Do folheto do meu amigo[36] o que infiro é que esses banquistas

d’ahi são uma alcateia de tratantes e burlões e que o governo quer o

monopolio da cousa para uns amigos seus de Lisboa que vam tratando da

vida, mas com quem o governo se acha nos apertos trazidos por despezas

tantas vezes, posto que nem sempre, irreflectidas e insensatas. As

façanhas e cavallarias dos banqueiros do Porto resultam claramente

do seu folheto: as do governo são inferencias que d’elle tira a

minha damnada má fé.--O governo que faça a sua obrigação; que tenha

bem azeitados os gonzos e fechaduras das cellulas e bem safas as

escotilhas dos navios da carreira d’Africa. Por indulgencia com a

imbecilidade humana (sejamos indulgentes) quando a tratantada fosse de

algum banco, bastaria dissolvel-o e filar a direcção. (_Ibid._ c. de

fev. de 77)

Pobre governo que caíu! Pobre Estado, sem força para bater-se com os

novissimos Senhorios creados pela liberdade que o philosopho prégava!

Porque até perante um claro exemplo das consequencias da concorrencia,

como que ferido por um remorso, por uma vaga duvida, Herculano insiste,

defendendo a sua opinião arraigada:

Preto velho não aprende lingua. A questão unica de doutrina que me

parece haver em toda essa embrulhada é a emissão de notas: se ha de

ser livre, se restricta, se monopolisada. Liberdadeiro empedernido

no peccado, adopta a primeira solução em toda a sua amplitude. O meu

amigo vae para o monopolio: tambem isso é natural. O socialisto vê no

individuo a cousa da sociedade: o liberal vê na sociedade a cousa do

individuo. _Fim_ para o socialista, ella não é para o liberal senão

um _meio_; creação do individuo que a precedeu, que lhe estampou o

seu sello; porque, faça ella o que fizer, nunca poderá manifestar

a sua existencia e a sua acção senão por actos individuaes, unidos

ou separados. O collectivo n’essas manifestações não passa de uma

concepção subjectiva; não existe no mundo real. (_Ibid._)

Mas, se essa liberdade expressa na concorrencia economica--a franca

emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo: mas se essa

liberdade conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que

haja um vicio no mechanismo das instituições. E ha, ha sem duvida, diz

Herculano, é o anonymato.

Na essencia, a _banknote_ é a expressão do credito que o individuo

attribue a si. Que se reunam 7,70 ou 700 individuos para sommarem

essas avaliações; que se chamem banco e que exprimam collectivamente

o total, isso não muda a essencia da cousa. Supprimia todas as

responsabilidades _limitadas_. A responsabilidade é de sua natureza

illimitada até onde chegam os recursos e a pessoa do responsavel. _Non

habet in posse, dicat in corpore_, é maxima que se não devia despresar

n’esta questão do abuso do credito. Note que eu desejaria supprimidas

todas as responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas

ou disfarçadas. (_Ibid._)

Vimos antes como o espirito do historiador erudito corrigia em certo

ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir

o livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o

ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem

temperava os principios do philosopho, e essas correcções eram-lhe

indispensaveis para que os seus pensamentos se mantivessem de accôrdo

com os seus rectos instinctos, com as suas bellas aspirações: eram-lhe

indispensaveis, porque o estoico não admitte divergencia entre a

intelligencia e a moral, entre o mundo das idéas e o das realidades.

Mas, se ha pouco notámos a inconsequencia, não é verdade que a opinião

de abolir o anonymato é paradoxal--fóra do socialismo que reconhece

a instituição anonyma por excellencia, o Estado? Sem anonymato, como

levareis a cabo as obras colossaes, a que nenhuma responsabilidade

individual basta? Ou condemnareis a realidade fatal em nome dos

principios? Como Herculano claramente o via, o anonymato, isto é, a

fragmentação do Estado em senhorios economicos, uma especie nova do

feodalismo, consequencia necessaria de todas as anarchias: o anonymato

é a refutação do individualismo na economia social. Destruindo toda

a propriedade collectiva, roubando ao Estado toda a força real,

resta apenas á lei um prestigio abstracto que é logo vencido pelas

influencias anarchicas ou _feodaes_ do capitalismo individualista.

Liberdade quer dizer responsabilidade; e, se uma é um principio

absoluto, a outra ha de tambem ser absoluta. Esta é a regra; e n’este

ponto não era Herculano, era a fatalidade a origem da inconsequencia.

Por cima das theorias galgam e vencem sempre os factos necessarios.

