Aguiar abolira os conventos; José da Silva Carvalho abolira

Portugal contemporaneo

J. P. OLIVEIRA MARTINS

Portugal contemporaneo

3.ª EDIÇÃO (POSTHUMA)

e com as alterações e additamentos deixados pelo auctor

TOMO II

[Illustração]

LISBOA

LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA--EDITOR

_50, 52,--Rua Augusta--52, 54_

1895

PORTUGAL

CONTEMPORANEO

LIVRO QUARTO

A ANARCHIA LIBERAL

(1834-39)

I

O REGABOFE

1.--A SESSÃO DE 1834-35

No dia 15 de agosto, D. Pedro abriu solemnemente as camaras. A

physionomia da assembléa era diversa em tudo da de 26-8. Bem se póde

dizer que não estava alli a maior parte da nação, exterminada pela

guerra, ou jazendo esmagada sob o pé do vencedor. Era o Portugal-novo

que reinava, sobre os destroços e ruinas da nação antiga. A camara

reunia-se n’um d’esses conventos saqueados, onde á pressa se levantou

uma sala com paredes pintadas de azul e branco e um tecto de vidraças a

que a rhetorica posterior chamou _abobadas_. Tudo era novo e cheirava

ainda ás tintas, como o systema improvisado. D. Pedro, o faxina das

trincheiros do cerco, viro-se o mestre das obras parlamentares, e um

desembaraço egual fez com que a casa se achasse tambem prompta a horas.

Despresando ministros e conselheiros, tratou a obra com um rapaz havia

pouco chegado de fóra, o architecto Possidonio. Esto fel-a, e teve a

idéa de pôr nas paredes, como ornato, uns medalhões com o nomes dos

homens celebres de Portugal. N’um escreveu o do marquez de Pombal. E

quando os ministros vieram vêr as obras exasperarem-se: «o marquez do

Pombal! é lisongear Saldanha, meus senhores.» Seria o architecto da

opposição? Houve conselho de ministros, em que se resolveu supprimir

essa allusão perfida, dando-se ordem ao architecto para cobrir os nomes

com uma aguada que em dias humidos mal esconde as letras douradas

subjacentes. (_Apont. da vida_, etc.)

Tal era, ainda depois dos accôrdos do Cartaxo, o receio que inspirava

o chefe da opposição. As camaras iam abrir-se; e por mais que tivessem

feito, os ministros não tinham podido impedir que o Minho bucolico

enviasse ao parlamento Manuel Passos, chefe sympathico e ingenuo de

uma opposição pessoal ao regente e ao seu governo, e de uma opposição

formal ás doutrinas da CARTA. Os saldanhistas possuiam uma especie nova

de LIBERDADE, e propunham-se decididamente a fazel-a vingar sobre as

ruinas da anterior. Fóra da camara, o _Nacional_, do Rio-Tinto que não

gozava de boa fama, apoiava opposição parlamentar.

* * * * *

Constituiu-se a camara e começou a guerra. A primeira batalha foi a

da questão Pizarro. O coronel, eleito deputado por Traz-os-Montes,

viera para o reino, d’onde o expulsava um decreto formal e pessoal do

regente, e fôra preso e encerrado em S. Julião. Era um attentado á

immunidade parlamentar, clamava a opposição; e o governo respondia que

a eleição fôra nulla pela inelegibilidade de um homem pronunciado por

crime de alta traição. Sob taes formulas legaes se encobria de parte a

parte a verdadeira questão: defender Pizarro, era atacar em cheio D.

Pedro, seu pessoal inimigo.

Levado pelo impeto de uma séria crença na liberdade, de uma esperança

formal nas instituições, Passos que luctava á frente, como já

verdadeiro chefe da opposição, embora Saldanha se tivesse sentado no

banco mais alto da mais extrema esquerda: Manuel Passos abandonava o

pretexto, e punha nitidamente a questão. A camara era coisa nenhuma,

nem representava a opinião do paiz. Não houvera liberdade nas eleições.

A censura prévia aguilhoava as manifestações do pensamento. Não

havia liberdade de imprensa, nem camaras municipaes, fóra Lisboa e

Porto: apenas commissões nomeadas. Durante as eleições tinham-se

suspendido as garantias.--Que se devia fazer? Era claro, simples e

urgente: estabelecer a liberdade de imprensa, supprimir a suspensão de

garantias, eleger camaras municipaes, e por fim dissolver o parlamento,

convocando côrtes constituintes. (Disc. de 25 de agosto)

Pois a constituição não estava feita? Não, por fórma nenhuma: esse

corpo de doutrina que fôra a bandeira de uma guerra e em cujo nome se

tinha invadido e revolucionado o reino, era renegado por uma opposição

enthusiasta e moça, a quem o futuro sorria. Ai de Mousinho, que estava

certo de ter encontrado a fórmula verdadeira e definitiva!

E quem era o culpado de tão flagrantes infracções á doutrina liberal,

segundo a entendia a opposição? Quem, mais do que esse ministerio

obnoxio--para não dizer o nome de D. Pedro, com o qual todos sabiam

que o ministerio fazia um? Depois da convenção de Evora-Monte, elles,

opposição, queriam a paz, a liberdade e a ordem; mas os ministros

(leia-se: o regente) deram á nação, em premio de seus serviços, o

regime da arbitrariedade, e a honra de pagar sessenta contos annuaes ao

tyranno vencido.--«O infeliz coronel Pizarro (regressando ao ponto de

partida) jaz n’uma masmorra porque o ministerio actual se constituiu

impio testamenteiro d’aquelle Coriolano tres vezes traidor á patria».

O Coriolano de Passos (a quem a educação jacobina inspirava nomes

romanos) era o fallecido Candido José Xavier que pegára em armas contra

a patria.--A camara, de pé, clamou por ordem. (Disc. de 25 de agosto)

* * * * *

Era o que todo o reino pediria, se tivesse alma para pedir alguma

cousa. A metade vencida gemia porém, esmagada; e a vencedora

borborinhava tonta na faina de disputar o despojo da guerra. Cada qual

chamava a si uma parte maior ou menor da victoria, considerando-se

com direitos particulares adquiridos. Havia uma grande voracidade;

mas acima dos que faziam das opiniões o rotulo da sua fome, erguia-se

Passos, o stoico, exigindo a victoria dos principios, não a dos

homens e seus desejos e ambições. Outros lançavam-se desesperados ao

ministerio e ao regente, «porque essa roda comia tudo»; elle dirigia

o côro das imprecações, mas sereno, com os olhos fixos na imagem

etherea, nebulosa das suas cogitações e sonhos: uma liberdade candida,

pura, pacifica!

