Tal era o estado do centro e do sul. No norte, áquem Tamega, obedecia

tudo ao Porto; mas em Traz-os-Montes Cazal, declarando-se pelo governo

de Lisboa, veiu descendo, na esperança de combinações cartistas

preparadas dentro da cidade da JUNTA. Dois regimentos se bandeariam,

indo soltar o duque da Terceira e Cazal apoderar-se-hia da cidade. Mas

dos officiaes comprados, uns não estavam seguros dos sargentos, outros

receiavam as consequencias do combate: logo que os dois regimentos (3 e

15) se denunciassem, seriam provavelmente esmagados pela populaça; e a

_patuléa_ iria á Foz, e a consequencia seria o assassinato do duque e

seus companheiros. (T. de Vasc. _ibid._) Em vão, portanto, desceu Cazal

até Vallongo; em vão esperou; e despeitado por ter de recuar, vingou-se

trucidando barbaramente as aldeias que fugiam d’elle para os altos das

serras--Agrella, Villarandello, Constantim, (D. João d’Azevedo, _Os

dois dias_, etc.) Pobre gente sacrificada ás contendas liberaes! Era

o primeiro sangue que corria em abundancia, n’este novo episodio da

historia sangrenta de vinte annos! (1831-51)

Cazal retirou sobre Chaves, e do Porto saíu Sá-da-Bandeira com uma

divisão para o bater. Encontraram-se em Val-Passos, (16 de nov.) onde

dois dos regimentos do Porto se bandearam para o inimigo, dando-lhe

a victoria. Batido, o general regressou pelo Douro ao Porto, onde

havia uma desordem tão grande como a da capital. A JUNTA era um cháos

patriarchal: cada cabeça, cada sentença. Apenas a sedição se declarara,

e já os burguezes rebeldes começavam em rixas: que faria se vencessem!

Manuel Passos chegara ao Porto, fugindo ao conde da Taipa de quem os

soldados tambem fugiam, por elle os sustentar _a epigrammas_. (Azevedo,

_Dois dias_, etc.) Antas não bolia de Santarem, esperando que Saldanha

o fosse desafiar, em vez de aproveitar da fraqueza do inimigo. Cazal

ficára dominando em Traz-os-Montes. A sedição parecia um fogo-de-palha:

tão breve crescera, como ia morrer. Wylde chegára, falara, apresentara

as suas propostas, como delegado de Palmerston que de Londres resolvera

conciliar os inimigos: mas era inutil. O burguez é teimoso. No meio de

tão graves difficuldades, occupavam-se os da JUNTA a mascarar-se de

fidalgos, distribuindo entre si titulos, commendas, cartas-de-conselho.

(Azevedo, _Dois dias_, etc.) Sempre assim tinham sido as communas

rebelladas contra os barões. A principio, o Porto só falara em paz:

agora que a derrota de Val-Passos o ameaçava de morte, a sua voz

tinha ameaças. Levantára-se contra o «systema de sophisma, fraude e

corrupção»; houvera «bayonetas contra o peito dos eleitores desarmados,

(45) descargas de fusilaria: o sangue dos cidadãos correra». E era um

tal governo que a rainha restaurara em 6 de outubro! Queria «lançar

grilhões ao paiz?» Não; por força estava coacta. Mas «seu augusto

esposo descera da sua elevada posição á de simples empregado de um

ministerio protervo».--«A Europa (leia-se Wylde-Palmerston) não

consentirá que extrangeiros (leia-se hespanhoes) venham roubar um paiz

innocente á liberdade!» (_Manif. da Junta do Porto_, 3 de dezembro) Que

singular insistencia no _qui-pro-quo_! D’onde vem o motivo? Do facto

de a JUNTA pedir auxilio a um povo cuja soltura receia; de querer os

revolucionarios sem a revolução; de appellar para as plebes, para

ficar burgueza; de proclamar a democracia e ao mesmo tempo um respeito

_official_ á rainha, que injuriava em particular e por vontade quereria

vêr derrubada, necessitando por politica mantel-a no throno--mas

coacta, de uma verdadeira coacção, e não supposta, como a allegada no

_Manifesto_ e em que ninguem acreditava.

As consequencias de uma situação tão singular, quasi ridicula, viram-se

quando, no fim, victoriosa, a JUNTA achou que a victoria lhe não servia

e lhe era indispensavel ser vencida; essas consequencias viam-se já na

falta de unidade nos planos, no rivalidade dos commandos, deploravel

mal que deu de si a morte de muita gente.

