que a Belgica e a Inglaterra tinham tido na primeira; e o ministro
inglez de Lisboa só se enganava suppondo Saldanha ignorante dos planos
do conde de Thomar, de quem elle era o instrumento. Os acontecimentos
precipitaram-se, pondo a claro a verdade, e collocando a Inglaterra
na posição falsa que durou até ao fim, de não tolerar a intervenção da
Hespanha, sem poder deixar de acudir a sustentar o throno da rainha,
mas sem se convencer tampouco de que esse throno perigasse com os
ataques setembristas. Restaurou-se todo o antigo pessoal administrativo
e militar cabralista, annullou-se a convocação das côrtes pelas
eleições directas, e o rei D. Fernando tomou o commando em chefe do
exercito, que tinha de entrar em campanha.
O Porto rebellava-se com a divisão de Antas, prendendo o proconsul
Terceira ahi mandado; mas pedindo apenas, moderadamente, a demissão do
ministerio. Porém ao mesmo tempo as proclamações circulavam em Lisboa,
respondendo á da soberana n’estes termos:
Povo portuguez! A revolução do Minho, a revolução mais gloriosa da
nação portugueza foi trahida pela Soberana! Não a acredites! Olha que
ella mente como sempre tem feito!
Povo portuguez! Olha que a rainha, chefe do Estado, que devia ser
a primeira a respeitar a opinião dos povos, com as palavras de paz
na bocca e veneno no coração, saíu para o meio das ruas da capital
e poz-se em guerra declarada com a nação! Não contente com o sangue
e ossos de que é composto o seu throno, ainda continua a fazer mais
victimas--ainda este vampiro quer mais sangue!--é a paga que este
tigre dá ao povo infeliz que lhe deu um throno!
Povo portuguez! Tu nada lucras em conservares no teu seio esta
vibora--ou ella hade respeitar os teus direitos ou então que tenha a
sorte de Luiz XVI--este porém foi menos culpado!
Povo portuguez! A tua rainha diz que quer paz, mas consente que os
janisaros assassinem e roubem, como o estão fazendo.
Povo portuguez! Ás armas! Senão serás fusilado ou deportado! Viva
Portugal! Ás armas! e seja o novo grito de guerra: Viva D. Pedro V!
(ap. _Livro azul_; corr. 11 out.)
Em Coimbra, Loulé, governador civil, ao saber do golpe d’Estado,
rebella-se, proclama, reconstitue o batalhão academico. Foi isto a 8;
no dia seguinte Aveiro segue o exemplo. Campos, no _Grito nacional_,
dizia claramente:
Ha poucos dias arrojámos dois (traidores sc. Cabraes) pela barra fóra:
pódem ir mais alguns. Marche todo o paiz a Lisboa e esmague a cabeça
da hydra (a rainha?) se quanto antes a facção parricida não esconder a
sua vergonha nas ondas do oceano.
A guerra estava formalmente declarada: chegava o momento de appellar
para as prevenções tomadas. Saldanha, então, officiou, pedindo a
intervenção aos governos de Londres, Paris e Madrid, segundo o tratado
de 22 de abril de 34, allegando que os miguelistas saíam a campo.
(_Relat. do min. neg. estr._ em 48) De Madrid estava certo, e os
hespanhoes mandaram logo um corpo de observação para a fronteira;
(_Ibid._ off. de Isturiz a Renduffe) mas a Inglaterra, não vendo
miguelistas, queria impedir a intervenção hespanhola e forçar a
rainha á paz. Em toda esta historia ver-se-ha a funesta consequencia
de uma tal politica, protrahindo uma guerra desoladora; porque, se a
Inglaterra não queria consentir na intervenção da Hespanha para dar
a victoria á rainha, tampouco intervinha para impôr uma conciliação.
Nós, em casa, evidentemente não tinhamos força para nos governarmos:
e depois de doze annos de liberdade, o Portugal novo achava-se, como
o antigo se achára, dividido em duas fracções sem que nenhuma tivesse
poder bastante para submetter a contraria.
