Na administração de Lisboa, Cabral dera em 38 a medida dos seus

talentos; no ministerio da Justiça, agora, portanto, durava a ordem

provisoria, ia-se revelando cada vez mais o seu genio pombalino.

Restabelecidas as relações com Roma, que desde 34 estavam suspensas,

o ministro reorganisou a machina ecclesiastica, preenchendo as sés,

regulando, construindo tudo o que a anarchia derrubára. Outhorgando

a _Novissima reforma judiciaria_, adaptava a legislação antiga aos

principios novos estabelecidos pela revolução, organisando tambem o

pessoal da justiça, pondo regra e ordem n’esse deploravel cáos. Não era

um demolidor, a continuar a obra de Mousinho, não era um philosopho,

guiado por principios absolutos: era um homem prático, laborioso,

intelligente, serzindo, remendando, alinhavando os farrapos velhos e

novos, os retalhos ainda existentes do passado, com as amostras, breves

e já desbotadas, do futuro.

A sua fama crescia, e trabalhando, agora e sempre, conquistava uma

influencia muito mais solida do que a do émulo com as suas manhas

e ardís. O scepticismo e a ironia, com as artes e os ditos, vencem

e por vezes seduzem; mas a impressão é breve, e fica sem raizes. A

força ganha uma tenacidade differente. A força pessoal do homem que

vinha subindo era mais uma causa de naufragio para a ordem apparente

das esperanças de Rodrigo. Já o astuto chefe percebia que, em vez de

guiar, era dominado; e empregava todas as suas artes para encobrir a

derrota. Depois de certa votação, obtida na camara pela influencia

pessoal de Cabral, Rodrigo á saída, n’uma effusão de agradecimento,

deu-lhe um beijo. (_Apont. hist._ cit.) Era um beijo de Judas, a

denuncia de um condemnado, a declaração de uma guerra que appareceu

logo?

Esta desordem do gabinete ordeiro trazia para o governo a scizão

que desde o começo lavrara na direita da camara. Uma parte d’ella

seguia Rodrigo e a sua _ordem_; outra queria uma _ordem_ melhor,--a

restauração da CARTA--e punha em Cabral as suas esperanças. Afinal,

apparecia um _homem_, capaz de metter hombros á historia demorada,

dramatica e triste da renovação de Portugal. Era baixo, macilento,

commum e vulgar de aspecto? (Lichnowsky, _Record_.) E quem pensava

ainda no liberalismo palmellista, aristocratico? pois não vencera

decididamente a burguezia de letrados e agiotas?--Tinha no olhar

e no sorrir um não sei quê de falso? (_Costa Cabral em relevo_,

anon.) A _esperteza_ sempre foi condão de letrados e judeus. A testa

era breve, sem nobreza, o cabello corredio e tudo regular «como se

diz nos passaportes»? (_Ibid._) Assim devia de ser, porque o typo

dos democratas byronianos não convinha á gravidade da _doutrina_.

Correcto, commum, severo, Cabral, porém, tinha um fraco: era irascivel,

apaixonado e violento. Diverso temperamento, mais frio e magistral,

como o de Guizot, convinha ao papel que tomára para si. Em vez

de _expôr_ sem discutir, como fazia o ministro de Luis-Philippe,

Costa-Cabral perdia-se arrebatado por uma ardencia meridional.

Brilhavam-lhe os olhos como carbunculos, (Lichnowsky) gesticulava,

gritava a ponto de enrouquecer. Era um temporal cada um dos seus

discursos: mas para ser inteiramente forte deveria poder encobrir

melhor a sua força. A voz soava falsa, sem espontaneidade, nem

fluencia: era-lhe necessario irritar-se para ser eloquente. Não tinha

correcção, nem elegancia no dizer, apenas virulencia. (_Costa Cabral

em relevo_) Mudara de opiniões, mas a fala, o gesto, a oração eram os

proprios do antigo demagogo, e mais naturaes dos _Camillos_ do que

do chefe da _doutrina_. Rodrigo, ao vêl-o, possesso de ira, perder o

sangue-frio e o governo, devia esperar que essa fraqueza (_Hontem,

hoje e amanhá_) lh’o viria a entregar rendido, depois de algum combate

infeliz. Mas enganava-se. A audacia do tribuno conservador, a força

que lhe davam uma opinião e um plano sustentavam-no: cada batalha era

uma victoria. Rodrigo descia sempre. «A dedicação por uma convicção

politica cessa ordinariamente quando periga a segurança individual:

n’esta terra parece que os homens activos e energicos, os que a si

proprios se sacrificam, são ainda mais raros do que nos outros paizes.»

