é, a construcção das obras publicas e o fomento da riqueza, eis o
que nós vemos como essencia do novo cartismo. A do antigo, sabemol-o
bem, fôra aristocratica. E, singular energia da realidade! Costa
Cabral, o percursor da nova edade portugueza, veiu a ser a victima
da _Regeneração_ que, por outras palavras e com outros meios, havia
de executar-lhe o programma. A antiga educação jurista e _liberal_
do ex-tribuno dos _Camillos_ compromettia com doutrinas um movimento
que, para vingar, exigia apenas scepticismo: assim em França, tambem
acontecia a Guizot, e os _regeneradores_ foram o nosso Segundo Imperio.
Mas, além d’estes defeitos de educação, o plano do Costa-Cabral
falhava por outro lado. José da Silva Carvalho antes, Fontes depois,
comprehenderam que a melhor finança para um paiz exhausto era importar
do fóra o dinheiro. Costa-Cabral, seguindo n’este ponto os erros
setembristas, pensou que os numeros, calculos e operações phantasticas
dos agiotas bastavam para inventar uma riqueza que não existia. D’ahi
veiu uma banca-rota precipitar a ruina do systema, batido tambem por
outros inimigos.
Costa-Cabral foi o iniciador dos caminhos-de-ferro, principal
instrumento com que depois se operou a restauração da riqueza nacional;
e a sua idéa de construir uma linha entre o Porto e Lisboa e outra
de Lisboa a Badajoz era considerada pelos politicos da opposição a
doidice de um vidente. O conde de Lavradio, na camara, (Sess. de 3
de fevereiro 1846) assegurava que entre Lisboa e Porto não haveria,
ao anno, mais de seis mil passageiros; e Cabral perguntava-lhe:
«E se forem trezentos mil?--Isso não é possivel, porque não ha no
paiz viajantes para tanto movimento». Qual dos dois via mais claro
no futuro? Os caminhos-de-ferro rematariam o systema de estradas
macadamisadas, contratadas com a companhia das _obras-publicas_; e
regularisada a questão do Thesouro--_hoc opus!_--estaria completo o
programma da regeneração economica do paiz.
O estadista que com tamanha audacia e tão variadas artes pretendia
chamar á industria uma nação que fôra desde seculos o emporio ou a
dependencia de um systema colonial, agora abandonado e caduco na parte
que se não perdera, esquecia que no reino extenuado e doente, costumado
á protecção e á preguiça, não havia os capitaes moveis necessarios para
realisar as obras projectadas. Havia, sim, grossas quantias dispersas e
infructiferas; mas a maxima parte d’ellas, ou a parte de que o Estado
podia dispôr sem ir atacar a propriedade individual, pertencia ainda
ás corporações de mão-morta que tinham escapado ao cutello liberal: ás
misericordias e confrarias, instituições religiosas de beneficencia,
cujos fundos o povo não estava ainda costumado a vêr mobilisar.
Fazel-o, parecia um roubo. E o governo, atrevendo-se a tanto, e
propondo ao mesmo tempo augmentos de impostos, tornava facil aos seus
inimigos um ataque apoiado em instinctos de populações vexadas já por
uma administração oppressora.
Não está porém n’isso a causa particular da ruina do edificio
cabralista, mas sim na essencia do seu plano de restauração da
riqueza nacional. Implantando entre nós o systema seguido lá por
fóra de enfeodar os serviços publicos a companhias de especuladores,
o cabralismo obedecia no principio da sua formação: era uma clientela
dos ricos. Confiando a aventureiros o encargo de realisar o plano das
obras-publicas, o governo chamava em seu auxilio a intervenção da
agiotagem. Isto não era original, nem particularmente nosso: tambem
Guizot dizia aos seus: _enrichessez-vous_! Mas uma nação como Portugal,
ainda commovida pelos odios pessoaes e partidarios, demasiadamente
afastada da Europa central, quer geographica, quer economica, quer
scientifica e religiosamente, para ter solidariedade com ella, nem
podia contar com a paz indispensavel ás regenerações economicas,
nem esperar que os capitaes europeus viessem encher os cofres das
companhias de agiotas portuguezes. Nem a formação de companhias
estrangeiras, nem a importação de muito dinheiro por emprestimos
successivos, eram possiveis ainda, como depois o foram; e sem elles as
combinações eram chimeras.
