Entretanto, o que peior lhes fizera fôra a sua rectidão: deixaram de

pagar quando não tinham com quê; exigiram dos contribuintes a decima

que os antecessores, para não afugentar partidarios, prescindiam

de cobrar. Ella dava agora mais do dobro: e comparando os numeros,

Passos na sessão de 37, tinha motivos para se gabar. O deficit que

encontrára (36-7) calculado era de (18:600-11:800) 6:800 contos,

devendo-se ao banco 4:834 e a outros 800; havendo ainda 3:516 contos

de papel-moeda em junho (36) e 4:087 de titulos admissiveis na compra

de bens nacionaes. (_Lei de 15 de abril de 35_) O governo amortisára

500 contos de papel-moeda e 2:876 de titulos; e o orçamento para 37-8

não apresentava um deficit superior a (11:217-9:294) 1:923 contos.

E com isto não se tomára emprestimo nenhum de fóra, e os encargos da

divida total, se tinham subido de 2:334 a 2:500 contos, era porque

se reconhecera o direito esquecido dos possuidores de _Padrões_,

convertendo-os em titulos de 4 por cento, por 2:960 contos com o juro

de 118. (V. _Relatorio de 24 de abril de 1837_)

«Quando entrei, dizia Passos, achei nos cofres da capital seis contos,

e não havia com que pagar os dividendos em Londres. (_Disc. de 21

de jan. de 37_) E defendendo-se a si e aos actos da sua dictadura,

sentindo que o tempo corria e o fim se approximava, definia todo o

seu pensamento: «A rainha não tem prerogativas, tem attribuições:

é o primeiro magistrado da nação. Eu fui o primeiro ministro que

executou o programma do _Hotel de Ville_ de Paris: cerquei o throno de

instituições republicanas ... Não houve só liberdade de imprensa, houve

licença, houve desafôro». (_Ibid._)

Liberdade e licença! liberdade e desaforo! Mas que linha as divide,

ou qual é o criterio que as distingue? Ah! eis ahi onde a doutrina

naufraga, assim que a põem a navegar no barco de uma constituição. Uns

pilotos caçam logo as velas e bolinam; outros mettem de capa; outros

dão a pôpa ao vento e correm desarvorados acclamando o temporal da

anarchia que os leva ... onde? Contra uma pedra a despedaçarem-se.

Passos não era homem para nada d’isto: nem bolinava, como outros;

nem se mettia de capa, esperando e resistindo ao vendaval; nem lhe

obedecia. No meio das nuvens cerradas, com o vento a assobiar, elle

teimava em vêr uma nesga de céu azul, prenuncio de bonança e fortuna.

A linha que dividia a liberdade da licença, esse criterio supposto

seguro, tinha-o elle na sua humanidade, na sua virtude. Não era mister

theoria, bastavam sentimento a caracter ... Mas se todos fossemos

Passos, para quê, leis, governos e forças organisadas?

Elle, no seu optimismo, teimava em pensar que eramos, ou seriamos, ou

deviamos ser optimos, o que é bem diverso. Uma nação affigurava-se-lhe

uma familia de irmãos, e a lei um osculo de Paz. Annos passados,

depois de toda a sua historia acabada, e da revolução extincta, ainda

glorioso, lembrava como o amor o a humanidade tinham vencido tudo:

Tinhamos a luctar contra o partido cartista ... D. Miguel preparava

uma insurreição em Portugal e nas ilhas. O Remechido estava levantado

no Algarve. A causa da rainha Christina soffrera innumeros revezes; o

general carlista Sanz marchava sobre a nossa fronteira do norte e o

general Gomez com uma força connsideravel chegou a tocar o territorio

de Portugal ... O governo armou a guarda nacional e ficou esperando

... A revolta de Belem foi aniquilada e os vencidos foram recebidos

nos nossos braços. A revolta miguelista não appareceu.--Escrevi

aos administradores geraes para que fizessem saber aos realistas

que nenhum d’elles seria inquietado nem perseguido, mas que todo o

atacante seria punido. (_Disc. de 18 de out. de 1844_)

E não se arrependia do que fizera. A paz, o perdão, o amor, eram as

ancoras das nações: em verdade os homens não o criam, mas nem por isso

elle chegava a perder a sua esperança, embora deixasse um governo

em que se achava deslocado. Saíu em julho, como dissemos; mas não

abandonou os seus antigos companheiros, senão quando elles mais tarde,

perante o cartismo sublevado, abandonaram a doutrina do perdão pela do

castigo, atulhando de presos as _persigangas_. (_Ibid._) Foi então que

descreu dos homens, e se voltou para dentro de si, como um eremita--por

estar longe, muito longe, a salvação da terra, pela paz e pelo amor!

