As eleições de 48 trouxeram o conde de Thomar á camara. Chegava

triumphante, depois de um desterro, já transformado em uma embaixada,

d’onde guiara o seu lugar-tenente Saldanha, d’onde urdira a trama da

intervenção hespanhola que afinal arrastara a Inglaterra, congregando

os elementos da victoria. Os vencidos, vendo-o regressar ao seu posto,

á camara, primeiro degrau de um segundo throno, foram-se ás armas,

pegaram das munições, prepararam-se desde logo para uma nova campanha.

Costa-Cabral, o conde de Thomar, era mais do que um homem: era um

systema e um phantasma. No odio com que o recebiam mostravam-lhe quanto

elle valia, pelo medo que lhe tinham.

A cadeira de deputado foi, com effeito, a breve transição da embaixada

para o governo, onde substituiu Saldanha. (18 de junho de 49) Essa

restauração teria tido lugar muito antes, se a guerra não tivesse

respondido ao golpe-d’Estado de 6 de outubro, no qual Saldanha era

apenas a força bruta do exercito destinada a preparar a volta do

estadista banido em maio.

* * * * *

Eis, portanto, de novo as cousas no estado em que a primavera de 46 as

achára; eis perdido o tempo, e o dinheiro, e as vidas, e dois annos

de revolução e guerra. Congregam-se outra vez as guerrilhas? agita-se

de novo o povo? Não. A Maria-da-Fonte morreu; Macdonell morreu; os

camponezes voltaram para suas casas batidos por uma saraivada de

desesperanças, decididos a não querer saber mais do governo; os

miguelistas resolutamente se fecharam nas suas covas. Nenhum espectro

surgia ...

Apenas a imprensa desvairada dos politicos batia sem piedade o homem

a quem se costumara a cobrir de lama. E a velha calumnia da lenda do

castello de Thomar levantava a cabeça, não poupando a reputação pessoal

da rainha a quem, confundindo a politica e a modestia, equivocamente

chamava tolerada. Accusavam de seu amante o ministro, e elle, o homem

forte, commetteu a maior das fraquezas, mandando processar em Londres

o _Morning Post_ que repetiu as infamias das folhas de Lisboa. É que

tambem caía, tambem descia, o antigo tribuno dos _Camillos_, o cansado

tyranno de Lisboa.

Só não cansava a imprensa, no seu desalmado ataque. A _Nação_, na

capital, imprimia um requerimento á rainha: «Senhora! o vosso ministro

é accusado de receber um caleche e dar por elle uma commenda. Senhora!

o vosso ministro pedia-vos uma commenda para pagar os caleches com que

o peitavam». E o _Nacional_, no Porto, publicava uma scena dramatica,

entre burlesca e tragica, amorosa e torpe, em que o côro exclamava--ó

ladrão! larga o caleche! (ass. C. Castello-Branco, 19 de dezembro,

1849) O _Supplemento burlesco_, em lithographias toscas e caricaturas

grosseiras insultava diariamente os Cabraes e a sua gente, mostrando

que o antigo genio soez da satyra portugueza não se extinguira. Aqui

vinha o _Triumpho do Chibo_: um bode (o conde de Thomar) com um

sacco aos hombros e o letreiro _roubo_; o chibo sobre um andor que é

um cofre, o Thesouro, levado por Saldanha e por José Cabral, o dos

conegos, de vestes talares. (n. 39, dez. 23 de 47) Além é o _Chibo

d’Algodres_, um grande bode com a face do conde de Thomar, de pé, tendo

uma vara ao hombro e pendentes, á laia de sacco, os palacios famosos:

Thomar, a Estrella; o rabo do bicho está enlaçado com folhas tendo

escriptos os nomes das companhias do tempo. (n. 28 nov. 15) N’outro

apparece o famoso padre Marcos, o _Arcebispo_ do _Cartaxo, Porto e

Chamusca_: é uma botija, tendo na bocca a cabeça do padre mitrada, e

nas azas ou mãos, o baculo de um lado, o copo do outro. (n. 32 nov.