Entrou na camara a questão da legalidade com que D. Pedro exercera

e exercia o papel de regente, pômo das discordias antigas e sabidas

da emigração; e Passos dizia: «Eu sou um implacavel inimigo das

dictaduras». Como era novo ainda, e crente, o homem que só com

essa dictadura detestada veiu dois annos depois a outorgar a _sua_

liberdade!--E falseando um pouco os factos, continuava «que, porém,

se no momento de Paris fosse necessario um plebiscito para elevar o

imperador á terrivel dignidade de dictador, todos elles, opposição,

estavam promptos a assignal-o com o proprio sangue. Agora o caso

mudava: era mistér voltar á legalidade, e que se reconhecesse a

soberania do povo nas suas assembléas.»--Referindo-se logo ao principe,

falava em termos que na bocca de outro seriam crueis ironias, e na

d’elle eram desejos ingenuos, tanto a virtude se confunde com a

simplez! «Sacrificae o pae da patria!.. E quanto o conheceis pouco e

mal! S. M. I. é um principe philosopho. Cansado da purpura para gozar a

vida privada, com que philosophia não rejeitou ainda ha pouco a corôa

imperial!» (Disc. de 25 de agosto)

Cansado da vida, golfando sangue, estava prostrado no leito o

desilludido principe que morreu a tempo. Perante este facto que

trazia um novo elemento de complicações á trama cerrada dos embaraços

desencadeados pela liberdade, Palmella, com uma auctoridade que era

soberana, pois já lh’a não disputava o ex-emulo Saldanha, interveiu a

tempo: demittiu o ministerio, collocou-se-lhe nas cadeiras, dando a

rainha por maior, afim de preencher esse logar vago a que o liberalismo

chama throno. Ninguem melhor servia para isso do que uma creança

apenas mulher, pessoa sem querer, symbolo em vez de realidade, como

os vultos de palha que se põem nas cearas para afugentar os pardaes

vorazes. Estonteada, ainda a opposição clamou; e nos pares, Fronteira

e Villa-Real, Lumiares, Loulé e Taipa, votaram contra a maioridade da

rainha, pedindo a regencia da Infanta D. Isabel Maria. Taipa dizia alto

e bom som que o ministerio era uma camarilha feita para devorar o paiz

á sombra de uma creança. A infeliz CARTA, já violada na questão da

regencia, era segunda vez rasgada na da maioridade da rainha!

* * * * *

Enterrado D. Pedro, caído o seu velho ministerio, extinguia-se um

pedaço do passado incommodo: começava com a rainha a vida nova

parlamentar-liberal. Mas, se para os radicaes a cova engulira o tyranno

regente, para os liberaes o espectro de D. Miguel mantinha-se-lhes

perante a vista esgazeada, ainda antes da vinda da noticia o protesto

do exilado em Genova.

No ardor da guerra, abandonadas todos as idéas stoicas de Mousinho,

decretara-se (31 de agosto de 33) a expropriação de um partido pelo

outro, sob o nome de Indemnisações. Tinham-se tornado responsaveis

os auctores da usurpação (todos e cada um _in solidum_, por suas

pessoas e bens) pelas perdas e damnos causados pela usurpação. Os bens

miguelistas eram sequestrados e vendidos em praça: isto é, transferidos

por nada aos arrematantes liberaes, quando não eram adjudicados

directamente aos vencedores lesados por não haver na praça lanço

egual á avaliação. Tinham-se creado commissões avaliadoras das perdas

e damnos, as quaes davam aos interessados cedulas acceitaveis como

dinheiro nas arrematações dos bens.

D’este modo se fartou muita gente, e o devorar teria continuado,

se, ainda antes da intervenção das camaras, não tivesse intervindo

o embaixador inglez, exigindo o terminar da faina. Parara-se pois;

mas o decreto não revogado estava suspenso sobre a propriedade dos

vencidos. Considerava-se indispensavel essa ameaça, porque o medo de

uma restauração era grande. Circulavam boatos aterradores. Dizia-se

que D. Miguel desembarcara em Hespanha, e atravessara a serra Morena

com 40:000 homens. A guerra carlista ardia para lá das fronteiras, e,

se vencesse, venceria em Portugal o miguelismo. Havia uma emigração

consideravel para os exercitos carlistas: tão grande que, apesar

da LIBERDADE, se propunha na camara a negação de passaportes aos

emigrantes. Fervia o roubo, o assassinato, a desordem, a vingança,

por todo o reino; e a nau liberal, fundeada no porto, amarrada com as

ancoras da quadrupla alliança, ainda balouçava como n’um mar banzeiro.

A tripulação não se considerava salva. Nas guardas nacionaes só se

admittiam os fieis a D. Maria, inimigos sabidos de D. Miguel.

O decreto das indemnisações confiara ás camaras municipaes as funcções

de tribunal supremo para as causas disputadas; e coube a José

Passos, sosia burguez do irmão poeta, a honra de atacar de frente,

pela primeira vez, a iniquidade. O Porto elegera-o presidente do

seu primeiro senado em março (34) e elle recusou-se formalmente a

exercer as funcções de juiz n’esses processos de espoliação. A camara

foi dissolvida, mas tambem o decreto suspenso até que o parlamento

resolvesse.[1]

O parlamento decidiu, abolindo-o. Ergueu-se, para o condemnar, Mousinho

que abolira no codigo penal o confisco, na Terceira os sequestros, e no

Porto não consentira se bolisse na arca santa da liberdade individual.

Ergue-se Passos, falando em paz, em amor, convidando a nação a um

abraço no seio da democracia. Ergueram-se Rodrigo, Seabra, e por fim,

vencido, o proprio Agostinho José Freire que fôra o auctor da lei da

vindicta.

Já a esse tempo (janeiro de 35) os medos se iam dissipando. Viera o

protesto de D. Miguel, mas não lhe respondera uma revolução: apenas

lhe respondeu a camara, rasgando tambem a convenção de Evora-monte,

banindo-o e á sua geração do territorio portuguez, declarando-o revel

e traidor. (Decr. de 19 de dezembro de 34). Assim o novo Portugal

via desapparecerem de todo da scena os ultimos restos do passado. A

estructura da nação caíra ás mãos de Mousinho; D. Pedro acabara n’uma

golfada de sangue; D. Miguel matava-o o novo reino pela voz dos seus

mandatarios. Começava uma vida nova com o reinado da joven rainha, a

quem era mistér dar um marido, para haver herdeiros que satisfizessem a

uma das formulas do systema. Estava pois fundeada a nau do liberalismo?

