branduras, impedindo a victoria da democracia. Estava-se outra vez em
38: mas porque motivo se restaurara a CARTA, senão porque a _ordem_ de
Bomfim-Rodrigo era uma desordem insupportavel? Estava-se outra vez em
38: mas acaso então a democracia annuira? Como annuiria pois agora? Os
jornaes vermelhos protestavam contra a paz; as JUNTAS não desarmavam,
por não quererem perder uma victoria que julgavam sua.
Parece que o governo fez pacto com o diabo e que forceja por conservar
nos commandos homens nos quaes o povo não confia nem póde confiar.
(_Revol. de Set._ 3 de junho)
Os militares não querem as demissões? Leve-lh’as o ministerio
escriptas em sangue. O throno não quer abraçar deveras o povo? Pois
retire-se o ministerio do seu lado. E se a côrte vier depois para nos
abrir os braços. Já temos a resposta prompta,--é muito tarde! (_Grito
Nacional_, 5 de junho)
Vida nova! Começar outra vez! Côrtes constituintes! eis ahi o
clamor de toda a esquerda, julgando-se o ecco do _povo_, a voz da
Maria-da-Fonte, vencedora contra o throno, contra os Cabraes, contra a
_ordem_. Palmella, oscillando, bolinando, na sua esperança de fundar as
cousas sobre o equilibrio, metteu novo lastro no governo, lastro mais
_setembrista_--Sá-da-Bandeira, Julio Gomes e o antigo Aguiar. Estavam
satisfeitos?
A muito custo de rogos e promessas se conseguira o desarmamento das
JUNTAS. No Porto as authoridades foram de chapéu na mão pedir por favor
ás forças populares que debandassem; e em Santarem viu-se difficuldade
ainda maior, mais graves perigos. Os patuléas, em vez de reconhecer
o governo, queriam marchar sobre Lisboa e leval-a de assalto. O bom
Passos levantou-se da cama onde curtia a febre das sezões ribatejanas,
teve de montar a cavallo acompanhado pelo Galamba, para cortar o passo
ás forças que, depois de se armarem nos depositos arrombados, iam já em
Villa-Franca. (Macedo, _Traços_) O desilludido tribuno chorou, pediu,
rogou, e o seu prestigio antigo salvou Lisboa da invasão. No meado de
junho as JUNTAS estavam dissolvidas: no meiado de julho (19) entravam
os setembristas no gabinete. Equilibraram-se as cousas, renasceu a
ordem, sellou-se a paz? Não; ninguem o creia. Como póde haver paz
quando não ha pão? quando a capital e o reino ardem n’uma crise? quando
a agiotagem intriga para se salvar do naufragio? De certo se não
acertou com a verdadeira estrada: ha que voltar ao ponto de partida.
Qual? O radicalismo do _Sacramento_ diz que a Maria-da-Fonte quer
_liberdades_ e constituintes. Os conservadores, os agiotas no Banco
dizem que o reino e a riqueza querem CARTA e cabralismo. Qual dos
dois levará a melhor? Nenhum; e só depois de terminada a guerra que
vae começar, a _liberdade_ reinará sobre o vasio das idéas, com o
absolutismo dos interesses.
NOTAS DE RODAPÉ:
[29] V. _Hist. de Portugal_, (3.ª ed.) II, 176-8.
[30] V. _As raças humanas_, I, pp. 197-213.
[31] V. _Syst. dos mythos relig._ XVII.
III
A GUERRA CIVIL
1.--O 6 DE OUTUBRO
N’este dia, pelas dez da noite, a rainha chamou ao paço o duque
presidente do conselho, e fechando-o por sua propria mão n’uma
sala obrigou-o a lavrar o decreto da sua demissão e o da nomeação
de Saldanha. Era uma segunda Belemzada? Era; menos Passos e a
guarda-nacional, menos Van-der-Weyer e os soldados inglezes. A educação
liberal progredira a ponto de crear entre os politicos um partido de
absolutismo e de reduzir á impotencia a _soberania nacional_. Era outra
Belemzada, e a desforra de Ruivães; porque aos marechaes vencidos em
37 confiava a rainha agora a defeza do seu throno. Saldanha presidia o
governo, Terceira ia para o norte socegar o Porto (8) depois da parada
da vespera no Terreiro-do-Paço, onde a tropa acclamára a CARTA. Estava
definitivamente acabada a Maria-da-Fonte, restaurado o cabralismo,
mas sem Cabraes apparentes. Saldanha encarregara-se de lhes obedecer
no que mandassem: e de os defender e rehabilitar até dar tempo a
uma repatriação por emquanto prematura. Desde largos annos, dez ou
onze, que o marechal descera a não poder servir para mais do que para
instrumento da politica alheia.
