Os tribunaes, com o seu novo jury, eram machinas de vingança. De

Campo-maior, um bom homem escrevia a Manuel Passos o que observara. (29

de maio de 36; corr. autog. dos Passos) Saíra maguado de uma audiencia,

em que um negociante da terra pedia seis contos de perdas e damnos

a sete miguelistas que tinham deposto como testemunhas contra elle,

no tempo do Usurpador. O povo invadira-lhe os armazens, partira lhe

as janellas: nem uma testemunha, comtudo, accusava os réus de terem

praticado ou ordenado esses actos; mas o advogado «concluiu dizendo aos

jurados que já que não podiamos tirar a vida aos realistas por causa

da convenção d’Evora-Monte, lhes tirassemos os bens, pois que era esse

o unico mal que lhes podiamos fazer.--Os jurados eram quasi todos da

guarda-nacional e querem tambem indemnisações: condemnaram os réus na

conta pedida. Isto me fez tremer pela liberdade!» (Carta de José Nunes

da Matta)

Os magistrados novos roubavam desaforadamente; e o juiz de Angeja

conseguiu tornar-se notavel: só lhe faltou levar as portas e os

telhados das casas. (_A dyn. e a revol. de set._) Era um positivo

saque. O povo creou tal raiva a esse ladrão que a gente do Pinheiro

foi esperal-o, quando ia a Ovar, obrigando-o a fugir n’uma carreira

que só parou no Alemtejo. (_Ibid._) Na propria Lisboa succediam cousas

incriveis. Por ordem do governo foi saqueada a casa do visconde

de Azurara, ausente, e dois amigos do ministro ficaram-lhe com as

mobilias. (_Ibid._) O que succedeu ás dos conventos sabe-se--ou antes

ninguem soube. Bandeira, o Esopo liberal, que bom foi não ter morrido

em 28, publicava no novo diccionario: «Delicto-Delirio.--A significação

d’estas duas palavras ainda não está bem fixada, e varía em tempos e

paizes diversos».

* * * * *

Não se imagine que escurecemos as côres do quadro. Leia qualquer as

memorias do tempo, ouça os que ainda vivem, e ficará sabendo como a

anarchia na doutrina, que era uma anarchia no governo, era tambem uma

anarchia de bandidos por todo o reino, matando e roubando impunemente.

E por cima de tudo isto pairava um medo positivo que entorpecia a acção

dos mandantes, e justificava, no sentido de uma defeza feroz, a caça do

miguelista.

Aos corcundas promette-se D. Miguel; aos liberaes vertiginosos a carta

de 20: revoluçãosinha no Casal-dos-ovos; Juntinha na Pederneira;

Juntinha em Barrozas: ahi está tudo em aguas turvas; e é então que

D. Miguel pesca. D’um lado o _Ecco_, o _Interessante_, o _Percursor_

e o _Contrabandista_; e do outro o _Nacional_, o _Diabrete_, o

_Marche-Marche_ e a _Vedeta_ dão com vocês doidos; e no meio d’esta

confusão chega o _casus fœderis_, invoca-se a estupidez da nação, o

desejo do absolutismo--e apparece o Homem! (Bandeira, _Artilheiro_ n.º

16)

Á sombra d’esta confusão e d’este medo havia impunidade para tudo;

e n’um sentido era benemerito o bandido que assassinava e roubava o

inimigo. De facto não terminara a guerra: continuava, sob a fórma

de uma caçada. Em Setubal havia infinidade de ladrões e os proprios

militares não se atreviam a sair sem armas. (Shaw, _Letters_) Os

salteadores faziam batidas, traziam cadaveres que o povo, tomado de um

furor egual ao antigo, mas inverso no objecto, enterrava, cantando e

bailando. Pareciam selvagens. (_Ibid._) Serpa ficou celebre pela gente

que ali foi morta a tiro, sem combate, pelas janellas e pelas portas.

