Nós já conhecemos, desde 26, o tribuno do Porto elevado ao fastigio do

poder. Os dois Passos, filhos de um proprietario de Bouças, pertenciam

a essa burguezia do norte do reino por estirpe e temperamento. Tinham

nascido na abastança, desconhecendo as privações crueis da infancia que

umas vezes formam os homens, mas muitas mais os estragam. Seus paes,

sem grandes propriedades ruraes--ninguem as tem no Minho--possuiam

bastos capitaes moveis, o que tambem no Minho é commum: em 28 tinham

na companhia dos vinhos e em casas de commercio do Porto o melhor de

sessenta mil cruzados. Na casa de Guifões havia frequentes banquetes

á antiga portugueza, servidos em velhas pratas; e os dois moços

foram mandados a Coimbra, onde só iam os abastados. O pae destinava

o mais velho, José, ao clero; o segundo talvez á magistratura.

Por quarenta mil cruzados a dinheiro tinha contratada a compra do

priorado de Cedofeita para o que veiu a ser vice-presidente da junta

em 46, bacharel formado em Canones. 1828 destruiu todos estes planos,

arrastando os dois irmãos á emigração, onde a riqueza da familia

começou a fundir-se. De 28 a 31 a mãe mandou-lhes trinta mil cruzados

para Paris: ahi os moços irmãos Passos, dos raros emigrados ricos,

eram uma providencia dos companheiros pobres, entre os quaes estava

Saldanha. (_Corresp. de Port._ 13 de dez. 80)

Agora, supprimida a CARTA, começava-lhes uma vida nova, e um reinado;

mas a seu lado vê-se um nome que não ficaria decerto esquecido depois

dos louros de honra conquistados no exodo para a Galliza, em 28.

Sá da Bandeira nascera em 29 de setembro de 1795. Tinha pois agora

quarenta annos: o vigor da vida, e um braço de menos levado por uma

bala no lugar que, mutilando-o, lhe accrescentou o nome. Cadete em

1810, aos quinze annos, foi para a guerra da Peninsula, ficando até á

paz prisioneiro em França. O liberalismo entre cesarista e demagogo do

imperio napoleonico aprendeu-o, pois, na infancia. Voltou a Portugal

com a paz, e esteve ao lado dos jacobinos em 20, tornado a França do

seu degredo de Almeida. Intelligencia recta e caracter forte, nem

podia perceber as _nuances_ das cousas, nem dobrar-se ao imperio das

conveniencias. Militar fiel á bandeira, subdito fiel ao rei, cidadão

fiel á patria, espirito fiel aos _principios_, Sá-da-Bandeira não podia

ser um _condottiere_ como Saldanha, nem um _politico_ como Palmella,

nem simplesmente um instrumento militar como Terceira, nem tampouco um

tribuno, idolo revolucionario, como Passos.

A reacção de 1823 acha-o em Lisboa com vinte e oito annos e não

o seduz. Em vez de pregar no peito a medalha _da poeira_, como

fizeram Saldanha e Villa-Flôr, emigra outra vez; para regressar em

26, collocando-se ao lado do governo, fazendo a campanha contra os

apostolicos e acabando-a em 27, nomeado major por distincção. No anno

seguinte foi prestar os seus serviços á Junta do Porto, e bem se póde

dizer que lhe salvou o exercito e a honra militar na retirada para a

Galliza que o fez chorar de amargura. Tinha trinta e tres annos.

Sereno e firme, estoico o virtuoso, julgava-se o _homme-lige_ da

liberdade portugueza. Ligado por principios ao radicalismo, andou

separado das suas intrigas na emigração. Viu sempre a questão como

uma guerra e sobretudo queria desembainhar a sua espada, obedecendo,

sem ambições de mandar, com a serena ambição de seguir o seu dever,

servindo onde, como e quando fosse necessario. Por isso, logo em 29

passou de Inglaterra á Terceira; e tendo sido aprisionado pelo cruzeiro

miguelista, escapou da cadeia de S. Miguel, indo apresentar-se a

Villa-flôr com o qual fez a campanha dos Açores.

Veiu com a expedição ao reino; e D. Pedro nomeou-o governador militar

do Porto em 26 de julho, substituindo o antecessor (D. Thomaz

Mascarenhas) que fugira na noite panica de 23-4. Depois foi ministro;

e em 34 governador do Algarve, para bater as guerrilhas do Remechido.