Quando os inimigos viram expulso ou retirado do governo esse homem

temido, e que em seu lugar ficava apenas, além de politicos, o bom

e fiel Sá-da-Bandeira, as esperanças nasceram. A revolução estava

suffocada. Havia porém insoffridos que se não conformavam com a demora

dos caminhos ordinarios; e ninguem mais se exasperava do que Van

der Weyer, talvez com a vista no penhor do territorio africano. Não

houve meio de o conter; disse então aos marechaes que a hora tinha

soado--«Hombro, armas!»

4.--AS REVOLTAS DOS MARECHAES E DO POVO

Van der Weyer mandou-os marchar, e elles foram. O belga esperava poder

armar em Lisboa um pronunciamento cartista, pôr o reino inteiro n’uma

desordem maior do que havia já, para d’ahi saír com um bocado de

Africa entre os dentes. Portugal decerto resistiria á restauração da

CARTA, mas viriam os extrangeiros impol-a. Entretanto Palmerston, ou

avisado pela triste figura que as suas fardas vermelhas tinham feito

na Junqueira, ou desconfiando do zelo belga, resistia, como resistiu

depois, em 47, ás solicitações da Hespanha. Cedeu mais tarde perante a

força das cousas, mas agora o mau exito da aventura veiu auxiliar os

seus desejos. (Goblet, _Etab. des Cobourg_.)

Com effeito, nem Van der Weyer pôde conseguir que Lisboa se

pronunciasse, nem os marechaes que o exercito obedecesse, conforme

convinha. A correria foi rapida e o resultado grutesco, para tão

nobres personagens. O barão de Leiria principiou, acclamando a

CARTA (12 de julho) na Barca. Declarou-se logo o estado-de-sitio,

dividindo-se o reino em duas lugar-tenencias militares: Sá-da-Bandeira,

com José Passos por secretario, no norte; Bomfim, com Costa-Cabral, no

Alemtejo. Saldanha partiu de Cintra a 26, Tejo acima até Abrantes e

Castello-branco, chamando á revolta os regimentos com que veiu descendo

pela serra até Coimbra. Eram 10 de agosto quando ahi entrou. Em 15

estava em Leiria, em 22 em Torres-Vedras, onde se lhe reuniu Terceira,

saído de Lisboa a 17 ou 18. A 23, os dois marechaes e a sua tropa

chegavam ao Campo-grande, ás portas da capital, esperando o promettido

pronunciamento que não apparecia. (Sá, _Lettre_, etc).

Quatro dias esperaram em vão. Que faziam entretanto as tropas do

governo? Bomfim recolhera a Lisboa, porque as guarnições do Alemtejo

tinham fugido para Saldanha. Nas visinhanças da capital devia dar-se

a batalha inevitavel, mas os marechaes, vendo a mudez da cidade,

retiraram (27) para Rio-Maior; e o exercito do governo achou-se em

frente d’elles, a 28, no lugar do Chão-da-Feira.

Começou a acção, e quando chegava o instante decisivo viu-se um caso

singular. Corriam a galope esquadrões de cavallaria, com a lança

em riste ou a espada erguida, ameaçando fazerem-se pedaços; e n’um

momento, em frente uns dos outros, os soldados paravam, olhando-se,

levantavam as lanças, baixavam as espadas, dando vivas, de um lado, á

CARTA, do outro á CONSTITUIÇÃO. Não se bandeavam, mas tinham resolvido

não combater. (Sá, _Lettre_, etc.) Ás vezes, nas touradas em Hespanha,

quando a féra mostra mais juizo do que os toureiros, o povo das

bancadas acclama o toiro: é o que nós agora fazemos aos soldados! Com

um juizo superior, deram uma lição aos generaes, aos diplomatas, á

rainha, á côrte, e a todos.

Começou então uma scena egual ás muitas que se conhecem dos tempos

medievaes, quando os bandos dos senhores e das communas se encontravam

nas suas contendas. Os generaes avançaram para o meio das columnas

armadas, e para o quadro acabar como cumpria, devia seguir-se um

_bufurdio_, um juizo-de-Deus.[18] Mas os tempos eram outros, mais

pacificos. E os generaes, á maneira dos soldados, não queriam _morrer

por ello_. Combinaram um armisticio, retirando os sublevados para

Alcobaça e os do governo para Leiria, a vêr se podiam entender-se.

