A procella descia pelo Alemtejo com a divisão de Sá-da-Bandeira que

a 9 de abril se juntava em Setubal ás tropas do conde do Mello, do

Galamba, a todas as guerrilhas do sul, para virem, reunidos, conquistar

Lisboa. Em Setubal, o Logar-tenente da JUNTA (assim se intitulava

Sá-da-Bandeira) formava uma especie de governo: Braamcamp era o

secretario civil, Mendes Leite tinha a Marinha, José Estevão dizia-se

Quartel-mestre general. (_Elog. hist. de Braamcamp_, do a.) Em Lisboa

os ministros, attonitos, correram a Seymour implorando soccorro; e elle

de accordo com o ministro hespanhol que tinha no Tejo tres centenas

de homens, prometteu defender a rainha n’esse dia 11, aprazado para

a chegada da patuléa a Almada. (Seymour a Palm. 9 de abril) A força

das cousas transtornava os planos da Inglaterra; o setembrismo vencia

mais uma vez a _ordem_ e as suas combinações; e as potencias viam-se

obrigadas a fazer uma nova belemzada.

E Sá-da-Bandeira porque não chegava no dia 11 aprazado? Porque elle, o

infeliz homem de bem, achava-se outra vez na triste situação de 37, á

frente de uma revolução para a moderar. Porque via perdido todo o seu

improbo trabalho de 38. Porque media as consequencias da sua entrada

em Lisboa. Porque não queria, elle o monarchico leal, o sincero amigo

do povo, ser o instrumento da anarchia destruidora do throno, o orgão

da plebe acclamada. Porque, finalmente, sabia os planos combinados

para lhe facultar a entrada na capital,--planos tristes, deploraveis.

Haveria tumultos de noite, lançar-se-hia fogo a diversas casas e

arrombar-se-hiam as cadeias, soltando-se os presos. As prevenções

estavam, porém, tomadas: quando o castello desse tres tiros, as tropas

inglezas e hespanholas desembarcariam. Não tiveram de o fazer, porque

os sediciosos temeram. Apenas no Terreiro-do-Paço brigaram soldados com

officiaes, indo sessenta presos para o Bugio e um cadaver para a cova.

Almada estava já fortificada e D. Fernando, generalissimo, arrastava

melancolicamente a sua espada de Lisboa para a Outra-banda, aborrecido,

descontente do seu emprego de rei em uma nação tão pouco ajuizada, tão

mesquinha e miseravel. Dias depois houve um tumulto em Cintra, mas

já Vinhaes ao sul do rio guardava a capital; e se não fosse batido,

o perigo immediato estaria conjurado, a não ser o perigo constante

do espirito sedicioso de Lisboa. Contra a cidade, contra o caso da

victoria de Sá-da-Bandeira, para o salvar a elle e á rainha, havia

porém sempre o ultimo recurso: as forças anglo-hespanholas fundeadas no

Tejo. (Seymour a Palm. 14-16 de abril)

Mas, no acume da crise, abandonava-se o plano dos soccorros hespanhoes?

socegava o conde de Thomar em Madrid, esquecendo os delegados que

tinha em Lisboa? Não. Insistia cada vez mais, patenteava o horror das

consequencias, e obtinha por fim a ordem de marcha de um exercito

de doze mil homens para a fronteira, prompto a transpol-a para

embargar a marcha da patuléa sobre Lisboa. E que fazia o delegado

de Palmerston? Desde que a Inglaterra reconhecera a existencia do

tratado de 34 e o principio da intervenção--embora não reconhecesse a

opportunidade--a força das cousas obrigava-a a seguir a Hespanha, só

lhe consentia moderar-lhe os impetos. Foi isso o que fez. Bulwer em

Madrid conseguiu que a Hespanha enviasse um emissario a Sá-da-Bandeira

com um _ultimatum_, e que se esperasse o resultado d’essa tentativa

para proceder ou não á intervenção armada. Com o marquez de Hespanha,

enviado, veiu da embaixada ingleza Fitch por parte do seu governo

com instrucções de que «folgaria que a sua linguagem fosse mais para

aconselhar do que para ameaçar: porém até a ameaça póde ser empregada

com delicadeza». (Bulwer a Palm. 19)

Entretanto, o embaixador inglez de Lisboa procurava fazer acceitar as

bases de conciliação propostas por Palmerston, mas batia em vão na

teima do governo. (Seymour a Palm. 16) Corajosamente, o cabralismo

debatia-se contra a guerra civil, contra a protecção falsa dos

inglezes, promptos a defender a rainha, sob condição de condemnar o

systema e os seus defensores. Restava porém a estes a Hespanha--e

a rainha em pessoa que não queria ser defendida, sendo ao mesmo

tempo humilhada; restava-lhes a capacidade do chefe, a cohesão dos

partidarios, a timidez de inimigos temerosos de vencer, e o panico de

uma perspectiva de restauração miguelista ou de desordens setembristas.