29) O _José dos Conegos_ tambem é chibo com o trajo talar arregaçado,

pistolas ao cinto, na mão a _Arte de furtar_. (n. 42 jan. 3 de 48)

Veem tambem os empregados publicos, aranhas, esqueletos, mirrados e

seccos, e no centro da folha o conde de Thomar com um ventre inchado,

monstruoso «cheio como um ovo». (n. 29 nov. 18 de 47) Não falta o

Saldanha na _Arvore das caras_, em que os ramos, os rebentos, os

tortulhos do chão, tudo são _caras_ diversas do versatil, regadas

pelo jardineiro de Thomar com dinheiro em vez de agua. (n.º 41 dez.

30) E assim por diante, os pasquins pintados coadjuvavam as diatribes

escriptas. Veiu a _lei-das-rolhas_, e Cazal Ribeiro, bem moço ainda,

mas ensopado no virus politico, cheio de talento e enthusiasmo, homem

de uma geração nova que mal fazia em se envolver nas questões da

antiga, declamava n’um estylo obeso:

Conde de Thomar, sois um concussionario porque entrastes para o

poder pobre e tendes adquirido uma fortuna immensa por meios torpes

e vergonhosos. Conde de Thomar, sois um traidor, porque vendestes

ao paço a causa do povo em 1840; porque vos revoltastes contra a

constituição que servieis em 1842; porque arrastaes agora o throno e a

nação a um precipicio certo e talvez á invasão extrangeira. Conde de

Thomar, sois um despota ignobil porque calcaes a decencia, as leis, a

constituição, e governaes só pela bitola do vosso capricho. Conde de

Thomar, sois um imbecil, porque a vossa habilidade cifra-se na intriga

e o vosso poder depende só do favoritismo. Conde de Thomar, sois um

miseravel, porque vos servís, como meio politico, da honra de uma

senhora, de uma rainha: porque a sacrificaes impudentemente aos vossos

nefandos fins. (Cazal Ribeiro, A _Imprensa e o conde de Thomar_, 1850.)

E a decadencia dos caracteres era--e continuou a ser--tal e tanta,

que os inimigos trocavam entre si as maximas injurias, sem logo se

apunhalarem, ou se baterem a tiro, a tres passos. Não! era _politica_.

Dias depois sorriam lado a lado, sentados juntos na mesma camara. Era

_politica_! Não se está sentindo a necessidade de uma _regeneração_?

Não se percebe que o momento da victoria final da rapoza se approxima?

De gritar estão fartos, de nodoas todos sujos, de gritar todos surdos:

abracemo-nos todos! Vinte annos escassos de uma historia que o conde

de Thomar, como um dormente, protrahia de mais, levavam a esse abraço

fatidico.

De um e de outro lado já se encontram nomes novos: Cazal e Latino

na opposição; Corvo, pelo governo, mostrando aos adversarios a

inconsequencia de atacar o gabinete por se apoiar no exercito,

quando tinham por chefe um general, (Antas) patenteando o vasio dos

seus desejos, o indeterminado dos seus programmas. (Corvo, _Fallou

a opposição!_ op.) E dos velhos jacobinos, dispersos, aborrecidos,

desilludidos, apenas um restava para condemnar não só o governo, como

o soberano; não só a rainha, como a dynastia inteira dos Braganças:

De quantas dynastias senhoream hoje a Europa, é a de Bragança, que

nos governa, a mais ominosa de todas, como quem teve principio em

crimes e traições abominaveis. (D. Affonso matara o conde D. Pedro em

Alfarrobeira; e o neto fôra degollado por D. João II em Evora) D’essa

familia não se póde contar nenhum rei que fosse patriota; e se não

fossem os extrangeiros (em 47) ter-se-hia dado o espectaculo novo

de um rei expulso pelo povo portuguez.--Por Deus, senhora D. Maria

II! Veja V. M. o paradeiro que teve em palacio, á vista da rainha D.