Batia-se: vinham abrir, e uma bala entrava e o infeliz morria. Era

um miguelista: não vale a pena incommodos. A justiça não se movia;

pagou culpas antigas! E os assassinos eram benemeritos. No Porto (20

de março de 35) o façanhudo Pita Bezerra, antigo carrasco cuja morte

se comprehende melhor, indo á Relação a perguntas, foi assaltado pela

multidão que o tirou á escolta, levando-o á Praça-Nova onde o matou;

arrastando o cadaver puxado por uma corda, pela ponte, a Villa-nova,

como quem mostra um lobo morto ás aldeias, e deitando-o por fim

ao rio. As quadrilhas de Midões assolavam toda a Beira. Arganil,

Avô, Coja, Folques, Goes, Villa-cova foram positivamente saqueadas,

levando os bandidos o despejo em comboyos de carros. (Secco, _Mem._) O

bandoleirismo florescia n’essa região serrana, como raiz de uma velha

planta que rebenta assim que bebe um raio de sol. Eram os descendentes

de Viriato. O miguelismo armara-os, e agora, bafejados pelo ar benefico

da anarchia, uns, implorados e defendidos pelos senhores de Lisboa

a quem serviam, voltavam-se contra os miguelistas, indifferentes a

partidos e opiniões, seguindo o seu instincto de uma vida aventurosa

e bravia. Outros, porém, mantinham-se fieis aos padres, e nos broncos

cerebros d’esses quasi selvagens apenas os fetiches do catholicismo[10]

podiam ás vezes mais do que os instinctos espontaneos. Era uma Italia

meridional, nas suas serras, o paiz que acabara sendo em Lisboa uma

Napoles. As Beiras viviam, á maneira da Grecia de ha poucos annos,

uma existencia primitiva da tribu armada, alimentando-se do roubo,

admirando a destreza e a coragem dos seus chefes.

Havia na serra da Estrela a guerrilha miguelista do padre Joaquim, de

Carragozela, irmão do celebre Luiz Paulino secretario da Universidade

no tempo de D. Miguel. Havia contra ella as dos Brandões, de Midões,

que serviam o Rodrigo e o Saldanha, chefes-de-partido em Lisboa.

Fundiram-se um dia esses inimigos no convenio de Gavinhos; mas ficaram

dessidentes os do Caca, fieis ao miguelismo, e acabaram queimados n’uma

adega, depois de a defenderem contra os sitiantes. (Secco, _Mem._) A

fusão das guerrilhas da Beira creou na serra um verdadeiro terror,

porque ninguem ousava desobedecer, e imperavam, saqueavam: houve casas

queimadas e, á luz dos incendios, orgias de vinho e estupros. (_Ibid._)

E nas revoluções e pronunciamentos que vão principiar em 36, n’essa

segunda epocha em que a anarchia passa violentamente para o governo,

tornando todo o exercito n’um corpo de guerrilhas, vê-se a tropa, ora

alliada, ora inimiga dos bandidos; e os palikaras portuguezes _fazendo

eleições_, pela Patuléa ou pelo Cabraes, levando as leis nas boccas dos

trabucos e resolvendo a tiro as pendencias locaes.

Vem distante, porém, isso ainda. Agora a faina é saquear e eliminar o

miguelista. De 34 a 39 só em Oliveira-do-Conde e nas Cabanas houve mais

de trinta assassinatos impunes. (_Ibid._) E nas côrtes e 38, Franzini

apresentou uma nota do periodo de julho de 33 a 37, que diz assim:

Faro -- assassinatos 285 roubos 509

Castello-branco » 84 » 90

Portalegre assassinatos 89 roubos 595

Guarda » 221 » 373

Porto » 528 » 378

Braga » 41 » 620

O minhoto roubava melhor; na Beira e no Algarve matava-se com mais

furia. No Porto houvera mais de quinhentos mortos; mas a capital, onde

em um anno apenas (Disc. de Franzini, sess. de 38) se tinham visto 194

assassinatos e 614 roubos--homem morto, um dia sim um dia não, e dois

roubos em cada dia!--a capital levava a palma a tudo. Não era ahi o

centro, o foco, o tabernaculo?