Consolidada a paz, tributado o preito de fidelidade ao throno que a

guerra levantára, embainhou a espada e sentou-se na camara do lado

esquerdo, pois, no seu entender, de ambos os lados se era egualmente

fiel á monarchia liberal. Imperturbavel na sua serenidade, com um

systema de opiniões assaz concatenadas para um espirito avesso a

profundar as cousas, a humanidade era a sua religião, o dever a sua

moral, a monarchia o seu principio, a espada o seu amor, o _povo_ o seu

dilecto. Estava pois longe de ser um demagogo como os dos Camillos, nem

um tribuno da plebe, á maneira dos de Roma--como do facto era Passos.

A revolução de setembro surprehendeu-o tanto como a todos; mas

inquietou-o mais, porque desorganisava a ordem da sua vida, pondo

em conflicto diversos aspectos da sua opinião. Decidira-se pela

unica solução adequada ao seu genio--abster-se. Mas se na rua o

amavam, no paço conheciam-no. Elle era o homem unico para evitar

que a monarchia, assaltada, caisse. Talvez esperassem fazer d’elle

um Monk, ou um Saldanha, mas se assim pensavam, illudiam-se, e

illudiram-se. Sá-da-Bandeira foi um Lafayette. Trahir era um verbo

que elle desconhecia por instincto. Se a monarchia julgava que nem a

revolução, nem os principios de 1820 eram inconciliaveis, elle, que no

fundo do seu coração _amava_ o povo, elle para quem a liberdade era a

_humanidade_, folgava em não ter de mentir a nenhum dos seus deveres;

e faria o possivel por alcançar a conciliação, corrigindo todas as

demasias democraticas que puzessem em perigo a solidez do throno.

Instado, acceitou, porque lhe disseram ser isso, exactamente isso, o

que lealmente se queria; e com leal serenidade foi sentar-se ao lado do

tribuno para o aconselhar, moderando.

Ora o paço esperava sempre que elle fizesse mais alguma cousa: não

conhecia o fundo do seu estoicismo, e logo que o percebeu mudou de rumo.

* * * * *

É verdade que, tambem, a marcha das cousas arrastava-o e via-se

perdido no meio da onda da demagogia solta, que já o não renegava a

elle só, mas até ao seu antigo idolo, ao nobre, adorado Passos. Os

Camillos rugiam pela bocca de José-Estevão que se julgava um Danton,

e de Costa-Cabral pseudo-Marat. Havia ahi quem, tirando classicamente

o punhal da algibeira da sobrecasaca e brandindo-o, ameaçasse medir

com elle a distancia das Necessidades ao caes-do-Tojo. E José Estevão,

agarrando a golla de pelle de cabrito da pseudo-toga do pseudo-Bruto,

gritava-lhe: «Calla-te, miseravel!»--N’um momento de franqueza

inconsequente, natural dos bons, Passos exclamara: «A nossa imprensa!

Eu não tenho com que a comparar senão com o theatro do Salitre ...

Desgraçada nação, se tivesse de ser governada pelos arbitrios dos

follicularios!» (Disc. de 16 de jan. de 36) Mais de uma vez, tambem,

condemnara as dictaduras em nome da rigidez dos principios. E agora a

fatalidade das cousas, erguendo-se para dissipar as illusões, fazia-o

servo d’essa imprensa e obrigava-o a ser um _vil despota_. «É o

governo dictador sobre as leis; dictadora a imprensa sobre o governo:

dictadores os assassinos sobre o governo. Ninguem conta _com o seu

emprego_, nem com a sua reputação, nem com o futuro da sua patria.»

(_O Tribuno portuguez_, outubro) O _emprego_ apparece á frente, como é

dever n’um communismo burocratico. Doía o braço do dictador assignando

demissões, mas nem assim conseguia vencer a fome dos pedintes. Antes,

era uma oligarchia mais facil de contentar; agora, a _democracia_, o

governo de todos, obrigaria a uma partilha universal, se se quizesse

saciar os desejos universaes. «Não ha quem se não lembre d’essas

medonhas colunmas de descamisados que, vindo em cardumes do Porto

e de outras partes do reino, pejavam as escadas das secretarias e

atulhavam as avenidas de todas as repartições publicas». (_Hontem,

hoje e amanhã_, op. anon.) A guarda-nacional imperava; havia toques

de rebate em permanencia e um susto constante na população. Que seria

ámanhan? Quem podia contar com o futuro, quando tudo estava á mercê das

_marcas_, que dominando a milicia civica, faziam d’ella um instrumento

de agitação permanente? Tocava o rebate nos sinos, e por toda a parte

soava o rebate da extravagancia das opiniões, da embriaguez da basofia,

com que todos, _liberalmente_, dotados de uma soberania indiscutivel e

de um conhecimento das cousas mais especiaes, dissertavam, debatiam,

decidiam, cada qual certo de possuir a formula infallivel para dar

remedio a tudo.