Depois das suas campanhas diplomaticas de Londres e de Madrid (emquanto
durou o incidente irritante da navegação do Douro), o marechal,
desnecessario e incommodo, tinha sido enviado para Vienna no outomno
de 41 a gozar os ocios de uma espectaculosa embaixada. A rainha e os
seus confidentes tinham-no lá de reserva para o momento em que fôsse
necessario, quando em 42 a restauração da CARTA provocou a scisão do
cartismo. Contra os Cabraes, inclinando para o setembrismo com o qual
vieram a colligar-se, os ordeiros (Rodrigo, Palmella, Silva Carvalho,
etc.) preparavam com intrigas as desordens que os radicaes forjavam em
Torres-Novas e Almeida. Em Vienna, o marechal applaudira a restauração
da CARTA; e sendo embaixador portuguez, era o confidente do Paço que
tinha Dietz por orgão: «O paiz inteiro está tranquillo e detesta--á
excepção de alguns velhacos ou doidos--a revolução que vegeta em
Almeida. (27 de março) Se as intrigas de Palmella e Silva-Carvalho não
tivessem vindo naufragar perante a firmeza de S. M. a rainha e perante
o bom-senso da nação, _estariamos_ já a caminho de entregar o poder aos
setembristas e de vêr reinar em breve tempo Bomfim, Cesar e C.ª» (25 de
agosto de 44. Cartas de Dietz a Saldanha; em Carnota, _Mem._)
O pobre marechal ia servindo. Em Lisboa receiavam que elle voltasse,
e que, dando ouvidos, como sempre dava, ás tentações da lisonja,
viesse complicar mais as questões com o seu genio aventureiro, o seu
prestigio militar e uma provada nullidade politica que o entregava
áquelle que melhor o soubesse assoprar. «Fique onde está, escreviam-lhe
de Lisboa, porque penso que ainda hade ter de salvar a rainha de ser
posta pela barra fóra». (Carta de Reis e Vasconcellos, 9 de março de
46; em Carnota, _ibid._) A Maria-da-Fonte rebentou quando Saldanha
se achava na Belgica. Com os annos, as raizes catholicas do seu genio
reverdeciam e entretinha-se a ouvir sermões em Liege, opinando entre o
merito relativo dos prégadores. (_Ibid._) Desde Vienna que trazia em
plano uma grande obra: a concordancia das sciencias com os mysterios da
religião, e o alcance do seu espirito vê-se n’estas linhas escriptas
ao futuro cunhado, para Inglaterra: «Peço-lhe que indague ahi quaes
são os melhores authores, antigos e modernos, que tém escripto sobre a
existencia de Deus e a immortalidade da alma; quaes d’essas obras se
pódem obter e seus preços». (Carta de 31 de maio de 46, _ap. ibid._)
Já então Portugal ardia em guerra, e Saldanha deixou a sciencia pela
politica: valiam ambas a mesma cousa! Embarcou em Inglaterra, chegando
a Portugal a 23 de julho.
Quem o conquistaria? Palmella com o seu governo? Os radicaes? O paço?
Facto é que todos o queriam, todos o adulavam, todos lhe chamavam
salvador da patria, homem unico, arbitro, etc.; e o marechal, inchado,
não era capaz do medir o seu valor, nem de aferir a verdade das
adulações. Ao mesmo tempo que cada qual o queria ganhar a si, todos
receiavam as tentações alheias, por bem conhecerem com quem tratavam.
A rainha déra ordem para que de bordo fosse directamente ao paço,
«sem falar a ninguem antes». (Carnota, _Mem._) Elle foi, e conta
(_Curtissima expos._ etc.) que a rainha o advertira dos planos dos
cabralistas, dissuadindo-o de tomar a direcção do movimento que se
preparava contra os actos de maio e junho, passo que, na opinião d’ella
rainha, augmentaria em vez de diminuir as desgraças da patria.