Oh, não! Principia agora uma viagem nova para o navio cujo commando

numerosos pilotos disputam--cada qual com sua carta, seu rumo, seu

norte, sua bussola. Ha tantos destinos quantas cabeças, e assim deve

ser no governo da Anarchia; mas antes que a viagem comece, é mistér

estudarmos os fastos da anarchia positiva, exprimindo a realidade da

doutrina nos primeiros momentos do seu imperio.

2.--OS BENS NACIONAES

A suppressão do decreto de agosto de 33 retirava bruscamente da meza,

onde os vencedores se viam sentados com um appetite genuinamente

portuguez, o succulento serviço dos confiscos miguelistas; mas

Silva-Carvalho, que auscultura os estomagos, sentia a necessidade de

os encher. Desertariam do banquete e talvez abandonassem a _causa_,

se se não substituissem os pratos. Os perigos eram muitos, a situação

grave: o habil mordomo não hesitou. Apresentou-se ás camaras (34) com o

plano da _kermesse_. As leis de Mousinho e o decreto do _mata-frades_

punham á disposição dos famintos uma vasta ceara de propriedade,

ceifada a seus donos, dispersa em mólhos por todo o vasto campo do

reino assolado. Eram os bens dos conventos, das capellas, commendas

e mais propriedades, da Corôa, da Patriarchal, da casa das rainhas e

da do infantado; eram campos e palacios, alfaias preciosas e mobilias

riquissimas: o espolio da nação assassinada, avaliado em dezenas de

milhares de contos.

O ministro sabia que de varios modos se podia utilisar esse dominio

collectivo: mas que modo melhor, mais util, mais urgente, do que saciar

os appetites vorazes, chamando em defeza do systema mal seguro os

instinctos egoistas de todos os que mais ou menos escandalosamente se

apoderassem das parcellas do saque? Em subido o que succedera á França

republicana; e urgia tambem crear uma aristocracia _liberal_ para pôr

no logar das velhas classes dominantes, arruinadas e demittidas. No

proceder do nosso estadista não havia apenas uma commiseração pela fome

dos seus clientes: havia um pensamento politico, que seria injustiça

não reconhecer.

Os bens nacionaes seriam vendidos em praça; porque essa publicidade e

uma legalidade apparente convinham para resalva; sem nada prejudicarem,

pois a praça ficaria deserto por não haver dinheiro nem licitantes. Não

havia dinheiro, é sabido; mas havia os papeis em poder dos clientes,

e esses papeis recebia-os o Thesouro como dinheiro. Assim, sem se

bolir nos numeros nem na legalidade, obtinha-se o resultado desejado,

porque o ministro não dava os bens: dava os papeis com que elles se

iam comprar em praça. Esses papeis eram os titulos de divida pelo seu

valor nominal, (um valor ficticio) eram o papel-moeda, os recibos de

ordenados vencidos, os titulos de commendas e direitos de pescaria

extinctos; eram finalmente os roes de indemnisações por perdas e

sacrificios da guerra: papeis extravagantes, contas onde gran-capitães

chegaram a sommar por centenas de milhares de réis as ferraduras

perdidas do cavallos mortos!

É evidente que o ministro não confessava o seu inteiro pensamento

á camara; e insistia sobre as vantagens economicas do seu systema;

antecipando lucidamente os tempos ulteriores, queria que as

propriedades se fragmentassem no maximo numero de parcellas, para

dividir a riqueza. (V. Prop. de J. S. Carvalho, sessão de 34) Dizia

mais que a venda dos bens nacionaes fomentaria o progresso, e d’ahi

viria um augmento da _decima_ com que se preencheria o _deficit_

assustador de 5:000 contos do exercicio de 34-5. Boas palavras,

desmentidas porém pelos factos. Toda a gente sabia e queria que os

bens se fundissem, sem se retalharem, trocados pelos titulos das

indemnisações com que os próceres do novo regime tinham inchados os

bolsos das sobre-cazacas. Toda a gente sabia que para preencher o

deficit o habil ministro tinha outros meios, mais commodos e praticos:

pois não tinha o Mendizabal com a sua cohorte de banqueiros e agiotas?

pois não era evidentemente melhor pedir dinheiro ao inglez, em vez de

abandonar uma occasião tão boa de enriquecer? A geração vencedora,

conscia do grande _serviço prestado_ á nação, achava natural que as

gerações futuras pagassem, nos juros dos emprestimos levantados, uma

parte do preço de uma redempção inestimavel. Ainda lucravam, e muito!

* * * * *

Por isso ficaram sem echo todas as vozes, e á frente d’ellas estava

Mousinho protestando. Uns queriam que na compra dos bens se não

admittissem os famosos titulos das indemnisações; outros queriam que

o producto das vendas se applicasse comesinhamente á amortisação das

dividas; outros, lamentando a ignorancia do povo, e considerando a

instrucção a melhor ancora da _liberdade_, queriam, finalmente, que

as propriedades da nação se convertessem n’um fundo de instrucção

publica. O governo encolhia os hombros compadecido da ingenuidade

boa dos utopistas, e ia vendendo, vendendo, queimando, queimando. E

o numero das adhesões fieis e firmes á causa crescia, varrendo o

medo de uma possivel restauração do passado. Um comprava os campos

de Alcobaça, expulsando de lá a feliz população rural que os frades

tinham creado;[2] outro remia o seu antigo miguelismo ficando com o

Espirito-Santo de Lisboa; outros em sociedade, tomavam para si as

lezirias do Tejo o Sado; Palmella ficava com a serra da Arrabida

confiscada ao Infantado, que a confiscara aos duques de Aveiro no

tempo de Pombal. Terceira tomava para si o Sobralinho de Alverca.

Era positivamente uma conquista á maneira das conquistas historicas.

Succedia o que succedera no tempo dos godos: uma expropriação dos

vencidos pelos vencedores, salvo a franqueza da confissão, outr’ora

manifesta sem rebuço, agora encoberta sob fórmulas e sophismas de

legalidade liberal. E d’essa falta de sinceridade provinha uma nova

consequencia. Quando os cães disputam um osso, ladram e mordem; e

tambem n’esta faina do devorar havia latidos e dentadas, denuncias

formaes dos que tinham comido menos, contra os que tudo queriam para si.

O escandalo das Lezirias provocava protestos formaes das opposições.