Palmerston ordenava para Madrid ao seu delegado que não consentisse na
intervenção; (_Livro-azul_ P. a Bulwer, 5 nov.) e para cá mandava-nos
um coronel, o Wylde, afim de negociar uma paz entre os belligerantes.
Melancolica situação antiga em que nos achavamos, de que a liberdade
nos não tirava ... Costa-Cabral já era nosso embaixador em Madrid,
e a Hespanha, de accordo comnosco, procedia bizarramente, apezar de
soffreada pela Inglaterra. Mandara para a fronteira um exercito, e
enviava para Lisboa trezentos contos: (_Ibid._ Southern a Palmerston,
22-3 de out.) assim podesse trazer a Lisboa e ao Porto os seus
soldados!--suspirava Cabral em Madrid, e na capital Saldanha.
Porque a insurreição lavrava, e para peior, o miguelismo não no
pronunciava bastante para justificar a intervenção extrangeira.
(_Ibid._ 22, 3, 9 de out.) As noticias que lhe iam de Lisboa mantinham
Palmerston na sua reserva. «Era uma revolução como outra qualquer:
o inverso de 42; a propria JUNTA batia os miguelistas, raros e sem
importancia». E tudo ardia! as guerrilhas surgiam de todos os lados.
O Galamba e o Batalha com 500 homens corriam o Alemtejo; José-Estevão
estava em Alcaçovas com 600; (_Ibid._ 22-3) Taipa e Sá-da-Bandeira
no Porto; Aguiar em Coimbra; Mousinho-d’Albuquerque e Bomfim tinham
desertado do Lisboa; Antas vinha, caminho da capital, já em Leiria,
com 2:500 homens, fóra guerrilhas, devagar, aggregando gente todos os
dias. (_Ibid._ 29) Que seria de Lisboa, a que o inglez não deixava
o hespanhol acudir? O governo, entretanto, preparava-se, lançando
mão de tudo. Arregimentavam-se os empregados-publicos. Havia rusgas;
nas boccas das ruas os cabos de vigia prendiam. Todo o homem de
18 a 50 annos tinha de pegar em armas. Formara-se um batalhão das
Obras-publicas, outro do Commercio. Fortificavam-se, artilhavam-se
as linhas. O Banco dera 300 contos para acudir ás urgencias.
Prendiam-se os suspeitos nos navios no Tejo: todo o setembrista fugia,
e Palmella em pessoa estava homisiado.(_Ibid._ 22-3). Embargavam-se as
cavalgaduras e as pessoas, obrigando-as a trabalhar nas linhas.
Mas apesar de tão grandes esforços e de meios tão violentos, o rei
D. Fernando, commandante em chefe do _exercito_, não podia passar
revista a mais do 3:000 homens. (_Ibid._ 29) Que ia ser da rainha,
alvo de todos os tiros? Que resultado, o d’essa guerra encetada? Se a
Inglaterra não havia de vir a consentir que os vencedores acabassem de
vencer, que singular escrupulo a embaraçava?--E se os sublevados não
fossem afinal agrilhoados pela intervenção, que teriam feito? Depôr a
rainha? É natural. Proclamar uma republica? Provavelmente. Mas nenhum
d’esses dois actos destruiria os males constitucionaes do paiz, causa
da sua desgraça: nem a anarchia das doutrinas, nem a penuria universal.