(Lichnowsky, _Record_.) Percebe-se ou não, o motivo da ascendencia

crescente do homem novo?

Esse fraco da irascibilidade, da ardencia no ataque, da virulencia nas

respostas, do plebeismo da phrase; esse fraco, importante em qualquer

camara, não o era tanto na portugueza, pouco habituada a obedecer á

authoridade moral do saber e ao prestigio do talento. Salvos raros

momentos em que o portuguez, como meridional, se deixava embalar pela

musica de algum orador-poeta; salvos esses momentos breves, apagadas

essas impressões mais estheticas do que moraes ou intellectuaes, o

temperamento chão e violento levava a melhor, e a camara parecia uma

«espelunca de club revolucionario. Estava-se como na rua, jogando-se

com o lodo e as pedras da calçada.» (Lichnowsky, _Record_.)

Tal era a ordem dos ordeiros, em toda a parte, no governo e nos

partidos, no thesouro e no parlamento. Evidentemente, o liberalismo

não marchava; e era indispensavel _restaurar_ qualquer cousa, erguer

qualquer pessoa. Quê, senão a CARTA? Quem, senão Cabral?

2.--A RESTAURAÇÃO DA CARTA

O symptoma mais decisivo do completo descredito do setembrismo foi o

facto da eleição da camara municipal do Porto nos primeiros dias de

42. O Porto, baluarte dos irmãos Passos, fóco da democracia jacobina,

virado assim! acclamando a rainha! sem um viva para a constituição

nova! (2 de janeiro) A cidade burgueza, celebre em tumultos desde os

tempos feodaes, preparar-se para um tumulto conservador?

Cabral já era o homem indicado por todos como um Monk cartista; e ou

foi elle que dirigiu as manobras do Porto, ou approvou-as, e adheriu

quando lhe escreveram chamando-o. (_Apont. hist._, cit.)

Era ministro: não podia ir, assim, claramente, rebellar-se contra o

governo de que fazia parte. Pretextou pois negocios domesticos, e

partiu: sendo recebido entre palmas e vivas no caminho da egreja da

Lapa, onde foi resar, como os soberanos, quando entravam nas suas

terras (19 de janeiro). Formou-se logo uma JUNTA (27), voltando-se

contra o inimigo as armas de que elle usara. A guarnição levada pelo

general Santa-Maria apoiava inteira esta revolta singular, reproducção

das de 23 ou 24, declarando o soberano coacto, e propondo-se a

libertal-o.

Taes eram as palavras do ministro aos seus companheiros, tal a opinião

corrente no Porto. A rainha, positivamente coacta, elegera Cabral para

a libertar; elle vinha com um caracter de enviado do throno pedir aos

povos que lhe accudissem, contra outros povos em cujas mãos se via

perdido. Era verdade? parece que sim; parece que desde 38 a rainha em

pessoa, ou as influencias diplomaticas extrangeiras que a rodeavam,

consideravam Cabral o seu homem; parece que o ministro, além de ir dia

a dia demolindo em publico o seu émulo Rodrigo, cudilhava-lhe a finura

com um calculo mais seguro: apoiar-se ao throno, contra a liberdade

e suas fórmulas, batendo o systema na raiz, com a unica força ainda

um tanto positiva: a monarchia.--Se em verdade não foi assim, e a

restauração do Porto não procedeu de ordem do paço, é fóra de duvida

que a audacia do restaurador agradou á soberana, conquistando-lhe para

sempre uma adhesão temeraria. Ou Cabral seguia ordens, ou superior

ainda aos fieis que só obedecem, sabia perscrutar os desejos e

antecipar os mandados.

