Mezes depois morria; mas esse fóco de luz não se extinguia, porque

entre os varios symptomas da vida organica de uma sociedade está o

respeito e a admiração pelos seus grandes homens. Esse fóco de luz

não se extinguia tambem--ainda hoje o dos estoicos da Antiguidade nos

allumia!--porque os direitos individuaes são funcções imprescriptiveis

do organismo social, embora não sejam a expressão summaria da

sociedade; porque as duas betas negras, se têem essa côr quando o

desvairamento dos homens ou a fatalidade das cousas dão lugar á

tyrannia, têem realmente côr diversa, uma côr viva e pura! São a

propria existencia do organismo collectivo, destruido sempre que deixar

porém de ter uma unidade moral e economica, uma authoridade positiva,

eminente, real, e poderosa. Assim é nos centros nervosos do animal que,

recebendo as impressões externas as unificam, as synthetisam, e d’ahi

imprimem a acção, a vontade e o pensamento ao homem, que é tambem,

dizem-no os naturalistas, uma sociedade de individuos physiologicos.

No declinar da vida, teria fraquejado a convicção do estoico? Batido

por tantas e tão variadas tendencias: umas que odiava sectariamente,

outras que justamente condemnava, outras finalmente que a sua alma

nobre e bondosa instinctivamente respeitava; contrariado pelo passado

catholico, pelo presente _regenerador_, e por um futuro que reconhecia

conquistado para o socialismo--não hesitaria? Quem sabe? Não houve

alguem que em palavras espontaneas, irreflectidas, lhe descortinasse,

ou um symptoma de duvida intima, ou um vislumbre de conversão? Talvez

houvesse. Como porém morreu sem se confessar, a pedra do tumulo guarda

esse segredo. Antes de expirar disse apenas: «Isto dá vontade de

morrer!» Traduza cada qual o enygma ao sabor da sua opinião.

NOTAS DE RODAPÉ:

[33] O que se conta, sempre que a origem se não cita, provém da

narrativa que ha cinco ou seis annos o seu chorado mestre e amigo fez

verbalmente ao author.

[34] V. _Os dois mundos_, out. de 77.

[35] V. _Elem. de Anthropol._ (2.ª ed.) pp. 195-7; e _Inst. primit._

V-VII.

[36] _ed. reorgan. do banco de Port._

[37] V. _Hist. da civil. iber._; introd.--_Hist. de Portugal_, l. 1, 3.

[38] V. _Hist de Portugal_; _app._ 111.

II

A LIQUIDAÇÃO DO PASSADO

1.--A RAPOSA E SUAS MANHAS

Enxutas as lagrimas devidas á memoria do ultimo dos liberaes, passemos

a tratar dos vivos, _regenerados_. Como um Saturno devorador dos

filhos, assim a Liberdade tragara os melhores dos seus: Mousinho,

Passos, Cabral, Herculano--tudo victimas! Dos antigos, para herdar os

restos, ficam apenas dois bastardos: Saldanha e Rodrigo o sceptico, nem

liberal nem cousa alguma, sem doutrinas, sem illusões, com o instincto

negativo apurado pelos annos, e a dura licção de 42 presente.

Figura perfida, sulcada pelas rugas da edade e pelos antigos despeitos

reprimidos, é a imagem do Portugal velho catholico e liberal, da nação

que tudo abandona, de tudo descrê com um riso de ironia amarga. A

face é a do beirão, quadrada, cheia e forte; mas os labios finos não

exprimem colera senão desdem, e nos olhos vivos ha largas revelações de

intrigas miseraveis, de podridões sabidas, ha dardos que atravessam o

recalcitrante dizendo-lhe: vi-te em tal dia, conheci-te em tal hora: se

te sei podre, porque vens falar-me em honra? Sem o dizer com a bocca,

insinuava-o com o olhar; e depois de submetter o hypocrita que lhe

falava, apertava-lhe as mãos ambas, com sorrisos o palavras meigas,

confessando a sua amisade.

