desordem se levanta no dia do Corpo-de-Deus? Era já tarde (14 de
junho), a procissão recolhia á Sé. Que surpreza, para os ouvidos de
quem se julgava acclamado, os insultos despedidos contra o rei, contra
a rainha, e contra elle proprio, o crédor da paz universal?--Maledicos
disseram que essa paz fazia mal á ambição do homem-novo: só nas bulhas
podia mostrar bem quem era e quem seria. Se elle, com effeito, arranjou
essa desordem para seu uso proprio, o resultado ia-lhe sendo ficar sem
vida.
A triste procissão entrou na Sé destroçada. Luziam as bayonetas
agitando-se, e as vozes do povo armado pediam sangue e cabeças. Cada
qual fugira para seu lado, escondendo-se pelos escadas. Era grutesco
vêr as fardas bordadas com espadins e commendas, os chapeus de plumas
e mantos de filó; era grutesco vêr os personagens correr, sumirem-se,
atarantados com o susto. O Law portuguez reformado e o Pombal nascente,
um passado e um futuro, encontraram-se socios no perigo, escondidos
n’uma escada, cuja porta defendia, irritado mas firme, o ministro
surprehendido. Uma bayoneta luziu com a ponta direita ao peito de
Sá-da-Bandeira, vindo cravar-se-lhe no crachá, a que deveu a vida: como
as condecorações ás vezes servem! O _marca_, falhado o golpe, via-se
perdido; mas Sá-da-Bandeira mandou que deixassem «passar esse homem». O
homem fugiu, a soldadesca popular foi correndo, clamando atraz da sege,
onde, _batendo_, um bolieiro salvava Costa-Cabral e Silva-Carvalho.
Em Santa-Justa, Cabral extendeu o braço, disparou a pistola contra a
turba que o seguia, como lobos. E a sege _batia_, fugia, até entrar no
Castello, onde se refugiaram. A carruagem de Costa-Cabral, vasia, foi
corrida á pedrada. (_Apontamentos historicos_, anon.)
Que surpreza singular! O ministro não caia em si. De certo, não havia
remedio: força era supprimir mais batalhões, inclinar ainda mais á
direita, dar todo o apoio ao homem novo, o unico homem capaz de pôr
cobro ás _demasias_ de um povo que teimava em não ser cordato: uma
pena! Costa-Cabral, commendador em março, subia a conselheiro, e no fim
do anno passava, da administração, para a camara. Voltava ahi com uma
pelle nova, homem inteiramente diverso do antigo deputado da montanha.
Descendo a bancos mais baixos--subia, subia sempre.
* * * * *
Faltava agora, ao infeliz Sá-da-Bandeira, depois da ingratidão do
povo, a das potencias! Que a sessão parlamentar de 39 havia de ser
borrascosa, já o esperava: haviam de o accusar, e accusavam-n’o,
por pender para a direita, por atacar na guarda-nacional o palladio
da liberdade, etc. Estava preparado para isso, sabia o que devia
responder, e tinha na camara o seu Costa-Cabral. Mas o comportamento
da Inglaterra? Pois era o mesmo Howard, o proprio que o anno passado
lhe dava parabens, felicitando-o, approvando tudo? Agora se desilludia:
a Inglaterra que intrigára sempre contra Setembro; a Inglaterra da
Belemzada via chegado o momento de apunhalar n’elle o _povo_. Eram
exigencias sobre as questões do cruzeiro,[19] quando ninguem tinha
mais a peito abolir a escravatura. Havia um proposito ... Pedia-se a
bolsa ou a vida, exigindo-se meio milhão esterlino de contas de soldos
atrazados, ou em compensação a India. (Sá, _Lettre au comte Goblet_,
etc.) Havia um pensamento: obrigal-o a saír, expulsal-o do governo.
Porquê? Teriam já adiantado os planos entre o homem-novo e a corôa
para restaurar a CARTA? e seria uma fórma diversa, mais cavillosa, de
Belemzada? Quem sabe? Começaria Sá-da-Bandeira a desconfiar do papel
que representava? Voltar-se para o _povo_, já o não podia: talvez
tivesse tido mais juizo o Passos, retirando-se ...
Que havia um proposito, era fóra de duvida. Não se exigem impossiveis.