* * * * *

No dia 29 Lisboa presenceou um ensaio d’essas scenas previstas: era o

plano forjado para 11 e que fôra adiado. Ao caír da tarde, pelas cinco

e meia abriram-se as portas do Limoeiro e os presos saíram em columna,

com populares, direitos ao castello, para o tomarem. Eram seis centos,

e vendo-se recebidos a tiro, fugíram. Repellidos do castello, bandidos,

vadios e politicos, espalharam-se em grupos por toda a cidade. Houve

durante uma hora combates nas ruas. As casas fechavam-se, os habitantes

recolhiam-se; fortes patrulhas circulavam e D. Fernando, arrastando a

sua espada, era apupado. A bordo dos seus navios, o almirante Parker

tinha já as guarnições formadas, promptas a desembarcar. Viera a noite,

a fusilaria continuava, não já em combates, mas na caça dos presos

fugidos, dos quaes trezentos (sobre um total de 1:014) conseguiram

evadir-se para os arrabaldes, sumindo-se. E d’este bello ensaio de

revolução _democratica_ ficavam mortas oitenta pessoas, diz para

Londres o ministro inglez; oito ou dez, accusa o _Espectro_.

Qual acerta? Pouco importa. O grave é que Sá-da-Bandeira de certo não

podia querer vencer, para ser vencido pelos bandidos ou por quem os

soltava. Por isso, embora jámais o confessasse, é mais do que seguro

acreditar que a chegada dos emissarios da Hespanha e da Inglaterra lhe

tirou um grande peso de cima do coração. Perdeu 500 homens na acção do

alto do Vizo, o general setembrista; mas o _veto_ que os emissarios

pozeram á sua marcha valia para elle muito mais. Já entre Fitch, o

marquez de Hespanha e o governo de Lisboa (que mudara de pessoal, sem

mudar de politica) se assignara o protocollo de 28 de abril, estatuindo

a amnistia como condição de paz e impondo um armisticio.

A campainha diplomatica do conde de Thomar em Madrid conseguia uma

victoria, porque, embora cedesse a amnistia, ganhava o essencial, que

era a CARTA, obrigando a Inglaterra a desistir das suas pretensões

_ordeiras_. O doutrinarismo vencia, depois de intricadas complicações;

e o partido de 38, com o seu chefe Rodrigo, via perdidas as esperanças

de herdar o governo, batendo com a Inglaterra cartistas e setembristas,

Lisboa e Porto, a corôa e a JUNTA.

Esta, porém, onde os elementos democraticos dominavam, recusou-se

a aceitar as condições do convenio; disposta a ceder, sim, mas sem

mentir ás patentes que distribuira a miguelistas e patuléas, ás medidas

fiscaes que tomara. O seu exercito estava de pé, não fôra batido: mas

quereria o outro general, Antas, leval-o á guerra? Era isso o que as

cabeças exaltadas reclamavam--uma loucura. Ainda antes de ter chegado a

acta do protocollo finalmente assignado em Londres (21 de maio) para a

intervenção combinada das potencias signatarias do tratado de 34, já em

Lisboa Seymour e Ayllon, de mãos dadas, tinham resolvido mandar para o

Porto navios, afim de impedir um derramamento inutil de sangue.

Porém os navios anglo-hespanhoes não impediam o general do Porto

de levar a expedição por terra, se acaso elle tambem não desejasse

sobretudo vêr terminada a arriscada empreza em que se mettera. Por

isso embarcou para ser aprisionado, conforme contámos. De que valiam,

depois, as reclamações e os protestos, senão para mascarar a quéda

com uma certa dignidade apparente, e manter no animo dos ingenuos a

idéa de que se obedecera á fatalidade da força? senão para conservar

de pé a accusação de extrangeira, contra uma côrte que, vencida em

Belem, realisava agora o seu plano, _escravisando o povo_ com as forças

inglezas e hespanholas? Taes palavras serviriam para as campanhas

ulteriores da politica, mas não têem valor para a historia. Caíndo, a

JUNTA sabia muito bem o motivo porque caía, e não se lhe dava de acabar

assim. Que estimaria mais as primeiras condições inglezas, é fóra de

duvida; mas que preferisse á intervenção a guerra e a propria victoria,

é o que não é licito acreditar perante o procedimento dos seus chefes.