Se queres sabio ser, _recipe_: Toma

De Benjamin, Rousseau, outavas duas

E nos theatros, nos cafés, nas ruas

Falla em comicios, em Catões, em Roma.

Corta o cossaco audaz que strue, que doma

Da porta no Balkan o esforço, as luas;

Falla d’Egas tambem, Magriço e Fuas,

De Palmira, Paris, London, Sodoma.

Do Palmella a politica retalha,

Abocanha o Carvalho em porcas phrases

E sobre a chamorrice grita e malha.

Estas do sabio são agora as bases:

Terás os bravos da servil canalha.

Serás um sabichão dos mais capazes.

(Bandeira, _son._ abril de 36).

A allusão é transparente. O sabio é Passos, com a sua confusa massa

de doutrinas e de factos, de naturalismo e idealismo, de tradições

antigas, maximas moraes, e opiniões singulares sobre a historia

nacional. N’esse vasto mar do conhecimentos anarchicos, apenas a

poesia da sua imaginação e o stoicismo e a santidade do seu caracter

mascaravam a inconsistencia do seu pensamento. Era um cháos de

elementos intellectuaes sobre que pairava, como Jehovah na Biblia, a

luminosa ingenuidade da sua alma.

A desordem que elle tanto concorrera pura desencadear, sob a nova fórma

demagogica, com o encanto e a seducção da sua palavra, já começava a

affligil-o, por não saber com que meios dominal-a. Embaraçado na teia

das suas opiniões contradictorias, inspirado por um vivo amor pelo

_povo_, crente na verdade mysteriosa, quasi mystica da voz da multidão,

Passos via approximar-se o momento da sua queda infallivel e desejava-o

ardentemente. Era um sonho que se ia esvaindo, uma nuvem que se

dissipava. Por isso, quando caíu de facto, achou-se apenas com os doces

affectos domesticos, e, destruidas as esperanças, maldisse da patria,

fazendo-a a ella responsavel pela inviabilidade da doutrina.

Ainda esse instante não chegou, porém. Ainda o dictador impera, com

o seu aberto sorriso, com a lhaneza popular que na praça encanta a

turba. Ainda impera, e o seu dia melhor, mais glorioso não passou

ainda. Ainda impera; e se organisa a seu modo a machina eleitoral e

administrativa (cod. de dezembro 10)--porque sem ella não póde viver a

revolução; porque é necessario substituir pela democracia o liberalismo

da legislação do Mousinho--espera tudo da restauração da instrucção

publica. «Eduquem o povo, e elle saberá ser _livre_»; porque a

liberdade era um rotulo que se pregava em todas as cousas. «Continuado

o pensamento interrompido de Mousinho da Silveira, disse com a maxima

impropriedade Rebello da Silva, e applicando as forças da sua dictadura

triumphante, o primeiro ministro da revolução de setembro verificou na

esphera dos interesses moraes e administrativos o que o de D. Pedro

já consummara na das grandes reformas politicas e econonomicas».

(_Passos Manuel_, na _Rev. contemp._) Á dictadura de Passos devemos,

com effeito, as escholas polytechnicas de Lisboa e Porto, as duas menos

felizes academias de Bellas-artes, e o conservatorio da capital; mas

á sua doutrina da paz na liberdade democratica pela instrucção, não

respondem acaso as revoluções dos nossos dias, e _communas_ como a de

Paris «o cerebro do mundo», na phrase de muita gente simples? mas á

doutrina da solidariedade da instrucção e da _liberdade_, não repondem

os paizes instruidos que não são _livres_?

Passos era a incarnação de todas as _phrases_ democraticas; mas como

essas expressões, ainda vagas e indeterminadas, continham em si a

semente de verdades criticas, os homens que com ellas formavam a sua

alma eram poetas, sim, e por isso chimericos, sendo ao mesmo tempo,

como os poetas são sempre, nuncios de um futuro longiquo, victimas de

um presente cruel.

* * * * *

Essa crueldade estava nos desvarios demagogicos e na reacção

decididamente planeada pelo paço. Sabemos que a rainha enviuvara: em

abril (10) tornou a casar-se com o joven príncipe de Coburgo, D.

