Os ministros offereceram-lhe a demissão, que ella nem acceitou,

nem negou. (_Ibid._) Se hesitava decidiu-se por fim pelo belga,

contra o portuguez. Seduzida a guarnição pelos generaes, tudo estava

combinado e previsto. Caía a tarde do dia 3, quando a côrte saíu das

Necessidades para Belem, onde os regimentos de Lisboa foram juntar-se,

sem ordem do governo, obedecendo aos generaes conspiradores. Rodeada

de soldados, á sombra dos navios inglezes, a rainha sublevada mandou

chamar os ministros. Eram dez horas da noite e estavam reunidos em

casa de Passos. Delegaram Vieira-de-Castro, e sem rebate, caladamente,

reuniu-se a guarda-nacional. O emissario voltou: ainda bem que não

tinham ido todos, porque o plano era prendel-os: a contra-revolução

estava consummada.--Isso não! respondeu Passos; e levantando-se,

decidiu que fossem a Belem, á frente da guarda-nacional, vêr cara

a cara o inimigo. Sá-da-Bandeira ficaria em Lisboa. Tocasse-se a

rebate em todos os sinos, rufassem todos os tambores, houvesse alarme

contra uma côrte inimiga: a ameaça a forçaria a recuar.--Fez-se

como o dictador mandou; mas a côrte, vendo-o chegar com Lumiares e

Vieira-de-Castro, escarneceu-os, demittindo-os, pondo em lugar d’elles

um ministerio, do dia em que fôra combinado--um gabinete de finados!

A noite acabou em paz. Em Belem contava-se ganha a victoria; mas em

Lisboa ninguem dormia, todos se preparavam.

* * * * *

O dia 4 começou com um assassinio. Já a turba armada, com os animos

excitados, fazia das ruas baluartes, fortificando-se á espera de uma

invasão. Já as avenidas de Belem estavam guarnecidas, para impedir

o passo aos que pretendessem ir apoiar os conspiradores. De Belem

chamava-se a capitulo: viesse toda a velha guarda liberal, fiel á

CARTA, que o extrangeiro estava prompto a restaural-a. Agostinho José

Freire vestia-se, fardava-se de encarnado, todo recamado de ouro, para

ir receber as ordens da sua rainha, isto é, para voltar a um poder de

que a revolução o expulsara.

Freire nascera em 28 de agosto de 1780; contava 56 annos, mas apesar da

vida trabalhosa, estava robusto e são. Seguira a carreira militar sendo

porém sempre politico. Appareceu aos quarenta annos secretario das

côrtes em 20, emigrando em 23, voltando em 26, tornando a emigrar em

28. D. Pedro chamara-o a si em França, nomeando-o ministro da guerra,

lugar em que o vimos quando o historiámos. (_Vida e tragico fim de A.

J. Freire_, anon.)

Agora afivelava o espadim, pendurava os crachás sobre a farda vermelha,

preparava-se, brunia-se, para apparecer glorioso no paço onde o

chamavam. Era um velho, todo branco, alto, magro, elegante, com uma

phisionomía fina que revelava o seu temperamento nervoso e excitavel.

Falava com elle Aguiar, mais positivo, e tambem convidado para ir a

Belem; falava, aconselhando-lhe prudencia: eram odiados, bem o sabiam,

e podiam reconhecel-os no camínho e soffrer algum insulto. Freire não

concordava. A sege esperava-o em baixo, e já fardado descia, convidando

o collega a acompanhal-o. Aguiar recusou; saiu a pé, abotoado, sem

insignias nem fardamento, direito a um caes para embarcar. Ainda assim

o reconheceram, largando botes a perseguil-o: deveu a vida ao pulso dos

seus quatro remadores. (_A dynastia e a revol. de set._)

Sopeada pelos cavallos, travada, corridas as cortinas engraixadas, a

sege de Agostinho José Freire descia a ladeira ingreme da Pampulha.

