Mais perspicaz, Garrett punha em scena o marquez de Pombal (_A

sobrinha do Marquez_), typo vivo, presente, popular; e se tambem ia

á Edade-media (_Arco-de-Sant’Anna_, _Alfageme_), era para explorar

a moda, aproveitando os nomes antigos em dramas ou comedias da

actualidade. Mais perspicaz, via que no povo portuguez não havia

tradições medievaes, e que as lendas das chronicas eram objecto

de erudição, mas não de litteratura ou poesia nacional. Em vão se

procuraria ahi o renascimento. Cavou mais fundo e foi aos romances

e historias da tradição oral: essa era a poesia da raça, não a

poesia historica ou nacional. O _Romanceiro_, feito com um proposito

litterario e não ethnologico--Garrett não era como os Grimm--não

tinha comtudo alcance para o renascimento da nacionalidade, porque,

em Portugal, a nação provinha de uma historia e não de uma raça

individualisada. A poesia popular funde as nossas populações no corpo

das populações ibericas.

Em vão, portanto, o romantismo procurava uma tradição. Não a achava,

porque as idéas philosophico-economicas condemnavam as conhecidas; e

não havendo outras a descobrir, os romanticos implantavam um _genero_

litterario de importação da Escocia, _á Walter-Scott_, sem conseguirem

acordar no povo lembranças d’esses dois seculos de Edade-media de que

elle não tinha recordações, porque n’elles a vida da nação não tivera

caracter proprio. Senhorio rebellado, como tantos outros, até ao fim do

XIII seculo, é só com a vida maritima então iniciada que principia uma

historia particularmente portugueza.

* * * * *

No lugar onde a Inquisição tinha sido, fôra o Thesouro que ardera, e

ficara--ficou até hoje!--em ruinas. N’esse lugar historico se levantou

o templo romantico do renascimento da tradição nacional. Pobre theatro

de D. Maria II! que vives da traducção das comedias francezas. Em

vez de representarem ahi as tragedias portuguezas: a historia das

viagens, dos naufragios e aventuras do Ultramar, a historia das

cruezas da Inquisição e a tortura do judeu, talvez até a historia da

propria queima do dominio do velho Estado, no lugar onde o Thesouro

ardeu--representaram scenas tão horrendas quanto frias: os melodramas

romanticos, de montantes e couraças, n’um estylo arrevezado e cheio de

«sus! eias! bofés! t’arrengos!» Á força de lagrimas, adormecia-se, em

vez de se acordar para a renascença de uma tradição apagada, tanto mais

que nunca existira. Garrett disse-nos como essa tradição se fazia:

Vae-se aos figurinos francezes de Dumas, de Sue, de Victor-Hugo, e

recorta a gente de cada um d’elles as figuras que precisa, gruda-os

sobre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul; fórma com

elles os grupos e situações que lhe parece: não importa que sejam mais

ou menos disparatados. Depois vae-se ás chronicas, tiram-se uns poucos

de nomes e de palavrões velhos: com os nomes chrismam-se os figurões,

com os palavrões _illuminam-se_, etc. (_Viagens_).

Assim era no theatro; assim na imprensa, Herculano, condemnando a

aristocracia e os seus vinculos, o Estado e a sua authoridade, o throno

e o seu poder; condemnando todas as instituições historicas, apenas

descobria uma, unica n’esses tempos breves, antigos e genuinos, depois

dos quaes tudo fôra erro,--o municipio. (V. _Hist. de Portugal_) Mas

esse municipio redemptor, verdadeira e pura tradição nacional, que era?

Elle nol-o diz tambem: (_Parocho d’aldeia_, _Carta aos eleitores_,

etc.) uma assembléa de cretinos.

A sociedade é materialista; e a litteratura que é a expressão da

sociedade é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente

espiritualista! Sancho, rei de facto! Quixote, rei de direito!... É a

litteratura que é uma hypocrita. (Garrett, _Viagens_).

Hypocrisia? não: innocencia, propria de litteratos ou doutrinarios.

O romantismo ficava sendo um _genero_ e falso; a sociedade seguia o

seu caminho. Sancho reinava. O municipalismo ficava sendo o que era,

o que podia ser, um instrumento administrativo. Dir-se-hia, pois, que

tudo eram tambem ruinas por este lado, e tudo anarchia? Não. Quando

os homens valem, as suas obras fructificam, apesar das formulas a que

obedecem. A natureza é mais forte do que as doutrinas, a realidade

sobrepuja as chimeras. Como obra de homens ficaram os trabalhos de

erudição historica de Herculano; ficou, para attestar o genio do

artista Garrett, uma tragedia em que a tradição realmente o inspirou, o

_Frei Luiz de Sousa_.