Fernando. O rei dos belgas, Leopoldo, com a influencia que exercia

sobre a tambem joven soberana de Inglaterra, foi durante um certo

periodo o accessor dos monarchas portuguezes. Com o principe veiu para

Lisboa Van der Weyer, trazendo na sua pasta de ministro da Belgica

o rol de instrucções necessarias para chamar Portugal á razão, para

consolidar a dynastia e organisar o liberalismo entre nós. Leopoldo

era então o pontifice da doutrina, e a Inglaterra não só o ouvia,

como punha ás ordens dos seus planos portuguezes as suas forças

navaes. E quando a Inglaterra assim obedecia, que haviam de fazer

senão, convencidos, agradecidos, obedecer tambem os dois monarchas

portuguezes, moços sem experiencia do mundo, e sem conhecimento directo

do paiz sobre que reinavam?

Tal era a situação na côrte, quando os marselhezes chegaram do Porto

em setembro. Na tarde de 9, á espera do vapor, o Terreiro-do-Paço

estava cheio de gente e os vivas e foguetes estalaram ao desembarque.

De noite tocou a rebate e a guarda-nacional reuniu-se, proclamando

a constituição de 22. Mandaram-se tropas contra ella, mas essas

tropas fraternisaram.[11] (Sá, _Lettre au comte Goblet_, etc.) No

paço havia uma grande inquietação e Van der Weyer exigia do moço

rei que montasse a cavallo e fosse com os batalhões fieis suffocar

a revolta: D. Fernando recusou-se. (Goblet, _Établ. des Cobourg_.)

Reconhecendo então não haver para onde appellar, o accessor dos reis

lembrou Sá-da-Bandeira que foi chamado, e veiu á presença dos tres.

Que impressão faria no espirito grave do nosso militar achar-se de

tal modo perante uma rainha que nascera no Brazil de mãe austriaca,

perante um rei allemão, e um belga que os governava a ambos, em nome

do seu rei e com o apoio da Inglaterra: achar-se, dizemos, perante

esse grupo, dando em francez leis a Portugal rebellado? Pois uma tal

desnacionalisação do governo não influiria no animo de Sá-da-Bandeira

no sentido de o inclinar ainda mais para o _povo_, pelo qual tinha um

grande fraco? Elle não o diz: mas deve-se crer. Em todo o caso, fosse

pelo que fosse, recusou o papel de salvador que lhe queriam confiar.

Mas a guarda-nacional clamava na praça e os seus gritos chegavam á

sala. D. Fernando, affavel, bondoso, e já talvez sceptico apesar de ser

ainda moço, tomou-lhe do braço, seduzindo-o: «Era um grande favor!»--O

nobre general que amando o _povo_, queria muito á monarchia, cedeu

então. Não esperassem d’elle os serviços de um Monk; não. Era pelo

povo; reconhecia os erros da CARTA, e detestava a politica seguida até

alli. O seu plano consistia em defender os principios da revolução,

harmonisando quanto possivel a CARTA, (26) com a CONSTITUIÇÃO (22). Sob

taes condições resignava-se a acceitar. (Sá, _Lettre au comte Goblet_,

etc.) Rainha, rei e o belga olhavam-se: que remedio? Ainda era a melhor

solução; e sobre tudo não se tinham podido prevenir as cousas. Fôra

uma surpresa: remediar-se-hia. A conta em que os extrangeiros podiam

ter-nos, infere-se da historia deploravel da emigração e da guerra, de

certo conhecida por elles, melhor ainda do que nós a conhecemos e a

contámos. A convicção de sermos um povo que necessitava de tutella era

geral.

Sá-da-Bandeira saíu, formou se a trindade dos dictadores, publicou-se o

decreto revogando a CARTA e proclamando a constituição de 22, que seria

reformada pelas côrtes. A mão da rainha hesitava, tremia, ao assignar o

papel. (_Ibid._) E que admira? Esse decreto reduzia-lhe a corôa a cousa

nenhuma; tirava-lhe o direito do _veto_ e todos os direitos soberanos;

ficava sendo, ella, a nobre senhora tão cheia de caracter e vontade, o

mesmo que fôra seu avô; e não tinha, como tivera D. João VI, fleugma

bastante para se sentar de manhan rindo e abrir a _Gazeta_ «a vêr o

que tinha mandado na vespera». Rainha no sangue, homem no caracter, o

pensamento de uma desforra talvez partisse d’ella; e se não partiu, mas

sim dos conselhos do ministro belga, é certo que o abraçou, e peior lhe

queriamos se o não tivesse feito. Deploravel condição de um systema que

exige dos reis a falta de brio, nos conflictos da corôa com o povo, ou

a indifferença sceptica pelos debates das questões do povo sobre que

lhes diz reinarem! Deploravel idéa a que obriga a acclamar presidencia

de uma nação a fraqueza, a indolencia, a indifferença!