Os inglezes occuparam a Foz, os hespanhoes o Porto, e a 24 de julho

estava tudo acabado pela convenção de Gramido.

Da JUNTA dissolvida nada restava. Saldanha e os cabralistas continuavam

a governar com a CARTA. O Porto vira nos dois irmãos Passos as duas

faces da physionomia espontanea e popular da revolução: em um a

poesia minhota, em outro o genio burguez antigo. O poeta voltava para

casa chorando: chorando assistira á entrada de Concha. O burguez,

pomposamente, declarava ser necessario morrer! E morreu, veiu a acabar,

mas demente, dezeseis annos mais tarde. O leitor não carece de que se

lhe explique, nem a rasão das lagrimas, nem a causa da demencia. Viu

como as folhas caíram (1842): depois d’esse outomno chegou o inverno

frio e morto ...

NOTAS DE RODAPÉ:

[32] Duas palavras de despedida a esse homem que desappareceu da scena

(13 de setembro de 1882) em que por trinta annos representou o papel

de guardião do partido regenerador. Curado tambem dos romantismos

democraticos, resurgiu em Sampaio a sua primitiva educação fradesca.

Era na figura e na bonacheirice um velho portuguez: tinha o ventre

nacional e no estylo dos seus artigos lardeados de latim um tom de

sermão. Na mocidade chegára a prégal-os (T. de Vasconcellos, _O Sampaio

da Revolução_), e as reminiscencias não se apagam assim! Varrida a

illusão revolucionaria, ficou-lhe a _vis_ sarcasticamente plebéa com

que atacava os adversarios á direita e á esquerda, sem consciencia

nem fé, só por politica, nas questiunculas pessoaes dos partidos. Foi

o José-Agostinho do liberalismo, com menos talento do que o frade.

Via-se-lhe no estylo a tonsura e ferula do antigo mestre de latim. Uma

das muitas arbitrariedades da tyrannia miguelista lançou-o para o lado

dos liberaes, abrindo um parenthesis de vinte e tres annos (1828-51)

no desenvolvimento logico da sua personalidade. Tornou ao que fôra,

vestindo a farda depois de ter deixado a sobrepelliz. Dizem que acabou

dizendo assim: «Salvemos a monarchia ... Quero ver as _provas_». Acabou

como devia, pensando na imprensa que o fizera gente.

IV

OS IMPENITENTES

1.--O CADAVER DA NAÇÃO

Voltara a paz, e para que o leitor não proteste contra as côres

funebres com que pintámos a guerra, seja-nos licito transcrever aqui a

opinião contemporanea de um dos nossos mais levantados espiritos:

Hoje (1849) nos achamos entre um passado impassivel (depois das leis

de Mousinho) entre um futuro tremendo porque é obscuro, insondavel

e de nenhum modo preparado, e com um presente tão absurdo, tão

desconnexo, tão incongruente, tão chimerico, tão ridiculo emfim,

que se a perspectiva não viesse, como vem, tão cheia de lagrimas,

seria para rir e tripudiar de gosto, ver como vivemos, como nos a

tributamos, como nos administramos, como somos emfim um povo, uma

nação, um reino! (Garrett, _Mousinho da Silveira_)