Outros negam que houvesse no paço o proposito de uma restauração, e

fazem de Cabral um traidor que forçou a rainha a adherir a poder de

intrigas. (_Costa Cabral em relevo_) Não é inverosimil esta versão

perante a historia posterior? Admira tanto que a rainha, conspirando

contra a constituição, hesitasse e temesse? Que ordens podia elle

dar em publico, senão ordens legaes? Coragem não lhe faltava, para

amarrotar as leis e atiral-as como bolas de papel velho, sujo, á cara

dos seus contrarios; fizera-o em 36 em Belem, e havia de repetil-o

com melhor fortuna, dez annos depois no mesmo lugar. Porém agora, se

plano havia, o plano era diverso do antigo. A rainha já não carecia

de chamar soldados inglezes: tinha os de Santa-Maria; nem precisava de

um belga, porque achara um portuguez. O seu throno ganhava raizes, á

medida que as do setembrismo apodreciam.

Em Lisboa, o governo via-se nullo, impotente. Fugira-lhe a sua unica

força: restava apenas a manha que mordia os beiços, sentindo-se

absolutamente vencida pela audacia do rival temerario. Diziam-se

as palavras mais extravagantes: o caso do Porto só era comparavel

a Alcacerquibir! um fim de mundo! E na afflicção atordoada

escreviam-se proclamações que a rainha assignava, e corria-se a casa

do caduco Palmella, como quem appella para a homœopathia nos casos

perdidos. A prudencia e a moderação--homœopathia, ou agua-pura da

politica--salvariam o doente? Ás vezes, com effeito, a natureza deixada

a si faz mais e melhor do que os medicos: mas a natureza estava agora

do lado da força, e todos hesitavam, todos se sumiam, presentindo a

fatalidade do fim. Rodrigo tomava um ar solemne, vendo que teria de

recomeçar na opposição o papel de chefe de um partido cartista genuino,

inimigo do _cabralismo_, para no dia da victoria final soltar a sua

ultima risada sobre as ruinas de todos os partidos.

No Porto hesitava-se. Talvez se contasse com uma adhesão immediata da

rainha; e em vez d’isso viera a proclamação condemnatoria e o ajudante

Sarmento que teve largas conferencias com a JUNTA. Corria que a rainha,

pessoalmente, desapprovava, repellindo toda a idéa de cumplicidade.

Cabral passava por um impostor, (_Costa Cabral em relevo._) e a

ser exacta esta versão, achando se perdido, pedira chorando aos

companheiros que o não deitas-sem ao mar. (_Ibid._) Conhecedor da

restauração tramada, teria querido confiscal-a em proveito proprio,

dando-se como confidente e mandatario da rainha! É o que alguns dos

restauradores allegam. Santa-Maria bruscamente responderia: «O meu

fim é restaurar a CARTA, e não, fazer ministerios: avenham-se lá como

poderem». (_Ibid._)

Como quer que fosse, o facto é que as tropas saíram do Porto para

Coimbra, (5 de fevereiro) indo Cabral na divisão. Se a rainha o

não encarregara a elle da empreza, é fóra de duvida que adheria ao

movimento. O ministerio perdera as estribeiras, e a rainha, segura de

si, vendo a mudez do reino, a facilidade com que as tropas sublevadas

o atravessavam, _constitucionalmente_ annuia a tudo. Cabral era o medo

dos de Lisboa; o seu jornal (_Correio-portuguez_) fôra supprimido.

Avila que tanto lhe devera, renegava-o, lançando-se nos braços do

inimigo e echendo as columnnas da _Revolução_ de diatribes contra elle,

e contra Terceira que, á frente da sua divisão, esperava na capital de

braços abertos a divisão de Santa-Maria. Os ministros levavam á rainha,

e ella assignava, uma carta para Cabral, convidando-o a submetter-se.

(_Apont. hist._ cit.)

Era uma comedia? Era. Estava-se no entrudo. E _do entrudo_ se chamou

ao ministerio novo, em que Avila ganhara a conservação do lugar

á custa dos artigos da _Revolução_. Era de entrudo o ministerio

setembrista-palmellista que durou os tres dias (7-9) de farça, chamando

em vão pela guarda-nacional para o defender, servindo de ridicula

passagem da situação ordeira caída em desordem, para a situação

cartista proclamada pela tropa. (_Ibid._)

Cabral e Santa-Maria continuavam em Coimbra, esperando o que aconteceu.