D’ahi resultou que as companhias, formadas apenas com os recursos
de que a nação dispunha, não viram o ouro a authorisar os numeros;
e mirradas, seccas, encastellando algarismos e trapaças, sem
conseguirem bater moeda, voltavam-se implorantes para o governo que
as creara com o fim de o auxiliarem a elle. E, entretanto, vencidas
por fas ou por nefas, as eleições de 45, o governo apparece como
triumphador, patenteando um plano largo e vasto de administração
e fomento. (V. _Diario_ de 2 de janeiro, 46) Tres annos de paz e
trabalho haviam permittido já desembaraçar o terreno dos obstaculos
praticos; e organisados os serviços, cumpria realisar o pensamento.
A divida externa converter-se-hia n’um typo unico de 4 por cento,
equilibrava-se o orçamento, e a companhia das _Obras-publicas_
apparecia para restaurar a viação d’onde viria a fortuna ulterior.
Havia esperança e fé. O 5 por cento estava a 70; o 4 a 57; e as
companhias (Confiança, banco, etc.) solidariamente ligadas á situação
cartista, viam na conservação do governo e na victoria do seu systema
futuros de riquezas douradas. Nunca a emissão do banco fôra tão longe:
passava de 9:000 contos.
Mas a victoria politica do governo dava lugar a uma derrota do systema,
como veremos; a prosperidade do edificio financeiro encobria mal a
sua falta de alicerce. Um vento de desordem que soprasse, e ficaria
feito em pó. Era um amalgama de supposições de valores, tendo como
realidade unica um vasio absoluto. As companhias pediam a protecção do
Thesouro; e o Thesouro sacava-lhes todo o dinheiro disponivel, para
com elle poder apparentar abundancia. 5:000 contos se deviam ao banco;
6:000 á _Confiança_. E como não havia dinheiro e só esperanças; e como
as companhias não passavam afinal de agentes do governo, ao qual iam
entregar fielmente o pouco que obtinham; e como o governo não poderia,
ainda que o quizesse, encobrir as fraudes, os roubos, dos agiotas cujo
representante era--o systema alluia-se por todos os lados, quando
parecia ter chegado á sua perfeição.
Bastou uma revolução para deitar por terra os castellos de cartas dos
Laws cabralistas; mas houve fomes e sangue derramado, porque a doutrina
não tinha outra base além do ouro e o ferro. Agiotas e soldados a
defendiam; acabou com uma guerra e uma falcatrua.
* * * * *
A sua grande falta, a sua fraqueza invencivel eram a ausencia de um
principio moral, porque nem a ordem imposta pela força, nem a riqueza
creada contra a justiça chegam a ser principios; nem o é a idéa de que
uma nação obedeça ao pensamento exclusivo de se enriquecer. Quando isto
se préga, succedem casos analogos aos que succederam aos jesuitas:
pervertem-se os ouvintes e logo se corrompem os prégadores. Ou se criam
monstros, como as missões do Brazil e do Paraguay[27] e as companhias
cabralinas, ou se cáe na profunda atonia portugueza do seculo XVIII ou
na singular, chatin _regeneração_.
Enriquecer é bom, indispensavel até; mas a riqueza é um meio e não um
fim.[28] Errando n’este ponto, dando á força bruta um papel excessivo,
confiando de mais no entorpecimento do povo e na fraqueza dos inimigos:
o cabralismo tinha na sua doutrina a causa fatal da sua ruina, e o
motivo necessario dos erros e do descredito de chefes que precipitaram
a queda inevitavel do systema. Levantavam-se contra homens e systema
elementos de varias ordens: era a repugnancia instinctiva do _caracter_
setembrista pelas trapaças agiotas, eram os odios pessoaes, eram
as resistencias do povo contra os ataques a restos de instituições
historicas e costumes religiosos, era o bandidismo guerrilheiro
fervendo por voltar a uma existencia de aventuras, era a tradição
democratica do setembrismo que se não convertera, eram a resistencia
e o protesto contra a tyrannia da administração e as violencias das
eleições, era finalmente a existencia de numerosos officiaes expulsos
das fileiras por opiniões politicas.
Eis os elementos positivos da reacção que vamos vêr erguerem-se, para
condemnar a ultima tentativa de liberalismo doutrinario; para lançar ao
ostracismo o seu defensor; para concluir por fim o periodo propriamente
_liberal_, abrindo uma éra nova de scepticismo politico, em que o velho
idolo da LIBERDADE, apeiado, cede o altar ao deus novo: o utilitarismo,
pratico, positivo, conciliador e _moderno_, ou antes, _actual_.