Os pares, os deputados, Fronteira, Loulé, Sá-da Bandeira, os Passos e

outros imprimiram (10-14 de nov. de 35. V. os _Protestos_ nos jornaes

do tempo) declarações contra o decreto do dia 3 que punha á venda

«por junto e n’um só lote todas as propriedades nacionaes das margens

do Tejo, denominadas Lezirias e das margens do Sado, denominadas da

Comporta», mandando acceitar o lanço de dois mil contos feito por uma

companhia. Era uma infracção da lei de 15 de abril, outorgada para

fraccionar a propriedade rural: era um senhorio que se creava «onde

podia haver cinco ou seis centos de proprietarios livres».

Já então Saldanha, nas agonias do seu radicalismo, presidia ao gabinete

_chamorro_ e contra elle voavam os tiros dos seus velhos amigos o

defensores de Paris, os Passos. Ainda em 33, do Cartaxo, quando talvez

já oscillasse entre a democracia e a conservação, lhes escrevia para o

Porto: «Minha mulher (que acaba de participar-me que está feita dama

da ordem de Santa Izabel) manda-lhes dizer que quando vierem a Lisboa

não quer que tenham outro quartel senão a nossa casa.» (22 de outubro;

carta autogr. Corr. ined. dos Passos, á qual recorremos mais uma vez).

Agora, porém, tinha já virado completamente de rumo.

Ia-se vendendo, vendendo sempre e bem, apezar dos protestos. Já em

agosto, o conde da Taipa pedira na camara que se suspendesse a queima

até que se determinasse alguma ordem na venda «porque não corresponde

aos fins para que foi determinada». Fins? que fins? O unico fim

positivo era dispersar as massas de propriedade que podiam ser nucleos

do contra-revolução; era converter os tibios, saciar os soffregos,

tapar a bocca aos maledicos, e consolidar o sentimento da satisfação

universal na plenitude farta!

Em junho de 36 já havia realisados 5:266 contos das vendas. É verdade

que o Thesouro recebera apenas 2:158; mas o resto, ou 3:108, fôra a

chuva de ouro do governo, sob a fórma de _titulos_, indemnisações

(2:400), dividas: papelada! E para confirmar a sinceridade dos desejos

do ministro, quando propunha se retalhasse a propriedade, convém saber,

além do caso das Lezirias, que esses cinco mil contos das vendas se

distribuiam por 632 compradores, (Coll. de contas da comm. inter. da

Junta, _10 de set. de 36_)--o que dá a média de nove contos a cada um.

Á velha aristocracia da côrte e dos mosteiros succedia uma aristocracia

nova de aventureiros--os barões do castello de Chuchurumelo! (Garrett).

Silva Carvalho conformava-se com o mallogro das suas idéas de

economista, perante o exito do seu plano de politico: via a clientella

farta; e o rubro Aguiar socegava: os frades não voltariam, porque os

herdeiros dos seus haveres os haviam de defender com a tenacidade

do egoismo. Cabia-lhe a melhor parte da gratidão dos novos donos;

pois fóra elle quem; contra todos, redigira e publicára o decreto da

abolição das ordens religiosas, cujos bens eram a melhor parte do

opiparo despojo.[3]

Além das propriedades, casas e terras, tinha havido um diluvio de

alfaias, mobilias, ouros, pratas, e _caldeirões_ das baterias das

cosinhas pantagruelicas; e esta copia de bens moveis pudera sumir-se,

devorar-se, sem necessidade de fórmulas e processos liberaes-legaes.

Por isso mesmo a confusão em maior ainda n’esta especie, e mais

repetidos os clamores, as denuncias, as accusações. N’esse mar revolto

vinha a flux o lodo da rapina desenfreada. Do cubiculo escuro da

sua redacção, o diogenes do Porto, Bandeira, commentava assim os

acontecimentos parlamentares:

O Claudio chamou ladrão ao Seabra. Olhe que lhe fez grande injuria!

Não é similhante nome tão estimado? Não andam os ladrões nas palmas

das mãos? Não são muitos votados para empregos e eleições? Não ha

tanta gente de gravata lavada que os protege? Não são elles uma

verdadeira potencia, com exercitos, caixa militar, capitães, capellães

e cornetas? Não têem elles o direito de vida e de morte? Não impõem

elles contribuições forçadas? (_Artilheiro_, 9 março de 36).

A allusão é clara ao bandidismo que imperava á solta, municiado e

protegido pelos partidos. Cada chefe tinha os seus clientes no fôro,

comprados a dinheiro; e as suas guerrilhas no campo, para dominar e

vencer a tiro nas eleições. Logo iremos vêr o que eram as provincias

e a sua orgia sangrenta: agora, estamos na capital, onde corre o ouro

dos emprestimos de Mendizabal, onde o Medicis-Farrobo dá largas á sua

phantasia de artista, agasalhado com as luvas do Tabaco. Progride tudo:

ha _omnibus_, ha o _tivoli_ da rua de S. Bento, á imitação dos jardins

parisienses. Vae-se dançar: annos antes, ia-se ás egrejas ouvir os

sermões dos frades. No _Circo olympico_ Avrilon faz de D. Pedro IV, com

grandes barbas e a farda de coronel de caçadores 5, no Porto, ao som

do hymno da CARTA. Ha um vivo enthusiasmo. (_Apont. da vida_, etc.)

Trocou-se o Evangelho pela Liberdade; o sermão pelos discursos de S.

Bento; as procissões pelas danças nos tivolis; os solemnes Te-Deum, com

largas capas de asperges recamadas de ouro e fulgurantes de pedrarias,

com tochas numerosas e thronos de luzes á hostia em custodias

magnificas, pelas representações da opera que Farrobo dirige, pelas

_soirées_ do seu theatrinho das Laranjeiras, um eden de merceeiro rico:

_otia tuta_! As egrejas estão abandonadas e vasias, nus os altares; os

frades vagueiam perseguidos, expulsos dos seus conventos, esmolando.

Fundiram-se as alfaias, andam as livrarias dispersas, vendidas a

peso, para embrulho nas lojas; e os templos profanados pelo padre

Marcos--Papam habemus Marcum!--servem de estrebarias ou graneis; os

conventos aquartelam soldados ou esperam os teares e engrenagens com

que o proteccionismo setembrista promette regenerar as industrias.

Já se não ouvem _bemditos_ pelas ruas; em S. Carlos dá-se com geral

applauso o _Turco em Italia_; e Pizarro, logo solto e livre depois da

morte de D. Pedro, põe na bocca de todos a palavra popular do heroe da

opera: «Voglio mangiare! voglio mangiare!» (_Apont._ etc.)

3.--O THESOURO QUEIMADO

Aguiar abolira os conventos; José da Silva Carvalho abolira o

papel-moeda: foram as duas unicas medidas energicas em que se empregou

o resto de força da dictadura.

