Em 1822 vira-se Saldanha applaudir a Constituição jacobina; em 23

recuar, com Terceira e muitos mais, até Villa-Franca, na jornada da

_poeira_, e applaudir a suppressão das côrtes. Em 1826 apparece-nos

proclamando a CARTA, seu ministro, e elevado a conde. É então e

por alguns annos o chefe da opposição ao regente, e isso o affasta

da campanha começada em 32. Nos apuros do Porto vem de Paris; e

successivamente general de um exercito, marquez, dotado com 100 contos

de bens nacionaes, vae pouco a pouco inclinando para a direita, até que

em 1835 preside um ministerio cartista. A corôa conquistou-o. E desde

então começou a pôr ás ordens d’ella a sua influencia e a sua espada.

Conspira em Belem contra os setembristas; subleva-se no anno seguinte.

A constituição de 38 tral-o da emigração ao reino, e até 46 não bole.

No 6 de outubro é porém elle a espada com que a rainha expulsa os

setembristas do governo; e por mais de dois annos, até ao meiado de

junho de 49, é o presidente do conselho cabralista, embora em dezembro

de 47 queira impedir a volta ao reino do eminente chefe do seu partido.

Cedendo-lhe em 49 o governo, virou-se logo contra elle, e d’ahi começou

a guerra declarada que veiu a acabar na Regeneração.

Mas que podia regenerar quem, depois de tantas aventuras, devia

achar-se dorido, e mais ou menos enlameiado depois de tão largas

viagens?

É vaidoso e cheio de si. Demasiado abatido na má fortuna, enfunado e

boiante na prosperidade, e pouco agradecido aos amigos do infortunio.

É mudavel e contradictorio. Está muito velho e russo, e como signaes

de edade temos notado n’elle um pendor e turno decidido para a

mystica, onde parece que acabará como todos os bourbons, nos braços

de uma supersticiosa devoção; e tambem pensamos que se hoje houvesse

frades iria, por imitação do grande condestavel, vestir a roupeta do

Carmello. Montalembert e Valdegamas converteram-no em Paris. Estuda

theologia. (Rocha, _Rev. de Port._ 1851)

O retratista perspicaz, que tão a proposito notava a physionomia de

Saldanha, esboçando-o como um typo medieval, entre barão e monge, não

esquecia, porém, um traço que é commum aos heroes da Edade-media, aos

modernos, e aos de todos os tempos: a necessidade de dinheiro. «Allega

que não póde passar sem vinte contos por anno», (_Ibid._) e as cousas

tinham-no forçado a demittir-se de todos os seus rendosos cargos. Como

viveria sem os vinte contos? Não foi Saldanha o primeiro dos barões

rebellados por dinheiro; mas em caracteres taes, de si confusos, sem

lucidez nos planos e designios, não se póde dizer que o dinheiro seja

o estimulo immediato e directo, como é nos genios frios, politicos, em

que a habilidade predomina.

Com effeito, erraria quem suppozesse o marechal avarento ou sybarita.

Pelo contrario: no fundo tinha uma bondade ingenua e simples que,

misturada com o orgulho balofo, lhe impedia de vêr a realidade das

cousas. Se nem quando o compravam o percebia! Se ingenuamente o

confessava! Ouçamos as suas proprias palavras:

Sou pobre de fortuna, mas rico de amigos. Em dezembro de 49, o conde

de Thomar declarou-me guerra de morte, e dois mezes depois era eu

demittido de todos os meus cargos. Alguns dias passados, procuraram-me

os srs. Silva Ferrão e Tavares d’Almeida dizendo-me que segundo

estava encarregado por alguns amigos de me pagar mensalmente o

equivalente dos meus vencimentos. Uma condição havia n’esta generosa

offerta a que eu me submetti com reluctancia. Era que eu não indagaria

os nomes de quem tão nobremente contribuia. Desde então no primeiro de

cada mez e cebo oitenta e duas libras. (Disc. 26 de março de 51)

Esta simplicidade, esta ingenuidade, esta sinceridade, espantam-nos.

Orgulhava-se de ser pobre, de ter amigos: mas não é verdade que só se

pede para pão? e que, por grande que fosse o clientela de Saldanha,

nunca o pão importaria em tanto? Elle não o percebia: por isso o

confessava; e se a uma compra habil chamava amisade, continuava a

suppôr-se arbitro, quando era cada vez mais aquelle _tronco_ em que

falara José Liberato. Satisfeito, simples, bom, irresponsavel como

uma creança, esfregando as mãos contente, ou quebrando os joguetes,

militares, politicos, nos seus despeitos infantis, o marechal, entrado

na velhice, ia, com a sua espectaculosa espontaneidade, seduzir um

grupo de homens ainda não desilludidos.

