Democratas, liberaes, eram agora todos, as sombras dos que tinham

sido. A miseria crua do paiz reduzia-os á condição de seres famintos,

amesquinhando-lhes os caracteres, baixando-lhes a estatura, avolumando

só a podridão natural das covas. Que o extrangeiro viesse a este

cemiterio afastado, mandar a cada espectro para a sua tumba, acabar

a funebre revolta de cadaveres, não admirava ninguem, porque a

_liberdade_ trouxera-a elle. Estava obrigando a manter o _systema_.

Mas, dez annos havia, o extrangeiro encontrara cá um povo singular,

extravagante, um dos sete dormentes da Europa, inaccessivel ás idéas

novas, mas vivo, abraçado de joelhos ao throno-altar. Agora, voltando,

o extrangeiro só via tambem o espectro d’esse povo antigo: sombras

errantes falando uma linguagem archaica tremida nos labios brancos

de frades rotos e senectos; cordões de mulheres luctuosas ajoelhadas

perante os nichos allumiados, resando «por alma dos nossos irmãos que

foram mortos n’esta rua!»

Uns dos mortos voltavam para sempre aos eternos jazigos; outros fugiam

do velho cemiterio das doutrinas, deitavam fóra o lençol da liberdade,

e a correr batendo os ossos, vestiam as fardas _regeneradoras_

lantejouladas, e, mirando-se em trajos de vivos, ficavam crendo ter

resuscitado.[32]

4.--A PRIMAVERA DE 47

Encetaremos a narrativa dos casos d’esta segunda e ultima epocha

da guerra dizendo o que sabemos das relações entre setembristas e

miguelistas armados, depois do desbarato de Macdonell em Braga. Fôra

a 28 de novembro que o caudilho, levantando abertamente a bandeira da

restauração de D. Miguel, entrara na cidade catholica, primaz das

Hespanhas. Com o escocez andavam as guerrilhas do padre Casimiro e do

padre Manuel Agra contando ao todo de dois a tres mil homens, dominando

no Minho e em parte de Traz-os-Montes, como dissemos. Não lhes faltava

dinheiro: davam cinco moedas a cada cavalleiro e uma a cada infante

armado, que se apresentassem, pagando o elevado soldo de 240 réis á

cavallaria, de 160 réis á infanteria. Cazal dispersou e anniquillou,

segundo contámos, esse fóco miguelista de Braga, quasi ao mesmo tempo

que Saldanha derrotava em Torres os setembristas; e a crueldade do

general no Minho não foi menor, antes excedeu a do governo de Lisboa.

Cento e quarenta pessoas foram trucidadas em Braga pelo vencedor que

não perdoou aos prisioneiros. (_Livro azul_, Southern a Palm., 5 de

jan.)

Macdonell conseguira fugir, apenas acompanhado pelo seu estudo-maior,

pondo-se a caminho de Traz-os-Montes, onde um piquete de cavallaria da

divisão de Vinhaes, acossando-o, o prendeu e matou nos ultimos dias de

janeiro. (Azevedo, _Dois dias_, etc.)

Da morte de Macdonell, com o qual acabava a sedição francamente

restauradora de D. Miguel, começa uma historia nova com o anno de 47.

A crueldade de Cazal em Braga, a morte do cabecilha, foram o rebate

para um levantamento geral, mas menos atrevido, do miguelismo. O padre

Casimiro esperava o apparecimento de guerrilhas carlista do outro lado

da fronteira, para organisar as d’este; mas, ao mesmo tempo, os antigos

generaes Povoas e Guedes eram enviados ao Porto para tratarem com a

JUNTA as bases de uma alliança. Diversas foram as versões correntes.

Uns falavam da simultanea abdicação de D. Miguel e D. Maria II o tio

e a sobrinha, noivos de outro tempo, acclamando-se D. Pedro V com

o governo representativo, mas gabinete miguelista. (_Livro azul_,

Southern a Palm., 5 de jan.) Outros diziam que a JUNTA se disposera a

acclamar D. Miguel em pessoa, e que para tanto já Manuel Passos partira

para Londres, o que era falso. (Azevedo, _Dois dias_, etc.)

