Neros eram os Cabraes, mas não menos o era Palmella, com as suas

branduras, impedindo a victoria da democracia. Estava-se outra vez em

38: mas porque motivo se restaurara a CARTA, senão porque a _ordem_ de

Bomfim-Rodrigo era uma desordem insupportavel? Estava-se outra vez em

38: mas acaso então a democracia annuira? Como annuiria pois agora? Os

jornaes vermelhos protestavam contra a paz; as JUNTAS não desarmavam,

por não quererem perder uma victoria que julgavam sua.

Parece que o governo fez pacto com o diabo e que forceja por conservar

nos commandos homens nos quaes o povo não confia nem póde confiar.

(_Revol. de Set._ 3 de junho)

Os militares não querem as demissões? Leve-lh’as o ministerio

escriptas em sangue. O throno não quer abraçar deveras o povo? Pois

retire-se o ministerio do seu lado. E se a côrte vier depois para nos

abrir os braços. Já temos a resposta prompta,--é muito tarde! (_Grito

Nacional_, 5 de junho)

Vida nova! Começar outra vez! Côrtes constituintes! eis ahi o

clamor de toda a esquerda, julgando-se o ecco do _povo_, a voz da

Maria-da-Fonte, vencedora contra o throno, contra os Cabraes, contra a

_ordem_. Palmella, oscillando, bolinando, na sua esperança de fundar as

cousas sobre o equilibrio, metteu novo lastro no governo, lastro mais

_setembrista_--Sá-da-Bandeira, Julio Gomes e o antigo Aguiar. Estavam

satisfeitos?

A muito custo de rogos e promessas se conseguira o desarmamento das

JUNTAS. No Porto as authoridades foram de chapéu na mão pedir por favor

ás forças populares que debandassem; e em Santarem viu-se difficuldade

ainda maior, mais graves perigos. Os patuléas, em vez de reconhecer

o governo, queriam marchar sobre Lisboa e leval-a de assalto. O bom

Passos levantou-se da cama onde curtia a febre das sezões ribatejanas,

teve de montar a cavallo acompanhado pelo Galamba, para cortar o passo

ás forças que, depois de se armarem nos depositos arrombados, iam já em

Villa-Franca. (Macedo, _Traços_) O desilludido tribuno chorou, pediu,

rogou, e o seu prestigio antigo salvou Lisboa da invasão. No meado de

junho as JUNTAS estavam dissolvidas: no meiado de julho (19) entravam

os setembristas no gabinete. Equilibraram-se as cousas, renasceu a

ordem, sellou-se a paz? Não; ninguem o creia. Como póde haver paz

quando não ha pão? quando a capital e o reino ardem n’uma crise? quando

a agiotagem intriga para se salvar do naufragio? De certo se não

acertou com a verdadeira estrada: ha que voltar ao ponto de partida.

Qual? O radicalismo do _Sacramento_ diz que a Maria-da-Fonte quer

_liberdades_ e constituintes. Os conservadores, os agiotas no Banco

dizem que o reino e a riqueza querem CARTA e cabralismo. Qual dos

dois levará a melhor? Nenhum; e só depois de terminada a guerra que

vae começar, a _liberdade_ reinará sobre o vasio das idéas, com o

absolutismo dos interesses.

NOTAS DE RODAPÉ:

[29] V. _Hist. de Portugal_, (3.ª ed.) II, 176-8.

[30] V. _As raças humanas_, I, pp. 197-213.

[31] V. _Syst. dos mythos relig._ XVII.

III

A GUERRA CIVIL

1.--O 6 DE OUTUBRO

N’este dia, pelas dez da noite, a rainha chamou ao paço o duque

presidente do conselho, e fechando-o por sua propria mão n’uma

sala obrigou-o a lavrar o decreto da sua demissão e o da nomeação

de Saldanha. Era uma segunda Belemzada? Era; menos Passos e a

guarda-nacional, menos Van-der-Weyer e os soldados inglezes. A educação

liberal progredira a ponto de crear entre os politicos um partido de

absolutismo e de reduzir á impotencia a _soberania nacional_. Era outra

Belemzada, e a desforra de Ruivães; porque aos marechaes vencidos em

37 confiava a rainha agora a defeza do seu throno. Saldanha presidia o

governo, Terceira ia para o norte socegar o Porto (8) depois da parada

da vespera no Terreiro-do-Paço, onde a tropa acclamára a CARTA. Estava

definitivamente acabada a Maria-da-Fonte, restaurado o cabralismo,

mas sem Cabraes apparentes. Saldanha encarregara-se de lhes obedecer

no que mandassem: e de os defender e rehabilitar até dar tempo a

uma repatriação por emquanto prematura. Desde largos annos, dez ou

onze, que o marechal descera a não poder servir para mais do que para

instrumento da politica alheia.