E podia elle dar a India? E podia elle dar o meio milhão, quando o
Thesouro, como sempre, estava phtisico? De certo não. As finanças,
essas malditas finanças, iam de mal a peior. Tojal, por fim, não dera
nada. Á falta de homens fôra mistér restaurar (17 de abril de 38) o
antigo barão de Chancelleiros, que deixára os negocios desde 28. Nem
um, nem outro: ninguem era capaz de pôr ordem n’esse cháos, que era o
descredito da revolução. Agora vinha a Inglaterra pedir meio milhão!
Era bom de pedir; mas como não havia que dar, Sá-da-Bandeira percebeu
que a exigencia encobria outra vontade--a de o expulsar do governo.
Abdicou, pois (18 de abril de 39).
O tempo que separava Costa Cabral do poder corria. Os successivos
momentos do seu plano realisavam-se. Não se podia ainda precipitar
a acção, nem isso convinha. O resto que havia de força na gente
setembrista consumil-o-hia um governo ephemero, mais _moderado_, o
governo do sagaz Pizarro, malicioso e astuto, improvisador facil sem
eloquencia, habilidoso sem talento, aristocrata por indole, setembrista
por ter sido inimigo de D. Pedro: do inconsciente Pizarro, feito barão
da Ribeira de Sabrosa. (_Hontem, hoje e amanhan_, op. anon.)
* * * * *
A exigencia do meio milhão vinha a ponto, opportuna, porque nada
desacreditára tanto o setembrismo como a sua gerencia financeira.
Á ruina conhecida do paiz juntava-se a incapacidade de homens sem
talento para gerir, nem artes, nem caracter para mascarar. Via-se ás
claras, aggravado, o sudario que um Silva Carvalho enrolava habilmente
no bolso. Elle com a sua arte chamava, os setembristas com a sua
franqueza afugentavam o judeu de Londres, que era a melhor fonte, o
ultimo recurso do Thesouro de uma nação queimada. Em vão o setembrismo
creava a _protecção_, em pautas quasi prohibitivas para muitos generos:
a industria não surgia; encareciam apenas as cousas, e engrossava o
numero d’esses operarios fabrís que em Lisboa eram as _marcas_ da
guarda-nacional com que se faziam tumultos.
Para animar e favorecer a nossa agricultura, industria e artes, devem
marcar-se direitos protectores a todos os generos e mercadorias que
produzimos e fabricamos, em ponto tal que possa dispensar-nos já ou
vir a dispensar-nos da producção ou manufactura estrangeira. (_Rel._
de José Passos; ref. de pautas; sess. de 39)
«Já temos _alguma_ fiação, observava com esperança o relator, e
se a legislação não mudar, teremos mais.» Talvez a Inglaterra não
applaudisse o novo pombalismo da revolução. Se o temia, fazia mal,
porque elle só creava elementos de desordem muito mais dispendiosa
do que o augmento de receita das alfandegas. A pobreza não cessára
de crescer. Pela legislação de 34 todo o papel-moeda devia acabar em
38, traduzindo-se em metal as obrigações contractuaes anteriores.
Mas como pagar tres mil contos ou mais, ainda em circulação? Força
foi, portanto, deixar á sua extincção natural, indefinida, o que
restava, prejudicando muito graves interesses; pois que as especies
contractuaes anteriores se prorogavam indefinidamente tambem, nem
podia ser de outra fórma. (D. de 31 de dezembro de 37) Era mais uma
banca-rota, a sommar aos successivos _pontos_, _saltos_, conversões de
vencimentos, etc. em titulos de uma divida de que não havia com que
pagar o juro. Uma nação de empregados tinha caimbras de fome. Todos os
estomagos davam horas.
Passos conseguira que a decima produzisse o dobro, de mil a dois mil
contos; mas isso era um copo de agua no mar. O orçamento para 38-9
apresentava um deficit de 7:259 contos (16:835-9576) no qual entravam
5:107 de vencimentos atrazados. E a divida, que era de 70:580 com o
juro de 2:417 em dezembro de 36, chegava a 79:235 com o juro de 2:885
em dezembro de 38. (A. Albano, _A div. pub. port._, 1839) A maré subia,
subia, de um modo assustador. (V. os numeros anteriores em 28 e 35)
Um anno depois, em novembro de 39, já não eram 80, eram 85 mil contos,
pois se iam capitalisando vencimentos, dividendos. E não escolhemos
um inimigo, antes um defensor e ex-ministro da revolução, que para a
defender compara os dois periodos de setembro de 36 e novembro de 39,
denunciando um accrescimo de cinco mil contos ao anno. (Sanches, _O
est. da divida pub._, 1849)
E a Inglaterra pedia meio milhão ou a India! Sá-da-Bandeira
demittira-se; Sabrosa em novembro, ao saír, dizia que a côrte era
a serva da Inglaterra que o expulsava: «Fômos despedidos com mais
sem-cerimonia do que costumo despedir os meus creados». (Liberato,
_Mem._) Foram despedidos. A revolução acaba, e começa, com a ORDEM, uma
historia de novas desordens. Bomfim serve de _plastron_ ás duas figuras
seccas e frias, sem illusões, Rodrigo e Costa Cabral que se acotovelam
no gabinete (26 de novembro). Qual d’elles vencerá?