O papel-moeda vinha de longe, como documento da miseria portugueza,

declarada desde o fim do seculo XVIII e todos os dias aggravada. Era

uma vegetação parasita que se enraizara no corpo da economia nacional

como fungo de varias côres: havia-o legitimo, havia muito falso. A

emissão feita pelo Thesouro, desde o 1.º de agosto de 1797 até 6 de

dezembro de 99, para accudir á guerra do Roussillon, sommara 16:513

contos, o tendo-se amortisado no mesmo periodo 5:820, ficou em 10:693.

Em 1805-6 (28 de junho a 31 de março) cresceu 500 contos. Depois

amortisaram-se 2:901; e feitas as sommas e deducções, o saldo existente

devia ser de 8:293 contos. (_Coll. de Contas da Comm. int. da Junta, 10

de set. de 26_) Observara-se porém que n’esses 2:901 contos amortisados

entravam 518 de papel falso, quasi a sexta parte: quanto haveria,

pois? De outro lado, os incendios e outras causas teriam sem duvida

amortisado muito; e o facto é que em 1830, exigindo-se o carimbo do

papel, o Thesouro só reconheceu a existencia de 8:008 contos. De 8 a

8:500 contos de papel-moeda, eis ahi o legado do velho ao novo regime.

A França revolucionaria, como é sabido, procurara nos seus bens

nacionaes a garantia para a circulação dos _assignats_, e a

consequencia fôra uma ruina colossal. Entre nós, a perspicacia do

ministro evitou esse perigo, que outras causas tambem afastavam. Os

nossos bens nacionaes eram reclamados para fins diversos. Converter

pois o papel-moeda em dinheiro com o producto dos emprestimos

arranjados por Mendizabal, decretar uma banca-rota parcial, para evitar

uma ruina futura, chamar os metaes preciosos á circulação: eis o

pensamento do decreto de 23 de julho (34) que inaugura a edade nova do

regime monetario nacional.

Era uma banca-rota parcial, mas só poderia deixar de o ser, se o

ministro tivesse perante si elementos politicos bem diversos, bem

melhores, do que os que havia. O papel-moeda declarava-se extincto a

partir de 31 de agosto, data além da qual todos os pagamentos seriam

feitos em especie. Os detentores do papel receberiam no banco o seu

importe em ouro, com a perda da quinta parte; ou sem ella, em titulos

que desde 37 a Fazenda receberia por metade nos pagamentos, e desde

38 integralmente. O desconto de 20 por cento era assim equivalente á

móra de dois annos e meio. E em vez de comprar metaes com o producto

do emprestimo destinado á conversão do papel, e cunhal-os, o ministro

preferiu admittir á circulação a moeda extrangeira, dando-lhe um

valor legal: os soberanos de ouro 4$120 rs. e os duros de prata 870

rs. (Decr. de 23 de julho de 34) O desconto de 20 por cento, ou a

banca-rota da quinta parte do valor do papel-moeda não era pois a unica

perda, porque o valor legal dado á moeda extrangeira era excessivo.

Substituia-se moeda sem valor intrinseco por moeda fraca. O soberano

não valia realmente mais de 3$750 rs.[4] nem a pataca ou duro mais do

800 rs. (L. J. Ribeiro, _Critica do rel._ de J. S. Carvalho, 34) Havia,

pois, um exagero de dez por cento que, com vinte de reducção no troco

do papel, elevavam a quasi um terço o que realmente o Estado devedor

deixava de pagar aos seus crédores.

Ao mesmo tempo que 16 ou 20 mil contos de propriedade caíam na posse

do Estado, o Thesouro tinha de pedir emprestado o dinheiro para fazer

uma composição com os seus crédores: taes são as consequencias naturaes

das revoluções--têem de enriquecer os seus sectarios. Os clientes do

ministro enriqueciam, com effeito, por ambos, por todos os modos:

engulindo os bens nacionaes o agiotando com a banca-rota. O decreto de

julho, porém, encarava o problema do restabelecimento da circulação

exclusivamente metalica apenas nas suas relações para com o Thesouro,

não attendendo ás relações contractuaes entre particulares. A isso

veiu occorrer a lei de 1 de setembro, cortando os embaraços pela raiz,

dispondo que todas as obrigações entre particulares se mantivessem

taes-quaes até 38, exprimindo-se d’ahi por diante as sommas na unica

moeda legal, o ouro. A natureza d’esta disposição, tornando solidarios

da banca-rota do Thesouro os particulares que tinham pactuado n’um

regime de circulação mixta--a _fórma da lei_ em que entrava um papel

depreciado--obrigou mais tarde a reformal-a.

* * * * *

Esse incontestavel serviço da restauração da circulação metalica era

pago á custa de graves sacrificios. A historia dos emprestimos da

dictadura (V. _Relat._ de Carvalho, 34) era um tecido de confusões em

que a maxima parte dos criticos viam trapaças vergonhosas. Sem duvida,

a emissão de emprestimos durante as epochas desesperadas da guerra só

pôde ser feita á custa de enormes agios; mas a confusão era tal e tão

pequena a confiança na limpeza de mãos dos procuradores do Thesouro

que, invertendo com espirito e agudeza a locução ordinaria, dizia-se

«haver muito quem _não duvidasse_ da boa fé». (Ribeiro, _Critica do

rel. etc._)

Nos primeiros tempos vivera-se dos subsidios do Brazil: 654 mil libras

ou 2:943 contos, mais 437 gastos pela Junta do Porto, mais cerca de

300 nos Açores: ao todo 3:700 contos effectivos (V. _Relat._ Carvalho)

com que Palmella e a primeira regencia liberal se tinham subsidiado a

si, aos emigrados e ás varias tentativas e aventuras mallogradas. Tal

fôra a confusão d’esses gastos, que se passou uma esponja por cima das

contas, prescindindo-se d’ellas, considerando-se tudo approvado. Com

D. Pedro entrou em scena Mendizabal, e, afóra pequenos emprestimos

levantados no Porto e depois em Lisboa, os principaes recursos da

guerra vieram dos emprestimos londrinos. O de dois milhões (23 de

setembro de 31) de 5 por cento liquidou os encargos anteriores:

Devia-se a Marbeley £ 12:600 deram-se-lhe bonds por £ 105:600

a commissão de aprestos

vendeu por » 52:000 titulos no nominal de » 150:000

negociando-se a 48 por » 837:312 o resto » » » 1.744:000

------- ----------

Totaes 901:912 nominal » 2.000:000

------- ----------

D’esse producto só as duas primeiras verbas eram porém reaes: uma por

ser divida positiva, outra por ser dinheiro applicado á compra de

armamentos, soldo de mercenarios, etc. O resto representa-se d’esta

fórma:

Juros e outros encargos atrazados £ 253:780

Commissões e premio da emissão » 295:003

Dinheiro » 288:529

De sorte que o producto dos dois milhões era realmente £353:129, a

terça parte (ou £606:909 se se lhe juntarem os juros atrazados) saíndo

ao juro annual effectivo de 16 por cento. (Ribeiro, _Critica, etc._)

O primeiro ensaio não provou feliz, mas o segundo foi ainda peior:

é verdade que as condições tambem tinham peiorado e havia já muitas

esperanças perdidas, mas a politica _liberal_ em materia de finanças

estava conhecida. Que outra cousa podia ser, senão agiotagem, o systema

acclamado pelos bolsistas de Londres? A emissão de £600:000 (23 de

outubro de 32) produzia, liquido de premios e commissões, £151:925,

custando pois a razão de quasi 20 por cento ao anno. Já em Lisboa,

depois (14 de setembro de 33), contratam-se outros dois milhões; e

por fim, destinado á conversão do papel-moeda, um ultimo milhão. Os

tres milhões produzem, ainda captivos de commissões e premios que se

encobriam, £2.356:756, (V. _Relatorio_, etc.) que não dariam mais de

dezoito ou dezenove centenas de milhares de libras, custando entre 8 e

9 por cento.

Somma total, a divida externa, que do emprestimo de 1823, contava um

milhão esterlina, subia a quasi sete (6.729:800) ou 29:400 contos da

nossa moeda com o encargo annual de 1870. (_Orçamento para_ 35-6)

* * * * *

Falta-nos vêr agora, para completar o nosso estudo, o estado da divida

interna. A importancia d’ella era em principios de 28: (_ap._ Bulhões,

_Divida port._)

Com juro: Consolidados de 1796 a 1827 contos 13:402

Padrões, a cargo do Thesouro » 7:000 20:402

------

Sem juro: Papel-moeda, orçado em » 6:000

Divida fluctuante (atrazados) » 6:490

Emprestimos diversos » 1:430

Exercicios findos » 4:778 18:698

------ ------

Total contos 39:100

Depois da conversão do papel-moeda; depois do decreto (23 de abril de

35) que converteu em 4 por cento, como juro a metal, a divida antiga de

6 na forma da lei; liquidada a guerra e consummadas as bancas-rotas,

podemos apreciar o estado em que se achou o Thesouro: (V. _Coll. de

Contas da Junta_; Ribeiro, _Critica_ e Bulhões, _Div. port._)

_Divida reconhecida_

Com juro: Emprestimos liberaes dos Açores,

do Porto e de Lisboa contos 2:520

Titulos de divida antiga » 12:375 14:895

------

Sem juro: Papel-moeda, por amortisar » 3:500

Divida fluctuante (atrazados) » 5:689

Juros por pagar » 897 10:086

------ ------

Somma contos 24:981

======

_Divida não reconhecida_

Legitima: Padrões de juros reaes contos 4:800

Outros emprestimos anteriores » 1:670

Atrazados de 23-4 » 10:543

Indemnisações approvadas, por

pagar; e diversos » 11:000 28:013

Illegitima: Emprestimos de D. Miguel em

28-30 4:443

------

Somma contos 32:456

------

Total » 57:437

======

O Thesouro, pois, devia em 1828 contos 39:100

e confessava dever em 1835:

por titulos passados a extrangeiros 29:400 »

» » nacionaes 25:000 » 54:400

------ ------

Excesso » 15:300

Deixando de reconhecer creditos legitimos por » 28:000

------

Excesso » 43:300

======

A esta somma devem juntar-se ainda os titulos naturalmente amortisados

pela abolição das corporações possuidoras d’elles. Quanto a encargos,

porém, a situação do Thesouro é diversa: pois a divida com juro era,

em 1828, de 20 mil contos e agora é de 44:300. Apesar da somma de bens

confiscados, o encargo do orçamento duplíca, embora se não paguem os

juros dos padrões, ainda representantes de um capital de cinco mil

contos.

* * * * *

É impossivel dizer que sommas a crise custou á nação, porque se não

medem por numeros as perdas de riqueza e trabalho por todo o paiz,

e menos ainda a perda de gente e de forca, consumidas pela guerra e

pela intriga. Menos se póde contar ainda o valor perdido das energias

gastas em sustos e afflicções!

Póde talvez, porém, calcular-se o que financeiramente se perdeu,

reunindo numeros conhecidos:

_Por parte dos Liberaes_

Valor da divida que contrahiram no reino e fóra 27:522

Id. dos subsidios do Brazil, recebidos 2:943

Id. dos atrazados por pagar em 34 4:000

Valor das indemnisações a solver 7:000

Id. das dividas legitimas não reconhecidas 17:013

Id. do terço do papel-moeda, na conversão 2:500

Id. dos confiscos de propriedade inimiga ?

_Por parte dos Miguelistas_

Valor da divida que contrahiram 4:443

Id. dos vencimentos e juros não pagos durante o seu

governo 8:083

Id. dos _dons_ voluntarios e confiscos ?

Setenta, oitenta, cem mil contos, custou decerto á economia da nação

a guerra que terminára sem conseguir acabar ainda com a crise, porque

á lucta entre o velho e o novo Portugal iam succeder as luctas dos

partidos liberaes. Secco, devastado estava o reino com os vomitos da

cholera, as agonias da fome gemendo por todo elle: e da mesma fórma o

Thesouro, imagem viva do paiz, nú e vasio, gemia tambem com a lepra

da corrupção, da agiotagem, do puro roubo. O anno de 33-4 dera apenas

tres mil contos para uma despeza de treze mil;[5] e o orçamento de

35-6 apresentava um deficit de mais de quatro mil,[6] com receitas

exageradas.

Começaram a pronunciar-se vivamente os clamores contra a sociedade

Mendizabal-Carvalho e suas combinações em que tantos lucravam agios,

commissões, premios, bonus. Mendizabal furava pelo meio das bolsas de

Paris e Londres, dando luvas aos Rothschilds, aos Ricardos, aos Foulds,

aos Oppenheims, para pôrem o seu nome nos annuncios das emissões

portuguezas. (_A dynastia e a revol. de set._ anon.) Carvalho furava

pelo meio da selva das intrigas, como uma estrella caudata de ouro,

fechando os olhos: era dinheiro inglez! O seu processo evitava que a

causa se despopularisasse exigindo impostos, contentava o povo, pagava

tudo em dia, e dava ainda para vencer resistencias que as alfaias

dos conventos e os bens nacionaes não satisfaziam. Era uma chuva de

libras esterlinas: quem viesse depois, que se arranjasse! Não se podia

opprimir o povo, nem ser muito exigente com um funccionalismo inventado

assim, do pé para a mão, para pagar os serviços á causa. A decima

rendia apenas oitocentos contos; e até 1840 nem um dos recebedores

geraes nomeados em 34 tinha prestado contas: uns fugiam, outros

escondiam-se; e depois, ainda em vão o _Diario_, em 39, publicava a

lista dos remissos.

