erradamente o famoso discurso de Manuel Passos, especialmente n’este
ponto. Relendo o texto vejo que, effectivamente, é licito inferir-se
do que escrevi que em 44 Passos veiu á camara prégar o iberismo. Não é
assim. Depois do periodo transcripto, o orador diz: «Comtudo, depois do
que tenho visto praticar no reino visinho ... eu não podia agora dar o
meu voto para uma união ... Se vierem, ainda pegarei n’uma espingarda e
farei fogo aos invasores».
Esclareçamos pois este ponto, já que assim se julga necessario. Passos
quer ou não o iberismo? Quer; _comtudo_, não o quer _agora_. É pois
uma questão de opportunidade e occasião que nada altera o fundo do seu
pensamento: por isso julguei que, embora necessaria esta nota, não
devia alterar o que diz o texto.
Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não são _folhas
caidas_; que ahi se diz aos setembristas: «não desespereis nunca
da causa da patria; ella será salva pela efficacia da lei, pela
perseverança dos chefes, e pela confiança dos cidadãos»; que Passos
Manuel ainda continuou a figurar na politica, etc.
São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ouve-se já por ventura
a fé, o enthusiasmo de outros tempos? Figurar na politica torna-se um
habito, e, como habito, necessidade. A voz do antigo tribuno amolleceu,
porque se lhe entibiou a fé. Que attitude propõe, que programma
formula aos seus partidarios? Uma attitude passiva, um programma de
_legalidade_. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas no texto,
e concordar-se-ha que são _folhas caidas_.
III
O ROMANTISMO
1.--A VOZ DO PROPHETA
A primeira fórma politica sob que o romantismo appareceu em Portugal
foi a doutrina aprendida pelo duque de Palmella no retiro principesco
de Coppet. Já falámos d’essa doutrina, mas nunca é de mais insistir
nas particularidades de cada especie de liberalismo, porque só assim
distinguiremos os partidos. De outra fórma, o indeterminado e o vago
dos fundamentos das doutrinas não nos deixarão perceber, nos varios
agrupamentos de homens, mais do que motivos pessoaes. Esses motivos
havia, mas é errado suppôr que não houvesse outros. O proprio caracter
do liberalismo, com a sua falta de criterio a não ser a palavra
LIBERDADE,--uma palavra e nada mais,--era a causa da multiplicação dos
modos de a _traduzir_.
Duas d’essas traducções, a de Mousinho e a de Passos, já nós
conhecemos. Quanto á de Palmella nunca chegou a vingar entre nós,
porque até 28 impediu-o o absolutismo, e depois da guerra já o não
consentia a legislação da dictadura que destruira toda a sociedade
antiga. O liberalismo de Palmella era a doutrina de um politico,
habil e sceptico. Era a _moderação_, á maneira da que Luiz XVIII, com
um temperamento analogo, a entendia: uma cousa pratica. Mas, esta
politica teve como sustentaculo a doutrina do primeiro romantismo,
catholico, tradicionalista, monarchico, aristocratico, medievista, de
Chateaubriand e dos allemães. Sabemos como Palmella se oppôz á abolição
dos conventos, sem o conseguir; e como obteve que se não bolisse nos
morgados.
O primeiro romantismo, pois, concebido, ou pelo menos personalisado em
Palmella, operou apenas como obstaculo á plena expansão de um outro
pensamento liberal sem ser romantico, o de Mousinho. Conhecemos assaz
a doutrina do reformador para voltarmos a demorar-nos sobre ella.
Radical, individualista, utilitario, no systema das suas idéas não
entrava por cousa alguma a tradição: nem historica, nem religiosa, nem
aristocratica. Era um absolutismo individualista. A existencia de uma
religião d’Estado e de uma camara de pares, bem como a conservação dos
vinculos, deixavam a sua obra incompleta, e o novo edificio social
truncado. Palmella conseguira que houvesse pares e morgados; mas a
aristocracia, sem adherir ao regime novo, fazia da camara alta um
problema serio, porque a natureza tem horror ao vacuo.