A guerra, generalisada a todo o reino, em bandos, columnas e

guerrilhas, tinha porém a Extremadura como theatro principal. Antas

e Bomfim com o grosso das forças estavam em Santarem, o conde de

Villa-Real em Ourem. Foi contra este, para o bater, que Saldanha

destacou uma brigada sua (4 de dezembro) ao mesmo tempo que Antas

destacava Bomfim para cortar a retirada d’essa brigada, cousa que

não conseguiu. Em Leiria, porém, uniu-se a Villa-Real, e, reforçado

com mais tropa mandada de Santarem, Bomfim commandava cousa de 3:000

homens, quando foi surprehendido por Saldanha, vendo-se obrigado a

recolher-se a Torres-Vedras. Dizem que ao começar a batalha (22) o

pobre general sempre infeliz se escondera n’uma egreja, mettido n’um

confessionario, com uma bandeira preta cravada no telhado a indicar um

hospital de sangue. (Azevedo, _Dois dias_, etc.) Diz-se mais que Antas,

do seu quartel-general, ouvia a acção e não quiz acudir. (_ibid._) Como

quer que fosse, Saldanha obteve uma victoria cruel, ficando entre os

mortos o illustre Mousinho d’Albuquerque, merecedor de melhor sorte.

O governo ganhava uma batalha, mas vencer era-lhe impossivel. A guerra

fervia por todos os lados e de todos os mondos. Desde que os litigantes

tinham declarado a intransigencia, acontecia absolutamente o mesmo

que se observara em 32-4: nenhum dos combatentes podia vencer, nenhum

ser anniquilado. A guerra chronica é a sorte das nações arruinadas. O

governo não podia vencer, mas podia vingar-se; podia repetir D. Miguel

em cuja sítuação se achava, e fel-o, perdendo mais com a vingança do

que lucrara com a victoria. Os prisioneiros (43) de Torres-Vedras,

degredados para Africa no _Audaz_ (1 de fevereiro de 47) aggravaram o

labeu de sanguinario que a affinidade cabralista punha no governo.

3.--O ESPECTRO

Quando Sá-da-Bandeira, vencido em Val-Passos, depois de ter retirado

pelo Pinhão e embarcado, descia o Douro para recolher ao Porto, ao

passar em frente das Caldas d’Aregos, foi incommodado por tiros que

partiam das montanhas agrestes da margem. Era o Cazal que o perseguia?

Não; o Cazal retirara tambem para Chaves.--Desembarcou. Era o espectro

miguelista: um bando de quasi um milhar de homens tendo á frente

Macdonell, já nosso conhecido de Santarem em 34 ... Como espectro,

sumiu-se, dissipou-se, mas deixando um negro terror no animo de todos.

Quem evocára tão cruel apparição? Qual o réu d’esse crime de

leso-liberalismo? A JUNTA, diziam de Lisboa. O partido de setembro já

desde 34 parcial pelos vencidos, coalisado com elles em 42, em 45,

estava agora positivamente alliado para a guerra. Mas não tinham os

guerrilheiros do Macdonell feito fogo contra Sá-da-Bandeira? É que a

JUNTA, ao que parece, sem positivamente se alliar, deixava crescer

a desordem. Ella appellava para os exercitos da Maria-da-Fonte, o

_povo-armado_, e esse povo que em Vianna caíra de joelhos ouvindo a

homilia dos sacerdotes, tinha ainda vivas as raizes da velha religião

que reverdeciam. A JUNTA, diziam do Porto, (_Livro azul_, cartas do

consul, 18 de nov.) «não tem dado attenção ás guerrilhas miguelistas

e hade arrepender-se. A força d’ellas vae todos os dias crescendo.

São mais para temer do que pensam. (c. de 27) Todo o Minho jura essas

bandeiras, e ha planos positivos. Muita gente dará dinheiro; talvez

até a companhia dos vinhos, cujos directores na maior parte são

miguelistas. D. Miguel tem já sido positivamente acclamado. Ha pois

tres partidos hostís em campo, porque se os miguelistas se têem batido

até aqui sob a bandeira da opposição constitucional, agora voltam-se já

contra os setembristas, depois do episodio de Aregos». (_Livro azul_,

Southern a Palmerston, 3 de dezembro)