Vieram á fala em 30, em Aljubarrota; e ao outro dia, por não

conseguirem nada, recomeçaram as hostilidades. (Sá, _Lettre_, etc.) Que

houve então? Muito sangue? batalhas mal-feridas? Oh, não! Os marechaes

vão-se embora para a Beira-baixa, Bomfim deixa-se ficar em Santarem, e

Sá regressa a Lisboa. (_Ibid._) Se os soldados, com todo o juizo, não

queriam bater-se!

Andava por esse tempo em Hespanha, auxiliando a rainha contra os

carlistas, uma divisão portugueza, sob o commando do conde das Antas.

Mandou-se voltar; mas quando ella entrou por Traz-os-Montes em direcção

do Porto, já os marechaes tinham chegado a Moncorvo, e furtaram-lhe

uma brigada de infantaria. Reduzido, chegou pois Antas ao Porto,

onde encontrou já Sá-da-Bandeira, vindo de Lisboa (setembro, 13) com

um unico batalhão de caçadores. Os marechaes tinham Traz-os-Montes;

Leiria, desde que se pronunciara na Barca, possuia o Minho. Por aqui

se devia começar a batida, para não deixar a rectaguarda ao inimigo.

Antas, com effeito, occupou Famalicão a 15 e Braga a 16. Leiria recuava

pelo Cavado, a reunir-se aos marechaes em Traz-os-Montes: fortificou-se

em Ruivães; mas o inimigo desalojou-o d’ahi, depois de um breve combate

(18) obrigando-o a seguir até Chaves. Antas vinha quente das guerras

de Hespanha: as suas tropas, costumadas, não se recusavam a marchar.

Proseguiu, e os marechaes, vendo-se perdidos, propozeram a capitulação

na noite de 19-20. Antes uma composição má, do que uma boa demanda,

pensavam; e do lado opposto não havia tambem vontade de levar as cousas

ás do cabo. Fôra uma experiencia, a vêr: não vingou? Pois bem: nem se

fale mais n’isso! Bem no fundo, eram todos amigos: tinham combatido

juntos contra D. Miguel, e isto agora não passava de arrufos. As tropas

haviam de submetter-se ao governo, é claro; os marechaes não podiam

deixar de emigrar, é evidente; que figura viriam fazer para Lisboa? que

diriam a Van der Weyer?--Mas os pobres officiaes que não tinham culpa,

não podiam ficar sem pão: conservavam-se-lhes as patentes, com o soldo

de reformados. (Sá, _Lettre, etc._)

Assim acabou em nada a revolta dos Marechaes, que saíram d’alli para

Hespanha, indo acolher-se a Paris, á espera de tempos melhores. Acabou

esta revolta, mas o exemplo de generaes transformados em _condottieri_

estava dado e fructificaria: este ensaio era uma iniciação. De

lado a lado se começava a sentir a necessidade dos golpes-de-mão e

das resistencias violentas. Declarara-se a guerra, e os _liberaes_

appellavam para a força. Durante o conflicto referido, o governador

civil de Aveiro avisava Passos (16 de agosto) de que chamara tudo ás

armas, «o que não vier voluntariamente, ha de vir constrangido». Se o

Joäo Carlos (Saldanha) entrasse no districto e algumas pessoas d’elle o

acompanhassem, o governador estava resolvido-a, «não os podendo apanhar

e passar pelas armas, arrazar-lhes as casas». Eram as unicas medidas

adequadas ás circumstancias. Começara por querer levar tudo por meios

brandos e de suasão, mas vendo o nenhum resultado, virara-se para o

lado opposto. (Corr. autogr. dos Passos) Assim tambem D. Pedro fôra

forçado a libertar-nos!

Por seu lado o belga, frustrado duas vezes o plano de nos fazer

felizes, já em Belem, já agora em Traz-os-Montes, perdendo a esperança

do pedaço de Africa, abandonou-nos á nossa sorte. Van der Weyer foi

substituido. (Goblet, _Etabliss. des Cobourg_) Mudou de politica a

Belgica, mas o inglez que ella servia ainda de Lisboa aconselhava

Saldanha, já emigrado em Londres: «Porque não levanta um corpo de

tropas em Hespanha para salvar a rainha? Talvez isso lhe proporcionasse

o meio de voltar aqui, ao sue paiz, com _éclat_». (Carta de Howard

a Sald. 4 de out. de 37; em Carnota, _Mem._) Não pôde ou não quiz

Saldanha seguir o conselho, e a Inglaterra mudou tambem de plano. Em

vez de promover as revoltas no reino, declarou uma guerra diplomatica

ao governo.