Ao lado d’estes dois liberalismos, um romantico, o outro utilitario e
radical; um, filiado mais ou menos directamente no idealismo allemão,
o outro, filho directo do sensualismo inglez: ao lado de ambos e
comprimido até á revolução de setembro, vinha existindo o liberalismo
racionalista, de pura origem franceza, e que em francezes e portuguezes
se transformára, do velho jacobinismo, n’uma doutrina democratica só
diversa da antiga nas formulas e accidentes, mas em essencia fiel ao
typo transacto.
Taes são as tres fórmas de liberalismo, as tres diversas traducções da
palavra idolatrada, que o critico descobre na sociedade portugueza de
34-38.
* * * * *
No fim d’este periodo, a desordem, o descredito e o cansaço já
congregavam os homens em novos agrupamentos, ao mesmo tempo que,
do absolutismo das doutrinas de Mousinho e do caracter em demasia
historico das doutrinas de Palmella, saía uma combinação media, cujo
interprete politico era Rodrigo da Fonseca, e cujo melhor defensor foi
Herculano. Era um segundo romantismo, individualista sem engeitar a
tradição, e até popular sem deixar de ser brandamente aristocrata. Era
a constituição de 38, com um senado electivo e temporario.
Eis ahi o verbo novo, a palavra de paz, o evangelho da liberdade
redemptora. O _propheta_ sonhava com ella desde 34, sem ainda a ter
definido bem claramente; mas entrevendo-a nas affirmações doutrinarias
de Mousinho e nas sympathias de Palmella pelas velhas instituições. E
foi n’isto que rebentou o tumor democrata (1836). E aos que julgavam
a victoria ganha, conquistada a paz, veiu a revolução dizer que
tudo havia a recomeçar. E quem era esse novo apostolo da desordem?
E que monstro de plebe solta vinha de tal fórma perturbar a paz dos
philosophos? E desmanchar com uma lufada de simún as suas sabias
architecturas politicas?
Quem a preparou e a fez surgir? Não sei. Ostensivamente os seus
authores foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a
dispersar os amotinados. Os individuos que, depois de consummado o
facto, tomaram nas mãos as redeas do governo, recusaram para si a
paternidade d’aquelle féto politico.
(Herculano, _Opusculo_, 1).
Então o propheta subiu ao seu Sinay e ouviu a voz de Deus que lhe disse
cousas pavorosas:
A licença mata a liberdade, porque se livremente opprimes, livremente
podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para
os outros o assassinarem-te.
Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe
para as mãos de algum despota que a devore.
* * * * *
Crês porventura (rainha!) que é bello e generoso assentares-te n’um
throno que a relé do povo conspurcou de lodo e infamia?
(Herculano, _A voz do propheta_).
E a democracia era lodo, era infamia. E porque o provo irritado matara
um homem, era assassina a doutrina. E esse povo era plebe. E por sobre
as ondas da turba desenfreada apparecia ao vidente biblico, romantico,
o espectro de D. Miguel, um tyranno democrata:
Nas orgias de Roma, com teus socios
Folga, vil oppressor!
Folga com os hypocritas iniquos
Morreu teu vencedor ...
Envolto em maldicções, em susto, em crimes,
Fugiste miseravel.
Elle, subindo ao céo, ouviu só queixas
E um chôro lamentavel.
(Herculano, _Poesias_ (1.ª ed.) _D. Pedro_).
E o romantismo desvairava o pensamento do vidente, porque D. Miguel não
fugira: fôra expulso; porque ao lado do chôro lamentavel, D. Pedro, se
estivesse no céo, havia de tambem ouvir ainda o bater das pedradas nos
tampos da sua carruagem fugindo a galope de San-Carlos. E as ordens
que no Sinay, o deus dava ao propheta
Plante-se a acacia,--o liberal arbusto
Junto ás cinzas do forte:
Elle foi rei e combateu tyrannos:
Chorae! chorae-lhe a morte!
(_Ibid._)
não eram cumpridas, porque ninguem se importava já com o homem que
morrera em peccado _liberal_.
E o propheta que, no calor das suas conversas com os deuses, falava
a lingua de uma poesia sentida e bella, descendo á terra e vendo a
desolação dos diluvios, vestia o manto de um Jeremias, ou a capa de um
Diogenes, ou a toga de um Suetonio:
Homens que teriam legado á posteridade nomes gloriosos e sem mancha e
que, mais modestos nas suas ambições materiaes seriam vultos heroicos
da historia, pararam-se como condottieri mercenarios; ao passo
que outros, depondo as armas e voltando á vida civil, exigiam ser
revestidos de cargos publicos, para exercer os quaes lhes faltavam
todos os predicados.