Assim no direito publico o processo das maiorias apezar de _ignaras_;

assim na economia o anonymato, apesar de juridicamente infundado,

passam por cima do individuo, da liberdade, da responsabilidade.

E, os que vêem com outros olhos os phenomenos sociaes, encontram

n’esses factos os primeiros esboços do futuro Estado, que se

reconstruirá depois de terminada a evolução natural dos principios

liberaes-individualistas. Das maiorias, organicamente representadas,

sairá a representação da vontade collectiva; das companhias,

opportunamente transformadas, sairá a unificação do poder publico. O

voto universal e o anonymato são o esboço rudo da constituição do novo

direito politico e da nova constituição economica de sociedades em

que o liberalismo destruiu as instituições de protecção e o direito

monarchico.

* * * * *

Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios--liberal

e socialista, ou individualista e collectivista--era indifferente

a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se

sente n’um throno, n’uma poltrona ou n’uma tripeça». E essa questão da

republica ou monarchia, é para elle um problema não só historico, mas

tambem religioso.

São na essencia o mesmo o calvinismo e o puritanismo, e o calvinismo

penetrou tão profundamente na vida moral dos suissos, como o

puritanismo nas antigas colonias inglezas emancipadas. Mas o

calvinismo e o puritanismo que são, senão a democracia republicana

na sociedade espiritual? A vida politica das duas sociedades foi,

digamos assim, uma prolação da sua vida moral. Quando as instituições

e as idéas politicas de um povo derivam das suas crenças e

instituições religiosas, a manutenção tenaz das primeiras nada tem de

extraordinario. (_Ibid._ c. de 15 de nov. de 72)

Pondo de parte, pois, a questão da opportunidade no momento de uma

crise, a republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa,

sobretudo a estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas

na raça[37] que estanceiam ao occidente ... educadas pelo catholicismo

que, na pureza da sua indole é o typo da monarchia representativa».

(_Ibid._)

A tradição religiosa, ou antes aquella pseudo tradição de um

catholicismo liberal inventada pelo romantismo, servia, pois, ao

philosopho para temperar o seu individualismo, conciliando-o com

um resto de authoridade social consagrada nas prerogativas do

throno representativo. De tal modo se combinava o racionalismo com

o romantismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua

doutrina, um caracter de individualidade original, depois do ensino

apenas racionalista de Mousinho da Silveira.

Tambem o temperamento entrava, ao lado da educação, para acabar de

afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio

Deus kantista não bastava á sua indole peninsular. A imaginação

pedia-lhe a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava o quer

que é de affectuoso e meigo--a doce caridade catholica--e o bom senso

exigia o culto e pompa que impressionam as massas. O protestantismo,

alvo das suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas

exigencias de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde

a comprehendel-o fóra da caridade practica, via, porém, na religião

principalmente a Egreja--instituição e disciplina. Roma e a politica

ultramontana, n’isto se resumia para elle a historia do catholicismo a

partir de certo concilio em que pela primeira vez se infringiram certos

canones. Por este lado, o seu pensamento, aliás tão grave, aproxima-se

mais do espirito superficial e em demasia negativo do seculo XVIII,

do que do espirito placido e comprehensivo do seculo em que vivemos.

Fazendo da questão religiosa uma questão de datas e leis, marcava a éra

em que a Egreja começara a mentir ao seu papel, e aos que lhe falavam

em nome do Espirito, respondia com a Historia: a morte veiu achal-o

occupado na empreza van de converter um rapaz mystico e catholico.

Tinha odios ao papado, e a paixão do sectario, quando se erguia

contra os desvarios dos seus contemporaneos, cegava-o até ao ponto de

desconhecer o passado e de applicar as fórmulas da nossa éra a todas

as edades. Assim, para elle, a solução da questão religiosa estava no

regresso ao puro espirito do catholicismo _representativo_, religião

que concebia como canonista e não como philosopho. Punha Döllinger

muito acima de Luthero; Hegel, Feuerbach ou Strauss mereciam-lhe apenas

um sorriso desdenhoso.

Esta maneira, evidentemente incompleta, de comprehender a religião

levava-o a consideral-a, por um lado, como cousa puramente individual,

e n’este sentido apoiava a celebre fórmula «Egreja livre no Estado

livre»; em quanto por outro, olhando-a como instituição positiva, a

julgava simples materia administrativa. O publicista liberal assustado

pela força da Reacção, cujo verdadeiro caracter não percebia,

erguia-se, pois, para debellar com leis o que só a prégação moral

póde encaminhar e dirigir, jámais vencer: a irresistivel tendencia do

espirito collectivo para affirmar religiosamente a sua unidade.