Voltemos ao nosso Esopo: «Filho de burro não póde ser cavallo, dizia

meu avô», e valendo-se da fórma popular da fabula, põe o burro em

dialogo com a Liberdade:

Não fujas, diz-lhe o jumento,

Burro, que havia eu fazer?

Burro nasci e só burro

É meu destino morrer!

* * * * *

Burro, como se sabe, queria dizer miguelista; e o poeta exprimia a

convicção intima da nossa incapacidade para comprehender a nova lei.

Com effeito, assim parecia, ao observar-se o que se passava por toda

a parte: a vergonhosa miseria dos caracteres, a absoluta impotencia

das vontades no sentido de reconstituirem de qualquer modo o organismo

derrubado pelos golpes do machado de Mousinho. As lascas do velho

tronco, os ramos e as folhas da arvore antiga, caídos por terra,

apodreciam no charco das lagrimas e das saudades dos vencidos, do

sangue copioso dos cadaveres. Era uma decomposição rapida e já tudo

fermentava.

Mas no lodo dos paúes, nadando sobre as aguas esverdeadas e putridas,

vê-se abrir, elegante e candida, a flôr do nenuphar. Assim brotava pura

no charco nacional a esperança de um futuro, a miragem de um destino, a

chimera de uma doutrina, o encanto de uma voz--a meiga voz de Passos,

um messias, pedindo paz, ensinando amor.

Eu detesto os homens rancorosos. Essa gente é má. Quem aborrece e não

ama, não póde ser virtuoso, nem póde ser livre,--porque a liberdade é

a humanidade. (Disc. de 10 de set. de 34)

A liberdade era para o novo apostolo uma cousa diversa, porque as

expressões vagas consentem que cada qual introduza n’ellas os mais

variados pensamentos. Para Mousinho fôra um estoicismo secco uma

negação do passado, uma doutrina racional e utilitaria: agora surgia

uma LIBERDADE nova, especie de vestal sagrada e evangelica, envolvida

n’uma nuvem doirada de ambições poeticas. O liberalismo portuguez via

nascer-lhe um Lamartine; e no descredito da primeira definição, as

esperanças voltavam-se para a nova fórmula.

Temo muito a liberdade nos discursos, mas pouca nos corações. Ha

muitos que a intendem, mas poucos que a saibam amar. Temos mais

liberaes nas bibliothecas do que nas praças, nos tribunaes, no

gabinete. Muitos ha que tém lido, que sabem toda a liberdade, e que

ainda tém coração para a amarem, mas não o tém para a defenderem.

(Disc. de 10 de nov. de 34)

Ardia então na camara o odio aos vencidos, e as palavras de paz eram

um acto de coragem. Essas palavras do parlamento, ainda ouvidas com

attenção de colera ou de esperança, eram commentadas pelas provincias;

e de muitos pontos, em numerosas cartas sem nome, chegavam ao tribuno

eloquente os abraços, os applausos. «Não estranhe chamar-lhe amigo, sem

nunca o ter conhecido: quem trabalha para o meu bem, tem jus á minha

amisade», dizia um; e outro: «O modo por que se houve na questão das

indemnisações denota um saber profundo. É nimiamente liberal porque é

tolerante, e humano porque é sabio. Acceite o signal de reconhecimento

de um militar que recebeu duas feridas na guerra e se gloria de pensar

pela cabeça de v. s.» E assim outros, muitos. (Corr. authogr. dos

Passos, 34-5)

Mas, por duros e resequidos que a guerra e a baixeza tornem os corações

dos homens, raro será o instante em que os não commova uma palavra

sentida, de uma bocca virtuosa. Intemerato no seu nome, seductor na sua

voz, candido, ingenuo, virtuoso, tambem estoico, Passos destacava-se e

erguia-se por sobre os outros com a superioridade dos genios caridosos

sobre os espiritos sómente lucidos. Era mais do que uma rasão, era uma

virtude; mais que um homem, quasi um santo. Em baixo, muito em baixo,

ficavam, chafurdando em odios e vilezas, as turbas dos politicos.