(_Opusculos_, 1).
E perguntas ainda, propheta! quem preparou e fez surgir a revolução?
Quem? senão a colera do Senhor, como n’aquelle dia em que mandou o
diluvio? E de toda a humanidade perdida apenas houve dois Noés, que
merecessem graça aos olhos do Senhor! E um foi Passos, a quem elle
chamou ao seio da eterna sabedoria, embalando risonho a filha sobre
os joelhos, já esquecido da Liberdade; outro foi Sá, a quem confiou
o commando da Arca sobre as aguas do diluvio. E dentro da Arca havia
casaes de todas as especies. E quando o temporal cessou, Noé-Sá abriu
a Arca. E havia a constituição nova de 38, iris de bonança, fructo da
copula das gerações condemnadas cujas sementes se guardavam na Arca. E
era uma especie diversa do romantismo antigo ...
2.--A POESIA DAS RUINAS
Portugal apparecia, com effeito, como emergindo de um diluvio que
alagara e destruira tudo: as instituições e os caracteres, a riqueza
e os costumes. Mas, por cima de todos os destroços, a imaginação dos
poetas e artistas via os dos conventos. Não podia deixar de ser assim,
n’um paiz que fôra um communismo monastico. Os frades tinham saído a
campo a defender-se. Em 31 quasi todos os mosteiros ficaram abandonados
á guarda de um ou dois leigos, porque as communidades arregimentavam-se:
Negros, uns vultos vaguear se viam
A cruz do Salvador na esquerda erguida
Na dextra o ferro, preces blasfemando:
Não perdoeis a um só! feros bradando
Entre as fileiras, rapidos, corriam.
(Herculano, _Poesias_).
Já a doutrina os tinha condemnado; já Mousinho na Terceira havia
escripto a sentença da sua abolição; e depois, e mais em nome da
vingança dos vencedores do que em nome da doutrina, foram exterminados.
«Negros, uns vultos vaguear se viam» agora, esmolando miseraveis, ou
foragidos pelas serras, homisiados, precítos, caçados e escarnecidos.
Herculano, com uma corajosa humanidade, protestava: era «uma das
realidades mais torpes, mais ignominiosas, mais brutaes, mais
estupidas e covardemente crueis do seculo presente». (_Os egressos_,
op.) Fôra um roubo a expropriação:
Pague-se um juro modico dos valores que nos apropriámos. Se o
fizermos, em lugar de sermos mil vezes uma cousa cujo nome não
escreverei aqui, sel-o hemos só 999; porque teremos restituido a
milesima parte do que loucamente havemos desbaratado. (_Ibid._)
O sentimento de uma justiça absoluta imperava já, no espirito do
poeta stoico, por sobre as paixões de uma guerra passada, por sobre
o enthusiasmo de una victoria--tão triste! por sobre o systema das
opiniões politicas e o conjuncto das impressões partidarias. Era
um acto de justiça humanitaria que nem poderia remir os crimes
commettidos. A educação kantista do poeta fazia-o, como a Mousinho, ter
um culto pela propriedade, expressão social positiva do individuo. Mas
a theoria era condemnada pela politica. Se se não tivesse sequestrado
no Porto, ter-se-hia morrido; se os bens dos frades se não tivessem
confiscado e retalhado, o liberalismo teria caído no dia seguinte ao da
victoria.