2.--A JUNTA DO PORTO
José Passos era o presidente da camara do Porto. Já o telegrapho
dissera o golpe-d’Estado de Lisboa, quando em sessão abriu os officios
do novo governo, e o aviso da vinda do duque da Terceira. «Vou fazer a
revolução!» exclamou, levantando-se e saíndo. (D. João de Azevedo, _Os
dois dias de outubro_, ex. annot. por J. Passos) Chegava ao mesmo tempo
(9) ao Douro o vapor com o duque, Santa-Maria, Vallongo e Campanhan,
um estado-maior para o exercito do norte. José Passos desceu da
Casa-Pia ao Carmo; esbaforido, mandando tocar a rebate, convocando os
patriotas ás armas; e feito isto, _pronunciou_ a guarda-municipal e
os regimentos 6 e 3. Depois, montou a cavallo, dirigindo-se a Villar,
na margem do rio, a receber condignamente o duque já desembarcado.
A cidade estava sublevada, a guarnição por ella, os sinos batiam a
rebate, o povo borborinhava nas ruas, pedindo armas, e os gritos nasaes
da turba destacavam-se no côro do rufar dos sóccos sobre as lages das
calçadas. Entardecia: Passos era um rei. O sussurro da agitação ondeava
até ao fundo da grota de Villar, a poente da cidade, onde os generaes
de Lisboa se tinham recolhido na casa do Conde de Terena, quando,
já pelo escuro da noite, o rei do Porto chegou, seguido e acclamado
pela sua turba, perante o lugar-tenente da rainha de Lisboa. A cidade
não obedecia, rendesse-se o duque. Elle recusava-se, com firmeza,
assegurando que cumpriria a missão a que viera. Fóra, o povo clamava,
exigindo o reembarque dos generaes para o _Mindello_ que os trouxera.
Um certo Navarro subiu, e em nome do povo prendeu o duque.--«Meia
duzia de rotos que estão lá em baixo?»--«O bastante para repetir as
scenas de Alcantara!» (_Ibid._) Passos começou então a perceber que o
povo se excederia, que era capaz de trucidar alli o duque, se elle o
abandonasse. Tomou-lhe pois do braço e desceram, assim, até ao Ouro,
sobre o rio, para embarcar. O duque estava effectivamente preso, e
mais enleiado do que elle o seu guardião, defendendo-o contra a plebe
ameaçadora. Em uma noite negra e espessa de nevoeiro penetrante que
suffocava, alagando. Nada se via; apenas do meio do susurrar da turba
já se destacavam, já se repetiam os gritos--mata! mata! Ao longe
distinguia-se o rodar breve das seges que fugiam com os timoratos,
ouvia-se o rebate desesperado dos sinos; por entre o nevoeiro
moviam-se os archotes de lume vermelho, despedindo faiscas e rolos
de fumo, pondo manchas de luz funebre na massa espessa e humida do
ar. Seguiam pela estrada da Foz: ao lado, no rio negro, fluctuavam os
reverberos da procissão que parecia um enterro, ou o levar de um reu
ao patibulo. A turba clamava--mata! mata! e as suas ondas cresciam,
ameaçando passar por cima dos que iam adiante. Passos que levava o
duque pelo braço era corpulento, muito gordo; e o duque, sereno,
indifferente ao perigo, quando a onda do povo crescia impellindo-os,
dizia-lhe:--«O José Passos é uma formidavel trincheira!» (Macedo,
_Traços_) Assim chegaram á Cantareira, para embarcar; mas o escaler
desapparecera. José Passos, receando que o embarque fosse o signal
da fusilada, mandara-o embora, projectando já guardar os presos no
castello para os salvar. (_Disc._ do conde das Antas, sess. de 15
fever. 48)
O barco não apparecia; nada vinha do rio, negro e indifferente. Caía
a chuva, roncava o mar proximo nos baixios e cachopos da barra, e a
furia do povo crescia n’um clamor terrivel--mata! mata! O gordo Passos
suffocava: o cordão dos que com elle defendiam o duque, o Browne, os
Limas, os dois Navarros, Custodio Teixeira e os mais, continham a
custo as ondas do povo. E a chuva fria, miudinha, encharcava, deixando
distinguir mal a massa negra dos muros do castello bordados de recifes
contra os quaes o mar grunhia: só na densa bruma scintillavam as
lanternas entre as ameias, como pharoes a uma tripulação em navio
corrido pelo tempo. Dando a pôpa ao vendaval, acossados pelas ondas da
turba, batidos pelas rajadas de vozes pedindo morte, foram correndo
a entrar no porto de abrigo, dar fundo no castello. O duque estava
salvo, e preso. Passos socegado, regressou ao Porto.