Leonor Telles, o conde Andeiro! (J. B. Rocha, _Rev. de Portugal_, 52)

O conde Andeiro ria sarcasticamente. Chamavam-lhe estafador,

concussionario, ladrão publico; e elle mordia-se de colera, se é que

o habito lhe não dera já impassibilidade. Sabia demasiado o modo de

não irritar o povo: deixar-se de innovações perigosas, deixar seguir

o barco da conservação na maré da banca-rota. Seguro o exercito,

conhecido o modo de _fazer_ as eleições, legalisado o systema, que

lhe importava o ladrar dos inimigos? Mas é que esses ataques passavam

por sobre elle, iam direitos ao soberano: «Protege V. M. os homens

sabedores? Favorece os artistas? Acode á pobreza desvalida?--Nada

d’isso: só deu a Costa-Cabral o Alfeite.» (_Ibid._) E os periodistas

o follicularios já não se pejavam de propagar, clara, abertamente, a

urgencia da abdicação da rainha.

Tão longe não iam os pares na sua camara, mas nenhuma voz era mais

cruelmente desapiedada do que a voz sibillante do terrivel Lavradio.

O ministro rira até então, mas quando Saldanha, fosse pelo que

fosse, passou para a opposição, tornou-se serio, e nas vesperas de

acabar viu-se ainda o homem antigo. O marechal, passando-se, via o

exercito inteiro a bandear-se: imagine-se com que abraços a opposição

o não receberia! Quem se lembra já de Torres-Vedras, e das injurias,

e dos degredos! Politica! Mas Costa-Cabral propoz-se demonstrar que

Saldanha era nada: um homem-de-ferro, como o de S. Jorge na procissão

de _Corpus_; no que se não enganava inteiramente, como 51 o demonstrou

e veremos. O marechal foi demittido do paço, e logo pediu a demissão

de todas as suas honras e cargos. Deu-se-lhe; e o ministro, outra vez

temerario, não se lembrou de que um antigo Cid, um _condottiere_,

patrono de tão consideravel clientela, não se mata por metades. Ou se

fusila, ou se compra. O povo sempre disse: «quem o seu inimigo poupa,

nas mãos lhe morre.»

* * * * *

Varios symptomas indicavam a morte proxima do cabralismo; mas, assim

como os doentes nas vesperas de acabar têem ás vezes como um clarão de

saude, assim é necessario, antes de apreciarmos as causas directas da

quéda proxima do conde de Thomar, contar o seu ultimo dia, quando a

antiga força pareceu reviver e o sangue todo circular com energia antes

de o coração parar.

Saldanha renegara-o; os pares da opposição (Taipa, Lavradio, Loulé,

etc.) tinham pedido á rainha a demissão do ministro odiado, accusado de

crimes torpes que manchavam de lodo o governo e até o throno. Abertas

as camaras no principio de 50, os debates pareciam audiencias e o

ministro um réu. As galerias dos Pares, cheias de povo, estavam com

a accusação: o conde de Thomar era, como Guizot e os doutrinarios em

geral, antipathico. O povo não ama a seccura e a rigidez das formulas

pedantes; o povo está prompto a crêr sempre na criminalidade dos que

o governam, desde que o principio da rebeldia constitucional contra

o Estado appareceu e venceu; desde que se poz no direito publico um

dualismo organico entre a _liberdade_ e a _authoridade_, supposta

antinomia. O conde de Thomar era antipathico, e não tinha para

contrariar esta consequencia da indole da sua politica, nem os creditos

de integro, nem os de sabio, que escudavam o seu modelo Guizot.