Saldanha principiou, pois, por não ouvir os pedidos dos cabralistas
que renegavam os Cabraes por terem _fugido_ (_O d. de Sald. e o c.
de Thomar_, anon.) Depois mudou: a rainha mudou tambem. Agora Leonel
e os setembristas queriam seduzil-o; Palmella chegou a obter d’elle
annuencia para a expulsão dos Cabraes do Conselho d’Estado; mas, pelo
fim de agosto, já o marechal se entendia com Gonzalez Bravo, _alter
ego_ de Cabral em Lisboa. O seu amigo Howard, embaixador da Inglaterra,
advertia o particularmente, como a uma creança tonta: _for God’s sake,
be cautious!_--tenha juizo, pelo amôr de Deus! (Carta de 29 de agosto;
em Carnota) A Inglaterra não approvava de modo algum a restauração
cabralista projectada; e foi o que se viu claramente no decurso da
guerra. A preponderancia da influencia franco-hespanhola em Portugal
não lhe convinha.
Entre as varias tentações com que o disputavam, levou por fim a melhor
o cabralismo. Em 24 de setembro acceitou a presidencia d’esse partido;
e de Madrid, o conde de Thomar confessou-se-lhe obediente soldado. Com
a sua fôfa basofia, Saldanha, ingenuamente pacifico, propôz a Palmella
um ministerio de conciliação. Pois se elle em pessoa, elle, o grande
marechal, queria a paz e se lhe sacrificava,--elle o arbitro, elle o
tudo! Pobre infeliz que não via em si aquelle _tronco_ de que José
Liberato nos falou! Pobre simples, sem talento, de que a anarchia
apenas fazia um chefe--como a cortiça que tambem boia e corre sobre a
agua revolvida! Palmella recusou; e então o marechal sentiu o passo
que déra e como estava obrigado a ir até ao cabo, a representar o
papel para que, sem o saber, desde muito a rainha o escolhera: _seu_
marechal, d’ella e do conde de Thomar.
Era indispensavel outra Belemzada; e Saldanha que assistira á
primeira, receiava-o. No paço estavam elle, a rainha, o esposo, o padre
Marcos e Dietz: n’essa conferencia, a soberana expôz o seu despeito e
o sue plano. Saldanha observou a S. M. que se não fôsse bem succedido
e não morresse na empreza, seria inevitavelmente fusilado, e ella, a
rainha, expulsa do reino. O professor objectara ser n’esse caso melhor
pôr de parte o projecto, ao que a rainha, voltando-se para o marechal,
retorquira: «Deixa o lá; manda-o para um convento de freiras. Antes
quero perder a corôa do que seguir sendo insultada todos os dias. Se
fôr necessario, tambem eu sairei, tambem irei ás barricadas». (Carnota,
_Mem._) Pittoresco esboço de uma scena da Edade-media!
* * * * *
Terceira, porém, não era como Saldanha. Na sua mansidão era grave, e
serio na sua curta capacidade. Aristocrata por temperamento e educação,
estivera em 23 ao lado do rei, contra as côrtes jacobinas; mas desde
que mudara em 26, conservou-se o mesmo sempre. Bondoso e pacato,
brioso e valente, nada chimerico, amando a boa-vida e o cumprimento
dos deveres, não era odiado pelos inimigos, embora fôsse o apoio mais
seguro do throno liberal. E mais seguro, dizemos, porque a sua adhesão
não proviera em 26 de uma opinião favoravel á doutrina da CARTA:
opinião que teria mudado sem duvida, como a tantos outros, a todos,
succedeu.
A sua adhesão provinha de uma preferencia pessoal por D. Pedro, de quem
se sentia o vassallo, o homem-ligio: para onde o imperador fôsse, ou a
rainha sua filha e herdeira, ia elle. De doutrinas não sabia; tinha só
instinctos, sentimentos, e esses eram aristocraticos e conservadores;
nem podiam ser outra cousa, com a linhagem, o temperamento e a educação
do duque. O constitucionalismo, e as suas fórmulas e discursos, eram
apenas uma distracção e um habito do seu genio: custar-lhe-hia a viver
sem o systema representativo, porque o entretinham muito os debates
da imprensa, as discussões do parlamento, e não podia passar sem as
conversas animadas e ás vezes chistosas dos corredores da camara.
(Macedo, _Traços_) Cortezão, homem-do-mundo, era um personagem das
antigas côrtes arrastado para a vida do liberalismo burguez pela
fidelidade ao suzerano.