De tal modo imperava sobre todos; e como, sem preconceitos

doutrinarios, dizia sempre que sim, cortando uma situação difficil

com um dito, quando não era possivel um emprego, todos rodeavam o rei

novo, acclamado pela mesquinhez universal. Elle era a unica das velhas

arvores altos que o tufão liberal deixára de pé; e, vendo sobranceiro

as cabeças rasteiras que o vento não dobrara, porque a insignificancia

é resistente, tinha com a sua ironia desdenhosa o contrario das

coleras: uma compaixão protectora pela sua côrte reles. Costa Cabral

fôra a imagem da Antipathia; Rodrigo era a mascara do Desprezo. Já

edoso quando a victoria o coroava, como acompanhara a Liberdade desde

26 assistindo-lhe á nascença e á vida, conhecia-a bem por dentro, sabia

como era feita. Auscultara muito a Urna. Tomara o pulso á Opinião. E,

medico perspicaz, vendo que a molestia era organica, só receitava _pro

forma_, para satisfação da familia, certo de que todos os medicamentos

eram vãos. No decurso da vida de antigo boticario politico,

experimentara já o effeito de todas as tisanas e simples: tambem tivera

nos Brandões os seus bandidos, tambem _fizera_ eleições como os mais.

Mas levara um cudilho do Costa-Cabral, o atrevido!--levara um cudilho,

elle o homem de outra geração. A Liberdade pedia sem duvida tratamento

diverso. Diz-se que preferiu comprar os deputados como as casas: depois

de feitos.

A sua astucia tornava-o popular, as suas manhas celebre. O povo

chamava-lhe rapoza. Raros o odiavam--só algum _caturra_ como Herculano:

elle, tambem, encolhia os hombros, sorria. Lá por dentro é natural

que respeitasse; e quem sabe se o mundo em 51 fosse outro, se elle

tambem não seria diverso? Os homens, o tempo, a doutrina, de mãos

dadas, porém, concorriam para tornar opportuna a efflorescencia do

scepticismo, o reinado da ironia, a victoria de um cesarismo que em uma

nação de empregados só podia ser burocratico. Rodrigo era um Morny de

secretaria, e no _imperio_ portuguez, Saldanha, o Saint-Arnaud, tinha

um papel secundario, de parada apenas.

Valia muito pouco; estava já velho e em demasia desacreditado, o

marechal, para poder alguma cousa: vivia á sombra da authoridade

consolidada do politico. E Rodrigo tinha de pessoalmente representar

scenas de comedia para lhe acudir, porque esse _vulto_ era

indispensavel aos seus planos: elle bem subia que a nebulosa Liberdade

era uma illusão fugaz, que o culto da chimera exigia sombras por

sacerdotes, e que o mais conveniente e pratico para marear o barco

portuguez era fazer do governo uma peça de theatro. O povo ouviria os

actores gravemente mascarados dizer os seus papeis, olharia o scenario:

bastava. A sinceridade estava condemnada por vinte ou trinta annos

de tentativas varias e diversas, qual d’ellas mais infeliz. Rodrigo

era o melhor actor do seu tempo. A edade, o trajo antigo, o aspecto

desembargatorio não o deixavam confundir com os peralvilhos moços. O

povo como que via n’essa face barbeada, com os collarinhos desafiando

as orelhas, um collete grande e antigo, a sobrecasaca de amplas abas

pendentes, as calças de ganga amarella classica, uma imagem de outros

tempos, chorados sempre, apezar de tudo! Os infortunios dão por via

de regra aos povos, e principalmente ao portuguez apathico, miragens

doiradas do passado, dos bons dias fugidos! Violento, o portuguez não

tem o temperamento revolucionario, nem conservador: tem o genio d’onde

sahiu o sebastianismo.

O aspecto _antigo_ do ministro era mais um motivo de exito para o actor

perante o seu publico. As galerias ouviam-no; e a sua gravidade, a

sua mansidão, seduziam. Nos seus bancos, os pares, os deputados como

comparsas nos bastidores, sublinhavam as phrases do eximio actor,

confessando o talento, applaudindo a arte irresistivel. Assim os odios

se fundiam em risos, assim o riso como uma esponja lavava as nodoas,

assim esquecidos os crimes tão benignamente perdoados, os réus passavam

a sentir-se outros, puros, e uma vida nova saía dos labios ironicos,

nunca abertos para o sarcasmo nem para a accusação.