No proprio dia em que o ministro inglez mandava dizer isto para

Londres, affirmava a JUNTA no seu _Manifesto_ que «a facção sanguinaria

organisou guerrilhas para acclamarem D. Miguel!» Macdonell era para

muitos um enygma, e não faltava quem, com effeito, o acreditasse

mandado pelo governo, ou emissario da França para levantar o

miguelismo, dando assim motivo á intervenção que esmagaria o

setembrismo, forçando a Inglaterra a saír da sua reserva. Se assim foi,

o cartismo jogava com fogo; e tanto em Lisboa como no Porto, querendo

utilisar em proveito proprio o povo genuino, corriam o risco de serem

saccudidos por elle. Iam acordar ao seu tumulo um cadaver? Iam

galvanisar um morto? Queriam conquistar com elle o poder, ou esmagar

os rebeldes? Mas o espectro erguia-se, e a sua voz rouca, mas longa e

retumbante, acordava as populações da indifferença, falava-lhes uma

linguagem sabida de tempos antigas, falava-lhes no Throno e no Altar

destruidos.

E a voz do espectro caminhava, convertia. Já Macdonell e Garcia, um

hespanhol, (Azevedo, _Dois dias_, etc.) tinham entrado em Guimarães,

(25 de novembro) já occupavam Braga. Todo o Minho acclamava D. Miguel.

Corria que havia de casar com uma filha do marquez de Loulé, fidalgo

alistado no setembrismo, partidario da JUNTA, e que nada fazia para

coarctar a propagação d’esta nova e affirmativa _Maria-da-Fonte_.

Em Guimarães havia illuminações e festas (4 de dezembro); e no

Porto acreditava-se que a infanta Isabel-Maria estava á frente da

restauração. Macdonell em Braga já recusava gente: iam do Porto

offerecer-se-lhe em massa, fugindo á tyrannia burgueza do gordo Passos,

ás rusgas com que se alistava gente em monterias como a lobos, (_Livro

azul_, carta do consul, 18 de nov.) iam procural-o de todo o Minho

por onde corria um protesto formal contra _esta gente_, Cabraes e não

Cabraes. (_Ibid._ carta do consul, 11 de dezembro)

* * * * *

E a JUNTA a affirmar que eram obras do governo para a comprometter! E

o governo a dizer que era o crime da patuléa! Quando era a positiva

consequencia da _liberdade_ e dos seus coripheus, quaesquer que

tivessem sido as primitivas origens da sedição: ou o tacito applauso

do Porto, ou as intrigas franco-hespanholas de Lisboa, ou ambas

simultaneamente. Se fôra o plano do governo, elle devia folgar porque

o exito excedia as esperanças. O povo tomara ao pé da letra as falas

insidiosas dos agitadores, e sem curar, sem saber de intrigas, via

chegado o momento de liquidar contas antigas. Errantes vogavam pelo

reino as sombras das velhas classes exterminadas, roubadas. E ao

mesmo tempo que o espectro miguelista falava pela bocca dos frades

guerrilheiros, falava pela bocca do jornalista Sampaio o _Espectro_,

jacobino, setembrista, patuléa. Da direita e da esquerda ouviam-se as

mesmas imprecações de colera, eguaes ameaças. O jornal, occultamente

impresso a bordo de um navio no Tejo, apparecia em toda a parte, como

espectro que era, condemnando em pessoa a rainha, a CARTA, a monarchia,

todo o _liberalismo_:

Estão em presença dois principios, o popular e o pessoal. Mas o

governo pessoal não triumpha e o principio revolucionario vae

supplantal-o. O que fica sendo uma realeza vencida? Que prestigio póde

ter um rei que desembainha a espada ferrugenta e que depois é obrigado

a despir a farda no meio da rua? A realeza vilipendiada não é somente

inutil, é um mal. O paço é incorrigivel: conspira sempre. Uma rainha

que se declara coacta seis mezes em cada anno, não é rainha. O paço é

a espelunca de Caco, onde sempre se teem reunido os conspiradores. A

purpura dos reis tem servido para varrer a immundicie dos palacios e

dos cortezãos mais abjectos. (_Espectro_, O estado da questão)

Assim vociferava o espectro jacobino, reclamando a abdicação da

rainha; e ás suas vozes respondiam os eccos do espectro miguelista,

condemnando a nova dynastia, acclamando o rei vencido em 34. E quando,

no seu primeiro numero, o _Espectro_ desenrolava o sudario da crise

financeira, a restauração no Minho, com uma voz mais verdadeira, não

accusava Pedro nem Paulo, Cabraes nem Passos: accusava o liberalismo

de ter emprazado o reino á praça de Londres, recordava D. Miguel que

reinara cinco annos sem tomar dinheiro emprestado ao extrangeiro, e

contava as riquezas desbaratadas, da patriarchal e da casa das rainhas

e do infantado e dos conventos, vendo-se agora os frades famintos a

pedir esmola miseravelmente.