Mas as licções dadas aos jovens monarchas prepararam-lhes,

educaram-lhes o espirito. Iniciada a rainha, senhora varonil e

nobre, nas cabalas da resistencia; ensinada desprezar as fórmulas

constitucionaes e a pôr em pratica as conspirações, a fomentar os

pronunciamentos, a servir-se dos generaes como _bravi_ de um tyranno

á italiana, e a contar com a força estrangeira para dominar uma nação

de que tudo a separavara: iniciada a rainha, dizemos, estes primeiros

episodios do governo são o prologo de aventuras maiores, mais serias.

* * * * *

Emquanto a sedição lavrava no campo, ia o congresso debatendo-se

contra os vivos ataques de uma esquerda acirrada pelo medo da reacção,

esporeada pelos clubs que zumbiam em Lisboa armados. Havia declamações,

invectivas chimericas, apostrophes eloquentes, theorias radicaes,

formulas, phrases: peior do que em 1820! O ministerio, desconjuntado,

podia pouco ou nada contra a onda da demagogia: Campos não se calava; e

Julio-Gomes, que pedia ordem, via-se renegado pelos ultras, Bernardo da

Rocha e Barreto-Feio. Mais o peior, o mais doloroso de tudo isso, era

a penuria universal em que se vivia. Depois da saída de Passos entrara

na fazenda um homem novo, rico, sem politica, banqueiro, inglezado:

Tojal, de quem se esperava muito. Os portuguezes não provavam ser

habeis para a finança: mas agora este _inglez_ apparecia como successor

de José da Silva Carvalho, unico entre os antigos. Com a saída de

Passos o gabinete ia todos os dias pronunciando-se mais moderado, mais

_rasoavel_; e ao mesmo tempo, apezar da irritação das esquerdas no

parlamento e nos clubs, a constituição progredia por fórma que viria a

ser a propria CARTA. Em outubro (14) ganhou-se uma batalha grave: duas

camaras. Era um senado electivo por seis annos. E á força de trabalhos,

depois de serias campanhas, conseguiu-se por fim votar, jurar (4 de

abril do 1838) uma constituição muito soffrivel. Sá-da-Bandeira,

acreditava ingenua e seriamente ter concluido a éra das revoluções: via

chegada a paz desejada e considerava-se crédor das melhores graças do

seu paiz. (V. _Lettre au comte Goblet_.)

O pelatão clamaroso dos demagogos não o assustava muito: eram o _povo_,

o bom povo seu dilecto, a quem elle queria como os avós aos netos,

achando-lhes graça em tudo, mas não chegando a comprehendel-os quando

um dia começam a falar como homens. Do povo não tinha medo; para

conquistar o paço fôra admittindo no governo homens quasi cartistas,

muito moderados, como Bomfim. Mas não ficava, elle, sempre? Não era

elle a garantia? O _povo_ não o julgava assim, na primavera de 38. A

ingenuidade de Sá-da-Bandeira creara dios governos n’um só gabinete:

Bomfim e os moderados, contra Campos e os da montanha que se entendiam

com os clubistas. Eis ahi a paz que havia.

Os _Camillos_ tinham-se fechado; Costa-Cabral mudára muito: já não

perorava, e adherira á moderação. A _Associação civica_ passara para

o Arsenal, club do batalhão de operarios navaes de que era chefe o

capitão-tenente França. A marinha estava á frente da demagogia, que

tinha um imperio nos estaleiros. O capitão-de-fragata Limpo, inspector

do Arsenal, era clubista; e a segurança de Lisboa estava nas mãos do

vermelho Soares-Caldeira, deputado, administrador-geral (nome dos

governadores-civis d’então), e por isso director da guarda-nacional

da capital. Sá-da-Bandeira, repetimos, não receiava nada d’isso:

confiava de mais em si e na pureza das suas intenções. Era optimista

por bondade. Tinha os seus espias entre os demagogos; e um era o judeu

Pacifico de quem recebia as partes em arabe, porque o general sempre

amara o saber. Conhecia o que elles queriam, mas não acreditava que

se demandassem: bulhas dos rapazes! Ralhou paternalmente; e Limpo,

enxofrado, demittiu-se. (Sá, _Lettre_, etc.)