Rodrigo tem a ironia e o scepticismo: «a questão ingleza são alguns
saccos de ouro.» (Liberato, _Mem._) Cabral tem a violencia e um plano.
Dissolveram a velha camara (25 de fevereiro de 40); e emquanto um
acceitava a constituição, acceitava tudo, porque tinha fé nas suas
manhas e artes; o outro, como doutrinario, puzera a peito organisar
as cousas sob um typo novo de instituições. Qual dos dois vencerá?
Primeiro, o doutrinario; porque o paço partilha as suas ideias, porque
ainda ha quem espere e creia. Depois, quando esse novo typo, fórma de
_liberdade_, tiver tido o destino natural, e tudo ficar em farrapos, os
principios e as esperanças, os marechaes e os partidos, então, sobre
as ruinas das chimeras, no seio do cansaço universal, reinará o perfil
ironico de Rodrigo, vencedor final ...
O futuro pertence agora a ambos ainda, e só a elles: porque um passado
que não voltará mais atirou com os coripheus do setembrismo para longe.
Sá-da-Bandeira sóme-se; Pizarro vae enterrar-se em Chaves onde morre;
Passos, o nobre Passos, já esquecido, no seu exilio de Alpiarça,
aguarda o momento de voltar a publico fazer uma confissão geral, dizer
as novas impressões e idéas que o exame directo da realidade acordou em
seu espirito.
5.--AS FOLHAS CAÍDAS
O anno de 44, pelo outomno, ouviu a final confissão do tribuno.
Seis annos ou sete havia que deixara o governo e se exilara. N’esse
periodo tinham occorrido cousas graves. Costa Cabral vencera Rodrigo,
restaurando a CARTA em 42, começando o seu reinado; e no principio
do anno em que Passos Manuel orou, frustrara-se a sedição (de
Torres-Novas), preparada para galvanisar o setembrismo. Passos já sabia
que elle estava bem morto: não adheriu. A sedição fôra suffocada.
N’um dia passou por Alpiarça o tenente Portugal, que ia juntar-se aos
revoltosos. No dia seguinte passou o coronel Pina, que ia unir-se
ás forças do governo. Nem offendemos um, nem coadjuvámos o outro.
Eu era estranho a estes movimentos que não tinha aconselhado, cuja
conveniencia não conhecia ... Quando a revolta triumphasse não
esperava d’ella grandes beneficios nem melhoramentos para o paiz.
Alpiarça não queria ser elevada a cidade; nem eu nem os meus visinhos
a paes da patria. Não tinhamos nada com estas bambochatas. (Disc. de
18 de out. de 44)
Bambochata, a revolução! _Quantum mutatus ab illo_ ... Sim! Bambochata
fôra para elle todo o cartismo até 36, emquanto punha a sua fé e as
suas esperanças na Democracia, expressão genuina, verdadeira e pura
da Liberdade. Bambochata fôra a vida de todos esses homens, a quem o
governo coubera até setembro: mas depois? Depois tambem, reconhecia-o
agora, quando á empreza para restaurar a democracia dava um nome egual;
porque a gente a quem fôra confiada a defeza dos principios não pudera
com o peso do encargo:
Se a Revolução está morta, não foram os seus inimigos que a mataram.
(_Ibid._)
O tribuno presentira o passamento, e retirou-se para não assistir ás
exequias. Era uma grande agonia, uma afflicção dolorosa que o tomavam?
Não; eram as nauseas do desengano.
Este fastio, esta indifferença, vieram-me no dia em que o meu
proprio partido commetteu um grande erro, e, direi francamente, um
grande crime; foi no dia da presiganga ... Desde então considerei
a revolução como perdida, porque estava deshonrada ... e assisti
melancholico ao seu passamento e ás suas exequias. Retirei-me da vida
publica e fui buscar o descanço e as consolações da vida privada.
(_Ibid._)
Mas o erro de uns homens não póde ser a condemnação de um principio.