Na sua commovedora simplicidade, o drama representa o fundo intimo

da vida portugueza, com a mistura de anceios e tristezas, esperanças

envenenadas de fortunas apparentes e impossiveis que conduzem a essa

devoradora melancolia que se chama saudade. O effeito é tanto mais

desolador, quanto a esperança realisada apenas serve para despedaçar

os corações. No fim, quando os personagens principaes dizem adeus ao

mundo para entrar no convento, parece que a nação inteira pronuncía os

votos.

(Quinet, _Vacances en Espagne_).

O _Frei Luiz de Sousa_ é a tragedia portugueza, sebastianista.[25]

O fatalismo e a candura, a energia e a gravidade, a tristeza e a

submissão do genio nacional, estão alli. Não é classico, nem romantico:

é tragico, na bella e antiga accepção da palavra: superior ás

escholas e aos generos, dando a mão, por sobre Shakespeare e Goethe,

a Sophocles. N’um momento unico de intuição genial, Garrett viu por

dentro o homem e sentiu o palpitar das entranhas portuguezas. Que

ouviu? Um choro de afflicções tristes, uma resignação heroicamente

passiva, uma esperança vaga, etherea, na imaginação de uma rapariga

phtysica, e no tresvario de um escudeiro sebastianista.

Quando o genio tinha uma revelação d’estas, estaria forte, viva, crente

n’uma tradição seguida, ávida por um futuro certo, a nação entregue aos

braços da Liberdade?

Balouçada nos joelhos do tribuno a filhinha sorria, e elle tristemente

se consolava, esperando, esperando ... mas para longe, quando, tudo

acabado, D. Sebastião voltasse em uma manhan do nevoa ... um D.

Sebastião iberico ...

4.--A ORDEM

Por ora, não. O povo inteiro pronunciava os votos cada dia mais formaes

de uma abstenção decidida. Deixal-os, os politicos, fazer systemas e

revoluções, cartas, juntas, programmas, côrtes, leis; deixal-os comer e

engordar e devorarem-se: elles cançarão!

Já desanimados, tinham cançado Mousinho e Passos; mas havia gente nova,

para uma terceira investida, um terceiro liberalismo: a Ordem. Mas

como póde haver ordem nos factos, se as idéas são uma desordem? Como

conciliar as instituições e as idéas, quando as primeiras, reconhecendo

a aristocracia n’uma segunda camara, a, theocracia n’uma religião

d’Estado obedecem ainda ao pensamento do primeiro romantismo, ou do

tradição historica? quando o segundo fez recuar essa tradição para o

campo vago de uma poesia, além de insufficiente para dar consistencia

ao organismo social, falsa e artificial, obra de litteratos, paixão

de archeologos e eruditos, inaccessivel ao povo? Como conciliar essas

instituições com o principio da soberania do individuo, já combinado

pela revolução com o da soberania do povo? e com o systema da

concorrencia livre, prejudicado pela revolução, tambem, com o systema

da protecção ás industrias? Essa ordem é um cháos, de instituições

e idéas. Já não ha, é claro, uma Anarchia systematica, tal como a

concebera Mousinho; mas em vez d’ella ha uma mistura de elementos

contradictorios, liberaes, democraticos, romanticos, d’onde sae a

supposta ordem da constituição de 38.

Assim, tambem, já não ha bandidos: os marechaes voltaram e juraram; mas

sob a paz apparente lavram os germens de novas desordens. A anarchia

fôra até 36 um systema. Agora pedia-se ordem; mas as vida antiga ia

continuar contra a vontade dos homens já saciados, já desejosos de

gozar em paz o fructo dos seus trabalhos. Rodrigo apparecia á frente

dos setembristas e cartistas fusionados para o descanço: Rodrigo

sceptico desde o berço, mas talvez crente em que no scepticismo

estivesse a sabedoria, e por isso na constituição de 38 o porto

desejado da vida liberal.

Não, não podia ser: a confusão dos elementos não podia dar a ordem nas

instituições. Foi a rainha quem fez da Costa Cabral um instrumento para

restaurar a CARTA (1842), cudilhar Rodrigo e os ordeiros fusionados,

e os romanticos? Talvez fosse; talvez não fosse: logo o vermos. Mas o

facto é que o _status quo_ não era viavel, apezar das affirmações em

contrario dos vencidos.