O caracter da rainha era o inverso de tudo isso; mas os conselhos

belgas e a protecção ingleza faziam com que, em vez de buscar apoio

e força dentro da nação, os acceitasse de fóra, tornando-se de tal

modo ré de um crime que desvirtua o merito da sua energia. Que

nacionalismo se podia, comtudo, esperar de uma côrte inteiramente

extrangeira? É verdade que, nem Saldanha, nem Terceira, tinham querido

jurar a constituição restaurada: mas o ultimo em uma espada apenas e

não um partido, e o primeiro descera á condição dos _bravi_, desde

que renegára o eminente papel de chefe dos jacobinos. Podiam juntos

levantar alguns batalhões e fizeram-n’o depois; mas não conseguiam com

isso senão aggravar a situação de um throno, que o povo já desadorava

por causa das influencias extrangeiras, e mais desadoraria quando o

visse pretender impôr-se, defendido por batalhões de janizaros.

Não tinha, não, é facto, o nobre caracter da rainha outra força a que

apoiar-se, mais do que esses dois generaes, mais do que as tropas e os

navios inglezes, mandados para o Tejo por conselho do rei dos belgas

e corretagem do seu omnipotente embaixador. D’este modo, o plano da

reacção, coevo de setembro, amadureceu com o desbragamento crescente

das cousas da revolução; e dois mezes d’ella, achando-se maduro

bastante, decidiu-se dar o golpe d’Estado.

Quando Terceira ia para Belem tomar a parte que lhe tinham destinado,

encontrou Passos, o tribuno do povo de Lisboa. Falaram, altercaram.

E os ministros porque não restabelecem a CARTA? perguntava-lhe o

duque.--«Porque não são traidores» respondia-lhe Passos com uma pompa

mais apparente do que sincera; «encarregam-lhes a defeza da revolução

e ella será defendida. A revolução tem sido generosa, porque é forte;

mas se tomam a nossa generosidade por fraqueza, se appellarem para as

armas, se provocarem a guerra civil, ai, dos vencidos!»--E tomando um

ar terrivel, o bondoso homem fazia a voz grossa, a vêr se intimidava:

«Em duas horas hei de ter fusilado mais _chamorros_ do que tenho

demittido em mezes ...»--E a prova de que a ameaça era fingida está

no tom com que prosegue: «Estamos na vespera da guerra civil: ámanhan

v. ex.ª vae commandar os exercitos da Rainha e eu os da Republica: se

a espada de Bouças se medir com a espada de Asseiceira, nem por isso

ficaremos inimigos». (V. _Discurso_ de Passos, 18 de out. de 44)

Estava-se com effeito na vespera de uma guerra civil que duraria

quinze annos, mais ou menos ensanguentados. Tudo em sombra e duvida no

edificio da _liberdade_; e que melhor symptoma o demonstra do que a

mistura de ameaças e ironias, com reminiscencias classicas (Republica),

rhetoricas, e laivos de um scepticismo que punha por cima das amizades

politicas as amizades pessoaes? O tribuno aperta a mão do general na

vespera da batalha? Que singular comedia é esta? e que papel têem

n’ella os pobres córos de um povo trazido para a rua pelas phrases

ardentes da tribuna? Entendeu-se os actores, e representam uma tragedia

em que o povo, soberano, omnipotente, origem de toda a auctoridade e

destino de toda a acção, é um comparsa apenas? É assim, é.

Mas não se despedace a bella estatua do tribuno, porque elle era

sincero na sua dobrez. A fatalidade póde mais do que os homens, e muito

mais ainda do que os poetas, no momento em que as visões de esperança

começam a dissipar-se. Era o que succedia a Manuel Passos, já abatido

e semi-acabado por dois mezes de dictadura. O seu melhor dia, comtudo,

não chegára ainda, e, como o cysne da fabula, ia entoar o seu canto,

nas vesperas de morrer.