A sua vida tinha sido já tão longa e cheia de aventuras e descreditos,

que eram raros os que não tinham tido occasião de o vêr e avaliar por

dentro.

Os antigos _ordeiros_, com Rodrigo á frente, estavam promptos a

seguil-o para confiscar a victoria, fazendo do vencedor a unica cousa

para que servia: um rotulo brilhante de bordaduras e crachás, um

pseudo-chefe de parada, á sombra do qual viveriam, lisongeando-o e

pagando-lhe. Mas teriam os ordeiros, por si sós, força bastante para

mover o paiz contra o tyranno que rematara a sua obra amordaçando a

imprensa? Seria mistér acceitar as offertas dos velhos companheiros

de Paris, a quem Saldanha voltara as costas desde 35, contra quem

combatera: esses setembristas em cujo seio a influencia de José-Estevão

creava um grupo novo, filho da velha-guarda dos Passos, neto da quasi

extincta geração dos _vintistas_? Porque não? Saldanha confundia o seu

despeito com o interesse publico, da mesma maneira que confundia o seu

orgulho com a sua falta de meios.

Tendo-se recusado a acceitar a embaixada de Paris, com que em 49

Thomar pretendia evital-o, (como Rodrigo o evitara em 40, mandando-o

para Vienna) Saldanha, que n’um breve intervallo de ocio se occupara

em Cintra da creação das vaccas de leite (Carnota, _Mem._), depois de

em Vienna se ter occupado da existencia de Deus e da immortalidade da

alma: Saldanha desmascarou breve as suas baterias, pedindo á rainha

a queda do ministerio. Reconheceria elle agora o seu erro de 46?

lembrar-se-hia dos conselhos de Howard: _be cautious_? Veria o papel de

janisaro que desempenhara? Talvez. Arrependia-se, pois; e voltava-se

contra o partido de que fôra a espada. Não se tornava, porém, um chefe

da democracia como até 34, embora tivesse feito as pazes com os seus

inimigos da Maria-da-Fonte. Antas visitava-o; mas quando lhe propoz o

plano de uma sedição _setembrista_, o marechal, affavelmente, rindo,

senhor de si, respondeu que não. Tambem elle tinha a sua revolução, uma

boa, afortunada revolução a fazer: veria! (Carnota, _Mem._)

Que esperanças novas eram essas?

Conquistar um grupo de homens, mais pensadores do que politicos,

liberaes sem serem democratas, cartistas sem serem cabralistas, homens

como Ferrer, Soure, Pestana, no meio dos quaes se destacava o talento

já consagrado de Herculano, com um pensamento de pura liberdade

doutrinaria.

Herculano emigrára, e ouvimol-o chorar na solidão do exilio. Emquanto,

porém, a sua musa lyrica lhe inspirava poesias selladas com um profundo

cunho de sinceridade e belleza, o poeta, homem vigoroso no temperamento

intellectual, portuguez de lei, affirmativo e duro, o inverso do

artista Garrett: o poeta aprendia na mocidade, como Mousinho já quasi

na velhice, os dogmas e principios da crença liberal. A critica de

Kant mostrava-lhe no Individuo um rei, na Consciencia um deus; ao

mesmo tempo que os sabios, com a nova direcção dos seus estudos,

lhe mostravam na tradição e na historia as raizes das sociedades

deploravelmente abaladas pelo jacobinismo. As contradicções que

produziu esta dupla concepção, individualista e social, nunca em

Portugal se manifestaram tanto como no espirito do homem eminente que,

talvez unico, media o valor das doutrinas.

As tendencias eruditas e litterarias do seu genio philosophico

fizeram-no metter mãos á obra do renascimento das lettras portuguezas,

assim que no Porto houve lugar para pôr de lado a espingarda.

Assistira, combatera em todo o cêrco; e, terminado elle, entrou

como bibliothecario da livraria municipal. N’um paiz revolucionado,

a politica é absorvente, e por isso Herculano, ao mesmo tempo que

iniciava os seus trabalhos historicos, acompanhava a agitação dos

partidos. Setembro, isto é, a acclamação do jacobinismo que o

philosopho suppunha para sempre refutado e condemnado, provocou-lhe uma

ira portugueza que se vasou nos threnos biblicos da _Voz-do-Propheta_.