Voltara a paz, dissemos. Era chegado o momento de encarar de frente

a situação do enfermo, que parecia mais incuravel depois do ultimo

accesso. Extenuado, jazia exangue, não diremos nas vesperas da morte,

porque o seu existir já não se podia chamar vida. As nações, como

os individuos, tambem pódem arrastar-se vegetando, sem propriamente

viverem. A guerra acabara, não ha duvida, mas faltava ainda liquidar a

crise, e como a paz não significava abundancia, mas sim a continuação

da miseria, continuava a mesma indecisão das medidas, ora dirigidas

a manter o credito das notas, ora a sacrifical-as ás necessidades

do Thesouro. O ministerio nomeado depois da paz reage contra as

resoluções tomadas n’este ultimo sentido, e restabelece a proporção de

metade apenas em dinheiro nos pagamentos do Estudo. A causa do agio,

diz, fôra a guerra e a excessiva procura de moeda metallica para o

exercito; mudaram as circumstancias e o augmento na relação das notas

nos pagamentos concorrerá para diminuir o rebate. (Decr. de 11 de

setembro) Mas o problema era mais complicado, as causas mais profundas,

e tres mezes bastam para que esta doce illusão se dissipe. A loteria

das suas esperanças ficava em papel; e nem por se ter acabado a guerra

podia apparecer dinheiro, porque o não havia em casa, nem de fóra

ninguem o daria, quando os juros da divida estavam por pagar. Tres

mezes bastam, dizemos, para convencer de que o unico meio de resolver

a questão é supprimil-a, por meio de banca-rota declarada. Tire-se ás

notas o caracter de papel-moeda; negue-lhes, por uma vez, o Estado a

sua garantia; declare que as considera um papel commercial, cotavel,

e já não fará mais do que reconhecer o facto nas relações privadas,

augmentando as receitas publicas insupportavelmente amesquinhadas

pelo rebate d’aquella parte, o terço ou metade, realisada em notas.

Os decretos de 9 e 14 de dezembro fizeram com effeito isto. Largas

considerações, meritorias por serem sensatas, francas e verdadeiras,

justificavam a medida que abolia o curso-forçado, retirava a garantia

do Thesouro e o caracter de moeda a umas notas que o banco já não podia

ser compellido a converter á vista, o que seria obrigal-o a fallir,

por isso que a sua amortisação fôra anteriormente pactuada por meios e

fórmas varias. A contar de 20 de dezembro as notas poderiam entrar por

metade nos pagamentos ao Thesouro, mas não pelo valor nominal, só pelo

valor real, segundo as cotações da bolsa.

Esta banca-rota positiva, mas opportuna e inevitavel vinha consummar

a ruina da circulação fiduciaria portugueza, augmentando os embaraços

de uma nação desprovida de capitaes circulantes e por isso mais

necessitada de inventar um instrumento artificial de circulação que

pudesse substituir a moeda escassa. Mas, para que os artificios

sirvam, é sobretudo mistér juizo, prudencia, e paz, cousas que nós

desconheciamos.

* * * * *

A revolução e a guerra, deitando por terra o castello de cartas da

agiotagem cabralista, tinham arruinado comsigo, na queda, a circulação

fiduciaria portugueza. Era mais um passo andado no caminho de uma

decadencia economica, declarada desde o principio do seculo, e que

até agora o liberalismo não conseguira corrigir. As estatisticas do

commercio (V. _Mappas geraes_, 1848) demonstram-no de um modo eloquente:

_Exportação_ _Importação_ _Somma_

1801 (contos de reis) 25:104 19:337 44:441

1816 » 16:178 17:870 34:048

1830 » 10:468 12:955 23:423

1844 » 6:580 9:826 16:406

1848 » 8:543 10:806 19:349

Depois da primeira data, vem a invasão franceza e a franquia do

Brazil ao commercio extrangeiro; depois da segunda, a separação e

independencia da nossa colonia; depois da terceira, as revoluções

liberaes e a anarchia constitucional: eis as causas successivas de

empobrecimento. Agora começava a soprar uma aragem, prenuncio de

melhores tempos: viria uma regeneração? Ainda era cedo para o crer,

tanto mais que a França, infelizmente mestra dos nossos homens, ia

lançar-se n’uma aventura democratica, fazer a sua revolução-de-setembro

(em fevereiro), proclamando a republica. Não faltava entre nós quem

suspirasse por ensaiar esta ultima definição verdadeira, absoluta do

liberalismo, depois de desacreditadas as anteriores e successivas.

Não crescia, caía todos os dias o commercio externo, metro seguro da

prosperidade de um povo culto. Mas augmentava sempre, assustadoramente,

a divida contrahida para ensaiar, com intrigas e revoltas, essas varias

fórmas da doutrina. E a divida crescia, porque os ensaios, arruinando

internamente a nação, não consentiam que os seus redditos augmentassem.