A palavra d’elle subia, evaporando-se nas nevoas de uma aspiração

poetica, superior ao que a condição dos homens permitte realisar.

Na sua caridosa chimera pedia mais do que paz, pedia egualdade e um

estreito abraço dos vencedores e dos vencidos.

A minha firme convicção é que todas as opiniões devem ser

representadas e que todas devem ter garantias. Isto que eu quero,

querem-no tambem os opprimidos ... Não quero a pena de morte para

nenhum cidadão portuguez: oxalá que nunca mais ella seja executada

sobre a terra! Não quero tambem penas perpetuas, porque até no fundo

de uma prisão a nenhum desgraçado deve faltar o balsamo consolador da

Esperança ... Penso que as lagrimas de um parricida, regando o tumulo

do pae trucidado, são bastantes para lhe fazer perdoar tão grande

crime. (Disc. de 28 de jan. de 35)

A liberdade é a humanidade, dissera o novo apostolo da doutrina; mas o

seu Evangelho não era, como o antigo, apenas um discurso, falando ao

sentimento indefinido, á piedade, á caridade, irreductivel a formulas

e doutrinas, fundo de luz nebulosa do puro espirito humano, que o

eleva acima da realidade triste e o poetisa amaciando-lhe as agruras e

espinhos: o Evangelho de Passos era um canon, uma lei, uma doutrina--e

por isso uma chimera. Era uma poesia, posta na prosa necessariamente

rasteira da politica. D’esses miguelistas que a sua caridade perdoava,

e a sua humanidade restaurava ao gremio de cidadãos, dizia:

Deixal-os ... se ainda não tém olhos para fitar a Urna e vêr que alli

está a liberdade de todos os homens! (Disc. de 10 de nov. de 34)

Os bellos sentimentos tornavam-se opiniões, e faziam-se idolatria; das

nuvens doiradas de esperanças e desejos ficava o pó de umas formulas

e a illusão de um symbolo. A Urna era outra Cruz. E onde os artigos

doutrinarios punham a soberania da razão individual e o absolutismo

do direito do homem, a nova definição que Passos dava á Liberdade,

rejuvenescendo o jacobinismo da sua infancia com a poesia da sua alma,

punha a soberania do povo, a voz da multidão, congregada nos seus

comicios. O paiz perdia-se por não a querer ouvir; Portugal caía por

vêr na Liberdade uma doutrina de individualismo, não uma doutrina de

democracia. Tudo o que se fizera fôra um erro: tudo havia a fazer de

novo. Assim, nas ruinas da velha cidade portugueza assentára o dominio

de um systema que, arruinado em dois annos, ia ceder o lugar a outro

systema novo e a novas ruinas.

Havia cá fóra, para commentar e applaudir as palavras calorosas do

tribuno, prégando a nova lei, um vasto numero de homens armados, e uma

opinião unanime condemnando a gente velha. Havia, além d’isso, esse

estado de espirito aventuroso, excitado, prompto a romper: estado de

espirito proprio de quem chega de uma guerra. Ao voltarem á capital,

os batalhões de voluntarios não tinham desarmado; percebiam vagamente

que, apesar de terminada a campanha, a guerra não acabara ainda. Tudo o

que o governo fez para os desarmar por boas foi inutil: punham guardas

ás portas dos lugares indicados para a entrega das espingardas, afim

de impedir que os pusillanimes obedecessem. (_A dynastia e a revol.

de set._) De arma ao hombro, pois, havia uma legião prompta a apoiar

as palavras do tribuno que a força das cousas ia obrigar a descer da

camara para a rua, do céu ethereo das suas esperanças para o triste fim

das suas desillusões. Passos acabará, como acabou Mousinho.