NOTAS DE RODAPÉ:
[26] V. _O Brazil e as colon. port._ l. II, 1.
[27] V. _O Brazil e as colon. port._ I, 4-5.
[28] V. _O Regime das Riquezas_, introd.
II
A REACÇÃO
1.--A COALISÃO DOS PARTIDOS
No decreto (10 de fevereiro) em que a rainha declarara adherir á
revolta armada em Coimbra dizia-se que a CARTA seria reformada,
mas logo que o gabinete se constituiu, quinze dias depois, com
Costa-Cabral, viu-se que a promessa ficava em cousa nenhuma: era a
CARTA, tal qual existia antes de 1836; pares hereditarios, eleições
indirectas. Mousinho d’Albuquerque, reconhecendo que apenas passára
pelo governo para preparar a entrada de Costa-Cabral, abandonava o seu
duque e collocava-se em opposição.
Ia haver eleições, porque o novo systema não era nem pretendia ser
uma dictadura, mas apenas a maneira de fundar uma legalidade que
servisse de escudo a um absolutismo de facto. E na vespera d’essas
eleições ligaram-se todas as clientelas ou partidos contra o inimigo
declaradamente commum. Eram os velhos setembristas da gemma, com
a geração nova ainda mais radical; eram os _ordeiros_, antigos
cartistas, expulsos do poder; eram cartistas não cabralistas, e por fim
miguelistas. No seio do constitucionalismo via-se exactamente o mesmo
que a Edade-media, com o seu feodalismo, apresentára. A sociedade,
dividida em bandos rivaes o inimigos unidos em volta de um chefe,
existia á mercê dos pactos, allianças e rivalidade dos barões. Contra
o feliz, vencedor temporario, eram todos alliados, para se formarem
combinações novas, assim que o ramo da victoria passasse a mãos
diversas. Nos seculos passados, comtudo, não havia as mais das vezes
por motivo declarado senão a ambição pessoal, ainda que não fosse raro
vêr-se, como agora, servirem _principios_ de capa aos despeitos e
interesses. Nos seculos passados, os debates eram campanhas, e agora
pretendia-se que fossem comicios e discussões e votos; mas como isso
não bastava muitas vezes, logo se appellava para a _ultima ratio_, a
revolta.
A coalisão dos partidos preparou a batalha das eleições com um
_Manifesto_ (30 de março de 42): «Haverá um simulacro de representação
nacional, dizia. A universalidade da nação portugueza, _fraccionada
pelas diversas opiniões politicas_, verá passar pelo meio d’ella
um bando pequeno de homens compactos e ligados por seus interesses
pessoaes, e obter um falso triumpho, devido não só á sua força, mas á
divisão dos seus contrarios.» Mau prenuncio para quem desenhava tão
realistamente uma situação que pretendia dominar. Como esperava a
coalisão vencer, se o disparatado das ambições congregadas obrigava a
declarar a independencia dos _credos politicos_, e se a alliança tinha
por fim unico a batalha? Se ganhasse a victoria, de quem seria o ramo?
Novas contendas surgiriam sem duvida, o com ellas o estado anterior de
desordem.
Costa-Cabral venceu, e devia ser assim. Quem o havia de matar não
podia ser a opposição, mas sim a desorganisação e o descredito do seu
novo e tambem ephemero liberalismo. Agora, porém, começava apenas a
viagem e tudo eram confianças e esperanças. Havia adhesões numerosas,
e trabalhava-se. Palmella, convertido depois da sua triste entrudada,
dava ceremoniosamente a mão ao governo, e ia a Inglaterra negociar
o novo tratado que congraçaria de novo comnosco a nossa protectora,
coarctando as temeridades proteccionistas do setembrismo. Publicára-se
o codigo administrativo. (18 de março de 42) Reconstituia-se a _ordem_,
por dentro e por fóra; e confiava-se que tivesse chegado o momento
de pensar no futuro. Por isso se legislava sobre a Instrucção, se
levantava o theatro romantico, se projectavam estradas e pontes.
Tinham-se, porém, _liberal_, constitucionalmente, convencido os
colligados da adhesão do reino ao seu novo regime? Não, nunca: pois que
cada qual possuia uma _verdadeira_ traducção de LIBERDADE, a questão
era para todos radical, e viciosa qualquer legalidade que não fosse
a propria. O principio da anarchia constitucional desvairava, assim,
os simples, servindo os programmas de capa aos habeis para esconderem
os seus motivos particulares. Batidos na URNA, appellaram para a
guerra. Uma lucta desabrida de improperios, na camara em discursos e
fóra d’ella nos jornaes e folhetos avulso, preparava o terreno para a
desejada insurreição em armas.