No dia seguinte, com a adhesão do general da divisão do norte, o conde
das Antas, definiu-se a attitude do Porto sublevado: os extrangeiros
que dirigiam a rainha tinham-na obrigado a mudar o ministerio; S.
M. estava coacta e era mistér correr ás armas para a libertar.--O
programma da nova JUNTA repetia ao avesso o da de 42; e as revoluções
liberaes eram forçadas a usar de expedientes antigos de 23 e 24: os
expedientes apostolicos. Nada ha novo á luz do sol!
Para _libertar_ a rainha saíu, então, para o sul o conde das Antas com
o seu exercito, a juntar-se em Santarem a Bomfim: reunidos salvariam
Lisboa. O norte do Douro considerava-se seguro e por isso na urgencia
de congregar forças, retiraram-se as guarnições do Minho. Vianna,
proclamada a JUNTA, ficara sem tropa: os cartistas aproveitaram.
Expulsaram da praça o inimigo e fortificaram-se. Veiu em milhares o
povo dos campos dar um assalto, e a cidade capitulou: na refrega ficara
morto o tenente que a defendia. Os camponezes enfurecidos--eram quatro
mil--pediam vingança e mortes, exigindo as chaves do castello (onde o
velho governador reformado prendera tambem os mais compromettidos) mas
o homem prudente perdera as chaves a tempo, enfurecendo ainda mais a
turba com o seu ardil. Começavam os tiros, preparavam-se os machados,
ia começar o assalto, o arrombamento e a matança inevitavel, quando uma
piedosa senhora teve uma idéa abençoada.
Viu-se apparecer no meio das ondas do povo em furia uma procissão de
padres de cruz alçada, caminhando solemnemente, cantando--_Benedictus!
Benedictus! Dominus Deus, Israel!_ E os minhotos sobresaltados
paravam, escutavam, como tocados por um milagre. A furia começava
por ceder ao espanto. Que vinham fazer os padres? que mandaria Deus
agora?... Á sombra do crucifixo erguido, um sacerdote lh’o disse; e
caíram todos de joelhos, contritos, batendo nos peitos:--Bemdito!
bemdito e louvado seja! (D. João d’Azevedo, _Os dois dias_, etc.) Era
uma scena primitiva, e eloquente para nos mostrar até que ponto o povo
tomava parte na resurreição do setembrismo no norte. Seria José Passos
a verdadeira Maria-da-Fonte?
* * * * *
Não era de certo elle a encarnação do genio das populações minhotas,
superiormente individualisado na poetica pessoa do irmão; mas era uma
resurreição do espirito burguez e portuense, de tradicionaes arruaças,
na Edade-media, contra os bispos, e depois contra os reis. Bacharel
tambem, aprendera em Coimbra as fórmulas benthamistas em que agora se
moldava o antigo espirito de rebeldia burgueza. O Porto era um reino
seu, porque o genio portuense, em todas as suas varias cambiantes, se
achava n’elle individualisado. Era _pratico_, popular, bonacheirão,
e no fundo bondoso, com uma ironia rasteira que os _patriotas_ não
chegavam a perceber e por isso os não offendia. Era corpulento, quasi
obeso, e com o seu chapeu alto, sempre na cabeça, os collarinhos
antigos que chegavam á raiz dos olhos, a sobrecasaca longa, o cinturão
e a espada pendente, esbaforido, communicativo, abraçando toda a gente
nas ruas, satisfeito de si, feliz, na paz da sua consciencia e na
importancia da sua pessoa: José Passos era a imagem d’essa burguezia
ingenua das cidades de tradições feodaes, rebellada contra os irmãos
burguezes que o novo systema levantára á classe de aristocratas.
