O motivo de uma tal fraqueza está nas condições necessarias de uma

sociedade no caso da nossa. Os debates e as luctas dão-se entre a

minoria minima dos _politicos_, advogados ou militares, com discursos

ou correrias, formulas ou guerrilhas.

Esta qualidade de homens é quasi a unica que se interessa nos negocios

publicos; occupando todos os cargos da administração, constitue o que

chamam opinião, domina as eleições e toma assento nas côrtes. D’ella

se compõem os poderes executivo e legislativo, sendo ao mesmo tempo

governo e povo. O numero d’estes politicos não é consideravel, mas é

demasiado relativamente ao magro orçamento de Portugal. (Lasterie,

_Portugal_ etc., na _Revue des deux mond._ 1841)

«Cada governamental, dizia o conde da Taipa, é um artigo da CARTA.»

E se, com effeito, o orçamento era magro de mais para sustentar os

politicos; se o communismo burocratico era bem mais difficil de manter

do que o monastico, pois os pedintes não se contentavam com o caldo e a

brôa das portarias: é tambem facto que os homens de alguma cousa haviam

de comer. E se não havia outra occupação para onde se voltassem?

Uma nação de empregados

É Portugal? Certamente.

Até D. Miguel do throno

De D. Maria é pretendente.

(Bandeira, _Artilheiro_, n. 22).

Não podia ser de outro modo, e já vimos o porquê. Mas o orçamento era

magro, magrissimo: se se pagava, honra seja á arte do nosso Law, que

achára em Mendizabal um corretor e em Londres uma colonia excellente

para a lavra das minas de libras. Comtudo essas fortunas sempre duram

pouco; e o Thesouro soffria de intermittentes, com os ataques de

escrupulo da opposição. Os pobres empregados viam-se n’uma situação

triste: «Em que se parecem com os papa-moscas? Em que estão todos com a

bocca aberta». (_Ibid. 31_)

Se é verdade que quem «ataca o governo não saiu despachado»; (_Ibid.

8_) não é menos verdade, comtudo, que seria injusto vêr na constituição

da familia politica o mobil exclusivo da fome ou da cubiça. Outros

motivos, não menos graves, concorriam para a formação das _gentes_

o para as rivalidades e luctas dos chefes e clientes. «Nunca póde

haver ministros bons; e porque? Porque os ministros são seis e os

pretendentes seis mil». (_Ibid. 28_) Nas velhas sociedades patriarchaes

ou feudaes, a tradição e a lei mantinham o lugar de cada um; mas agora

as fórmas de authoridade natural surgiam do seio da anarchia positiva,

e a doutrina da anarchia individualista e da concorrencia livre de

todos a tudo, consagrava a ambição do mando com a authoridade de uma

theoria.

A ambição, eis ahi, pois, o principal dos motivos pessoaes, superior

ainda á cubiça e á fome, cujo papel é mais anonymo e collectivo, mais

talvez dos clientes do que dos patrões. A franqueza com que todas as

portas se abriam a toda a gente; a segurança com que todo o «individuo»

por soberano, se achava apto para tudo; o _systema_, que destruira

a administração especialisada nas antigas juntas e conselhos, e

confiava a solução de todos os negocios ás assembléas saídas do cháos

da eleição; a victoria que «deitára tudo abaixo» e enchia de orgulhos

os demolidores: tudo concorria para inchar as vaidades e aquecer as

ambições. Pullulavam os _homens-novos_, soletrando Volney e Mirabeau,

Dupuy, Rousseau e o _Citator_, cheios de affirmações, philaucia, e

desprezo desdenhoso pelo antigo saber fradesco. E ao lado dos pedantes,

havia por todo o reino os ingenuos, cheios de crenças quasi religiosas

n’um Evangelho novo. A camara de Ribaldeira escrevia assim a Passos

Manuel:

Não somos doutrinarios nem aristocratas; muito presamos Montesquieu,

mas não é só elle que fórma a nossa propria bibliotheca; desde Hobbes

até Rousseau, desde Machiavelli até Batham (_sic_) algües outros temos

lido; em nossas aldeas tambem consultamos a Historia dos Washingtons,

dos Triunvirs (!) dos Neros, etc., etc. (Off. de 20 de dez. autogr. na

corr. dos Passos)

Os jornaes diziam tudo, conheciam todas as questões, resolviam todos

os problemas, porque nada ha mais atrevido do que a ignorancia. E

sentados sobre as ruinas da patria assolada, cuspiam-lhe em cima, com

desprezo, renegando-lhe a historia, com as cabecinhas empertigadas e

occas voltadas para a França, acclamada em phrases banalmente pomposas.