O ministro, indifferente, compassivo, passa-culpas, deixava ir,

considerando que o periodo era transitorio. Afinal, chegára o momento

da desforra: não tinham sido muitos os annos de amargura? Mas as

pretenções da opposição, exigindo limpeza de mãos ao governo, e

ameaçando com essa necessaria banca-rota onde acabam as viagens de

todos os Laws, veio transtornar a placidez dos dias felizes. Carvalho

caiu (27 de maio de 35) e no seu logar entrou o sincero Campos, mais

escrupuloso, menos atilado. Impellido para além do que a prudencia

mandava, o ministro expôz, em lagrimas, o triste sudario do Thesouro.

Chorar é bom; desacreditar o adversario póde não ser mau; mas que

remedio? Diz o povo que tristezas não pagam dividas. Campos tinha só

lagrimas e invectivas: caiu logo. (15 de julho) O Banco e a agiotagem

em peso exigiam a entrada de Rodrigo e de Silva Carvalho. Saldanha,

na presidencia, que havia de fazer? Deitou ao mar o lastro radical

do gabinete, admittiu os homens habeis em finanças. Estava imminente

a banca-rota: não havia um real, e os da opposição não mereciam

conceito aos argentarios. (Carnota, _Memor. of Sald._) O marechal,

entre os dois partidos, com a sua vaidade ingenua, já se acreditava um

arbitro--quasi um rei. Não o tinham convidado para monarcha no Rio

Grande? Não escrevia elle mais tarde, já depois de ter sido apenas o

méro instrumento cabralista, «estou persuadido que seria um bom chefe

n’um Estado qualquer»? (V. carta de 69, em Carnota, _ibid._) Deitou

fóra Loulé e Campos; metteu Rodrigo e Silva Carvalho.

Via-se que o Law portuguez, liberal em todos os sentidos e para com

todos, era indispensavel. Endividamo-nos: que tem isso? O futuro a Deus

pertence--dizem o turco e o portuguez. Nação de morgados hypothecados,

Portugal sentia-se bem empenhando o futuro. As dividas cresciam;

pagavam-se os juros com dividas novas; e assim se iam pedindo,

consolidando e pagando.--Não é o que ainda hoje[7] succede?--Só a

opposição clamava, e como a intriga era muita, apezar do fiasco do

verão, Campos voltou ao governo no inverno. (18 de novembro)

Desorientaram-se as cousas e o rival expulso esfregava as mãos

satisfeito: bem o dizia! Utopistas os que pretendiam viver dos recursos

d’uma casa arruinada! Pois não era evidentemente melhor aproveitar do

inglez que nos dava o que lhe pediamos? Era dinheiro que vinha para

cá. Tinhamol-o? Não. Custava muito caro? Deixal-o custar. Quando não

houvesse nada para os juros, não se pagavam: eis ahi está! Quem perdia?

O paiz? não; o inglez. Carvalho, que assim pensava, não deixava de ter

rasão; mas a hypocrisia politica impedia-lhe que o dissesse. D’ahi

provinha o ser batido pelas sonoras palavras dos adversarios.

Como os factos, porém, o vingaram! A desordem continuava a ser a mesma,

aggravada com a suspensão dos pagamentos. Os mercenarios clamavam

pelos soldos, suspirando por voltar para casa. Já conformados com a

falta das terras promettidas, pediam apenas um dinheiro que não havia.

Davam-se-lhes letras sobre Inglaterra, e empregados do thesouro, que já

tinham aprendido muito, iam a bordo descontar-lh’as a dez por cento e

mais. (Shaw, _Letters_) Tudo jogava: a vida era uma sorte. Farrobo fôra

cudilhado pela lei do papel-moeda. Faziam-se e desfaziam-se as riquezas

como nuvens passageiras. Bens de sacristão, cantando vêm, cantando vão!

O rigido Campos não era homem para tal gente, nem para tal epocha.

Levantava-se contra elle um clamor unanime dos prestamistas sem juros,

dos empregados sem vencimentos, dos soldados sem pret.--«Em que se

parece o sr. Campos com um cometa? Em ser barbato e caudato. E em que

mais? Nos resultados influentes. O do outro dia deixou-nos o frio, e

este a fome». (Bandeira, _Artilheiro_, n.º 19) Maldito governo que não

paga! «Isso é falta de paciencia ... O sr. Campos, quando entrou para o

thesouro, que achou lá? Pulgas!» (_Ibid._) Mas d’esses bichos, Carvalho

fazia libras, e por isso o foram chamar outra vez. (20 de abril de 36)

Era unico na sua especie.

* * * * *

Comtudo os tempos iam durando, e nada ha peior do que o tempo

para todos os Laws. Se as cousas não andassem! Andavam, porém, e

rapidamente: com aquella velocidade progressiva da machina capitalista,

prolifica por meio dos juros, amortisações, capitalisações. Dois annos

tinham bastado para progredir d’este modo: (V. _Coll. de Contas_, 10

de setembro de 36)

1834 1836

------ ------

Divida externa capital 29:400 40:398

» interna » 14:895 20:748

------ ------

Somma 44:295 61:146

| |

+-------+------+

|

Accrescimos--capital 16:851

juros 313

Divida sem juro: | |

+-------+------+

| |

Papel moeda 3:500 3:115

Diversos 6:586 6:852

| |

+-------+------+

|

Encargos totaes da divida: juros 2:334

amort. 627

Divida mansa

(Padrões, atrazados, etc.) 17:013

E n’esses dois annos decorridos, estava consumido, além do mais, o

melhor dos bens nacionaes. Ardia tudo n’um fervor de appetite que já

para muitos começava a infundir receios de uma indigestão tremenda.

Dois annos de paz tinham custado quasi tanto como seis annos de guerra:

muito mais, se se contar o que o Thesouro não pagou. A guerra fôra

cara, mas a victoria era ruinosa. No meiado do verão (14 de julho de

36) pegou fogo no thesouro. Já tudo ardia, lá dentro d’esse palacio

onde á inquisição religiosa succedera a inquisição agiota, com as

suas tenazes de papel timbrado, os seus troncos de juros, retornos,

commissões, premios; com a sua algaravia bancaria, herdeira do

historico latim das sentenças singulares ... Qual dos desvarios dos

homens valerá mais?

