _viveur_, sceptico, artista,
cheio de intelligencia e de _humour_, vasio de fórmulas, vasio de
crenças, _moderno_, e bom. Como um Cesar, desceu do paço e affectando
um aristocratico plebeismo, passeava a pé fumando o seu charuto ...
Não era uma positiva regeneração, oh manes de D. João VI chocalhado
no seu coche doirado, com a escolta de cavallarias chouteando? Eis a
_verdadeira_ liberdade! eis o reinado da paz e da fartura!
2.--A CONVERSÃO DA DIVIDA
Este é o euphemismo liberal com que se denomina a ultima banca-rota
portugueza--urgente, inadiavel, já desde annos reconhecida por
muitos como a unica solução, não só para saír do circulo vicioso das
agitações, como para entrar no caminho da pontualidade financeira
indispensavel á regeneração economica do paiz, exclusivo proposito
actual da politica cesareo-burocratica portugueza. Se nós em 36
já tinhamos tido o nosso 48, tambem tivemos com vinte annos de
antecedencia um opportuno Salaverria. (Voltará elle, d’aqui por tempos?
É natural; parece inevitavel.[39])
O acto addicional á CARTA proclamado dictatorialmente, evitando as
constituintes, era afinal a banca-rota de vinte annos de revoluções: um
minimo de reformas politicas sufficientes para pacificar os partidos
que já não pediam senão paz. A conversão foi o acto addicional da
Divida, que era o duro commentario do codigo de 26. As duas medidas,
iniciando uma edade nova, completavam-se: eram a liquidação do passado
financeiro e politico e o prologo da edade presente.
Entre as varias causas das desordens successivas dos tempos anteriores,
a mendicidade do Thesouro de uma nação mendiga foi, como temos dito, a
principal. Casa onde não ha pão ... E das revoltas e crises resultava
uma aggravação sempre crescente da ruina publica. A divida, com a sua
historia accidentada, retratava esta situação. Como o leitor sabe, a
CARTA comprara-se com uma guerra paga a emprestimos em Londres. Ganha a
victoria sobre um paiz inimigo e confiscados os bens das instituições
abolidas, nem se lhes pudera applicar o valor para amortisações, por
ser necessario para retribuir os serviços e crear partido; nem se
pudera pedir á nação exhausta o necessario para os gastos ordinarios,
porque era conveniente fazer crêr que a CARTA supprimia o imposto.
Talvez assim o camponez se convertesse.
Quando o setembrismo venceu, a situação appareceu outra. Condemnado
o principio de viver de emprestimos, os democratas acharam no
proteccionismo fabril uma arma duplamente util: os direitos pautaes,
fomentando a creação de fabricas, creavam batalhões de operarios
democratas, e davam ao Thesouro uma receita importante. Mas, por
engenhosa que fosse a combinação, nem o setembrismo tinha um Pombal
nem sobre tudo teve em Passos um fazendista. Continuou-se a pedir
emprestado; e á maneira que as cousas inclinavam para a _Ordem_, iam
tambem inclinando para o _Ponto_. De 37 a 40 havia sete semestres de
juros por pagar.
Com os crédores nacionaes bem iamos, porque, sabendo-se que o reino
não tinha que emprestar ao Thesouro, o descredito não prejudicava
a economia da divida. Eram mais pensionistas em atrazo. Mas com os
crédores londrinos o caso mudava, porque, depois de quatro ou cinco
annos de tentativas estereis, era mistér confessar que José da Silva
Carvalho tinha razão, e que só do dinheiro extrangeiro se podia esperar
a regeneração economica do reino. Ora como nos emprestaria dinheiro
quem reclamava o juro e não o conseguia? A divida externa era, pois,
duas vezes grave como problema: já por isto, já pela importancia
absoluta. (V. Bulhões, _Divida port._) Em 38 chegava a 53 mil contos,
ou quasi doze milhões sterlinos, sendo quatro e meio de 5 e o resto
de 3 por cento. E no fim de 40, aggravada com os _coupons_ por pagar,
attingia a somma de £12.358:000.
Não perguntemos agora que valor real de dinheiro effectivamente
importado representam estes numeros. Um terço? muito menos.