Na madrugada de 8 uma salva real do castello annunciou a Lisboa a

restauração da CARTA. Que fez o ministerio do entrudo? Uma entrudada,

uma pseudo-revolução. Abriu os arsenaes, mandou desembarcar os

marujos e armar o povo, fazer barricadas. Abandonado pela tropa, o

governo appellava para as turbas: mas quem era esse governo? Palmella

o conservador aristocratico; Sá-da-Bandeira, que em 38 desarmara,

fusilara no Rocio esse povo para que appellava hoje. Era de facto um

entrudo, não só o governo, como tudo: o systema, exprimindo-se na voz

de falsete das mascaras; os homens, que dia a dia mudavam de dominós

e caraças. Palmella descia para a rua; Cabral subia dos _Camillos_

para o paço; Sá-da-Bandeira ia aos tombos; Passos estava esquecido e

só; Rodrigo despeitado contra si proprio. Apenas Terceira, de espada á

cinta, conservava o seu papel de condestavel do throno.

Demittiu-se o entrudo; veiu a quaresma, e--coisa singular!--era Cabral

o condemnado a jejuar do governo. O novo ministerio _cartista_ (9 de

fevereiro) consistia no condestavel com os seus antigos ajudantes

de campo, Loureiro e Mousinho. Transição, para não dar na vista? De

facto a rainha não queria accusar tão publicamente a sua connivencia,

por um escrupulo _constitucional_? Ou não haveria compromissos com o

Costa-Cabral? ou havendo-os, achar-se-hia prudente não se entregarem

tão completamente nas mãos de um homem audaz e forte?... Rodrigo,

observando a exclusão do émulo, teve uma esperança, e propoz a

Terceira uma conciliação: a CARTA, mas revista e reformada por côrtes

constituintes. O general voltou-lhe as costas e mandou Fronteira

entender-se com as tropas de Coimbra.

Cabral, porém, não concordava: via-se cudilhado, e fôra elle o author

verdadeiro da victoria. Instava com Santa-Maria para marcharem sobre

Lisboa. Entrar na capital, vencedor, triumphante, á frente de tres ou

quatro mil soldados augmentar-lhe-hia muito o prestigio politico. Mas

o general «que não queria fazer ministros», apenas restaurar a CARTA,

recusou-se; (_Costa Cabral em relevo_) e o futuro rei de Portugal veiu

só, desembarcar no Terreiro-do-Paço (29 de fevereiro), onde o cartismo

lhe preparou, entretanto, uma ovação. Cinco dias depois, Cabral entrava

no ministerio do Reino, posto eminente para organisar o _seu_ partido,

instrumento de um systema novo de liberalismo ao avesso.

Entrava naturalmente, como consequencia da empreza? Dizem alguns

(_Ibid._) que não; que o não queriam, que força lhe foi, a elle, usar

dos elementos já seus e de que no gabinete ia ser o orgão; dizem que

teve de levantar tropeços a Terceira e levar o Banco a pôr a faca aos

peitos do Thesouro, como sempre, vasio. (_Ibid._) Compromettia-se a

enchel-o, enriquecer os agiotas, transformar o reino todo.

Abria-se, pois, uma edade nova. Santa-Maria subia a conde, Mello a

visconde. Enchia-se de pares novos e fieis a camara-alta; e novas

eleições iam trazer uma camara-baixa de empregados publicos doceis.

Seria a sophisticação de todos as fórmulas, com o reinado positivo das

forças novas, reconhecidas, defendidas, pela bocca do audaz ministro.

Abriu-se o parlamento em julho (10) e choveram accusações. «Eu

rebellei-me? E vós, dizia Cabral, e vós todos?» E como ninguem podia

responder, calavam-se, curvavam-se. Levantara-se afinal um tyranno do

seio da anarchia.

* * * * *

Com a restauração da CARTA não subia apenas ao poder supremo um

homem-novo com a maior de todas as clientellas politicas do liberalismo

portuguez: via-se a inauguração de um systema diverso de governo.