Ardeu em verdadeiro lume o Thesouro em julho; mas já vinha ardendo

havia muito em lepra que o roía de torpezas, e n’um vasio que o

amargurava de contracções, como as dos estomagos famintos. O povo

dizia que o fogo fôra posto, para saldar muitas contas; mas o ministro,

Pombal da moderna finança, Law portuguez, iniciador da nação nova

nos segredos do capitalismo; o ministro, como o velho marquez no seu

terramoto, mandou pagar o semestre no dia seguinte. Ardia o Thesouro?

Agua ao fogo, e paguem!--traducção do «enterrar dos mortos e curar

dos vivos». Ardia o Thesouro! Boas, francas labaredas, impellidas por

uma ventania fresca, subiam crepitantes, levantando no ar os farrapos

da papelada. Durou doze horas o incendio, do meio-dia á meia noite.

Muitas horas mais, muitos dias, bastantes annos, ia durar outro

incendio, acceso pelas ambições mal soffridas, pelas illusões crentes,

pelo protesto contra o systema da veniaga e da delapidação, contra o

regabofe que a uns enchia de coleras e a muitos mais de invejas. Tambem

tinham soffrido: tambem queriam gozar!

Em julho ardeu o Thesouro; em setembro rebentou a revolução.

4.--A FAMILIA DOS POLITICOS

Mas antes de setembro e da nova face que as cousas tomam n’essa data,

falta-nos ainda estudar mais de um dos lados da nação, no seu primeiro

periodo liberal ...

Além das causas anteriores conhecidas, a propria victoria do novo

regime concorria mais ainda para que Portugal fosse uma nação de

empregados publicos. A suppressão dos conventos, o resfriamento

dos sentimentos religiosos, diminuiam a offerta e tambem a procura

de lugares na Egreja. As causas economicas anteriores já tinham,

póde dizer-se, supprimido a navegação; as tentativas industriaes

manufactureiras do marquez de Pombal não tinham vingado; e a recente

crise de oito annos, rematada por um terramoto das velhas instituições

sociaes, viera talar os campos, arruinar a agricultura. Portugal

achava-se, pois, forçado a substituir por um communismo burocratico

o extincto communismo monastico. Durante a guerra, a nação fôra um

exercito; agora, licenceadas as tropas e supprimidos os soldos, de que

viveriam os soldados? É verdade que o governo podia ter feito como se

fazia outr’ora em Roma; mas a distribuição das terras conquistadas não

podia ter lugar, porque os capitães queriam-n’as para si, por grosso.

Força era portanto optar por outra saída: e qual, senão os empregos

publicos?

Por sobre esta necessidade social appareciam as necessidades politicas.

Em que peze ás seccas affirmações doutrinarias e ás chimeras dos

philosophos, todas as nações consistem realmente na aggregação de

clientelas para as quaes um chefe é ao mesmo tempo um instrumento, um

representante e um defensor. Essa primeira fórma da sociedade romana

exprimia uma verdade natural que os systemas encobrem mal.[8] Quando,

mais tarde, se imagina subordinar a doutrinas abstractas a existencia

dos povos, observa-se que os factos naturaes espontaneos, reagindo,

tiram a realidade ás formulas. Assim, nas velhas monarchias havia

chefes e partidos, cujo poder era maior do que o do rei; assim, nos

governos formalistas liberaes, o poder pessoal dos chefes politicos,

apoiado sobre instrumentos como as eleições, a imprensa, etc., é a

força positiva que impera sophismando uma constituição, a qual os

chefes confessam e dizem respeitar por um sentimento de conveniencia e

de pudor publico, mais ou menos consciente.

Quando a machina social se desorganisa, apparecendo o que se chama

revolução ou crise, vêem-se mais ao vivo como as cousas são na

realidade. Era isto o que succedia entre nós, nos tempos que agora

atravessamos. Constituiam-se as clientelas; e como a sociedade era

ainda quasi um acampamento assente sobre um territorio desolado;

como não havia outros meios de vida patentes a numerosas classes

desorganisadas, essas clientelas eram o que podiam ser: burocraticas e

militares.

«Para um homem ser ministro de Estado basta que um batalhão, de

mãos dadas com um periodico, o queiram». (Bandeira, _Artilheiro_,

n.º 25) Sociedades como a portugueza, lançadas de chofre n’uma vida

nova, sem precedentes nem raizes na historia immediata; povos de um

temperamento violento ou ardente, sem instrucção nem riqueza: estão

condemnados a um revolvêr desordenado, em que idéas, ou falsas ou

mal concebidas, se combinam com os instinctos intimos que a anarchia

traz á flôr da realidade. Entre os debates de doutrinas extravagantes

e as luctas dos bandos armados, vae pouco a pouco effectuando-se,

de um modo naturalistamente espontaneo, a reconstituição do corpo

social desorganisado. É como quando o furacão levanta e ennovela o pó

das estradas que se agita, mistura-se, e gradualmente vae outra vez

assentando.

Nada nos deve pois admirar o que succedeu em Portugal: outrotanto

succede ainda hoje á Grecia e aos paizes do Oriente slavo; e o mesmo

que nos aconteceu a nós, foi o que se deu na Italia e na visinha

Hespanha. Os homens da Europa central, francezes, inglezes, allemães,

belgas, filhos de sociedades differentes, não podiam comprehender, nem

o nosso bandidismo, nem o systema das nossas clientelas ou partidos,

nem o nosso communismo burocratico, nem a nossa furia politica, paixão

dominante que a occasião, o interesse, e a doutrina da anarchia

individualista concorriam para fomentar. D’esta incomprehensão do

caracter da sociedade pelos extrangeiros que mandavam n’um paço

occupado por uma rainha quasi extrangeira, veiu a principal causa das

reacções e revoluções que alagaram o paiz em sangue, consummando a

obra de uma ruina já avançada. Dir-se-ha porém que, se tal motivo não

surgisse, a vida portugueza de 34 a 51 teria sido uma paz? Não, nunca.

Haveria apenas um elemento menos de guerra. Os diversos bandos, com

seus chefes e clientes, seus principios e interesses, seus programmas e

guerrilhas, teriam combatido da mesma fórma entre si, até que o cansaço

universal impuzesse uma paz que nenhuma clientela podia impôr com a

victoria, por falta de força bastante para a ganhar.

* * * * *

Portugal contemporaneo, Vol. 2 (of 2) · 第 1 / 30 段