A emigração educára-os, e voltavam «enfatuados de sábia», escarnecendo

dos _goticos_, infelizes que nunca tinham saido de Portugal.

Muitos se julgavam sabios por aprender um cumprimento em francez,

misturando de vez em quando um _good night_ seguido de uma pirueta;

por aprender meia duzia de nomes de autores, usar de charuto, alugar

uma cara de tolo, raspar-lhe a vergonha, namorar a torto e a direito,

entrar nos botequins, lêr por desfastio, fallar de politica e de não

sei que contracto, metter a religião a ridiculo. (Bandeira, _Art. 23_).

Tudo era necessario e natural, embora seja indubitavelmente grutesco.

A pretensão de que a LIBERDADE era a formula absoluta, o systema a

verdade revelada e a historia uma peta; a pretensão da infallibilidade

da razão individual e da soberania das vontades humanas, tinham de

forçosamente trazer os costumes a um estado que corresponde aos outros

lados da physionomia social. A anarchia na escola era, e não podia

deixar de ser, a anarchia na realidade; e a negação systematica da

authoridade collectiva e do caracter organico da sociedade, depois

de condemnar a historia, condemnava a actualidade, valendo-se dos

abundantes documentos que ella lhe fornecia. Tudo era peta, burla,

infamia:

Em que consiste o direito de votar? É o direito banal pelo qual eu sou

obrigado a conduzir um papel de que não faço caso ...

Que são os grandes, os chefes, junto ao throno? São canos reaes por

onde se despeja toda a immundicie da alma dos seus protectores;

delegados á latere do vicio, vendem os interesses do povo por um

crachá, fazem e desfazem ministerios com a mesma sem-ceremonia com que

despejam o regio ourinol ...

Leilões de generos avariados: Boa-fé no largo das Necessidades;

Egualdade de Direitos nas secretarias d’Estado; Liberdade de voto, nas

assembléas eleitoraes, etc.

(Bandeira, _Artilheiro_, n. 2 e 23).

Com effeito, os chefes não se tornavam crédores de um respeito

demasiado.

Á morte de D. Pedro, segundo vimos, Palmella apoderou-se do governo,

fundindo-se a sua clientela, ou partido, com o da regencia n’esse

momento acabada. O caracter revolucionario do governo da dictadura

terminára, e dos antigos ficavam no ministerio apenas Freire, e

Carvalho o financeiro indispensavel. Era necessario pôr ponto no

«deitar abaixo». Já Palmella, no conselho de Estado, tinha votado com

a maioria contra a extincção dos conventos, que apezar d’isso Aguiar

decretou em secreto accôrdo com D. Pedro; já pozera depois o seu veto

ao remate do plano de Mousinho, a abolição dos morgados. Moderado

sempre e aristocrata, o radicalismo dos philosophos parecia-lhe tão mau

como a demagogia: quer a vencida demagogia miguelista, quer a demagogia

ameaçadora da opposição radical. Com os olhos invariavelmente voltados

para a Inglaterra, não concebia outro typo de nação, além do typo

aristocratico, liberal e conservador. No governo succedia-lhe agora

o que sempre lhe succedera: era antipathico e ninguem o recebia.

Reconhecendo todos a sua habilidade, parecia a todos que só a ambição

pessoal o movia. O povo, já minado pelas theorias democraticas,

considerava-o um tyranno; e a cauda dos odios pessoaes que as intrigas

e os erros da emigração lhe tinham feito, voltava-se agora e mordia-o.

Quando pela terceira vez a CARTA se rasgou para casar (1 de dezembro de

34) a rainha com o primeiro dos seus dois maridos allemães, quando a

opposição pedia «um fidalgo portuguez», dissera-se muito que Palmella

pensava em fazer da rainha sua nora.

Mas esse principe contratado para dar herdeiros á corôa portugueza (os

nossos visinhos hespanhoes chamam _coburgos_ a taes maridos) durou

pouco; e a sua morte (28 de março de 35) foi motivo de uma crise.