Em baixo, onde vêem dar as viellas que dizem para o rio, havia um

posto de guarda-nacional de arma ao hombro, para impedir as viagens a

Belem. Fizeram parar a sege, correr as cortinas, e deram em cheio com o

personagem na sua farda vermelha constellada de commendas e bordaduras.

Conheceram-no todos? De certo não; mas o facto é que a farda bastava

para denunciar um inimigo, e o commandante do 15.º batalhão deu-lhe a

voz de preso. Estalou um tiro quando Freire se apeiava: dobrou-se e

cahiu morto. (_Vida e tragico fim_, etc.)

Logo que um caso d’estes succede, vem a sanha, como de cannibaes, a

aggravar o acto commettido. Ha muitos a querer a honra do feito; ha

muitos mais a afogar n’um desvario de atrocidades o remorso espontaneo

de um crime. Sobre o cadaver ferviam os tiros. Despojaram-no de tudo,

deixando-o de rastos, semi-nu, contra um lado da rua, crivado de

feridas, escorrendo em sangue, com uma tijella de barro ao lado para

receber as esmolas dos transeuntes. Mais tarde foi levado em maca ao

cemiterio, seguido por uma turba furiosa que duas vezes o exhumou,

negando-lhe a paz na propria cova. (_Ibid._)

* * * * *

Essa furia da populaça, victimando o ministro, fazia-o expiar os crimes

de muita gente. Os juizos do povo são como os que se attribuem a

Deus:[13] cégos, apparentemente injustos muitas vezes, são os juizos do

Fado que, indifferente a nomes, escolhe á sorte um homem para victima

expiatoria de crimes mais ou menos seus. Da mesma fórma o povo escolhe

os idolos e os réus.

Essa furia da populaça era a consequencia da exaltação em que o

acto aggressivo do paço lançava Lisboa e o seu povo, já _soberano_

segundo a lei, verdadeiramente soberano agora que as guardas nacionaes

imperavam armadas. Ao som do rebate, formavam, em ordem de batalha, no

Campo-de-Ourique na manhan do dia 4. Parecia imminente um combate entre

ellas e a guarnição reunida em Belem, em torno da rainha. Passos estava

no seu posto á frente do _povo armado_, quando vieram do paço chamar o

dictador. Que lhe queriam? Fosse o que fosse, elle partiu, arriscando a

vida.

Sá-da-Bandeira, a quem a Junta do Campo-de-Ourique convidára para o

commando, recusára a principio, da mesma fórma que antes havia recusado

o papel de Monk offerecido por Howard; mas agora a agitação crescente,

a imminencia da crise obrigavam-n’o, e ficava, mais para conter do que

para guiar o povo armado. (_Lettre au comte Goblet._)

Passos entrou no palacio, e dir-se-hia que voltavam essas antigas

scenas da Edade-media, quando os tribunos da plebe iam á frente dos

monarchas. Em volta da rainha estavam o rei e os diplomatas e os

pares do reino, os conselheiros d’Estado, a infanta D. Isabel Maria,

e a imperatriz viuva. Era toda a côrte reunida para ouvir, para

condemnar, para seduzir? Era toda a côrte, perante o homem de Bouças,

rei verdadeiro de Lisboa. Passos curvou-se, beijou a mão da rainha, e

esperou que lhe dissessem o que d’elle pretendiam.

Então, pela soberana falou--quem? O seu ministerio dos finados? Não.

O inglez Howard, o belga Van der Weyer, e só depois dos extrangeiros,

Villa-Real, Lavradio e Palmella no fim. As falas eram mansas; não

se alludia ao ministerio dos finados, porque a attitude de Lisboa,

de manhan, infundira medo. Tratava-se de seduzir, não de ameaçar.

S. M. não podia consentir na abolição da CARTA, mas estava decidida

a reformal-a: entretanto, o inglez affirmava que o seu governo

não toleraria em Portugal a constituição quasi republicana de 22.

Involuntariamente, os olhos dirigiam-se para o rio onde o vento soltava

a bandeira vermelha da Inglaterra na pôpa das suas naus. E do lado da

rainha todos continuavam a não extranhar a figura de idiotas que faziam.