Palmella com o seu romantismo aristocratico pugnára pela conservação

de uma camara de pares vitalicia, hereditaria; mas a revolução veiu e

destruiu-a. Depois, em 38, o meio-termo creou a camara dos senadores

temporarios, electivos. É verdade que, extincta ou protestante por

miguelista, a antiga aristocracia não podia preencher os lugares da

camara; mas não é menos verdade que um senado temporario e electivo

só é viavel dentro de um systema de representação de orgãos e classes

da sociedade; sendo uma chimera, um accessorio inutil, uma duplicação

van (como agora mesmo se vê em França), quando procede, como a

camara-baixa, do suffragio popular, directo ou indirecto.

A antiga aristocracia demittira-se, é verdade; mas a liberdade e a

concorrencia tinham creado um poder real e novo, uma plutocracia: a

classe dos burguezes ricos que não podiam deixar o seu poder, os seus

interesses, á mercê dos acasos das eleições; que não pactuavam com

o individualismo, nem com a democracia, querendo para si o dominio

seguro a que de facto lhes dava direito o seu poder estavel. Derrubadas

todas as authoridades em holocausto á doutrina, só uma não podiam os

doutrinarios destruir: o dinheiro. O dinheiro, pois, creou para si uma

doutrina nova, que teve por defensor Costa-Cabral. Era um quarto, ou

quinto liberalismo que surgia e vencia todos os anteriores.

Guizot e Luiz-Philippe tiveram de fazer em França o mesmo que D.

Maria II e Cabral fizeram cá. Aos burguezes diziam--enriquecei-vos!

e ás instituições e garantias reformavam-nas no sentido de crear e

consolidar a nova aristocracia dos ricos. Era uma fórma de Ordem que

escapou ás previsões dos romanticos: os seus medos e coleras tinham-se

voltado e consumido contra a democracia! O inimigo surgia abruptamente

d’onde o não esperavam, e bateu-os com a maxima fortuna. Restaurou-se a

CARTA, sem ser necessario um tiro: é verdade tambem que da mesma fórma

caíra em 10 de setembro. Os romanticos sinceros, ingenuos, esperando a

acção dos meios moraes, esqueciam a força dos elementos positivos: a

ordem que tinham fundado era uma bola de sabão. Um sopro desmanchou-a.

E assim devia ser tambem, perante a natureza das doutrinas. Pois se a

unica fonte da authoridade moral e politica era o individuo, pois se a

propriedade era a sagração de uma personalidade soberana, onde se havia

de ir buscar o mandato, senão á vontade da maioria? como se havia de

desconhecer a importancia suprema da riqueza? Porque protestavam, pois,

contra os setembristas, chamando _ignaras_ ás maiorias? e contra os

cabralistas chamando nomes aos argentarios? Ou o dominio do numero, ou

o imperio do dinheiro: eis ahi onde a _liberdade_ conduzia fatalmente.

Onde conduziria, senão á affirmação de uma authoridade cega do numero

ou das forças brutas, a doutrina que negára a authoridade social em

nome da natureza do individuo?

Falhára a conclusão democratica; mas ia vencer a aristocracia nova:

assim terminavam no _absolutismo illustrado_ os diversos liberalismos.

* * * * *

D’esta ultima ruina qual é o cadaver que surge? Quem é agora o

successor de Mousinho ou de Passos? Ninguem; não ha, porque não houve

tempo bastante para fazer desilludidos. O tempo virá, e d’aqui por dez

ou doze annos, veremos como acabam de vez as illusões de Herculano, o

romantico ordeiro. O tempo virá, e na mesma hora veremos Rodrigo, já

cabalmente educado, já de todo em todo sceptico. Aprendera afinal a

conhecer a sua terra, a sua gente, o seu tempo! Singular cegueira fôra

o que suppunha em si perspicacia: «não o cudilhariam outra vez».

Agora, ainda o consummado actor não compunha bem o seu sorriso

final, satanico, de uma ironia e desprezo universaes; ainda tinha

despeito e até colera, vendo a victoria do rival duro e forte. Agora,

representava-se o _Frei Luiz de Sousa_ e as platéas, commovidas,

choravam, pensavam tristes. Ruinas, sempre ruinas!... Ergue-se, porém,

um homem novo: será um messias? será D. Sebastião? Mas recordavam-se de

o ter ouvido nos Camillos, e extranhavam ao vêl-o agora nos degraus do

throno. Entre duvidas, esperanças, tristezas, submissões, desesperos,

acabava a anarchia liberal, para dar logar ao absolutismo novo, erguido

sobre a Babel das riquezas obtidas, Deus sabe como! nos tempos da

desordem.