Como Cincinato, Passos tomava o arado, á espera que a doutrina o
chamasse outra vez ao campo? Não nos illudamos, conforme elle parece
querer illudir-se. É muito doloroso e difficil de confessar que a nossa
opinião foi um sonho, uma chimera, ou um erro; mas quando se tem a
sinceridade propria das grandes almas, essa confissão vem do pensamento
aos labios e faz-se. Era o que succedia n’essa hora ao tribuno. Em vão
encobrira as ruinas das suas idéas com o fastio pelos homens a que
tinham sido confiadas. A sua descrença, a sua indifferença abraçava
homens e idéas, restando apenas a energia dos sentimentos do poeta e do
moralista. Eram estes que condemnavam como inuteis e vans as doutrinas
e systemas.
O melhor governo será sempre aquelle que applacar e não inflammar
os odios civis; o que souber inspirar amor e não inimisade; o que
fôr mais humano e não o que fôr mais cruel ... A generosidade é o
predicado da força, o laurel da victoria. Só a cobardia é vingativa: o
medo não póde ser magnanimo ... Nada póde ennobrecer tanto os homens
publicos e os partidos politicos, como a firmeza na adversidade e a
moderação no triumpho. (_Ibid._)
E a coragem, a audacia, a fé, para propagar e impôr uma doutrina?
Pois já o politico não é um philosopho e um apostolo? Não, não é. As
illusões perderam-se, veiu o outomno e as folhas caíram: eram sonhos
as doutrinas, chimeras as esperanças. O veneno do scepticismo invadiu
a alma do antigo apostolo; e elle que fôra por mais de dez annos o
S. Paulo da democracia, despia agora o ardor de outr’ora e ficava um
Christo de amor, de paz, de meiguice ternamente compassiva, levemente
ironica. Os homens não mereciam mais. Portugal não lhe inspirava outro
sentimento. Essa Liberdade que nas phrases occas dos vaidosos fôra uma
conquista, era de facto um dom do acaso: não a tinham ganho, dera-lh’a
um destino.
Quem inspirou a Portugal o amor da liberdade? Foi Manuel Fernandes
Thomaz, o patriarcha? Foi o venerando Manuel Borges Carneiro? Foram
esses oradores das nossas primeiras camaras? Não! não! foram os
sanguinarios ministros de D. Miguel que, abusando da inexperiencia
do principe, em seu nome exerceram sobre o paiz a mais insupportavel
tyrannia.
Se D. Miguel em 1828 não procedesse com a precipitação de Minucio, se
por mais tempo tivesse conservado o escudo da carta constitucional,
e se como regente em nome de D. Pedro tivesse desligado uns apoz
outros os commandantes dos corpos, a revolução de 16 de maio de 1828
seria impossivel; o throno de D. Pedro, a liberdade do paiz teriam
caído então como caíram em 1823, sem que se disparasse um tiro em sua
defensa, sem que uma gota de sangue se derramasse pela liberdade do
povo.
Estas palavras resumem e confirmam a historia que nós contámos; mas na
bocca de um dos chefes vencedores, não serão um triste commentario da
propria obra? uma annotação grave ás palavras de outro tempo? Caíram
os homens, caíram os systemas: pois agora tambem se apaga no espirito
do tribuno a victoria da Liberdade! O ar é muito mais transparente, a
vista muito mais penetrante pela tarde, ao descair do sol: em pleno dia
o clarão offusca. Na tarde da sua vida, Passos era mais perspicaz. A
victoria? um acaso. As doutrinas? vaidades. Os homens? bambochas.--Como
deve ser melancolico o approximar do tumulo, envolvido no renegar de
uma existencia inteira!
Felizes, porém, os poetas que, acaso por verem mais longe, vêem pouco e
mal o que está perto! Assim Passos, no meio das ruinas, appellando para
o amor, para a paz, appellava tambem para a ordem e para a legalidade.
Acredito nos meios legaes ainda que debeis, no triumpho da liberdade
ainda que tardio: não ambiciono a gloria militar, nem corôas de louro
... Na politica não ha atalhos: a estrada real é a legalidade.
Singulares expressões na bocca do dictador erguido por uma revolução,
do homem do Campo-de-Ourique, no dia da Belemzada, á frente da
guarda-nacional contra o throno! Singulares expressões que se diriam
uma apotheose do governo _cartista_, sentado alli a ouvil-o, a apoial-o
de certo: elle que em nome da legalidade restaurara a CARTA, chamando a
todo o periodo setembrista um crime contra a lei.