Repetia-se a scena da vespera; e Passos repetiu, em francez, mas com

uma firmeza mais calma e triste, o que disséra na vespera. Fôra nomeado

ministro com a constituição de 22, e não com a CARTA, a cuja sombra

se desbaratara a riqueza nacional por não haver garantias politicas

contra a oligarchia reinante. Não renegaria a revolução, embora desde o

principio tivesse affirmado a necessidade de emendas que consolidassem

o throno. Não era uma questão de fórmas, era a questão do principio, da

origem da authoridade. A CARTA fôra um dom do throno, a _constituição_

uma conquista da soberania popular. Socegasse, entretanto, S. M. que o

povo não queria mal ao throno: haveria duas camaras, _veto_ absoluto,

e direito de dissolução, «como na CARTA. Será como na Belgica, dizia a

Van der Weyer: não podereis condemnar».--E voltando-se para o inglez

impertigado e impertinente, dizia-lhe que a lealdade portugueza não

recebia lições britannicas. Eramos um povo livre, e não acceitavamos a

intervenção de ninguem. As cousas inglezas que elle amava e admirava,

haviam de entrar ás boas, em navios mercantes, para terem despacho

livre. Vindo em navios de guerra, as leis da Inglaterra só serviriam

para lh’as devolver sob a fórma de cartuchos. S.M. teria dignidade

bastante para repellir as offertas da Inglaterra; se as não acceitasse,

Portugal deixaria por uma vez de ser uma prefeitura britannica e

o seu soberano uma especie de commissario das ilhas Jonias. «Se

desembarcarem, dizia por fim a Howard, serão batidos». Á rainha,

convidava-a a ir para o Campo d’Ourique, onde veria que amor lhe

tinham os subditos; e aos generaes em ultima instancia: «A Inglaterra

ameaça-nos: ninguem se deshonrará. O vosso logar é no Campo de Ourique,

á frente dos portuguezes que ahi defendem a independencia da patria»

(Macedo, _Traços_, etc.)

Era um doido, varrido, _poeta_. Pôr os pontos nos ii, falar com

sinceridade em politica! E uma audacia! E um orgulho, n’esse indigena!

Howard estava absorto, o belga confundido, a rainha perplexa, os seus

portuguezes corridos. Havia silencio, ouvia-se o arfar do peito do

tribuno que derramara a flux as ondas da sua indignação ... E o facto é

que talvez se não enganasse: Lisboa era por elle ... Talvez os inglezes

fossem batidos, talvez os regimentos portuguezes fraternisassem como em

setembro.[14] Talvez ... Talvez ... E havia uma hesitação singular, e

uma longa pausa, quando a voz lenta e fanhosa do moço rei, n’uma phrase

indiscreta, exprimiu em francez o seu despeito colerico. _Monsieur le

roi Passos, comment vont vos sujets à Lisbonne?_--Reprimindo-se, elle

respondeu que não tinha subditos: eram-no da rainha. E D. Fernando

objectou: Mas não lhe obedecem!--«Porque S. M. manda o que não póde--e

o que não deve!» E outra vez excitado pela temeraria ironia do rei,

voltou dizendo que ordenára uma resistencia energica--até ao fim: «Se

morrermos, morreremos bem!» (_Ibid._)

Ninguem duvidava de que elle fosse capaz de morrer. A scena, começada

com o apparato de uma opera, para a seducção de um tyranno plebeu,

acabava n’um drama pungente. Na face da sua côrte, á frente dos

embaixadores, a soberana estava abatida e humilhada pela soberania

d’esse homem, que não era só o idolo de um povo prompto a defendel-o:

era um heroe para quem não valiam lisonjas, nem adulações, um estoico

indomavel, uma virtude inaccessivel. Em vez de seduzido, Passos

acabava seduzindo os proprios inimigos. Os que se não penitenciavam

do erro, sumiam-se corridos. Trigoso dizia á rainha que depois de uma

tal imprudencia só uma solução restava.--E qual? perguntava ella,

arfando.--Abdicar.--Pois não haverá outro recurso?--Para reinar com

honra, nenhum; para reinar .. um só.--Então qual?--Entregarmo-nos á

discrição do Manuel Passos ... (Macedo, _Traços_, etc.)

