[20] Accusa-me o sr. R. de F. (_Port. cont._) de ter interpretado

erradamente o famoso discurso de Manuel Passos, especialmente n’este

ponto. Relendo o texto vejo que, effectivamente, é licito inferir-se

do que escrevi que em 44 Passos veiu á camara prégar o iberismo. Não é

assim. Depois do periodo transcripto, o orador diz: «Comtudo, depois do

que tenho visto praticar no reino visinho ... eu não podia agora dar o

meu voto para uma união ... Se vierem, ainda pegarei n’uma espingarda e

farei fogo aos invasores».

Esclareçamos pois este ponto, já que assim se julga necessario. Passos

quer ou não o iberismo? Quer; _comtudo_, não o quer _agora_. É pois

uma questão de opportunidade e occasião que nada altera o fundo do seu

pensamento: por isso julguei que, embora necessaria esta nota, não

devia alterar o que diz o texto.

Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não são _folhas

caidas_; que ahi se diz aos setembristas: «não desespereis nunca

da causa da patria; ella será salva pela efficacia da lei, pela

perseverança dos chefes, e pela confiança dos cidadãos»; que Passos

Manuel ainda continuou a figurar na politica, etc.

São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ouve-se já por ventura

a fé, o enthusiasmo de outros tempos? Figurar na politica torna-se um

habito, e, como habito, necessidade. A voz do antigo tribuno amolleceu,

porque se lhe entibiou a fé. Que attitude propõe, que programma

formula aos seus partidarios? Uma attitude passiva, um programma de

_legalidade_. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas no texto,

e concordar-se-ha que são _folhas caidas_.

III

O ROMANTISMO

1.--A VOZ DO PROPHETA

A primeira fórma politica sob que o romantismo appareceu em Portugal

foi a doutrina aprendida pelo duque de Palmella no retiro principesco

de Coppet. Já falámos d’essa doutrina, mas nunca é de mais insistir

nas particularidades de cada especie de liberalismo, porque só assim

distinguiremos os partidos. De outra fórma, o indeterminado e o vago

dos fundamentos das doutrinas não nos deixarão perceber, nos varios

agrupamentos de homens, mais do que motivos pessoaes. Esses motivos

havia, mas é errado suppôr que não houvesse outros. O proprio caracter

do liberalismo, com a sua falta de criterio a não ser a palavra

LIBERDADE,--uma palavra e nada mais,--era a causa da multiplicação dos

modos de a _traduzir_.

Duas d’essas traducções, a de Mousinho e a de Passos, já nós

conhecemos. Quanto á de Palmella nunca chegou a vingar entre nós,

porque até 28 impediu-o o absolutismo, e depois da guerra já o não

consentia a legislação da dictadura que destruira toda a sociedade

antiga. O liberalismo de Palmella era a doutrina de um politico,

habil e sceptico. Era a _moderação_, á maneira da que Luiz XVIII, com

um temperamento analogo, a entendia: uma cousa pratica. Mas, esta

politica teve como sustentaculo a doutrina do primeiro romantismo,

catholico, tradicionalista, monarchico, aristocratico, medievista, de

Chateaubriand e dos allemães. Sabemos como Palmella se oppôz á abolição

dos conventos, sem o conseguir; e como obteve que se não bolisse nos

morgados.

O primeiro romantismo, pois, concebido, ou pelo menos personalisado em

Palmella, operou apenas como obstaculo á plena expansão de um outro

pensamento liberal sem ser romantico, o de Mousinho. Conhecemos assaz

a doutrina do reformador para voltarmos a demorar-nos sobre ella.

Radical, individualista, utilitario, no systema das suas idéas não

entrava por cousa alguma a tradição: nem historica, nem religiosa, nem

aristocratica. Era um absolutismo individualista. A existencia de uma

religião d’Estado e de uma camara de pares, bem como a conservação dos

vinculos, deixavam a sua obra incompleta, e o novo edificio social

truncado. Palmella conseguira que houvesse pares e morgados; mas a

aristocracia, sem adherir ao regime novo, fazia da camara alta um

problema serio, porque a natureza tem horror ao vacuo.