Lei, legalidade: mas qual? Se se discute a origem do proprio poder.
Onde está? no throno como uns querem, reconhecendo a CARTA que
o throno deu; ou no povo, como querias, oh nobre, inconsequente
orador? Como póde haver lei, quando se discute a propria origem da
authoridade que dá força ás leis?--Passos protestava, sim, contra as
sedições militares, não queria «corôas de louros»; mas desde que a
origem tradicional do poder se contestara; desde que a nova origem,
democratica, não podia enraizar-se, como o provára a historia de 36-39;
desde que vingava o constitucionalismo hybrido em que a authoridade,
nem por ter (ou antes por isso mesmo) duas fontes, deixa de ser uma
anarchia doutrinaria; desde que, finalmente, a victoria da liberdade
fôra um acaso--que podia ser a vida do paiz senão uma serie de sedições
e revoltas?
Triste, desoladora sorte, a de Portugal! Nem homens, nem systemas, nem
a propria religião nova, da LIBERDADE vingava! Não era para descrer da
patria? Não era para interrogar a historia, a vêr se nós não seriamos
um erro--como tantos!--que o tempo arrasta pelos seculos?
Sou franco. Fui sempre grande partidista da união de Hespanha a
Portugal: desejava muito que a politica não separasse por mais tempo
aquelles que a natureza tinha unido. No estado actual da Europa as
nações pequenas soffrem muito. Era bello vêr a rica peninsula iberica
representar no mundo como grande potencia, como nação que a natureza
fez cabeça da Europa!
A independencia portugueza era com effeito uma tradição da monarchia
que a fundara, e, salvas ambições intercorrentes, a defendera sempre.
Agora que a tradição caíra, e que, varridas todas as idéas antigas,
os homens buscavam na Natureza o principio das cousas achando só
desolação e anarchia, era justo, era necessario que a confissão do
tribuno acabasse por um renegar da historia. Não começara Mousinho
renegando-a tambem, com as suas opiniões de jurista e de economista,
nas instituições e no organismo? Afinal a politica, indo tambem ao
fundo, auscultar o seio de uma Natureza que suppunha prenhe de todas
as verdades, chegava onde devia chegar: á negação de uma nação feita
contra ella pelas artes dos homens; chegava onde ao moralista conduzia
o espectaculo da sua actual miseria--á condemnação formal. «No estado
actual da Europa as nações pequenas soffrem muito».[20]
E muito, acaso mais do que ninguem, soffria Portugal, assolado,
queimado, com os seus _bravi_ da tribuna e do campo, ceifeiros
desapiedados que devoravam as searas sem deixarem grão nem para a
semente. Passos, já ensinado pela experiencia, respondera aos de
Torres-Novas:
Estou muito gordo para me dar á vida aventurosa e romantica das
guerrilhas: não tenho pressa de entrar no Pantheon. A gordura e o
casamento são duas grandes garantias de ordem ... Continúo no meu
remanso a apanhar a minha azeitona, a comer os meus feijões e a lêr a
minha gazeta, sem ter mais parte nos negocios publicos, depois que me
retirei inteiramente á vida privada.
Precipitára-o pois a politica no scepticismo absoluto ou n’um
pessimismo amargurado? Não. A poesia salvava-o; e se perdera a
confiança nos homens, nos systemas, nos principios, na historia e na
patria, não perdera aquillo que tinha no fundo intimo da sua alma: o
seu amor, a sua virtude, a paz serena da sua consciencia, a luminosa e
meiga doçura da sua bondade.
Se a politica me irrita, tenho uma cataplasma emmoliente a que me
soccorro. Tomo a minha filha nos braços, aperto-a contra o meu peito,
e procuro assim esquecer os infortunios da minha patria.
Quem não vê d’aqui o grupo suave, melancolico? o homem cuja face sorri
caridosamente para a innocencia? o homem que é uma ruina, mas com uma
flôr no seio, como succede aos edificios derrocados?
Assim, embalando nos joelhos a filha, abraçando-a, beijando-a, acaba
aquelle que nós vimos começar, estoico, em 26 ao jurar da CARTA no
Porto. Viveu annos ainda, mas ficou outro e que pouco importa á
historia. Dos soldados que a ANARCHIA matou, elle é o segundo: Mousinho
fôra o primeiro. Entra agora a ORDEM a fazer victimas: Cabral, Rodrigo,
Herculano. Vel-os-hemos morrer de varios modos: oxalá tivessem acabado
todos, como acabou Passos: com a filha sobre os joelhos, embalando-a,
beijando-a!