A magnificencia de Lisboa é mais triste do que as charnecas de

Hespanha: ruas sumptuosas, praças immensas, a cabeça de um grande

imperio,--e o silencio, a solidão d’uma terra, ou d’uma Gomhorra

subvertida. Feria-me sobretudo esta melancolia, quando a comparava á

embriaguez das cidades de Castella e da Andaluzia. A Hespanha dança

por sobre as suas ruinas: Portugal agonisa no atrio de um palacio.

(Quinet, _Vacances en Espagne_)

NOTAS DE RODAPÉ:

[21] V. _O Brazil e as colon. port._ II, 1, 5.

[22] V. _Hist. de Port._ (3.ª ed.) I, pp. 123-5.

[23] V. _O Brazil e as col. port._ (2.ª ed.) I, 1, 5.

[24] V. _Hist. de Port._ (3.ª ed.) II, pp. 129-30 e 177-8.

[25] V. _Hist. de Portugal_, l. V, 4.

LIVRO QUINTO

O CARTISMO

(1839-51)

I

COSTA-CABRAL

1.--OS ORDEIROS

Rodrigo dissera que a questão ingleza, causa da queda de Sabrosa «era

um sacco de ouro», e entrou no governo, sob a presidencia de Bomfim,

tendo Costa-Cabral por lugar-tenente na Justiça, disposto a dar esse

ouro e a passar por cima de tudo, rapido, breve, dissimuladamente

unctuoso, affavel, risonho, cheio lá por dentro de orgulho e imperio,

(_Hontem, hoje e am._) sem olhar aos cachopos, navegando para ir

dar fundo no porto seguro da Ordem, e ser ahi acclamado como o mais

habil dos pilotos. O seu norte não era um principio, era um resultado

pratico. Achava egualmente singulares as preoccupações theoricas dos

democratas e dos cartistas, e sem partilhar nenhuma d’ellas, mirava

apenas a uma paz, para ganhar a qual não hesitava em as atropelar, nem

á dignidade, ao decóro, ao brio da nação. Elle julgava conhecel-a de

perto, e de ha muitos annos!

Saldanha, que desde a paz constitucional de 38 tinha regressado da sua

emigração, era o homem para mandar a Londres, amansar Palmerston. O

inglez, com effeito, chegara ao desespero perante a nossa resistencia

passiva e surda: a resistencia dos enfermos, similhante á do Egypto ou

da Turquia dos nossos dias. Reclamava o cumprimento do tratado para a

abolição do trafico dos negros, tratado que os nossos negreiros não

podiam consentir se executasse a serio.[26] Reclamava as despezas da

divisão auxiliar de Clinton em 27 (£173:030) e mais os soldos por

pagar a Beresford e Wellington (£124:255), ao todo uns 1:400 contos.

Sá-da-Bandeira, e agora Sabrosa, tinham caído, sem poder resolver a

questão. Esperava Rodrigo conseguil-o com as suas artes? Illudia-se. Em

maio, Palmerston mandou ordens positivas ao seu embaixador de Lisboa:

Se até 15 (maio de 1840) não fossem attendidas as reclamações inglezas,

expedisse o vapor que tinha em Lisboa para Malta, d’onde uma esquadra

saíria a tomar posse de Goa e Macau; e se se fizesse algum mal aos

residentes britannicos em Portugal, outros navios iriam apoderar-se da

Madeira. (V. Carnota, _Memoirs_.)

Em taes apuros valia Saldanha, cuja reputação militar servia ainda

perante extranhos de fiador ao nosso descredito. Howard, em Lisboa,

suspendeu a execução das ordens; Saldanha partiu para Londres e

obteve-se uma combinação de pagamentos a prazos, appellando para a

generosidade dos nossos protectores pela bocca do marechal diplomata.