José Passos reinava no Porto como um pater-familias: todos eram filhos,
amigos, _patriotas_, irmãos. A rua era uma permanente assembléa, e o
governo similhante ao que a historia nos conta das velhas republicas da
Grecia, e das communas ou concelhos da Edade-media. Resolvia-se tudo
familiar, popular, patriarchalmente. Faltava o dinheiro? O Passos ia em
pessoa ao banco, (_Commercial_) entrava na thesouraria, dava no balcão
um sonoro murro, e exclamava: «Arre! D’aqui ninguem sae!» E contava,
atava o sacco e partia. (Macedo, _Traços_) Assim tirou 67 contos ao
banco Commercial, e 16 á companhia dos vinhos. (_Ibid._) Ninguem punha
em duvida a sua honradez e o seu espirito de economia burgueza era
falado com motivo. _Arranjou_ o governo e a guerra, durante quasi um
anno, com mil contos, se tanto. Conhecia a fundo todos pormenores da
administração: era um homem do officio politico, pratico, sem a sombra
de uma idéa, apenas com as fórmulas e rotulos decorados na mocidade.
N’isto via-se o contrario do irmão.
A sua bonacheirice, a sua franqueza popular alegravam, incutindo
esperanças, dissipando duvidas, afagando ambições, lisongeando
vaidades. Promettia sempre, tudo. Que proporções viria a ter a
Alfandega, se lá entrassem todos os que pediam empregos, e a quem o
tribuno popular os promettia sempre, invariavelmente? A Alfandega era
o eldorado dos _patriotas eximios_. Com o chapeu enterrado na cabeça
descaída sobre o hombro esqueredo, José Passos descia da Casa-pia, onde
era o palacio do governo, e os grupos de curiosos, ou de assustados,
perseguiam-no. Queria fugir-lhes: não podia. Seguia apressado, e atraz
d’elle, como um rebanho, furando, ás corridas, seguia a cauda dos
perguntadores. Que ha?--Isto está aqui, está acabado!--E com um tom de
mysterio, como quem revela altos segredos (já de todos conhecidos) ia
de grupo em grupo animando os espiritos, picando as ambições. _Isto_
ia bem. O nosso conde (das Antas) era para a _cousa_. E a vaquinha lá
de baixo ia rendendo ... ia rendendo. Grande gente!--Queria sumir-se;
outro grupo accudia: E de Lisboa?--Excellente! Ha de ir tudo pelo pó do
gato ... salvo o respeito devido á rainha!--Mudando de tom e assumpto:
É verdade, já sentou praça? Ah, sim? Bom patriota! Assim é que se
querem!--Escapava-se: era em vão.
Outro chegava, mysteriosamente, segurando-lhe a banda da sobrecasaca,
dizendo-lhe ao ouvido: Ha cartistas dentro da Junta!--Elle, virando-se,
com um ar fino, baixinho, respondia: Socegue; bem sabemos; escrevemos
direito por linhas tortas. Isto vae bem, vae bem ... (baixando mais a
voz, ao ouvido), mas é para nós: não espalhe o que lhe estou contando,
ouviu?--O outro inchava-se; elle queria proseguir. Debalde. Um
_patriota_ chegava com um plano de campanha infallivel, seguro ... Dê
cá; traz isso escripto? Não? Escreva-m’o, escreva-m’o, meu general!--A
paciencia começava a fugir-lhe, quando outro vinha com uma combinação
dynastica para substituir D. Maria II e resolver tudo pela raiz.--Pois
sim, pois sim, meu patriota. Eu já tenho cinco memoriaes para rei.
Mande o seu, e será attendido na occasião competente ...