De tal fórma termina o primeiro periodo d’esta historia: dois annos que

principiaram com o acabar da grande guerra. Vamos estudar a _segunda_

liberdade; depois estudaremos a _terceira_, a _quarta_, etc.--até ao

fim.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Pela primeira vez tenho occasião de me referir ao interessante

livro do snr. Macedo, _Traços da historia contemporanea_; e no decurso

d’este trabalho o leitor verá quanto me valeram os subsidios que

encerra e de que me utilisei a mãos largas. Quando este facto me não

auctorisasse a confessa-lo, obrigava-me a isso a nimia benevolencia com

que, inspirado por uma amisade que o levou a vêr em mim meritos que

não possuo, o snr. Macedo me honrou dedicando-me o seu livro. Estas

palavras são o testemunho de um agradecimento que devia ser publico,

assim como a offerta o foi.

[2] «Tudo sorria; e não se divisava pedaço de terra sem lavoura:

o systema das irrigações lombardas era admiravelmente percebido e

executado. Todas as _cottages_, respirando um bem-estar industrioso,

tinham hortas bem resguardadas com seus meloaes e aboboras, sua fonte,

e cepas, figueiras e macieiras em latadas. Os camponezes bem vestidos,

olhavam-nos affavelmente, porque tinham o coração aberto pelo bom

trato, os celleiros cheios, numerosos os rebanhos, e nos frades de

Alcobaça senhorios, nem avarentos nem tyrannos.» _Recollections_, etc.

(1794) do auct. de Vathek. (Beckford.)

[3] Desde muito que, no conselho, Aguiar, contra a opinião da maioria,

instava pela abolição dos conventos. No dia em que em Evora-Monte se

assignava a convenção, terminando a guerra, Aguiar voltou a insistir e

tornou a ser vencido. D. Pedro, porém, reteve-o, depois da saida dos

collegas, e ordenou-lhe que lavrasse o decreto. O ministro foi do paço

para a imprensa, ahi redigiu o decreto, que se compôz e imprimiu em

segredo, á sua vista, e não saiu da imprensa senão quando o _Diario_

saiu tambem. Os collegas souberam, pois, pela folha, da decisão tomada,

e que, a não ser assim, nunca se effectuaria.--_Comm. verbal de Duarte

Nazareth, que a houvera do proprio Aguiar._

Eis aqui a estatistica das corporações monasticas e os seus rendimentos

em 1834. (V. _Mappa das corp. ext._ pub. 42.)

a) Ordens militares Christo com 3 casas }

S. Thiago » 1 » } _Rendimentos_

Aviz » 1 » } 34:482 m. rs.

b) Ordens monachaes Cruzios » 12 conv. e 5 hosp. 120:244 m. rs.

Loyos » 8 » e 1 » 55:066 »

Cartuxos » 2 6:253 »

Bentos » 22 » 4 » 106:665 »

Bernardos » 15 » 1 » 63:178 »

Jeronymos » 9 » 1 » 44:391 »

c) Congregações Neris » 8 » 30:053 »

Rilhafoles » 4 » 9:015 »

Camillos » 6 » 6:427 »

Congregados » 1 » 1:674 »

Theatinos » 1 » 1:116 »

d) Ordens mendicantes Paulistas com 13 conv. e 2 hosp. 25:963 »

Gracianos » 17 » 2 » 45:749 »

Carmelitas » 13 » 2 » 22:913 »

Dominicos » 22 » 2 » 65:563 »

Trinos » 8 » 1 » 15:335 m. rs.

Hospitaleiros » 6 » 4:566 »

Franciscanos » 57 » 4 » 19:437 »

e) Id. reformadas Paulistas » 2 » 528 »

Grillos » 17 3 » 14:790 »

Marianos » 15 1 » 26:844 »

Trinos » 2 222 »

Capuchos » 99 10 » 19:794 »

Terceiros » 20 1 » 13:289 »

Missionarios » 4 476 »

f) Diversos Conceição » 1 2 » 283 »

Minimos » 1 1 » 2:051 »

Nazarenos » 1 » 53 »

Barbadinhos » 2 » 630 »

Carm. all. » 1 » 3:124 »

Dom. irland. » 1 3:364 m. rs.