A rainha queria reinar. E o tempo corria, sem que nada resultasse

das habilidades com que Palmella buscava embaír o _rei de Lisboa_. E

começava o fogo das avançadas nos seus postos (pois correra que Passos

não voltava por estar preso) sendo necessario um bilhete d’elle para

cessarem os tiros. Quem valeria em taes angustias, senão o fiel Sá da

Bandeira, para impedir á rainha a vergonha de se render á discrição do

seu émulo da capital? Era já noite quando Passos regressou á cidade;

e, na manhan de 5 Sá-da-Bandeira partiu para Belem a cobrir a retirada

da infeliz rainha.

Mas, durante essa noite, os seus conselheiros, ou impenitentes ou

timoratos, fizeram desembarcar na Junqueira seis ou setecentos soldados

inglezes. Era a guerra. Era apenas uma tolice? uma ordem mal cumprida?

O facto é que a guarda-nacional desceu do Campo d’Ourique a Alcantara,

gritando em côro--a Belem! E se lá chegasse a ir, ai da rainha e de

todos! Na vespera, o nobre Passos defendera o povo perante a côrte:

hoje, contra o povo enfurecido, defendia a vida da rainha. A cavallo,

atravessado sobre a ponte do ribeiro que corta a estrada, vedava em

Alcantara a unica passagem da turba enfurecida, falava-lhe, acalmava-a,

ameaçava-a. «Para Belem não se passa, senão por cima do meu cadaver!» E

não era uma phrase banal, porque o podiam esmagar n’uma onda que viesse

rolando de mais longe. O povo desforrava-se, gritando, blasphemando,

exprimindo nas suas phrases grutescas o nenhum conhecimento que tinha

dos motivos do conflicto, e como ia arrastado por uma fatalidade,

sem consciencia, movido por instinctos: «Querem duas camaras? deixem

estar que não se lhes ha de dar nem uma!» Passos, ouvindo isto e o

mais, sentia invadil-o uma nevoa de tristeza que varria a luz das suas

esperanças ... Tal era o _povo_, o soberano, cuja sabedoria lhe tinham

ensinado tantos livros inchados de periodos rotundos! E a mó da gente,

clamando, revolvia-se, fluindo, refluindo, contra a ponte, onde Passos,

a cavallo, parado, se julgava a si e julgava o _povo_.

Sá-da-Bandeira conferenciava então com Saldanha no palacio do conde da

Junqueira, e exigindo como condição prévia da composição o reembarque

das tropas inglezas, exigia o cumprimento da promessa da vespera: que

a rainha demittisse os ministros do golpe d’Estado, nomeando-o a elle

presidente do conselho, restaurando o ministerio anterior. A demora

fazia nascer suspeitas e mal se podia conter a populaça em Alcantara,

onde Sá tambem foi acalmal-a a pedido da rainha, d’onde voltava dizendo

que, sem o decreto assignado, nada se conseguiria. (Sá, _Lettre au

comte Goblet_).

Saíram pois os decretos, restaurou-se o ministerio, voltaram as

tropas para bordo dos navios, e com ellas se sumiram tambem a bordo

os ministros de finados e a gente de Belem. Á tarde a rainha,

confessando-se devedora do throno e da vida a Manuel Passos, voltou

egualmente de Belem para as Necessidades, vencida, humilhada, por entre

as alas das forças _setembristas_ que occupavam as ruas. (_Ibid._) A

noite acalmára tudo; e D. Maria II continuava a reinar. Com honra?

_Ut arundo fragilis_, como o seu primeiro avô Affonso, _ferebatur_.[15]

A rainha, ou por ella os que a aconselhavam, cediam á força--mas só

momentaneamente. Fôra um plano mal traçado: voltar-se-hia á carga,

logo que as circumstancias o permittissem. Na guerra é licito proceder

assim; e D. Maria II declarara, ou tinham-n’a feito declarar guerra á

nação setembrista. Van der Weyer olhava para Terceira, para Saldanha,

dizendo comsigo que, se não serviam para isso, de que serviam então?...