A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia de

um espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu

verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o deus

da _Harpa do Crente_ é um ser eminentemente livre que por um acto

de vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a

divinisação da personalidade. E, como todos sabem por quanto esta

antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario

mostrar, desenvolvidamente como e até que ponto, Deus era para

Herculano o deus christão.

* * * * *

Duas palavras agora ácerca do escriptor: duas palavras apenas, porque

não tratamos da historia litteraria, mas temos de nos occupar de

litteratura, sempre que ella influe, como n’este caso, na vida geral ou

total da sociedade.

Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres

physionomias distinctas. A primeira official e grave, são os seus

trabalhos historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem

affectação quinhentista, se desenvolve alimentado pelos _caldos

de Vieira_ que nos receitava, a nós os moços, para educar a mão. A

segunda são os seus romances e escriptos humoristicos, onde, mal

ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com fórmas e _tours_

extrangeirados, transparece sempre o _gout du terroir_, o cunho de

portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que engraçado. Na

terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella; nos escriptos

de polemista, a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as

palavras têem calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos

expressos em orações duras, uma convicção, uma independencia que a

ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma harmonia perfeita entre

o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo redondo, sobrio e

nobre. A rhetorica classica é o molde proprio do classico pensamento

estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica, (_Carta á Academia

das sciencias_) onde o homem intimo, sensivel, caridoso e simples, esse

homem que nós esboçámos fugitivamente, porque a vida, a educação, o

temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao homem

estoico: ha uma, dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram

e vociferam, têem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo

coração da sua existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue.

O que o genio do artista obtem com intuição, consegue-o o poeta com

emoção. A _Carta á Academia_ é tão bella como as melhores das poesias

intimas de Herculano.

Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus

romances), a litteratura era uma missão e não um dilettantismo. O

universo, a historia, a sociedade não se lhe apresentavam como assumpto

de estudos subtís e curiosos, de observações finas ou profundas,

de quadros brilhantes, vivos ou commoventes; mas sim como objecto

de affirmações ou negações, inspiradas pela convicção estoica. Nos

seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu

pensamento e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do

author, ora apaixonada, ora melancholica; quasi sempre triste, mas

sempre convicta, energica e franca.

As _Poesias_ e o _Eurico_ revelam-nos o crente na providente liberdade

de um Deus poderoso e justo, a alma rijamente temperada contra o acaso

funesto, o coroação aberto ás emoções da natureza que se lhe manifestam

com o caracter de uma fatalidade cruel e de um desabrimento cego. Deus,

a Natureza o Homem, são, n’essas obras, personagens de uma tragedia

biblica, tendo a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena

bulcões de nuvens negras a velar o azul do céu.

Vêem depois na obras polemicas, vasta e riquissima collecção (reunida

nos _Opusculos_, I-IV e segg. em via de publ.) que patenteia a omnimoda

actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter de um

philosopho, cujo pensamento, em vez de se manifestar em tratados,

se exprime em controversias. Profissionalmente, era historiador. A

_Historia de Portugal_ e os trabalhos que com ella formam o corpo

dos estudos do erudito (a _Hist. da Origem e Est. da Inquisição_; os

opusculos sobre a batalha de Ourique; o _Do estado das classes servas_;

os diversos ensaios no _Panorama_; o ined. sobre o feodalismo em resp.

a Cárdenas; as edições da _Chron. de D. Sebastião_, de Bernardo da

Cruz, dos _Annaes de D. João_ III, de Fr. Luis de Sousa, do _Roteiro

de Vasco da Gama_; a collecção dos _Portugalliæ monumenta historica_;

etc.[38]) são a obra mais importante do escriptor e o solido

fundamento do seu nome immorredouro na historia litteraria portugueza.

Reunindo a um saber geral vasto e forte a paciencia do erudito e o

escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a seccura pedante do

especialismo; e, se não constituem nem podem constituir uma historia

nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e politicas

da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A historiographia

peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome que

se conservará ao lado do de Mommsen ou de Guizot, cujos golpes de

vista comprehensivos partilhava; e do de Thierry, a quem acompanhava

na faculdade de representar vivas, nos seus habitos, costumes e

leis (senão em sua alma, como um Michelet) as passadas gerações;

avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o trabalho improbo

de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos historicos

de um povo que não tivera benedictinos eruditos. Robinson de nova

especie, Herculano achou-se como n’um paiz deserto e teve de descobrir

os materiaes antes que podesse pôr mãos ó obra.

Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a _Historia

de Portugal_ é um monumento; entretanto, devemos dizel-o, se quizermos

ser inteiramente justos, mais de uma cousa lhe falta, para poder

ser considerada um typo, e o seu author um grande historiador, como

um Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de discussões

eruditas; falta-lhe, sobretudo, aquella alta e serena imparcialidade,

aquellas vistas rigorosamente objectivas, aquella isenção critica,

impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos, sem a qual

a historia deixa de o ser. Herculano peccava, com toda a eschola

romantica, Guizot á frente, porque a opinião e a politica de mãos

dadas o levavam a fazer da historia da Edade-media uma apologia do

systema representativo. Como Guizot, tambem estoico, Herculano era

demasiado convicto e apaixonado para poder prescindir de si, das suas

crenças, das suas opiniões. Levava, pois, para o estudo do passado as

preoccupações do presente, porque essas preoccupações eram a essencia

da sua vida moral. O romantico de 30, o liberal ardente, o soldado da

CARTA, enfatuado com as suas theorias constitucionaes e municipalistas,

tinha de condemnar _in limine_ a centralisação monarchica dos seculos

XVI e XVII, consequencia indiscutivelmente necessaria, consequencia

europêa da Edade-media e preparação dos tempos modernos.

Além d’isto, ha uma falta de nexo na _Historia de Portugal_, resultado

do modo como primeiro foi concebida. «Eu comecei por imaginar apenas

uma historia do povo e das suas instituições, alguma cousa no genero da

_Histoire du tiers état_, de Thierry, mas mais desenvolvida--dizia-nos

Herculano--porém tendo colligido materiaes para a primeira epocha,

vi que possuia n’elles tudo o que era necessario para a historia

politica: d’ahi veiu a resolução de escrever uma _Historia de

Portugal_». É por isso que as duas faces do livro se não ligam; é por

isso que os homens e os seus actos nos apparecem como um appendice,

subalterno, indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido

outros e diversos, nem por isso a vida anonyma da sociedade poderia

ter seguido rumo differente. E, se não vemos a acção dos elementos

voluntario-individuaes ou fortuitos sobre os elementos sociaes,

nem a inversa, perdendo assim a historia o seu caracter eminente

de realidade, juxtapondo artificialmente, a uma chronica veridica

desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação

erudita sobre o desenvolvimento das instituições: succede tambem que

a apreciação dos elementos moraes, crenças individuaes, phenomenos de

psychologia collectiva, é feita á luz de doutrinas quasi voltairianas;

e, no avaliar das lendas religiosas e da acção do clero, o historiador

prescinde de profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario

que nos bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da

astucia e uma Babylonia de perversão.

Tal foi a _Historia de Portugal_ que o romantismo concebeu;

e demorámo-nos tanto sobre ella porque vimos ahi um symptoma

caracteristico para apreciar o valor d’essa fórma de Liberdade que

teve em Herculano o seu derradeiro e mais illustre sectario. Para o

romantismo, a renovação social era uma volta a tradições scindidas

pela monarchia absoluta: já o dissemos, e não é portanto necessario

repetil-o. E essas tradições que deviam ser--oh, singular confusão da

intelligencia!--o alicerce de uma liberdade racionalista, inspiravam

a Garrett o _Frei Luis de Sousa_, elegia mystica, e a Herculano um

fragmento de _Historia_ para uso dos sabios, apenas popular por ter

sido mais um ataque ao catholicismo tradicional portuguez.

* * * * *

O clero pagou com guerra o odio que o historiador lhe dispensava nos

seus livros aggressivos. Conjuraram-se os padres, e Portugal assistiu

a mais um protesto do espirito antigo, inconvertivel, impenitente.

Em vez de congregar o povo na communhão de um pensamento nacional,

a _Historia_ saía como uma arma de combate. As tradições vivas,

possiveis, eram todas inacceitaveis, como o leitor já sabe. As

guerrilhas do Minho em 46 foram trucidadas em Braga, mas o enraizado

espirito catholico não se podia vencer nem com armas, nem com livros:

só acabaria com os caminhos-de-ferro, com as pontes e estradas, com a

Regeneração utilitaria, materialista e practica.