A aristocracia _liberal_, da gente que tinha conseguido enriquecer

e _subir_, classe nova formada pela anarchia de 34-38, reclamava

o imperio: era a força mais positiva que se levantára das ruinas

da sociedade antiga, e muitos dos homens velhos, ou saciados de

liberalismo ou indifferentes a doutrinas, só desejosos de ordem,

punham-se ao serviço d’essa aristocracia nova, cujo representante,

chefe e instrumento Costa-Cabral soubera tornar-se.

Restabelecendo a camara dos pares vitalicios e hereditarios, a CARTA

dava aos novos fidalgos um lugar eminente e seguro para defenderem

e zelarem os seus interesses; para satisfazerem a vaidade burgueza,

suppondo-se herdeiros dos nobres, isentando-se da sujeição humilhante

de irem periodicamente esmolar e exigir os votos populares. Palmella

reclamara sempre a conservação da camara dos pares, e n’um sentido

contradizia-se não adherindo á restauração; mas as revoluções dos

ultimos quatro annos, a abstenção de grande parte da velha nobreza, a

ruina das casas vinculadas liberaes, faziam com que o restabelecimento

da instituição antiga não podesse já agora ter o papel que o antigo

romantismo conservador desejára. A nova camara só na fórma correspondia

á velha, ou _estado da nobreza_: na essencia era de todo outra, pois

essa nobreza podia dizer-se acabada. Enchiam-se os bancos da camara,

dominavam nas suas decisões os vencedores da concorrencia _liberal_,

os homens dinheirosos e os altos funccionarios, barões da finança e da

secretaria.

Constituida assim no fôro legislativo a nova classe dominante, era

necessario modificar o systema das leis organicas, podando tudo o que

de longe ou de perto trouxesse para o jogo das forças politicas os

elementos democraticos, sobre que a revolução de setembro imaginára

fundar o poder e que a reacção ordeira não eliminára, temperara

apenas. Uma nova lei eleitoral, um novo codigo administrativo, eram

indispensaveis, e estava indicada a tendencia que o novo ministro

havia de seguir. Tornar indirectas as eleições, levantando bem alto o

censo eleitoral, era o meio de impedir a intervenção das plebes, dando

á representação o unico, absolutamente unico criterio que, repellida

a _soberania popular_, restava--e resta--ao liberalismo: o dinheiro.

Desde que o individuo é a fonte da authoridade universal, ou se hão de

dar fóros politicos a todos os homens, dando á authoridade uma origem

individual moral; ou se se lhe dér uma origem material, positiva,

social, como fazia a nova doutrina, resta apenas a riqueza para metro

da representação.

Mas, as idéas da nova doutrina e as licções crueis da anarchia anterior

levavam a confiar muito pouco na discrição das massas da classe-media a

que o censo dava ainda authoridade representativa. Não haja duvida de

que nos desejos dos doutrinarios estivesse uma reducção ainda maior do

paiz-legal, como se dizia em França, porque a tendencia do systema para

chegar a definir-se na sua pureza era a constituição de uma oligarchia

dos ricos. Não a proclamando, os estadistas obedeciam mais ou menos

conscientemente á força de uma tradição democratica, recente, mas

enraizada, e com a qual tinham de pactuar e transigir.

Podiam, comtudo, chegar indirectamente ao mesmo fim: centralisando

todas as funcções administrativas para mandarem nas eleições, e

escolhendo para candidatos a deputados os proprios funccionarios.

De tal modo se viciariam os elementos democraticos que era forçoso

manter, destruindo todo o resto de influencia, não só das plebes,

como das classes médias. Tal foi, com effeito, o plano systematico

do codigo administrativo, que veiu substituir o setembrista. Os

municipios existiam sob a tutella dos administradores; o papel das

Juntas-geraes, ou assembléas de districto, reduzia-se a nada; e os

parochos dispunham das Juntas-de-parochia. Desde a freguezia até ao

districto, mantinham-se pro-fórma as instituições representativas,

mas subordinando-se á discrição dos delegados do governo,

governadores-civis, administradores-de-concelho, parochos e regedores.

Se nas leis judiciarias já se tinha supprimido o jury de ratificação

de pronuncia, agora transferiam-se para a nomeação regia os antigos

cargos electivos: 400 administradores de concelho, 4:000 regedores, 20

ou 30:000 cabos de policia. N’um systema de communismo burocratico,

infere-se com facilidade que extraordinaria força taes medidas dariam á

nova clientella cabralista.