E tomado de um accesso de franqueza e lucidez, o espectro de Lisboa,

contra a rainha, confessava o crime juridico do liberalismo:

O throno da rainha só póde ser sustentado pelos liberaes: a sua corôa

é condicional, segundo a CARTA. A um throno despotico, o direito de D.

Miguel é melhor. (_Espectro_ n.º 2)

Era o que dizia o espectro minhoto, monarchico e legitimista: o nosso

direito é o verdadeiro! O vosso rei um usurpador! O nosso rei é

portuguez, o vosso extrangeiro. É uma rainha filha de mãe austriaca

e pae brazileiro, casada com allemão; allemães são os mestres e os

medicos do paço, o Dietz e o Kessler; inglezas as amas de leite, inglez

o cocheiro, franceza a modista. Só ha um portuguez, o capellão, um

padre indigno, o padre Marcos!

E os frades animavam-se, contando já com a restauração dos conventos,

e os cadaveres da nação morta em 34 erguiam-se dos seus tumulos para

ouvir, envolviam-se nos seus lençoes, saíam, caminhavam, em procissão

lenta e funebre para Braga, onde Macdonell reinava, em nome do rei

esperado dia a dia, outra vez adorado nos altares, chamado em preces

fervorosas. Mas Cazal que segunda vez descera de Traz-os-Montes e em

volta do Porto andara farejando a ver se achava a combinada brecha,

(Azevedo, _Dois dias_, etc.) de novo teve de retirar desilludido. A

sua crueldade vingara-se primeiro sobre as populações das aldeias

serranas, agora ia vingar-se na capital miguelista do Minho que atacou.

(31 de dezembro) Vencida uma batalha sangrenta, começou pelas ruas a

matança desapiedada. Eram tiros, gritos de misericordia, imprecações

de desespero, e um matar cruel e duro na gente amontoada pelas ruas. O

sonho de uma esperança morria breve afogado em sangue, e os cadaveres

com os seus lençoes tintos de vermelho tornavam pesadamente ás suas

covas. Caía a tarde, escurecia a noite, pelas esquinas das ruas havia

montões de mortos e poças de sangue coalhado por entre as pedras. Os

que ficavam, abraçados a Deus, varrida a esperança do Rei, foram pondo

nos lugares da matança nichos sagrados com cruzes lugubres, allumiadas

á noite por lampadas, com a triste lenda: Resae por alma de nossos

irmãos que foram mortos n’esta rua! (Azevedo, _Dois dias_, etc.)

Então a voz do espectro miguelista sumiu-se n’um largo pranto ...

* * * * *

Mas o espectro jacobino de Lisboa, mundano e sem piedade, rangera

os dentes, prorompera em bramidos ao presencear a carnagem de

Torres-Vedras (22 de dezembro); e a sua colera não teve limites contra

a rainha a quem--oh, velhas, mentidas esperanças!--dera em Londres o

sceptro de ouro e a CARTA encadernada a primôr.

A côrte dançou quando ouviu dizer que houvera muito sangue derramado.

O valido e os protectores beberam á saude das victimas! A rainha deu

beija-mão á sua criadagem! (_Espectro_ n.º 5) Quando a rainha soube

da morte e aprisionamento dos bravos, saíu ás janellas do palacio, e

como uma bacchante gritou para a sua guarda--Victoria! victoria!--No

dia da chegada dos prisioneiros saíu a passeio em signal de regosijo.

(_Ibid._ n.º 6)

E o espectro, lembrando-se da longa e dura guerra de seis annos, do

exilio e dos soffrimentos padecidos para exaltar essa rainha, dizia-lhe

do fundo da sua recondita imprensa:

Morremos todos por via de ti! Morrendo te acclamámos, e tu

exauthoraste-nos e mandaste-nos assassinar! O nosso sangue cairá sobre

ti e sobre a tua descendencia! (_Ibid._ n.º 6)

Mas quem observa, não acha na voz d’este espectro a sinceridade

simples, a solemnidade epica das vozes espontaneas do povo--«Resae

por alma de nossos irmãos!» A _alma_ que aqui gemia era composta de

fórmulas doutrinarias, intrigas politicas, odios e ambições pessoaes.

