servir para muito. Era um romance á imitação dos da collecção de
Garrett, e em que a mais desbragada calumnia não perdoava a ninguem.
Já não bastava a honra do ministro, exigia-se-lhe a da esposa e a da
propria rainha. Os dois casaes, o das Necessidades e o de Thomar,
viviam n’uma indecente promiscuidade. A castellan dizia á rainha:
Mas não venhas tu sósinha
Traz tambem o teu esposo
Lá das terras d’Allemanha
Esse moço tão formoso,
De louros, finos, cabellos
Gentil, nobre, _valoroso_.
E ao castellão «todo vestido de gala--cinge-lhe a fronte a armadura»,
ao mesmo tempo que «praticava mui de manso» com a rainha «recostada em
molle sophá.» Um temporal interrompe as festas, e vem o mendigo-povo
cantar a lenda que termina:
E o Senhor decretou
Exterminio á geração
Sobre essa raça maldita!
* * * * *
Assim, em artigos e trovas, se tirava a desforra de uma revolta
suffocada, infiltrando no animo do povo um desprezo e um odio
condemnadores do ministro e da rainha, do systema e das pessoas.
A colera politica subia de grau, e a _liberdade_ na imprensa--tão
verberada por Passos!--invadia as alcovas principescas, mostrando-as ás
plebes. Onde conduziria um tal systema? Não tinham os miguelistas razão
para se prepararem e esperar?
Batidas por fim de frente, por um homem superior e forte que lançára
mão dos elementos ainda resistentes da sociedade portugueza, as
parcialidades politicas, relativamente tolerantes entre si, não podiam
admittir a invasão e o imperio d’esse intruso importuno; mas elle
proprio, que não se atrevia, nem poderia, nem pensaria, em rasgar
a CARTA, mandar á fava o liberalismo, e voltar ao governo pessoal,
puro: que lhe restava senão curvar a cabeça á tyrannia das fórmulas?
E se as influencias de todos os chefes politicos, alliados contra
elle; se a acção de um ataque incessante á sua pessoa e á sua honra,
tinham concitado uma tempestade que o faria ser batido _na urna_: que
remedio lhe restava, senão esse expediente da violencia sob a capa de
legalidade? o processo de mentira descarada, em vez de hypocrita como
d’antes? esse processo que o mantinha, desacreditando-o, arruinando-o
cada vez mais?
Vencer, por fas ou por nefas, as eleições, n’esse anno de 45 da
decisiva batalha, era para Costa Cabral o mesmo que viver ou morrer.
Lançou, pois, mão de tudo, e foi ás do cabo. Tres camaras-municipaes
protestaram, vindo a Lisboa os vereadores implorar a rainha: á de
Evora voltou-lhe ella as costas, a de Villa-Franca foi presa, e ambas,
com a de Faro, dissolvidas. A opposição estava inteira a postos; o
programma era o antigo _Manifesto_ da coalisão, com o discurso de
Manuel Passos, em 18 de outubro anterior. Em Lisboa reuniam-se Mousinho
de Albuquerque, Aguiar, Sá-da-Bandeira, Herculano, José Maria Grande,
Marreca, Rio-Maior, Jervis, Garrett; José Passos tinha o Porto;
Bertiandos, o Minho; Povoas, não annuindo á abstenção ordenada por D.
Miguel, da Guarda mandava na Beira; o conde de Mello em Portalegre;
Manuel Passos e o barão de Almeirim em Santarem. (Macedo, _Traços_)
Nenhuma das conhecidas tricas para levar a Urna a dizer o que se
deseja--como nos velhos oraculos sagrados!--fôra esquecida pelo
governo. Os recenseamentos eram taes que não incluiam nomes como os
do marquez de Niza, da Fonte-Arcada, do Felgueiras juiz no supremo
tribunal, de Garrett, etc. Incluiam, porém, mendigos e lacaios,
aguadeiros e defunctos; incluiam nomes imaginarios, e soldados e
marinheiros. As listas eram marcadas: transparentes, pautadas,
carimbadas, tarjadas, numeradas. Os individuos influentes e perigosos
eram presos arbitrariamente: assim aconteceu a Rezende em Aveiro, a
Balsemão em Penafiel. Os governadores-civis distribuiam aos galopins
mandados de captura em branco. E onde as tricas não bastavam,
apparecia a força bruta. Em Alvarães e Porto de Moz houve descargas
cerradas de fusilaria. D. João de Azevedo foi espancado no Porto,
onde as assembleias se reuniam cercadas de tropa, junto dos quarteis.