Demittiu-se em 37 para não jurar a constituição de 20; mas dois annos

depois, apaziguada a procella, retirado Passos, restaurada a _ordem_,

reconhece a constituição de 38 e abraça a fusão. Em 40 vae deputado ás

camaras, confiado em que o _liberalismo_ tal como elle o concebia ia

afinal enraizar-se; mas breve se desenganou e sumiu-se. Foi então que

o rei D. Fernando o convidou para bibliothecario da Ajuda, e d’ahi,

afastado, vivendo com os documentos da historia, entregue aos estudos

com uma energia ardente, conquistava a passo e passo o primeiro lugar

entre os escriptores nacionaes do nosso seculo, ao mesmo tempo que lá

por fóra seguia, desorientada e ferina, a procissão das revoltas e o

desvario dos governos.

Em tal estado o veiu encontrar Saldanha, convidando-o a prestar

a authoridade do seu nome e do seu conselho á empreza em que ia

lançar-se.[33] Herculano, como todos os que lidam mais com idéas

do que com homens, era quasi infantilmente ingenuo. Intelligencia

fomalista, não era tampouco dotado da perspicacia que adivinha os

caracteres, deslindando as confusões da inconsciencia alheia, e

definindo com clareza as situações. A sua imaginação poetica viu

no marechal um penitente de antigos erros, a sua nobreza ingenita

viu uma dedicação nobre; e o seu patriotismo e a sua doutrina viram

tambem chegado o momento da paz, da ordem, da organisação definitiva

do liberalismo. Entregou-se todo, de corpo e alma, e abriu as portas

da sua casa da Ajuda ás reuniões dos conjurados. Alli se pactuaram

as reformas urgentes que o marechal realisaria assim que tornasse

vencedor: as eleições directas, a abolição da hereditariedade nos

pares, a dos vinculos gradualmente convertidos em pequena propriedade

emphytheotica. Herculano exigiu que tudo se fizesse com gente _nova_,

excluindo os velhos todos, «de outra fórma seria o mesmo que d’antes»;

exigindo para si que o não fizessem ministro. Trabalharia, ajudaria

com o seu conselho, mas para governar «não tinha queda». Saldanha,

provavelmente sincero, applaudia, enthusiasmava-se, obedecia, promettia.

* * * * *

No dia 7 de abril de 51 saiu Saldanha para _fazer a revolução_ no

Porto. Mas o governo, sem força para o prender, seguia-lhe os passos e

machinações. A _revolução_, como invariavelmente succedia, devia ser

o pronunciamento da tropa; porém Saldanha viu com magua quanto havia

descido, pois nem os commandantes nem os officiaes se prestavam a

acompanhal-o. Os progressistas do Porto consideravam tudo perdido, e o

marechal fugia tristemente para Hespanha, indo parar a Lobios aquelle

que para ahi mandara em 28 o seu exercito. Já estavam presos na Relação

os officiaes conjurados, e Victorino Damasio, antigo soldado da JUNTA,

engenheiro emprehendedor que ficara no Porto creando fabricas; Damasio,

appellando para os sargentos, e vendo que o governo tambem os prendia,

appellou para os cabos: appellaria para o seu regimento de operarios em

ultima instancia! Não foi necessario, porque com chaves falsas forjadas

no Bolhão, introduziu Salvador da França no quartel de Santo-Ovidio, e

os cabos e soldados do 18 proclamaram a _Revolução_. (Delgado, _Elog.

hist. de J. V. Damasio_) Saldanha regressou, e, com a tropa atraz de

si, foi sobre Coimbra.

De Lisboa para Coimbra tambem saíra o generalissimo D. Fernando com

tropa atraz; mas, quando tinha de atravessar a ponte do Mondego, achou

uma tranca passada de lado a lado e os estudantes que lhe seguraram as

redeas do cavallo, mandando-lhe tirar o chapéu e dar vivas ao Saldanha.