O setembrismo falara sempre em nome do _povo_, mas esse povo era uma

fórmula rethorica, mais ou menos sincera no animo da gente democratica.

Mais romanticos, menos doutrinarios, mais calorosos mas menos audazes e

intellectualmente menos fortes, os setembristas eram mais sympathicos

e mais chimericos. O _povo_ de que falavam apenas acordara duas vezes:

uma para queimar as _papeletas da ladroeira_ em maio, outra para

acclamar D. Miguel, para caír, e ficar resando por alma dos martyres,

em dezembro. Partidos, intrigas, pessoas, ignorava-os.

Por isso a palavra do _Espectro_ é contradictoria comsigo propria; por

isso a lingua se lhe enrola e as phrases saem confusas, baças, desde

que, cessando de injuriar a rainha, pretende affirmar as ambições da

nação. «O povo respeita a rainha, respeita o throno.» (n.º 2) Que atroz

ironia é esta, depois do _Estado da questão_ que assentou o programma

do _Espectro_? «Para o rei ser irresponsavel é necessario que não faça

o mal.» (_Ibid._) Singular aberração, a idéa de um rei irresponsavel

no bem, responsavel no mal! É essa a doutrina _liberal_, genuina, que

oppunham ao cartismo?

Taes singularidades, que pintam o desnorteamento das cabeças

setembristas, poderiam multiplicar-se, se fosse necessario insistir

n’um facto já conhecido e demonstrado por varios modos. A guerra

tinha principalmente por alvo o throno: pois que esse throno, no meio

da incompatibilidade das clientelas politicas, era forçado a optar

e optava por uma d’ellas; pois que a fome e a excitação dos animos

faziam da politica uma campanha; pois que, finalmente, a rainha não

possuia o caracter astuto para usar das artes de um Luis Philippe,

mas sim a força viril para entrar pessoalmente na lucta. Declarada a

crise, o liberalismo, com effeito, tem de abdicar, e manha ou força

são indispensaveis no throno para illudir ou para rasgar as teias

constitucionaes. Quando voltam a paz, a indifferença e a fartura, por

isso, quando não ha _questões_, apparecem então os verdadeiros reis

constitucionaes, pela razão simples de que a sociedade prescindiria

perfeitamente de chefe.

* * * * *

A rainha «bate o pé no paço e diz que se vencer,

a maior parte dos seus inimigos hade saír do

reino. E se não vencer?» (_Espectro_ n.º 6) Pois nem

depois de Braga e Torres-Vedras tinha vencido?

Não, não tinha; porque as forças odientas das

clientelas politicas exprimiam a crise constitucional

do paiz. Não tinha vencido; e para vencer seria

mister que viesse de fóra uma intervenção

apoiar e defender, ao mesmo tempo, o throno ameaçado

pela revolução armada, e os proprios chefes

d’essa revolução que tinham medo da victoria e

queriam ser forçados a ficar vencidos.

Clame, clame embora o _Espectro_ que «o tratado (34) morreu, apenas se

conseguiu o fim especialissimo para que se contratara; e senão, risquem

dos diplomas a phrase--rainha pela graça de Deus e da constituição,

e substituam: por graça dos alliados e vontade dos extrangeiros»;

clame, clame embora o _Espectro_. Essa intervenção, pedida a principio

por Lisboa assustada, é no fim egualmente necessaria para o Porto

embaraçado e afflicto com a quasi victoria consummada.

Essa intervenção é egualmente indispensavel, porque depois dos

morticinios de Braga e de Torres-Vedras, os setembristas vencidos

deram francamente a mão ao miguelismo que, tambem esmagado n’um

ponto, se levanta em varios outros de um modo já prudente e politico,

reconhecendo a liberdade patuléa. Manuel Passos mantinha ainda a

velha esperança de nacionalisar o liberalismo, e fazel-o equivalia a

converter os sectarios de D. Miguel. Povoas que saíra a campo na Beira,

dizia-se convertido; mas repetiria o dito o partido inteiro, se acaso a

revolução vencesse?

Á maneira que o miguelismo fôra crescendo, antes de Torres e Braga,

crescera em Madrid a vontade de intervir, pois, além das instancias

do conde de Thomar que os hespanhoes queriam para seu descanso vêr

restaurado ao governo em Lisboa, (_Livro azul_, Southern a Palm. 28 de

nov.) havia um medo positivo das faladas combinações entre o miguelismo

e o carlismo do conde de Montemolim. (Bulwer a Palm. Madrid, 13 dez.)