O visconde da Azenha teve de emigrar de Guimarães; o de Andaluz, em
Pernes, bateu a tropa com um bando de gente armada. Para Villa-Franca
foi maruja e artilheria. No Sardoal a tropa de bayoneta calada impediu
a entrada dos eleitores na assembleia. Por toda a parte houve prisões,
mortes em muitos lugares. A violencia vinha rematar o systema de
perseguições fiscaes: iniquidade na repartição do imposto, crueldade
com os devedores das misericordias e irmandades, denegações de justiça,
etc. (Macedo, _Traços_) Para forjar um simulacro de parlamento,
para aguentar a sophismação da doutrina, chegava á maxima tyrannia,
atacando-se as mais necessarias garantias dos cidadãos.
Costa-Cabral venceu: se victoria se póde chamar a empreza que o
precipitou n’uma revolução.
No seio da sua camara unanime de clientes e funccionarios expoz então
o vasto plano dos seus projectos; mas na outra camara, os pares
protestavam clamorosos, erguendo-se acima de todas a voz sibilante
de Lavradio, e dominando a scena a figura de Palmella que, moderado
sempre, inclinava outra vez para o lado da opposição.
Cá por fóra os protestos corriam soltos e sem piedade:
Que podemos nós esperar, quando a nossa vida, a nossa fazenda, a nossa
liberdade estão á mercê de um punhado de devassos? Se esta nossa
terra, se os nossos fóros e liberdades são enphyteose dos Braganças ou
fateosim dos Cabraes? (Souto-Mayor, _Cartas de Graccho a Tullia_)
Os ministros são «doutores do pinhal d’Azambuja», que illudem a nação
com «tretas vís»; são «ladrões cadimos, salteadores, assassinos,
traficantes, ratoneiros, corsarios, bandoleiros»; e o povo não ouve?
não se mexe?
Povo! meneia tres vezes a cabeça, reflecte. Não tens um pulso para a
espada, um hombro onde encostes a espingarda, olhos para a pontaria,
dedos para o gatilho? (Id. _Ultimos adeus_, 44)
3.--A MARIA-DA-FONTE
Accudiu o povo aos clamores dos que se apresentavam como seus
procuradores? Elles disseram que sim: á historia parece comtudo que
o povo era indifferente ás doutrinas e systemas da opposição; porque
nem ellas tornaram completamente a vencer, nem o povo se levantou
para as defender, quando a rainha por um acto de absolutismo
expulsou do governo os homens que ali tinham entrado sob pretexto da
Maria-da-Fonte. Como espontaneo movimento das populações, a revolução
do Minho tem apenas um caracter negativo. É contra os Cabraes, de
quem a propaganda activa fizera uns monstros mais que humanos, que
appareciam á imaginação popular como réus de todas as desgraças:
Comem as cearas os pardaes?
É por culpa dos Cabraes.
É contra os impostos, contra os enterramentos em cemiterios ao ar
livre, contra a mobilisação dos bens das Misericordias, contra o
systema de leis que tendiam a consolidar o novo Portugal, a acabar de
arruinar um Portugal antigo que ainda para as populações ruraes era
o verdadeiro, o ditoso, o bom. Tal caracter se observa no movimento
espontaneo das populações, confiscado á nascença pelos setembristas
como se fôra seu, e apresentado sempre como um documento da vitalidade
e raizes das suas doutrinas no seio da nação ...
Quando na camara dos pares os ataques sibilantes de Lavradio ao conde
de Thomar zuniam como o vento nas cordagens do navio ameaçado; quando
a eloquencia apopletica de José-Bernardo se entornava para defender o
irmão, ameaçando terra, mar e mundo; quando a batalha parecia decisiva
e final--chegou a Lisboa, subitamente, a noticia de motins populares no
Minho. (15 de abril) O governo assustou-se e os inimigos esperaram.
Entre clamores e protestos, votaram-se as leis marciaes usadas
em taes casos, porque nos momentos de crise o constitucionalismo
liberal vê-se forçado a abdicar: tal é a sua consciencia positiva.