Ao lado d’estes dois liberalismos, um romantico, o outro utilitario e

radical; um, filiado mais ou menos directamente no idealismo allemão,

o outro, filho directo do sensualismo inglez: ao lado de ambos e

comprimido até á revolução de setembro, vinha existindo o liberalismo

racionalista, de pura origem franceza, e que em francezes e portuguezes

se transformára, do velho jacobinismo, n’uma doutrina democratica só

diversa da antiga nas formulas e accidentes, mas em essencia fiel ao

typo transacto.

Taes são as tres fórmas de liberalismo, as tres diversas traducções da

palavra idolatrada, que o critico descobre na sociedade portugueza de

34-38.

* * * * *

No fim d’este periodo, a desordem, o descredito e o cansaço já

congregavam os homens em novos agrupamentos, ao mesmo tempo que,

do absolutismo das doutrinas de Mousinho e do caracter em demasia

historico das doutrinas de Palmella, saía uma combinação media, cujo

interprete politico era Rodrigo da Fonseca, e cujo melhor defensor foi

Herculano. Era um segundo romantismo, individualista sem engeitar a

tradição, e até popular sem deixar de ser brandamente aristocrata. Era

a constituição de 38, com um senado electivo e temporario.

Eis ahi o verbo novo, a palavra de paz, o evangelho da liberdade

redemptora. O _propheta_ sonhava com ella desde 34, sem ainda a ter

definido bem claramente; mas entrevendo-a nas affirmações doutrinarias

de Mousinho e nas sympathias de Palmella pelas velhas instituições. E

foi n’isto que rebentou o tumor democrata (1836). E aos que julgavam

a victoria ganha, conquistada a paz, veiu a revolução dizer que

tudo havia a recomeçar. E quem era esse novo apostolo da desordem?

E que monstro de plebe solta vinha de tal fórma perturbar a paz dos

philosophos? E desmanchar com uma lufada de simún as suas sabias

architecturas politicas?

Quem a preparou e a fez surgir? Não sei. Ostensivamente os seus

authores foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a

dispersar os amotinados. Os individuos que, depois de consummado o

facto, tomaram nas mãos as redeas do governo, recusaram para si a

paternidade d’aquelle féto politico.

(Herculano, _Opusculo_, 1).

Então o propheta subiu ao seu Sinay e ouviu a voz de Deus que lhe disse

cousas pavorosas:

A licença mata a liberdade, porque se livremente opprimes, livremente

podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para

os outros o assassinarem-te.

Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe

para as mãos de algum despota que a devore.

* * * * *

Crês porventura (rainha!) que é bello e generoso assentares-te n’um

throno que a relé do povo conspurcou de lodo e infamia?

(Herculano, _A voz do propheta_).

E a democracia era lodo, era infamia. E porque o provo irritado matara

um homem, era assassina a doutrina. E esse povo era plebe. E por sobre

as ondas da turba desenfreada apparecia ao vidente biblico, romantico,

o espectro de D. Miguel, um tyranno democrata:

Nas orgias de Roma, com teus socios

Folga, vil oppressor!

Folga com os hypocritas iniquos

Morreu teu vencedor ...

Envolto em maldicções, em susto, em crimes,

Fugiste miseravel.

Elle, subindo ao céo, ouviu só queixas

E um chôro lamentavel.

(Herculano, _Poesias_ (1.ª ed.) _D. Pedro_).

E o romantismo desvairava o pensamento do vidente, porque D. Miguel não

fugira: fôra expulso; porque ao lado do chôro lamentavel, D. Pedro, se

estivesse no céo, havia de tambem ouvir ainda o bater das pedradas nos

tampos da sua carruagem fugindo a galope de San-Carlos. E as ordens

que no Sinay, o deus dava ao propheta

Plante-se a acacia,--o liberal arbusto

Junto ás cinzas do forte:

Elle foi rei e combateu tyrannos:

Chorae! chorae-lhe a morte!

(_Ibid._)

não eram cumpridas, porque ninguem se importava já com o homem que

morrera em peccado _liberal_.