Era comtudo verdade a fuga de D. Miguel, de Roma, e de crer que

projectasse vir a Portugal. (Thomar a Bulwer, Madrid, 29 de dez.)

Esta noticia enthusiasmava muita gente no Porto, embora os planos em

que se falava provocassem descontentamento em alguns corpos. Esses

planos dizia-se consistirem na entrada de dois generaes miguelistas

na JUNTA, no subsidio de 5:000 homens, na acclamação de D. Miguel rei

constitucional, na successão da corôa á casa Cadaval. (_Livro azul_,

cartas do consul Johnston, 1, 7, e 11 de janeiro) Quaesquer, porém,

que tivessem sido as verdades traduzidas por esta serie de boatos, o

facto é que, no meiado de janeiro, a situação definia-se claramente.

Punham-se de parte as combinações, sem se chegar a convenio de especie

alguma. A JUNTA acceitava o auxilio incondicional dos miguelistas,

deixando-lhes os logares e patentes, caso annuissem ás decisões que

ella tomasse depois de vencedora. (_Ibid._ Southern a Palm. 30 de

jan.) Era a _coalisão_ em armas. E Povoas saíu logo a campo, da sua

casa da Beira, proclamando a religião catholica apostolica romana, a

nação portugueza e o seu heroico pronunciamento; (V. proclam. de 17 de

jan.) deixando, como se vê, em aberto todas as questões politicas e

dynasticas. Acaso á sombra do equivoco se vencesse o que não vencera a

denodada affirmação.

Nem D. Miguel, nem uma parte grave do seu partido no reino, parece

que approvavam este proceder dubio e _politico_. A tradição custa a

morrer, e a tradição legitimista era pela nitidez das affirmações. D.

Miguel escapara com effeito de Roma disfarçado em crendo de um capitão

Bennett, e a policia ingleza sabia do seu esconderijo de Londres;

sabia que pensava partir para Portugal, pôr-se ao lado de Macdonell no

Minho. (_Ibid._ Palm. a Bulwer em Madrid; 16 de fev.) É desde então

que o ministro inglez principia a acreditar no miguelismo. Elle espera

comtudo que a derrota de Macdonell, noticia que acabava de chegar,

faria mudar de tenção o pretendente; (_Ibid._) e com effeito assim foi,

o que leva a crêr que o principe não approvasse a politica da coalisão,

já anteriormente condemnada nas circulares de Saraiva.

Coalisado com a JUNTA, o miguelismo perde a individualidade politica,

sem por isso deixar de ser um risco; porque se a JUNTA chegasse

a vencer, teria de começar a debater-se com os seus alliados: os

miguelistas á direita, os demagogos á esquerda; uns accordando em

pedir D. Miguel, outros D. Pedro V: ambos a queda da rainha, ambos uma

revolução que levaria Portugal, ou á restauração do absolutismo, ou á

implantação de uma republica. Qualquer das hypotheses era antipathica á

Inglaterra, que desde então reconheceu a necessidade de intervir. Mas

essa intervenção desejava ella que fosse um pacto, um accordo entre

os partidos constitucionaes belligerantes, e não viesse alargar a

Portugal a influencia da França doutrinaria, já exclusiva em Hespanha,

defendendo a todo o transe o partido cartista e a clientella dos

Cabraes.

* * * * *

Depois de Torres-Vedras, o conde das Antas evacuou Santarem. A 27

estava em Alcobaça, retirando sobre Coimbra. Saldanha perseguia-o,

(_Livro azul_, Wylde a Palm. 29 dez.) sem força para o bater. O

resultado da victoria era nenhum, porque, passada a primeira impressão,

a revolta, generalisada a todo o reino, em vez de amansar, crescia.