Assim, no meiado de dezembro, a Hespanha soffreada pela Inglaterra

e reduzida a observar a fronteira com o seu exercito e a abastecer

e auxiliar o de Cazal em Traz-os-Montes, (Southern a Palm. 28 nov.)

declara terminantemente que intervirá, com ou sem o auxilio das

potencias, se o miguelismo continuar a crescer. (Bulwer a Palm. Madrid,

13 dez.) A França falava pela bocca da nação nossa visinha; e perante

o miguelismo, aberta, publicamente alliado aos setembristas depois

de Torres, a Inglaterra teve de ceder. O embaixador em Madrid apenas

conseguira que previamente o avisassem antes de os exercitos se pôrem

em marcha. (_Ibid._) No fim do anno de 46 a intervenção, pedida no

ultimo trimestre, já parece o caso decidido que veiu a ser no meiado de

47.

O pobre _Espectro_, estonteado, inconsequente, enrouquece para

proferir palavras de paz. Tambem elle teme a victoria dos seus: «Para

que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e ahi

pratique acções de cannibaes? O paço dos nossos reis é um foco de

corrupção politica, mas não o é de corrupção moral. Não ha rainha mais

virtuosa como esposa, nem como mãe de familias». (n. 27) O _Espectro_,

cabisbaixo, com a voz que fôra eloquente, parece pedir perdão do clamor

que levantára outr’ora, exigindo a abdicação d’essa propria rainha e a

limpeza da _caverna de Caco_. Porque é uma tal mudança? Foi o inglez

(Seymour) que veiu (fevereiro) a vêr se conseguia compôr os partidos

em armas, a vêr se evitava ainda a acção da Hespanha; e o _Espectro_, e

a gente que escolhera para seu orgão a voz de uma sombra, na esperança

do poder, moderavam a furia, mudavam o rumo. Mas como rainha e governo

se recusaram a pactuar com a revolta (abril), a voz do _Espectro_

voltou a vilipendiar aquella que tres mezes antes era o modelo das

virtudes:

A côrte pela sua parte, toda sybarita, toda gastronomica, entra ainda

na lucta com intenção doble. Se vence, o systema absoluto triumpha; se

succumbe, acceita as condições e entrega os cadaveres dos seus amigos

em holocausto á nacionalidade offendida, á moral publica ultrajada ...

E quando, afinal, a Inglaterra teve de annuir cabalmente ás exigencias

da França-Hespanha, consequindo apenas tomar tambem parte na

intervenção; quando as forças extrangeiras chegaram, para que os chefes

da revolta, não sabendo que fazer d’ella, se lhe entregassem, fingindo

obedecer á força, o _Espectro_, voltando a achar a eloquencia dos

primeiros dias, dizia nos ultimos:

A côrte, o ministerio, o rei, tudo isso desappareceu. Não caíram

ás nossa mãos, que nol-as ataram; mas sumiram-se na voragem de um

protocollo. Isso que ahi se chama rei é um espantalho, os ministros

são os lacaios de lord Palmerston. Foi a rainha, foram os Cabraes,

quem nos vendeu, quem nos trahiu ... (n. 63. julho, 3)

Não seria acaso tambem o conde das Antas, indo metter-se com toda a sua

gente na bocca do lobo inglez que viam aberta á barra do Douro? Não

seria tambem Sá-da-Bandeira, por não querer passar de Setubal a Lisboa?

Não seriam tambem os chefes da revolução armada, politicos, generaes,

cortezãos em vez de tribunos, com medo da demagogia que passaria

por sobre elles, se acaso consummassem a victoria? A intervenção

servir-lhes-hia, se a Inglaterra a fizesse a favor do seu partido: como

a fez a favor do inimigo, a intervenção era um crime.

Quanto este _espectro_ é com effeito a imagem sumida da viva

personalidade do tribuno Passos em Belem! Dez annos bastaram para

mumificar a democracia; n’esses dez annos, os seus chefes tinham

fechado o _Arsenal_, dissolvido os batalhões, entregando-se nos

braços da _ordem_. Dez annos (32-42) tinham bastado tambem para que o

desenvolvimento necessario das premissas postas na legislação liberal

apparecesse: a _liberdade_ era um absolutismo da nova aristocracia

dos ricos nascida da concorrencia; e em vez de Mousinho, um Bentham,

apparecia imperando um homem duro e pratico, o conde de Thomar, imagem

ossea de um systema já consolidado.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 15 / 30 段