Por isso, quando o conde de Thomar, o velho rival outr’ora (42)

vencedor agora vencido para sempre, tornou á camara como um dos

sete dormentes acordado, e quiz ainda entrar no combate com as suas

antigas armas já embotadas, reptando o marechal, expondo o sudario das

suas traições: Rodrigo com a bonhomia mansa e a gravidade affectada

proprias do palco, levantou-se para defender o homem, presidente que

fardava a situação, mas sem o exaltar, para o não perder.--«Para

se enriquecer, Saldanha!» dizia com lagrimas sentimentaes na voz;

Saldanha tão boa-pessoa!--«E entre todos os incentivos que imperam no

coração do homem, só o digno par achou essa da mais indigna vileza,

para o attribuir ao seu adversario?» Pausa: com ar concentradamente

triste, soltava logo o dardo: «E quem d’este modo argúe, como poderá

ser julgado?» (Disc. de 14 de fev. 1854) O ferro tinha dois gumes:

um feria em cheio o indiciado de roubos; o outro abria no coração de

todos a porta da contrição, demonstrando a urgencia de pôr ponto a um

systema de recriminações crueis que os desacreditavam a todos perante

as platéas. As roupas sujas lavam-se em familia: não é proprio fazel-o

á vista do publico. Decóro, senhores! Tape-se a bocca a esse villão

importuno que desconhece as regras da boa sociedade e nos compromette.

Cada qual sabe de si e Deus de todos: para que o ha de tambem saber

o povo? Esperaes que depois d’isso nos respeitará mais e se deixará

governar melhor?

Taes eram as conversas dos bastidores que se exprimiam na scena em

estylo mais solemne. O ministro affligira-se muito, ao ouvir o digno

par (com uma cortezia) dizer que o duque de Saldanha havia descido

ao campo da revolta porque tinha fome e queria enriquecer-se.--Que

temeridade, meu Deus! Pois seria crivel tão grande infamia? Para

enriquecer-se o duque de Saldanha!--Pausa: que ao mesmo tempo

desacreditava o proprio duque, e o defendia. E depois, n’um tom

importante e grave de homem d’Estado: «Esta phrase proferida pelo

digno par affigura-se-me de grande impropriedade, filha de notavel

hallucinação, e que póde ter consequencias pessimas», perfidamente

sublinhadas. (Disc. de 14 e 16 de fev. de 1854)

Chegara a Rodrigo a hora de desforrar o antigo beijo de 40 na face do

seu émulo d’então. Os tempos, afinal, tinham trabalhado, preparando

pouco a pouco ao vencedor, por uma dissolução evolutiva das fórmulas

successivas de Liberdade, o throno de cynismo sobre que reinava. A

sinceridade batalhara com armas, depois com improperios, sem conseguir

vencer, conseguindo apenas matar na vida, na fé, no juizo, ou no

caracter, os varios combatentes. A arena estava cheia de mortos, e os

espectadores saciados de espectaculo. Depois de tragedias de sangue,

houvera melodramas de phrases: agora vinha o entremez final. Depois

do terramoto de 34 que havia de restaurar a nação, as guerras e os

debates, a Espada e a Urna de mãos dadas tinham consumado a ruina.

Todos choravam frio e fome. A penuria é má conselheira. Uma nação

exangue póde ter coleras epilepticas--tiveramol-as em 28--mas não é

capaz de força. Por isso a Liberdade acaba entre nós n’uma Regeneração,

em vez de acabar, á franceza, n’um Imperio. Mas, cá e lá, o que vence é

um cesarismo, militar ou burocratico, segundo as condições dos paizes;

um cesarismo que além nega, e aqui apenas sophisma as instituições;

um cesarismo que além opprime e corrompe, e aqui intriga corrompendo

tambem; um cesarismo que em ambas as nações vence, porque a ambas dá,

em vez de fórmulas, pão.

Rodrigo era um Morny, já se disse; Saldanha um Saint-Arnaud, peninsular

e catholico; o moço Fontes, iniciado como Rouher, viria a ser o

futuro vice-monarcha. Mas Napoleão, rei, imperador, cesar, quem era?

D. Maria II? Não; a nobre, infeliz senhora chegava opportunamente ao

fim (15 de nov. de 53) da sua vida atribulada. A sua coragem viril,

o seu levantado caracter, as suas virtudes, a sua intelligencia

forte e recta faziam d’ella o contrario dos Cesares, por necessidade

scepticos. A rainha era a sinceridade viva. Tambem concebera de certo

modo o liberalismo; e, como tinha no temperamento a virilidade, no

coração a virtude, na imaginação as licções aprendidas n’um berço

coroado, empenhou-se na lucta, lançou mais de uma vez a corôa na

balança--lançaria a espada se podesse usar-a!--para fazer vingar o

_seu_ liberalismo. E se não tivesse sido tão pessoalmente virtuosa, é

de crêr que, apesar do auxilio repetido dos extrangeiros que depois de

a sentarem no throno mais de uma vez a sustentaram n’elle, é de crêr,

dizemos, que tivesse tido uma sorte diversa.