Foi então que Povoas desceu da serra da Estrella, a vêr se podia

obrigar o general de Lisboa a não chegar ao Porto. Saldanha parou

no Sardão, e Antas entrava na cidade da JUNTA preparando a defeza

(Azevedo, _Dois dias_, etc.) Ia repetir-se um cerco? Ia outra vez haver

o que houvera em 32-3? Haveria, se agora, como então, os do Porto

podessem obter de fóra soldados, munições, dinheiro. Torres-Vedras

limpara de inimigos o centro do reino; mas, emquanto o Porto se

mantinha firme, e, no Minho disputado, Cazal e Antas jogavam o xadrez,

no sul do Tejo succedia proximamente o mesmo entre Schwalbach e o conde

de Mello que em vão atacava Estremoz (27 de fevereiro) sendo obrigado

a retirar sobre Marvão, (_Ibid._) esperando. Saldanha, entretanto,

avançava até Oliveira-de-Azemeis; e Antas, abandonando o Minho,

recolhia ao Porto, friamente recebido pelos junteiros que o accusavam

de nada ter feito. (_Ibid._) E Saldanha que fazia? Nada tambem, porque

lhe faltava tudo. Pedia para Lisboa armas e dinheiro, mas o governo não

os tinha para lh’os dar. «Se isto continua, o caso póde ser grave».

Já o povo de Braga arrazara a casa onde Cazal dormira, e a JUNTA fôra

acclamada logo que o vencedor voltara costas, e os ex-frades e fidalgos

preparavam uma insurreição medonha. O caso póde ser grave ... (_Livro

azul_, Wylde a Palm. 18 de jan.)

O mez de janeiro consumiu-o a JUNTA preparando-se para o cerco,

lançando contribuições sobre os bancos, trabalhando activamente na

defeza. A 26 estava acabado o primeiro circulo de barricadas e muito

adiantado o segundo; mas as deserções continuavam: dez ou doze homens

por dia. (_Livro azul_, _Cartas do consul_, 1, 7, 11, 26 de jan.) E

ao mesmo tempo que Antas perdia o tempo no Minho, Cazal recebia pela

fronteira da Galliza centenas de recrutas hespanhoes e material de

guerra. (_Ibid._ Carta de Vigo, 24) Sem poder intervir directamente,

a Hespanha fazia agora aos cartistas o que em 26-7 fizera aos

apostolicos. Em Vigo fundeavam duas fragatas, armadas, apparelhadas,

promptas a saír para o Douro á primeira ordem. (_Ibid._) A JUNTA ainda

se mantinha duvidosamente fiel á rainha, mas ameaçava desthronal-a, se

Saldanha avançasse do Sardão, e o ministerio teimasse em não caír. Os

meios não faltavam no Porto, mas já se sentia no Minho uma carestia

insupportavel: o milho regulava a 520 o alqueire. (_Ibid._ _Cartas do

consul_, 21 jan. 17 fever.) Saldanha, avançando até Azemeis, obrigara

Antas a recolher ao Porto: que ia haver? Um cerco? Naturalmente.

Resolveu-se, pois, repetir a historia anterior; e para abreviar os

episodios, começar desde logo pela expedição do Algarve confiada a

Sá--o Terceira de agora. A divisão, forte de mil homens, embarcou

(28 de março) indo tomar terra em Lagos, atravessando livremente o

Alemtejo, de correrias celebre, vindo entrar em Setubal onde se reuniu

ás forças do conde de Mello, inactivas desde fevereiro. Mas para cobrir

a capital, já o governo destacara Vinhaes para o sul, fortificando-se

nas collinas de Azeitão que, prolongando a serra d’Arrabida, dividem as

duas bacias do Tejo e do Sado. No Vizo, comoro das vertentes austraes,

ás portas de Setubal, feriu-se uma batalha (1 de maio) cujo vencedor

se duvidou quem fosse. Se a vantagem ficou por alguem, não foi pelo

governo; mas já a esse tempo os inglezes protegiam a rainha, como vamos

vêr, impedindo o general rebelde de proseguir. Desejava, pedia elle

outra cousa? Quereria entrar em Lisboa vencedor, para ter de se voltar,

nas suas ruas, contra os que commandava? para defender o throno, como

em 38? Não, decerto. A ponto de vencer, via-se perdido; e protestando,

exultava por achar os inglezes a vedar-lhe o passo, obrigando-o a

render-se.