Depois das suas campanhas diplomaticas de Londres e de Madrid (emquanto

durou o incidente irritante da navegação do Douro), o marechal,

desnecessario e incommodo, tinha sido enviado para Vienna no outomno

de 41 a gozar os ocios de uma espectaculosa embaixada. A rainha e os

seus confidentes tinham-no lá de reserva para o momento em que fôsse

necessario, quando em 42 a restauração da CARTA provocou a scisão do

cartismo. Contra os Cabraes, inclinando para o setembrismo com o qual

vieram a colligar-se, os ordeiros (Rodrigo, Palmella, Silva Carvalho,

etc.) preparavam com intrigas as desordens que os radicaes forjavam em

Torres-Novas e Almeida. Em Vienna, o marechal applaudira a restauração

da CARTA; e sendo embaixador portuguez, era o confidente do Paço que

tinha Dietz por orgão: «O paiz inteiro está tranquillo e detesta--á

excepção de alguns velhacos ou doidos--a revolução que vegeta em

Almeida. (27 de março) Se as intrigas de Palmella e Silva-Carvalho não

tivessem vindo naufragar perante a firmeza de S. M. a rainha e perante

o bom-senso da nação, _estariamos_ já a caminho de entregar o poder aos

setembristas e de vêr reinar em breve tempo Bomfim, Cesar e C.ª» (25 de

agosto de 44. Cartas de Dietz a Saldanha; em Carnota, _Mem._)

O pobre marechal ia servindo. Em Lisboa receiavam que elle voltasse,

e que, dando ouvidos, como sempre dava, ás tentações da lisonja,

viesse complicar mais as questões com o seu genio aventureiro, o seu

prestigio militar e uma provada nullidade politica que o entregava

áquelle que melhor o soubesse assoprar. «Fique onde está, escreviam-lhe

de Lisboa, porque penso que ainda hade ter de salvar a rainha de ser

posta pela barra fóra». (Carta de Reis e Vasconcellos, 9 de março de

46; em Carnota, _ibid._) A Maria-da-Fonte rebentou quando Saldanha

se achava na Belgica. Com os annos, as raizes catholicas do seu genio

reverdeciam e entretinha-se a ouvir sermões em Liege, opinando entre o

merito relativo dos prégadores. (_Ibid._) Desde Vienna que trazia em

plano uma grande obra: a concordancia das sciencias com os mysterios da

religião, e o alcance do seu espirito vê-se n’estas linhas escriptas

ao futuro cunhado, para Inglaterra: «Peço-lhe que indague ahi quaes

são os melhores authores, antigos e modernos, que tém escripto sobre a

existencia de Deus e a immortalidade da alma; quaes d’essas obras se

pódem obter e seus preços». (Carta de 31 de maio de 46, _ap. ibid._)

Já então Portugal ardia em guerra, e Saldanha deixou a sciencia pela

politica: valiam ambas a mesma cousa! Embarcou em Inglaterra, chegando

a Portugal a 23 de julho.

Quem o conquistaria? Palmella com o seu governo? Os radicaes? O paço?

Facto é que todos o queriam, todos o adulavam, todos lhe chamavam

salvador da patria, homem unico, arbitro, etc.; e o marechal, inchado,

não era capaz do medir o seu valor, nem de aferir a verdade das

adulações. Ao mesmo tempo que cada qual o queria ganhar a si, todos

receiavam as tentações alheias, por bem conhecerem com quem tratavam.

A rainha déra ordem para que de bordo fosse directamente ao paço,

«sem falar a ninguem antes». (Carnota, _Mem._) Elle foi, e conta

(_Curtissima expos._ etc.) que a rainha o advertira dos planos dos

cabralistas, dissuadindo-o de tomar a direcção do movimento que se

preparava contra os actos de maio e junho, passo que, na opinião d’ella

rainha, augmentaria em vez de diminuir as desgraças da patria.