Suspenderam-se os debates para irem começar os tiros. A opposição tinha
organisado por todo o reino a sua machina eleitoral _coalisada_: os
embryões das Juntas revolucionarias estavam formados, a postos todo
o pessoal dos partidos, para accudir ao levantamento das populações,
dirigindo-o, interpretando-o. Por seu lado o governo mandou para o
Porto José-Cabral, a quem o odio da cidade do Douro chamára o José dos
Conegos, e agora dava por escarneo o titulo de Rei-do-norte. Levava,
com effeito, o _rei_ poderes descricionarios e a alma cheia de coleras,
a bocca vomitando ameaças, o braço levantado para esmagar tudo com
a sua força. E assim que desembarcou, passou dos planos ás obras,
perseguindo, prendendo, ameaçando, aterrorisando, até que o obrigaram a
voltar, fugindo para salvar a vida.
E a tropa? Mais que podia a tropa contra uma sublevação de facto
popular, levantando a cabeça por toda a parte, oscillando, fugaz, e
movediça, lavrando e minando, com a vastidão e mobilidade dos fogos
fatuos no vasto cemiterio de um reino? O governo não tinha cem mil
bayonetas, e tantas ou mais seriam necessarias para pôr guarnição
em todas as aldeias, uma sentinella ao lado de cada minhoto. O caso
era diverso de 44, quando uns batalhões se tinham pronunciado:
outros batalhões mais numerosos foram ter com elles, encerraram-nos
em Almeida, obrigando-os a capitular. Que praça ou curral havia,
sufficientemente grande para encerrar meia população do reino e
obrigal-a a render-se pela fome? Praça ou curral era o reino inteiro, e
dentro da fortaleza a propria guarnição levantava-se. Que fazer? Onde
accudir? A força ensarilhava as armas por não achar alvo de pontaria;
e do mesmo modo que a tropa reconhecia a sua impotencia, via-se em
Lisboa a manada dos agiotas correr, sumir-se, apertados uns contra os
outros, furando como os bandos de carneiros acossados por um aguaceiro
a trotar miudinho. Ai! bancos estoirados, companhias fallidas,
papellada esfarrapada! O balão dos calculos tombava enrodilhado, a
Babel de algarismos caía por terra em estilhas! Pobres _fundos_ do
conde de Tojal, almoe-dados em Londres! quem dava por elles um chavo?
* * * * *
No logar da Fonte, concelho da Povoa-de-Lanhoso, no coração do Minho,
existia a que foi a Joanna d’Arc do setembrismo. No Minho, como em
todas as regiões de stirpe celtica,[30] a mulher governa a casa e o
marido; excede o homem em audacia, em manha, em força; ara o campo
e jornadêa com a carrada do milho á frente dos boisinhos louros.
Requestada em moça nos arrayaes e romarias pelos rapazes que a namoram,
conversando-a com as suas caras paradas, basta vêr um d’esses grupos
para descobrir onde está a acção e a vida: se no olhar alegre, quasi
ironico da moça garrida, luzente de ouro, se na phisionomia molle do
rapaz, abordoado ao cajado, contemplativo, submisso, como diante d’um
idolo. A vida de pequenos proprietarios põe na familia uma avidez quasi
avarenta e na educação dos filhos instinctos de governo. Quando se
casam, as moças conhecem o valor do dote que levam, e os casamentos
são negocios que ellas em pessoa debatem e combinam. Não é uma esposa,
quasi uma serva, que entra no poder do marido, á moda semita que se
infiltrou nos costumes do sul do reino: é uma companheira e associada
em que o espirito pratico domina sobre a molleza constitucional do
homem desprovido de uma intelligencia viva. A mulher parece homem; e
nos attritos da dura vida de pequenos proprietarios, quasi mendigos
se as colheitas escasseiam, cercados de numerosos filhos, apagam-se
as lembranças nebulosamente doiradas da luz dos amores da mocidade,
e fica do idolo antigo um rudo trabalhador musculoso, com a pelle
tostada pelos soes e geadas, os pés e as mãos coriaceas das ceifas e
do andar descalça ou em soccos nos caminhos pedregosos, ou sobre a
bouça de urzes espinhosas. Não se lhe fale então em cousas mais ou
menos poeticas: já nem percebe as cantigas da mocidade no desfolhar dos
milhos!