«Eu não posso ser considerado como obnoxio á nação que sendo chamada á

urna me favorece sempre com a sua opinião quasi geral.» (Disc. de 12

de jan.) Em vez de atacar, defendia-se, o ministro: evidente prova de

fraqueza; e a defeza era triste, molle. A quem pretendia enganar, ou

convencer? Pois sala e galerias, pares e povo, não sabiam todos o que

eram eleições e urna? Tanto sabiam, que estrepitosos risos acolheram a

saída do diogenes burocratico: fraco cynismo, se provoca o riso!

Mas essas gargalhadas os esporearam-no. Pulou. Torcia-se-lhe a face,

luziam-lhe os olhos, e resuscitava o homem de 42. Então, depois da

aventura do Porto, olhando a desafiar os inimigos, dissera-lhes:

Conspirei? tambem vós! conspirámos todos. Agora a accusação era outra,

mas o processo identico: Roubei? tambem vós! roubámos todos.

E sarcastico, odiento, inverteram-se os papeis: o réu passou para o

banco da accusação. Tinha diante de si um masso de jornaes impressos,

e abrindo-os, via-se cada folha tremer com a convulsão do pulso do

ministro: Accusam-me de ladrão? E quem? Saldanha não saberia que a

propria _Revolução de Setembro_ lhe dissera o mesmo a elle? Porque não

a processou, e quer que a processe agora eu?--E abria o papel, lia o

que occorrera em certa arrematação das Sete-Casas: «A praça estava

aberta, as condições foram umas e a arrematação foi feita por outras.

Não é isto uma burla?» Que motivos houvera? «Estavam já _calçadas as

luvas_. Vencedor de Torres! não córes; tudo se sabe». (_Rev. de Set._

10 de jan. de 48)

Nem a sala, nem as galerias riam já. O caracter não era ainda uma

ficção, como a Urna. O ministro feria com acerto, e, ávida de

escandalo, a assembléa, muda, obedecia-lhe.--Quereis mais? Ouvi: «Mais

vergonhosa ainda é aquella historia do retrato. O retratista recebeu

180$000 rs. para elle; para 400, vão 220 que faltam. Onde se sumiram,

duque de Saldanha?» Outro artigo: «Miseria, sr. ministro, é o roubo

de 220 mil réis; miseria é v. ex.ª considerar uma miseria a accusação

por esse roubo ... Quem recebeu mais de sete contos por um emprego que

nunca exerceu, não admira que considere 220 mil réis uma miseria».

(_Rev. de Set._ 18 de jan.)

O bote estava dado em cheio no refalsado peito do marechal que o

atraiçoara, depois de por tanto tempo o servir. Mudando o tom e a

voz, com uma gravidade de secretaria, o ministro observava, dobrando

os jornaes, que era «o primeiro a fazer justiça á honra e probidade

do digno par», mas que se achava na obrigação de defender-se. Todos

os homens d’Estado d’este paiz tinham sido accusados de ladrões pelos

jornaes diffamadores, e todos os tinham desprezado, nenhum os chamara

ao jury: elle faria outro tanto, seguiria tão bons exemplos. E

admirava-se de que fosse o marechal quem se voltasse contra elle; o

marechal que, ao saír da presidencia do conselho, declarára ser com

elle, ministro, «uma e a mesma cousa»; o marechal que em dezembro de

47 o mandara embaixador para Paris; o marechal, etc. (_Disc._ de 12 de

jan. de 50)

Fustigado, bem moído, este primeiro e novo inimigo, o conde de Thomar

voltou-se para os antigos. A opposição, no seu manifesto, reclamava

a demissão d’elle sob pena de uma revolução terrivel ou do dominio

hespanhol; e o ministro, firmando bem os pés no chão, n’um accesso de

furia, respondeu-lhe suffocado, rôxo:--«Não saírei d’aqui!» Dominou-se,

porém, logo, a contar como as cousas se dispunham na camara para

o atacar. «Havia pelotões para dar apoiados.» (A sala inteira riu

francamente). Observara-se como certos dignos pares que nunca falavam,

se agrupavam no cumprimento d’esse dever. Faziam bem: para nada

serviam! (_Ibid._)