De tal modo conseguia romper, chegar pela Batalha á Aguia d’Ouro,
quartel general do setembrismo, no meio da confusão da gente
congregada. José Passos chamava a isto o _methodo confuso_, (T. de
Vasconcellos, _Prato d’arroz doce_) e com effeito nenhum outro methodo
podia servir no meio de uma agitação vaga, em que as plebes, sem
vontade determinada, só com odio aos Cabraes, seguiam os demagogos
presididos por chefes cujo proposito era moderar a revolução, convencer
a rainha a que pactuasse com elles. O _methodo confuso_ era o methodo
natural de uma cidade em coufusão, de um reino confundido. Todo o Porto
era um ágora e realisava o programma radical da omnicracia--o governo
de todos por todos.
Da Batalha e do Postigo do Sol, observando as janellas da Casa-pia,
espiando a saída de alguns dos da JUNTA, vinham os magotes enchendo
as ruas até á Aguia-d’Ouro e em frente do Estanislau. A Praça-Nova e
os Loyos, a rua de Santo-Antonio e as Hortas, os Clerigos, a rua das
Flores até S. Domingos, e por S. João até á Ribeira: todo o coração
do Porto borborinhava de gente, falando, resolvendo, discutindo,
ameaçando, com a verbosidade e a sufficiencia ingenitas nos filhos
da cidade da Virgem. Os mercadores estavam ás portas sentados nos
seus bancos, com a cabeça descoberta, os pés nos sóccos, trocando os
seus pareceres com os transeuntes. Estalavam nas lages das calçadas
as ferraduras de cavallos a galope, vinham ordenanças da municipal
correndo: que seria? Que novidade? O soldado no seu caminho,
atravessava os grupos com o _officio_ de papel branco entalado no
peito, e abriam-se as janellas para vir vêr: que haveria?--Outras vezes
eram cavalleiros que chegavam aos grupos, do outro lado do rio, com a
banda a tiracollo, a sobrecasaca desabotoada, em vez de barretina um
chapeu desabado; uns sem espada, mas na argola do sellote um bacamarte
de bocca-de-sino; outros á paisana, montando bons cavallos, seguidos
por creados de farda á velha moda da provincia: eram _fidalgos_ que
vinham juntar-se ao _povo_. A turba acclamava-os, elles paravam, e
havia effusões de sentimento, apertos de mão, saudes, vivas:
Eia avante! Eia avante!
Eia avante! Não temer!
Pela santa liberdade,
Pelejar até morrer!
Não descobre o leitor n’esta estrophe o que quer que é de _litterario_,
pouco espontaneo? Que _santa_ é essa _santa_ liberdade? Compare o
_Rei chegou_, francamente plebeu, nada metaphysico; compare o caso
de Vianna--Bemdito! e louvado seja!--francamente catholico, tambem
nada doutrinario: e diga se n’esse hymno que agora o povo canta, ha a
expressão do que elle sente. Não irá o povo levado sem saber para onde,
nem porque: apenas impellido por protestos negativos contra os males
que o affligem?
São burguezes rebellados, não são o povo em revolução, aquelles
que sob a presidencia do Passos se reunem na Casa-pia, o palacio
da JUNTA. É uma revolta de communa á antiga, a do Porto. São os
_popolani grassi_, que se levantam contra o _podestá_ de Lisboa.
Passos, entendido em politicas, bacharel, plumitivo, não é decerto
um Masaniello. O litterato Seabra não vem da rua: traduzia Horacio,
falara nas camaras, contara já por alguma cousa na politica (V. a biog.
por T. de V. na _Rev. contemp._); outrotanto Lobo d’Avila, o general;
outrotanto os mercadores de grosso trato; outrotanto o humoristico
Almeida e Brito, ouvido nos tribunaes, advogando. Na Casa-pia reinavam
patriarchal, espartanamente. Passos tinha os ministerios da fazenda
e dos extrangeiros, que ambos cabiam n’uma sala com duas mezas: n’uma
elle, na outra o secretario, official maior, amanuenses e tudo, n’um
homem só. Quando havia conselho, o _pessoal_ ia para fóra _patulear_
com os patriotas que enchiam os corredores, á espera de novidades.