A vida cruel ensinou-a: é pratica, positiva, dura. Odeia tudo o que não
sôa e tine, e tem um culto unico--o seu _chão_. Vae á egreja e venera
o «senhor abbade», mas com os idyllios da mocidade a sua religião
perdeu a poesia: ficou apenas um rosario secco de superstições, funda,
tenazmente arraigadas. Ai, de quem lhe bolir ou nos seus interesses,
ou no culto! na egreja, ou no chãosinho! Ai, d’aquelle que para
tanto lhe investir com os filhos, com o marido, que são para ella
os seus operarios. O sentimento innato da rebeldia, (que não deve
confundir-se com a independencia) essa vis intima dos celtas submissos
da Irlanda e da França, existe no minhoto, com o lastro de presumpção
e manhas, d’onde saem os nossos palradores do norte e os astutos
emigrantes do Brazil; com a segurança que a vida responsavel e livre de
proprietarios, não-salariados, lhes dá.
* * * * *
O systema cabralino, seccamente _beirão_, era em tudo opposto ao
temperamento do norte; e o facto da CARTA haver sido restaurada
no Porto mostra quanto essa empreza foi uma obra de quartel e
secretaria, sem raizes no coração do povo. O governo, depois, atacou as
superstições, mandando que os mortos se não enterrassem nas egrejas; e
para que se veja quanto esta ordem judiciosa batia de frente os usos
religiosos e quanto elles estavam arraigados, basta dizer que ainda
hoje por todo o Minho se encontram villas, e não aldeias afastadas,
villas como Barcellos por exemplo, sem cemiterio. O governo queria
ainda que a _decima_ rendesse o que devia; mas o povo que já esquecera
o tempo dos dizimos, via no imposto lançado por uma authoridade para
elle extranha, desconhecida, a extorsão, a _ladroeira_, dos homens de
Lisboa, o ataque ao seu idolo adorado: o chão lavrado de milho ou de
linho, a carvalheira toucada de pampanos com os acres bagos de uma uva
ingrata pendentes em cachos negros.
E esses homens, que tanto exigiam, nem falavam em Deus, nem em cousa
alguma que os lavradores entendessem. Vinham sobraçando a pasta cheia
de papeis, com phraseados singulares, caras desconhecidas, cousas
extravagantes; e retorquiam ás replicas com a fusilaria dos soldados.
Esses homens já tinham vindo a pedir-lhes o _boto_, e elles coçando a
nuca hesitavam; mas as mulheres, praticas, attendendo ao antigo poder
do _senhor fidalgo_, e a submissão ingenita mandando obedecer quando o
caso era sem consequencia, tinham levado os camponios arregimentados,
com o papelinho entre os dedos, até á Urna. Que lhes importava isso?
Idéas dos fidalgos! e voltavam ao seu trabalho.
Agora o caso era outro: enterrarem os pobresinhos dos mortos como cães,
n’um quintal! levarem o nosso vinho e o nosso milho colhido com tanto
suor: isso não! E em apoio d’esta rebeldia, vinha o fidalgo, vinha o
padre (setembrista) com sermões e falas doces, esconjuros e meiguices,
incitando-os a resistir a quem lhes queria tanto mal, tão duramente
os tratava. O administrador era mais cruel do que o capitão-mór, por
ser de fóra, e secco, bacharel, plumitivo; o senhor capitão-mór, ás
vezes, fazia _cada uma_ ás raparigas! Mas o minhoto, naturalista,
não é susceptivel nos peccados de carne: fraquezas humanas! Muitas,
muitas raparigas, casam sem ser virgens, e isso, apezar de sabido, não
escandalisa.
A Maria-da-Fonte tornou-se o symbolo dos protestos populares. A
imaginação collectiva, provou ter ainda plasticidade bastante para
crear um mytho, uma fada, Joanna d’Arc anti-doutrinaria.[31] O heroe
da revolução minhota devia ser uma mulher, não um homem; devia ser
desconhecido, lendario: antes um nome do que uma pessoa verdadeira.
Na Bretanha, os casos de Paris em 48 eram assim explicados: um grande
guerreiro _le dru Rolland_ (Ledru-Rollin) saíra a campo para libertar
a fada La-Martyne (V. Michelet, _Revol. franc._) Os minhotos, affins
dos bretões, crearam um heroe feminino--guerreiro temivel que iria a
Lisboa bater esses tyrannos do sul conhecidos ainda hoje sob o nome de
senhor-Governo: um monstro mais ou menos definidamente humano!