A guarda-nacional reunia mensalmente, por ordem do director: a 4 de

março Caldeira chamou-a e representou com ella á rainha, pedindo

a queda dos ministros moderados, isto é, Bomfim. Foi então que

Sá-da-Bandeira se offendeu contra a audacia dos rapazes. Deitavam

as mãos de fóra: déra-lhes armas para se distrahirem, e voltavam-se

contra elle! Que lhe doesse, não via remedio senão castigal-os. Por

isso demittiu Caldeira (7) e poz em lugar d’elle Costa-Cabral, que

dava esperanças de submissão, e promettia _reprimir a anarchia_.

Atacados assim, rudemente, os radicaes responderam na manhan do dia 9,

apparecendo em armas o batalhão do Arsenal e parte da guarda-nacional,

exigindo um ministerio _puro_. Era no Pelourinho, a cuja esquina havia

ainda o antigo botequim, politicamente celebre, do Marcos-Philippe.

A tropa cercava os sublevados, e no rio estava de canhões corridos

um navio prompto a metralhar o Arsenal, baluarte da sedição. Mas

Sá-da-Bandeira não queria que se derramasse sangue, nem podia desejar

que se esmagasse o _povo_: não iria logo o poder caír nas mãos dos

cartistas que o esperavam?

N’esta situação dubia e triste, não quiz vencer: pactuou a convenção de

Marcos-Philippe, promettendo impunidade e conseguindo a dispersão das

forças. Não podia comtudo deixar de demittir o França, nem de dissolver

o seu batalhão: isso fez, (Decr. de 9 de março) com grave escandalo dos

condemnados que lhe chamavam traidor. A opposição rugia nas camaras

e o ministerio caíu no mesmo dia: moderados (Julio-Gomes, Bomfim) e

radicaes (Campos) tiveram egual sorte. Ficou apenas Sá-da-Bandeira,

com o homem da Fazenda, o Tojal que não tinha côr politica?

Não é assim: pois detraz do governo e mais governo do que elle, estava

o administrador de Lisboa, Costa-Cabral, cujo verdadeiro destino

começava a desenhar-se. Convinha á sua ambição a posição falsa do

ministro, e ao seu genio tenaz, sem apparato, o trabalhar debaixo do

nome de outro, preparando o futuro em favor proprio. N’este momento

já elle, evidentemente, sabia o caminho que tinha a seguir. Não havia

um homem: sel-o-hia! Não havia uma doutrina, na desordem de opiniões

que se chocavam: elle restauraria a antiga doutrina da CARTA. Os

marechaes, por isso mesmo que estavam exilados e compromettidos, seriam

instrumentos doceis. E a rainha, porque era varonil e cheia de talento,

comprehenderia a rasão de ser de taes vistas, a sabedoria do plano e a

capacidade do homem.

Fôra demagogo? Tambem Saldanha. Isso nada importava á politica: nem

provavelmente o affligia a elle. Ou tivera de facto essas opiniões e

mudara, cousa que o devia fortalecer na opinião de agora; ou desde o

começo representara um papel, caminhando por vias tortuosas direito a

um fim, e isso dar-lhe-hia um grande orgulho, quando via confirmadas

as suas previsões. Arrependimento ou apotheose, a sua mudança não

diminuia a força propria do seu genio. Para os simples havia de passar

por traidor e falso: que importa? sempre os politicos o foram; e para

governar basta uma cousa, sem a qual toda a virtude é fumo: a força

victoriosa. O politico ha de ser temido e não amado: ai, dos que

esperam e crêem nos bons instinctos dos homens, como o fraco e virtuoso

Sá-da-Bandeira, reduzido á condicção de pára-choques entre o povo e a

côrte, reduzido a nada, renegado por todos!

A demagogia não se calara e reclamava uma desforra do dia 9. O ministro

nada podia, porque em vez de a vencer, obedecera-lhe, para depois a

acirrar com os decretos da tarde. Clamava-se pela revogação d’elles;

e o paço andam pallido de susto. Diz-se que d’então data o primeiro

accordo entre a rainha e Costa-Cabral. Diz-se que elle foi, e prometteu

resolver a crise; expoz o seu plano, e de tal modo, manifestando a

sua força, logo seduziu a rainha. Afinal encontrava-se um homem!

Com a tropa desarmaria o povo, e sem espingardas a democracia,

restaurar-se-hia a ordem. Era simples, era pratico e seguro.