Lembremo-nos de que os emprestimos ulteriores tiveram em grande
parte por fim pagar os encargos dos anteriores; e talvez não erremos
suppondo que de 12 milhões só 2, quando muito, se teriam visto em
Portugal. E isto, convém dizel-o, para salariar tropas, salvo o que
serviu á amortisação do papel-moeda. Não nos demoremos porém agora em
calculos. O facto era dever-se. Fôra o dinheiro mal comprado e peior
applicado? É evidente que o crédor nada tinha que vêr com isso. A nossa
ingenuidade não nos consentia especular com a propria ruina, e quando
o pensassemos fazer, errariamos; não só porque a Inglaterra crédora
mandava no governo ordeiro, como porque sempre tinha de curvar a cabeça
quem não meditava senão em obter novos emprestimos.
De tal situação nasceu o decreto de 2 de novembro de 40, primeira
tentativa da regeneração. Era ao tempo em que Costa-Cabral já decerto
planeava a sua restauração da CARTA; e com ella e com a escala
ascendente, com a ordem na politica e na finança, esperava iniciar o
utilitarismo, fazendo do velho Portugal sebastianista uma Belgica. O
leitor sabe já porque e como este plano falhou com o doutrinarismo.
Por detraz da Liberdade, cujos systemas eram como as nuvens rotas que
muitas vezes fluctuam ao nascer do dia, levantava-se o sol vencedor,
o sol utilitario que as dissiparia todas. O leitor sabe como foi a
crise, mas não lhe dissemos ainda os termos da combinação em que vivia,
socegada, a divida externa.
O decreto citado consolidava os _coupons_ em atrazo e convertia ao
typo de 5 p. 100 toda a parte da divida de 3, dando aos crédores como
indemnisação, premio, ou o que quer que fosse, a quinta parte mais do
que se lhes devia. Assim
100 £ de 5 p. 100 eram representadas pelos novos titulos em 120
100 » 3, convertidas em 60 de 5, eram etc. » 72
D’esta combinação resulta que, havendo
5 milhões de 5 passava a haver 6 }
6 » 3 » » 5,4 } titulos novos
o nominal da divida ficava proximamente o mesmo, mas o juro subia
proximamente de 4, em média, a 5. Era pois o premio de um por cento ou
540 contos ao anno? Era; ou antes seria, se a combinação podesse ir até
ao fim; porque os juros differiam-se, por meio de uma escala ascendente:
De 1841 a 4 pagar-se-hiam 2,5 p. 100
» 45 a 8 » 3 »
» 40 a 52 » 4 »
» 53 a 60 » 5 »
Depois de 60 » 6 » até amortisação
do que nos anteriores periodos se pagara menos do que 5.
Durante o praso de vinte annos a ordem politica e financeira
permittiria fazer estradas e vias-ferreas, a agricultura progrediria,
etc. Sabemos de que fórma o cabralismo pensou realisar este plano, com
a ordem doutrinaria e com a babel das companhias do agiotas.
Em 41 (9 de novembro) o moço financeiro Avila, ainda não duque mas
já importante, entregou a administração da divida externa á Junta do
Credito Publico, impondo ao mesmo tempo aos crédores da interna a
deducção do decimo dos juros. Tivessem paciencia esses pensionistas do
Estado: tambem os funccionarios a tinham!
Com os crédores londrinos é que se não podia bolir: ora indispensavel
consolidar o systema da escala ascendente a vêr se se conformavam
com elle e nos contavam no seu stock-exchange. Só depois d’isso
se conseguiria algum novo emprestimo! Costa-Cabral concebendo uma
_ordem_ diversa da ordeira, uma ordem cartista, concebeu outra
chimera: a de obter recursos internos, para com a riqueza da
nação--exhausta!--supprir o que o extrangeiro nos não dava. De um tal
plano era orgão o legado cabralista no Thesouro, o conde do Tojal.