* * * * *
Entretanto, parece que de facto houve uma certa Maria-da-Fonte que
soltou o primeiro grito da sedição. A rebeldia, fomentada pela nova
legislação, declarou-se perante os excessos dos tyrannetes locaes,
bachareis enviados para o campo o ganhar jus a um logar no parlamento
ou nas secretarias. Um d’esses chegára a ferir com um guarda-sol
o pequeno de um lavrador, e o pae foi á torre da igreja e tocou a
rebate. Acudiu povo, quiemou os archivos, as _papeletas da ladroeira_,
dando «Morras» aos dois Cabraes, (D. João de Azevedo, _Os dois dias
de outubro_) e marchou sobre Braga. (Macedo, _Traços_) Nas villas e
cidades a tropa levava a melhor, porque o numero vale ahi pouco e
muito as armas: eram fusilados á queima-roupa. Mas nos campos podiam
tudo: se a tropa viesse, abafavam-na. Nem tinham espingardas, nem
polvora: só cajados, foices, machados, chuços, e era o bastante.
Na Senhora-do-Allivio reuniram-se mais de dez mil. (_Ibid._) E os
padres e os fidalgos applaudiam, incitavam: o conego Montalverne, o
padre Casimiro, o padre José-da-Lage, e os Costas, o Peso-de-Regua,
o Balsemão. Os fusilamentos, os confiscos, as prisões, toda a pasta
draconiana de José Cabral, do Porto, era inutil: via-se a fragilidade
da força cabralista.
Do Minho, a sedição lavrou, perdendo o caracter popular, tomando um
caracter militar e politico. A Maria-da-Fonte ficava na sua aldeia:
apenas o nome, como um ecco ou um rotulo, ia de um lado a outro
do reino. Por toda a parte nascem logo _Juntas_. Toda a força do
rei-do-norte estava na divisão do Vinhaes; e quando o general, bandeado
ou commovido, lhe disse que não bateria no povo, o _rei_ emalou os
papeis, fugiu do Porto, abandonando tudo. (_Ibid._) Do Minho a revolta,
galgando o Tamega, encontrou em Traz-os-Montes o conde de Villa-Real
para a commandar e os Carvalhaes para a fomentar. As authoridades,
corridas, foram fechar-se na praça de Chaves, sob a protecção do
Vinhaes que passou para os do povo e lhes entregou a villa. Appareceu
um programma: era a voz, o grito, a reclamação da Maria-da-Fonte?
Não; era, apenas uma combinação de politicos moderados, que nem
sequer exigiam a restauração do setembrismo; que apenas reclamavam
a dissolução das côrtes, a queda do ministerio, a organização da
guarda-nacional, e a revogação da lei do imposto de repartição (19
de abril de 45) da reforma da magistratura (1 de agosto de 44) e da
lei de saude. (26 de novembro de 45) (V. Ignacio Pizarro, _Memor. de
Chaves_) No Porto governava uma JUNTA, e a Extremadura, sob o commando
de Manuel Passos, tinha em Santarem uma capital _patuléa_. Outro
já, com sezões e desilludido, o Passos de agora apenas reclamava a
demissão dos Cabraes: a sua JUNTA dava vivas a «todo o existente». (V.
a _Proclam. da Junta de Santarem_) De um movimento popular espontaneo
formara-se uma sedição politica; e a fraqueza doutrinaria dos politicos
_coalisados_ via-se n’este momento em que, omnipotentes, reduziam a
_grande revolução_ á condemnação pessoal de um homem. Expulso elle,
conservar-lhe-hiam as obras, porque nada melhor podiam pôr em seu
lugar, caso as supprimissem. Singular revolução, de que os chefes são
logo os suffocadores!
* * * * *
Mas em Lisboa, no paço e no governo? O destino fatal dos audazes sem
apoio, dos que, arrastados pela consistencia dos seus planos, imaginam
que planos bastam para crear elementos de governo; dos que embriagados
pela força e pela vida propria não observam a inercia alheia que só
pede socego e atonia e por isso é a primeira a renegar as temeridades,
as ousadias; o desejo de ser e mover-se; o fatal destino dos audazes
n’uma sociedade cachetica, perseguia o temerario ministro. O seu
edificio abria fendas por toda a parte. Os que o seguiam por convicção
entibiavam; os que iam por interesse, fugiam, renegavam; os fanaticos
começavam a descrer, desde que viam sossobrar o homem forte; a
clientela dispersava, o exercito bandeava-se, a banca-rota batia com a
mão descarnada á porta dos templos da nova religião do Dinheiro.