E o propheta que, no calor das suas conversas com os deuses, falava

a lingua de uma poesia sentida e bella, descendo á terra e vendo a

desolação dos diluvios, vestia o manto de um Jeremias, ou a capa de um

Diogenes, ou a toga de um Suetonio:

Homens que teriam legado á posteridade nomes gloriosos e sem mancha e

que, mais modestos nas suas ambições materiaes seriam vultos heroicos

da historia, pararam-se como condottieri mercenarios; ao passo

que outros, depondo as armas e voltando á vida civil, exigiam ser

revestidos de cargos publicos, para exercer os quaes lhes faltavam

todos os predicados.

(_Opusculos_, 1).

E perguntas ainda, propheta! quem preparou e fez surgir a revolução?

Quem? senão a colera do Senhor, como n’aquelle dia em que mandou o

diluvio? E de toda a humanidade perdida apenas houve dois Noés, que

merecessem graça aos olhos do Senhor! E um foi Passos, a quem elle

chamou ao seio da eterna sabedoria, embalando risonho a filha sobre

os joelhos, já esquecido da Liberdade; outro foi Sá, a quem confiou

o commando da Arca sobre as aguas do diluvio. E dentro da Arca havia

casaes de todas as especies. E quando o temporal cessou, Noé-Sá abriu

a Arca. E havia a constituição nova de 38, iris de bonança, fructo da

copula das gerações condemnadas cujas sementes se guardavam na Arca. E

era uma especie diversa do romantismo antigo ...

2.--A POESIA DAS RUINAS

Portugal apparecia, com effeito, como emergindo de um diluvio que

alagara e destruira tudo: as instituições e os caracteres, a riqueza

e os costumes. Mas, por cima de todos os destroços, a imaginação dos

poetas e artistas via os dos conventos. Não podia deixar de ser assim,

n’um paiz que fôra um communismo monastico. Os frades tinham saído a

campo a defender-se. Em 31 quasi todos os mosteiros ficaram abandonados

á guarda de um ou dois leigos, porque as communidades arregimentavam-se:

Negros, uns vultos vaguear se viam

A cruz do Salvador na esquerda erguida

Na dextra o ferro, preces blasfemando:

Não perdoeis a um só! feros bradando

Entre as fileiras, rapidos, corriam.

(Herculano, _Poesias_).

Já a doutrina os tinha condemnado; já Mousinho na Terceira havia

escripto a sentença da sua abolição; e depois, e mais em nome da

vingança dos vencedores do que em nome da doutrina, foram exterminados.

«Negros, uns vultos vaguear se viam» agora, esmolando miseraveis, ou

foragidos pelas serras, homisiados, precítos, caçados e escarnecidos.

Herculano, com uma corajosa humanidade, protestava: era «uma das

realidades mais torpes, mais ignominiosas, mais brutaes, mais

estupidas e covardemente crueis do seculo presente». (_Os egressos_,

op.) Fôra um roubo a expropriação:

Pague-se um juro modico dos valores que nos apropriámos. Se o

fizermos, em lugar de sermos mil vezes uma cousa cujo nome não

escreverei aqui, sel-o hemos só 999; porque teremos restituido a

milesima parte do que loucamente havemos desbaratado. (_Ibid._)

O sentimento de uma justiça absoluta imperava já, no espirito do

poeta stoico, por sobre as paixões de uma guerra passada, por sobre

o enthusiasmo de una victoria--tão triste! por sobre o systema das

opiniões politicas e o conjuncto das impressões partidarias. Era

um acto de justiça humanitaria que nem poderia remir os crimes

commettidos. A educação kantista do poeta fazia-o, como a Mousinho, ter

um culto pela propriedade, expressão social positiva do individuo. Mas

a theoria era condemnada pela politica. Se se não tivesse sequestrado

no Porto, ter-se-hia morrido; se os bens dos frades se não tivessem

confiscado e retalhado, o liberalismo teria caído no dia seguinte ao da

victoria.