No Porto succedia o mesmo ao conde das Antas. Felizmente os inglezes

tinham bloqueado a barra (27 de maio): estava chegado o momento de saír

da posição falsa em que se collocara. Nem a rainha nem o ministerio

cediam, e para os chefes a revolta não tinha mais valor do que uma

ameaça. Jogando com fogo democrata, miguelista, temiam a labareda que

tinham soprado. Quem viria apagal-a, sem os expôr ao labéo de traição

ou cobardia? Pois não chegava a tempo a intervenção, tão necessaria

a Lisboa como ao Porto, ao governo como á JUNTA? Abençoada esquadra

ingleza! providencial bloqueio do Douro!

Porque, se não fossem ambos, era forçoso vencer. No dia 20 tinham

chegado os vapores de Setubal para conduzir segunda expedição á ultima

campanha. Os quatro a cinco mil homens das excellentes tropas do conde

das Antas deviam desembarcar na Extremadura, cortando a Saldanha a

retirada de Lisboa, ao mesmo tempo que Povoas o acossaria do lado das

Beiras. (Azevedo, _Dois dias_, etc.) Esse plano de campanha parecia

feito a proposito para terminar tudo conforme convinha. Tres dias

havia que os inglezes bloqueavam a barra, e sabia-se isso muito bem

no Porto,--como se ignoraria?--quando a 30 o conde das Antas embarcou

a sua divisão e a sua pessoa. Ás seis da manhan do dia seguinte, os

vapores saíam a barra ... para entrar no seio salvador da esquadra

ingleza. Prisioneiros, protestando em boas e graves phrases, viam-se

salvos. Os inglezes foram deixal-os em S. Julião, na barra de Lisboa,

presos _pro-fórma_, já amnistiados por uma convenção.

Ao mesmo tempo uma divisão hespanhola transpunha a raia do Minho e

Traz-os-Montes, e Saldanha avançava de Oliveira de Azemeis sobre o

Porto. Que restava da revolta? A JUNTA ainda, em agonias.

* * * * *

Mas nada sabemos da capital, n’esse primeiro e funebre semestre de 47.

Vimos o que a gente armada fez, mas ignoramos o que o gabinete fazia, e

que sorte a guerra dava á miseranda população de Lisboa.

Desde o principio do anno que as cadeias estavam cheias de setembristas

e miguelistas; desde então as emigrações ferviam. (_Livro azul_,

Southern a Palm. 10 de jan.) O governo communicára ás potencias a

decisão de bloquear o Douro, mas isso não passava de uma fórmula,

porque a marinha portugueza acabara de todo, e os poucos vapores que

havia tinham caído em poder dos rebeldes, senhores do mar. Mas o mais

triste, o mais grave, era o caso das notas do banco, infernal papelada

que, engordando os rebatedores, levava a miseria a toda a parte. Cada

moeda já tinha o desconto de mais de tres pintos; e apesar das ameaças

só recebia notas quem não podia evital-as. Papeis, inscripções, não

tinham compradores. As acções do banco tinham baixado de 385 a 300 mil

réis: só os homens da _Confiança_, a quem o decreto de 19 de novembro

salvara, viam subir as acções de 15 a 22, á custa do povo arruinado com

o sacrificio da emissão do banco.