* * * * *
Não era porém só o kantismo que entrava na composição do estado de
espirito dos novos romanticos. Era a tradição, o amor vago do passado,
que os levava á inconsequencia de renegar o kantista Mousinho,
reprovador da historia nacional. Era a tradição religiosa:
Os tempos são hoje outros: os liberaes já conhecem que devem ser
tolerantes e que precisam de ser religiosos. A religião de Christo é a
mãe da liberdade, a religião do patriotismo a sua companheira. O que
não respeita os templos, os monumentos de uma e outra cousa, é mau
inimigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, entrega-a á
irrisão e ao odio do povo. (Garrett, _Viagens_)
Atacando por este lado a tradição radical de Mousinho, abraçavam por
isso os romanticos a eschola opposta, embora tambem liberal (sempre
e todas, por diversas que sejam, são _liberaes_) de Palmella e do
primeiro romantismo? Não. Depois do diluvio da revolução setembrista
ficára no ar uma nevoa de indecisões poeticas. Queriam-se nomes, não se
queriam cousas: aristocracia, sem pares vitalicios; religião d’Estado,
mas tolerante e _liberal_; antiguidades, tradições, mas apenas como
thema para romances e xacaras. Amava-se com furor a Edade-media, mas
no papel. Era a sombra do primeiro romantismo, este de agora. Palmella
não tinha querido que os conventos se abolissem: Garrett não os queria
restaurar, lamentando porém que os frades tivessem desapparecido:
davam um tom pittoresco e côr local aos quadros: «Nos campos o effeito
era ainda muito maior: caracterisavam a paysagem». (_Viagens_) A
doutrina dissolvia-se politicamente n’uma anarchia positiva; e
moralmente acabava n’um desejo vago de artistas ou em contradictorias
exclamações de poetas. Qual era o novo codigo da novissima, da terceira
eschola liberal? Quem o sabe? Tudo; nada--o nevoeiro que o diluvio
deixára sobre as terras quando, perante os clamores unanimes dos
neo-romanticos, o setembrismo acabou.
* * * * *
Não se creia, porém, que homens como Herculano e Garrett, pouco
_importantes_ na politica e por isso mesmo mais livres: homens cheios
do talento e estudo, não percebessem o fundo real das cousas. A propria
inconsistencia, a indeterminação mais ou menos sentida das doutrinas
que seguiam, davam-lhes ainda uma facilidade maior para verem a
verdade. Nós conhecemos em que termos Herculano apreciava os homens do
dia; e Garrett, além dos motivos de artista, via outros para lamentar a
queda do passado.
O barão mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois
... Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu; e nós não
comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de
morrer ... E quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir
esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades--não dos
frades que foram, mas dos frades que podiam ser. (_Ibid._)
Não podiam ser, não; não podiam ser outros do que tinham sido, do que
ficaram até hoje, onde ficaram, do que serão emquanto existirem. Como
poderia o frade, crendo na ordem divina de um mundo formado tal-qual
por uma vontade absoluta, admittir a doutrina que põe na razão do homem
a origem de todas as cousas? Iria adorar, em vez da Trindade, o vosso
Architecto-supremo, ó maçons? Nem o frade vos comprehendia, nem vós ao
frade; e assim devia ser: porque a _broca da analyse_ não profundára
ainda a natureza das vossas doutrinas, varrendo as chimeras das vossas
illusões. O frade vinha ligado a um passado real, e vós apparecieis
prégando uma doutrina de inconsequencia, em que esse passado vivo
se tornava em miragem poetica, e o presente, com as vossas idéas
nebulosas, na realidade crua do novo imperio dos barões.
Tal aristocracia, materialista, brutal, sem lustre nem dignidade,
mandava a natureza que saísse da concorrencia livre entre individuos
soberanos. Ou renegar o individualismo, voltando ao romantismo velho;
ou reconhecer no barão um filho legitimo. Não o fazer, demonstra sem
duvida falta absoluta de senso. Chorar--e ainda bem!--prova que os
homens não tinham seccado de todo. Mas, em vez de chorar em publico,
na frente dos barões que se riam digerindo, não era melhor fazer como
o democrata condemnado: recolher-se a casa baloiçando a filha sobre os
joelhos?
Não seria; e já que os escriptores, redigindo a doutrina do terceiro
ou quarto liberalismo, sentiam a inutilidade das combinações, a
vaidade das esperanças e a victoria inevitavel dos barões; já que, sem
se convencerem, se submettiam, melhor era com effeito que, deixando
a politica, baloiçassem outra filha querida--a arte, as lettras.
Litterato sobretudo é, com effeito, o segundo romantismo, no qual os
principios do primeiro se tornaram themas de poesia. Aos barões que
imperavam na sociedade positiva, apesar das fórmulas e dos preceitos da
novissima constituição ordeira, havia que pedir esmola para os frades
mendigos, para os estudos abandonados.
Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sabios, dos
nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Pão para os que foram
victimas das crenças, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome
e frio! (Herculano, _Os egressos_, op.)
Passos clamara misericordia para o miguelista, Herculano pedia pão para
o frade: nenhum foi ouvido. O primeiro demittiu-se; o segundo abandonou
a politica pelas lettras; e com as ruinas da velha poesia, elle,
Garrett, e os discipulos de ambos propuzeram-se crear a tradição que
convinha ao novo regime.
3.--RENASCIMENTO
A historia nacional, que a nova geração se decidiu a estudar,
restaurando a erudição academica e monastica, offerecia tradições
varias. A primeira e mais importante, a que distinguia Portugal do
commum das nações; a do imperio de vastos dominios ultramarinos,
Hollanda do extremo occidente, que vivera da exploração de regiões
extra-europêas, nação de navegadores e colonisadores--nem foi lembrada.
Além de não estarem em moda os estudos geographicos, primando a tudo a
historia das instituições; além de ter ficado arruinado completamente o
systema colonial portuguez com a separação do Brazil e com a abolição
do trafico de escravos em Africa:[21] o pensamento economico da eschola
era o de Mousinho, e nós sabemos como elle condemnou o passado,
querendo que a nação vivesse por si, de si, com o seu trabalho,
sobre o chão que tinha na Europa. Apenas Sá-da-Bandeira instava pela
volta á politica colonial; mas fazia-o de um modo indiscretamente
humanitario, esperando construir um Brazil em Africa, com o trabalho
livre e a concorrencia e garantias liberaes. N’isto se mostrava o seu
_romantismo_. A sua preoccupação colonial passava por mania, e chegava
a sel-o.
Outra das tradições portuguezas, bastante ligada com a anterior, era
a do absolutismo ou do imperialismo: a fórma organica adequada á
existencia de uma nação, vivendo _contra naturam_ da exploração de
terras distantes: a monarchia de D. João II e D. Manuel, a D. João V,
e por fim a do Marquez de Pombal. Como reconheceria o romantismo esta
tradição, quando a alma do seu pensamento politico era a soberania do
individuo? É ocioso insistir em demonstrar as causas de antipathia.
A terceira, finalmente, das tradições portuguezas era a catholica. O
reino creara-se como feudo do papado; as ordens monasticas tinham sido
um dos principaes elementos da sua povoação na metade austral;[22] e
por fim, em tempos mais recentes, o jesuitismo invadira o espirito da
nação e os seus dominios ultramarinos. A Companhia foi a educadora
e colonisadora, em Portugal, na Africa e no Brazil,[23] depois de
ser missionaria no Oriente, na Africa e na America. De taes motivos
resultara a nação de sacristães, frades e beatos do XVIII seculo,
estonteados no seguinte, quando lhes faltaram as rendas do Brazil. Não
fôra contra esta que se batalhara por annos? Como havia de continual-a,
a gente que a destruira? Tradição propriamente aristocratica não
existia, porque toda a monarchia de Aviz se occupara com exito em
deprimir a nobreza medieval, e depois, a de Bragança teve de acabar com
ella, por castelhana, no tempo de D. João IV, por teimosa, no tempo de
Pombal.[24]
Que tradição de historia invocar, pois, quando a revolução romantica
era a negação da historia nacional? Iria o liberalismo acclamar
os despotas? Iria defender a escravisação das raças africanas e
americanas, o individualista inchado com a noção da soberania do homem
abstracto espiritual? Iria o livre-cambista, discipulo de Smith,
applaudir as protecções e monopolios á sombra dos quaes se formara a
riqueza nacional?
Não. Seria demasiada inconsequencia. Inconsequente era o romantico,
pretendendo conciliar uma tradição com o seu racionalismo abstracto;
inconsequente, comtudo, por necessidade, pois ainda «a broca da
analyse» não patenteara o systema das leis da evolução, que mostram não
haver na realidade absolutos, apenas formas transitorias, relacionadas
sempre, deduzindo-se naturalmente, espontaneamente. O romantismo ou
eschola historica prevía, precedia esta doutrina; mas o espiritualismo
racionalista que lhe andava ligado não o deixava avançar, e
precipitava-o em aventuras singulares.