O imposto não dava:

_Decima_ _Decima_ _Directo_

Fabricas industrial predial em geral

1838-9 (mil reis) 4733 210:251 976:274 1.347:547

1841-2 » 3803 234:231 937:216 1.416:338

1846-7 » 3556 214:669 945:853 1.378:990

1849 » 3816 214:409 945:391 1.377:536

1850 » 3771 225:146 958:709 1.411:437

Já appareciam as observações retrospectivas e confissões sinceras

dos males accumulados. Eram reconhecidamente muitos: os erros

administrativos e financeiros, as eleições corruptoras ou barbaras, as

sociedades secretas, a licença da imprensa, os excessos da tribuna, e

sobre tudo a mendicidade dos empregos: «as guerras civis de Portugal

são evidentemente as guerras dos empregos publicos». (_Autopsia dos

partidos politicos_, op. anon.) São, nem podiam ser outra cousa, porque

o communismo burocratico substituira o monastico, no regime de uma

nação cachetica:

N’esta babel em que vivemos, tudo passa inapercebido, no meio da

confusão de todo o pensar e sentir. Esta é a terra classica da

ingratidão regada pelo Lethes do Desmazelo e do Não-se-me-dá, da mais

estupenda caducidade em que póde caír um povo. (Garrett, _Mousinho_)

Não-se-me-dá é a expressão natural dos pobres que nada teem a perder,

e por isso a ninguem se lhe dava que as cousas caminhassem para uma

banca-rota, já desde 38 considerada inevitavel, e util pelos que

propunham o _ponto geral_. Não se descobria, com effeito, o modo de

solver encargos progressivamente crescentes, perante recursos, ou

paralisados ou decadentes. O governo confessava o deploravel estado

das cousas, (V. o relatorio notavel do min. Falcão; março de 48) e os

observadores comparavam os numeros e apertavam a cabeça com as mãos,

vendo a perdição irremediavel. (V. _Autopsia_, etc.)

Em junho de 33 a divida era de 16:868 contos

e pelo orçamento de 45-7, accrescentada

pela emissão recente de inscripções, de 87:579 »

Augmentara em 13 annos, a razão de

quasi 5:500 por anno 70:711 »

Quintuplicara, e para que? para ensaiar systemas, matar gente com

revoltas, e pauperisar cada vez mais o reino. E além d’essa divida,

havia a mais a fluctuante, em mais de dez mil contos que dariam o

dôbro, expressos em titulos _fundados_. E não se contava a divida

_mansa_; e os bens nacionaes vendidos tinham ainda assim produzido

cerca de vinte mil contos, e ás classes activas devia-se mais de um

anno, ás inactivas quasi dois, apesar das decimas, das capitalisações e

dos pontos anteriores successivos. (_Autopsia_, etc.)

* * * * *

Como se havia de existir, com uma fome assim? Londres renegara-nos. Os

tempos dourados de Mendizabal-Carvalho não tornavam. O paço dos judeus

inglezes, o Stock-exchange, dera-nos com as portas na cara, não nos

julgando crédores da honra de sermos apresentados e cotados. Valiamos

nada.

Seria interessante saber se no meio da penuria, da anarchia e da

guerra, a população crescia. Não espantaria que crescesse, pois a

indigencia é prolifica, pois a legislação reduzira o numero dos

celibatarios, pois as guerras eram mais vergonhosas do que propriamente

mortiferas. Mas os subsidios faltam, e os poucos existentes merecem

pequeno credito. (V. Luis Mousinho, na ref. admin. 1836; C. Adriano da

Costa, _Rev. de Recens._ 1838; _Relat._ do minist. do reino, 1849 e 50)

1836 1838 1849 1850

(fogos) (habit.) (habit.) (habit.)

Minho 204 803 850 856

Traz-os-Montes 76 297 308 309

Beira-Alta 208} 1067 1139 1131

Beira-baixa 24}

Estremadura 177 668 748 748

Alemtejo 70 264 290 285

Algarve 30 125 139 142

---- ---- ---- ----

Milhares 789 3224 3474 3471

---- ---- ---- ----

A dar authoridade a estes numeros, conclue-se que a população crescera

duzentos mil habitantes em quatorze annos, ou a razão de 6,5 por mil ao

anno. A comparação dos recenseamentos de 1826 (No _Almanach de Lisboa_)

e de 1838 apresenta um progresso quasi egual, (3:013--3:224, augm. 210)

mas a estatistica d’esses dois annos contradiria o resultado observado

acima no periodo posterior ao segundo, (V. _Quadro_, no _Diario_, 21 de

abril de 40)

_Nascimentos_ _Obitos_ _Casamentos_

1826 102:037 66:410 21:433

1838 99:097 67:541 23:598

porque, ao passo que em 26 ha uma sobra de (102-66) 36, em 38 essa

sobra é de (99-67) 32 apenas: a mortalidade seria no primeiro caso de

menos de 66 p. 100 da natalidade e no segundo de quasi 67.

Mas seria perdermos o tempo architectar hypotheses sobre alicerces tão

falliveis e grosseiros. Chama-nos a conclusão d’esse balanço economico

do paiz para um calculo interessante do custo da sua ultima revolução.