Com este sarcasmo voltara a accusar. O conde da Taipa dissera que «o

presidente do conselho era objecto do odio geral», e quando repetia

estas palavras, o conde de Thomar exprimia aquelle orgulho quasi

voluptuoso que os homens da sua tempera sentem ao perceber, no odio,

a importancia que têem e o medo que inspiram.--Era objecto de odio

geral, dizia o conde: logo falariam; mas elle, ministro, buscava as

demonstrações legaes, e dizia que nos governos representativos a

Urna era toda a legalidade--resvalando outra vez o doutrinario para

a perigosa selva das fórmulas. Havia rumor, sussurro, na sala e nas

galerias, sempre que se falava na Urna.

«Se a guerra é contra mim, tenham a coragem de me accusar em fórma:

se o não fizerem hão de permittir que lhes diga que são hypocritas.»

A voz tremia-lhe, e agitando-se, crescendo-lhe o odio, chegava

á eloquencia verdadeira e forte. Com a audacia de um vencedor,

encarando de frente os inimigos, ensinava-lhes como haviam de formar o

libello.--Digam, vamos: 1.º O presidente do conselho commetteu o crime

de peita, dando uma commenda e recebendo por ella um caleche.--Sigam:

2.º Tem palacios, tem quintas, tem castellos, tem ricas tapeçarias

e um luxo asiatico ... A camara, pasmada vergava: era um monstro de

cynismo? Elle aproveitava a emoção, continuando: 3.º Tem um tinteiro de

ouro!--e vencia, arrancando aos ouvintes uma gargalhada unisona.--Não

parem: 4.º Quando a rainha o honrou, visitando-o no seu palacio de

Thomar, elle apresentou-lhe um serviço de ouro tão rico que a soberana

disse: é mais rico do que o meu!--Mais ainda: 5.º Está edificando uma

sumptuosa sala de baile, aproveitando-se dos marmores e madeiras do

palacio d’Ajuda.--Outra: 6.º Empalmou uma letra de mais de mil libras,

mandada do Brazil por um portuguez para as urgencias do Estado.--Mais:

7.º O _Mindello_ veiu carregado de espelhos para o seu palacio.--Mais:

8.º Possue a mais rica garrafeira.--Mais: 9.º Recebeu por peita

um cavallo.--«Havia mais? Dizia a imprensa alguma outra cousa?

Juntassem, sommassem; mas tivessem a coragem de o accusar, alli, clara,

publicamente.»

Até ahi o seu discurso galopava, esmagando tudo; mas quando, ao

parar, regressou, perdeu-se. Não teve habilidade para acabar, e quiz

defender-se. Guizot vencia pedagogicamente leccionando; não respondia

a ataques. Costa-Cabral vencia tambem, á peninsular, investindo:

porque se deixava bater, discutindo? Algum motivo inconsciente o

impellia a explicar casos que não seriam inteiramente calumnias? Se

assim era, provava a sua fraqueza; do contrario, a sua simplicidade.

O discurso continua embrulhado, pastoso, monotono. As explicações

podem satisfazer, mas com o odio, com as paixões, não se debate. Seria

mistér que ao periodo dos sarcasmos se seguisse uma d’estas provas

theatraes, dramaticas, capazes de impressionar a imaginação, embora não

convençam a razão fria que é sempre o dote do menor numero. Era isso o

que faltava ao ministro, a imaginação; era isto o que sobrava ao outro

homem que a historia põe diante d’elle, Passos. D’ahi vinha a um o ser

odiado, adorado o outro: apesar do segundo ser muito superior, como

força e verdadeiro talento. E Passos era virtuoso, podendo deixar de o

ser sem perder por isso a popularidade; e Cabral passava pelo não ser,

sem que podesse ganhar sympathias, ainda que o fosse.