O rei, que era a urbanidade em pessoa, não podia recusar-se, e fel-o;

retirando logo para Lisboa a contar a tranca da ponte, e a reclamar a

queda do ministerio. Ministerios e partidos valiam acaso o trabalho

de partir por meio um madeiro? Não valiam; ninguem já tinha força

para cousa alguma. Derreados e desilludidos, todos, no aborrecimento

universal, admittiam tudo, e tinham razão para isso. O maior crime do

conde do Thomar era desconhecer o tempo de agora, querendo usar da

força contra uma resistencia pastosa e molle. Raivoso e desesperado,

quando viu chegar D. Fernando no seu cavallo a passo, e opinar pela

queda do ministerio com a voz fanhosa e arrastada com que dera os vivas

ao Saldanha; raivoso, «a gente do paço dizia que o conde do Thomar

chorara grossas lagrimas e com as suas mãos labregas se agarrara ao

puro manto da rainha: valha-me senhora! proteja o seu fiel ministro!»

(Rocha, _Rev. de Port._) Não é natural que a rainha costumasse andar

por casa de _puro manto_, embora seja de crer que o ministro apellasse

para aquella que tanto lhe devia, que chorasse de raiva observando as

deserções rapidas dos homens que elle tirara do nada. Se até o proprio

irmão, o José-dos-conegos, se voltou contra elle no dia em que Saldanha

se bandeara!

Teve do fugir outra vez, e o duque da Terceira occupou-lhe o posto

(26 de abril) conservando o ministerio decapitado. Era a esperança do

manter o partido, sacrificando o chefe? ou o conde de Thomar pensava

em ir repetir a campanha diplomatica de 46, e pedir aos seus amigos

de fóra que o viessem restaurar? Esses amigos, porém, tinham caído. O

doutrinarismo morrera com Guizot em fevereiro de 48, e já não havia

miguelistas. Taes fortunas não se repetem na vida: d’esta vez a quéda

era para sempre. O doutrinarismo, dissemos, morrera em 48, e a França

vivia ao tempo sob o governo republicano: iria pois haver uma republica

entre nós? Não faltava quem o desejasse: Sampaio e José-Estevão, Cazal,

Braamcamp, Nazareth--os homens novos do velho setembrismo. Portugal,

porém, caminhara mais depressa do que a França: a republica de 48

tivera-a em 36, e o imperio de 52 vinha sendo reclamado desde 49: era

a traducção real da palavra nova, REGENERAÇÃO. Rodrigo era um Morny,

beirão e burguez. Que motivo havia para este nosso adiantamento? Um

motivo evidente e simples: a superior consistencia social da França,

a nossa extrema miseria, a nossa fraqueza singular. O principio

do individualismo anarchico e liberal, destruidor do passado e da

tradição, creador de uma nova classe de ricos saídos da concorrencia,

tinha de acabar n’um scepticismo systematico e n’uma confissão formal

da idolatria da Utilidade, depois de ter percorrido o circulo de

experiencias e ensaios possiveis dentro das fórmulas, e depois de ter

demonstrado o vazio de todas ellas. N’um paiz caduco, essa evolução

fazia-se muito mais rapidamente: por isso era já impossivel saír do

doutrinarismo para o idealismo republicano, como em França; por isso

os moços republicanos como José-Estevão adheriram á _regeneração_,

proclamando a necessidade de _melhoramentos materiaes_; (Oliveira,

_Esb. hist._) por isso Rodrigo, um precursor, batido por um intruso em

42, ia vencer definitivamente em 51.

2.--O FIM DO ROMANTISMO

Na capital havia uma anciedade singular pela volta do triumphador.

Tinham-lhe mandado vapores, para elle com a sua gente vir do Porto,

e cada qual fazia o possivel para o conquistar para si. Choviam as

cartas. Os ordeiros pediam-lhe prudencia, Antas pedia-lhe audacia:

«Ponha de parte todos os obstaculos: colloque-se na situação de um

chefe revolucionario». (Carta de 5 de maio; em Carnota. _Mem._)

No paço, D. Fernando chorava--porque? e a rainha anciosa entrevia

a possibilidade de uma abdicação forçada. Que faria Saldanha?

Deixar-se-hia seduzir pelas acclamações de regente que a turba lhe

ia dar ao desembarque? Outros temiam uma traição palaciana para

o abafar, matal-o--quem sabe? A rainha em pessoa era forçada a

escrever-lhe, protestando a sua lealdade. (V. a carta em 8 de maio;

em Carnota, _ibid._) Uns aconselhavam-lhe que não desembarcasse no

Terreiro-do Paço, que fosse á Pampulha--os vivas eram perigosos! outros

aconselhavam-lhe Cascaes: havia machinas armadas para o matar! Este via

a esquadra franceza apresando os vapores na costa, aquelle os navios

inglezes apresando-os no Tejo: venha por terra! E o proprio Herculano,

assustado, lhe escrevia: «Marechal! marechal! lembre-se de que a sua

vida, a sua salvação, a sua liberdade, são a vida, a salvação e a

liberdade do paiz!» (V. a carta; _ibid._)

A entrada de Saldanha em Lisboa (15 de maio) foi um triumpho. Tomou

posse do governo, e o rei entregou-lhe o bastão do commando-em-chefe.