Total: 389 estabelecimentos com o rendimento de 763

contos de réis; sem contar 12 conventos de

freiras egualmente supprimidos.

Para que se possa comparar a decadencia das corporações no periodo

das luctas civis desde 20, eis aqui a estatistica do _Mappa_, pub. em 22:

Conventos e hospicios do sexo masculino, 402; com 6:249 pessoas,

(sendo 628 creados) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 607 contos.

Id. do sexo feminino, 132; com 5:863 pessoas, (sendo educandas 912

e 1:971 creadas) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 341 contos.

O sr. Soriano (_Utopias desmascaradas_, op.) calcula assim o total dos

bens-nacionaes provenientes das leis de 32-4:

Rendimentos dos conventos supprimidos 763 contos

Deduzindo o valor dos dizimos, direitos

senhoriaes, quartas, oitavas, jugadas, etc.

abolidos 240 »

----

Rendimento da propriedade 523 »

----

O que equivale a um capital de contos 12:000

Propriedade dos 12 conventos de freiras supprimidos ?

Alfaias de todos os conventos, sumidas (400)

Bens da Universidade de Coimbra, da Patriarchal,

de S. Maria-Maior, das capellas da corôa, das casas

do Infantado e das Rainhas 4:000

Até 1836 tinham-se vendido cinco mil contos; e no orçamento de 1838-9

apparecem como para vender 11:595.

[4] Se o leitor quizer exprimir o valor real dos numeros com que se

denominam todos os emprestimos, expropriações etc. que vamos estudando,

tem n’este preço um meio. Como se sabe, varias causas, e principalmente

a descoberta das minas da California, diminuiram posteriormente o valor

dos metaes preciosos. Se a libra sterlina valia (em 34) 3$750 rs. e

hoje vale 4$500, é claro que os numeros que temos estudado têem da ser

augmentados com a quinta parte. Assim, o valor dos bens dos conventos

orçado em doze mil contos era o equivalente de 14:400 de hoje.

[5] V. as _Contas_, na sessão de 35 (9 de janeiro), de agosto 33 ao fim

de junho 34:

Receita: Ordinaria contos 3:513

Extraordinaria: Emprestimos 7:847

Prop. nacion. 2:516 10:363 13:876

------ -------

Despeza: Ordinaria: Casa real 177

Reino, Extr. Justiça 672

Marinha 1:299

Guerra 4:932

Fazenda 411 7:491

-----

Especial: Serviço da divida e oper. de fundos 3:415

Diversas 2:970 12:876

------- ======

[6] V. _Orçamento_ de 35-6, sessão de 35:

_Receita_ _Despeza_

Imp. directos 1:638 Serviço dos ministerios 8:890

» indirectos 5:604 Divida interna 1:984

Proprios e diversos 1:178 » externa 1:870

Ultramar 1:482 Ultramar 1:612

Deficit 4:454

------ ------

Contos 14:356 Contos 14:356

====== ======

[7] 1.ª ed. (1881).

[8] V. _Quadro das instituições primitivas_, pp. 57 e segg.

[9] A lei de 4 de outubro de 34 mandou emprestar até 650 contos (a

juro de 5 por cento e amortisação em 5 annos) assim distribuidos por

provincias: Algarve 108; Alemtejo 123; Beira-Alta 21; Beira-Baixa 25;

Douro 103; Extremadura 161; Minho 55; Traz-os-Montes 28.--Em novembro

havia metade dos emprestimos feitos.

[10] V. _Syst. dos mythos relig._, pp. 297 e segg.

II

PASSOS MANUEL

1.--A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO

A antiga gente do governo não se achava melhor com a substituição de

Palmella por Terceira: o segundo duque valia pouco e estava ameaçado de

cair depressa. Esse primeiro semestre de 36 corria prenhe de ameaças.