D. Maria II, pois, não tinha o temperamento cesareo. Talvez que tambem

a edade e as licções do tempo a viessem a converter á apathia, mas essa

prova foi desnecessaria porque morreu a proposito, deixando o throno ao

nosso Napoleão III--D. Fernando: humano, _viveur_, sceptico, artista,

cheio de intelligencia e de _humour_, vasio de fórmulas, vasio de

crenças, _moderno_, e bom. Como um Cesar, desceu do paço e affectando

um aristocratico plebeismo, passeava a pé fumando o seu charuto ...

Não era uma positiva regeneração, oh manes de D. João VI chocalhado

no seu coche doirado, com a escolta de cavallarias chouteando? Eis a

_verdadeira_ liberdade! eis o reinado da paz e da fartura!

2.--A CONVERSÃO DA DIVIDA

Este é o euphemismo liberal com que se denomina a ultima banca-rota

portugueza--urgente, inadiavel, já desde annos reconhecida por

muitos como a unica solução, não só para saír do circulo vicioso das

agitações, como para entrar no caminho da pontualidade financeira

indispensavel á regeneração economica do paiz, exclusivo proposito

actual da politica cesareo-burocratica portugueza. Se nós em 36

já tinhamos tido o nosso 48, tambem tivemos com vinte annos de

antecedencia um opportuno Salaverria. (Voltará elle, d’aqui por tempos?

É natural; parece inevitavel.[39])

O acto addicional á CARTA proclamado dictatorialmente, evitando as

constituintes, era afinal a banca-rota de vinte annos de revoluções: um

minimo de reformas politicas sufficientes para pacificar os partidos

que já não pediam senão paz. A conversão foi o acto addicional da

Divida, que era o duro commentario do codigo de 26. As duas medidas,

iniciando uma edade nova, completavam-se: eram a liquidação do passado

financeiro e politico e o prologo da edade presente.

Entre as varias causas das desordens successivas dos tempos anteriores,

a mendicidade do Thesouro de uma nação mendiga foi, como temos dito, a

principal. Casa onde não ha pão ... E das revoltas e crises resultava

uma aggravação sempre crescente da ruina publica. A divida, com a sua

historia accidentada, retratava esta situação. Como o leitor sabe, a

CARTA comprara-se com uma guerra paga a emprestimos em Londres. Ganha a

victoria sobre um paiz inimigo e confiscados os bens das instituições

abolidas, nem se lhes pudera applicar o valor para amortisações, por

ser necessario para retribuir os serviços e crear partido; nem se

pudera pedir á nação exhausta o necessario para os gastos ordinarios,

porque era conveniente fazer crêr que a CARTA supprimia o imposto.

Talvez assim o camponez se convertesse.

Quando o setembrismo venceu, a situação appareceu outra. Condemnado

o principio de viver de emprestimos, os democratas acharam no

proteccionismo fabril uma arma duplamente util: os direitos pautaes,

fomentando a creação de fabricas, creavam batalhões de operarios

democratas, e davam ao Thesouro uma receita importante. Mas, por

engenhosa que fosse a combinação, nem o setembrismo tinha um Pombal

nem sobre tudo teve em Passos um fazendista. Continuou-se a pedir

emprestado; e á maneira que as cousas inclinavam para a _Ordem_, iam

tambem inclinando para o _Ponto_. De 37 a 40 havia sete semestres de

juros por pagar.

Com os crédores nacionaes bem iamos, porque, sabendo-se que o reino

não tinha que emprestar ao Thesouro, o descredito não prejudicava

a economia da divida. Eram mais pensionistas em atrazo. Mas com os

crédores londrinos o caso mudava, porque, depois de quatro ou cinco

annos de tentativas estereis, era mistér confessar que José da Silva

Carvalho tinha razão, e que só do dinheiro extrangeiro se podia esperar

a regeneração economica do reino. Ora como nos emprestaria dinheiro

quem reclamava o juro e não o conseguia? A divida externa era, pois,

duas vezes grave como problema: já por isto, já pela importancia

absoluta. (V. Bulhões, _Divida port._) Em 38 chegava a 53 mil contos,

ou quasi doze milhões sterlinos, sendo quatro e meio de 5 e o resto

de 3 por cento. E no fim de 40, aggravada com os _coupons_ por pagar,

attingia a somma de £12.358:000.