3.--AS CORTES CONSTITUINTES

Era obrigação dos diplomatas, que tinham lançado a côrte na aventura

frustrada de Belem, garantir a sorte dos numerosos refugiados a bordo

dos navios inglezes e dos não refugiados, mas compromettidos. Howard

exigiu de Sá-da-Bandeira um perdão, que tanto elle como Passos como

Vieira de Castro, os triumviros, desejavam dar. (Sá, _Lettre au comte

Goblet_.) A clemencia é virtude dos bons, a magnanimidade symptoma da

força. Com o resultado dos dois dias de Belem, o setembrismo ganhára

uma auctoridade que ia baixando muito. Rendida, sem ficar convertida, a

côrte reconhecia o poder da revolução: era mister agora cumprir o que

se promettera, discutindo e votando uma constituição que resalvasse o

principio de origem na soberania popular, dando porém ao throno o veto

e o direito de dissoluçaõ e ás altas classes uma segunda camara. Uma

semana depois da Belemzada saía (12) o decreto convocatorio; e a 26 de

janeiro de 37 reunia-se em Lisboa o congresso constituinte. Abolida a

CARTA, havia que reconstruir o mechanismo politico, e as divergencias

de interesses e doutrinas accentuavam-se.

Expulsos do poder, os cartistas eram obrigados a construir em partido o

que antes fôra um aggregado de bandos cada qual com seu chefe, porque

agora apparecia no governo uma doutrina adversa á de todos elles.

Gorjão Henriques definia no congresso esta attitude com a _partida_ de

apresentar a CARTA por emenda ao projecto de constituição. Eram dois

unicos os deputados cartistas, e apenas podiam protestar, esperando

a decomposição fatal dos vencedores. Por seu lado, os miguelistas

começavam a crear esperanças, perante a desorganisação do novo

Portugal. Alguns soldados velhos saíram de Lisboa para as Marnotas,

(13 de maio) entre Loures e Friellas--a esperar os touros? não, a

proclamar D. Miguel. Mas os camponezes, já esquecidos, crendo-os

salteadores, prenderam-nos e destroçaram-nos.[16]

Não era pois das direitas que o governo tinha a temer: era da cauda

temivel da sua esquerda demagogica.

* * * * *

Ferviam os clubs, d’onde os tribunos levavam para a camara as

exigencias mais radicaes. Leonel-Tavares mandava do _Burjaca_.

Costa-Cabral não consentia que ninguem lhe passasse á frente, porque

toda a preoccupação do tempo era ser mais _avançado_ do que o visinho.

Cabral tinha o seu club tambem, no Arsenal (que depois fechou), e

ahi discutia pausadamente com os carpinteiros da Ribeira, com o

philanthropo Formiga, a maneira de dar maior latitude ás ideias

democraticas. (_Dicc. bio-pol._) Era todo mansidão, deferencia, quasi

humildade, para com o _povo soberano_, ao qual pedia que o illustrasse

e o dirigisse. Aconselhado, vinha secco e hirto, petulante como quem

traz o rei em certas visceras, aggredir no congresso o governo e a

sua moderação, exigir que houvesse uma camara apenas, e não houvesse

veto, e nem sombra de peias á liberdade de imprensa. (V. _Diar._

Sessão de 37; e o _Dicc._ cit.) Ao lado d’esse homem frio que, ou

mudou inteiramente depois, ou seguia o exemplo antigo dos tyrannos,

conquistando o poder pelo caminho da demagogia: ao seu lado via-se

um rapaz em quem um sangue generoso pulava com ardor, discipulo

melhorado, _avançado_, de Manuel Passos, a exemplo do que este fôra

para com Fernandes-Thomaz. No seio do liberalismo era proprio que cada

geração progredisse no sentido da anarchia; pois os moços, cada vez

menos doutos, incapazes de perceber as distincções e subtilezas da

eschola, viam os _principios_ em grosso, e exigiam, com a violencia

propria dos temperamentos generosos da Peninsula, que os principios se

tornassem factos.