O visconde de Algés, no Thesouro, achava-se perdido, porque de fóra

não vinha dinheiro, e em casa não o havia antes--quanto mais agora,

no calor da sedição. Se nem para Saldanha chegava! Em Madrid estava

embaixador o conde de Thomar e para elle se voltavam os olhos, se

dirigiam as supplicas e pedidos de conselhos. Não seria possivel

arranjar em Madrid um emprestimo? Em Lisboa preparar-se hia tudo:

custava pouco. Supprimiam-se as decimas das inscripções, externas,

internas; (Dec. de 29 jan. e 25 fever. revogando o de 21 de agosto)

e para pagar o coupon do 2.º semestre de 46, em divida, creavam-se

_bonds_ (600:000 lib.) garantidos pelo rendimento das alfandegas.

Quanto ás notas, revogavam-se as penas, e o Estado reconhecia-as como

suas: um verdadeiro papel-moeda. Não temesse o povo: iam-se _carimbar_

e em breve chegaria ouro bastante para as queimar todas! (_Decr._ 1 de

fever. art. do _Diario_)

Com effeito, o conde de Thomar em Madrid conseguira alguma cousa.

Os banqueiros propunham-se dar tres milhões esterlinos a 43 com a

commissão de dois e meio. Um ovo por um real. Mas ... davam no primeiro

anno só um milhão, o resto depois. Um milhão seja: tudo o que vier ...

Mas «queremos tres annos de juros adiantados».--O governo, desanimado,

caíu em si. Um pouco mais, e os banqueiros, cobrando adiantados os

juros, não dariam nada, ficando credores de muito. O que promettiam

emprestar vinha a saír a 25,5 por cento. (Southern a Palm. no _Livro

azul_, 31 jan.)

O governo não teve coragem para tanto: o ministro sumiu-se, deixando

o lugar a Tojal. (20 de fever.) E o rebate das notas a crescer, e

gemendo todos com fome, e a bordo do _Audaz_ cobertos de feridas os

infelizes prisioneiros de Torres, á espera do degredo! E uma rebeldia

surda a sussurrar por todos os cantos!.. No governo-civil o marquez

de Fronteira, com seu irmão D. Carlos Mascarenhas á frente da guarda

municipal, mantinham difficilmente uma ordem similhante á de Varsovia.

Lisboa parecia um acampamento; tudo estava armado em batalhões de

côres e feitios diversos: voluntarios, fusileiros, caçadores da

rainha, caçadores da CARTA. Havia exercicios constantes, e paradas,

e revistas, e o commandante em chefe, D. Fernando, que não nascera

para emprezas bellicosas, via-se forçado a arrastar a sua indolencia,

correndo os quarteis, vivendo n’um estado penoso de agitação por cousas

que, bem no fundo, lhe eram, ou antipathicas, ou indifferentes. E por

entre esta borborinhar de tropas mais ou menos grutescas, pullulavam

os turbulentos, os homens de má-nota, emprezarios de _bernardas_.

Aos empregados não se pagava desde outubro, em Lisboa que é uma

cidade-secretaria. (V. _Livro-azul_, Southern a Palm. 15 fever.) A

desordem, a excitação, a fome, traziam á flôr do charco social os

detritos humanos das cidades; e como nem na revolução, nem na reacção,

havia profundos motivos moraes, o caracter da crise, em vez de ser

tragico, era grutesco; e Lisboa que já fôra em 28 uma Jerusalem, era em

46 como Byzancio cercada por um turco--setembrista.

Vendo chegar Tojal, o commercio bateu palmas. (_Ibid._ 26 fever.) O

homem valia e trazia comsigo boticadas novas: «absurdo esperar dinheiro

de fóra, quando a exportação, sempre inferior á importação, era

agora, com a guerra, nulla; o ouro fugia para pagar o que compravamos

fóra; a guerra engulia o resto, e não lhe chegava; a desconfiança

aferrolhava as economias; havia juros em divida, e o Thesouro vazio, e

o curso-forçado das notas expulsava o ouro do mercado. Uma chimera o

emprestimo! Arranjassemo-nos com a prata de casa.» (V. _Diario_, art.

fever.) Mas que prata? se havia apenas cobre e falso! A prata eram

notas, notas infames com o rebate de metade! (2:250, abril) Moderar o

curso-forçado, fazendo entrar só por metade as notas nos pagamentos;

dar curso legal ás moedas americanas e hespanholas de ouro e prata;

elevar a 50 contos por mez a amortisação das notas; crear um emprestimo

_interno_ de 2:400 contos para abreviar a supressão das notas--eis ahi

o _recipe_ de Tojal. (V. _Dec._ 10 março) O doente vomitou-o, ou não o

quiz tomar: o medicamento _interno_ não valia mais do que o _externo_.