(V. _Diario_ de 8 de junho de 47)

_Perdas de credito_

Fundo de 5 p. 100: 19:361 c. de 74 a 50. contos 4:646

» 4 » 13:335 » 60 a 40. » 2:671

Acções do Banco, 10:000 de 820 a 230:000. » 5:400

Depositos, um terço de 700 c. » 233

Acções da _Confiança_ » 3:248

Promissorias idem, reembolso em notas. » 412

Acções da _União_, de 112 a 55. » 570

40 p. c. do valor das notas » 1:600

Depreciação do credito externo » ? 18:780

------

_Perdas do thesouro_

Despezas do exercito e marinha contos 1:500

Descontos de notas » 700

Tres quartos da receita de nove mezes » 7:500 9:700

-----

_Perdas geraes_

Roubos, contribuições forçadas, etc. » 900

23 a 30 mil braços sem trabalho productivo:

9 mezes e 20 dias a 200 rs. 1:620

Incendios, ruinas, etc. » ?

Capital humano: mortos e feridos » ? 2:520

----- -----

Total determinado » 31:000

------

As verbas indeterminadas calcule-as quem puder, e achará que a

revolução e a guerra deram uma ultima sangria não inferior a 50

mil contos ao corpo já quasi exangue da nação. Que admira pois a

cachexia universal? «Recordei-me com amargura e desconsolação dos

tremendos sacrificios a que foi condemnada esta geração, Deus sabe

para quê,--Deus sabe se para expiar as faltas dos nossos passados, se

para comprar a felicidade dos nossos vindouros.» (Garrett, _Viagens_)

Assim, poeticamente, se exprimia Garrett, memorando casos transactos;

e o que succedia depois não authorisava a crer que se tivesse comprado

então a felicidade dos vindouros. Expiar-se-hiam as faltas passadas?

Expiavam-se, expiavam-se de certo as consequencias de uma deploravel

educação historica; mas tambem se soffria o resultado natural de

uma illusão ephemera creada por uma philosophia erronea. Como nós,

a Hespanha saía das mãos do illuminismo jesuita para caír nas mãos

do espiritualismo liberal, e a historia da Hespanha era o mesmo que

a nossa. Mas a França, que toda a Europa seguia, sem ter tido essa

educação mortifera, soffria como nós as consequencias do romantismo

politico, do doutrinarismo individualista, e da anarchia positiva: do

governo immoral, além de tyranno, da burguezia rica, imperio formado

espontaneamente sobre as ruinas do velho Estado monarchico.

2.--O CONDE DE THOMAR

O setembrismo morrera de vez depois de terem desempenhado o seu triste

papel os chefes timidos que por suas mãos tinham abafado a revolução.

Mas teria a historia dos ultimos dois annos convertido os cabralistas,

cuja tyrannia brutal, cuja avidez deshonesta, alliadas á energia no

mando e á audacia no pensamento, provocaram o desespero e a revolta do

povo? Viu-se que não. Consideraram-se vencedores; e se o extrangeiro

lhes não permittiu vingarem-se, e se o desmoronamento da machina agiota

não consentia voltar-se aos doirados tempos, os cabralistas seguiam,

mais modestos, mais moderados, governando o reino como cousa sua.

Como rasto de um terramoto, a segunda metade de 47, depois de Gramido e

da victoria do governo, agitada com o borborinho das eleições proximas,

arrastou-se com um cortejo de vinganças e desordens. A soldadesca

desenfreadamente espancava nas cidades e especialmente no Porto--agora

tão odiado como antes o fôra no tempo de D. Miguel. Artilheria 3 era

apontada como eximia em arruaças cabralistas. Os vidros das casas

patuléas, do José Passos e d’outros, voavam em estilhas com pedradas.

O _Nacional_, o _Ecco popular_, orgãos dos vencidos, eram colhidos

das mãos dos distribuidores e rasgados aos centos. Por todo o reino

havia roubos, espancamentos, assassinatos. Só em Evora, nos tres mezes

depois de Gramido, houvera doze attentados em publico pela soldadesca.

(_Rev. de Setembro_, 8 de set. 47) O _Nacional_, cuja typographia

fôra assaltada, e a commissão opposicionista para as eleições, pediam

protecção ás potencias alliadas, reclamando a amnistia promettida.

Era um reflexo pallido do que succedera em 34 ao miguelismo, tambem

amnistiado depois de Evora-Monte.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 17 / 30 段