Procedia o ministro movido apenas pela ambição pessoal de se

consolidar, fomentando-a? Não o acreditemos, porque, para além d’esta

consequencia, taes factos teem maior alcance. Pois não era verdade,

confessada, reconhecida por todos, a incapacidade do _povo_, e o

mallogro das experiencias democraticas e localistas? Que havia pois a

fazer, de que recurso lançar mão: senão centralisar o poder, chamar

o governo a uma minoria consistente e forte; deixando de pé, para

não aggravar questões, todas as fórmulas que podendo ser viciadas

não prejudicassem o plano? Encerrado um circulo da sua existencia, o

liberalismo vinha caír n’uma oligarchia de facto, revestida de fórmulas

e garantias ficticias. Na Hespanha e em França acontecia outro tanto;

e lá e cá, depois das reacções que o absolutismo novo, _illustrado_,

provocou, o liberalismo cedeu o lugar ao scepticismo politico mais ou

menos cesarista do imperio francez, e da Regeneração portugueza.

Conhecemos, pois, nos seus traços essenciaes, o novissimo systema,

e como não póde haver politica sem uma base de elementos e forças

positivas a que se apoie, resta-nos saber quaes eram as do cabralismo.

No decurso do nosso estudo achámos duas já: a aristocracia nova do

propriedade e da finança, e a burocracia. Mas estes dois elementos,

preponderantes e decisivos na paz, não bastavam para resistir á força

material das numerosas plebes agitadas pela democracia setembrista. O

governo, desarmando e dissolvendo as guardas nacionaes, eliminára a

melhor arma de que ellas dispunham nas cidades; mas restavam os campos,

com os habitos de guerrilha, enraizados por annos de guerra e anarchia.

Contra esses tinha o governo o exercito: porque todos os commandos

estavam nas mãos de generaes fieis e a officialidade fôra depurada.

A restauração consummada por uma porção de tropa, tinha, de facto,

nos soldados o mais firme apoio, porque a adhesão decidida do throno

valia menos em uma nação a que _per vim_ se impozera uma dynastia

nova, discutida desde a origem e atacada, escarnecida, humilhada

muitas vezes. A rainha era, comtudo, o primeiro funccionario da nação,

e não valia mais nem menos do que a burocracia toda, com a qual se

inscrevera na nova clientella cabralista. Se lhe não succedeu como

a Luis-Philippe, ou a Isabel II, caír com o systema, foi porque a

Hespanha, a Inglaterra e as França vieram juntas defendel-a em 47.

Burocracia, riqueza, exercito: eis os tres pontos de apoio da doutrina;

centralisação, oligarchia: eis o seu processo; mas nem as fórmas nem

as forças bastam para constituir um systema: são apenas consequencias

subsidiarias d’elle. Que era, no fundo, a idéa? Seria o racionalismo

espiritualista do seculo XVIII que prégava, contra o catholicismo,

pela bocca da maçonaria, uma religião nova? Não; a doutrina reconhecia

o catholicismo, lavrára já a sua concordata com Roma, e via nos

padres excellentes instrumentos de governo. A maçonaria perdera havia

muito o caracter revolucionario, e a revolução perdera tambem as

ambições religiosas. Como os casulos do bombyx ficam depois que a

borboleta voou, assim ficavam as _lojas_, rede de sociedades secretas

subsidiarias das sociedades politicas visiveis, a que o segredo e o

mysterio, porém, seductores dos simples, augmentavam até certo ponto a

força. Costa-Cabral afeiçoara tambem essa machina ao serviço dos seus

designios e ambições.

* * * * *

Se elle se propunha defender os ricos para consolidar a ordem, á

maneira do religioso Guizot, ou se, menos idealista nas suas vistas,

queria a ordem apenas como instrumento de enriquecimento do paiz,

é o que nos não sentimos habilitados a dizer; pensando, comtudo,

mais provavel a segunda hypothese. Como quer que seja, era por esta

que a sociedade opinava, já começada a converter ao materialismo,

sob a primeira fórma com que elle modernamente appareceu; era para

o materialismo pratico que a sociedade, desilludida das chimeras

_liberaes_, começava a pender.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 10 / 30 段