Quando as camaras se abriram no principio do anno, Rodrigo, á frente

do gabinete, ouviu sereno as apostrophes setembristas: era um lacaio

de Palmerston, e o governo portuguez uma delegação da Inglaterra. (V.

os debates, sessão 40; espec. o disc. de José Estevão em 6 de fever.

dito do Porto-do-Pireu) Ouviu, e convencido de que os inimigos se não

convertiam, dissolveu o parlamento (25 de fevereiro): necessitava gente

sua, necessitava silencio para poder resolver a questão ingleza. _Fez_

novas eleições e, como sempre succedera e succederá, venceu-as. O paiz

era unanimemente _ordeiro_. Tres mezes depois (26 de maio), reuniu-se a

camara nova, mas--oh, triste sorte dos habeis!--o que se dissolvia era

a maioria. Formou-se uma colligação para a restauração da CARTA pura

(Seabra-Magalhães), contra o ecclectismo do governo ordeiro que não

dava suficiente ordem.

Com effeito o setembrismo, expulso da camara pela genuinidade dos

processos de representação nacional, appellara para a revolta. Foi

d’então que Rodrigo viu o seu erro, aprendendo a comprar os deputados

como se faz ás casas, em vez de lhes disputar o ingresso no _templo

da nação_. D’esta vez, porém, o mal estava feito: não havia cura.

No dia 11 de agosto uma turba de gente sublevada reuniu-se no largo

da Estrella, descendo a convidar para uma _revolução_ a guarda das

côrtes, a do banco e a de caçadores 2. A tropa não quiz; e elles foram

então para arrombar o arsenal do exercito, no Caes dos soldados, mas

encontrando uma força que os deteve, debandaram. Era nada como facto,

mas grave como ameaça. O setembrismo, tão liberal, não se convencia,

nem se curvava ao juizo-da-Urna! Duas semanas depois do caso de

Lisboa, chegou a noticia da revolta das guarnições de Castello-Branco

e Marvão (26). O tenente-coronel Miguel-Augusto arrastara os soldados:

era uma guerra civil. Mandaram-se tropas que facilmente repelliram

os pronunciados; e fugindo, os soldados rebeldes mataram na Guarda o

tenente-coronel, debandado, emigrando para Hespanha, ou submettendo-se.

A ordem vencia a _hydra da revolução_, mas não podia vencer a desordem

que se formava.

* * * * *

Conhecemos assaz os motivos, isto é, o caracter incoherente das

doutrinas da situação ordeira a que o romantismo não podia dar

principios, pela razão breve de os não ter para si. Elle era um

_genero_ litterario apenas; e o governo era tambem um _genero_ de

governo: o genero sceptico, ainda prematuro. Não ha nada que mais

exalte as _doutrinas_ e exacerbe os odios do que a fome, e então havia

fome entre nós: só quando chegasse uma tal ou qual fartura, acabaria

o periodo dos _systemas_ e das _revoltas_, o reinado da phrase e

do tiro. Então venceria, sem duvida, Rodrigo. Por emquanto, o seu

scepticismo offendia os ingenuos, e como não dava o que faltava sobre

tudo--pão!--era duas vezes condemnado.

O primeiro clamor vinha de turbo dos empregados-publicos, a que, sobre

os pontos e atrazos, se tiravam dez por cento (6 de novembro de 41).

Se no reino, Rodrigo, ao leme da Urna, levava o barco a salvamento;

se Costa-Cabral, na Justiça, mostrava o que podia, a pobre Fazenda,

coitada! via succederem-se os medicos (Ferraz, Miranda, Tojal), sem

que surgisse um digno successor ao velho Law reformado. Não podia durar

tampouco, por mais tempo na Presidencia, o _plastron_ que Rodrigo

escolhera; e força foi reorganisar a tripulação do barco _ordeiro_ (9

de junho de 41). Aguiar tomou o lugar de Bomfim; e na Fazenda pôz-se

um homem novo, crédor de esperanças, que em pesados relatorios tinha

mostrado saber as operações. Poderia Avila descobrir a _operação_

mestra de encher o Thesouro? Se o fizesse consolidava a Ordem, porque

já de certo, a este tempo, o dinheiro poderia mais do que as doutrinas.

Mas não o fez: era impossivel! E em vez de encher, vasou ainda mais os

bolsos dos pobres empregados, como já se disse.

Nas camaras, o homem novo, de quem se exigia um impossivel, soffreu as

coleras de Garrett, e os epigrammas do conde da Taipa que reclamava

o _ponto_ para todas as dividas, salvo os consolidados. (Sess. de 15

de julho e 14 de agosto) Cá de fóra, batiam a _Ordem_, o _Nacional_

e o _Constitucional_, os setembristas e os cartistas scisionados.

Ferrer e Seabra, ambos colericos, faziam um tal escandalo, que o grave

economista Marreca, com o seu tom manso, a custo evitou o pugilato.