Não perguntemos agora que valor real de dinheiro effectivamente

importado representam estes numeros. Um terço? muito menos.

Lembremo-nos de que os emprestimos ulteriores tiveram em grande

parte por fim pagar os encargos dos anteriores; e talvez não erremos

suppondo que de 12 milhões só 2, quando muito, se teriam visto em

Portugal. E isto, convém dizel-o, para salariar tropas, salvo o que

serviu á amortisação do papel-moeda. Não nos demoremos porém agora em

calculos. O facto era dever-se. Fôra o dinheiro mal comprado e peior

applicado? É evidente que o crédor nada tinha que vêr com isso. A nossa

ingenuidade não nos consentia especular com a propria ruina, e quando

o pensassemos fazer, errariamos; não só porque a Inglaterra crédora

mandava no governo ordeiro, como porque sempre tinha de curvar a cabeça

quem não meditava senão em obter novos emprestimos.

De tal situação nasceu o decreto de 2 de novembro de 40, primeira

tentativa da regeneração. Era ao tempo em que Costa-Cabral já decerto

planeava a sua restauração da CARTA; e com ella e com a escala

ascendente, com a ordem na politica e na finança, esperava iniciar o

utilitarismo, fazendo do velho Portugal sebastianista uma Belgica. O

leitor sabe já porque e como este plano falhou com o doutrinarismo.

Por detraz da Liberdade, cujos systemas eram como as nuvens rotas que

muitas vezes fluctuam ao nascer do dia, levantava-se o sol vencedor,

o sol utilitario que as dissiparia todas. O leitor sabe como foi a

crise, mas não lhe dissemos ainda os termos da combinação em que vivia,

socegada, a divida externa.

O decreto citado consolidava os _coupons_ em atrazo e convertia ao

typo de 5 p. 100 toda a parte da divida de 3, dando aos crédores como

indemnisação, premio, ou o que quer que fosse, a quinta parte mais do

que se lhes devia. Assim

100 £ de 5 p. 100 eram representadas pelos novos titulos em 120

100 » 3, convertidas em 60 de 5, eram etc. » 72

D’esta combinação resulta que, havendo

5 milhões de 5 passava a haver 6 }

6 » 3 » » 5,4 } titulos novos

o nominal da divida ficava proximamente o mesmo, mas o juro subia

proximamente de 4, em média, a 5. Era pois o premio de um por cento ou

540 contos ao anno? Era; ou antes seria, se a combinação podesse ir até

ao fim; porque os juros differiam-se, por meio de uma escala ascendente:

De 1841 a 4 pagar-se-hiam 2,5 p. 100

» 45 a 8 » 3 »

» 40 a 52 » 4 »

» 53 a 60 » 5 »

Depois de 60 » 6 » até amortisação

do que nos anteriores periodos se pagara menos do que 5.

Durante o praso de vinte annos a ordem politica e financeira

permittiria fazer estradas e vias-ferreas, a agricultura progrediria,

etc. Sabemos de que fórma o cabralismo pensou realisar este plano, com

a ordem doutrinaria e com a babel das companhias do agiotas.

Em 41 (9 de novembro) o moço financeiro Avila, ainda não duque mas

já importante, entregou a administração da divida externa á Junta do

Credito Publico, impondo ao mesmo tempo aos crédores da interna a

deducção do decimo dos juros. Tivessem paciencia esses pensionistas do

Estado: tambem os funccionarios a tinham!

Com os crédores londrinos é que se não podia bolir: ora indispensavel

consolidar o systema da escala ascendente a vêr se se conformavam

com elle e nos contavam no seu stock-exchange. Só depois d’isso

se conseguiria algum novo emprestimo! Costa-Cabral concebendo uma

_ordem_ diversa da ordeira, uma ordem cartista, concebeu outra

chimera: a de obter recursos internos, para com a riqueza da

nação--exhausta!--supprir o que o extrangeiro nos não dava. De um tal

plano era orgão o legado cabralista no Thesouro, o conde do Tojal.