A coalisão dizia que «Palmella, por mandado do _vil_ e _infame_
governo, fôra negociar o tratado de commercio: por patriotismo, os
fabricantes deviam fechar durante quinze dias as suas officinas.»
(Circular de 9 de agosto) Duas semanas sem pão, ociosos nas ruas
os operarios de Lisboa, repetir-se-hiam as scenas de 38 e caíria o
governo. Planeava-se a revolta, a que Passos chamou «bambochata». E,
com effeito, era tal a desorganisação, que os miguelistas começavam já
a esperar e por isso a abster-se, vendo circumstancias opportunas para
se effectuar uma restauração nacional.» (Circ. de Saraiva, 24 de junho
de 43)
A revolta declarada ia precipitar o ministro no campo das repressões
violentas, forçando-o a desmascarar a sua legalidade que, no fundo,
era de facto a brutalidade da força; levando-o a mostrar com franqueza
o genio duro e secco, esse genio que em outros tempos e com outra
estabilidade de instituições, teria levado os inimigos ao mesmo caes de
Belem, onde Pombal conduziu os que lhe resistiram.[29]
Como o ministro de D. José, tambem o novo Pombal do constitucionalismo
era abocanhado e discutido na sua honra. Não era credor, ou
affigurava-se a muitos não ser, do respeito com que uma reputação
limpa ampara a força. Era temido, mas nem era venerado, nem chegava a
ser tomado a sério pelos antigos companheiros que o tinham conhecido
humilde, esbaforido, a declamar nos _Camillos_. Vêl-o assim erguido
sobre todos, desesperava os que, por lhe não terem ouvido phrases
pomposas e poeticas, lhe negavam um _talento_ que para romanticos
estava principalmente no estylo e na imaginação. Não era admirado:
pelo contrario. E o peior era que a sua honestidade não deixava de
ser discutida. Valiam mais e iam mais fundo esses ataques, do que as
investidas declamatorias e os protestos contra a _tyrannia_. Á força
de as ouvir, os ouvidos estavam saciados d’esse genero de esgrima;
mas quando se dizia que o ministro se vendia, conciliavam-se todas as
attenções.
Usar do dinheiro como instrumento _liberal_ fel-o do certo. «Dêem-me
dinheiro e deixem o resto por minha conta», parece que disséra ao
entrar no governo, nas vesperas das eleições de 42. (_Costa Cabral em
relevo_) E os seis contos--oh modestia spartana!--que recebeu e gastou,
foram o ponto de partida para as accusações da venalidade. Vendera
um pariato, dizia-se, recebendo como prenda um palacete. Quem do
Ultramar queria commendas, mandava o pedido acompanhado por uma ordem
de dois contos para um banqueiro. (_Ibid._) E sem duvida, á sombra do
ministro que governava com o dinheiro, formara-se um batalhão de gente,
especulando com tudo: contractos, empregos e graças. No norte do reino
parece que havia um intimo, outr’ora preso por falsario e ladrão, a
quem os pretendentes se dirigiam para resolver as pendencias que tinham
em Lisboa, discutindo-se, não o direito, mas sim a quantia. (_Ibid._)
A propagação de taes accusações mostrava o calcanhar do novo Achilles.
Quando todas as fontes de authoridade politica se estancam, resta
apenas a authoridade pessoal: e nada ha melhor, para a destruir, do que
o uso da arma acerada que fere um homem com o labéo de venal. O povo
crê sempre, porque é pessimista: tinha Portugal motivos para ser outra
cousa? E para destruir uma tal crença, não raro illusoria, nem provas
bastam. O politico é como a mulher de Cesar: além de honrada, (quem
sabe? até não o sendo) é mister que o pareça.
O nosso ministro não conseguia parecel-o, e soffria as consequencias
do seu plano de governo: «Enriquecei!» era o conselho se Guizot, a
quem ninguem taxou de deshonesto. Em Portugal, os costumes eram mais
soltos, a virulencia maior; e se ninguem fôra ainda atacado de um modo
tão cruel, isso prova que ninguem, tampouco, ainda mostrára uma força
e um genio tão superiores. Outro Pombal, repetimos, o novo ministro
ficaria tão celebre como o antigo, se achasse ainda de pé uma qualquer
authoridade social. Nas ruinas universaes não tinha com que construir,
e os elementos que iam rebellar-se contra elle obrigal-o-hiam a
empregar, francamente a força núa como instrumento de conservação.