Lisboa appareceu crivada do pasquins accusando Palmella de envenenador,

o attribuindo-lhe a ambição de querer para seu filho a mão da rainha:

Wellington, de lá, apoiava o plano! O povo acreditou e saíu. Houve

tumultos graves (29), pedindo-se a cabeça do traidor. Terceira que já

em 27, nas Archotadas, _carregara essa canalha_ desembainhou outra vez

a espada fiel e manteve a ordem.

Mas só uma ordem apparente, porque no fundo havia uma anarchia real.

Varias clientelas, com os seus chefes e os seus programmas varios,

ambicionavam o poder. Palmella era um estorvo e contra elle se fundiam

as opposições todas, congregadas para o ataque.

Um pasteleiro queria

Fabricar um pastelão

E porque tinha de nada

Deu-lhe o nome de fusão

Arde o forno, o pastel dentro

Principia a fermentar

Entornou-se; perde a massa:

Só ficou o alguidar.

(Bandeira, _Artilh._ 12 set.)

Esse alguidar era Saldanha, que nunca pareceu mais vasio, mais de

barro, que agora. O rival tinha um pensamento, elle apenas um nome.

Palmella dispunha de uma clientela firme; Saldanha, já desacreditado

perante os radicaes, embora ainda representasse o papel de seu chefe,

era um general sem exercito, condemnado a presidir a um gabinete mixto.

Esturrou-se logo o pastel, e o alguidar appareceu transbordando de

gente radical: um ministerio puro de opposição. (Sá, Loulé, Caldeira,

Campos, 25 de nov.)

Varios tempos, licções eloquentes, arrependimentos já tardios, enchiam

a cabeça de Saldanha, lembrando-se do papel que fizera em 26-7, das

cousas que authorisara com o seu nome em Paris. Achara-se levado por

um ardor de gloria nas azas da revolução, e não tivera podido medir

bem o destino d’esse vôo. Já de ha muito que reconsiderara. O leitor

lembra-se dos episodios do Cartaxo. Mas, sem o talento do rival, que

ficaria sendo, se deixasse de ser o chefe de um radicalismo já então

por elle renegado? Uma espada apenas, prompta sempre a obedecer e

incapaz de mandar, como Terceira? Não: isso não podia admittil-o a sua

vaidade. Seria descer muito. Mas para não descer--elle provavelmente

já nem queria subir mais--era impossivel ficar immovel. O partido de

que se dizia chefe, tinha-o apenas como um rotulo, um pendão, sem dar

a minima importancia ás suas vontades ou desejos pessoaes. Seguia o

seu caminho, guiado por outros; e para que Saldanha, agora no governo,

não fosse francamente renegado, era mistér que saísse da inacção e

se declarasse o dictador que Passos foi no anno seguinte. Já em 27

succedera o mesmo, e lembrava esse episodio: quando faltava apenas

extender o braço e sagrar-se chefe da revolução, Saldanha, tendo-a

acompanhado até ahi, parava, tremia com escrupulos, fugindo.

Depois do Cartaxo quizera, como dissemos, remir os erros da emigração,

encostado-se ao cartismo (_Hontem, hoje e amanhan_, op. anon.); mas

os cartistas que lhe pagariam bem e usariam com prazer da sua espada,

como faziam á de Terceira, não lhe davam importancia ás opiniões nem

o reconheceriam chefe. Por seu lado os radicaes, vendo a fraqueza

inconsistente d’esse chefe theatral, sem repellirem o instrumento que

ainda lhes servia, já se esforçavam por mostrar bem claro que lhe não

obedeciam. Nas eleições de 34, Saldanha acompanhara D. Pedro ao Porto.

Ia n’uma posição singular, para convencer o principe do poder do seu

partido, dando por tal fórma um grande peso á sua adhesão ao throno. D.

Pedro, por seu lado, levava por fim bater no Porto, com a presença do

marechal, a influencia do radicalismo dirigido pelos irmãos Passos; e

com Saldanha á mão, Saldanha que lhe asseguraria a obediencia dos que

ainda talvez suppozesse seus clientes, esperava tudo da conversão do

caudilho militar ás opiniões conservadoras. (Macedo, _Traços_.)