O povo, como massa, tem um modo de sentir e de se decidir, para o

qual não colhem as fórmas simplesmente logicas da argumentação. Foi o

que o conde de Thomar e toda a eschola doutrinaria jámais perceberam,

teimando em convencer as massas com raciocinios e fórmulas, e

opprimindo ou burlando quando viam não serem comprehendidos. Nenhum

systema politico se presta mais á tyrannia e á burla do que o systema

arithmetico do governo das maiorias.

Inorganico, ou se perde na confusão da anarchia, ou cáe na paz da

indifferença apathica, ou n’uma corrupção systematica, n’um processo

de burlas e sophismas. O leitor viu a primeira conclusão, verá dentro

em pouco a segunda: a terceira é a de agora. E a fraqueza do Guizot

portuguez estava no acanhamento do seu espirito sêcco, tomando as

fórmulas escholarmente a sério. Hirto, duro, era um ariete para

bater; mas sem plasticidade, sem o que quer que é de communicativo e

seductor que arrasta o povo, em qualquer sentido. Era a Antipathia

personalisada. Vencia, mas não convertia. O advogado argumentava,

depois que o tribuno aggredira; e o povo, impressionado pela violencia,

ficava indifferente ás argucias. Não as comprehendia, e repugnavam-lhe.

O conde de Thomar era a personalisação, como que o symbolo da antiga

historia de delapidações: o povo espontaneamente o apedrejava, como

victima expiatoria. Pagava os crimes de muitos. Não era o sangue, eram

os roubos de uma geração que lhe caíam sobre a cabeça. Para se salvar

de uma tal situação, seriam mistér qualidades, genio, imaginação,

phrases, que não tinha. O clamor accusava-o de roubos: era necessario

mostrar-se modesto e desvalido. De que servia saber-se que a rainha lhe

arrendára o Alfeite? Nos governos de publicidade o rei é nada. Quando

a _opinião_ governa, é necessario que fique, ou pareça ficar pobre,

aquelle que para o governo não entrou rico. Ai, dos que enriquecem,

embora lisa, honestamente. O politico é como a mulher de Cesar; e na

psychologia da _opinião_ entra sempre e por muito a inveja. O marquez

de Pombal podia ter _aguas-furtadas_, porque estava na indole do velho

regime monarchico-aristocratico o enriquecimento dos ministros, valídos

d’um rei, _dono_ ainda da nação. Mas agora o rei já não era senhor, nem

amo, nem cousa alguma: deslocara-se a noção da origem do poder, e com

ella o criterio da moralidade na politica.

Estas considerações fizemol-as, emquanto o ministro, do seu lugar,

alinhavou pastosamente, como um advogado, a sua defeza. Não valia a

pena ouvil-o. Mas agora, transposta a parte molle do seu discurso:

agora que o aggressor volta, e a voz se lhe aquece e o olhar se lhe

aviva, é indispensavel observar a conclusão da batalha.

Não appella para o jury, repete, porque despreza as calumnias. Segue

o exemplo dos accusadores. Começara por Saldanha; era a vez do conde

da Taipa, agora.--Um par houve accusado de ladrão e até de espião

pago!--Taipa: E quem é esse par?--V. Ex.ª--Eu leio;--e voltou a

desenrolar um jornal, já antigo, amarello do tempo, como um espectro

evocado do tumulo: «Ao Gago ladrão, o _Raio_», assim começava o artigo.

Esse gago era um desprezivel saltimbanco sem honra e sem virtudes.

Respondeu a conselho de guerra por ladrão da fazenda publica. Mancha

a sociedade com o seu halito immundo. Era devasso, vivia em orgias

dissolutas, recebendo 3:200 por dia para ser instrumento do Marinho:

as suas denuncias atulharam as prisões. (_Raio_, 21 de maio de 36) Era

o ladrão da caixa militar do regimento de cavallaria 7, o espião dos

3:200, o urco de 1823 ainda empoeirado com a viagem de Villa-Franca, o

militar cobarde fugindo sem se saber porquê, (_Raio_, 9 de agosto de

36) etc. Tudo isto dissera o _Raio_, e o digno par não appellara para o

jury!