Mas os embaraços cresciam, o dinheiro faltava. Os titulos externos
estavam recebendo a 3 p. 100 em 45, quando para vêr se se obtinha
uma paz, o governo resolveu (lei de 19 de abril) reconvertel-os para
4 compromettendo-se a uma amortisação annual de £25:000. Ainda se
não reconhecera esta verdade elementar: que pedir emprestado para
amortisar é uma illusão ruinosa. Erro, illusão era, porém, tudo, e a
Maria-da-Fonte veiu demonstral-o. Mas não era mais sensato, nem mais
practico o seu governo que lançava a reducção de 20 por 100 aos juros
das duas dividas, juros que elle não podia pagar, e assim, lucrando
nada, desacreditava-se por dois caminhos. Abolidos esses descontos
impensados, voltou-se ao estado anterior da decima unica na divida
interna, capitalisando se os dividendos por se não poderem pagar.
Tojal saíra por uma vez, como quem para nada prestava já (22 de agosto
de 47). Havia paz durante o reinado de Saldanha, Monk de Costa-Cabral,
(18 junho de 49) que poz na Fazenda Avila, esperanças da patria. O
segundo ministerio cabralista não foi melhor na finança do que na
politica. Apesar de moço, Avila sempre fôra velho no pensar: jurava
pela amortisação! E jurando, as cousas iam indo de mal a peior; e, se
Costa-Cabral caíra em 46 precipitado do alto de uma torre de papeis,
agora ia pouco a pouco enterrando-se n’um olheiro de penuria. Desde
julho de 48 que se supprimira o systema de capitalisar os juros em
divida: para se pagarem? Sim, menos a quarta parte; mas nem isso, cousa
nenhuma se deu, nem a nacionaes, nem a extrangeiros.
Não se está vendo a urgencia de _regenerar_ as cousas?
* * * * *
Com um espirito novo a Regeneração veiu proclamar o contrario do que
até então se dissera e estava desacreditado. Como introito, para
simplificar, capitalisou em fundo de 4 p. 100 todos os dividendos
por pagar desde 50. (decr. 7 de julho de 51) E como affirmação de
principios supprimiu o da amortisação. (decr. 3 de dezembro) Fontes era
moço, na edade e no espirito. Não vinha de Coimbra: estava limpo das
doutrinas classicas e caducas. Amortisar, o quê? para quê? Amortisar,
pedindo emprestado, nós que temos de nos endividar para solver os
encargos annuaes ordinarios, é aggravar as consequencias do juro
composto que tal situação nos impõe. Amortisar, o quê? A divida? não,
que deve ser _fundada_, permanente, eterna, como caixa-de-economias,
instrumento de distribuição de riqueza, de capitalisação de migalhas.
Outr’ora dissera-se ser necessario pagar o que se deve. Doutrinas
fosseis! Um Estado não é um particular. Quanto mais uma nação dever,
mais rica será!
O san-simonismo infiltrára-se nos pensamentos da geração nova, com
os seus dogmas chrematisticos e communistas. Prégando a religião da
riqueza, e o culto do capital como meio de a crear, era natural que
trouxesse theorias novas para o problema das dividas nacionaes. O
Thesouro, com as _rendas_ annualmente distribuidas, era uma funcção
normal do Estado, cuja divida adquiria um caracter social, perdendo a
natureza commum ás dividas particulares. Por outro lado, que melhor
modo de desenvolver a riqueza do paiz do que derramar sobre elle
uma chuva de oiro extrangeiro? Custaria caro? muito? Seria nada: os
redditos do Thesouro cresceriam n’uma progressão superior á progressão
dos encargos da divida.
Taes opiniões, geraes no tempo, e convictamente abraçadas pelo
financeiro regenerador, entraram com elle no Thesouro portuguez.
Á parte o valor da doutrina, á parte as consequencias d’ella--com
que nos achamos hoje, dizem uns que embaraçados, dizem outros que
afortunados--é mistér vêr na finança regeneradora a continuação do
antigo pensamento de José da Silva Carvalho. Uma nação exhausta só
poderia renascer regada por chuveiros de libras esterlinas. Quando,
batidos os doutrinarios financeiros, os Campos e os Passos, os Tojal e
os Avilas, voltou o espirito practico, a Regeneração encaminhou para
cá os capitaes de fóra. Os milhões dos antigos emprestimos serviram,
no todo, para guerras; os milhões dos novos serviram n’uma parte para
estradas e caminhos-de-ferro; d’ahi a reconstituição da economia rural
da nação.