* * * * *

Não era porém só o kantismo que entrava na composição do estado de

espirito dos novos romanticos. Era a tradição, o amor vago do passado,

que os levava á inconsequencia de renegar o kantista Mousinho,

reprovador da historia nacional. Era a tradição religiosa:

Os tempos são hoje outros: os liberaes já conhecem que devem ser

tolerantes e que precisam de ser religiosos. A religião de Christo é a

mãe da liberdade, a religião do patriotismo a sua companheira. O que

não respeita os templos, os monumentos de uma e outra cousa, é mau

inimigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, entrega-a á

irrisão e ao odio do povo. (Garrett, _Viagens_)

Atacando por este lado a tradição radical de Mousinho, abraçavam por

isso os romanticos a eschola opposta, embora tambem liberal (sempre

e todas, por diversas que sejam, são _liberaes_) de Palmella e do

primeiro romantismo? Não. Depois do diluvio da revolução setembrista

ficára no ar uma nevoa de indecisões poeticas. Queriam-se nomes, não se

queriam cousas: aristocracia, sem pares vitalicios; religião d’Estado,

mas tolerante e _liberal_; antiguidades, tradições, mas apenas como

thema para romances e xacaras. Amava-se com furor a Edade-media, mas

no papel. Era a sombra do primeiro romantismo, este de agora. Palmella

não tinha querido que os conventos se abolissem: Garrett não os queria

restaurar, lamentando porém que os frades tivessem desapparecido:

davam um tom pittoresco e côr local aos quadros: «Nos campos o effeito

era ainda muito maior: caracterisavam a paysagem». (_Viagens_) A

doutrina dissolvia-se politicamente n’uma anarchia positiva; e

moralmente acabava n’um desejo vago de artistas ou em contradictorias

exclamações de poetas. Qual era o novo codigo da novissima, da terceira

eschola liberal? Quem o sabe? Tudo; nada--o nevoeiro que o diluvio

deixára sobre as terras quando, perante os clamores unanimes dos

neo-romanticos, o setembrismo acabou.

* * * * *

Não se creia, porém, que homens como Herculano e Garrett, pouco

_importantes_ na politica e por isso mesmo mais livres: homens cheios

do talento e estudo, não percebessem o fundo real das cousas. A propria

inconsistencia, a indeterminação mais ou menos sentida das doutrinas

que seguiam, davam-lhes ainda uma facilidade maior para verem a

verdade. Nós conhecemos em que termos Herculano apreciava os homens do

dia; e Garrett, além dos motivos de artista, via outros para lamentar a

queda do passado.

O barão mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois

... Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu; e nós não

comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de

morrer ... E quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir

esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades--não dos

frades que foram, mas dos frades que podiam ser. (_Ibid._)

Não podiam ser, não; não podiam ser outros do que tinham sido, do que

ficaram até hoje, onde ficaram, do que serão emquanto existirem. Como

poderia o frade, crendo na ordem divina de um mundo formado tal-qual

por uma vontade absoluta, admittir a doutrina que põe na razão do homem

a origem de todas as cousas? Iria adorar, em vez da Trindade, o vosso

Architecto-supremo, ó maçons? Nem o frade vos comprehendia, nem vós ao

frade; e assim devia ser: porque a _broca da analyse_ não profundára

ainda a natureza das vossas doutrinas, varrendo as chimeras das vossas

illusões. O frade vinha ligado a um passado real, e vós apparecieis

prégando uma doutrina de inconsequencia, em que esse passado vivo

se tornava em miragem poetica, e o presente, com as vossas idéas

nebulosas, na realidade crua do novo imperio dos barões.

Tal aristocracia, materialista, brutal, sem lustre nem dignidade,

mandava a natureza que saísse da concorrencia livre entre individuos

soberanos. Ou renegar o individualismo, voltando ao romantismo velho;

ou reconhecer no barão um filho legitimo. Não o fazer, demonstra sem

duvida falta absoluta de senso. Chorar--e ainda bem!--prova que os

homens não tinham seccado de todo. Mas, em vez de chorar em publico,

na frente dos barões que se riam digerindo, não era melhor fazer como

o democrata condemnado: recolher-se a casa baloiçando a filha sobre os

joelhos?

Não seria; e já que os escriptores, redigindo a doutrina do terceiro

ou quarto liberalismo, sentiam a inutilidade das combinações, a

vaidade das esperanças e a victoria inevitavel dos barões; já que, sem

se convencerem, se submettiam, melhor era com effeito que, deixando

a politica, baloiçassem outra filha querida--a arte, as lettras.

Litterato sobretudo é, com effeito, o segundo romantismo, no qual os

principios do primeiro se tornaram themas de poesia. Aos barões que

imperavam na sociedade positiva, apesar das fórmulas e dos preceitos da

novissima constituição ordeira, havia que pedir esmola para os frades

mendigos, para os estudos abandonados.

Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade dos nossos sabios, dos

nossos homens virtuosos, do nosso sacerdocio! Pão para os que foram

victimas das crenças, minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome

e frio! (Herculano, _Os egressos_, op.)

Passos clamara misericordia para o miguelista, Herculano pedia pão para

o frade: nenhum foi ouvido. O primeiro demittiu-se; o segundo abandonou

a politica pelas lettras; e com as ruinas da velha poesia, elle,

Garrett, e os discipulos de ambos propuzeram-se crear a tradição que

convinha ao novo regime.

3.--RENASCIMENTO

A historia nacional, que a nova geração se decidiu a estudar,

restaurando a erudição academica e monastica, offerecia tradições

varias. A primeira e mais importante, a que distinguia Portugal do

commum das nações; a do imperio de vastos dominios ultramarinos,

Hollanda do extremo occidente, que vivera da exploração de regiões

extra-europêas, nação de navegadores e colonisadores--nem foi lembrada.

Além de não estarem em moda os estudos geographicos, primando a tudo a

historia das instituições; além de ter ficado arruinado completamente o

systema colonial portuguez com a separação do Brazil e com a abolição

do trafico de escravos em Africa:[21] o pensamento economico da eschola

era o de Mousinho, e nós sabemos como elle condemnou o passado,

querendo que a nação vivesse por si, de si, com o seu trabalho,

sobre o chão que tinha na Europa. Apenas Sá-da-Bandeira instava pela

volta á politica colonial; mas fazia-o de um modo indiscretamente

humanitario, esperando construir um Brazil em Africa, com o trabalho

livre e a concorrencia e garantias liberaes. N’isto se mostrava o seu

_romantismo_. A sua preoccupação colonial passava por mania, e chegava

a sel-o.

Outra das tradições portuguezas, bastante ligada com a anterior, era

a do absolutismo ou do imperialismo: a fórma organica adequada á

existencia de uma nação, vivendo _contra naturam_ da exploração de

terras distantes: a monarchia de D. João II e D. Manuel, a D. João V,

e por fim a do Marquez de Pombal. Como reconheceria o romantismo esta

tradição, quando a alma do seu pensamento politico era a soberania do

individuo? É ocioso insistir em demonstrar as causas de antipathia.

A terceira, finalmente, das tradições portuguezas era a catholica. O

reino creara-se como feudo do papado; as ordens monasticas tinham sido

um dos principaes elementos da sua povoação na metade austral;[22] e

por fim, em tempos mais recentes, o jesuitismo invadira o espirito da

nação e os seus dominios ultramarinos. A Companhia foi a educadora

e colonisadora, em Portugal, na Africa e no Brazil,[23] depois de

ser missionaria no Oriente, na Africa e na America. De taes motivos

resultara a nação de sacristães, frades e beatos do XVIII seculo,

estonteados no seguinte, quando lhes faltaram as rendas do Brazil. Não

fôra contra esta que se batalhara por annos? Como havia de continual-a,

a gente que a destruira? Tradição propriamente aristocratica não

existia, porque toda a monarchia de Aviz se occupara com exito em

deprimir a nobreza medieval, e depois, a de Bragança teve de acabar com

ella, por castelhana, no tempo de D. João IV, por teimosa, no tempo de

Pombal.[24]

Que tradição de historia invocar, pois, quando a revolução romantica

era a negação da historia nacional? Iria o liberalismo acclamar

os despotas? Iria defender a escravisação das raças africanas e

americanas, o individualista inchado com a noção da soberania do homem

abstracto espiritual? Iria o livre-cambista, discipulo de Smith,

applaudir as protecções e monopolios á sombra dos quaes se formara a

riqueza nacional?

Não. Seria demasiada inconsequencia. Inconsequente era o romantico,

pretendendo conciliar uma tradição com o seu racionalismo abstracto;

inconsequente, comtudo, por necessidade, pois ainda «a broca da

analyse» não patenteara o systema das leis da evolução, que mostram não

haver na realidade absolutos, apenas formas transitorias, relacionadas

sempre, deduzindo-se naturalmente, espontaneamente. O romantismo ou

eschola historica prevía, precedia esta doutrina; mas o espiritualismo

racionalista que lhe andava ligado não o deixava avançar, e

precipitava-o em aventuras singulares.