Se a demagogia o irritava, provocando n’elle um odio desdenhoso, o
das Archotadas, o dos tumultos de Lisboa em 35, etc., a burguezia
de petulantes _parvenus_ provocava-lhe uma frieza ironica. Assim,
repellira os Cabraes do governo, negando-lhes o exercito contra a
Maria-da-Fonte; mas logo se retirou tambem, por não ter aquelle
desejo pueril de Palmella de _não ficar de parte_. Não pactuaria com
os patuléas como o diplomata pactuava com elles, com todos, com o
diabo em pessoa, a ver se conseguia _equilibrar_ um throno, ou um
monte de degraus desconjuntados, para sobre elle reinar com a sua
moderação e a sua sabedoria. Vendo-o assim descer, inclinar-se para a
democracia clamorosa, Terceira naturalmente se arrependeu do acto de
abandonar os Cabraes á condemnação popular e de certo as combinações
que tinham precedido a «revolta dos marechaes» (37) se renovaram para
uma outra aventura. Mas os conservadores tinham feito dos Cabraes mais
do que chefes, uma bandeira, e não viam no seu gremio pessoas que,
em talentos, em coragem, em audacia, podessem medir se com elles.
(Macedo, _Traços_) Os Cabraes estavam em Hespanha, onde tambem reinava
o _cabralismo_ da união-liberal, e de accôrdo com o reino visinho,
podiam suffocar-se de uma vez a demagogia e o miguelismo que ameaçava
levantar cabeça. Costa-Cabral governaria de fóra o barco n’esta sua
nova derrota, Saldanha ficaria em Lisboa, Terceira iria para o norte.
E a rainha? Que papel era o seu, n’esta segunda aventura, já o vimos.
Não só apoiava: instigava, ordenava. Não tremia jogando talvez a
cabeça, decerto a corôa, porque tinha coragem para tanto; porque
essa corôa estava, ou pensava ella estar, em maior perigo, antes, do
que depois do golpe-d’Estado. Se se não pozesse cobro á demagogia--e
Palmella não queria, não sabia, ou não podia fazel-o!--a historia
precipitar-se-hia; e devemos lembrar-nos de que as recordações dos
casos de Paris e da sorte de Luis XVI, que por falta de audacia morreu,
davam fundamento á resistencia. A rainha, por não ter a perfidia de
um Luis Philippe, não podia sophismar o systema: atacava pois de
frente, com audacia viril, á portugueza. Filha de reis, fôra educada
por mestres que lhe ensinavam o _cabralismo_ como a expressão pura do
systema liberal. A sua sinceridade nobre não pretendia ao absolutismo
antigo, mas queria a doutrina da CARTA de seu pae, repellia com energia
os ataques da patuléa reproba, _pé-fresco_, ataques dirigidos ao seu
caracter soberano e á sua honra de mulher.
* * * * *
Havia pois uma guerra declarada entre a rainha e o _povo_, assim a
patuléa se dizia. O hymno da Maria-da-Fonte cantava-se com uma lettra
francamente denunciadora do estado dos animos:
Apprende, rainha, apprende
Mede agora o teu poder:
Tu de um lado, o povo d’outro,
Qual dos dois hade vencer!
Mas esse sentimento propagado da hostilidade da corôa, sentimento que
ganhara raizes com a violencia e os crimes do governo cabralista; essa
percepção vaga de um direito novo, de facto opposto ao direito sagrado
dos monarchas, quando queria transformar-se em opiniões e programmas,
só produzia as antigas chimeras jacobinas, desacreditadas; e se, por
um dos acasos da lucta conseguia vencer, era derrotado pela força das
cousas (como em setembro), dessorando-se logo na mão dos mediocres
(como em 38 e agora), para se entregar á moderação palmellista. A
doutrina _liberal_ achara em Cabral um homem; a doutrina democratica
não o achava, não o podia achar, porque longos annos, ainda não
decorridos, seriam necessarios para chegar a definir os principios
organicos do direito novo.