2.--TORRES NOVAS E ALMEIDA
O melhor d’essa força era a tropa, mas usar d’ella na defeza de um
governo e de um systema cuja origem era discutida, tornava logo o
exercito em instrumento partidario, roubando-lhe esse caracter mudo e
passivo, sem o qual vem a ser um perigo permanente. As condições da
nossa historia, o abatimento caduco do nosso povo, tinham feito com
que, desde 20, as revoluções portuguezas--sem excluir a de 32-4--fossem
emprezas militares. Os chefes de partido, Silveiras, Terceira, D.
Pedro, Saldanha, Sá-da-Bandeira, eram invariavelmente generaes; e
agora, com Costa-Cabral, pela primeira vez se via o governo positivo
nas mãos de um paisano, mas sob a presidencia de Terceira, com a
adhesão de Saldanha, marechaes do exercito.
Educado desde largos annos na tradição dos pronunciamentos, o exercito
era, portanto, como que uma prolação dos partidos: uma parte, armada,
das clientelas. Vê-se que desordem isto produziria. A parcialidade
vencedora dispunha em proveito proprio do material de guerra: soldados,
espingardas, canhões, etc., expulsando os officiaes hostis para o
quadro da inactividade, e mantendo, assim, uma como que emigração
dentro do reino, constantemente preocupada de politica e tramando
a victoria dos seus, a queda dos contrarios. Com a exaltação de
Costa-Cabral, as cousas tinham chegado ao ponto de os coroneis pedirem
aos officiaes arregimentados _palavra d’honra_ de se não bandearem; e
os officiaes davam-n’a e faltavam por dinheiro que recebiam, e quando a
não davam eram riscados do effectivo. (_Apont. hist._ cit.)
De tal situação nasceu a revolta de Torres-Novas, a que Passos-Manuel
chamou bambochata. Commandava ahi cavallaria 4 o coronel Cesar
de Vasconcellos, (depois feito conde do lugar da façanha) que se
pronunciou contra o governo (4 de fevereiro de 44), e ao regimento
foram juntar-se os militares inactivos. No dia seguinte, Costa-Cabral
pediu ás camaras a suppressão de garantias e as leis marciaes, e
obteve-se no meio dos clamores da opposição: Mousinho d’Albuquerque,
Aguiar, Gavião e Silva-Sanches, Garrett, nos deputados; Lavradio,
Taipa, Sá-da-Bandeira, Fonte-Arcada, nos pares. Clamando, os
opposicionistas encobriam mal, sob expressões juridicas, a sua
cumplicidade na sedição militar; appellando em gritos violentos,
exclamações dirigidas ás galerias, para um motim popular.
Bomfim, o _ordeiro_ antigo, pozera-se á frente da desordem, e a praça
de Almeida pronunciara-se tambem: ahi se achavam o coronel Passos
e José-Estevão que deixára a camara pelo campo. (Oliveira, _Esboço
hist._) A coalisão dava de si uma revolta militar, e o governo via os
miguelistas a levantar a cabeça no meio da anarchia. Beirão que viera á
camara, eleito por elles, alliciava os estudantes realistas em Coimbra,
recrutando soldados para Almeida, d’onde lhe escreviam que mandasse o
Rebocho, para Minzella, _agitar-se_. (_Disc._ de Cabral, 18 de outubro
de 44) Para Almeida foram de Torres-Novas as tropas, e sem poderem
arrastar comsigo nenhuma parte do paiz, acharam-se ahi encerradas em
abril. O exercito fiel ao governo cercava-as. Em vão saíu José-Estevão,
romantica, aventureiramente, a _revolucionar_ Traz-os-Montes, passando
a fronteira e indo entrar em Moncorvo; em vão bateu ás portas de
Chaves, de Bragança e de Murça: ninguem respondeu; mas ninguem tampouco
entregou o estouvado romantico, pelo qual Costa-Cabral offerecera, ao
que se affirma, o premio de dois contos. (Oliveira, _Esboço hist._)
Almeida capitulou, os vencidos emigraram, o governo venceu; mas a
victoria obrigava-o á crueldade e a derrota exasperava os animos dos
submettidos á tyrannia de um homem que desprezavam.