Contente, radiante, Saldanha despicara-se. A rainha em pessoa, no

theatro, teve de acclamar, de pé na sua tribuna, o--mais uma vez--rei

de Portugal. Chamavam-lhe de novo D. João VII. E o bom do marechal

acreditava-se ingenuamente um Augusto, vencedor de Lepido Cabral e de

Antonio-Passos, dos cartistas e dos setembristas, fundador do novo

imperio _regenerado_. Em vão Terceira e José Cabral, no club da rua

dos Mouros, palacio do Galvão, projectavam restaurar a CARTA pura de

cabralismo, tentando sublevar a guarnição de Lisboa. (18 de maio)

Saldanha tinha-se compromettido a abandonar ao seu descredito os homens

velhos, a consolidar com gente nova a paz dos partidos; e no primeiro

momento, afogueado com a sinceridade satisfeita de vencer, implorava

de Herculano que acceitasse a pasta do Reino, ao que o escriptor

terminantemente se oppoz, ficando de fóra como um conselheiro dedicado,

leal e convicto. Soure e Pestana de um lado, Atouguia pelos ordeiros,

Franzini _preenchendo_ as finanças pelos cartistas, e Loulé por parte

do setembrismo: eis o ministerio que havia de regenerar a nação,

convocando uma camara que fosse a _legitima_ representante da vontade

do paiz.

Mas, na commissão da lei eleitoral debatia-se um problema grave:

teriam, não teriam voto os guardas do tabaco? Continuaria, não

continuaria a ser o _contracto_ (inteiramente affecto ao _ordeiro_

Rodrigo, ainda de fóra) um poder do Estado? um patrono da URNA?

Fontes, homem novo, de instinctos imperiaes, amanhados por seu mestre

e protector Rodrigo, era pelos guardas, a que se não podia negar o

direito de cidadãos, etc.--discursos e phrases que irritavam Herculano

e o levavam a protestar desabridamente contra a falta de brio da

mocidade. O ingenuo philosopho appellava ingenuamente para Saldanha,

agradecido ao favor de amigo, com que, em confidencias intimas, o

marechal lhe contava os embaraços da sua bolsa.--E se mettessemos o

Rodrigo? dizia Saldanha; e Herculano respondia que sairia elle, pois

seria continuar a vida antiga, quando o seu proposito era crear uma

vida nova de liberdade, sinceridade, honra, brio, e nobreza moral.

O marechal applaudia, abraçava-o; e no dia seguinte voltava: «E se

mettessemos o Rodrigo?»--contando mais uma vez os apuros em que se

achava e os embaraços crescentes cada dia.

Herculano começou a reparar, a meditar, e descobriu por fim a razão das

confidencias e perguntas insistentes. Era um Portugal regenerado, era,

mas havia modos varios de conceber a regeneração; e Saldanha debatia-se

entre o modo de Herculano que inspirava o ministerio, e o modo de

Rodrigo, modo pratico e politico, que se propunha substituil-o e o

havia de conseguir. Estavam pelo seu lado a fraqueza podre de todas as

clientelas, a anemia da nação exhausta por uma serie de catastrophes, a

começar da primeira, a vinda dos francezes. Chegara o dia da victoria

do scepticismo antigo, e do utilitarismo moderno. Rodrigo e Fontes, um

velho e um moço, duas faces de um só pensamento, mestre e discipulo, o

antigo letrado _rabula_ e o novo engenheiro habil, janota e pratico,

são as figuras eminentes da definitiva regeneração. (Min. de 7 de julho)

O breve intervallo de uma esperança de reforma moral terminava.