Herculano, vendo-se isolado, vendo no pulpito o padre excommungando-o,

no governo «o bom homem que, nas horas vagas de certas funcções

elevadas, espairecia os tedios da vida revolvendo com o bico da bota

a velha corôa de D. João I n’uma celha de lodo que viera do Tibre»;

Herculano, clamando sem ser ouvido, a Sá-da-Bandeira: «Acorda, moderno

Bayard, que te matam!» (_A reacção ultramontana_, 1857) abdicou e

homisiou-se, levando para a sua thebaida a crença na ruina fatal. Os

antigos não se convertiam, os novos entregavam-se de corpo e alma á

Regeneração: elle, só, chorava as desgraças da patria que saía da

sacristia para entrar na tavolagem, trocando a egreja pela bolsa,

e os bentinhos e os rosarios pelos arrebiques dos peralvilhos e

pelas tabuadas de financeiros: o Breviario pelos Melhoramentos.--E o

evangelho? oh, gente perdida! E a justiça? e a moral? e a liberdade?

e a poesia? A turba não podia mais ouvil-o: com a liberdade fôra-se a

religião; com o romantismo salvador, a perdida nação jesuita! Velhos e

novos, de mãos dadas, adoravam o deus novo--Regeneração! cujo sacerdote

em Rodrigo, Fontes o diacono, e Saldanha o idolo bem fardado.

Herculano abdicou, pois. Durante o periodo que medeiou entre a sua

abdicação e a sua morte, o espirito europeu, abandonando a vereda

romantica de um subjectivismo que desde 89 assolava o mundo com

revoltas, restauradas as sociedades latinas pelo utilitarismo

imperialista que as enriqueceu outra vez: o espirito europeu, dizemos,

retemperou-se na tradição naturalista, constituindo um corpo inteiro de

conhecimentos novos, transformando os methodos das sciencias, esboçando

philosophias originaes. O antigo estoico, o kantista de 30, com as

suas idéas exclusivas, com o seu racionalismo frio, com o seu methodo

subjectivo, com a sua comprehensão formal das cousas, com o seu deus

mechanico, e a sua liberdade dogmatica: homem como que abstracto, vendo

os homens fóra do mundo e da evolução, como um milagre divino: esse

homem, solitario em Val-de-Lobos, adorado por quantos o conheciam,

estudado como um monumento da historia por muitos dos que o tractavam,

não podia mais dirigir a educação da gente nova.

Nem o conhecimento intimo da natureza viva obtido pela sciencia, nem o

sentimento ideal do Universo, profundado pelas philosophias allemans

(concepções até agora oppostas, mas que o tempo approxima todos os dias

e virá a combinar afinal); nenhuma das acquisições fecundas do espirito

humano nos ultimos quarenta annos, poderam destruir no pensamento de

Herculano o systema granitico das suas idéas. O maravilhoso corpo

de sciencias philologicas que a Allemanha construira e que são como

que a embryogenia das sociedades e suas idéas politicas, juridicas e

religiosas, revelando uma biologia social tão positiva e verdadeira

como a zoologica, mostrando-nos a sociedade como realmente é--um

organismo vivo: esse mundo novo do saber que destruia o individualismo

e apeiava do seu throno a Liberdade, não só era desconhecido para o

solitario estoico, mas era objecto das suas ironias melancolicas--«os

desvios das symbolicas, das estheticas, das syntheticas, das

dogmaticas, das heroicas, das harmonicas, etc.» (Corr. com o a. _carta

de 1869_) em que «lhe faria pena vêr perdido» qualquer escriptor moço.

E quando, elle que observara impenitente o velho Portugal,

abandonados ao lodo utilitario os seus coevos, via tambem a mocidade

mediocremente respeitosa por essa religião do Individuo que era a

sua; quando via as tendencias centralistas e socialistas,--confessas

ou inconscientes--dominarem nos governos e opposições, nos partidos

conservadores e nos revolucionarios, elle chorava, outro Isaías, sobre

as ruinas do templo abatido, sem reconhecer que as pedras d’esse

edificio derrubado já começavam a formar um novo monumento.

Meu amigo; provavelmente não tardará muito que eu vá dar um passeio

ao outro mundo sem tenção de voltar. Passado um seculo, é muito

possivel que o liberalismo tenha desaparecido. As gerações precisam ás

vezes retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores da servidão:

concentram-se para a explosão calcadas sob o pé ferreo da força

brutal. Deixe-me levar, para me entreter a ruminal-a pelo caminho, a

convicção de que, entalada entre duas betas negras,--a tyrannia em

nome do céu e a tyrannia em nome do algarismo,--surgirá como um foco

de luz, nas paginas da historia, a epocha em que se proclamavam os

direitos individuaes absolutos e imprescriptiveis, embora as paixões

humanas nem sempre os respeitassem. (Ibid. carta de fev. de 77)

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 21 / 30 段