Os chefes enthusiastas e fortes do futuro Setembrismo deram uma licção

ao principe e ao seu acolyto. Saldanha, candidato, foi batido no

primeiro escrutinio da eleição: onde estava o seu poder? Mas para

dizer a D. Pedro que a victoria lhe não pertencia, e para dizer ao

general que apesar do seu procedimento o não renegavam, usando de uma

magnanimidade que talvez o desviasse do tortuoso caminho que seguia,

elegeram-no no segundo escrutinio. (Macedo, _Traços_) Era uma victoria

mortal, uma estocada em cheio no inchado balão das esperanças dos dois

viajantes. Tornaram ambos a Lisboa corridos.

Saldanha, apesar de tudo, ainda foi sentar-se no ultimo e mais elevado

banco da esquerda da camara. Illudir-se-hia ainda com a boa figura que

fazia de lá a sua presença nobre e pomposa? Talvez; porque se tinha

ingenuamente n’uma grande conta, e dava ouvidos abertos á adulação.

(_Hontem, hoje e am._) Quando Palmella teve de cahir, o chefe natural

do governo era Saldanha: mas, como já vimos, a sua falsa posição

creou um _pastel_ mixto pouco duradouro; (4 de maio a 18 de nov.) e a

entrada do seu partido obrigou-o a elle a sahir, (25 de nov.) corrido,

desacreditado e renegado. Pagava o devido preço da sua politica dubia:

via fugir-lhe toda a clientela; era um homem perdido e abandonado pelos

que tinham sido os seus e o apeavam definitivamente de um throno que

durara oito ou nove annos. Retirou para Cintra a ensaiar lavouras.

(Carnota, _Mem._)

Não foi a queda d’esse chefe que pouco podia e já nada queria fazer,

foi a impotencia da nova clientela exaltada quem a precipitou do

governo (19 de abril de 36). Voltou a antiga gente, menos Palmella que

tambem no isolamento remia velhas culpas. Os dois próceres rivaes,

por tanto tempo inimigos poderosos, achavam-se egualmente reduzidos

a nada, agora que já se entendiam, depois de feitas as pazes. Havia

um outro duque, sem idéas politicas á maneira do diplomata, sem

fogachos de ambição e rompantes de soldado á maneira de Saldanha;

um outro duque, boa pessoa, politicamente nulla e por isso sempre

fiel, excellente individuo para pôr á frente de um governo onde a

antiga gente (Freire, Aguiar, Carvalho) restaurada queria começar uma

vida nova, pensando soffrear com o utilitarismo e uma administração

energicamente pratica, o torvelino de confusões politicas, de ambições

pessoaes. Seria outra dictadura. Mas onde estava D. Pedro? Terceira

presidiu a esse ministerio que a revolução de setembro derrubou,

encerrando o primeiro periodo da vida liberal portugueza.

Afflicto pelos pedintes, pois da sua clientela antiga só os mendigos

restavam fieis, despeitado, ferido no seu orgulho, prejudicado nos

seus interesses, Saldanha via-se na falsa posição de não poder ser

cousa nenhuma. Para o governo, vivamente atacado e decidido a dissolver

as camaras, o general buliçoso e ávido, era, porém, a ameaça viva de

uma revolta militar. Accusaram-n’o os seus amigos de outr’ora de se

ter vendido n’esta occasião: «desde aquella epocha, de deserções em

deserções, chegou á situação em que hoje (1854) está, desprezado por

todos os partidos: porque se algum ainda lhe faz festa não é porque o

estime, é por ser um tronco velho, sobre que ainda alguem se sustenta».

(Liberato, _Mem._)

Como é desoladora, melancholica, a historia funebre de todos estes

homens que a desesperança ou a fraqueza atiram como farrapos,

successivamente, para o lixo das gerações! Que singular poder tem a

anarchia das idéas, o imperio dos instinctos soltos, das chimeras

aladas fugitivas, para despedaçar os caracteres e perverter as

intelligencias! Já um caíu--Mousinho; hoje é outro, o heroe de 26, o

soldado do Porto--esse brilhante Saldanha! E ainda agora a procissão

começa; ainda agora vae no principio o devorar impossivel do Baal da

LIBERDADE, cujo ventre, como o do phrigio, pede honras, talentos,

forças e sangue, para o seu consumir incessante!