2.--A BELEMZADA

Van der Weyer preparára tudo; o dia estava aprazado. Era indispensavel

vingar o brio da joven rainha (17 annos) que debulhada em lagrimas

tinha jurado a constituição (Macedo, _Traços_)[12]; era necessario

acreditar o reinado do moço (20 annos) D. Fernando, que o monarcha da

Belgica enviára para cá. O corpo diplomatico tinha pedido garantias; os

pares da direita, presididos por Palmella, tinham protestado. Passos e

Sá tinham sido chamados a palacio, a dar explicações perante o belga,

perante o inglez Howard. Temia-se tudo: o miguelismo, a republica, a

regencia de Isabel-Maria, velha preoccupação de outros tempos, ou da

imperatriz viuva em quem se falava agora. Os dictadores affirmavam a

sua lealdade ao throno, garantiam, asseguravam que se lhe não boliria

(_Ibid._); mas o caminho que as cousas tomavam fazia com effeito

receiar que não tivessem força egual á boa vontade.

Van der Weyer poz, portanto, em execução as instrucções que trazia.

Tutor dos jovens e obedientes monarchas, metteu mãos á obra. Seria um

golpe d’Estado rapido, a que tudo se submetteria; mas o belga, tendo

estudado Portugal, estudára pouco a inteireza do animo heroico do

seu ephemero dictador. Não fosse elle, e o plano teria vingado. Tudo

estava combinado com o rei Leopoldo, que mandaria tropas suas; mas

emquanto não chegavam, Palmerston, de accôrdo--porque a rainha Victoria

adorava o tio--pozera ás ordens uma esquadra com tropas de desembarque,

fundeada no Tejo. Nada se faz sem dinheiro: Portugal não o tinha,

e claro esta que havia de pagar o preço da sua educação liberal. A

Belgica adeantava o necessario, mas com penhor, porque os belgas são

seguros e mercadores; e o penhor seria uma das possessões de Africa.

(Sá, _Lettre au comte Goblet_, etc.) Oh, pobre Portugal, mandado por

todos, ludibrio das gentes, triste nação já saqueada do que possuias

no Oriente, para ganhares a dynastia brigantina, e agora ameaçada de

perderes a Africa, para conservares os teus reis liberaes e forasteiros!

Elles, que não tinham nas veias sangue portuguez, não córavam de

vender a nação; mas tampouco fervia o sangue dos cartistas que,

ávidos, contavam com o regresso dos tempos perdidos. Foi o dia dois

de novembro, dia lugubre dos finados, o da tenebrosa combinação.

Armados a bordo, com as lanchas equipadas, estavam os inglezes; e os

conspiradores a postos esperavam que as fardas vermelhas chegassem, ou

a rainha fosse para bordo. Não se tinha D. João VI refugiado tambem

na _Windsor Castle_? Sermos uma especie de Tunis parecia natural aos

homens gastos por tantas aventuras, tão varias intrigas, onde lhes

tinha ficado todo o brio e caracter que a natureza lhes déra; sem

parecer extranho ao rei extrangeiro, aos diplomatas sabedores da nossa

historia, e á rainha que havia ganho o throno á força de batalhas n’um

paiz inimigo.

Mas Passos disse, terminantemente--não! E a sua ordem era apoiada por

Lisboa em armas havia tres dias. Foi ao paço, no dia de finados; e

pareciam-lhe cadaveres, cousas mortas, esses portuguezes que, ladeados

pelos extrangeiros, á sombra d’elles lhe exigiam a restauração da

CARTA, e que renegasse a revolução, isto é, o seu nome, o seu brio, a

sua honra. Foi, ouviu-os, e á rainha disse que se fugisse para bordo

dos navios inglezes era o mesmo que se abdicasse; e se chamasse para

terra os soldados extrangeiros, era como se declarasse a guerra á

nação sobre que reinava. Já não sorria, como quando falara ao duque da

Terceira. Agora, o sangue pulava-lhe e a sua bella face illuminava-se

com o enthusiasmo: era a imagem da honra nacional. Se a rainha tramasse

a contra-revolução, arrepender-se-hia; se o não fizesse, veria quanto

era amada. (Macedo, _Traços_) As palavras saíam-lhe fluentes, com um

timbre sereno porque brotavam sinceras, candidas, da sua grande alma.

E, como finados, os conspiradores ouviam-no, calados, corridos--cousas

mortas que eram. Mas na alma da joven rainha não havia uma corda que

respondesse ao bater incessante da palavra eloquente do procurador

dos povos? Quem sabe? É natural que hesitasse entre os dois que a

disputavam.

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 4 / 30 段