(Sessão de 14 de agosto) O riso de Rodrigo amarellecia, vendo sossobrar

o barco da sua dissimulada ambição contra os cachopos da penuria amarga.

«O verdadeiro e unico remedio para as finanças de Portugal é

uma banca-rota universal, e d’ahi por diante rigorosa economia.

Desenganae-vos: este é o especifico, tudo o mais são palliativos;

e a elle havemos de ir: não sei quando, mas a elle iremos. Se os

homens de setembro tivessem lançado mão d’elle, os homens de setembro

seriam eternos no poder, porque em Portugal ha de governar inabalavel

o governo que tiver o dinheiro de que precisar.» (_Hontem, hoje e

amanhã_) A sabedoria falava pela bocca do author do opusculo anonymo: o

programma da futura Regeneração estava escripto.

* * * * *

Mas nem as condições da Europa nem as de Portugal consentiam ainda que

elle se pozesse em practica. Não se tinha accentuado ainda a epocha

industrial-utilitaria que a larga applicação do vapor ás manufacturas e

á viação veiu a abrir; e havia em França e na Hespanha, para onde nós

olhavamos, uma doutrina vencedora, acclamada, que parecia a fórmula

definitiva do liberalismo. Era a aristocracia dos ricos, apoiada a um

absolutismo hypocrita no throno, e a uma burocracia no governo. Guizot,

Gonzales-Bravo, pareciam modelos a seguir; e Costa-Cabral sentiu em si

força para os imitar, voltando-se desordeiramente contra a Ordem de que

era ministro, para organisar a outra, a definitiva ordem liberal.

É já nossa conhecida a pessoa do ministro da Justiça ordeiro.

Vimol-o, rabido, a declamar nos clubs; vimol-o depois a dirigir braço

de Sá-da-Bandeira para suffocar os tumultos de 38 em Lisboa. Os

setembristas começaram desde logo a odiar o transfuga, chamando-lhe

ambicioso, como se alguem, sem ambição, alguma coisa conseguisse! A

nós cumpre-nos estudar o valor d’essa ambição, em vez de condemnar

puerilmente o sentimento gerador de todos os actos humanos. Esse

ambicioso era uma resurreição de Pombal nas qualidades e nos defeitos.

Se tivesse encontrado ainda de pé alguma ordem verdadeira, alguma

authoridade fixa, como a que o predecessor achou no absolutismo, teria

sido tão grande como elle foi. Caiu, por falta de apoio: assim todos

tinham caído, porque nada se mantém de pé quando falta o chão firme de

uma doutrina enraizada nos animos, consistente e forte. Ha um modo de

se conservar erecto, no meio do vacillar de todas as cousas, ha; e é

quando, sem andar, se dispendem as attenções e os cuidados inteiros nos

equilibrios necessarios á attitude. Parece então que se existe, mas é

apenas uma sombra de vida ...

Ao tempo em que nos achamos, havia ainda forte desejo de viver; e

além d’isso um mal-estar, uma pobreza, que forçavam ao movimento.

Cabral fôra demagogo: por calculo, para gritar tão alto, que podesse

_vencer_ na concorrencia do leilão politico? por sinceridade e

opinião, abandonada depois? Elle o sabe; e a nós importa isso pouco.

Na politica, os homens são vehiculos de planos varios: a esses

planos, mais do que ás virtudes privadas, attende a historia. Quando

ella encontra um santo, como Passos, abençoa-o; quando encontra um

forte, como Cabral, admira-o; quando encontra um habil, como Rodrigo,

applaude-o. Na arte de governar os homens, a força e a habilidade

valeram, valerão sempre mais do que a virtude. Costa Cabral padecia da

falta de plasticidade do seu émulo no Reino: era hirto, duro, secco,

aggressivo, violento, como a _doutrina_ que fizera sua. Sendo Portugal,

como de facto era, um reflexo da França, acodem aos bicos da penna as

approximações: Cabral era um Guizot, Rodrigo um Thiers.

Qual venceria: a habilidade sceptica, ou a força doutrinaria? Em

França, em Portugal, venceu temporariamente a segunda. Foi necessario

48 lá, e cá uma guerra triste e lenta, para destruir a doutrina do

argentarismo. Não venceu elle, porém depois, com a força das cousas,

de um modo real? Não foram Thiers-Rodrigo os seus instrumentos

definitivos, mas sem consciencia, nem força, já, para o defenderem como

_systema_?

* * * * *

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 9 / 30 段