Farejaram-se os armarios e veiu de lá o Dulcamara com drogas antigas,

da velha alchymia: o emprestimo seria uma loteria, com premios de

_papel_, e bilhetes pagos a notas. (_Decr._ 9 de abril) A fazenda

receberia em notas tudo o que lhe deviam fóra de Lisboa: isto é, onde

o inimigo cobrava os debitos. (_Decr._ 6 de abril) Os titulos do

emprestimo _manso_ de 27 seriam convertidos em inscripções sob condição

de pagamento de um quarto nominal em notas. (_Decr._ 23 de abril) E por

fim os papeis andavam tão de rastos, tão rebatidos, que se reduziu a

proporção d’elles a um terço nos pagamentos. (_Decr._ 15 de junho)

Positiva fome lavrava em Lisboa no segundo trimestre do anno funebre

de 47. Para lhe accudir distribuiam-se diariamente 2:500 pães. (V.

as listas e contas no _Diario_) E o vasio dos estomagos, e exaltação

das cabeças, o desespero do governo ameaçado, batido por toda a

parte, fazem d’essa epocha um melodrama, lugubre nos soffrimentos do

povo, na morte dos soldados, entremeiado de fomes e cadaveres, de

intrigas e miserias, de sangue e lodo: farrapos de pobreza universal,

pobreza de genio e de caracter, pobreza de dinheiro e de força. Era

verdadeiramente uma lucta de espectros.

* * * * *

Como sombras se tinham visto dissipar-se muitas forças do governo. A

columna que em Alcacer defendia Lisboa da patuléa do Alemtejo, fôra uma

noite aprisionada inteira. A tripulação do _Porto_, vapor mandado a

Vigo e a Vianna em serviço, prendeu em viagem os officiaes na camara e

levou o barco ao Porto, a entregar-se á JUNTA. (Wylde a Palm., 18, 27

fevereiro, no _Livro azul_) O mez de março declinava, approximava-se

o abril terrivel. Em Lisboa havia constantes rusgas para arregimentar

_voluntarios_, e Saldanha, immovel por impotente, avisava do seu

quartel general que resignaria a presidencia do conselho se não viessem

soldados de Hespanha, ou um accordo com o inimigo. O gabinete resolveu

então decididamente implorar o soccorro ao reino visinho, que ardia por

que lh’o pedissem, mordendo impaciente o freio posto pela Inglaterra.

(_Ibid._ Seymour a Palm. 14, 18 de março)

No principio de fevereiro a historia diplomatica da guerra chegára a

um momento decisivo, com o facto da alliança das forças miguelistas

ás da JUNTA, depois de Torres-Vedras. Costa Cabral, nosso ministro

em Madrid, conhecedor das resistencias da Inglaterra, declarara a

Bulwer Litton que se as forças miguelistas engrossassem, elle pediria

soccorros á Hespanha, invocando o tratado de 34 ou da quadrupla

alliança; (_Ibid._ 30 de janeiro) e o inglez, ao mesmo tempo que

protestava contra, escrevia-o para Londres contando os fundamentos das

insistencias do portuguez: que a alliança miguelista-setembrista era um

facto, um artificio o não se proclamar D. Miguel, positivo o _casus

fœderis_; que o irmão de Sá-da-Bandeira (Antonio Cabral) fôra a Londres

comprar munições, e Passos Manuel a Roma buscar D. Miguel (segundo

falsamente corria e convinha ao governo de Lisboa fazer crer). A

Hespanha terminava, decidida a intervir, não o fará comtudo sem accordo

comnosco. (_Ibid._ Bulwer a Palm 5 de fev.)