Com o fim d’este primeiro periodo da anarchia positiva acaba

Saldanha, da mesma fórma que Mousinho acabou ás mãos da sua anarchia

theorica. Acaba, dizemos; porque, embora a sua vida se prolongue

muito--demasiado!--ainda; embora o seu genio irrequieto, as suas

necessidades, a sua ambição, lhe não consintam abdicar e sumir-se, como

fez Mosinho e como fará Passos: a vida posterior que vae arrastar,

se tem ainda momentos theatraes, é uma triste miseria. De chefe de

um partido, passa a janisaro de um throno. De Cid, transforma-se em

Wallenstein. O que brigara para não ser a espada de Palmella, vem a ser

o punhal com que os Cabraes submettem o reino ao seu imperio. Sempre

simples, seguro de si, crendo-se muito, não tem a consciencia de quanto

desce. Lembra-se do que foi e poude; crê tudo o que os aduladores lhe

dizem, confia no soldado que ama por instincto o genio; incha-se com as

ovações que mais de uma vez ainda a turba ignara fará á sua sua figura

theatral, aberta, viva e san, sempre moça, nas proprias cans da velhice

que lhe emmolduram o rosto, augmentando ainda a seducção do aspecto

d’esse actor politico: «estou persuadido que seria um bom rei n’um

Estado qualquer!»

Rebellado ou submettido, contra ou pelo throno, no campo e em toda a

parte, comprado ou temido, Saldanha, suppondo-se um arbitro, não sente

quanto desce; não se reconhece um instrumento, nem que o deprimem as

cousas que faz. A confiança que tem em si chega a ser infantil: com a

mesma franqueza com que suppõe governar, imagina saber; e assim como as

suas politicas são chimeras, são tolices as suas obras homeopathicas,

ou inspiradas pelo catholicismo ardente que nunca perdeu. Quiz fazer

concordar o Genesis com a Geologia, e essa tentativa, ainda quando

soubesse o que não sabia, era a mesma que a sua propria pessoa

apresentava: a concordancia de um catholico e jacobino. D’essas

chimeras ficavam apenas livros maus e acções peiores. É verdade que os

livros, luxuosamente impressos, tinham douraduras nas capas: também a

vida do marechal tinha uma capa dourada de commendas, cordões e fardas

bordadas, que sobre um vulto bem apessoado, com a sua face bella e a

tradição da sua bravura, o faziam um excellente embaixador nas côrtes

extrangeiras.

Depois, caíu ainda mais, sem o saber, sem o sentir: crendo-se sempre um

grande homem. Agarraram-n’o os industriaes especuladores e serviram-se

da sua pompa para os seus negocios, sujando-o com trapaças ... Assim

acabou a historia a que agora vemos o começo. Em tão deploravel cousa

veiu a parar o homem que em 26 fôra como um heroe e o arbitro dos

destinos da patria.

Primeiro dos chefes politicos, reunindo á influencia parlamentar a

cortezan e uma influencia militar superior á de todos, a segunda phase

da vida de Saldanha devia ser esboçada aqui, n’este momento: é um typo

revelador. Ninguem teve uma clientela maior. Abandonou-a, renegando-a

pelo paço; e esses antigos saldanhistas de Paris, livres do estorvo que

já os sopeava, preparavam-se para o seu dia. Uma revolução andava no

ar: revolução que forçaria Saldanha a desembainhar a espada contra os

seus velhos clientes.

Approxima-se a crise; mas o leitor comprimirá a sua impaciencia,

porque, se já viu as fórmas mansas do regabofe, o dissipar do dominio

nacional, o beber a chuva de libras dos emprestimos inglezes, não

viu o outro lado da scena. A orgia era tambem cruel. Havia banquetes

e matanças. Estalava champagne, mas tambem estalavam repetidos,

insistentes, os tiros dos trabucos na caça dos vencidos. O portuguez

mostrava a outra fórma da sua sanha natural, respondendo com a bala á

forca.

5.--VÆ VICTIS!