Esses beijos eram o despedir, o finar-se da chimera setembrista; mas o
amôr que traduziam tinha sido e é ainda o symbolo de uma idéa futura,
mal concebida nos dias de hoje--o symbolo da democracia, egualisadora
dos homens ...
Com Passos caíu a segunda definição do liberalismo: a ruina da
idéa derrubava o seu defensor. Mas, agora, apparecia em 39, com o
ministerio _ordeiro_, uma definição nova--d’esta vez a genuina, a pura,
a definitiva? Repellia ao mesmo tempo o radicalismo de Mousinho e a
idolatria da soberania-nacional setembrista. Voltava aos tempos de 30,
ás doutrinas estudadas com ardor na emigração pelos livros dos mestres.
Queria e pedia tudo á liberdade individual, condemnando a democracia;
mas em vez de renegar a historia, ia buscar á tradição a base para um
throno vacillante. Tornava-se á «melhor das republicas», e o coripheu
d’essa opinião em Rodrigo, se é que o sceptico estadista possuia
opinião; se é que não preferia esta exactamente por ser parda: côr
sobre que assentam bem quasi todas as outras. Não é pois á politica, é
á litteratura que nós iremos pedir a explicação do novo systema, prenhe
de esperanças, que só durariam dois annos. (39-42, restauração da
Carta).
NOTAS DE RODAPÉ:
[11] Eis aqui um documento authentico: (_Corr. de Rezende_)
Regimento Ill.ᵐᵒ Sr.
4 de cav.ª
He do meu dever levar no conhecimento de V.S.ª que hontem alguns
sargentos e soldados do Regimento dicérão que não querião para os
Commandar o Major Taborda Capitães Leal, Amaral e Cunha e só sim a
todos os subalternos sendo eu o Commandante, o que V.S.ª já saberá; em
consequencia d’istro tratei de conservar a disciplina (!) e boa ordem,
em que nada se ácha alterada (?); hoje por oucazião da Parada de
Missa fiz ver ao Regimento q. éra preciso segundo minha opinião, que
viessem os officiaes e Major para o Regimento e bem assim V. S.ª ao
que me responderão que só querião V. S.ª, e que nada dos outros, visto
isto pesso a V. S.ª que quanto antes queira vir tomar o Commando do
Regimento, e então V. S.ª verá o modo de fazer o q. julgar conveniente
para ver se os Soldᵒˢ anuem á recepção dos nossos Camaradas no R.º,
podendo eu asseverar a V. S.ª q. só dezejo _oportunidade_ e boa
camaradage no R.º.
Deos Gd.ᵉ a V. S.ª Quartel em Belem 11 de setembro de 1836.
Ill.ᵐᵒ Snr. João X.ᵉʳ de Rezende.
Francisco Maria Vieira
T.ᵉ
Precursor opportunista, o nosso tenente!
[12] A narrativa do episodio da Belemzada, conforme se acha no livro
citado do sr. Macedo, é transcripta do _Echo Popular_, jornal de
José Passos, no Porto, e que Manuel, de Alpiarça, inspirava em 57
quando a noticia viu a luz. É certo, portanto, que se Manuel Passos a
não escreveu, como se suppõe, viu-a, emendou-a: tem pois o caracter
authentico.
[13] V. _Instit. primitivas_, pp. 156-66.
[14] Foi antes ou depois d’isto que a artilheria engatou em Belem para
fugir para Lisboa, sendo necessario mandar cavallaria cortar-lhe a
vanguarda; sendo necessario que D. Fernando fosse pela estrada fóra, a
galope, escapando por um triz á cutilada que um soldado lhe despediu?
[15] V. _Hist. de Portugal_, (3.ª ed.) I, pp. 66-9.
[16] «Em quanto as Marnotas e que V. erra de todo; era uma vasta
conspiração, abortada pela denuncia d’um miguelista que se vendeu, e
annos depois pagou a traição com a vida». _Carta_ do sr. Carreira de
Mello ao A.
[17] O sr. R. de F. (_Port. Contemp._) attribue a outra causa (inveja?
despeito?) o silencio de Sá-da-Bandeira ácerca do episodio do paço
de Belem: crendo tambem que Passos deixou o governo, forçado mas não
descrente. Não me parece isso a mim, á vista dos antecedentes e dos
consequentes.
[18] V. _Hist. de Portugal_ (3.ª ed.) I. p. 66; e _Instit. primit._ pp.
162-6.
[19] V. _O Brazil e as colon. port._ II, I.