* * * * *
Uma das mais conspicuas foi de certo a tentativa de crear uma tradição
nacional portugueza, contra os elementos de uma historia de cinco
seculos, quando a duração total da nossa historia não excedia sete.
Mas esses dois primeiros affiguravam-se os puros: sendo o resto
erros, desvios da genuina tradição. De tal fórma se obedecia á moda
que lavrava nas nações germanicas; mas n’esses paizes a tradição
medieval era viva, estavam ainda de pé as instituições antigas; pois
só na França e na Hespanha se tinham constituido absolutismos, e só
a Peninsula tinha tido, para além dos territorios europeus, vastos
dominios ultramarinos.
Embora dirigidos por um criterio errado, os propugnadores do
romantismo, a cuja frente se viam Herculano e Garrett, mettiam mãos a
uma obra em todo o caso necessaria. A abolição dos conventos destruira
o systema dos estudos; e se cumpria aos governos organisar a instrucção
publica, era a obrigação dos escriptores novos continuar a obra dos
frades. Do valor esthetico ou scientifico d’esses trabalhos litterarios
da geração que nos precedeu não temos que nos occupar aqui, pois não
tratamos da historia litteraria, aproveitando das lettras apenas como
documento historico da sociedade.
As estancias do Tasso, retumbando das bocas dos barqueiros nas margens
do Brenta e do Adige e os romances de Burger, cantados em sons
monodicos á lareira nas longas noites da Germania, e as trovas de
Beranger repetidas por milhões de bocas em todos os angulos da França,
dizem mais a favor da poesia em que transluz a nacionalidade do que
largas dissertações metaphisicas.
(_Jornal da soc. dos am. das lettras_).
Herculano escrevia isto em 34, applaudindo os _Ciumes do Bardo_ de
Castilho, _pastiche_ crú, nem portuguez, nem cousa nenhuma. Mau
symptoma: porque o critico confundia o _genero_ em litteratura com o
renascimento da nacionalidade.
Burger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes; e é
a elle a Voss que devemos a renovação d’este _genero_ inteiramente
extincto na Europa depois do XVI seculo ... A poesia deve ter,
além do bello de todos os tempos, de todos os paizes, um caracter
do nacionalidade, sem o qual nenhum povo se póde gabar de ter uma
litteratura propria.
(Herculano, nas _Mem. do Conserv._)
Mãos, portanto, á obra. A «sociedade doa amigos das lettras», dos
Castilhos, não vingara. Com Bernardino Gomes, no Porto, já Herculano
tinha fundado a «sociedade das sciencias medicas e litteratura»--duas
cousas talvez admiradas de se acharem reunidas. Agora, em Lisboa, o
renovador dos estudos, o chefe da nova eschola, creava a «sociedade
propagadora dos conhecimentos uteis» cujo orgão, o _Panorama_, adquiria
uma circulação extraordinaria. Não havia outra cousa que lêr, e lêr
começava a ser moda na sociedade _das luzes_, como diziam, com ironia e
despeito, os antigos. O _Panorama_ trazia bonecos e receitas, além de
trazer os estudos iniciadores da tradição nova, assignados «A. H.»
Que eram, que são esses trabalhos? (_Lendas e Narrativas_, _Monge de
Cister_, _Bobo_, etc.) Sabiamente extrahidos das chronicas por um
erudito, que relação havia entre elles e as memorias e lembranças vivas
na imaginação popular? Nenhuma. Falasse a litteratura ao povo nas
aventuras das viagens, nas historias dos naufragios, e de certo acharia
ainda um ecco: mas em D. Fuas ou no celebre Paio-Peres-Correia? Quem se
lembrava de tal? que sentimentos, que memorias estavam ligadas a essas
façanhas de tempos breves e sem caracter particularmente portuguez?
O _genero_ porém impunha estes assumptos, e a educação litteraria,
de mãos dados com a philosophica e economica, repelliam os outros,
oriundos da positiva historia da nação. O modelo era Walter Scott,
traduzido pelo Ramalho. Nas novellas do escocez se achava o typo das
_tradições nacionaes_.