Saldanha voltava á realidade. «A sua bondade levou o a crêr na

santidade dos homens e na possibilidade de formar um governo de anjos»,

dizia Algés (V. Carnota, _Mem._) que não era nenhum anjo, applaudindo

a isenção com que o marechal saccudira a tyrannia. Levado pela mão

de Rodrigo, respirava bem, porque só o adulavam, não o importunando

com exigencias estoicas. A Regeneração foi o ultimo acto de Saldanha,

porque o seu 19 de maio (1870), _saldanhada_ por excellencia, é um

episodio da senectude, só proprio para demonstrar a cachexia politica

da nação. Já ocioso no governo, o marechal pôde mostrar que tambem

se _regenerara_, quando caíu do poder em 56. Entregou-se a outras

batalhas: e o que fôra bandeira de revoluções passou a rotulo de

companhias. (_Luso-Hespanhola_, _Guano chimico_, _Minas de Leiria_)

Boiara sempre á mercê dos acontecimentos: eram elles que o levavam para

o campo das contendas. Assim como sonhara sempre com a pompa clamorosa

e balofa, assim agora, acabando, sonhava fortunas, dividendos, riqueza

para toda a sua familia de pedintes: «Não haverá parentes pobres!»

(Carnota, _Mem._) O bom marechal não era cubiçoso: era apenas simples.

Simples no gabinete, simples no escriptorio das emprezas, simples na

carteira do escriptor: depois da Fé, entregara os ocios á Pecuaria;

e por fim acabou na Homœopathia, vencedor do dr. Bernardino. (1858)

Castilho, com a sua lisonja ironica de litterato, escrevia-lhe:

«Adeus, meu caro Achilles; guerreiro, medico e escriptor a um tempo:

porém Achilles banhado na preciosa agua da vida desde a cabeça até ao

calcanhar--inclusivamente». (V. carta; _ibid._) Ingenuo, o marechal

tomava-se sempre a sério. Não é triste vêr assim escarnecida a figura

de um como que heroe, pela gargalhada perfida do litterato?

Saldanha acabou. Voltemos á Regeneração.

* * * * *

Publicado o Acto addiccional, não se boliu mais na constituição;

ficaram em paz os pares, os vinculos, o Contracto. Já em 32 tinham

escapado, sem se saber como, á furia de Mousinho: salvavam-se agora

milagrosamente das ameaças de Herculano.

O excentrico, sem ambições, voltou aos seus estudos. Ainda em 56

o vemos inscripto no centro eleitoral progressista, mas as suas

esperanças poeticas morreram. Como não chegara a governar, como não

vira desmanchar-se-lhe nas mãos a sua chimera liberal, ficou pensando

que a liberdade era excellente, apenas detestaveis os seus sacerdotes.

Como vinha depois do cartismo e do setembrismo, como aprendera com a

queda de Guizot e com os desvarios da segunda republica franceza, a sua

intelligencia descobria lhe respostas e emendas a todos os erros, pois

a doutrina que chegou a conceber e formular trazia raizes de varias

origens. Era radical como kantista, era municipalista como erudito, sem

ser democrata, mas tendo laivos de socialismo pratico: era sobretudo a

concepção de uma sociedade de estoicos, á imagem do caracter do que a

formara. Era a condemnação do materialismo pratico, do scepticismo: a

condemnação d’esse movimento em que entrara, por não ter a perspicacia

bastante para ver que a nação pedia exactamente o inverso do que elle

queria dar-lhe. Portugal já não tinha nervos para ser nem virtuoso, nem

doutrinario de especie alguma.

E o philosopho, voltando aos seus estudos, levou a sciencia d’este

facto, que mais ainda o empedernia no fanatismo da sua opinião. Sem

o temperamento poetico e doce de um Passos, a sua descrença não se

traduzia em perdões humanitarios, formulava-se em sentenças terriveis;

e mais forte, intelligente e sabio do que o democrata, o desmanchar das

suas esperanças não destruia a sua convicção no valor dos systemas e

idéas. A singular physionomia de um homem que de fóra da vida publica

tanta influencia exerceu sobre ella, ha de obrigar-nos e estudal-o no

seu exilio voluntario.

Escarmentado pela maneira por que fôra illudido a sua colera rompeu

violenta nos dias immediatos á verdadeira Regeneração:

A historia politica é uma serie de desconchavos, de torpezas, de

inepcias, de incoherencias, ligadas por um pensamento constante,--o de

se enriquecerem os chefes do partido. Idéas, não se encontram em toda

essa historia, senão as que esses homens beberam nos livros francezes

mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-heis progressistas, ámanhan

reaccionarios; hoje conservadores, ámanhan reformadores: olhae porém

com attenção e encontral-os-heis sempre nullos. (_Paiz_, 29 de outubro)

Esta condemnação formal dos homens, de todos os homens, exprime a

misanthropia do que não entende nem obedece á corrente fatal que

arrasta a sociedade:

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 19 / 30 段