O odio crescia na camara indignada contra o temerario que, para

se defender, ia revolver assim, em publico, sujas aguas corridas,

levantando lodos que manchavam os legisladores. E era urgente

olvidar o passado, e as suas campanhas. Todos se sentiam anciosos de

esquecimento. Rodrigo começava a abrir os seus braços para o amplexo

final, fraterno ... Fóra, o importuno, o impenitente, que aos seus

crimes junta o crime de accusar o proximo!

Fatigada estava a camara, extenuado o orador: todos anciavam pelo

fim, por uma _regeneração_. A voz do ministro extinguia-se, e o corpo

pedia-lhe uma pausa.--«Para ganhar tempo, e não ouvir a resposta?»

perguntou Taipa. Esporeado, o conde saíu ainda: «Não é, não: ficarei

até ás dez da noite, se preciso fôr».--Taipa: «Eu não necessito

estudar!»--Thomar: «Preciso eu; mas para responder ao digno par--nunca!»

O resto foi um disturbio parlamentar, que os gritos de, ordem! a

custo dominavam. Acabava a scena em uma desordem: que era tudo senão

anarchia, desde os principios e doutrinas, até aos caracteres e á moral?

Assim foi o ultimo dia do conde de Thomar. Dera o que tinha. Durante

nove annos (42-51) contivera a maré do scepticismo pacifico, lançando a

patria nas aventuras de um _liberalismo_ novo. Agora, o padrão d’essa

doutrina, o padrão francez de Guizot, já fôra despedaçado em Paris

pela revolução (fevereiro de 48); os tempos mudavam, e a atmosphera

adequada ao temperamento do ministro desapparecera. A força das cousas

ordenava-lhe a abdicação, mas o genio rebellava-se-lhe. Como o toiro

que o matador só consegue abater depois de successivas estocadas, mas

que tem na espada o instrumento de uma morte fatal: assim o ministro

ainda marrou, erguendo-se, investindo, appellando ainda para a tribuna,

para as _bernardas_, mas perdendo sempre sangue, esvaindo-se até se

rojar vencido na fria arena das embaixadas.

É mais um dos successivos mortos do liberalismo, este duro beirão de

Algodres. Mas que morte a sua, tão diversa do sacrificio espontaneo do

minhoto, poetico Passos, caminhando para o altar coroado de flôres,

alegre, pacifico, resignado; confessando os seus erros antigos, o

dissipar das suas illusões, negando a verdade dos systemas, a força

dos homens, a vitalidade da patria! É que para dentro de tudo isso o

poeta sentia esperanças novas, para além d’esses dias fugidos, auroras

vagas: ao passo que o politico, uma vez rasgadas as fórmulas, achava-se

perdido n’um vacuo.

LIVRO SEXTO

A REGENERAÇÃO

(1851-68)

I

ALEXANDRE HERCULANO

1.--A ULTIMA REVOLTA

O homem que em 1826 iniciou a historia liberal é o proprio que agora

vae desembainhar a espada para encerrar com uma sedição militar a

serie de _pronunciamentos_ a que temos assistido. As successivas

physionomias politicas de Saldanha são o traço eminente do seu

retrato e do dos tempos em que existiu. Homem sem idéas, os partidos

e programmas são para elle occasiões, e nada mais; e como esses

programmas e partidos nasciam, cresciam, desfaziam-se constantemente,

na atmosphera duplamente movediça de um paiz arruinado e de uma

doutrina inconsistente, o marechal encontrava-se, ao decaír da vida,

tão carregado de annos como de opiniões diversas, sem que os annos

abatessem a sua rija constituição, nem as contradicções podessem

affligir um espirito que, a serio, bem no fundo da alma, só tinha uma

crença enraizada: o catholicismo portuguez, _beato_, quasi fetichista.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 18 / 30 段