* * * * *

Uma das mais conspicuas foi de certo a tentativa de crear uma tradição

nacional portugueza, contra os elementos de uma historia de cinco

seculos, quando a duração total da nossa historia não excedia sete.

Mas esses dois primeiros affiguravam-se os puros: sendo o resto

erros, desvios da genuina tradição. De tal fórma se obedecia á moda

que lavrava nas nações germanicas; mas n’esses paizes a tradição

medieval era viva, estavam ainda de pé as instituições antigas; pois

só na França e na Hespanha se tinham constituido absolutismos, e só

a Peninsula tinha tido, para além dos territorios europeus, vastos

dominios ultramarinos.

Embora dirigidos por um criterio errado, os propugnadores do

romantismo, a cuja frente se viam Herculano e Garrett, mettiam mãos a

uma obra em todo o caso necessaria. A abolição dos conventos destruira

o systema dos estudos; e se cumpria aos governos organisar a instrucção

publica, era a obrigação dos escriptores novos continuar a obra dos

frades. Do valor esthetico ou scientifico d’esses trabalhos litterarios

da geração que nos precedeu não temos que nos occupar aqui, pois não

tratamos da historia litteraria, aproveitando das lettras apenas como

documento historico da sociedade.

As estancias do Tasso, retumbando das bocas dos barqueiros nas margens

do Brenta e do Adige e os romances de Burger, cantados em sons

monodicos á lareira nas longas noites da Germania, e as trovas de

Beranger repetidas por milhões de bocas em todos os angulos da França,

dizem mais a favor da poesia em que transluz a nacionalidade do que

largas dissertações metaphisicas.

(_Jornal da soc. dos am. das lettras_).

Herculano escrevia isto em 34, applaudindo os _Ciumes do Bardo_ de

Castilho, _pastiche_ crú, nem portuguez, nem cousa nenhuma. Mau

symptoma: porque o critico confundia o _genero_ em litteratura com o

renascimento da nacionalidade.

Burger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes; e é

a elle a Voss que devemos a renovação d’este _genero_ inteiramente

extincto na Europa depois do XVI seculo ... A poesia deve ter,

além do bello de todos os tempos, de todos os paizes, um caracter

do nacionalidade, sem o qual nenhum povo se póde gabar de ter uma

litteratura propria.

(Herculano, nas _Mem. do Conserv._)

Mãos, portanto, á obra. A «sociedade doa amigos das lettras», dos

Castilhos, não vingara. Com Bernardino Gomes, no Porto, já Herculano

tinha fundado a «sociedade das sciencias medicas e litteratura»--duas

cousas talvez admiradas de se acharem reunidas. Agora, em Lisboa, o

renovador dos estudos, o chefe da nova eschola, creava a «sociedade

propagadora dos conhecimentos uteis» cujo orgão, o _Panorama_, adquiria

uma circulação extraordinaria. Não havia outra cousa que lêr, e lêr

começava a ser moda na sociedade _das luzes_, como diziam, com ironia e

despeito, os antigos. O _Panorama_ trazia bonecos e receitas, além de

trazer os estudos iniciadores da tradição nova, assignados «A. H.»

Que eram, que são esses trabalhos? (_Lendas e Narrativas_, _Monge de

Cister_, _Bobo_, etc.) Sabiamente extrahidos das chronicas por um

erudito, que relação havia entre elles e as memorias e lembranças vivas

na imaginação popular? Nenhuma. Falasse a litteratura ao povo nas

aventuras das viagens, nas historias dos naufragios, e de certo acharia

ainda um ecco: mas em D. Fuas ou no celebre Paio-Peres-Correia? Quem se

lembrava de tal? que sentimentos, que memorias estavam ligadas a essas

façanhas de tempos breves e sem caracter particularmente portuguez?

O _genero_ porém impunha estes assumptos, e a educação litteraria,

de mãos dados com a philosophica e economica, repelliam os outros,

oriundos da positiva historia da nação. O modelo era Walter Scott,

traduzido pelo Ramalho. Nas novellas do escocez se achava o typo das

_tradições nacionaes_.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 8 / 30 段