Saldanha principiou, pois, por não ouvir os pedidos dos cabralistas

que renegavam os Cabraes por terem _fugido_ (_O d. de Sald. e o c.

de Thomar_, anon.) Depois mudou: a rainha mudou tambem. Agora Leonel

e os setembristas queriam seduzil-o; Palmella chegou a obter d’elle

annuencia para a expulsão dos Cabraes do Conselho d’Estado; mas, pelo

fim de agosto, já o marechal se entendia com Gonzalez Bravo, _alter

ego_ de Cabral em Lisboa. O seu amigo Howard, embaixador da Inglaterra,

advertia o particularmente, como a uma creança tonta: _for God’s sake,

be cautious!_--tenha juizo, pelo amôr de Deus! (Carta de 29 de agosto;

em Carnota) A Inglaterra não approvava de modo algum a restauração

cabralista projectada; e foi o que se viu claramente no decurso da

guerra. A preponderancia da influencia franco-hespanhola em Portugal

não lhe convinha.

Entre as varias tentações com que o disputavam, levou por fim a melhor

o cabralismo. Em 24 de setembro acceitou a presidencia d’esse partido;

e de Madrid, o conde de Thomar confessou-se-lhe obediente soldado. Com

a sua fôfa basofia, Saldanha, ingenuamente pacifico, propôz a Palmella

um ministerio de conciliação. Pois se elle em pessoa, elle, o grande

marechal, queria a paz e se lhe sacrificava,--elle o arbitro, elle o

tudo! Pobre infeliz que não via em si aquelle _tronco_ de que José

Liberato nos falou! Pobre simples, sem talento, de que a anarchia

apenas fazia um chefe--como a cortiça que tambem boia e corre sobre a

agua revolvida! Palmella recusou; e então o marechal sentiu o passo

que déra e como estava obrigado a ir até ao cabo, a representar o

papel para que, sem o saber, desde muito a rainha o escolhera: _seu_

marechal, d’ella e do conde de Thomar.

Era indispensavel outra Belemzada; e Saldanha que assistira á

primeira, receiava-o. No paço estavam elle, a rainha, o esposo, o padre

Marcos e Dietz: n’essa conferencia, a soberana expôz o seu despeito e

o sue plano. Saldanha observou a S. M. que se não fôsse bem succedido

e não morresse na empreza, seria inevitavelmente fusilado, e ella, a

rainha, expulsa do reino. O professor objectara ser n’esse caso melhor

pôr de parte o projecto, ao que a rainha, voltando-se para o marechal,

retorquira: «Deixa o lá; manda-o para um convento de freiras. Antes

quero perder a corôa do que seguir sendo insultada todos os dias. Se

fôr necessario, tambem eu sairei, tambem irei ás barricadas». (Carnota,

_Mem._) Pittoresco esboço de uma scena da Edade-media!

* * * * *

Terceira, porém, não era como Saldanha. Na sua mansidão era grave, e

serio na sua curta capacidade. Aristocrata por temperamento e educação,

estivera em 23 ao lado do rei, contra as côrtes jacobinas; mas desde

que mudara em 26, conservou-se o mesmo sempre. Bondoso e pacato,

brioso e valente, nada chimerico, amando a boa-vida e o cumprimento

dos deveres, não era odiado pelos inimigos, embora fôsse o apoio mais

seguro do throno liberal. E mais seguro, dizemos, porque a sua adhesão

não proviera em 26 de uma opinião favoravel á doutrina da CARTA:

opinião que teria mudado sem duvida, como a tantos outros, a todos,

succedeu.

A sua adhesão provinha de uma preferencia pessoal por D. Pedro, de quem

se sentia o vassallo, o homem-ligio: para onde o imperador fôsse, ou a

rainha sua filha e herdeira, ia elle. De doutrinas não sabia; tinha só

instinctos, sentimentos, e esses eram aristocraticos e conservadores;

nem podiam ser outra cousa, com a linhagem, o temperamento e a educação

do duque. O constitucionalismo, e as suas fórmulas e discursos, eram

apenas uma distracção e um habito do seu genio: custar-lhe-hia a viver

sem o systema representativo, porque o entretinham muito os debates

da imprensa, as discussões do parlamento, e não podia passar sem as

conversas animadas e ás vezes chistosas dos corredores da camara.

(Macedo, _Traços_) Cortezão, homem-do-mundo, era um personagem das

antigas côrtes arrastado para a vida do liberalismo burguez pela

fidelidade ao suzerano.