Os programmas dos democratas em 46 eram uma repetição de Setembro, já
renegado pelo seu homem eminente, Passos; e com razão se previa que a
dictadura de José-Estevão não seria mais do que a repetição aggravada
das scenas anarchicas de havia dez annos. Que pediam, do seu club
do Sacramento, José-Estevão, Foscôa (Campos), Sampaio e os socios,
na vespera das eleições _independentes_ annunciadas por Palmella do
governo? Constituinte! a antiga panacéa setembrista: mas--oh, fatal
condição das chimeras!--os que exigiam uma constituição nova, saída da
vontade do _povo_, iam ao mesmo tempo dizendo já qual essa vontade
havia de ser, e o que a constituição havia de fixar: «Proclamação
da soberania nacional como fonte de toda a authoridade;--Reforma da
camara dos pares;--Eleições directas;--Liberdade de associação e de
imprensa;--Approvação dos contractos pelas côrtes;--Reorganisação
da guarda-nacional;--Economias na despeza até equilibrio do
orçamento;--Reducção do effectivo do exercito;--Suppressão do
conselho-d’Estado;--Fomento industrial e economico;--Reforma da
lei da regencia, para que esta não possa recaír em extrangeiro,
embora naturalisado;--Exame dos contractos desde 42 e abrogação dos
illegaes;--Nacionalisação do pessoal da casa real;--Prohibição dos
deputados receberem empregos ou mercês». (V. o _Manif._ da Ass. eleit.
setembr. 5 out. 46)
Era um rol de receitas infalliveis: a patria seria, sem duvida alguma,
salva. Mas quem analysar, cada uma de per si, as propostas, e todas no
seu conjuncto, obtem uma impressão singular. Não tornaremos a falar já
da contradicção organica indicada antes; não entraremos no minucioso
estudo do papel. Acima de tudo, vemos: constituintes, eleições directas
(mas que o governo não possa comprar esses soberanos representantes
do povo soberano!) e guarda-nacional, isto é, a volta a 1836. Ora os
dez annos decorridos e as confissões do proprio Passos não seriam
uma resposta cruel a tribunos tão ardentes, mas tão pouco originaes?
A precipitação com que as cousas, entregues ás mãos já trémulas de
Palmella, iam pendendo para o lado da revolução, é um dos motivos da
decisão tomada em 6 de outubro; mas no programma do Sacramento lemos
_items_ que obrigam a scismar: Fomento economico? Economia na despeza?
Exame dos contractos?--Que intervenção é esta da finança nos projectos
dos ideologos, tão mal conceituados fazendistas?
* * * * *
É que a solução violenta de 6 de outubro foi tambem determinada pelo
crescer da crise. A Maria-da-Fonte declarara-a; e os seus ministros nem
a sabiam resolver, nem podiam com os agiotas, suzeranos do Thesouro,
ameaçados de uma ruina total. De abril a junho o 5 por cento baixava
de 67 a 50 e com elle, na mesma razão, todos os papeis de bolsa. Tres
dias depois da queda de Costa-Cabral, declarava-se o curso forçado das
notas do banco. (Dec. 23 de maio) Houvera uma corrida, e os cofres
ficaram vasios: todo o producto da emissão, e mais ainda, estava no
Thesouro. De tal fórma se tinha mascarado por quatro annos a sua
penuria: fôra como uma restauração de papel-moeda; e agora, decretado o
curso-forçado, era de facto outra vez a praga que 34 quasi supprimira.
Mas se o Banco era credor do Thesouro, e o Thesouro lhe não podia
pagar, que havia de fazer o governo? Importar dinheiro? D’onde? com
quê? Pedil-o aos agiotas? Elles, em vez de darem, pediam, reclamavam,
e obtinham tambem uma moratoria para as _promissorias_ da _Confiança_,
que de outra fórma quebraria. (Dec. 29 de maio) Tambem o dinheiro
d’ella fôra todo parar ao insaciavel Thesouro portuguez faminto, desde
1820 até hoje, e talvez para todo o sempre condemnado á fome.
E a Maria-da-Fonte, a que reclamava em programmas o exame dos
contractos, era a propria cujos ministros aggravavam a crise, tornando
solidarios o Banco e a _Confiança_, preparando a ruina já começada
da emissão fiduciaria portugueza. E porque? Porque esses ministros,
e todos, eram forçados a obedecer á aristocracia nova creada pela
_liberdade_: com a differença de que uns a reconheciam, e outros,
nem por se rebellarem contra ella, eram menos os seus servos. Em 15,
o 5 por cento ainda valia 62; depois do decreto de 29 desce a 50.
Nos primeiros dias de agosto as notas rebatem-se a 400 e 480 rs. (V.