Terminada a sessão, Passos abria a porta, de chapeu na cabeça, penna
entre os dedos, chamava o _pessoal_ (T. de Vasc. _Prato d’arroz doce_)
Não illuda porém tudo isto: a installação era provisoria, porque a
definitiva esperava-os em Lisboa. Nada queriam destruir: apenas acabar
de expulsar os Cabraes para governarem elles, com as suas opiniões e
pessoas, das quaes sinceramente julgavam depender a fortuna do povo.
O _povo_ era um bom instrumento, mas se tudo fossem soldados, melhor
ainda. «José, fiquei de cama por causa de uma constipação. Esta gente
(os populares) deve servir-nos como exercito auxiliar, mas a nossa
força real deve consistir nos soldados, ou ao menos em homens que o
pareçam». (Carta de Almeida e Brito a José Passos; em Macedo, _Traços_,
etc.)
* * * * *
_Esta gente_, porém, chamada á revolta sentia pulsar-lhe nas veias o
antigo sangue de nómadas barbarescos, de bandidos historicos, serranos
guerreiros: não os minhotos, mas os transmontanos, os beirões, os
extremenhos, e toda a população transtagana. A sedição lavrava pelo
reino inteiro. A tyrannia cabralista acirrara o instincto adormecido, e
as politicos do setembrismo rebelde davam o pretexto para a explosão.
Por toda a parte surdiam guerrilhas; de todos os lados o exercito
se bandeava. José-Estevão e Vasconcellos tinham saído de Lisboa
a sublevar Santarem, quartel de cavallaria 4; e tres guerrilhas
esperavam, dominando na Extremadura, a chegada do exercito que vinha
do Porto, com o conde das Antas: Vasconcellos no centro, flanqueado
por José-Estevão pela direita e pelo conde da Taipa pela esquerda. A
JUNTA nomeara Braamcamp governador civil da capital, _in partibus_,
porque Lisboa era do governo; mas pelo districto o governador, com o
conde de Villa Real e outros, andavam de terra em terra alliciando
sectarios, fomentando a revolta. (_Elog. hist. de A. J. Braamcamp_, do
a.) Ao sul, mandava Mantas em Setubal, o conde de Mello e Galamba no
Alemtejo; o general Celestino levantara-se no Algarve com o guarnição;
Castello-Branco, Elvas, e Santarem onde Manuel Passos creara uma JUNTA
(D. João d’Azevedo, _Dois dias_, etc.), eram contra o governo.
A 6 de novembro saíu de Lisboa Saldanha com o seu exercito para se
bater com o de Antas. Na capital lavrava um terror verdadeiro, e
completa anarchia nos partidos. Presentia-se uma catastrophe, porque
os do governo, vendo o opposição da Inglaterra ao auxilio da Hespanha,
acreditavam-na alliada da JUNTA e consideravam Wylde um emissario
mandado a expulsal-os do poder. Corria que os inglezes davam todo o
dinheiro aos rebeldes. E porque fomentariam assim a rebellião? Para
minar a ordem reinante em Hespanha, creando tambem lá um partido
exaltado que contrariasse a influencia franceza, dominante desde o
fatal successo dos casamentos de Guizot. Assim a Inglaterra era a
supposta alliada da JUNTA, e não só ella o inimigo do throno portuguez:
tambem os falsos cartistas, os perfidos _ordeiros_. «Cartistas! (dizia
uma proclamação) O inglez Palmella, o rapoza Magalhães, o inglezado
Athouguia e outros que taes, tratam com um coronel inglez de nos
vender á Inglaterra. Fóra com os traidores! fóra com os marotos! Se
não querem deixar-nos a bem, saiam a mal: a pau ou a tiro! Fujam ou
morrem!» (No _Livro azul_, 19 de nov.)