Se a demagogia o irritava, provocando n’elle um odio desdenhoso, o

das Archotadas, o dos tumultos de Lisboa em 35, etc., a burguezia

de petulantes _parvenus_ provocava-lhe uma frieza ironica. Assim,

repellira os Cabraes do governo, negando-lhes o exercito contra a

Maria-da-Fonte; mas logo se retirou tambem, por não ter aquelle

desejo pueril de Palmella de _não ficar de parte_. Não pactuaria com

os patuléas como o diplomata pactuava com elles, com todos, com o

diabo em pessoa, a ver se conseguia _equilibrar_ um throno, ou um

monte de degraus desconjuntados, para sobre elle reinar com a sua

moderação e a sua sabedoria. Vendo-o assim descer, inclinar-se para a

democracia clamorosa, Terceira naturalmente se arrependeu do acto de

abandonar os Cabraes á condemnação popular e de certo as combinações

que tinham precedido a «revolta dos marechaes» (37) se renovaram para

uma outra aventura. Mas os conservadores tinham feito dos Cabraes mais

do que chefes, uma bandeira, e não viam no seu gremio pessoas que,

em talentos, em coragem, em audacia, podessem medir se com elles.

(Macedo, _Traços_) Os Cabraes estavam em Hespanha, onde tambem reinava

o _cabralismo_ da união-liberal, e de accôrdo com o reino visinho,

podiam suffocar-se de uma vez a demagogia e o miguelismo que ameaçava

levantar cabeça. Costa-Cabral governaria de fóra o barco n’esta sua

nova derrota, Saldanha ficaria em Lisboa, Terceira iria para o norte.

E a rainha? Que papel era o seu, n’esta segunda aventura, já o vimos.

Não só apoiava: instigava, ordenava. Não tremia jogando talvez a

cabeça, decerto a corôa, porque tinha coragem para tanto; porque

essa corôa estava, ou pensava ella estar, em maior perigo, antes, do

que depois do golpe-d’Estado. Se se não pozesse cobro á demagogia--e

Palmella não queria, não sabia, ou não podia fazel-o!--a historia

precipitar-se-hia; e devemos lembrar-nos de que as recordações dos

casos de Paris e da sorte de Luis XVI, que por falta de audacia morreu,

davam fundamento á resistencia. A rainha, por não ter a perfidia de

um Luis Philippe, não podia sophismar o systema: atacava pois de

frente, com audacia viril, á portugueza. Filha de reis, fôra educada

por mestres que lhe ensinavam o _cabralismo_ como a expressão pura do

systema liberal. A sua sinceridade nobre não pretendia ao absolutismo

antigo, mas queria a doutrina da CARTA de seu pae, repellia com energia

os ataques da patuléa reproba, _pé-fresco_, ataques dirigidos ao seu

caracter soberano e á sua honra de mulher.

* * * * *

Havia pois uma guerra declarada entre a rainha e o _povo_, assim a

patuléa se dizia. O hymno da Maria-da-Fonte cantava-se com uma lettra

francamente denunciadora do estado dos animos:

Apprende, rainha, apprende

Mede agora o teu poder:

Tu de um lado, o povo d’outro,

Qual dos dois hade vencer!

Mas esse sentimento propagado da hostilidade da corôa, sentimento que

ganhara raizes com a violencia e os crimes do governo cabralista; essa

percepção vaga de um direito novo, de facto opposto ao direito sagrado

dos monarchas, quando queria transformar-se em opiniões e programmas,

só produzia as antigas chimeras jacobinas, desacreditadas; e se, por

um dos acasos da lucta conseguia vencer, era derrotado pela força das

cousas (como em setembro), dessorando-se logo na mão dos mediocres

(como em 38 e agora), para se entregar á moderação palmellista. A

doutrina _liberal_ achara em Cabral um homem; a doutrina democratica

não o achava, não o podia achar, porque longos annos, ainda não

decorridos, seriam necessarios para chegar a definir os principios

organicos do direito novo.