Os Cabraes pediram a sua demissão á rainha. Batiam, arrependidos,
nos peitos, confessando o erro da sua audacia, os crimes do seu
governo excessivo e tyrannico? Não. Elles eram ambos feitos de ferro
e fórmulas: homens que cáem, mas não se curvam. Duros beirões,
faltava-lhes a humanidade sincera e bondosa, que se torna em
scepticismo no decaír da vida--a humanidade de um Passos--sem terem
tampouco as manhas beiroas dos descendentes de Viriato, á maneira
de Rodrigo. Caíam, porque o exercito faltara; caíam porque houvera
um terramoto e abatia-se-lhes o chão debaixo dos pés; caíam porque
os derrubavam e não porque descessem. Caíam porque «o presidente do
conselho e ministro da guerra e como tal commandante em chefe do
exercito, no momento em que deviam desenvolver-se as forças do dito
exercito, declarou não ter força e que o _unico meio_ de debellar a
revolta era a prompta demissão do ministerio». (_Manif. de Cadix_,
27 de maio de 46) Para que tinham arrastado o molle, caprichoso,
aristocratico duque da Terceira a emprezas arriscadas? Elle não tinha
opiniões, e por isso não percebia o valor d’ellas para os outros.
Achara excellentes os Cabraes, emquanto vira n’elles penhores de ordem;
mas, doutrinarios atrevidos, bulhentos, opiniosos? Nunca. Porque não
tinham os ministros preferido Saldanha, mais homem, mais denodado,
menos escrupuloso, e, por genio, tão amigo das aventuras quanto o
collega o era da placidez bem ordenada?
* * * * *
Assim renegados por todos caíram os Cabraes, (20 de maio) fugindo do
reino para Hespanha, homisiados como réus. Em tal passo a rainha não
via para onde voltar-se. Entregaria o governo á Maria-da-Fonte? Mas
a lavradeira de Lanhoso não chegára a Lisboa: vieram apenas o nome
e os manifestos das JUNTAS. Eram elles o manifesto do _povo_? Não
eram. O povo só manifestára horror a enterrar-se nos campos, recusa
a pagar a decima, e odio aos tyrannetes cabralinos. Mas nada d’isto
podia fazer um plano de governo novo, e uma novo experiencia de
liberalismo. As opposições, coalisan-do-se, tinham em parte abdicado.
O miguelismo resuscitava, dando as mãos aos radicaes no fôro dos
partidos e pelos confins das provincias. No norte do Douro, na Beira
borbulhavam esperanças; em Evora «o espirito dos seus habitantes he
miguelista ou setembrista», diz o coronel do corpo em officio para
o general da divisão. (_Corr._ autogr. de Rezende) Que sorte podia
ser a da revolução, imagem de Jano, olhando para um passado perdido
e para um futuro chimerico? Mas que sorte esperava a rainha depois
da ruina d’essa cohorte com que se tornára solidaria? Não havia no
horisonte politico sol novo para adorar; mas havia por detraz do
throno tres astros mais ou menos embaciados, porém ainda utilisaveis.
Façam-se ministros os tres chefes: Saldanha, Terceira, Palmella. Era o
expediente mais acceitavel; embora o primeiro, que andava por fóra, em
Bruxellas, não quizesse intervir. (Carnota, _Mem._)
Porém as JUNTAS acreditavam que tinham vencido, e o setembrismo chamava
sua á Maria-da-Fonte, reclamando os despojos da guerra. Palmella, por
seu lado, queria voltar á _ordem_ de 38, continuando em 46 a historia
interrompida pelo episodio cabralino: alastrou pois o gabinete com
elementos ordeiros. (Mousinho-d’Albuquerque, Lavradio, Soure; 26 de
maio) Terceira retirou-se. Restaurada a ordem, o reino foi dividido em
tres circulos, cabendo o do norte ao visconde de Beire, o do centro
a Rodrigo, o do sul ao ministro Mousinho. A _Revolução de Setembro_,
escarnecendo, chamava a isto a divisão do imperio romano (7 de junho);
e as JUNTAS, vendo empalmada a que suppunham victoria sua, protestavam
sem desarmar. Em vão o governo se cansava, distribuindo calmantes em
circulares mansas e sensatas, cheias de uncção e esperanças, chamando
o povo a decidir dos seus destinos na proxima _urnada_ livre. Em vão
chamava para casa os emigrados de Torres-Novas, fatigando-se a mostrar
que todo o mal vinha dos Cabraes, agora expulsos. Os emigrados,
recordando 38, com José-Estevão á frente, entraram como em triumpho,
desde a fronteira até Lisboa. (Oliveira, _Esboço hist._) Traziam a paz?
Não; a guerra, cantando:
Se é livre um povo, não tolera, quebra
De Neros as correntes!