Permittil-o-hia porém Sá-da-Bandeira? Até certo ponto permittiria;

depois não. Mas para esse tempo estaria já desacreditado de todo, e

deitava-se fóra. Talvez a rainha nem o planeasse, nem pensasse tão

cruamente. Costa-Cabral não podia pensar de outro modo.

Sá-da-Bandeira tinha mau genio, era teimoso e rabugento na sua bondade.

A teima e as ameaças com que lhe exigiam a revogação dos decretos

de 9 irritavam-no, dispondo-o bem para o papel que aos novos planos

convinha que elle representasse, e com effeito representou no dia

13. De madrugada a guarda-nacional appareceu a postos com os seus

commandantes que exigiam a reintegração de França. Tocava a rebate em

todos os sinos, rufava o tambor por toda a cidade. A tropa formava

no largo da Estrella para defender as Côrtes, e no das Necessidades

para defeza do paço. Cabral mandava, Sá obedecia, e Bomfim, Reguengo,

preparavam-se para dar _uma lição_. Haveria mortes? Provavelmente.

Marcharam as tropas, e a sua primeira acção foi desalojar os rebeldes

do convento de Jesus, tomado de assalto: correu ahi sangue, mas pouco.

Dos outros pontos a guarda-nacional debandou: não para fugir, mas para

ir reunir-se, com artilheria, no largo da Graça. A Estrella e a Graça

estão nos dois confins oeste e leste da cidade, que ardia toda em

desordem e gritos. E gritando orava no Congresso a esquerda, confiando

no exito da revolta que trabalhava por sua conta lá fóra.

Costa-Cabral levou Sá-da-Bandeira á Graça, e depois de muito falar

conseguiu que os revoltosos descessem. Era um ardil de guerra. Quando

chegaram ao Rocio, viram-se cercados por Bomfim que de todos os lados,

nas ruas das encostas, fechava essa baixa, de molde feita para curral

de gado tresmalhado. Houve ahi tiroteio e cousa de uma duzia de mortos.

Caía então a noite: estava acabada a funcção. Os sediciosos debandavam

e Costa-Cabral celebrava uma victoria incontestavel. Cumprira o que

promettera, mostrando ser homem para muito mais. Sá-da-Bandeira

agradecia-lhe, punha-se ás suas ordens, considerava-o o seu braço

direito. Se essa gente vencesse? que seria de tudo? Com effeito, não

podiam dar-se armas ao povo que tão mal usava d’ellas. Em urgente

dissolver os batalhões: não direi todos, mas os peiores, os mais

vermelhos ... Cabral começou pois a trabalhar, a dissolver batalhões; e

era em Lisboa, na administração, um Pina Manique: mais! o principio de

um Pombal. O genio organisador, administrador apparecia, depois da arte

e da bravura com que esmagara a revolta. Fazia regulamentos, organisava

cadastros, arruava as mulheres de má vida. Evidentemente subia, e não

se descortinava quem lhe fizesse sombra. A rainha dera-lhe a commenda

da Conceição--oh, tempos antigos! (V. _Costa Cabral apont. hist._ anon.)

Quatro dias depois do 13, o moderado Bomfim voltava para o governo;

e Sá-da-Bandeira, sempre crente, cheio de esperança, considerava

terminado o episodio dos tumultos, sellada a paz--com sangue, é

verdade!--e conquistado para a sua obra um homem novo, precioso. No

principio de abril, em sessão solemne (4), a rainha e o rei foram

jurar a constituição nova, bem rasoavel. Todos approvavam, todos

estavam satisfeitos, todos gabavam Sá-da-Bandeira, ou antes, acreditava

elle isso. Howard e a Inglaterra, Goblet e a Belgica, appoiavam

decididamente. Tinham terminado ambas as revoltas, a do povo, e a dos

marechaes que de Paris se submettiam, jurando o novo codigo. Era uma

_regeneração_, de lealdade e de virtude; ainda que o vencedor não

deixava de ter uma vaidade ingenua pelo modo como conseguira desviar

a revolução do perigoso caminho onde a levava o seu bom amigo Passos.

Illusões desculpaveis de um espirito todo _poesia_! Elle, via-se

pratico, sabio. Ia coroar-se a rainha Victoria em Londres; e Palmella,

afinal riquissimo com a fortuna da herdeira da Povoa sua nora; Palmella

que desde 36 amuara, fazia as pazes, indo ostentar o seu luxo na terra

onde passara dias tão crueis. (Sá, _Lettre_, etc.)

* * * * *

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 6 / 30 段