Os programmas dos democratas em 46 eram uma repetição de Setembro, já

renegado pelo seu homem eminente, Passos; e com razão se previa que a

dictadura de José-Estevão não seria mais do que a repetição aggravada

das scenas anarchicas de havia dez annos. Que pediam, do seu club

do Sacramento, José-Estevão, Foscôa (Campos), Sampaio e os socios,

na vespera das eleições _independentes_ annunciadas por Palmella do

governo? Constituinte! a antiga panacéa setembrista: mas--oh, fatal

condição das chimeras!--os que exigiam uma constituição nova, saída da

vontade do _povo_, iam ao mesmo tempo dizendo já qual essa vontade

havia de ser, e o que a constituição havia de fixar: «Proclamação

da soberania nacional como fonte de toda a authoridade;--Reforma da

camara dos pares;--Eleições directas;--Liberdade de associação e de

imprensa;--Approvação dos contractos pelas côrtes;--Reorganisação

da guarda-nacional;--Economias na despeza até equilibrio do

orçamento;--Reducção do effectivo do exercito;--Suppressão do

conselho-d’Estado;--Fomento industrial e economico;--Reforma da

lei da regencia, para que esta não possa recaír em extrangeiro,

embora naturalisado;--Exame dos contractos desde 42 e abrogação dos

illegaes;--Nacionalisação do pessoal da casa real;--Prohibição dos

deputados receberem empregos ou mercês». (V. o _Manif._ da Ass. eleit.

setembr. 5 out. 46)

Era um rol de receitas infalliveis: a patria seria, sem duvida alguma,

salva. Mas quem analysar, cada uma de per si, as propostas, e todas no

seu conjuncto, obtem uma impressão singular. Não tornaremos a falar já

da contradicção organica indicada antes; não entraremos no minucioso

estudo do papel. Acima de tudo, vemos: constituintes, eleições directas

(mas que o governo não possa comprar esses soberanos representantes

do povo soberano!) e guarda-nacional, isto é, a volta a 1836. Ora os

dez annos decorridos e as confissões do proprio Passos não seriam

uma resposta cruel a tribunos tão ardentes, mas tão pouco originaes?

A precipitação com que as cousas, entregues ás mãos já trémulas de

Palmella, iam pendendo para o lado da revolução, é um dos motivos da

decisão tomada em 6 de outubro; mas no programma do Sacramento lemos

_items_ que obrigam a scismar: Fomento economico? Economia na despeza?

Exame dos contractos?--Que intervenção é esta da finança nos projectos

dos ideologos, tão mal conceituados fazendistas?

* * * * *

É que a solução violenta de 6 de outubro foi tambem determinada pelo

crescer da crise. A Maria-da-Fonte declarara-a; e os seus ministros nem

a sabiam resolver, nem podiam com os agiotas, suzeranos do Thesouro,

ameaçados de uma ruina total. De abril a junho o 5 por cento baixava

de 67 a 50 e com elle, na mesma razão, todos os papeis de bolsa. Tres

dias depois da queda de Costa-Cabral, declarava-se o curso forçado das

notas do banco. (Dec. 23 de maio) Houvera uma corrida, e os cofres

ficaram vasios: todo o producto da emissão, e mais ainda, estava no

Thesouro. De tal fórma se tinha mascarado por quatro annos a sua

penuria: fôra como uma restauração de papel-moeda; e agora, decretado o

curso-forçado, era de facto outra vez a praga que 34 quasi supprimira.

Mas se o Banco era credor do Thesouro, e o Thesouro lhe não podia

pagar, que havia de fazer o governo? Importar dinheiro? D’onde? com

quê? Pedil-o aos agiotas? Elles, em vez de darem, pediam, reclamavam,

e obtinham tambem uma moratoria para as _promissorias_ da _Confiança_,

que de outra fórma quebraria. (Dec. 29 de maio) Tambem o dinheiro

d’ella fôra todo parar ao insaciavel Thesouro portuguez faminto, desde

1820 até hoje, e talvez para todo o sempre condemnado á fome.

E a Maria-da-Fonte, a que reclamava em programmas o exame dos

contractos, era a propria cujos ministros aggravavam a crise, tornando

solidarios o Banco e a _Confiança_, preparando a ruina já começada

da emissão fiduciaria portugueza. E porque? Porque esses ministros,

e todos, eram forçados a obedecer á aristocracia nova creada pela

_liberdade_: com a differença de que uns a reconheciam, e outros,

nem por se rebellarem contra ella, eram menos os seus servos. Em 15,

o 5 por cento ainda valia 62; depois do decreto de 29 desce a 50.

Nos primeiros dias de agosto as notas rebatem-se a 400 e 480 rs. (V.