* * * * *
Das ruinas da revolta renasceu mais firme a coalisão, para as eleições
de 45. Havia uma guerra declarada contra o governo, cujo existencia era
um incessante combate. Todos os chefes e clientelas apertavam as mãos,
esquecendo odios antigos no ardor do odio novo contra o aventureiro
que os batia a todos. O calor era tal que o povo como que accordava,
interessando-se e intervindo nos debates dos politicos, emittindo
opiniões e pareceres. «A mania politica tem acommettido todos os
habitantes da capital, desde o fidalgo e o par do reino até ás fezes
da plebe. Apenas os pobres pretos de Africa que passeiam aos milhares
pelas ruas de Lisboa não discutem politica». (Lichnowsky, _Record_.)
A rede de sociedades secretas, que minavam o reino, estabelecia um
sub-solo á politica apparente. Costa-Cabral era chefe de uma maçonaria
sua, herdando o _malhete_ que fôra de Silva-Carvalho e de Miranda:
o centro cartista. Saldanha perdera o posto supremo da maçonaria
opposta, desde que se bandeara em 35, deixando o grão-mestrado a
Manuel Passos, que dirigia tambem outros conventiculos: templarios,
vendas-carbonarias, etc. (Macedo, _Traços_)
A alliança das opposições já tinha um jornal, a _Coalisão_ que,
francamente, accusava tanto o governo pela sua _tyrannia_, como o povo
pela sua indolencia.
Ha no paiz muito homem que não sabe lêr. Ha muito homem que sabe lêr,
mas não lê. Ha muito homem que lê, mas não entende. Ha muito homem
que lê e que entende, mas que tem medo, que é vil como um porco e
cobarde como um veado. Ha muito homem que vê as desgraças publicas,
mas não as quer remediar; ou porque treme de susto, ou porque ganha
com a _carrapata_. Aos que vivem da sopa gorda, da olha podrida do
orçamento não ha que dizer ... Folgam com as listas de côr, de carimbo
e de tarja, morrem pelas transparentes. Fingem que vão coactos, mas
vão contentes. Votam pela comezana: gostam da boa fatia do pão do
nosso compadre Povo.--Ó Costa-Cabral! quantas vezes terás tu dito como
Tiberio, vendo estes poltrões, estes sanchopansas da liberdade: _ó
homines ad servitutem paratos_! (_Coalisão_, 10 de janeiro)
Mas este tom, de uma sinceridade triste, não era o que convinha
na vespera da batalha: «Á urna! á urna! abaixo todos os ladrões e
comedores! Empregados, ladrões, falsarios e prevaricadores, votae com
o governo: não vos queremos. Tratantes! pertenceis de corpo e alma ao
ministerio». (_Coalisão_, 15 de janeiro.)
Costa-Cabral ainda confiava, ainda esperava dominar a tormenta que
todos os dias crescia. Tinha o exercito, tinha a burocracia, via-se
apoiado pelas nações alliadas; o balão da finança entumescia-se, e o
proprio Tojal, da Fazenda, mettera tudo quanto tinha n’uma operação de
fundos, de sociedade com banqueiros de Londres. A rainha entregara-se
nas mãos do seu homem-novo, no qual via uma coragem e uma força! ella
que, se fosse homem, faria exactamente o mesmo, ou mais ainda por ser
monarcha.
O ministro plebeu não podia resistir ás tentações da vaidade palaciana:
não via que as honras com que a rainha o exalçava, o diminuiam no
espirito commum. A sinceridade democratica do povo e a inveja dos
ambiciosos juntavam-se para ridicularisar o _parvenu_. A fortuna que
juntára no poder, alvo de tantas accusações, permitira-lhe comprar
as terras de Thomar, com o velho castello templario, onde o moderno
burguez afidalgado, occupando as salas historicas povoadas de sombras
romanticas de cavalleiros, as enchia de festas banaes por occasião da
visita da sua liberal soberana:
Na cathedral de Lisboa
Sinto sinos repicar:
Serão annos de princeza?
D’algum santo o festejar?
É a rainha que se parte
Té ás terras de Thomar.
..............................
Em vez das armas antigas
Dos nobres valentes Paes,
Na fachada, sobre o portico,
Vêem-se hoje as dos Cabraes
Que em seu campo ensanguentado
Por brazão tém tres punhaes.
(_Xacara da visita da rainha_, etc.)