_Boletins da bolsa_, nos _Diarios_)
Os financeiros perdiam-se, olhando o Thesouro vasio; e sob o nome de
_economias_ decretavam uma banca-rota duas vezes má: porque rematava a
crise, acabando de arruinar o credito; e porque cerceava os vencimentos
dos empregados, sem ficarem com isso habilitados a pagar o resto dos
juros, nem dos ordenados. A divida interna, já com o desconto de
uma decima, recebia segunda; e duas de uma vez a externa. Perdida a
esperança de emprestimos extrangeiros, podia-se, com effeito, cortar as
unhas aos judeus de fóra. Ao mesmo tempo, os empregados soffriam uma
deducção de duas decimas. (Dec. 21 de agosto) A bolsa fecha: não ha
quem dê um real pelas inscripções; (18 agosto-setembro) e o rebate das
notas cresce, cresce sempre. Já tinham expirado as moratorias e, como
expediente, prorogaram-se por mais quarenta dias. Os tortulhos nasciam
da crise: agiotava-se largamente em rebates.
E não se via o meio de saír dos embaraços, porque as declamações
contra os Cabraes nada faziam; e a victoria do setembrismo, com as
suas chimeras de rectidão, com a sua incapacidade financeira, não
conseguiria nas eleições proximas senão queimar tudo ... E depois?
depois?... D. Miguel? A Hespanha? A cabeça andava-lhes á roda.
Em 1 de outubro uma medida _rasgada_, acompanhada de conselhos
prudentes e exortações patrioticas, appareceu no _Diario_. As
moratorias, o curso-forçado das notas prorogavam-se até ao fim do
anno. Mas descancem: não haveria mais agiotagem, porque o governo
punha um fiscal seu no Banco, e n’esses tres mezes ia arranjar-se o
dinheiro para lhe pagar, e elle então pagar as notas. Com a _Caixa
de amortisação_, creada na Junta, solver-se-hia a divida fluctuante,
ominoso legado cabralista. Essa caixa havia de encher-se depressa:
adjudicavam-se-lhe os bens-nacionaes ainda restantes e o que fôsse
rendendo a cobrança das dividas activas dos conventos! e os impostos em
debito até 41! e os juros de quaesquer inscripções amortisadas! e uma
dotação annual de 100 contos sobre o rendimento das Alfandegas. (Dec.
de 1 de outubro) Os cem contos ao anno não davam para o juro de uma
divida superior a vinte mil: tudo o mais eram palavras ou poeira, a vêr
se cegavam a vista dos crédores.
Baldado empenho, que só deu de si pôl-os decididamente do lado da
reacção tramada, uma vez que a fraqueza palmellista não era capaz de
resolver uma crise, na qual tinham as fortunas arriscadas. Ao lado de
Saldanha com a sua espada, estavam elles, pois, com as suas bolsas.
Passou o dia 6 de outubro; ganhou-se a victoria: mas deram todos com
inimigos imprevistos. Protestava, insurgia-se o reino inteiro--e o
rebate das notas, subia, subia! Em vez da paz, era a guerra; em vez
da fortuna, a ruina total. Saldanha desembainhou a espada; os agiotas
mostraram os dentes: multado em 50 a 500 mil réis quem recusar receber
notas! (Dec. 14 de nov.) Mas como impedir a subida dos preços? Mas
como usar da espada, se Antas no Porto se bandeou? Os capitalistas
apressaram-se a exigir as arrhas da sua adhesão; e a 19 appareceu
decretada a fusão do Banco e da _Confiança_: complicada, aggravada a
crise com um _negocio_ em que a agiotagem salvava os seus capitaes,
abrigando-os á sombra do curso-forçado permanente de 5:000 contos
outorgado ao novo banco, verdadeiro papel-moeda que valeria para a
totalidade dos pagamentos até junho de 47 e para dois terços até ao
fim de 48, devendo ir sendo amortisado gradualmente n’esse periodo.
(Dec. 19 de novembro) As acções da _Confiança_ triplicavam de valor,
e as notas baixavam sempre. A agiotagem déra o seu golpe-d’Estado,
salvando-se para arruinar a nação: mais feliz do que os politicos, a
ponto de irem a pique no naufragio do paiz.
* * * * *
Saldanha, ou antes Cabral, de quem elle era o homem-de-ferro, contara
com a resistencia do reino e prevenira-se.
Estou persuadido de que a ultima repentina mudança da administração em
Portugal foi em parte levada a effeito por conselhos de Madrid, e que
o marechal Saldanha tem estado, sem o saber, servindo de instrumento
para pôr em pratica os planos do conde de Thomar e de Gonzales Bravo,
nos quaes me parece que uma influencia hespanhola e uma união intima
dos governos de Madrid e de Lisboa para o futuro se apresentam como
causas principaes. (Southern a Palmerston, 22 de out. _Livro azul_)