O leitor sabe que Palmerston enviára especialmente um legado militar,

o coronel Wylde, para obter a paz entre os belligerantes, para «servir

de medianeiro entre a JUNTA e o duque de Saldanha.» Restabelecer-se-hia

a constituição de 38, convocar-se-hiam côrtes, expulsar-se-hiam os

cabralistas do governo. (Palm. a Wilde, 5 de fev.) Não seria bem a

victoria da JUNTA, mas sim a do grupo _ordeiro_, vencido em 42. E

quando leu os fundamentos da nota do conde de Thomar a Bulwer, o inglez

pegou da penna e mandou dizer a Wylde que o tratado de 34 acabara,

que fôra especial e não permanente, que não só não havia motivo para

intervir, mas ainda quando houvesse, não se podia invocar um tratado

acabado. (Palm. a Bulwer, 11 de fev.)

Wylde nada conseguira da JUNTA, nem tambem do governo. Via-se

impossivel a transacção, e, impedida pela Inglaterra a intervenção

da Hespanha, qual seria a sorte de Portugal? Ficaria abandonado ao

resultado de uma revolta, de que os generaes temiam os soldados?

Venceria o governo? Venceria a JUNTA, e com ella passariam por sobre

as cabeças dos chefes, as columnas dos demagogos? e as legiões dos

miguelistas? Em março, como o leitor observou, parecia provavel a

victoria final da revolta. E em taes apuros, Saldanha, vendo que a

Inglaterra teimava em não deixar a Hespanha intervir, pediu licença ao

governo visinho para alistar tres mil homens. (_Livro azul_, Seymour a

Palm. 19-21 de março) A Hespanha recusa, «mas se isto durar annuirá».

(Bulwer a Palm. 24) Com effeito, o aperto era tão grande que o ministro

francez foi ás Necessidades offerecer a sua protecção á rainha.

(Seymour a Palm. 20)

Perante uma situação assim, Palmerston começou a hesitar. Com o

seu empenho de bater em Portugal o cabralismo que era o alliado do

doutrinarismo hespanhol, e ambos a copia do ministerio Guizot, ambos

a expressão da influencia franceza na Peninsula: com esse empenho,

não iria elle, acaso, servir a demagogia ou o absolutismo? Desde

fevereiro, a Hespanha e a França estavam de accordo em considerar

vigente o tratado de 34, (Bulwer a Palm. 23 de fevereiro, Madrid)

que elle Palmerston insistia em declarar abolido. Não seria um erro,

uma temeridade? Com effeito, a linguagem da Inglaterra muda. «Nem a

lettra, nem o espirito do tratado de 34 são applicaveis a Portugal

_agora_». Reconhece pois a existencia do tratado, e já chega a admittir

a hypothese da intervenção, mas insistindo pelas condições anteriores:

amnistia geral e plena, restabelecimento das leis constitucionaes,

ministerio nem cabralista nem setembrista (ministerio Rodrigo,

_ordeiro_) expulsão do Dietz--instituição portugueza, oh miseria! Assim

que o governo annuir, parta Wylde para o Porto a convencer a JUNTA.

(Palm. a Wylde, 5 de abril)

Ora o governo não annuiu, e a crise precipitava-se. Tojal

desesperava-se, porque os seus amigos Barings de Londres recusavam as

trezentas mil libras com que se havia de pagar o dividendo externo:

os temerarios não sabiam que a victoria da revolução seria um traço,

_riscando_ a divida extrangeira! Saldanha, irritado, oppunha-se á

amnistia. (Seymour a Palm. 26 de março) Havia em Lisboa uma grande

miseria, uma carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar,

perseguições e recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e as notas

fluctuando como os trapos de neve caíndo, cobrindo tudo, nos dias

mornos que precedem o desencadear da tormenta.

* * * * *

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 16 / 30 段