José Estevão nascera em Aveiro em 26 de dezembro de 1809: contava

agora 27 annos apenas. Aos dezenove alistara-se no batalhão academico,

militando sob o commando do cachetico Refoios em Morouços e no Vouga.

Emigrara para a Galliza, depois para Inglaterra, d’onde foi á Terceira

e de lá veiu ao Porto, cabendo-lhe um lugar na defeza da Serra. (F.

Oliveira, _Esboço historico_) Bravo, honrado, a sua mocidade contava

já uma historia meritoria. Possuia todos os dotes de um temperamento

peninsular, com os defeitos correspondentes: tinha a hombridade

castelhana, o valor portuguez, a eloquencia de um andaluz, e uma

face aberta, illuminada, sympathica, a que a voz e a fala davam um

poder de seducção. Mas nem tinha saber, nem juizo, nem prudencia, nem

a consistencia, portanto, sem a qual não ha homem verdadeiramente

superior. Era o bello vehiculo de um instrumento composto de

sentimentos valorosos e nobres, expresso em phrases que saíam e soavam

como arias. Foi o primeiro, talvez o unico, dos _tenores_ sinceros da

_liberdade_ portugueza.

No congresso declarava «pertencer á seita da mocidade e glorificar-se

d’isto.» (_Disc. de 25 de abril_) E essa seita da mocidade, na qual

tinha a seu lado Cabral, Vasconcellos, Santos-Cruz, sentava-se na

extrema esquerda, e reclamava: «Juiz só, a julgar só; um rei só,

com ministros responsaveis a executar só; uma camara só--eis a minha

monarchia, eis o meu governo representativo». (José Estevão, _Disc.

de 5 de abril_) Era simples, claro como agua: um solo de instituições

abstractas, uma aria de abstracções liberaes. Como não lembrava ainda

que a logica exigia uma purificação maior: o governo do povo pelo povo,

o governo directo, ou antes nenhum governo, nem sombra de Estado, a

anarchia absoluta? Nem a tradição, nem a economia das forças sociaes,

nem o estado das classes, nem cousa alguma do que real e positivamente

constitue uma nação, se tinha em vista n’essas opiniões _avançadas_ que

obedeciam á tyrannia terrivel das fórmulas abstractas. Triste, pois,

desanimado, o demagogo lamentava-se: «Vejo que o throno póde demittir

os legisladores populares, póde estorvar que a lei se faça; vejo que

o throno tem o veto absoluto, o direito de dissolver, e o de nomear

senadores ...» (_Disc. de 5 de abril_)

E todas essas _concessões_--porque assim, forçosamente, eram

considerados os direitos soberanos pelos defensores da soberania

popular--enchiam a opposição de colera contra o governo que se dizia

ter renegado a Revolução. E os clubs, onde Cabral e José Estevão

iam chorar as suas maguas: o do _Burjaca_, de Leonel Tavares; o do

_Arsenal_, onde reinavam França _que tinha coração_ (_Hontem, Hoje e

am._) e Soares-Caldeira, ambos athletas, ambos ignorantes e queridos

do povo: os clubs commentavam o proceder do governo não poupando já

o proprio Passos por ter dado a mão aos moderados (Sabrosa, Raivoso,

Derramado, Taipa, etc.) em vez de a extender ao puro setembrismo,

patuléa, descamisado.

O singular da revolução de setembro, e o que particularmente assignala

o estado da nação, não é a cauda de radicaes que todas as revoluções

criam. O singular é o desanimo dos chefes, a espontaneidade immediata

com que se accusavam dos proprios actos. Veremos a que estado

melancolico de scepticismo politico chegou Passos; mas Taipa logo na

primeira sessão do congresso (18 de janeiro) se levantava para fazer o

seu acto de contrição: «Aboliu-se a CARTA, mas todos sabemos que nem a

CARTA é um codigo tão insufficiente para as nossas circumstancias que

valesse a pena de uma revolução para o destruir, nem a constituição de

22 tão perfeita que valesse a pena de uma revolução para a restaurar».