A eloquencia do nobre Passos conseguira que se revogasse o decreto

iniquo das indemnisações:

Tendes vós calculado d’onde hão do saír os meios para provêr á miseria

de tantas familias que nós vamos fazer desgraçadas? Ou havemos de

tapar os ouvidos e fechar os olhos ao coração, para não vermos

espectaculo tão lastimoso? Quando um filho vos pedir pão, dar-lhe-heis

uma pedra, ou um punhal ou o cadafalso? (Disc. de 28 de janeiro de 35)

A camara, como é sabido, aboliu o decreto, mas os miguelistas ainda

pagaram muitas «perdas e damnos»; pouparam-nos ao cadafalso, mas

deram-lhes pedras, punhaes e tiros de trabuco em desforra. A segurança

de uma victoria tão custosa, tão disputada, sobretudo incerta por tanto

tempo, embriagava homens que ouviam aos mestres doutrinas feitas a

proposito para os desenfrear. Soltaram-se com effeito todas as cubiças

e odios; pagaram-se a tiro todas as offensas; roubou-se e matou-se

impunemente. O miguelista era uma victima, um inimigo derrubado: o

vencedor punha-lhe o joelho no ventre e o punhal sobre a garganta.

Caçavam-se como se caçam os lobos, e cada offensa anterior, cada crime,

era punido com uma morte sem processo. Os vencedores, suppondo-se

arbitros de uma soberania absoluta, retribuiam a cento por um o que

antes haviam recebido.

Não era só, comtudo, a vingança que os movia, nem tambem a cubiça: era

um grande medo de que o monstro vencido erguesse a cabeça, á maneira

do que ás vezes faz o touro no circo, prostrado pelo bote do matador,

levantando-se e investindo, matando ás vezes, já nas ancias da morte.

Além do medo, havia ainda a fraqueza da authoridade liberal, fraqueza

inevitavel em que prégava ao povo a sua soberania, fraqueza natural no

dia seguinte ao da victoria; mas fraqueza infame, pois d’ella viviam

os chefes, passando culpas aos seus clientes, fechando os olhos aos

roubos e mortes: quando positivamente os não ordenavam para se livrarem

de rivaes incommodos ou de inimigos perigosos. Tal é a ultima face

da anarchia positiva; assim termina a serie de manifestações de uma

doutrina aggravada pelas condições de um momento. Destruira-se na

imaginação do povo o respeito da authoridade, condemnando-se-lhe o

principio com argumentos de philosopho; destruira-se todo o organismo

social; e em lugar d’elle via-se, portanto, a formação espontanea das

clientelas, chocando-se, disputando-se, consummando a ruina total,

explorando em proveito proprio a confusão dos elementos sociaes

desaggregados.

Toda esta dança macabra de partidos e pessoas corria sobre uma nação

faminta, apesar das libras que rodavam em Lisboa, e dos tivolis e

dos bailes das Laranjeiras. Força fôra accudir com socorros aos

lavradores. (Lei de 4 de outubro de 34) Uns queriam que o governo

comprasse gados e sementes e os distribuisse; mas a _doutrina_

ergueu-se, chamando a isso communismo, exigindo _liberdade_. Decidiu-se

emprestar dinheiro--oh, tonta tyrannia dos systemas!--para que o

pequeno lavrador comprasse grão e rezes n’um paiz assolado.[9] Toda

esta dança macabra de bandidismo infrene, dizemos, corria por sobre um

paiz devastado. No governo não havia força para impôr ordem, e havia

interessados em fomentar a desordem. Cada Ministro tinha o seu bando,

os seus _bravi_, para resolverem a tiro nos campos as pendencias que

a phrases se levantavam nas camaras. Mas ainda quando isto assim não

fosse, a condemnação em massa de todos os que no antigo regime exerciam

as funcções publicas; essa universal substituição do pessoal do

Estado, indispensavel para pagar os _serviços_, trazia aos lugares os

aventureiros, os incapazes, e verdadeiros bandidos.

Em vão se tinha duplicado (de 70 a 140) o numero dos julgados: era

impossivel corrigir uma desordem que a tantos convinha. Guerrilhas

armadas levavam de assalto as casas do miguelista vencido, roubando,

matando, dispersando as familias. Havia uma verdadeira, a unica

absoluta liberdade--a da força! Na Beira houve exemplos de uma

habilidade feroz singular. Matava-se a familia, deixando a vida apenas

ao chefe, em troca de um testamento a favor de alguem. Dias depois o

pobre apparecia morto e enriquecia-se d’esse modo. (_A dyn. e a revol.

de set._)

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 2 / 30 段