_Boletins da bolsa_, nos _Diarios_)

Os financeiros perdiam-se, olhando o Thesouro vasio; e sob o nome de

_economias_ decretavam uma banca-rota duas vezes má: porque rematava a

crise, acabando de arruinar o credito; e porque cerceava os vencimentos

dos empregados, sem ficarem com isso habilitados a pagar o resto dos

juros, nem dos ordenados. A divida interna, já com o desconto de

uma decima, recebia segunda; e duas de uma vez a externa. Perdida a

esperança de emprestimos extrangeiros, podia-se, com effeito, cortar as

unhas aos judeus de fóra. Ao mesmo tempo, os empregados soffriam uma

deducção de duas decimas. (Dec. 21 de agosto) A bolsa fecha: não ha

quem dê um real pelas inscripções; (18 agosto-setembro) e o rebate das

notas cresce, cresce sempre. Já tinham expirado as moratorias e, como

expediente, prorogaram-se por mais quarenta dias. Os tortulhos nasciam

da crise: agiotava-se largamente em rebates.

E não se via o meio de saír dos embaraços, porque as declamações

contra os Cabraes nada faziam; e a victoria do setembrismo, com as

suas chimeras de rectidão, com a sua incapacidade financeira, não

conseguiria nas eleições proximas senão queimar tudo ... E depois?

depois?... D. Miguel? A Hespanha? A cabeça andava-lhes á roda.

Em 1 de outubro uma medida _rasgada_, acompanhada de conselhos

prudentes e exortações patrioticas, appareceu no _Diario_. As

moratorias, o curso-forçado das notas prorogavam-se até ao fim do

anno. Mas descancem: não haveria mais agiotagem, porque o governo

punha um fiscal seu no Banco, e n’esses tres mezes ia arranjar-se o

dinheiro para lhe pagar, e elle então pagar as notas. Com a _Caixa

de amortisação_, creada na Junta, solver-se-hia a divida fluctuante,

ominoso legado cabralista. Essa caixa havia de encher-se depressa:

adjudicavam-se-lhe os bens-nacionaes ainda restantes e o que fôsse

rendendo a cobrança das dividas activas dos conventos! e os impostos em

debito até 41! e os juros de quaesquer inscripções amortisadas! e uma

dotação annual de 100 contos sobre o rendimento das Alfandegas. (Dec.

de 1 de outubro) Os cem contos ao anno não davam para o juro de uma

divida superior a vinte mil: tudo o mais eram palavras ou poeira, a vêr

se cegavam a vista dos crédores.

Baldado empenho, que só deu de si pôl-os decididamente do lado da

reacção tramada, uma vez que a fraqueza palmellista não era capaz de

resolver uma crise, na qual tinham as fortunas arriscadas. Ao lado de

Saldanha com a sua espada, estavam elles, pois, com as suas bolsas.

Passou o dia 6 de outubro; ganhou-se a victoria: mas deram todos com

inimigos imprevistos. Protestava, insurgia-se o reino inteiro--e o

rebate das notas, subia, subia! Em vez da paz, era a guerra; em vez

da fortuna, a ruina total. Saldanha desembainhou a espada; os agiotas

mostraram os dentes: multado em 50 a 500 mil réis quem recusar receber

notas! (Dec. 14 de nov.) Mas como impedir a subida dos preços? Mas

como usar da espada, se Antas no Porto se bandeou? Os capitalistas

apressaram-se a exigir as arrhas da sua adhesão; e a 19 appareceu

decretada a fusão do Banco e da _Confiança_: complicada, aggravada a

crise com um _negocio_ em que a agiotagem salvava os seus capitaes,

abrigando-os á sombra do curso-forçado permanente de 5:000 contos

outorgado ao novo banco, verdadeiro papel-moeda que valeria para a

totalidade dos pagamentos até junho de 47 e para dois terços até ao

fim de 48, devendo ir sendo amortisado gradualmente n’esse periodo.

(Dec. 19 de novembro) As acções da _Confiança_ triplicavam de valor,

e as notas baixavam sempre. A agiotagem déra o seu golpe-d’Estado,

salvando-se para arruinar a nação: mais feliz do que os politicos, a

ponto de irem a pique no naufragio do paiz.

* * * * *

Saldanha, ou antes Cabral, de quem elle era o homem-de-ferro, contara

com a resistencia do reino e prevenira-se.

Estou persuadido de que a ultima repentina mudança da administração em

Portugal foi em parte levada a effeito por conselhos de Madrid, e que

o marechal Saldanha tem estado, sem o saber, servindo de instrumento

para pôr em pratica os planos do conde de Thomar e de Gonzales Bravo,

nos quaes me parece que uma influencia hespanhola e uma união intima

dos governos de Madrid e de Lisboa para o futuro se apresentam como

causas principaes. (Southern a Palmerston, 22 de out. _Livro azul_)

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 13 / 30 段