(V. Sá, _Lettre au comte Goblet_, etc.) E, entretanto, era contra a

CARTA que desde 30, ou ainda antes, todos esses homens vinham clamando,

como causa dos males nacionaes. Chega a revolução que a supprime, e

todos a lamentam; seguem por não poder deixar de ser, mas «ninguem a

desejava, ninguem a applaude» (_Ibid._) Porque declamavam, pois? Porque

lançavam á terra de um povo anarchisado a semente de uma revolução?

Vêem-na germinar, e lamentam?

O porquê é simples. Não mediam nem sabiam o alcance do que diziam; e

agora, a braços com as consequencias, deitavam á culpa dos homens o que

provinha da natureza das cousas, por não terem a coragem ou a lucidez

bastante para se confessarem desilludidos, mortos, como fez Passos.

Os mais arrependidos mas não confessos, affectando uma segurança

que não possuiam, só buscavam alijar sem muita deshonra um fardo

que lhes pezava. Rasgar o programma ou o rotulo, sentiam que seria

despedaçarem-se a si proprios, porque, para dentro das suas pessoas

de politicos, não tinham, como o grande tribuno, uma alma feita de

sinceridade estoica e virtude santa. Destruir a revolução sem a negar;

cortar a cauda incommoda dos descamisados, defendendo-se contra os

inimigos da direita para não perderem o posto; equilibrar, ponderar as

cousas; fazer uma constituição tão parecida com a CARTA que para o paço

fosse a mesma cousa, sem deixar de ser CONSTITUIÇÃO no nome--eis ahi o

pensamento dominante nos homens que, mau grado seu, se viam mandatarios

da revolução. (Sá, _Lettre_, etc.) Evidentemente, isto daria de si um

pender gradual para o estado anterior a setembro, e assim foi: a Passos

succede Sá, depois de Sá vem Pizarro, (ou Sabrosa, segundo o baronato

que teve), depois de Sabrosa, Bomfim, depois Aguiar, Palmella, Terceira

e por fim a restauração da CARTA (1842).

* * * * *

Agora, com a demissão de Passos, (1 de julho) andava-se a primeira

legua. Que motivos expulsavam do governo o vencedor da rainha em

Belem? O pretexto foi o voto que a maioria do congresso deu contra

os sub-secretariados de Estado por elle propostos. O motivo foi,

provavelmente, essa victoria de que todos se arrependiam tanto, que

Sá-da-Bandeira, contando o drama em que foi actor, (_Lettre au comte

Goblet_) a esconde tão cuidadosamente que se não percebe porque

razão teria cedido a rainha, rasgando a nomeação dos seus ministros,

restaurando o _rei de Lisboa_ e todos os decretos da sua dictadura

de dois mezes.[17] Além d’este motivo, porém, havia outro, muito

doloroso: era a penuria extrema, eram os _pontos_, os _saltos_, nos

vencimentos dos cidadãos de um communismo burocratico; era tambem a

agiotagem escandalosa que, brotando espontanea sob todos os governos

de todos os partidos, tirava ao setembrista o credito que tinha quando

clamava contra os _devoristas_ de 35, contra os argentarios engordados

por Law-Carvalho.

Não tinham os setembristas um Law, nem podiam tel-o com os principios

de honestidade estoica dos seus chefes. Campos chorara, chorava: mas

em vez de pagar em ouro, pagava em explicações longas, massadoras,

recheiadas da adhesão á causa popular. (_Hontem, hoje e am._) Essa

sinceridade, inimiga das finanças, desacreditára o unico financeiro

do partido; e a principal _pasta_ em um paiz devorado, teve de ficar

nas mãos pouco habeis, mas limpissimas de Sá, de Passos Manuel, cujo

estoicismo desprezava o dinheiro, cujo verbo ou cuja espada desdenhavam

dos algarismos e das contas.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 5 / 30 段