Já Carvalho não podia sacar dinheiro de fóra e a sua fecundidade

desacreditava-se. Succedia-lhe atrazar os pagamentos, como a qualquer

outro. Já se deviam 15:000 contos, por vencimentos e despezas dos

ministerios (5:426), por letras e escriptos do Thesouro (3:610), por

adiantamentos do banco, (4:494--V. _Rel. de Passos_, sess. de 37) sem

falar na matilha de credores por divida mansa não reconhecida, ou

esquecida, em 34. N’um regime de communismo burocratico, como o nosso,

isto era gravissimo: casa onde não ha pão ...

Por isso, não falando dos clamores das ruas, havia no seio da camara

uma opposição vehemente e applaudida. Eram os dois Passos e Sampaio,

era José Estevão e o banqueiro Rio-Tinto; eram Costa-Cabral, o Nunes,

Sá-Nogueira e Julio Gomes. O ministerio sentia-se tão mal que em

julho (14) dissolvera a camara, para reunir gente sua, convocada para

setembro. De fóra batia-o o _Nacional_, á frente da imprensa inimiga; e

no club celebre dos Camillos (os ministros diziam _Camellos_) troava

acima de todas a voz de Costa Cabral pedindo uma tyrannia de plebe, o

sangue dos aristocratas e dizem que até a cabeça da rainha. (_Costa

Cabral em relevo_, anon.) Era o nosso Marat: porque nós, copiando a

França, imitavamos sempre os figurinos de Paris.

O governo _fez_ as eleições, que foram como todas; e como sempre,

_venceu_. O reino inteiro o queria com uma unanimidade e um

enthusiasmo, que poucas semanas bastaram para demonstrar. Venceu em

toda a parte: salvo no Porto rebelde, imperio, cidadella, dos irmãos

Passos, de Bouças. Já que tudo era copia, digamos tambem que a chegada

dos deputados do Porto a Lisboa foi como a dos marselhezes a Paris.

Succedeu isso no dia 9, no Terreiro-do-Paço, onde gente armada foi

esperar os recemvindos e acclamal-os, com morras á CARTA e ao governo,

vivas á constituição de 1820 (ou 22) e á revolução. «Indo-nos deitar

na cama á sombra da CARTA, acordámos debaixo das leis da constituição

dada pelo povo no anno de 1820. Todos esfregavam os olhos e perguntavam

se era um sonho o que ouviam: mas era com effeito uma realidade.»

(Liberato, _Mem._) Foi assim, com esta simplicidade, que as cousas

mudaram; o que prova, não a força dos que venciam, mas a podridão das

cousas vencidas. Havia a consciencia de que a machina social, por

desconjuntada, não marchava; e um tal sentimento deu o caracter de uma

_saldanhada_ á revolução de setembro, contra a qual ninguem protestou.

No dia 10, de madrugada, a guarda-nacional foi ao Paço exigir a

queda do gabinete e a proclamação da constituição de 20. No dia 11 o

ministerio caía, e de tarde foi a rainha aos Paços do concelho jurar a

nova--ou antiga--constituição. Inutil é dizer que a camara _feita_ não

se reuniu: era necessario _fazer_ outra, de feitio diverso. Entretanto

acclamara-se a dictadura de Passos, Vieira de Castro e Sá da Bandeira.

A victoria surprehendera a todos, e mais do que ninguem aos vencedores

que a não esperavam. Era mistér decisão, porque o barometro não é fiel

quando sobe rapidamente. Chamou-se a capitulo: o dictador-em-chefe,

com Leonel e Julio Gomes, deviam ordenar a maneira de eleger as novas

côrtes. O Rio-Tinto offerecia dinheiro. Havia um formigar espesso de

gente dedicada, prompta a sacrificar-se pela patria, pedindo os lugares

que os vencidos _devoravam_ havia tempo demasiado. Passos «tinha o

braço cançado de assignar demissões».

* * * * *

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 3 / 30 段