Mas os embaraços cresciam, o dinheiro faltava. Os titulos externos

estavam recebendo a 3 p. 100 em 45, quando para vêr se se obtinha

uma paz, o governo resolveu (lei de 19 de abril) reconvertel-os para

4 compromettendo-se a uma amortisação annual de £25:000. Ainda se

não reconhecera esta verdade elementar: que pedir emprestado para

amortisar é uma illusão ruinosa. Erro, illusão era, porém, tudo, e a

Maria-da-Fonte veiu demonstral-o. Mas não era mais sensato, nem mais

practico o seu governo que lançava a reducção de 20 por 100 aos juros

das duas dividas, juros que elle não podia pagar, e assim, lucrando

nada, desacreditava-se por dois caminhos. Abolidos esses descontos

impensados, voltou-se ao estado anterior da decima unica na divida

interna, capitalisando se os dividendos por se não poderem pagar.

Tojal saíra por uma vez, como quem para nada prestava já (22 de agosto

de 47). Havia paz durante o reinado de Saldanha, Monk de Costa-Cabral,

(18 junho de 49) que poz na Fazenda Avila, esperanças da patria. O

segundo ministerio cabralista não foi melhor na finança do que na

politica. Apesar de moço, Avila sempre fôra velho no pensar: jurava

pela amortisação! E jurando, as cousas iam indo de mal a peior; e, se

Costa-Cabral caíra em 46 precipitado do alto de uma torre de papeis,

agora ia pouco a pouco enterrando-se n’um olheiro de penuria. Desde

julho de 48 que se supprimira o systema de capitalisar os juros em

divida: para se pagarem? Sim, menos a quarta parte; mas nem isso, cousa

nenhuma se deu, nem a nacionaes, nem a extrangeiros.

Não se está vendo a urgencia de _regenerar_ as cousas?

* * * * *

Com um espirito novo a Regeneração veiu proclamar o contrario do que

até então se dissera e estava desacreditado. Como introito, para

simplificar, capitalisou em fundo de 4 p. 100 todos os dividendos

por pagar desde 50. (decr. 7 de julho de 51) E como affirmação de

principios supprimiu o da amortisação. (decr. 3 de dezembro) Fontes era

moço, na edade e no espirito. Não vinha de Coimbra: estava limpo das

doutrinas classicas e caducas. Amortisar, o quê? para quê? Amortisar,

pedindo emprestado, nós que temos de nos endividar para solver os

encargos annuaes ordinarios, é aggravar as consequencias do juro

composto que tal situação nos impõe. Amortisar, o quê? A divida? não,

que deve ser _fundada_, permanente, eterna, como caixa-de-economias,

instrumento de distribuição de riqueza, de capitalisação de migalhas.

Outr’ora dissera-se ser necessario pagar o que se deve. Doutrinas

fosseis! Um Estado não é um particular. Quanto mais uma nação dever,

mais rica será!

O san-simonismo infiltrára-se nos pensamentos da geração nova, com

os seus dogmas chrematisticos e communistas. Prégando a religião da

riqueza, e o culto do capital como meio de a crear, era natural que

trouxesse theorias novas para o problema das dividas nacionaes. O

Thesouro, com as _rendas_ annualmente distribuidas, era uma funcção

normal do Estado, cuja divida adquiria um caracter social, perdendo a

natureza commum ás dividas particulares. Por outro lado, que melhor

modo de desenvolver a riqueza do paiz do que derramar sobre elle

uma chuva de oiro extrangeiro? Custaria caro? muito? Seria nada: os

redditos do Thesouro cresceriam n’uma progressão superior á progressão

dos encargos da divida.

Taes opiniões, geraes no tempo, e convictamente abraçadas pelo

financeiro regenerador, entraram com elle no Thesouro portuguez.

Á parte o valor da doutrina, á parte as consequencias d’ella--com

que nos achamos hoje, dizem uns que embaraçados, dizem outros que

afortunados--é mistér vêr na finança regeneradora a continuação do

antigo pensamento de José da Silva Carvalho. Uma nação exhausta só

poderia renascer regada por chuveiros de libras esterlinas. Quando,

batidos os doutrinarios financeiros, os Campos e os Passos, os Tojal e

os Avilas, voltou o espirito practico, a Regeneração encaminhou para

cá os capitaes de fóra. Os milhões dos antigos emprestimos serviram,

no todo, para guerras; os milhões dos novos serviram n’uma parte para

estradas e caminhos-de-ferro; d’ahi a reconstituição da economia rural

da nação.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 22 / 30 段